segunda-feira, 28 de julho de 2014

Arte para os jovens, trabalho para os artistas




Há uma discussão em curso no Congresso Nacional que interessa a todos aqueles que trabalham com o ensino de arte ou se preparam para fazê-lo. Trata-se do projeto de lei 7032 de 2010 – PL 7032/2010 que altera os parágrafos 2º e 6º do artigo 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, o qual fixa as diretrizes e bases da educação nacional – LDB. Esse projeto de lei institui, como conteúdo obrigatório no ensino de Artes, a música, as artes plásticas e as artes cênicas.

E por que isso deve nos interessar? Tendo sido incluído o ensino de artes no ensino básico, abriu-se a possibilidade que alunos desse ciclo entrem em contato com diversas expressões artísticas, algo que todos consideramos fundamental para uma educação humanista e abrangente. Abriu-se, também, um enorme campo de trabalho para os profissionais com licenciatura nas diversas linguagens artísticas. E isto é um bem precioso que traz oportunidades para milhares de pessoas.

Mas se há um projeto que altera a LDB devemos buscar conhece-lo e acompanhar sua tramitação. O que diz o parágrafo 2ºdo artigo 26 da LDB? Que "O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos." E o parágrafo 6º se refere a uma lei de 2008 que modificou a LDB inserindo a música como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata parágrafo 2º já citado.

Então o PL 7032/2010 vem corrigir a alteração introduzida no parágrafo 6º que se refere exclusivamente à música. A nova redação incluiria as artes plásticas e as artes cênicas. Ter as diversas expressões artísticas citadas na questão do ensino de artes é importante, pois cada cidade, cada colégio poderá escolher aquela linguagem que melhor se adapte ao interesse dos seus alunos ou que tenha maior possibilidade de contratação de professores. Todos têm a ganhar, inclusive a música, única atualmente citada, que, sozinha, não tem como suprir o quantitativo de professores necessários.

Mas para além da redação original do PL 7032/2010 há outra questão que deve chamar a atenção dos profissionais da dança. Trata-se do fato de que ela não é citada na redação inicialmente proposta, quando seria muitíssimo importante que o fosse. A citação da dança, uma linguagem absolutamente independente enquanto estrutura de aprendizado e de ensino, é fundamental para que não haja confusão entre aquilo que se espera do professor contratado. E nem haja supressão de postos de trabalho que poderiam ser preenchidos pelos profissionais da dança. A correção dessa lacuna na redação do projeto de lei vem sendo buscada pelos profissionais da dança, que através de grupos de ação, como o Fórum Nacional de Dança, vêm acompanhando a tramitação do projeto e pedindo esta correção aos parlamentares que o analisam.

Com uma redação apropriada da lei que trata do ensino de artes no ciclo básico da educação dos nossos jovens todos temos a ganhar: estudantes, profissionais e professores. Fique atento!


domingo, 20 de julho de 2014

Rocinha: urbanização, PACs e teleférico - o que dizem os moradores

Centro hospitalar projetado para Rocinha, mas não construído
Após uma série de episódios violentos envolvendo grupos armados na Rocinha em 2004 o poder público criou um Plano Diretor para aquela área. Mais tarde houve um maior avanço com a definição de um projeto de reurbanização para a comunidade, o qual foi incluído no PAC 1 do governo federal. Esta primeira fase de intervenções contou com R$ 60 milhões do governo federal e R$ 12 milhões do governo estadual e o autor do projeto foi o arquiteto Luiz Carlos Toledo.

Esse projeto de urbanização foi muito discutido com os moradores e incorporou varias demandas dos mesmos, como a construção de um hospital e uma creche. Entre as poucas propostas efetivamente executadas estão a passarela projetada por Niemeyer e o Centro Esportivo.  No entanto, muitas outras não foram realizadas. A creche só recentemente foi concluída, mas permanece fechada. No caso do hospital, o governo acabou fazendo apenas uma UPA.

Os moradores queriam também um centro cultural, o saneamento do bairro e a construção de planos inclinados. A questão dos planos inclinados se transformou numa enorme queda de braço entre os moradores e suas lideranças de um lado e o governo estadual do outro. O projeto de urbanização previu a construção de cinco desses equipamentos. Entre as vantagens apontadas pelos moradores e o arquiteto responsável estão as paradas mais próximas entre si, a possibilidade de levar bagagens e materiais de construção e também servir para a retirada do lixo da comunidade.

Em 2013 a Rocinha foi incluída no PAC2 e o escritório vencedor da licitação para esta segunda fase foi o Arquitraço, igualmente conceituado. No entanto, aparentemente houve pouca discussão sobre como seriam aplicados os recursos da ordem de 1 bilhão e 600 milhões de reais. O governo do estado (Emop) incluiu o teleférico no projeto e vem insistindo em sua instalação em detrimento dos planos inclinados anteriormente propostos. O teleférico teria um custo da ordem de R$ 700 milhões. 

O teleférico é um equipamento caro, com paradas distantes entre si, e com uma manutenção igualmente cara, dependente de peças importadas. Já os planos inclinados trabalham com uma tecnologia bastante conhecida e experimentada em diversos locais do Rio de Janeiro. Outras desvantagens do teleférico são a sua incapacidade de funcionamento em momentos de ventos fortes e tempestades, e a incapacidade de servirem a cadeirantes ou a pessoas com problemas de mobilidade, já que trabalham em movimento contínuo. Além disso, a Rocinha é uma área fortemente sujeita à ação da maresia, o que certamente apressaria sua deterioração.

Mas há ainda um aspecto pouco percebido que se refere à necessidade de remoções de moradias para a construção desse equipamento. Seriam removidas casas para dar lugar às estações e também para permitir a acessibilidade de caminhões à base dos postes que sustentam o teleférico.

As lideranças dos moradores consideram que a opção pela execução dos planos inclinados anteriormente previstos, por serem mais baratos, liberaria recursos para o saneamento da comunidade, uma demanda urgente e muito justa.   

A defesa do teleférico por parte da Emop é que ele permitiria a integração da comunidade com o metrô da Linha 4. No entanto a estação do teleférico mais próxima do metrô seria exatamente onde haveria um dos planos inclinados previstos. Depreende-se que a forte visibilidade do projeto teleférico e o fato de servir como atração turística leva o governo estadual a preferir essa opção.

Recentemente houve uma audiência pública sobre o projeto e o presidente da Emop foi muito contestado. Ele afirmou que iria fazer reuniões nos 32 sub-bairros da Rocinha para discutir o projeto.

Outra questão que move os moradores e os vizinhos de São Conrado é a questão do reassentamento de famílias moradoras de áreas de risco. O arquiteto Luiz Carlos Toledo havia projetado edifícios com apartamentos de até três quartos, mais adaptados ao tamanho de certas famílias da comunidade. No entanto, a Caixa Econômica só financiou prédios com apartamentos de até dois quartos. Alguns desses prédios foram construídos onde havia uma garagem de ônibus.

No momento, discute-se a construção de novos prédios que ocupariam uma área considerada como de preservação ambiental, o que vem mobilizando a vizinhança de São Conrado contra o projeto.

Os moradores continuam mobilizados e esperam que suas vozes sejam ouvidas e suas demandas sejam consideradas.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Mobiliário urbano carioca, ainda uma carência



Abrigo de ônibus da era Chagas Freitas

A oferta mais ampla de mobiliário urbano padronizado na Cidade do Rio de Janeiro é algo relativamente recente. No início do século XX, foram instalados em diversas praças os gloriosos bancos Paris, nunca igualados em qualidade. E também diversas linhas de postes em ferro fundido, ou arcos para sustentação de luminárias, que eram o símbolo do progresso que a iluminação pública trazia. Muito apreciado era o “colar de pérolas de Copacabana” formado pela linha de postes com iluminação a vapor de mercúrio, instalados em 1936, e que seguiam a curvatura da orla.  

Depois, pareceu que a administração pública da cidade se esqueceu de como equipamentos assim eram importantes. A sua qualidade caiu muito, e foram feitas diversas improvisações. Exemplo disso, eram os pavorosos abrigos de ônibus instalados no período em que Chagas Freitas governou o Estado. Eles traziam inscritos no concreto o nome do governador. Abrigar o cidadão do sol e da chuva era uma benesse do mandatário! Somente alguns anos depois, no governo Brizola, surgiram os abrigos pré-fabricados em concreto, projetados por João Figueiras Lima, o Lelé, e produzidos pela antiga Fábrica de Escolas, projeto também daquele período. Alguns desses abrigos ainda resistem por aí, até mesmo com outros usos, como na Praça Ben Gurion, em Laranjeiras.

Como a querer recuperar o tempo perdido, o projeto Rio Cidade, concebido pelo então Secretário de Urbanismo, e depois prefeito, Luiz Paulo Conde, derramou uma profusão de modelos de postes, de abrigos de ônibus, de bancos, de lixeiras e de jardineiras na cidade. Cada eixo escolhido para receber uma intervenção passou a ter sua própria linha de mobiliário urbano. Postes tortos, fradinhos com bolas metálicas atarraxáveis nas pontas (que rapidamente foram furtadas), luminárias de luz indireta, bancos de concreto, havia de tudo.

No entanto, logo se percebeu que faltava uma economia de escala nessa fórmula. A cada abrigo ou poste necessitando de reposição, se fazia necessária a sua produção de forma quase artesanal. Por serem poucas unidades, produzi-los encarecia demais o processo. Assim, na gestão do próprio Conde como prefeito, foi realizada uma licitação para a implantação de um conjunto de itens de mobiliário urbano na cidade por empresas especializadas, que substituíram a maioria desse mobiliário anteriormente instalado. Para efeito dessa licitação, a cidade foi dividida em três grandes áreas e, desde então, passamos a conviver com abrigos de ônibus, painéis de publicidade e relógios digitais padronizados, frutos de design industrial.

Parte importante e integrante daquela licitação era a colocação de banheiros públicos em toda a cidade. Seriam banheiros dotados de tecnologia, com sistemas autolimpantes, que atenderiam uma secular queixa dos cariocas de todas as idades: a falta de banheiros públicos nas ruas. Porém, muito rapidamente, começaram os problemas e adiamentos. As empresas ganhadoras das licitações implantaram os abrigos de ônibus, dotados de espaços para a exploração de publicidade, assim como os relógios e, logicamente, os painéis publicitários. Mas os banheiros, ah os banheiros...

Logo surgiram notícias nos jornais de que havia problemas para sua instalação. Dizia-se, por exemplo, que era difícil conseguir que o órgão responsável fizesse as ligações de esgoto. Os poucos que foram implantados ficaram sem manutenção e passaram a apresentar problemas. Durante a pandemia acabaram lacrados e até hoje seguem inutilizados.  

Mas, antes disso, o cartunista Ziraldo, grande na sua arte, mas talvez não tão bom designer, levou ao prefeito a proposta de um mictório público simplificado. Alguns protótipos foram instalados com o nome de Unidade Fornecedora de Alívio – UFA. Em seguida, o prefeito anunciou a instalação de 100 unidades de UFA na cidade. Usou-se, inclusive, os recursos para a instalação dos banheiros da licitação de mobiliário urbano padronizado.

O grande problema com esses mictórios é que eles eram instalados de forma improvisada, aproveitando bueiros de águas pluviais, sem ralos nos pisos que drenassem os excessos da falta de pontaria masculina. Os pisos onde esses mictórios foram instalados logo se transformaram em lugares com aquele odor característico, incomodando um bocado. Deve ser por isso que também sumiram da paisagem da cidade. Enquanto isso, as empresas vencedoras das licitações de mobiliário urbano, aparentemente, ficaram desobrigadas de instalar os banheiros com boa tecnologia que faltavam. Continuam a explorar somente o filé mignon da coisa, ou seja, os equipamentos portadores de publicidade. E a população carioca, como sempre, permanece sem banheiros públicos.   

Mobiliário urbano é coisa séria, e dá a medida do conforto que a cidade oferece a seus usuários. E também precisam ser bem desenhados. Um visível retrocesso, por exemplo, são as torres de ventilação de câmaras subterrâneas de eletricidade. Antes feitas em ferro fundido decorado, agora são simples e feias chaminés em concreto. O Rio precisa de mais bancos de praça (que tal reproduzir os bancos Paris?), mais abrigos de ônibus, banheiros públicos, postes de iluminação decentes, quiosques, e coretos nas praças. Quando os teremos?

 artigo publicado no Diário do rio em 26 de maio de 2022.

UFA no Largo do Machado



sábado, 8 de março de 2014

a calçada, o papa e a cidade

Escultura Papa João Paulo II na calçada da Catedral Metropolitana do Rio
Recentemente mais uma placa de esculturas e monumentos cariocas do Rio de Janeiro foi roubada. Desta vez foi aquela que identificava a escultura do papa João Paulo II na calçada da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, na Avenida Chile. Rouba-se tudo no espaço público carioca, especialmente peças em metal. Uma lástima. A curiosidade é que esse monumento ao papa entrou no lugar onde a Prefeitura pretendia instalar uma escultura de Ascânio M M. Dom Eugênio, então cardeal do Rio, disse não e mandou colocar a escultura que lá está. Assim é. Apesar de estar em frente à Catedral, a calçada da catedral não é reconhecida como pública. Na França, há alguns anos atrás, o prefeito de uma pequena cidade foi condenado a ressarcir os cofres públicos por ter mandado fazer uma estátua religiosa para uma praça da cidade...



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Vila Olímpica na Cidade Universitária



No Plano Diretor da UFRJ descubro que há a intenção de se fazer na Ilha do Fundão uma Cidade Esportiva com estádio de atletismo e futebol, parque aquático, ginásio poliesportivo, clube sócio esportivo, além de um espaço de lazer na orla e residências universitárias. Mas não é mais ou menos isso o programa da Vila Olímpica? Não seria esse o legado que as Olimpíadas deveriam deixar para a cidade? Muito difícil de aceitar a opção pela Barra da Tijuca. Só a especulação imobiliária explica...



Estrela Dalva de Paracuru

Paracuru - foto Roberto Anderson
Conheci grande personagem de Paracuru, motorista viajado que já rodou o Brasil e esteve em terras peruanas. Me disse que lá faz um friozinho que ele até apreciava, mas que com a idade não gosta mais não. 
Numa prosa rica de entonações que cativam a atenção do ouvinte e que, por via das dúvidas, se vale de pequenos toques no braço do seu interlocutor, me explicou como a estrela Dalva marca as estações. Repare moço que hoje a noite ela vai nascer ali naquele canto atrás da mangueira. Ela vai demorar uns meses pra chegar até lá em cima da lagoa. Ai é o inverno, depois do dia de São José e deve chover. Mas tem vezes que a estrela desce muito rápido daquele lugar. Aí lascou-se, é frio demais na Europa e o Japão se acabando em chuvas.
E mais me contou sobre La niña e El niño, mas aí já era outra estória.




domingo, 12 de janeiro de 2014

Patrimônio em agonia

Rua do Riachuelo com Rua dos Inválidos - Foto Washington Fajardo

Acompanhei a agonia desse prédio. Ele era ocupado por diversas famílias. A Defesa Civil resolveu interdita-lo e retirou os moradores. A partir daí, sem alguém que cuidasse de fazer um arranjo no telhado ou coisa assim, o prédio entrou ladeira abaixo. Sem cobertura, as paredes ameaçavam desabar. Os vizinhos chamavam a defesa civil e esta quando vinha, marretava (eu vi) as paredes superiores para que caíssem e iam embora. Só que as marretadas abalavam as paredes mais abaixo e meses depois lá estava a Defesa Civil marretando mais um pouco. No final, o proprietário ou os interessados em explorar o estacionamento terminaram o serviço. Como o Poder Público é cego ou venal, o estacionamento funciona ou funcionou por longos anos, recompensado o crime. Moral da história: às vezes é melhor não expulsar os invasores sem que se saiba que destino terá o prédio.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Para quem é a verba?

Sérgio Sá Leitão - Secretário de Cultura do Rio de Janeiro

Não só no Rio, mas também em outras capitais e Estados brasileiros, as Secretarias de Cultura vêm abdicando de importante funções que lhes são afeitas, como a de construir políticas culturais, promover projetos consistentes com duração além de alguns espetáculos e exposições, democratizar o acesso a meios de produzir cultura e de mostrar essa produção, e incentivar a renovação das linguagens. Ao invés disso, essas secretarias preferem repassar boa parte das verbas ao mercado, via produtores, o qual passa a ditar como o dinheiro público deve ser investido.
Quando essas mesmas secretarias decidem repassar verbas diretamente a projetos artísticos, suas escolhas recaem sobre projetos há muito tempo consolidados, que nem de longe representam o futuro. Não se está aqui a defender que projetos como o da OSB não sejam apoiados pelo Poder Público. Mas é evidente que as escolhas estéticas e culturais dos secretários, na maioria das vezes, são pessoais, refletindo o que conheceram ou assimilaram em seus anos de juventude. Essas Secretarias fazem escolhas mirando no passado, incapazes que são de acompanhar o desenvolvimento artístico do presente. Pedir-lhes que se informem sobre o que poderá ser o futuro seria, então, quase impossível.
Mas o mais grave mesmo é o vazio que deixam após o fechamento de um ciclo de poder. Nada se constrói. Nada permanece. O que se vê é o eterno recomeço com artistas e grupos artísticos inseguros sobre como sustentarão seus processos criativos para além da vigência de um edital.
   
"(...) o secretário Sérgio Sá Leitão assinando cinco convênios de quatro anos de duração com entidades escolhidas por ele e sua equipe. Por terem “excelência e público”, a Companhia de Dança Deborah Colker receberá R$ 2 milhões por ano; a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), R$ 6 milhões; o AfroReggae, R$ 3,5 milhões; o Grupo Tá na Rua, R$ 1 milhão; e a Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), R$ 460 mil. No total, só neste ano, foram distribuídos, entre os cinco grupos, R$ 13 milhões — um terço do que foi disponibilizado pela secretaria no edital de fomento à cultura da cidade (R$ 33 milhões)."

http://oglobo.globo.com/cultura/secretaria-de-cultura-repassa-13-milhoes-para-cinco-convenios-11116823


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ocaso de um bairro carioca

Lâmina projetada pelo escritório Niemeyer para a Brahma
Antiga Fábrica da Brahma no bairro do Catumbi - Rio de Janeiro
O Catumbi é um bairro que passou por uma longa e contínua desestruturação. Já em 1980, o excelente livro “Quando a Rua vira Casa”, de Arno Vogel e Marco Antônio da Silva Mello, com ilustrações de Orlando Mollica, retratou como os moradores foram afetados pelas demolições ali realizadas para a construção do viaduto de triste nome (31 de março), que liga o Túnel Santa Bárbara à Área Portuária. Aliás, que prefeito terá a coragem necessária para sanar esse problema? 

Em 1984, foi construído o Sambódromo, que consolidou a separação entre os dois lados do bairro: aquele junto à encosta de Santa Teresa e o restante, nas proximidades do Cemitério do Catumbi e do antigo presídio da Frei Caneca. O arquiteto Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, atual Secretário de Urbanismo do Rio de Janeiro, tempos atrás, analisou essa ruptura em brilhante artigo de página inteira no antigo Caderno B do Jornal do Brasil.

O presídio foi desativado e integralmente demolido no governo Cabral. Ao contrário do ocorrido no Carandiru, em São Paulo, onde dois pavilhões foram mantidos e ganharam novos usos, do presídio da Frei Caneca nada sobrou. Ou por outra, sobrou apenas o portal desconectado do contexto original. Por mais dolorosas que sejam suas histórias, resquícios de antigos presídios podem nos ensinar sobre as mazelas de nossas sociedades. Mas, como fez Brizola com o presídio da Ilha Grande, nossos governantes preferem o apagamento desses testemunhos da brutalidade humana.

Prometia-se a construção de edifícios residenciais no lugar do antigo presídio, e havia a esperança de que um bom projeto fosse escolhido. Vã esperança. O projeto edificado foi um conjunto habitacional do gênero Minha Casa Minha Vida, cuja implantação e tipologia tem pouca integração com a arquitetura e o tecido urbano do bairro.

Conjunto habitacional no terreno do antigo presídio da Frei Caneca

O último golpe veio em 2011, com a demolição da Fábrica da Brahma, imóvel que era parte da área de ambiência do tombamento do Sambódromo. Com os órgãos de tombamento pressionados pelos governantes, a absurda demolição foi aprovada. Concretizou-se uma operação financeira, cujo balanço não ficou muito transparente. A cervejaria pagou a construção de mais um trecho do Sambódromo e em troca ganhou o direito de demolir sua fábrica histórica para erguer em seu lugar uma lâmina com 80 metros de altura (vinte pavimentos). Alguns elementos decorativos do edifício foram enviados para Petrópolis, ou seja, nem aqui ficaram.


O edifício projetado por Oscar Niemeyer (mais de seu escritório do que do próprio autor, já que o mesmo se encontrava bastante doente à época), um objeto prismático de vidros escuros espelhados, se insere como outro alienígena numa área que ainda conta com dezenas de sobrados ecléticos e edifícios da qualidade do Hospital Escola São Francisco da UFRJ. Ao comentar sua construção (O Globo de 01/12/2013), bem como o potencial da área para o mercado imobiliário, o então presidente do órgão de Patrimônio municipal se entusiasmou dizendo: Agora parece que vai! Realmente não tem sido fácil a proteção de paisagens culturais nesse nosso Rio de Janeiro dos dias atuais. Passados tantos anos, o novo edifício permanece subutilizado, um elefante cinza no Catumbi, que segue esvaziado e maltratado.


Artigo publicado no Diário do Rio em 20 de abril de 2023.  



terça-feira, 12 de novembro de 2013

O que Yeb Sano falou à COP19

Yeb Sano, representante das Filipinas

O discurso do representante das Filipinas na COP19 - 19º Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas em Varsóvia  tocou a todos os presentes por vir do representante de um país que acabava de viver uma catástrofe, muito provavelmente, já fruto das alterações climáticas por que passa nosso planeta. O Supertufão Haiyan (ou Yolanda) varreu o território filipino com uma fúria pouco vista matando milhares de pessoas e deixando um sem número de desabrigados. O representante daquele país na COP19 foi pessoalmente tocado, já que membros de sua própria família foram atingidos.   



Discurso à COP19, por Yeb Sano, líder da delegação filipina

Sr. Presidente, tenho a honra de falar em nome do povo resiliente da República das Filipinas.

No início , permita-me que minha delegação endosse plenamente a declaração feita pelo ilustre Embaixador da República de Fiji, em nome do G77 e China , bem como a declaração feita pela Nicarágua, em nome dos países em desenvolvimento com interesses semelhantes.

Em primeiro lugar, o povo das Filipinas, e nossa delegação aqui para a 19a Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas aqui em Varsóvia, do fundo de nossos corações, muito agradecem pela sua expressão de solidariedade para com o meu país em face dessa dificuldade nacional.

Em meio à tragédia, a delegação das Filipinas é consolada pela hospitalidade da Polônia, com o seu povo nos oferecendo sorrisos em todos os lugares que vamos. Os funcionários do hotel e as pessoas nas ruas, voluntários e trabalhadores dentro do Estádio Nacional têm calorosamente nos oferecido palavras amáveis ​​ de apoio. Então, obrigado à Polônia.

Os arranjos que foram feitos para esta COP também são os mais excelentes e nós apreciamos muito o esforço tremendo que vocês puseram nos preparativos para este importante encontro.

Agradecemos também a todos vocês, amigo(a)s e colegas nesta sala e de todos os cantos do mundo, pelo modo como vocês se colocaram ao nosso lado neste momento difícil. Agradeço a todos os países e governos que estenderam a sua solidariedade e ofereceram assistência para as Filipinas. Agradeço aos jovens aqui presentes e aos bilhões de jovens de todo o mundo que estão ao lado da minha delegação e que estão nos assistindo moldar o seu futuro. Agradeço à sociedade civil, tanto os(as) que estão trabalhando em campo, correndo contra o tempo nas áreas mais atingidas, e aquele(a)s que estão aqui em Varsóvia, nos estimulando a ter um sentido de urgência e de ambição. Estamos profundamente comovidos por esta manifestação de solidariedade humana. Esta manifestação de apoio revela-nos que, como raça humana, podemos nos unir, para cuidar daquilo que nos importa como espécie.

Passaram-se apenas 11 meses desde Doha, quando minha delegação apelou ao mundo para abrir os olhos para a dura realidade que enfrentamos, visto que, então, estávamos também diante de uma tempestade catastrófica que resultou na calamidade mais cara da história das Filipinas. Menos de um ano , portanto, não podíamos imaginar que um desastre muito maior viria! Com uma aparente crueldade do destino, o meu país está sendo testado por este inferno chamado Supertufão Haiyan, que foi descrito por especialistas como o mais forte tufão que já atingiu um pedaço de terra no curso da história humana. Era tão forte que, se houvesse uma categoria 6, ele teria sido encaixado imediatamente. Até este momento, continuamos incertos quanto à extensão da devastação , já que a informação nos chega de uma forma dolorosamente lenta, a conta-gotas, porque as linhas de energia elétrica e de comunicação foram cortadas e pode demorar um pouco até que estes sejam restauradas. A avaliação inicial é a de que Haiyan deixou um rastro de destruição em massa que não tem precedentes, impensável e terrível , afetando 2/3 das Filipinas , com cerca de meio milhão de pessoas agora desabrigadas, e com cenas que lembram as consequências de um tsunami, com um vasto deserto de lama e escombros e cadáveres. De acordo com satélites da National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA estimou-se que Haiyan haja alcançado uma pressão mínima entre cerca de 860 mbar (hPa ou 25,34 inHg ) e o Joint Typhoon Warning Center estima que Haiyan possa ter atingido ventos sustentados por um minuto ou mais de 315 km/h (195 mph) com rajadas de até  378 km/h ( 235 mph ), tornando-o o mais forte tufão na história moderna. Apesar dos grandes esforços que o meu país tinha feito na preparação para o ataque de uma tempestade-monstro, ele era simplesmente uma força poderosa demais e até mesmo para uma nação familiarizada com tempestades, o Supertufão Haiyan foi como nada que já tivéssemos experimentado antes, ou talvez nada que qualquer país já tenha experimentado antes!

O quadro, no rescaldo, emerge muito lentamente rumo a uma visão mais clara. A devastação é colossal! E como se isso não fosse suficiente, outra tempestade está se formando novamente nas águas quentes do Pacífico ocidental. Tremo só de pensar em um outro tufão atingindo os mesmos lugares onde as pessoas ainda nem sequer conseguiram começar a se levantarem...

Para quem continua a negar a realidade que é a mudança climática, eu desafio a sair de sua torre de marfim e ficar longe do conforto da sua poltrona! Eu desafio a ir para as ilhas do Pacífico , as ilhas do Caribe e as ilhas do Oceano Índico e ver os impactos da elevação do nível do mar, para as regiões montanhosas do Himalaia e os Andes para ver as comunidades enfrentarem inundações por degelo, para o Ártico, onde as comunidades tentam lidar com a rápida diminuição da calota polar, para as grandes deltas do Mekong, o Ganges , o Amazonas e o Nilo, onde vidas e meios de subsistência são perdidos em enchentes, para as colinas da América Central que enfrenta furacões monstruosos semelhantes, para as vastas savanas da África, onde as mudanças climáticas também se tornam uma questão de vida ou morte, com comida e água se tornando escassa. Não esqueçamos os enormes furacões no Golfo do México e da costa leste da América do Norte. E se isso não for suficiente, você pode querer fazer uma visita às Filipinas no momento!

A ciência deu-nos uma imagem que se torna cada vez mais clara. O relatório do IPCC sobre mudança climática e eventos extremos ressaltou os riscos associados às mudanças nos padrões climáticos bem como a frequência de eventos extremos. A ciência nos diz, simplesmente, que a mudança climática vai implicar em tempestades tropicais mais intensas. À medida que a Terra se aquece, o que inclui os oceanos, a energia que é armazenada nas águas nas vizinhanças das Filipinas vai aumentar a intensidade de tufões e a tendência que vemos agora é que as tempestades mais destrutivas serão a nova norma.

Isto terá implicações profundas em muitas de nossas comunidades , especialmente as que lutam contra o duplo desafio da crise de desenvolvimento e a crise da mudança climática. Tufões , como Yolanda (Haiyan) e seus impactos representam um lembrete preocupante para a comunidade internacional de que não podemos nos dar ao luxo de adiar a ação climática. Varsóvia deverá se entregar a um esforço ambicioso e deve reunir a vontade política necessária para enfrentar a mudança climática.

Em Doha, perguntamos: "Se não nós, então quem? Se não for agora, então quando? Se não for aqui, onde?" (Emprestado do líder estudantil filipino Ditto Sarmiento , durante a Lei Marcial). Essa frase pode ter caído em ouvidos moucos. Mas aqui em Varsóvia, pode-se muito bem fazer essas mesmas perguntas francas: "Se não nós , quem? Se não for agora, então quando? Se não for aqui em Varsóvia, onde?"

O que o meu país está a atravessar, como resultado deste evento climático extremo, é loucura. A crise climática é uma loucura!

Nós podemos parar com esta loucura! Aqui em Varsóvia!

É a 19ª COP , mas poderíamos muito bem parar de contar, porque o meu país se recusa a aceitar que será necessária uma COP30 ou uma COP40 para resolver a questão da mudança climática. E porque parece que, apesar dos ganhos significativos que tivemos desde que a UNFCCC nasceu, há 20 anos, portanto, continuamos a falhar no cumprimento do objetivo final da Convenção? Agora, nos encontramos em uma situação em que temos de perguntar a nós mesmos – será possível nunca atingir o objetivo definido no artigo 2 º - que é evitar interferência antrópica perigosa com o sistema climático? Ao não cumprir o objetivo da Convenção, podemos estar sancionando a condenação de países vulneráveis!

E se não conseguimos cumprir o objetivo da Convenção, temos que enfrentar o problema de perdas e danos. Perdas e danos associados à mudança climática são uma realidade hoje em todo o mundo. Metas de redução de emissões dos países desenvolvidos estão perigosamente baixas e devem ser elevadas imediatamente, mas mesmo se eles estivessem de acordo com a demanda de redução de 40-50% abaixo dos níveis de 1990, ainda teríamos algumas alterações climáticas inevitáveis e ainda seria preciso lidar com a questão das perda e danos.

Nós nos encontramos em um momento crítico e a situação é tal que até mesmo as metas mais ambiciosas de redução de emissões por parte dos países desenvolvidos, que deveriam ter assumido a liderança na luta contra a mudança climática nas últimos 2 décadas, não serão suficientes para evitar a crise. Agora é tarde demais, tarde demais para falar sobre o mundo ser capaz de confiar em países do Anexo I (do protocolo de Kyoto, isto é, países desenvolvidos) para resolver a crise climática! Entramos em uma nova era  que exige a solidariedade global, a fim de combater a mudança climática e garantir que a busca do desenvolvimento humano sustentável continue na linha da frente dos esforços da comunidade global. É por isso que os meios de apoio para os países em desenvolvimento são cada vez mais cruciais.

Foi o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, Maurice Strong , que disse que "a história nos lembra que o que não é possível hoje pode ser inevitável amanhã".

Nós não podemos sentar e ficar impotentes olhando para este impasse climático internacional. Agora é hora de agir. Precisamos de uma rota climática de emergência!

Eu falo pela minha delegação. Mas mais do que isso, eu falo pelas inúmeras pessoas que deixarão de ser capazes de falar por si mesmas depois de perecerem sob a tempestade. Também falo por aquele(a)s que ficaram órfã(o)s por esta tragédia. Também falo pelas pessoas correndo agora contra o tempo para salvar os sobreviventes e aliviar o sofrimento das pessoas afetadas pelo desastre.

Podemos tomar medidas drásticas agora para garantir que evitemos um futuro onde supertufões sejam parte do dia-a-dia da vida. Porque nos recusamos, como nação, a aceitar um futuro onde supertufões como Haiyan sejam um fato corriqueiro. Nós nos recusamos a aceitar que fugir de tempestades, evacuando as nossas famílias que sofrem com a devastação e a miséria e tendo que contar os nossos mortos, torne-se a nossa vida! Nós simplesmente nos recusamos a isso!

Devemos parar de chamar eventos, como esse desastre, de naturais. Não é natural que as pessoas continuem a lutar para erradicar a pobreza e buscar o desenvolvimento e sejam golpeados pelo ataque de uma tempestade-monstro, agora considerada como a tempestade mais forte que já atingiu terra habitada. Não é natural pois a ciência já nos disse que o aquecimento global vai provocar tempestades mais intensas! Não é natural, quando a espécie humana já mudou profundamente o clima!

E desastres nunca são naturais. Eles são a interseção de outros fatores além dos físicos. Eles resultam do acúmulo da violação constante dos limites econômicos, sociais e ambientais. A maioria dos desastres meteorológicos é resultado da desigualdade e as pessoas mais pobres do mundo estão em maior risco devido à sua vulnerabilidade e décadas de subdesenvolvimento, que, diga-se de passagem, é ligado ao tipo de busca do crescimento econômico que domina o mundo, o mesmo tipo de busca do chamado crescimento econômico e consumo insustentável, que alterou o sistema climático!

Supertufão Haiyan vistodo espaço - Agência Espacial Japonesa
Agora, se me permitem, quero falar em um tom mais pessoal.

O Supertufão Haiyan desembarcou na cidade natal de minha família e a devastação é impressionante. Eu me esforço para encontrar palavras diante das imagens que vemos a partir da cobertura da imprensa. Eu me esforço para encontrar palavras para descrever como me sinto sobre as perdas e danos que sofremos com este cataclismo.

Até essa hora , eu agonizo enquanto espero por notícias quanto ao destino de meus próprios parentes. O que me dá força renovada e grande alívio foi quando o meu irmão conseguiu se comunicar conosco, para dizer que ele sobreviveu ao ataque (de Haiyan). Nos últimos dois dias, ele ficou recolhendo corpos dos mortos com suas próprias mãos. Ele está com fome e cansado, já que suprimentos e alimentos têm dificuldade de chegar nas áreas mais atingidas .

Chamamos esta COP para prosseguir os trabalhos até que um resultado significativo esteja à vista. Até que sejam feitas promessas concretas para garantir a mobilização de recursos para o Fundo Verde para o Clima. Até que a promessa de criação de um mecanismo de proteção sobre perdas e danos seja cumprida, até que haja segurança no financiamento para adaptação, até que as vias concretas para alcançar os necessários 100 bilhões de dólares sejam construídas, até que vejamos uma ambição real sobre a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa. Devemos colocar o dinheiro onde nossas bocas estão!

Este processo sob a UNFCCC tem sido chamado de muitos nomes. Ele tem sido chamado de uma farsa . Ele tem sido chamado de um encontro anual, intensivo em queima de carbono, de passageiros frequentes inúteis. Ele tem sido chamado de muitos nomes. Mas ele também tem sido chamado de Projeto para salvar o planeta. Ele tem sido chamado de "salvar o amanhã hoje" . Nós podemos consertar isso. Nós podemos parar com esta loucura. Agora. Aqui mesmo, no meio deste estádio de futebol (a COP se realiza no Estádio Nacional, em Varsóvia).

Peço-lhes para nos liderar. E que se deixe a Polônia para sempre conhecida como o lugar em que realmente nos importamos em parar com esta loucura . A Humanidade pode se mostrar à altura da ocasião ? Eu ainda acredito que sim, que nós podemos!



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rua Equador 506


Em 2006 este edifício estava em ótimo estado de conservação. Funcionava como um depósito de móveis e por ser vizinho a um imóvel tombado, compunha muito bem a ambiência do mesmo. Após o efetivo início do projeto Porto Maravilha, o imóvel se encontra em processo de demolição. É terrível para uma cidade ter órgãos de Patrimônio que não cumprem suas finalidades.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Como abduzir 5 mil pessoas por hora?


Como abduzir 5 mil pessoas por hora? Prefeitura estima que para o motorista não sentir os efeitos da falta da Perimetral, será necessário que pelo menos 3.500 carros (ou cerca de 5 mil pessoas) por hora deixem de circular pela região no período do rush (O Globo)!!! Abduza-me para uma malha de metrô eficiente e eu agradecerei!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Leilão de combustível fóssil do pré-sal


Muito me angustiam as toneladas de carbono que serão retiradas das profundezas do mar do Brasil e jogadas na atmosfera nas próximas décadas. E me preocupa que um governo que não se caracteriza exatamente pelo cuidado com o Meio Ambiente, vide a aprovação das alterações no Código Florestal, não esteja preparado para eventuais emergências, como vazamentos de petróleo em áreas profundas do oceano.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sobre manifestações e black-clocs

Black-blocs na manifestação do dia 11.07.2013 - foto Roberto Anderson
O que vi na manifestação do dia 15 de outubro de 2013 e na anterior foram passeatas tranquilas com professores e pessoas apoiando a sua luta, entre as quais me incluo. Mas após as duas últimas passeatas houve confrontos e quebra-quebra sem a participação da maioria dos que lá estiveram protestando. Não vi a última confusão, como não vi nas vezes anteriores, pois não sou platéia para black-blocs. Saio do Centro quando a manifestação que me importa termina. É fato que nesta última havia menos pessoas do que na anterior. E desse jeito haverá cada vez menos. É difícil pedir um pouco de racionalidade a esses garotos? Totalmente. Mas deve ser pedido mesmo assim.
É verdade que os professores até emitiram notas favoráveis aos garotos. Mas isto era compreensível (apesar de não ser inteligente) já que os mesmos os protegeram quando a polícia estava baixando o cacete no dia da fatídica votação do Plano de Salários. O que eu percebo é que os garotos estão à deriva, encantados com o poder intimidatório de seus escudos e coquetéis inflamados. Não fazem política, apesar de ser política a sua ação. Não dialogam, não apresentam propostas que os que não têm sua idade e raiva possam apoiar. Infelizmente vêm agindo como parasitas das manifestações. E como tal, sugam a força e energia destas últimas até tornarem-nas inexistentes. Não sabem o quanto colaboram com o Cabral e o capital...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Expansão urbana no Campus Fidei

Campus Fidei em Guaratiba

O discurso oficial da Prefeitura é de revalorização das áreas centrais. Mas sua prática é de permitir que o mercado expanda indefinidamente a cidade em direção a áreas verdes da periferia. A Área Portuária, com seus terrenos públicos, se transforma num espaço para investimentos internacionais em prédios espelhados. E recursos públicos serão utilizados para urbanizar um manguezal em Guaratiba e lá deixar uma população de pobres sem acesso a qualquer infraestrutura decente. Se o Papa efetivamente lá estivesse passado, um novo condomínio surgiria para ser vendido a peso de ouro. Como só deu lama...


quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Cemitério dos Ingleses na Gamboa


Localizado na Rua da Gamboa, o Cemitério dos Ingleses (Fig. 1 e 2) é o mais antigo a céu aberto da Cidade do Rio de Janeiro, o que exclui as áreas de sepultamento anteriormente existentes junto ou dentro das igrejas católicas. Ele foi criado após o tratado de amizade entre D. João VI e o Reino Unido em 1810, sendo destinado a receber os súditos ingleses que chegavam ao Brasil após aquele tratado, e que aqui faleciam. Já em 1823 a beleza do seu sítio, em pequena elevação arborizada junto ao mar, era notada por Maria Graham em seu “Diário de uma viagem ao Brasil”:

“Fui hoje a cavalo ao cemitério protestante, na praia da Gambôa, que julgo um dos lugares mais deliciosos que jamais contemplei, dominando lindo panorama em todas as direções. Inclina-se gradualmente para a estrada, ao longo da praia. No ponto mais alto há um belo edifício constituído por três peças: uma serve de lugar de reunião ou, às vezes, de espera para o pastor; uma de depósito para a decoração fúnebre dos túmulos; e a maior, que fica entre os dois, é geralmente ocupada pelo corpo nas poucas horas (pode ser um dia e uma noite), que neste clima podem decorrer entre a morte e o entêrro. Em frente ao edifício ficam as várias sepulturas e os vãos monumentos que erguemos para relevar nossa própria tristeza. Entre estes e a estrada, algumas árvores magníficas.”     

Fig. 1 - Cemitério dos Ingleses em 2013.

Fig. 2 - Cemitério dos Ingleses em 2013.

Em 1985 o Cemitério foi tombado pelo Estado do Rio de Janeiro, justamente por suas qualidades paisagísticas. O inventário realizado pelo Inepac ressaltou a arborização e as campas baixas, muitas delas apenas cobertas por vegetação (Fig. 3). No entanto, o entorno que tanto encantou Maria Graham já não existe. O mar foi afastado por aterro, no qual foi criado um pátio da Rede Ferroviária. Após a desativação do pátio ferroviário, parte do terreno hoje se encontra ocupada pela Cidade do Samba, cuja arquitetura pouco inspirada se ergue como um paredão, vedando a visão do horizonte à frente do cemitério (Fig. 4). Excessivamente próxima também, está a estação do Teleférico do Morro da Providência, cujas dimensões impactam negativamente a ambiência daquele Patrimônio(Fig. 5).


Fig. 3 - Cemitério em 1984 com campas cobertas por vegetação.

Fig. 4 – Cidade do Samba à frente do cemitério


Fig. 5 – Teleférico junto ao muro do cemitério

Aos fundos do Cemitério dos Ingleses, casas do Morro da Providência, que já alcançam vários pavimentos, foram construídas coladas ao seu muro, inclusive utilizando o mesmo como paredes (Fig. 6). Além disso, é possível ver lixo jogado por cima do muro (Fig. 7), e há relatos de que o esgoto de algumas dessas casas é vazado para dentro de cemitério.


Fig. 6 – Favela junto ao muro do cemitério.

Fig. 7 – Lixo proveniente da favela dentro do cemitério

Ao longo do tempo, o Cemitério dos Ingleses alterou também sua feição. Houve uma contínua progressão da pavimentação de caminhos e espaços livres e a cobertura das sepulturas com placas de cimento ou pedra (Fig. 8). As novas sepulturas são mais altas que as antigas. Algumas permanecem, de forma absurda, sem revestimento, com a alvenaria de tijolo aparente (Fig. 9). Muitas árvores deixaram de ser repostas após serem cortadas ou caírem. Assim, é possível notar algumas clareiras, especialmente junto às divisas do terreno. 


Fig. 8 – Maior pavimentação de caminhos e campas

Fig. 9 – Sepultura sem revestimento

Para efeito de comparação, vale à pena observar sítios semelhantes, como o Cemitério dos Ingleses em Recife (Fig. 10), cujas sepulturas permanecem pouco cobertas, ou como cemitérios do Reino Unido, alguns tão antigos como o Cemitério dos Ingleses do Rio de Janeiro. Ali é possível perceber a presença de extensas áreas verdes, maior espaçamento entre as sepulturas, menor altura das mesmas, ou mesmo a inexistência de sua marcação poligonal, com o afloramento apenas da lápide ou do monumento em memória do falecido (Fig. 11-19).  


Fig. 10 – Cemitério dos Ingleses de Recife

    Fig. 11 – Cemitério de Aperton – Reino Unido 

Fig. 12 – Cemitério de Southern-Manchester – Reino Unido

Fig. 13 – Cemitério de Brighton an Preston – Reino Unido        

Fig. 14 – Cemitério de Bronte Parsonage - Reino Unido  

Fig. 15 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 16 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 17 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 18 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 19 – Cemitério de Kensal Green - Londres – Reino Unido (1852)

Um estudo de Jenifer White sobre cemitérios ingleses informa que lá, somente após 1650, os sepultamentos passaram a ser feitos fora de igrejas. Na falta de um modelo, os primeiros cemitérios seguiam o paisagismo de parques privados, com a capela tomando o lugar das casas senhoriais. A partir de 1815, o cemitério francês de Père Lachaise, com seus monumentos mortuários, passou a influenciar os cemitérios ingleses. Esta influência, no entanto, não os fez perder a presença de elementos naturais, numa rememoração da natureza idealizada pelo romantismo, tão cara aos parques de estilo inglês.   

Para que o Cemitério dos Ingleses volte a se destacar por suas qualidades originais, seria importante a implementação do projeto de paisagismo já elaborado para o mesmo, que indica áreas onde a pavimentação deveria ser retirada, áreas a serem ajardinadas ou gramadas, e um plano de manejo das árvores existentes, com previsão de sua reposição e plantio de novas unidades. Outra providência importante, se possível, seria a retirada de boa parte das coberturas das sepulturas mais recentes, tornando-as simples, e por que não, belos canteiros ajardinados. O Rio de Janeiro teria de volta, então, um lugar aprazível para passeios meditativos e apaziguantes.

Artigo publicado no Diário do Rio em 12 de outubro de 2023.