terça-feira, 14 de maio de 2013

Esplanada na Avenida Rio Branco? Não!

Avenida Central no início do século XX


A Rio Branco já nasceu como avenida, aliás a avenida mais importante do país naquele tempo, a Avenida Central. O projeto que a Prefeitura do Rio de Janeiro vem anunciando secciona esta via, criando uma esplanada, uma tipologia estranha à de avenida. Se for o caso de reduzir o trânsito no trecho final da Rio Branco e arborizá-la, que se retorne ao projeto original, onde havia um canteiro central arborizado. Falando em arborização, as palmeiras do projeto também são estranhas àquele local. É tudo muito precário e desinformado! E jogar o BRT na 1º de Março é um crime contra aquela via cheia de prédios históricos.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

O QG da PM-RJ na Rua Evaristo da Veiga ameaçado de demolição

QG da PM-RJ - foto Gabriel de Paiva - O Globo 

O atual Quartel General da Polícia Militar ocupa a quase totalidade do quarteirão da Rua Evaristo da Veiga entre a Avenida República do Paraguai e a Rua Senador Dantas. É uma edificação de três pavimentos com corpo central, onde se situa a entrada que dá acesso ao pátio interno, ligeiramente mais alto e saliente. Sua implantação contorna quase integralmente aquele pátio interno, interrompendo-se apenas junto à Capela da Arquiepiscopal Irmandade Imperial de Nossa Senhora das Dores.

As inúmeras janelas marcam o rigor da composição de influência neoclássica. As do pavimento térreo são emolduradas por cercaduras de pedra e têm vergas de arco pleno. As do segundo pavimento seguem o alinhamento das primeiras e têm vergas retas. Já as janelas do terceiro pavimento se encontram com alinhamentos variados, denotando a provável existência de acréscimo.

Originalmente as coberturas de cada um dos diversos tramos da edificação era em quatro águas com telhas cerâmicas do tipo francesas. Atualmente alguns desses tramos apresentam coberturas em fibro-cimento.

No pátio central do quartel, em situação elevada, se encontra a Capela da Irmandade Imperial de Nossa Senhora das Dores, uma pequena igreja neo-gótica.

A primeira ocupação do terreno foi o Hospício projetado em 1732 pelo engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim, edificação que serviu aos frades franciscanos italianos "babônicos", que ficaram conhecidos como os Barbonos. A edificação atual sucedeu àquela original e lá se encontra desde o século XIX.



QG da PM-RJ - foto Gabriel de Paiva - O Globo

Capela da Irmandade Imperial de N. Sra. das Dores - foto Roberto Anderson


Capela da Irmandade Imperial de N. Sra. das Dores - foto Roberto Anderson


Antecedentes Históricos

Em 10 de maio de 1808 um alvará criou o cargo de Intendente de Polícia, cargo ocupado por Paulo Fernandes Viana. Em 13 de maio de 1809 foi criada a divisão militar da Guarda Real da Polícia. Esta guarda, porém, foi dissolvida em 1831. Meses depois foi criado o Corpo de Municipais Permanentes, encarregado do policiamento da cidade. Este corpo policial teve como major, Luis Alves de Lima, futuro Duque de Caxias. O Corpo de Municipais Permanentes foi para o Quartel de Granadeiros, construído no terreno onde existira o Hospício dos Capuchinhos. 


Esse sítio já fizera história ao tempo dos Capuchinhos quando, por volta de 1760, foram plantadas as primeiras mudas de café trazidas pelo Desembargador João Alberto Castelo Branco. Dali a cultura do café se irradiou pelo território do Rio de Janeiro, dando início a um novo ciclo econômico. A presença dos Barbonos na área é lembrada de diversas maneiras. A atual Rua Evaristo da Veiga, por exemplo, foi a Rua dos Barbonos até 1870.


Em 1808 o antigo Hospício foi ocupado pelos frades carmelitas, que haviam cedido seu convento na atual Rua Primeiro de Março a Dona Maria I. Em 1831 os carmelitas cederam o Hospício ao Corpo de Municipais Permanentes.


Em 1858, um decreto deu a essa força policial o nome de Corpo Policial da Corte. Com a eclosão da Guerra do Paraguai, os policiais participaram da luta como Batalhão 31 de Voluntários da Pátria. Em 12 de novembro de 1889, com a presença do Imperador D. Pedro II, em sua última solenidade pública como imperador do Brasil, foi lançada a pedra fundamental do Quartel do Corpo Militar da Polícia. A planta do edifício foi elaborada pelo General Capitulino Peregrino Pereira da Cunha. Mesmo após a edificação do atual quartel, persistiu por algum tempo, no interior do pátio, o antigo convento dos frades, usado como dormitório dos policiais.

Ao tempo dos capuchinhos  a pequena igreja no interior do quartel se chamava Igreja de Nossa Senhora da Soledade. Em 1861 ela foi reformada e consagrada a Nossa Senhora das Dores.



Imagem da Lapa tendo ao fundo o QG-PM


Formação de soldados no pátio do QG-PM


QG PM-RJ sem o acréscimo no 2º pavimento


A implosão pretendida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro

O Governo do Estado do Rio de Janeiro, que deve zelar pelo Patrimônio Cultural do Estado, decidiu demolir o Quartel General da Polícia Militar, situado na Rua Evaristo da Veiga. As razões alegadas são a pretensa inadequação deste tipo de edificação às funções atuais da PM, que prescindiria de espaços para aquartelamento. Mas as ações do Governo indicam um interesse em obter recursos com a venda de ativos do Poder Público. A forte valorização dos terrenos nas proximidades da Cinelândia certamente levaria o Estado do Rio de Janeiro a auferir grandes lucros com a venda do imóvel. No entanto, sua implosão, como programada, causaria uma perda irreparável ao Patrimônio Cultural do Rio.

Se fosse correta a alegação de inadequação da edificação às atuais funções da PM, bastaria dar um novo destino ao prédio, valorizando toda a área no entorno. Mas é preciso lembrar que durante vários séculos o aquartelamento foi uma necessidade da função policial. Futuramente, a forma de organização da polícia poderá mudar novamente e se isto vier a ocorrer, já não existirá o seu quartel histórico.


QG PM-RJ tendo ao fundo os Arcos da Lapa - foto Evaristo da Veiga - O Globo


Prejuízos Urbanísticos com a demolição do Quartel General da PM

O Quartel General da PM-RJ está situado no limite do Corredor Cultural. Como jamais se cogitou que pudesse ser demolido, não foi incluído no perímetro dessa área de proteção. Mas mesmo assim ele é um elemento importante para essa área, já que compõe a ambiência da Rua Evaristo da Veiga, onde há imóveis preservados.


Por ser uma área livre de arranha-céus em pleno Centro do Rio, o quartel provê também espaço de visualização do céu e de circulação de ar, trazendo benefícios ambientais nada desprezíveis.


O terreno do Quartel General da Polícia Militar é vizinho ao largo onde se encontram os Arcos da Lapa. Há uma enorme co-visibilidade entre estes dois pontos. Qualquer nova edificação em altura que porventura venha a substituir o quartel impactará negativamente a ambiência dos Arcos da Lapa. 

A preservação do QG da PM-RJ abriria a possibilidade de conjugação de seu atual uso militar com uma série de outros usos de interesse dos cidadãos do Rio de Janeiro, como espaço para manifestações culturais, espaço para atividades recreativas, etc.


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012 - foto Carlos Ivan - O Globo


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A História em minha rua

Na madrugada do dia 15 de novembro de 1976, ao chegar em casa na Rua Abade Ramos, no Jardim Botânico, reparei que havia dezenas de papéis jogados pelo chão. Por curiosidade, recolhi um deles. Era o manifesto deixado pela Aliança Anticomunista Brasileira após ter produzido um atentado a bomba no Jornal Opinião, vizinho ao prédio onde eu morava. Era um tempo difícil, em que jornais e opositores eram calados não só pela censura, mas também com a violência dos atentados. E a alegria de ser jovem, voltando de um encontro amoroso, parecia uma contradição.   


Manifesto da AAC em atentado a bomba contra o Jornal Opinião


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Uniformes do COI ou cultura viva?

Pequeno índio na Aldeia Maracanã- Rio

O governador Cabral é um especialista em intrigar setores da sociedade uns contra os outros. Antes afirmava que o antigo Museu do Índio, ao lado do Maracanã, não tinha qualquer valor e botou a polícia na porta para invadir e derrubar. Agora que voltou atras na questão da demolição, quer desconsiderar os índios que salvaram o prédio, que alertaram a sociedade sobre o valor do imóvel e fazer de lá um museu com tochas e uniformes olímpicos. Quão atraente! É claro que muita gente boa, por não entender a questão ou por preconceito irá achar esta uma melhor solução. Mas não é. A Aldeia Maracanã se firmou, tem uma intensa programação cultural, e é mil vezes mais interessante que as tochas do COI.

 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bronzes na paisagem carioca

Escultura de Caymmi em Copacabana

O século XX foi pródigo em artistas e personalidades que marcaram a cultura brasileira. Muitos desses personagens viveram ou ainda vivem no Rio de Janeiro. Após as mortes de alguns deles, a cidade começou a ganhar esculturas naturalistas que os homenageiam. Já há monumentos para Pixinguinha, Braguinha, Carlos Drumond de Andrade, Zózimo, Dorival Caymmi, Otto Lara Resende, e outros mais. Em geral, são obras pouco interessantes do ponto de vista artístico (no caso do Drumond pelo menos há a graça de se tirar fotos ao seu lado, sem falar na novela dos óculos roubados). E não são modestas como os bustos de antigamente. Nossa cultura é pródiga em talentos e ainda temos muito homenageáveis, como Chico, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, etc., etc. Assim, é bom pensarmos se no futuro queremos que nossa cidade venha a ser pontuada de homens de bronze ou se há melhores formas de homenageá-los. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Antigo Museu do Índio sem seus índios é como Fundição Progresso sem Perfeito Fortuna

Pequenas índias no antigo Museu do Índio - foto Roberto Anderson

Pela exclusividade de notícias sobre o poder público e pelo constante apoio a lançamentos de projetos e factoides dos governos, a coluna do Ancelmo Gois, no jornal O Globo, se tornou uma filial dos Diários Oficiais do Município e do Estado. Nessa coluna foi possível acompanhar as idas e vindas desses governos na sua conturbada relação com o prédio do antigo Museu do Índio no Maracanã. Inicialmente o governador o demoliria, alegando seguir orientações da Fifa. Isto, se viu depois, era falso. Em seguida o governador afirmou, com todo o seu conhecimento sobre a história urbana da cidade, que o prédio não tinha qualquer valor. O prefeito foi atrás e, passando por cima de seu Conselho de Patrimônio, autorizou a demolição. O governador licitou a empresa que faria a implosão e colocou sua tropa de choque para expulsar os índios que lá haviam constituído a Aldeia Maracanã.

No entanto, a reação da sociedade foi fortíssima e crescente. Não só os jovens que acorreram na primeira hora, mas também artistas e políticos passaram a apoiar a permanência da edificação e do projeto de um centro de referência da cultura indígena. Abaixo-assinados agitaram as redes sociais e o assunto esteve em pauta durante todos esses dias. Por fim, a Ministra da Cultura fez ver ao Governo do Estado que não haveria apoio federal para a demolição. Na Coluna do Ancelmo o governador Cabral, que sabe quando está isolado, anuncia agora que o antigo Museu do Índio não será mais demolido, e que ele e o prefeito irão restaurá-lo "após a saída dos invasores". Curiosamente esta notícia vem logo depois da confirmação do empresário Eike Batista a um jornal paulista do seu interesse em receber o complexo do Maracanã e ali construir estacionamentos e um shopping.

Ora, se toda essa lindíssima luta pela preservação surgiu exatamente da insistência dos índios de diversas etnias em lutar contra o desaparecimento de uma edificação que representava algo importante para sua memória coletiva, como é possível separar a preservação do prédio de uma finalidade ligada à questão indígena? A edificação que para o governador não tinha qualquer valor, e que para muitos apressados estava em ruínas, agora teria outro valor esvaziado de seu conteúdo imaterial? Ou o senhor Eike teria conseguido comprovar ter sangue indígena?

Há aí uma esperteza do governo, já que muitas pessoas que são contra a demolição do prédio não têm uma opinião favorável à presença dos índios naquele local. Mas imaginar o antigo Museu do Índio apartado da questão indígena é como imaginar a Fundição Progresso sem Perfeito Fortuna.(1) É jogar ao mar quem verdadeiramente lutou por sua preservação. É perder uma excelente oportunidade oferecida à cidade pelos que ocuparam o prédio de termos um local de troca cultural entre diferentes povos. Aliás, todas as atividades que já se desenvolvem no antigo Museu do Índio como parte da resistência à sua demolição, e o apoio e participação de pessoas de várias origens é o fato cultural mais interessante que se pode observar na cidade nos últimos tempos. Pena que o Ancelmo não vá lá para conferir.    

(1) No governo Chagas Freitas, Perfeito Fortuna e outros artistas subiram na fachada da Fundição Progresso, na Lapa, cuja demolição já havia começado. Só saíram de lá após receberem garantias de que o prédio seria preservado. Depois criaram um dos centros culturais de maior êxito na cidade.     

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Um centro de cultura indígena no Maracanã?

Antigo Museu do Índio

Aldeia Maracanã

Portal do antigo Museu do Índio - foto Roberto Anderson


A edificação como Patrimônio Cultural
O prédio que abrigou o antigo Museu do Índio, no Maracanã, ainda não tem uma data de edificação claramente definida, podendo ser do final do século XIX ou início do século XX. Aparentemente sua destinação inicial foi um órgão ligado a pesquisas agrícolas. Ele foi erguido em terras doadas pelo Duque de Saxe, marido de D. Leopoldina, filha de D. Pedro II. A partir de 1953 ali existiu o Museu do Índio, transferido em 1977 para Botafogo.
 
Atualmente o prédio e seu terreno se encontram ocupados por diversos índios de várias etnias, que construíram pequenas casas conformando a Aldeia Maracanã. Eles pretendem criar um Centro de Cultura Indígena. No entanto, o Governo do Estado do Rio de Janeiro realizou a compra do imóvel com a intenção de demoli-lo. Segundo o governador seria para dar condições de evasão e circulação ao público do Estádio do Maracanã, atendendo pedido da FIFA, o que aquela entidade nega.
  
Para se avaliar a importância da edificação para a cidade do Rio de Janeiro e para o Patrimônio Cultural, e o absurdo que seria a sua demolição, é necessário que se faça quatro perguntas. Inicialmente, se o antigo Museu do Índio tem relevância na paisagem. E a resposta é sim. O seu entorno foi enormemente modificado desde que o mesmo foi edificado na primeira década do século XX. O Derby Club que ali existiu deu lugar ao Maracanã, a Avenida Radial Oeste rasgou o tecido urbano ao lado e diversas edificações foram substituídas. Mas a edificação antiga permaneceu, no mesmo lugar, marcando a paisagem com sua torre de pedra e as águias nos cantos da sua cobertura. Não há quem não passe pelo bairro do Maracanã e não perceba a sua imponente presença.
 
A outra pergunta a se fazer é se o prédio tem relevância histórica. E novamente a resposta é sim. Ali ocorreram importantes pesquisas agrícolas. Ali o Marechal Rondon recebia índios que, então, vinham de áreas quase inacessíveis do nosso país. Ali Darci Ribeiro trabalhou pela causa indígena e ali existiu um museu exemplar, que influenciou a criação de diversos outros museus etnográficos pelo mundo e foi premiado pela Unesco.
 
Uma terceira pergunta, se o imóvel tem relevância arquitetônica e se é recuperável, também tem resposta positiva. O imóvel, uma edificação eclética com características de prédio do serviço público do início do século XX tem paredes sólidas e espaços generosos, com dimensões difíceis de serem encontrados em construções do mesmo período. O piso do primeiro pavimento é estruturado por vigas metálicas, as quais se mostram preservadas. Sua entrada é marcada por um torreão e no hall uma escada em estrutura metálica dá acesso ao segundo pavimento. Uma torre maior, revestida de pedras, marca o encontro de duas outras fachadas. A cobertura encontra-se danificada por falta de cuidados, assim como forros, escadas e esquadrias. Mas tudo isto é plenamente recuperável, já que as peças ainda existentes podem servir de exemplo para a recomposição.
 
Por fim, cabe perguntar se o imóvel tem relevância para algum grupo social. E a evidência desta resposta é o enorme esforço que tem sido feito por índios e brancos que se envolveram com o problema para reverter a decisão do governador e impedir a demolição desse belo prédio.
 
Uma prova da relevância do imóvel para o Patrimônio Cultural do Rio foi a solicitação de tombamento pelo Estado do Rio de Janeiro feita por técnicos do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac em 1997. O poeta Eucanaã Ferraz, que dirigia o setor de pesquisas daquele órgão escreveu:

"(...) Cabe notar, inicialmente, que a construção é um típico remanescente de um sítio que, com os anos, sofreu uma violenta desagregação. Estamos, desse modo, diante um testemunho eloquente de uma qualidade urbana que se perdeu quase totalmente.
O prédio também chama atenção por constituir-se como exemplar de arquitetura eclética do início deste século, destacando-se, pelas intervenções e soluções formais, das obras anônimas e convencionais de então.
(...) Acreditamos que o tombamento Estadual do prédio do antigo Museu do Índio, abandonado há vários anos e em precário estado de conservação, será importante não apenas para sua preservação, mas poderá ajudar no trabalho de revitalização da própria área em que se insere."


Índios urbanos
Para entender a razão e a validade do projeto proposto pelos índios, é interessante ver a resposta do antropólogo Mércio Gomes, que já dirigiu a Funai, a uma pergunta de jornalistas presentes a uma coletiva de imprensa no antigo Museu do Índio. Ele comentou a reserva que ele e outros antropólogos tinham em compreender a existência de índios vivendo em cidades, já que a antropologia tradicional vê o índio em sua comunidade original, no meio rural ou florestado, e acredita que ali ele deva permanecer. No entanto, o antropólogo afirmou que os índios ao invés de terem desaparecido como grupos étnicos autônomos, passaram a crescer em termos populacionais, reforçando os laços culturais que os unem. E eles vêm, individualmente ou em grupos, buscando obter maior conhecimento e melhores condições materiais de vida, aproximando-se das cidades. Há índios em universidades e em cursos técnicos, ou apenas trabalhando em profissões diversas nas cidades. Isto sem perder sua identidade indígena e o contato com seu grupo de origem.
 
Assim, a constituição desse grupamento de índios de várias tribos brasileiras, de várias partes do país, que passou a se denominar Aldeia Maracanã, seria plenamente justificável como um ponto de referência para índios que se encontram na cidade do Rio de Janeiro. A sua presença entre nós permitiria uma troca cultural que só teria a enriquecer os cariocas. E o seu estabelecimento nesse local se daria por sua imensa ligação com o lugar onde um dia existiu um centro de estudos de sua cultura e onde antes seus antepassados se hospedavam quando aqui vinham para se tratar de saúde ou para discutir com autoridades.

 
A saída dos torcedores nas imediações da edificação
Por não considerar a relevância histórica e cultural do antigo Museu do Índio, os responsáveis pela reforma do Maracanã elaboraram seus estudos e mesmo executaram uma nova rampa do estádio com a premissa de que a edificação poderia ser demolida sem prejuízos à história e à cultura do Rio de Janeiro. Além disso, consideraram que a dispersão do fluxo de pessoas saindo do estádio somente poderia ocorrer com a demolição da edificação do antigo museu. Nada mais falso.
 
O Estádio Mário Filho ficou conhecido, entre outras razões, por sua capacidade recorde de público no Brasil. Ali já couberam quase 200 mil pessoas (199.854 pessoas na final entre Brasil e Uruguai na final da Copa de 1950). Com novas intervenções visando o conforto dos usuários, como a supressão da geral, sua capacidade caiu para 86 mil pessoas. As obras ora em curso, de adaptação do estádio para a Copa de 2014, reduzirão ainda mais esta capacidade, que passará para 76 mil lugares.
 
O cálculo da dispersão de público deve considerar situações extremas, em que todos os espectadores do estádio tenham que sair de uma única vez. Anteriormente o Maracanã contava com duas saídas em forma de rampas, localizadas em pontos opostos do estádio. As novas intervenções criaram mais duas saídas, de forma que o público poderá se dividir por quatro saídas. Um cálculo aproximado das possibilidades de acomodação dessa parcela do público nas ruas do entorno da rampa mais próxima ao antigo museu revela que há sim espaço suficiente. Isto porque, como a rampa tem outra metade voltada para a Avenida Radial Oeste, apenas a metade dos que vierem a descer por essa rampa, supostamente optarão por se dirigir para a Rua Mata Machado, rua existente entre o estádio e o antigo Museu do Índio.
 
Reservando-se um espaço de 0,70 x 1,00m para cada pessoa (largura mais que suficiente, considerando-se que a largura média de uma porta é de 0,70m), seriam necessários 6.650m² para acomodá-las. Este cálculo deixa de prever a hipótese em que as pessoas continuassem a se dispersar pelas ruas vizinhas, que seria uma situação mais próxima da realidade e que acrescentaria mais espaços disponíveis. Como a Rua Mata Machado possui aproximadamente 6.984m² no trecho ao lado do estádio, conclui-se que há espaço de sobra.
 
Além disso, a rampa de descida em direção à Rua Mata Machado tem uma largura entre 9 e 10m, bem inferior à largura da caixa da rua (rua e calçadas), de 24m. Isto significa que o fluxo de pessoas vindas dessa rampa tem uma vazão bem inferior á capacidade da caixa da Rua Mata Machado, permitindo que as pessoas que ali cheguem caminhem mais livremente, ganhando distância da rampa e liberando espaço para o fluxo contínuo que chegue à sua base. Assim, a Rua Mata Machado teria espaço mais do que suficiente para receber todo o público do estádio que a ela se dirigisse. Como este público estaria em movimento, ele não ficaria contido naquela rua, expandindo-se para áreas vizinhas, aumentando em muito a capacidade de dispersão e ampliando a área disponível para cada pessoa. Estes cálculos são importantes para rebater com o mesmo tipo de argumento utilizado pelo governo estadual a ameaça de demolição do antigo Museu do Índio.

 
Concluindo
É importante observar que a noção de Patrimônio não se restringe aos bens oficialmente tombados. Uma imensa parcela daquilo que merece ser preservado como Patrimônio Cultural pode ainda não ter recebido a chancela oficial do tombamento. Este tombamento pode nem vir a ocorrer, o que não quer dizer que estes bens devam ser demolidos. A presente mobilização para salvar o antigo Museu do Índio está relacionada à violência que representa o seu simples arrasamento. Os atuais governantes parecem querer reviver o "bota-abaixo" que tanto marcou o Rio de Janeiro do início do século XX.
 
Em nome da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 muitos absurdos vêm sendo cometidos em nossa cidade. A demolição da fábrica da Brahma no Catumbi, por exemplo, foi um crime contra o Patrimônio da cidade. As alterações pretendidas na APA de Marapendi para abrigar um hotel e um campo de golfe são igualmente absurdas. A ameaça ao antigo Museu do Índio está acompanhada da ameaça ao Estádio Célio de Barros, ao Parque Aquático Júlio Delamare e à Escola Municipal Friedenreich. A investida contra esse conjunto no entorno do Estádio do Maracanã sugere razões inexplicáveis à luz da razão e da boa governança. Mas ela pode ter acordado um sentimento de participação cidadã em todos que vem se manifestando a favor da preservação da edificação, o que é maravilhoso. Se há índios que ocupam o prédio do antigo Museu do Índio, que o governo federal deixou ao abandono, e se há índios que propõem a sua preservação para lhe dar novos usos, nós, os não índios, devemos agradecer e valorizar tal iniciativa. A aldeia Maracanã, a sua resistência, e as pessoas que passaram a se sentir parte dela, índios ou não, é o fato cultural mais interessante dos últimos tempos. A união de todos os que se sentem indignados contra tais demolições, de todos os que consideram importante a preservação do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro e de todos os que apoiam a causa indígena poderá trazer uma esperança de que desta vez a enorme especulação imobiliária que se estabeleceu em nome dos jogos não prevaleça.
 
Antigo Museu do Índio - fachada Radial Oeste - foto Roberto Anderson

Antigo Museu do Índio - foto Roberto Anderson

Antigo Museu do Índio - escadaria do hall de entrada - foto Roberto Anderson

na coletiva de imprensa - foto Paula Kossatz

Na coletiva de imprensa - foto Katja Schilirò

Aldeia Maracanã - foto Roberto Anderson

 

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Câmara, o Prefeito e as maldades

Aprendizes de feiticeiro ou feiticeiros natos? O prefeito Eduardo Paes mandou para a Câmara de Vereadores projetos de lei que alteram parâmetros construtivos na Barra e prejudicam áreas de preservação, como a APA  Marapendi. Envolvem a construção do Campo de Golfe na reserva, aumento de potenciais construtivos, etc. Os vereadores da sua base aperfeiçoaram as maldades do projeto, dando muito mais vantagens à especulação imobiliária. Agora o Prefeito posa de indignado e os vereadores o desmentem dizendo que as alterações partiram mesmo da Prefeitura. Jorge Pereira (PT do B, o que vem a ser isso?), vereador que promoveu boa parte das emendas ao projeto ameaça desmascarar o Prefeito: "O problema é que o Prefeito não assume situações impopulares. Basta lembrar a taxa de iluminação pública." Quem tem menos razão??!!


sábado, 8 de dezembro de 2012

Caquinhos substituem o anfiteatro da Lapa

Reurbanização da Lapa em 1992
Anfiteatro do Largo da Lapa
Área plana já sem o anfiteatro

Cacos de pedras reaproveitados

Caquinhos de pedras costaneiras 


Em 1992, com projeto do arquiteto Augusto Ivan, a Lapa foi reurbanizada. Uma das intenções do projeto era reordenar a geometria das vias, já que as diversas demolições ali ocorridas tinham resultado em calçadas estreitas, largas vias para automóveis e sentidos conflitantes das mesmas em relação à disposição do casario. Havia, ainda a intenção de dotar o entorno dos Arcos da Lapa de um projeto paisagístico à sua altura.
  
O projeto então realizado criou um anfiteatro no largo diante dos Arcos, em que os degraus eram construídos com lajedos, aquelas enormes placas de pedra que pavimentavam algumas calçadas de antigamente. Nos anos que se seguiram, esse anfiteatro recebeu diversas manifestações artísticas, como peças de teatro, apresentações de grupos circenses, espetáculos de rock e o animado carnaval da Lapa.

No entanto, a atual administração cismou com o anfiteatro, alegando que crianças de rua ali se escondiam após realizarem pequenos furtos. Ao invés de reforçar o policiamento, decidiram por sua demolição. No seu lugar ficou apenas uma área pavimentada, pobre em termos de concepção paisagística. Os lajedos foram dispostos em semicírculo e as pedras costaneiras, algumas já muito danificadas foram reaproveitadas. Não houve sequer o cuidado de substituir aquelas já muito danificadas, resultando em áreas que são verdadeiros painéis de caquinhos. A cidade perdeu um espaço de apresentações artísticas e poucos se deram conta. Uma pena.


sábado, 24 de novembro de 2012

Por que índios no Maracanã? Coletiva de Imprensa da Aldeia Maracanã

Foto Paula Kossatz

Foto Paula Kossatz

Foto Paula Kossatz

Foto Paula Kossatz

Foto Katja Schilirò

Foto Katja Schilirò

Na sexta-feira, 23 de novembro de 2012, os índios que se encontram no prédio e no terreno do antigo Museu do Índio, no Maracanã, promoveram uma entrevista coletiva para a imprensa nacional e estrangeira. Eles resistem à intenção do governador Sérgio Cabral de demolir aquela edificação, onde estabeleceram a Aldeia Maracanã.
Entre outros, compareceram à coletiva jornalistas da ESPN, do Jornal do Brasil, da Rede Brasil de Televisão e de rádios e jornais de outros países, como de uma rádio holandesa. Segundo a jornalista, sua atenção ao problema foi despertada após os índios da Aldeia Maracanã terem ido ao encontro do Príncipe daquele país que visitava as obras do estádio do Maracanã. À mesa, respondendo às perguntas, estavam o cacique Carlos Tukano, o antropólogo Mércio Gomes, o procurador do Ministério Público Federal Daniel Macedo, o advogado Arão da Providência Guajajara e eu, convidado como arquiteto que poderia falar um pouco sobre a edificação.

Respondendo a uma pergunta sobre o estranhamento da sociedade branca à presença de um grupamento de índios no Maracanã, o antropólogo Mércio Gomes, que já dirigiu a Funai, comentou inicialmente a maneira como ele e outros antropólogos tinham uma certa reserva em compreender a existência de índios vivendo em cidades. Segundo ele, a antropologia tradicional vê o índio em sua comunidade original, no meio rural ou florestado, acreditando que ali ele deveria permanecer. Quando Mércio soube que índios, já há muitos anos, passaram a ocupar o antigo Museu do Índio no Maracanã, também se questionou sobre o que eles estariam a fazer ali.
Após essa pequena introdução e após ressaltar a importância que teve o Museu do Índio para a etnografia nacional e internacional, referindo-se também às presenças naquela edificação, em outros momentos da história, do Marechal Rondon e de Darci Ribeiro, o antropólogo passou a descrever a realidade populacional dos índios no Brasil de hoje. Afirmou que quando se imaginava que eles desapareceriam como grupos étnicos autônomos, sendo integrados à grande sociedade brasileira, eis que eles passaram a crescer em termos populacionais, reforçando os laços culturais que os unem. E eles vêm, individualmente ou em grupos, buscando obter maior conhecimento e melhores condições materiais de vida, aproximando-se das cidades. Há índios em universidades e em cursos técnicos, ou apenas trabalhando em profissões diversas nas cidades. Isto sem perder sua identidade indígena e o contato com seu grupo de origem.

Assim, a constituição desse grupamento de índios de várias tribos brasileiras, de várias partes do país, que passou a se denominar Aldeia Maracanã, seria plenamente justificável como um ponto de referência para índios que se encontram na cidade do Rio de Janeiro. A sua presença entre nós permitiria uma troca cultural que só teria a enriquecer os cariocas. E o seu estabelecimento nesse local se daria por sua imensa ligação com o lugar onde um dia existiu um centro de estudos de sua cultura e onde antes seus antepassados se hospedavam quando vinham ao Rio de Janeiro.
Ao ser perguntado sobre a razão para o governador querer demolir o antigo Museu do Índio, o procurador Daniel Macedo afirmou que as razões são obscuras. Que a liminar da juíza que impedia a demolição havia sido derrubada e que na véspera seis carros do BOPE haviam rondado o imóvel de forma ameaçadora.

O cacique Carlos Tukano lembrou que o prédio do antigo Museu do Índio foi edificado bem antes do próprio Maracanã e que seria um contrassenso demoli-lo para atender pretensas necessidades de escoamento de público surgidas posteriormente. O cacique disse que os índios e as pessoas que apoiam sua causa iriam resistir contra a demolição do prédio. Respondendo a um repórter que lhe perguntou se havia possibilidade de derramamento de sangue nesta resistência, o cacique foi bastante equilibrado, lembrando que os índios não estão armados. Que resistirão, mas que se houver violência, esta será da parte dos efetivos policiais que possam querer retirá-los do local.
De minha parte, lembrei que para se avaliar a importância da edificação para a cidade do Rio de Janeiro e para o Patrimônio Cultural, é necessário que se faça quatro perguntas. Inicialmente, se o antigo Museu do Índio tem relevância na paisagem. E a resposta é sim. O seu entorno foi enormemente modificado desde que o mesmo foi edificado na primeira década do século XX. O Derby Club deu lugar ao Maracanã, a Avenida Radial Oeste rasgou o tecido urbano ao lado e diversas edificações foram substituídas. Mas o prédio do Antigo Museu ficou lá no mesmo lugar, marcando a paisagem com sua torre de pedra e as águias nos cantos da sua cobertura. Não há quem não passe por ali que não perceba a sua imponente presença.

A outra pergunta a se fazer é se o prédio tem relevância histórica. E novamente a resposta é sim. Ali ocorreram as primeiras pesquisas com sementes no Brasil. Ali Rondon recebia índios que vinham de muito longe. Ali Darci Ribeiro trabalhou pela causa indígena e ali existiu um museu exemplar, que influenciou a criação de diversos outros museus etnográficos pelo mundo.
Uma terceira pergunta, se o imóvel tem relevância arquitetônica e se é recuperável, também tem resposta positiva. O imóvel, uma edificação eclética com características de prédio do serviço público do início do século XIX tem paredes sólidas e espaços generosos, difíceis de serem encontrados em construções do mesmo período. O piso do primeiro pavimento é estruturado por vigas metálicas, que se mostram preservadas. Sua entrada é marcada por um torreão e no hall uma escada em estrutura metálica dá acesso ao segundo pavimento. Uma torre maior, revestida de pedras, marca a fachada oposta a esta entrada. Sua cobertura encontra-se danificada por falta de cuidados, assim como forros, escadas e esquadrias. Mas tudo isto é plenamente recuperável, já que as peças ainda existentes podem servir de exemplo.  

Por fim, cabe perguntar se o imóvel tem relevância para algum grupo social. E a evidência desta resposta é o enorme esforço que tem sido feito por índios e brancos que se envolveram com o problema para reverter a decisão do governador e impedir a demolição desse belo prédio.
Usando-se a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 muitos absurdos vêm sendo cometidos em nossa cidade. A demolição da fábrica da Brahma no Catumbi, por exemplo, foi um crime contra o Patrimônio da cidade. As alterações pretendidas na APA de Marapendi para abrigar um hotel e um campo de golfe são igualmente absurdas. A ameaça ao antigo Museu do Índio está acompanhada de igual ameaça ao Estádio Célio de Barros, ao Parque Aquático Júlio Delamare e à Escola Municipal Friedenreich. A união de todos os que se sentem indignados contra tais demolições, de todos os que consideram importante a preservação do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro e de todos os que apoiam a causa indígena poderá trazer uma esperança de que desta vez a enorme especulação que se estabeleceu em nome dos jogos não prevaleça.