quinta-feira, 22 de abril de 2021

Um jabuti no Projeto de Lei Reviver o Centro

Ipanema - foto Roberto Anderson

Em arquitetura, gabarito é a altura das edificações, definida pela legislação urbanística. Ao olharmos para o Rio de Janeiro, vemos que esse gabarito varia enormemente, de bairro para bairro, o que seria normal. Mas essa variação excessiva ocorre também dentro de um mesmo bairro, entre construções vizinhas. E não se trata da diferença de altura entre uma casa e um prédio, mas entre prédios vizinhos. Essa situação é fruto do atendimento à legislação de edificação quando aplicada a terrenos diferentes, mas é, principalmente, resultado da variação da própria legislação ao longo do tempo. Em momentos de maior força dos interesses da construção civil ocorreram liberações, que deixaram suas feias marcas na cidade.

O Decreto 3800/70 foi uma lei de ordenamento urbanístico editada no Governo Negrão de Lima, que permitiu uma verticalização descontrolada, já que não estabelecia limite máximo de altura, e uma enorme descostura nos alinhamentos dos edifícios, ou seja, das distâncias dos mesmos em relação às calçadas. Tanto para as novas construções afastadas das divisas laterais, como para aquelas que seriam erguidas coladas nas mesmas, o decreto criava possibilidades de verticalização através do afastamento progressivo das linhas das calçadas. Como resultado, a cidade passou a ter edifícios de alturas variadas, com afastamentos frontais também muito variados. A imagem clássica resultante é o prédio longe da calçada, colado em duas divisas, que são empenas cegas, algo nada bonito de se ver.

Em 1990, e por pressão popular, essa permissividade no caso dos edifícios colados nas divisas foi drasticamente alterada pela Lei Orgânica do Município que, em seu Artigo 448 determina: “Qualquer edificação colada nas divisas não poderá ultrapassar a altura de doze metros, seja qual for o uso da edificação ou do pavimento, admitidas as exceções que a lei estabelecer”. Entre essas exceções, conforme definido pela Lei 1654/1991, estão os PEUs, Projetos de Estruturação Urbana, que constam na legislação carioca desde o PUB-RIO, de 1977. Eles deveriam existir para todos os bairros da cidade, mas são quase que exceções no planejamento urbano carioca.

Os PEUs seriam os instrumentos adequados para a correção das distorções advindas de legislações conflitantes, como as sequências de edifícios colados nas divisas com afastamentos e alturas variáveis. A partir de análises caso a caso, considerando aspectos paisagísticos locais, a capacidade das vias de receberem mais unidades de habitação, e ouvindo-se os moradores, se chegaria a propostas corretivas. 

Façamos agora um corte para o momento atual em que a Prefeitura do Rio está prestes a propor um projeto para o esvaziado Centro. O Projeto Reviver o Centro, enviado à Câmara como Projeto de Lei Complementar nº 8/2021, é muito bem-vindo e parte de pressupostos corretos, como a necessidade de trazer novos moradores para aquela área, e dar novos usos a edifícios anteriormente voltados para escritórios. Na pandemia, essa função foi bastante reduzida, e tudo indica que será uma condição duradoura. Buscando então incentivar novas construções de edifícios residenciais ou mistos, a reconversão de uso de edifícios de escritórios, ou a recuperação de imóveis degradados, o projeto propõe a concessão de variados benefícios, relativos ao IPTU, a taxas de ISS, a taxas de licenciamento, ao ITBI, etc.

Mas, curiosamente, há um jabuti no Projeto de Lei Reviver o Centro. Entre os incentivos citados, o projeto propõe uma operação interligada em que o construtor ganha como prêmio o direito de construir mais pavimentos em bairros da Zonas Sul e Norte, mediante pagamento. Isso incide exatamente naquelas situações em que a Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro congelou as alturas dos edifícios colados nas divisas, gerando as distorções já vistas.

Há aí pelo menos dois problemas. O primeiro é a alteração por atacado de uma distorção criada por legislações anteriores, sem o minucioso escrutínio dos PEUs, que como já dito, devem considerar diversas questões locais envolvidas, entre elas a paisagem. Assim, um projeto voltado para tentar resolver a aflitiva situação do Centro, inesperadamente lança seus efeitos sobre uma vultosa parcela do território carioca, sem relação com a área que se deseja recuperar.

O segundo problema estaria na necessidade da concessão de prêmio tão eloquente a quem construir novas edificações no Centro. O construtor que o fizer, estará incorporando ao seu edifício as vantagens de uma área bem servida de sistemas de transportes e infraestrutura urbana, com uma legislação que já o exime de uma série de exigências, como o provimento de vagas de garagem. Por que se deveria acrescer a essas vantagens o direito de incorporar pavimentos a mais em bairros da Zona Sul ou Zona Norte?

Num sistema em que o incorporador é rei, definindo livremente em que áreas da cidade deseja alocar seus investimentos, tal incentivo parece fazer sentido. Mas quando se considera que o Município é o agente do planejamento urbano, podendo definir direcionamentos dos investimentos imobiliários, através de moratórias ou cotas em bairros que não sejam considerados prioritários para crescimento, esses incentivos talvez não façam sentido.

O Município do Rio já viveu experiência semelhante no caso da Área Portuária. Ali foram investidos vultosos recursos públicos, sem que o capital imobiliário respondesse a contento. Ele não deixou de edificar, apenas edificou longe de onde seria mais interessante para o Município. Para evitar que tal fato se repita no atual projeto de recuperação do Centro, a Prefeitura poderia escolher a opção mais barata, que seria direcionar o potencial da construção civil carioca para lá e para outras áreas centrais, como a Área Portuária, o Caju e São Cristóvão. Mas, pelo visto, buscará pagar prêmios, sem nenhuma garantia de sucesso.  

Artigo publicado no Diário do Rio em 22/04/2021

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Morar no Rio de Janeiro

Lagoa da Tijuca - foto Roberto Anderson

Morar na Cidade do Rio de Janeiro pode assumir distintas formas, nem sempre de livre escolha do morador. Aglomerado em Copacabana ou rodeado pela natureza em bairros próximos a florestas e matas. Com vistas de cartão postal ou em apartamentos de fundos, junto a empenas, sem qualquer vestígio de paisagem da Cidade Maravilhosa. Com a possibilidade de colocar cadeiras nas calçadas e deixar as crianças nas ruas em certos bairros do subúrbio, ou em casas e barracos apertados nas favelas, às vezes com o esgoto na porta. A liberdade das crianças no espaço fora das casas sempre foi também uma característica das favelas, mas isso vem sendo ameaçado pela violência do tráfico e das incursões policiais.

De qualquer forma, esse modo de morar na cidade variou muito ao longo do tempo, com ciclos de adensamento e outros de valorização da baixa densidade. No Rio de Janeiro dos séculos XVII e XVIII morava-se numa área urbana densamente ocupada, contida, como se sabe, entre os quatro morros míticos, um deles e a metade de outro já não existentes. Nesse perímetro as ruas e os lotes eram estreitos e havia grande proximidade entre as residências. Mas havia os engenhos afastados, de vida rural, com grandes espaços, onde a maior parte dos habitantes eram africanos escravizados, dormindo em senzalas apertadas.

Após a chegada da Família Real, no início do século XIX, a cidade passou por uma fantástica expansão de seus limites, para além do seu núcleo histórico. Pouco a pouco, duas direções de crescimento, Norte e Sul, se formaram, levando a cidade a se tornar espraiada. Após meados do século XIX, estabeleceu-se uma tradição de residências da população de alta renda em chácaras urbanas, afastadas do Centro, pouco dependentes desse último. São desse tempo as grandes propriedades do vale de Laranjeiras e Cosme Velho, da Gávea e do Jardim Botânico na direção Sul. E da Tijuca, Andaraí e Alto da Boa Vista, na direção Norte.

Essas propriedades eram urbanas, estavam servidas por sistemas de transportes, como o bonde, por abastecimento de água, e depois de luz. Mas o que se valorizava era um certo grau de isolamento da moradia, e a presença de pomares e hortas. O Centro e a Área Portuária permaneciam como áreas de moradia adensadas, focos irradiadores das epidemias que assolavam a cidade. 

No entanto, o processo de expansão horizontal da cidade estancou-se, pelo menos na direção Sul. Durante várias décadas absteve-se de avançar para São Conrado e Barra. Gávea e as novas ocupações de Ipanema e Leblon passaram a ser os limites ao Sul, enquanto ao Norte a cidade se estendia em direção à Baixada Fluminense. Ocorreu então, durante a maior parte do século XX, o parcelamento das antigas chácaras e uma tendência ao preenchimento dos vazios existentes entre elas e o Centro, com o adensamento de bairros como Glória, Catete, Botafogo e Tijuca. Essas áreas, antes aristocráticas e distantes tornaram-se mais centrais pela chegada de mais moradias, serviços e meios de transportes.

A verticalização de Copacabana, no século XX, e posteriormente de Ipanema, geraram um novo modo de morar, superadensado, mas com multiplicidade de serviços, vida noturna, boemia, e uma certa variedade de classes sociais. O bairro continha os espaçosos apartamentos da orla e as quitinetes de ruas menos renomadas, para onde a classe média se mudava, desde que estivesse em Copacabana. O chic era estar envolvido por muita gente e muitos prédios. Mas essa contenção das classes mais altas em bairros de características tão urbanas e adensados iria se romper com a ocupação da Barra da Tijuca a partir da década de 1970. Mais uma vez o desejo por espaços, privacidade, áreas livres e uma vida mais provinciana, propiciada pelos condomínios, se tornaria o seu sonho.  

Morar na Barra da Tijuca é diferente do morar em qualquer outro bairro da cidade. Não só por que provavelmente esse morador estará num condomínio, já que o modelo se espalhou por outros bairros da cidade. Mas é também por morar cercado de pessoas da sua classe social, por desfrutar de largos espaços, por depender do automóvel, e para aqueles que moram em prédios, ter uma vista livre, permeada de acidentes naturais, que a maioria dos moradores do Rio de Janeiro já não têm. Para boa parte dos moradores de outros bairros, causa certa estranheza esse jeito de morar. Mas, talvez, ele seja apenas a retomada de alguns aspectos de modos mais antigos de moradia que nossa cidade já conheceu.  

Publicado em 15/04/2021

A caixa de livros

 

Mais um dia na pandemia. Interminável pandemia, alongada e tornada absurdamente letal por obra e graça de quem nos governa. A cada dia a sua agonia e a tarefa de encontrar o que fazer dentro do apartamento já mil vezes esquadrinhado. Mas sempre há uma arrumação nova nos esperando, e hoje foi o dia de checar aquela estante de livros enjeitados, pedindo para serem doados, levados a algum local onde outras pessoas possam pegá-los e, quem sabe, lhes dedicar um renovado interesse.

Livros são como camadas geológicas dos interesses que passaram por nossas vidas. Dos que tenho, a maioria foi comprada. O que investi neles poderia ter sido gasto num cinema ou num restaurante, mas escolhi os livros. Comprava acreditando que um dia os leria, que era importante ter sua companhia, tê-los à mão. Outros foram presenteados. Vindos de alguém que, talvez, quisesse me dar um toque, como seja menos materialista, ou aperfeiçoe a sua inteligência emocional. Mas, por falta de tempo ou outra desculpa esfarrapada, boa parte permaneceu sem ser lida, intenções não realizadas.

Agora já não adianta, meus interesses foram mudando e, dificilmente, dedicarei minhas horas, mesmo essas da pandemia, a lê-los todos. Há títulos curiosos. Como a Questão Agrária do “renegado Kautsky” veio parar ali na companhia de O Que Fazer, do seu detrator Lenin? A prateleira socialista estava bem fornida. Livros de Fidel e do Che, se misturavam aos sobre a Guerrilha do Araguaia, e aos de Stalin (meu deus, eu paguei por um livro de Stalin!), que por sua vez estava junto ao livro sobre o Solidarność. URSS, China e Cuba estiveram no meu radar durante um bom tempo e a eles dediquei boa parte das minhas intenções de leitura. Valeu camaradas, um dia nos reencontraremos.

Há outros achados inexplicáveis. Tenho certeza de que jamais comprei um livro com os ensinamentos do Osho, ou um sobre espiritismo, mas eles estão lá. Sei que comprei o da Royal Canadian Air Force, que na juventude me prometia um roteiro para um corpo em forma. Quem terá me presenteado com Estamos Grávidos? Terei lido? Terei aprendido a ser um bom companheiro, um bom pai?

Há também os que vieram de sebos, ou seja, já descartados anteriormente, e que agora serão mais uma vez devolvidos. As Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria deve ser um livro interessante, assim como As Vitaminas das Frutas. Mas suas páginas queimadas pelo tempo, esfarelantes e pródigas em incitações a espirros me fazem recuar. Espero que sejam acolhidos por alguém menos alérgico.

Uma grande novidade nesse movimento de renovação das estantes, e um alívio à culpa de quem se desfaz de livros, são as caixas de troca, ou minibibliotecas em ruas e praças. Me lembro quando teve início o movimento de se deixar um livro num banco de praça. Era uma ação generosa, de fazer o saber, a literatura, ou qualquer manual de vida circular, passar por diversas mãos. Mas havia sempre o temor de que uma chuva repentina os destruísse, arruinando aqueles belos propósitos.

As caixas de troca de livros existem hoje em diversas cidades do mundo. No Rio, as vejo em muitas praças e ruas mais calmas. Outro dia encontrei bons livros de urbanismo e de arquitetura na caixa da Rua Alice, que vieram se juntar aos da minha coleção. Ela era bonitinha com uma portinhola de vidro, que alguém fez o desfavor de levar embora. Agora os livros lá deixados estão sujeitos às rajadas de ventos das chuvas, o que preocupa.

Mas o momento é de desapego. Livros vão e há os que chegam, agora comprados online. Novas camadas de interesse se sucedem e a produção dos novos autores brasileiros está bem interessante. É bom também revisitar os clássicos. Machado, Eça de Queiroz, Lima Barreto, o mundo do passado, das pequenas traições, do apego a valores que azedaram e envenenam nossos dias. Em tempo, nem todos os livros antigos se foram e, em termos de política, teimosamente permaneceram, entre outros, Gramsci, Marx e alguns Lenin...

Publicado no Diário do Rio em 08/04/2021

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Como mudam os espaços públicos cariocas

Passeio Publico - Alfred Martinet - 1847

As praças e parques públicos da cidade são lugares que amamos e que foram criados de acordo com as demandas de uso de cada momento. As suas formas e os seus elementos variaram ao longo do tempo, determinadas por essas demandas. O primeiro parque público da cidade, e do Brasil, o Passeio Público, foi criado no século XVIII, como reflexo de hábitos que haviam surgido na Europa no século anterior. As classes dominantes passeavam ao ar livre em jardins abertos ao público. Projetado pelo Mestre Valentim, como um jardim francês, com eixo de simetria e caminhos retilíneos, tinha canteiros de plantas nativas e exóticas. O parque terminava numa fonte ladeada por pirâmides, e num mirante, onde se apreciava a vista do mar, um prazer estético que mais tarde seria valorizado pelo advento do romantismo.

No século seguinte surgiram novos parques na cidade, como o Campo de Santana e a Quinta da Boa Vista, concebidos por Auguste F. M. Glaziou, com o uso da linguagem do jardim inglês, o que alcançou o próprio Passeio Público, remodelado de acordo com o novo gosto. O repertório de elementos desses parques incluía lagos, pontes, grutas, morrotes, e árvores de portes variados, crescendo livres de podas que definissem, de forma drástica, as suas formas. Nas praças começaram a ser instalados monumentos e chafarizes em ferro fundido, vindos da Fundição Val D’Osne, na França, muitos deles até hoje resistindo à ação do tempo e, principalmente, à ação do vandalismo.

Nas primeiras décadas do século XX vimos surgir, tanto a Praça Paris, com sua rememoração da geometrização dos arbustos, como o Jardim de Alah, com seus caramanchões. Ambos se utilizaram de esculturas artísticas, canteiros geométricos e a presença da água, no chafariz, ou no próprio Canal do Leblon. Ali se podia circular em barcos a remo, que encostavam nas escadinhas providenciadas pelo projeto. São também dessa época os bancos de pranchas de madeira sobre estruturas de ferro fundido, chamados bancos Paris. Com um belo desenho, e funcionalidade até hoje insuperada, ainda resistem em algumas praças.

Nas décadas seguintes foram realizadas praças em profusão na cidade, providas de chafarizes, coretos, jardins floridos, bancos de ripas de madeiras formando um “S”, um clássico desse momento, caramanchões e canteiros, ora geométricos, ora sinuosos. Eram a medida da qualidade de vida dos bairros, ponto de encontro das crianças, mães e babás, lugar de pausa na faina do trabalho, de encontros românticos e, muitas vezes, valorizavam a área como pontos comerciais para o surgimento de cinemas e cafés. Exemplo disso é a Praça Saens Peña, projetada por José da Silva Azevedo Neto, mas já muito alterada.

Mais tarde, os jardins de Burle Marx, e de tantos quantos seguiram sua linha projetual, passaram a ter bancos de concreto, muitas vezes sinuosos, canteiros amebóides, pedras encontradas no terreno, plantas exóticas, e plantas nativas que, de tão desconhecidas, pareciam exóticas. Mas é interessante notar que enquanto lugares emblemáticos, como Parque do Flamengo e a Praça Salgado Filho seguiam essa nova tendência, dezenas de outras praças continuavam a ser feitas na cidade, segundo projetos mais anônimos e cânones mais tradicionais.

O fim do século XX foi pródigo em praças com pergolados, muitas vezes em concreto armado, que, por falta de manutenção, estão quase fadados à demolição. Foi também o período em que muito se investiu em gradeamento de praças, na vã tentativa de se aumentar a segurança e o controle do uso das mesmas. É desse momento a instalação ad nauseam em praças da cidade do conjunto mesinha de jogos e banquinhos de concreto, de pouco inspirado design. Ao longo do tempo demonstraram ser também frágeis. Hoje, após anos de maus cuidados, é fácil encontrar apenas suas bases com as ferragens à mostra ou as lacunas deixadas nos conjuntos.

Em seguida, viu-se o surgimento dos espaços cobertos para os equipamentos de jogos, como na Praça Afonso Pena, na Tijuca, e em centenas de outras praças da cidade. Esse novo grupamento de mesas de jogos e coberturas em estrutura de madeira e telhas cerâmicas formaram o novo arsenal das intervenções nas praças, instalados independentemente de seu projeto original. Em função do aumento da pobreza e de pessoas que passaram a morar nas ruas, em diversos locais já há quem defenda a sua erradicação como forma de impedir que sirvam de abrigos para essas pessoas. Na Praça de Cascadura eles foram sumariamente demolidos pelo Poder Público, o mesmo que os edificou.

Quiosques de flores e de alimentação também passaram a ser parte do repertório das praças, defendidos como equipamentos de ampliação da segurança dos espaços públicos. E pistas de skate, das mais variadas formas, foram incorporadas aos equipamentos existentes nas praças, assim como quadras de futebol e basquete. Em algumas praças mais bem aquinhoadas, essas quadras são cobertas e até contam com iluminação para jogos noturnos. Quadras de tênis ainda permanecem exceções, encontradas, por exemplo, no Parque do Flamengo. Já os parquinhos, inicialmente dotados do singelo quarteto gangorra, balanço, escorrega, trepa-trepa, em algumas praças ganharam brinquedos mais sofisticados, como pontes pênseis, cordas bambas e túneis.

O paisagista Fernando Chacel trouxe questões importantes para se pensar nos projetos dos espaços públicos, como a recuperação da flora local, que ele denominou de ecogênese. O Bosque da Barra, de sua autoria, assim como a Praça Mozart Firmeza, no Recreio dos Bandeirantes, são exemplos dessa linha de trabalho. No entanto, esse modelo não foi capaz de se firmar em larga escala. Nos inúmeros condomínios da Barra há excelentes praças, bem servidas por equipamentos, mas o jeitão ostentação e as restrições indiretas, como cancelas e guaritas, não contribuem para um amplo uso desses espaços.  

Um equipamento de altíssima demanda nos últimos tempos é o chamado “parcão”, espaço exclusivo para cães circularem sem coleiras. Em 2015, pesquisa do IBGE indicou que o Estado do Rio de Janeiro teria 2,117 milhões de domicílios com cães, o que representaria 35% do total. Na capital esse índice deve ser bem maior. É possível arriscar que há mais militância pela construção de espaços para cães nas praças, do que para a construção de parquinhos para as crianças, os quais demandam áreas até menores.  

Se lá no início da construção de espaços públicos apenas os hábitos das classes dominantes eram contemplados, pode se dizer que, com o tempo, ocorreu uma democratização desses espaços. Assim, os jogos das turmas de idosos, as quadras e as pistas de skates dos mais jovens e o churrasco e a bebida dos boêmios passaram a ser também contemplados. Mas o design da exclusão cobrou seu preço. Bancos de praças receberam divisórias para impedir que as pessoas se deitem, e chafarizes andaram sendo desligados para se evitar o banho dos moradores de rua.

Duas perspectivas já existentes poderiam nortear os novos projetos de espaços públicos da cidade. Uma delas seria o lazer ativo, existente no Parque de Madureira, em que é permitido banhar-se na cascata. A outra é a noção de que espaços públicos podem e devem colaborar para a prestação de serviços ambientais à cidade. Assim, mais áreas permeáveis, florestas de bolso, jardins de chuva e espaços com menos necessidade de cuidados paisagísticos, ou seja, soluções baseadas na natureza, seriam elementos a serem incorporados ao novo repertório de nossos parques e praças. Mas como vimos, esses elementos só serão incorporados aos espaços públicos caso se tornem demandas da sociedade.

artigo publicado no Diário do Rio em 01/04/2021

sábado, 27 de março de 2021

O linchamento do servidor


Nesta semana me vi envolvido num turbilhão de forças políticas que buscaram me pintar como alguém com os piores sentimentos do mundo, capaz de desejar a morte de alguém, no caso o Presidente da República.

Sou de oposição, me orgulho de não ter votado no atual Presidente, justamente por antever ameaças à democracia que os seus seguidos mandatos como Deputado já demonstravam. Mas nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar que a ação política do Presidente levaria o Brasil à catastrófica situação em que se encontra. Por sua ação contra a compra de vacinas, por sua incitação às aglomerações contagiantes, por desacreditar o uso das máscaras, pela recomendação do uso de remédios sem comprovação científica, e por intervenção direta na política de saúde, ao demitir ministros comprometidos com o combate à pandemia, chegamos à inacreditável soma de 300 mil mortos, com tendência de crescimento. Médicos e enfermeiros estão exaustos, muitos tendo morrido, hospitais estão superlotados, nem todos os doentes conseguem atendimento, e os cemitérios são densamente povoados pelos corpos dos vencidos.

Na última quinta-feira participei de reunião de trabalho em que pessoas tiravam as máscaras, ou se aproximavam perigosamente sem as mesmas, num claro sinal de incompreensão da gravidade do momento. À noite, cheguei em casa cansado, depois de trabalhar o dia inteiro com minha máscara apertada, temendo por minha saúde, e fiz um desabafo no Facebook. Escrevi “quero o fim político ou físico de Bolsonaro”. Claro que não desejo matar ninguém, não acredito em soluções violentas, sou da paz. O que escrevi era a expressão de uma vontade por uma solução mágica, que fizesse o presidente desaparecer, se desmanchar no ar, ser apenas um pesadelo que não mais existisse quando acordássemos. E assim, as pessoas de bem, e da ciência, poderiam cuidar da pandemia, dar fim a esse momento trágico no país.

Um dia após minha postagem, já havia muitos ataques de seguidores do Presidente da República. Dois dias depois fui surpreendido por um vídeo do Deputado Federal Luiz Lima dizendo que havia pedido à PGR o meu enquadramento na Lei de Segurança Nacional. E em seguida, surgiu um vídeo no YouTube me apresentando como um ser execrável. Estou realmente assustado com o desenrolar dos acontecimentos e com a possibilidade de alguma ação extremada contra minha pessoa.

Admito que o que eu escrevi pode ter deixado brechas a outras interpretações. Somos falhos, muitas vezes erramos. Mas tenho a absoluta certeza de que não tenho desejos de violência contra ninguém. No entanto, estou sendo acusado de incitação a um crime. Como incitar alguém se escrevi na primeira pessoa do singular? Sujeito oculto eu, não há como conclamar ninguém. Qualquer que seja o conteúdo do que escrevi, é a expressão de um pensamento pessoal. Não lidero grupos, nem fanáticos.

E aí entramos perigosamente no campo do cerceamento da liberdade de expressão. A invocação à Lei de Segurança Nacional, reconhecida por diversos juristas como um entulho da ditadura militar, tem como única finalidade acossar opositores do Presidente, fazê-los se sentirem ameaçados pelo Estado, calar suas vozes. Levantamento feito pela equipe de advogados congregada por Felipe Neto encontrou mais de 200 pessoas no Brasil sofrendo ameaças semelhantes. Isso é uma situação absurda, um retrocesso, uma ameaça à democracia!

Um dos comentários escritos por apoiadores da atitude do Deputado é bem exemplificador do pensamento dominante entre esse grupo: “Esse bandido tinha que ser funcionário público”. O Deputado vem pressionando o Prefeito em relação a diversas questões das quais discorda, como o cancelamento do carnaval, a desativação de hospitais de campanha, a interdição das praias no auge da pandemia, e o fechamento de atividades na cidade visando a redução de casos de Covid-19 e de internações, e consequentemente de mortes. Não teve muito sucesso. Mas, ao se deparar com a postagem de um cidadão, pareceu encontrar um ponto fraco, onde sua pressão sobre a Prefeitura poderia ter sucesso. Fui usado numa suja disputa política.

Para meu conforto, um conjunto imensamente expressivo de entidades de classe, como o Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB-RJ, o Sindicato de Arquitetos do Rio de Janeiro - SARJ, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo – CAU-RJ, a Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura – FENEA, a Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e urbanismo – ABEA, a Associação Brasileira de Arquitetos e Paisagistas – ABAP, e a Sociedade de Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro – SEAERJ vieram a público afirmar que uma punição ou exoneração estaria ferindo “as prerrogativas constitucionais asseguradas a todo cidadão, registradas no artigo quinto, inciso IV da Carta Constitucional, sobre a liberdade de expressão e manifestação de livre pensamento.”

Também individualmente um número imenso de amigos, colegas, políticos e conhecidos vieram demonstrar seu apoio aos meus direitos, e à minha integridade física e emocional. É esse amparo que permite atravessar a atual tormenta, sabendo que a rejeição a toda essa situação não se trata da proteção apenas à minha pessoa, mas à liberdade de expressão dos brasileiros. A democracia é um bem precioso que nos custou muito alcançar. Não podemos ceder nem um milímetro! O Brasil é maior do que esses que nos atacam.

artigo publicado no Diário do Rio em 25/03/2021


A restauração da cobertura de cobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro


Há vários anos já vinha se cogitando sobre a necessidade de se realizar a restauração da cobertura de cobre do Teatro Municipal. Entre outros problemas, ela já apresentava perda de estanqueidade das chapas de cobre, permitindo a passagem da umidade. Algumas chapas examinadas permitiam a constatação a olho nu das micro-fissuras existentes. Havia o desgaste natural, afinal o Theatro estava fazendo cem anos. Mas também ocorreram intervenções equivocadas ao longo desse tempo. Foram encontradas, por exemplo, chapas presas com pregos, o que permitia a entrada da água pela perfuração realizada, e um produto de vedação, que havia sido aplicado, já deteriorado e fixado ao cobre. Além disso, as pessoas responsáveis pela manutenção do edifício terminavam por ajudar no desgaste ao pisar nas partes planas e mesmo sobre partes mais frágeis, como cúpulas e ornatos.

As calhas em cobre também apresentam problemas, como rachaduras e perfurações por pregos, que prejudicavam a sua estanqueidade. E havia obstruções nos tubos de queda. Tantos problemas levaram à ocorrência de infiltrações nos tetos artísticos das rotundas e do corpo central sobre o foyer. Neste último, o painel de Visconti chegou a ser bastante danificado.

Diversas alternativas técnicas foram buscadas para essa restauração. Chegou-se a se pensar na substituição total do madeiramento, das chapas planas e da maior parte dos ornatos em cobre. Tal alternativa, no entanto, era excessivamente cara e não previa o aproveitamento dos ornatos originais, verdadeiras obras de arte.

Mas, em 2008, o Theatro obteve o patrocínio do BNDES e da Petrobras, o que, afinal, possibilitou a execução da obra. Foi escolhida a empresa Ópera Prima para a condução dos trabalhos de restauro da cobertura e, para a execução dos serviços em cobre, foi contratada a empresa N.Didini, que já havia executado serviços semelhantes na cobertura de cobre da Catedral da Sé de São Paulo. A obra foi acompanhada pelo IPHAN e pelo INEPAC.

A restauração foi executada baseando-se na premissa de que os ornatos deveriam ser mantidos após serem recuperados. Eles foram tratados caso a caso, promovendo-se a “lanternagem”, a soldagem das partes soltas, e a substituição de partes deterioradas. Somente as chapas planas foram integralmente substituídas.

A obra teve início pelas duas rotundas e pelo corpo central sobre o foyer, elementos na parte frontal da cobertura. Posteriormente a obra foi avançando para outras partes da cobertura. Cada peça desmontada cuidadosamente recebeu uma identificação indicativa de sua posição, material e função. Numa ficha foram lançados os problemas encontrados e as intervenções necessárias.

A obra contemplou também o madeiramento abaixo das chapas de cobre. Madeiras ou partes delas que estavam comprometidas foram substituídas usando o ipê cumaru. No madeiramento do corpo central sobre o foyer foram encontradas madeiras originais em pinho de Riga e outras peças já substituídas.

Uma característica conhecida das coberturas de cobre é a cor verde, resultado da pátina que se forma ao longo do tempo. A substituição das chapas lisas produziria uma diferença de cor entre as novas chapas e os ornatos já esverdeados. Assim, optou-se por patinar as novas chapas, visando uma apreensão mais uniforme do conjunto. O processo consistiu em aplicar um produto, capaz de provocar a pátina, deixando as mesmas por um tempo numa estufa com nuvem de água em dispersão. Na presença da umidade, a reação necessária se produzia.

O douramento dos ornatos foi um capítulo à parte na restauração do Theatro Municipal. No passado já haviam sido feitas prospecções que encontraram resquícios de douramento nos mesmos. Ao se fazer a sua remoção para o restauro, foi possível comprovar a existência desse douramento, ainda existente em algumas partes. Fotos antigas, especialmente as de Augusto Malta, também confirmaram esta percepção. No entanto, não foram encontrados no Brasil profissionais que realizassem o douramento sobre cobre no exterior de edificações.

Pesquisas que realizei me levaram ao atelier de Fabrice Gohard, de Paris, que havia feito as obras de douramento da cúpula da Ópera de Paris, da chama da estátua da liberdade em Nova Iorque e da cobertura do Palácio de Versailles. Foi realmente uma grande sorte tê-lo tido à frente do douramento da cobertura do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que agora segue lindo, nos encantando por pelo menos mais cem anos.

artigo publicado no Diário do Rio em 18/03/2021


Repensando o Porto Maravilha

A Perimetral - foto Roberto Anderson

O Estatuto das Cidades, de 2001, reuniu legislações anteriormente existentes a novas propostas, longamente defendidas por arquitetos e urbanistas. Entre elas estão a outorga onerosa e as operações consorciadas. A primeira se refere à possibilidade de a municipalidade estabelecer um índice mínimo de aproveitamento do terreno, ou seja, quantas vezes a medida da sua área pode servir de parâmetro para o direito líquido e certo de se edificar. Assim o índice 1 permitiria ao proprietário edificar o correspondente a uma vez a área do terreno. Tudo o que passasse desse índice seria mediante pagamento à municipalidade. Já a operação consorciada permite estabelecer por lei um perímetro onde essa outorga onerosa se dará e a exigência de que os recursos auferidos serão investidos na área definida pela operação.

O Porto Maravilha é uma operação consorciada. Diferentemente do que ocorreu na urbanização da Barra da Tijuca, quando o poder público arcou com os investimentos em infraestrutura, e o capital imobiliário capturou os ganhos com a enorme valorização dos terrenos, o projeto buscou, acertadamente, recuperar os investimentos públicos. Através do leilão das Cepacs, os Certificados de Potencial Construtivo, ou seja, o potencial de construção acima do índice 1, a Prefeitura intencionou levantar recursos para pagar os investimentos, como a demolição da Perimetral, a construção do Túnel Marcelo Alencar, as novas galerias de águas pluviais, etc.

Essas obras, por terem  sido extremamente custosas, obrigaram a emissão de um volume alto de Cepacs, obtido com a elevação dos gabaritos da área, que variam de 30 a 50 pavimentos. Na falta de compradores no momento do seu lançamento, a Prefeitura foi socorrida pela Caixa Econômica Federal que, de uma vez, arrematou a totalidade dos certificados disponíveis.

O tempo mostrou que esse não foi um bom negócio para a Caixa. A sua entrada no negócio teve, obviamente, uma interferência política. Na sequência advieram a crise econômica do governo Dilma, a do governo Bolsonaro e a pandemia. Sem liquidez, a Caixa deixou de fazer repasses ao consórcio de empresas privadas responsável pelos investimentos e pela manutenção da área do projeto, o que levou a Prefeitura a reassumir ali os serviços públicos.    

A situação atual é de aguda crise econômica, sem perspectivas de saída a curto prazo, baixos investimentos da construção civil, uma Área Portuária que ainda não conseguiu entregar as suas maravilhas e um grande volume de certificados parados, em posse da Caixa Econômica. É necessário pensar saídas.

A relação entre o volume de Cepacs e o estoque de terrenos para sua aplicação se encontra estática. Se o valor delas fosse reduzido, a Caixa arcaria com o prejuízo, pela diferença de preço que pagou pelas mesmas. Mas e se o estoque de terrenos fosse ampliado? Talvez houvesse um aumento da demanda pelos certificados, facilitando a sua saída. Isso poderia se dar com a incorporação de bairros vizinhos à Área Portuária à Operação Consorciada do Porto Maravilha. O Caju e São Cristóvão, com enormes possibilidades de edificação, seriam bons candidatos a integrarem a Operação.

Como a Operação do Porto Maravilha é fruto de uma lei, a ampliação da sua base territorial teria que se dar por nova lei a ser votada na Câmara de Vereadores. Seria também uma oportunidade para se corrigir dois graves problemas do projeto: a ausência de um Estudo de Massa, que defina que imagem urbana se deseja alcançar, e a reserva de terrenos para a habitação, especialmente a habitação social, a grande ausente do projeto.

A paralisação do projeto Porto Maravilha não é boa para a cidade, nem para a construção civil. Decisões que rompam a atual inércia precisam ser tomadas. É hora de se buscar propostas e soluções.

artigo publicado no Diário do Rio em 11/03/2021

sexta-feira, 5 de março de 2021

A ruína de nossas edificações

Parque das Ruínas - foto Roberto Anderson

Tendo sido convidado a participar de uma banca de conclusão de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF, para análise de uma dissertação, cujo tema está relacionado à percepção e exploração de imóveis arruinados, fui levado a pensar sobre essa questão.

Nossas cidades estão repletas de imóveis nessa situação, pelas mais diversas causas. No Rio de Janeiro, são muitos os antigos galpões industriais tornados inúteis pela decadência econômica da cidade, especialmente a decadência do seu setor industrial. Bairros inteiros, como São Cristóvão e demais bairros da Zona Norte estão coalhados desses prédios abandonados, saqueados pela falta de cuidados, à espera do desabamento, da demolição, ou da grande sorte da reconversão.

Mas não são só grandes galpões e edifícios industriais a sofrer o processo de arruinamento. Por todos os bairros mais antigos da cidade há sobrados, cujas coberturas já se foram, e que permanecem com suas paredes descascadas, inabitados ou invadidos por quem não tem mais do que isso. Às vezes só as fachadas, já sem janelas, se equilibram sabe-se lá como, sem apoios laterais. Incêndios, propositais ou não, falta de recursos para realizar a manutenção, desaparecimento dos proprietários, muitas são as causas desse abandono.

Quando protegidos por algum órgão de Patrimônio, em geral, se recomenda a reconstrução, com a recuperação daquilo que for possível, sem a criação de falsos elementos históricos. Um pouco raramente, o milagre se dá, e aquilo que parecia condenado ao arrasamento ressurge recuperado, habitado, reentrado na rotina dos imóveis em uso na cidade. Mas a verdade é que os recursos são escassos e a grande maioria segue sua sina em direção ao arrasamento, após longos anos de agonia fantasmagórica.

Alguns desses imóveis, no entanto, se consolidam no nosso imaginário como ruínas. Tornam-se parte da paisagem exibindo suas entranhas tomadas por vegetação, suas paredes nuas recobertas pelo limo, a tal ponto que já não desejamos sua reconstrução, mas apenas a redução do ritmo de sua continuada decadência. Como se pudessem ser congelados no estágio de deterioração em que se encontram, sem prosseguimento em direção ao arrasamento, ou retorno à condição original.

O Convento São Boaventura, em Itaboraí, é um exemplo de ruína consolidada, tanto imageticamente, quanto estruturalmente, após intervenções que estancaram seu processo de arruinamento. Da mesma forma a Igreja São José da Boa Morte, em Cachoeiras de Macacu foi objeto de tombamento na sua condição de ruína, não cabendo a sua reconstrução. Ambos foram abandonados após surtos de doenças endêmicas, como cólera e malária, que ali grassavam no século XIX.

No bairro de Santa Teresa existe um belo exemplo de recuperação híbrida de um imóvel, que permitiu o seu uso sem o retorno à sua condição original, mantendo-se a imagem de ruína. Trata-se do Parque das Ruínas que, após intervenção projetada pelo arquiteto Ernani Freire, tornou visitável a antiga casa de Laurinda Santos Lobo. Mas não foi desfeito o trabalho do tempo e do vandalismo sofrido pela casa, que descascou suas paredes e suprimiu esquadrias, pisos e tetos. Depois de tanto tempo existindo naquelas condições, a sua imagem como ruína já havia se incorporado à do bairro.

Mas como distinguir imóveis arruinados, que tanto poderão ser recuperados, como resvalarem para o arrasamento quase completo, daqueles que se consolidam no nosso imaginário como ruínas? É pouco clara essa separação, é subjetiva, mas é preciso buscá-la. Só a ação do tempo, mas não de um tempo curto, mas de um tempo alongado, cobrindo mais de uma geração, pode criar essa percepção.

Assim, passaríamos a tratá-los de "lugares abandonados", arruinados talvez, para criar uma separação com a expressão ruína. O simples abandono não gera ruína. O desabamento de um telhado, ou de algumas paredes, não é suficiente para gerar a percepção de ruína. Em arquitetura, essa não é uma questão trivial. Exige sensibilidade de quem se depara com um imóvel arruinado. Pode se propor a sua recuperação ou a sua restauração. Mas há um ponto, que é dado pelo tempo, pela sedimentação no imaginário das pessoas da sua forma arruinada, em que a propositura de recuperação soaria equivocada.

De qualquer forma é triste ver como o direito à propriedade, levado às últimas consequências, produz tanto dano e tanta destruição. Há instrumentos de intervenção para estancar tal epidemia de arruinamento. O Estatuto das Cidades cria essas condições. Mas como é difícil convencer os gestores públicos a lançarem mão dos mesmos!

artigo publicado no Diário do Rio em 04 de março de 2021


O Serro e a mineradora

Igreja de Santa Rita - foto Rogério Emerson

A cidade em que nossos pais nasceram, quando diferente da nossa, é um pouco como o segundo time do coração. A cidade da minha mãe é o Serro, em Minas Gerais. Dela, ouvia histórias, como a da caça a pepitas de ouro feita pelas crianças entre as pedras das ruas, após uma chuvarada. Ou a da marcha dos jovens se despedindo da cidade por terem se alistado para lutar na Segunda Guerra. Mas as melhores histórias eram sobre bailes no clube da cidade, quando minha mãe podia se gabar dos seus feitos como boa dançarina, de sua predileção por esse ou aquele parceiro de tango, e de como seu pai não achava nada apropriadas aquelas liberdades.

Visitei a cidade por diversas vezes ao longo da vida. Alguns tios e primos lá permaneciam e eu tinha onde me hospedar. Lá presenciei a força da enxurrada pelas ruas, imaginando se ainda seria possível encontrar pepitas. Lá vi uma procissão com as mulheres carregando pedras nas cabeças em cumprimento a promessas nem sempre atendidas. Lá subi em árvores gigantescas para comer bacupari. E lá conheci o “footing”, o hábito de passear todas as noites pela praça, indo e vindo, os brancos na parte externa e os negros na parte interna da mesma.

O Serro é uma cidade colonial do ciclo do ouro, protegida na primeira leva de cidades tombadas pelo Iphan, de onde já saíram brasileiros ilustres (essa frase sempre é usada por serranos) e que depois parou no tempo, como Parati, esquecida da rota do progresso. Foi nessa cidade esquecida que vi pela televisão a maior conquista da minha modernidade, o homem pisando na lua!

Mas isso foi quando já havia televisão nas casas. Quando a televisão chegou ao Serro, os donos das poucas casas privilegiadas se sentiam na obrigação de abrigar os vizinhos e amigos, além dos que se aglomeravam do lado de fora para ver pela janela as peripécias da novela O Sheik de Agadir. Depois o prefeito colocou uma televisão num poste da praça e as pessoas pararam de circular. Formavam uma rodinha em torno da tv. Mas quando, mais tarde, as TVs se popularizaram nas casas, a praça se esvaziou.

O Serro tem um queijo único, conhecido em diversas partes do Brasil, e tem uma linda festa de Nossa Senhora do Rosário. Na véspera da festa acontece a queima de fogos, que desenham a imagem da santa num mastro. Já no dia da dedicado à Virgem do Rosário, três grupos com roupas e instrumentos distintos desfilam pela cidade, após terem assistido à missa da manhã. Os caboclos são os mais vistosos, usam batom, cocares e saiotes de penas, brincos com pingentes, colares, peitilho com bordados e pedras coloridas e, às vezes, sob eles, camisas coloridas de times de futebol. Os caboclos manejam um pequeno arco de madeira, cuja flecha produz um som seco ao ser puxada contra o mesmo. O acordeom acompanha o ritmo produzido pelos arcos dos demais caboclos.   

Há também os catopês, com seus mantos de chita colorida, seus cocares, seus tambores e sua dança contida. E há os marujos, vestidos de marinheiros, tocando violões e acordeons, com sua música de influência mais europeia, marcada pelo ritmo das espadas do capitão riscando o chão. Acompanhados do rei e da rainha da festa, os três grupos vão às casas dos festeiros, que oferecem comidas e muita bebida. Circulam pela cidade e quando se encontram fazem as “embaixadas”, quando recitam falas imemoriais relembrando guerras passadas, a nau catarineta e um tanto de coisas que só os mais velhos sabem o significado.

Pois essa terra, de onde vieram minha mãe e toda a sua família, com suas igrejas e casario centenários, vive agora um conflito pela aceitação por parte do prefeito da instalação da mineradora Herculano na cidade. Ela se propõe a explorar uma jazida do mais puro minério de ferro ali adormecido por milhões de anos. E há os que se opõem à proposta em nome da defesa do meio ambiente e da qualidade das águas locais.

É uma luta difícil, com acusações de que o prefeito teria dado o aval de conformidade para a instalação da mineradora baseado nas decisões de uma reunião do Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente anulada por conter irregularidades. Os defensores do meio ambiente têm a difícil tarefa de convencer os habitantes da cidade, por onde o progresso deixou de passar, que a proposta da mineradora traz armadilhas para o futuro, embrulhadas em benesses para o presente. Os defensores da proposta da mineradora aprenderam a usar argumentos que misturam palavras melífluas, que parecem significar proteção ao meio ambiente, com aquelas mais surradas, de bem-estar, progresso material e oportunidade única para uma geração.    

Minas Gerais tem sua história ligada a diversos ciclos de mineração, assim como à exaustão desses recursos, deixando para trás cidades destruídas, como lamentou Drumond por sua Itabira, ou Brumadinho, destruída com a perda de centenas de vidas no rompimento de uma barragem. Dói saber que essa história poderá se repetir no Serro, a cidade mítica da minha família.  

artigo publicado no Diário do Rio em 25 de fevereiro de 2021


Precisamos falar sobre parques ocupados

UPP no Parque Ary Barroso - foto Roberto Anderson 

No governo de Sergio Cabral, quando a implantação de UPAS havia se tornado uma das estrelas daquela administração, o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac foi instado a analisar um “pedido” para a instalação de uma delas no Parque Ary Barroso, na Penha. Por ser tombado, o Instituto precisava ser ouvido sobre o assunto. Os técnicos, naturalmente, se colocaram contra a iniciativa, mas ao fim a decisão do órgão de tombamento foi a de permitir, em caráter provisório, desde que se ocupasse o mínimo de espaço possível. Hoje, computando-se a área para estacionamento e outras atividades, esse espaço já não é tão mínimo.

Na sequência dessa aprovação instalou-se naquele parque uma UPP sobre a área de campos de esporte, e uma Arena Carioca, equipamento que substitui as lonas culturais, em área mais ao centro do parque. No momento, parte da UPP se encontra inutilizada após um incêndio. A carcaça da edificação, enegrecida pelo fogo, continua lá. Boa parte do parque foi também ocupada por veículos, já sem uso, da polícia ou por veículos dos usuários dos equipamentos lá instalados. O resultado é um parque irreconhecível, espremido entre tais equipamentos públicos e uma área de encosta do próprio parque, onde a presença da unidade policial não inibe a existência de malfeitos. O Parque Ary Barroso, que já teve cascatas e lagos, áreas ajardinadas e de esportes, é sempre lembrado com nostalgia pelos moradores da Penha e adjacências.

Essa não é uma prática isolada. No Parque Recanto do Trovador, em Vila Isabel, igualmente tombado, a instalação de uma Nave do Conhecimento foi embargada, mas uma Vila Olímpica já havia sido construída e lá permanece. A Vila Olímpica, apesar de atualmente maltratada, é um equipamento extremamente útil aos moradores da comunidade contígua ao parque. Mas não há dúvidas de que representa uma interferência forte na sua paisagem.

No Centro, a Praça Procópio Ferreira, em frente à Central do Brasil, se encontra integralmente ocupada por instalações da Guarda Municipal. E no Leblon, a Praça Nossa Senhora Auxiliadora perdeu grande parte de sua área para um CIEP, ainda no governo Brizola.  Há pela cidade diversos outros exemplos semelhantes.

Não se discute a necessidade de que o poder público tenha espaços para seus equipamentos. Por isso, a legislação de aprovação de loteamentos exige a destinação de parcelas do mesmo a praças ou escolas. Muitos desses terrenos, por não terem sido corretamente ocupados, terminam sendo invadidos, o que cria situações de difícil reversão. No entanto, em áreas mais valorizadas da cidade há sempre maior dificuldade de se encontrar tais espaços. E aí as praças são vistas como uma alternativa possível. Mas não deveriam ser.

É preciso sair desse jogo de empate para a administração pública, mas que talvez seja de perdas para a cidade. A ocupação de uma praça ou parque, parcial ou integralmente, não deve ser vista como benéfica para a mesma. O primeiro passo deveria ser a compreensão de que todos os órgãos públicos buscam a melhor forma de produzir serviços para a coletividade, mas que isso não pode se dar em detrimento dos serviços prestados por um deles. Uma praça fechada ou parcialmente ocupada é um serviço a menos para o cidadão e muitos serviços ambientais a menos para a cidade.   

A atividade econômica da cidade perdeu dinamismo nos últimos anos, deixando muitos imóveis, especialmente os industriais vazios. Na área central houve uma grande saída de empresas. A requalificação de galpões ou de edifícios de escritórios pode ser uma boa alternativa para a instalação desses equipamentos. Mas para que tal escolha seja feita, a opção parque ou praça não poderia estar disponível. Será possível mudar?

artigo publicado no Diário do Rio em 18 de fevereiro de 2021


Das coisas do Rio

foto Roberto Anderson

Me lembro da maresia que invadia as ruas de Copacabana. Ao atravessar o Túnel Novo já se percebia uma atmosfera espessa, uma névoa, e o cheiro de mar. A umidade que colava na calçada. Seria real ou ilusão de uma criança? Depois disso a praia foi aterrada e o mar empurrado para dezenas de metros adiante. Então é possível que antes esse fenômeno acontecesse mesmo.

Eu me lembro dos voos dos morcegos perto da árvore de sapoti. De sua entrada pelas janelas, e do medo que, em seu voo cego, batessem em mim.

 

Eu me lembro do saco surrado de bolinhas de gude. Não me lembro muito do jogo, nem se jogava bem. Mas, de alguma forma, eu acumulava bolinhas, minha riqueza. Eram muito para quem tinha tão pouco.

 

Eu me lembro das caminhadas solitárias pela borda do mar, mar calmo da Baía de Guanabara. De andar equilibrando na mureta ao longo desse mar, passando por amendoeiras, dono do meu tempo e do meu querer.

 

Me lembro das placas de piche na praia da Freguesia, na Ilha do Governador. Eram placas arredondadas, de tamanhos diversos, originadas da lavagem displicente e criminosa dos porões dos petroleiros na Baía de Guanabara.  Em certos dias, era difícil não pisar nelas, que grudavam na sola do pé. Na saída da praia, além de retirar a areia dos pés, era preciso passar um graveto para tirar a parte mais grossa das placas. Mas as manchas escuras na sola do pé só com o varsol, que já ficava na borda do tanque esperando o momento de ser útil.

Me lembro do bonde que subia para o Alto da Boa Vista. À medida em que subia, a temperatura ia baixando, e o verde das árvores dominando a paisagem. No ponto final o cobrador virava os encostos dos bancos e o que era atrás virava frente. Aí era só descer com o mesmo bonde. Passeio bom e barato para quem tinha pouco dinheiro.

Lembro também das borboletas no caminho do trem do Corcovado. Mais do que do Cristo ou da paisagem, me recordo da profusão de borboletas voando do lado de fora das janelas do trem.

Me lembro das horas de aulas matadas na Quinta da Boa Vista, da gravata ensebada do Pedro II, com o nó sempre pronto.

Me lembro da ida em bando à praia, sem camisa, descalço, só com o dinheiro da passagem no bolso da bermuda, para não ter a preocupação de deixar algo na areia enquanto passávamos horas dentro d’água.

Tenho a deliciosa lembrança de atravessar de pedalinho a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, por cortesia do amigo que lá trabalhava, para tomar sorvete em Ipanema nas noites de verão.

O Rio é a minha casa, está gravado na minha pele, nas minhas memórias, no que eu sou.


artigo publicado no Diário do Rio em 11 de fevereiro de 2021

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Reviver o Centro

foto Roberto Anderson
E novamente o centro do Rio de Janeiro se encontra numa situação difícil, ameaçado de decadência, e objeto de um projeto de revitalização. Ao longo de sua história foram inúmeras as idas e vindas, os ciclos de esvaziamento e retomada do Centro. Essa “decadência”, no entanto, está sempre associada à maior presença das classes mais desfavorecidas, sejam os moradores dos cortiços do fim do século XIX, sejam os ambulantes dos anos 1980, sejam agora os moradores de rua, os sem teto, cada vez mais numerosos ali.

O primeiro esvaziamento da área, quando ainda não era o centro, mas sim a quase totalidade da cidade, se deu com a chegada da família real, no início do século XIX. Com a ida desta última para São Cristóvão, a área se tornou o centro de uma cidade expandida, e perdeu a moradia das famílias abastadas. Foi então ocupada por trabalhadores, imigrantes e, após o fim da escravatura, por negros libertos, muitos vindos da Bahia. As reformas urbanas do período Pereira Passos expulsaram essa população através da demolição de suas moradias e do que hoje chamaríamos de um processo de gentrificação. As moradias dos pobres foram substituídas por escritórios, lojas e sedes bancárias. Mais tarde, o Decreto Municipal 322, de 1976, chegou a proibir a edificação de moradias na área, proibição essa só alterada pela Lei do Centro, a Lei nº 2236/1994.

O Centro retomado pelas classes dominantes se tornou uma vitrine da cidade, com suas lojas de moda e cafés. Depois, por volta de década de 1950, o Centro passou a sofrer a concorrência de outros bairros, como Copacabana, Tijuca, Méier, Madureira, Botafogo e Ipanema, que passaram a receber funções antes restritas àquela área. Mas ele se manteve como centro principal, lugar de chegada de vários sistemas de transportes, como os trens, as barcas e até mesmo aviões, e lugar de maior concentração de postos de trabalho.

A mudança da capital para Brasília, na década de 1960, o Plano de Lucio Costa para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá na década de 1970, e a crise da Bolsa do Rio, com a consequente transferência do setor financeiro para São Paulo foram baques importantes que, na década de 1980, se refletiram numa decadência física dos espaços públicos do Centro, na fuga das grandes empresas e na afluência do comércio ambulante, que tomou todos os espaços disponíveis.

Segundo Villaça, a decadência do centro do Rio de Janeiro naquele período, quando comparada às de outros centros de metrópoles brasileiras, era menos acentuada, já que foi menos abandonado como local de emprego das classes de mais alta renda. Segundo o autor, a longa tradição de uso pela burguesia ajudou “...a manter a vida no centro e a nele reter os empregos de classe média para cima, conservando a vitalidade imobiliária.”¹ A grande oferta de equipamentos culturais e o comércio qualificado também ajudaram a manter a vitalidade do centro do Rio de janeiro, mesmo com todos os problemas que vinha enfrentando.

A reação do poder público na década de 1990, com intensa participação da Subprefeitura do Centro, se deu através das ações de controle urbano, que disciplinaram a atividade de comércio ambulante, e a requalificação dos espaços públicos, por investimentos públicos, ou por parcerias público-privadas. Tais ações foram suficientes para o retorno do comércio de luxo, a abertura de universidades privadas, e o retorno de empresas.

A crise atual se mostra mais preocupante. O esvaziamento provocado pela pandemia e agravado pela má administração anterior parece dizer que já não basta uma intervenção de ordenamento urbano ou de embelezamento. As condições descritas por Vilaça talvez já não existam. O trabalho presencial nos escritórios está esvaziado desde o início da pandemia e não deverá retornar aos patamares anteriores. Assim, o Centro que só conta com moradias nas suas áreas periféricas, como a Lapa e o Bairro de Fátima, perdeu a atividade que pelo menos lhe dava vida em uma parte do dia.

Como dito acima, desde 1994 é permitido a construção de habitações no Centro. Mas o mercado imobiliário não reagiu. A contínua concessão de licenças para edificação em outros bairros, especialmente na Barra da Tijuca e no Recreio, e a sinalização efetiva do poder público de que esses eram locais favorecidos para investimentos públicos, talvez ajude a explicar a inércia da função habitacional no Centro. Assim, só uma demonstração clara do poder público de que deseja incentivar moradias naquela área, inclusive com isenções fiscais, como se anuncia no projeto Reviver Centro, poderá alterar o quadro atual. 

Acertadamente o projeto também dá isenções fiscais à reconversão de edifícios de escritórios em prédios habitacionais. Essa é uma excelente oportunidade para o mercado imobiliário, já que boa parte dos edifícios do Centro padecem de decadência tecnológica. Um número altíssimo desses edifícios, construídos entre as décadas de 1920 e 1970, têm espaços internos pequenos, que não mais condizem com as necessidades das empresas, mesmo antes da pandemia. Faltam-lhes recursos tecnológicos e conforto, demandados pelas mesmas, como ar-condicionado central, serviços avançados de telefonia, saídas para equipamentos de informática, elevadores inteligentes, segurança, administração monitorada por circuitos internos de TV, etc. Assim, é bem possível que o mercado imobiliário abrace essa oportunidade de ouro. Mas atenção, o risco de se deixar os pobres de fora é sempre tentador.

Há ainda um fato que, na nossa tradição de planejamento frouxo, precisaria ser modificado. Trata-se da liberalidade na concessão de licenças para edificação. Apesar do atual Plano Diretor sinalizar prioridades, elas não se manifestam no efetivo direcionamento pelo poder público da concessão de licenças para edificação. Esse modelo tornou inócua a oferta de espaços para edificação na Área Portuária e poderá sabotar o Reviver Centro. Estaremos dispostos a exercer um planejamento mais impositivo ou permitiremos que o mercado imobiliário defina suas próprias prioridades? A saber...        
¹ - VILLAÇA, Flávio (1998). Espaço Intra-urbano no Brasil, São Paulo, Studio Nobel, pp. 288 e 291.

Artigo publicado em 05 de fevereiro de 2021 no Diário do Rio

A Fazenda

foto Roberto Anderson
O sujeito precisa acordar cedo, mas é cedo de verdade, quando, mesmo no verão, o céu ainda não clareou. É que o caminho até o local de partida para a lida é longo. Quando for seis horas da manhã, ele já terá que abrir os portões. 

Os outros trabalhadores também já estão chegando aos diversos locais de encontro, de onde partirão para o trabalho. Mas dá para tomar um café e saber das novidades dos colegas. Depois é reunir enxadas, ancinhos e tesouras. Se for dia de plantio, uma turma já estará indo ao horto escolher mudas para empilhá-las na caminhonete. 

Enquanto isso o encarregado de preparar o alimento dos animais já começa a picar legumes e hortaliças, e a separar o milho e a ração. A bicharada come bastante, e mais de uma vez por dia! É o que garante o pelo lustroso e as penas coloridas. 

As turmas de campo já chegaram onde vão atuar. Avaliam o quanto o mato avançou e o que dá para aproveitar. Nos últimos tempos tudo estava meio abandonado. Capinam duro, arrancam com as mãos as ervas daninhas, seus olhos treinados sabendo separar o que pode ficar. 

Antes do plantio, é preciso afofar a terra. Enxadas entram em ação. A terra tá bem seca e um pouco de água vai bem. As mudinhas vão sendo retiradas dos saquinhos pretos e plantadas nas covinhas onde agora seguirão sua vida fora da proteção da estufa. 

Pessoas passam e gostam de ver as turmas trabalhando. Cumprimentam, perguntam sobre o que está sendo plantado, e às vezes oferecem para aguar as plantinhas nos dias seguintes. 

A alegria é grande porque hoje também é dia de plantio de mudas de árvores. Os locais e as espécies foram escolhidas por especialistas, com décadas de experiência no assunto. Mas são os braços trabalhadores que abrem as covas, jogam adubo, colocam a muda no lugar onde, se tudo correr bem, se desenvolverão. As folhas da leucena, árvore oportunista para uns, invasora para outros, mas cujas folhas são ricas em nitrogênio, são ótimas para figurarem nesse berço em que a futura árvore crescerá. Por fim, tem que fincar os tutores, ligá-los às mudas, e jogar as últimas pás de terra.

O sol já vai alto, o trabalho está avançado quando o pessoal do escritório chega para conferir. Alguns são entusiasmados, indagam sobre tudo e até tentam meter a mão na massa. Mas sua função é outra. Precisam planejar onde as turmas trabalharão nas próximas semanas, garantir insumos e ferramentas, e o mais importante, se o pagamento virá direitinho, sem surpresas ou atrasos.

Muitas vezes as marmitas são consumidas ali mesmo, os trabalhadores sentados em alguma sombra. Bom mesmo é quando dá para voltar à sede, onde um companheiro prepara a bóia, com os ingredientes comprados por todos. Não há luxos. O refeitório é simples, assim como os vestiários. O pagamento sempre foi menor do que o desejado. Mas o amor às plantas e aos animais faz com que todos se dediquem ao longo de todos esses anos.

À tardinha é hora de voltar aos locais de onde partiram. Tomar um bom banho, trocar de roupa, pegar a mochila surrada, dar adeus aos companheiros, e voltar para casa. Logo os portões serão fechados. A lida do dia na fazenda urbana chegou ao fim. Amanhã tudo recomeça na Fundação Parques e Jardins.

Artigo publicado em 28 de janeiro de 2021 no Diário do Rio 

domingo, 24 de janeiro de 2021

O caminho de Santa Teresa


Saio pelo portão do condomínio realizando o ritual de molhar a mão no álcool bento. Inicio a subida em direção a Santa Teresa e logo passo pela esquina ocupada por entulhos. Hoje é com areia e restos de latas de tinta. Outro dia eram móveis quebrados e lixo. Às vezes é um carro sobre a calçada. Penso no desejo de fazer uma mini mini praça no local, trazendo um pouco de beleza e salubridade para essa triste esquina.

Passando a escadinha e entrando pela rua Alice, caminho pela calçada estreita, muitas vezes mais baixa do que o asfalto ao lado. Passo pelo jamelão que se debruça do terreno murado, deixando suas marcas roxas e caroços esmagados no piso. Do outro lado desce alguém sem máscara, me obrigando a passar para o asfalto, desafiando a sorte de não ser abatido por uma van ou ônibus acelerado.

A rua segue em zig-zag e alcanço a caixa de livros, que podem ser retirados, por empréstimo ou apropriação. Almas iluminadas criaram a caixa com todo cuidado e a abastecem regularmente. Mas a portinhola de vidro foi vandalizada. Hoje os livros são de física e matemática. Mas já encontrei ali parte da biblioteca de algum urbanista.

Andando ladeira acima alcanço a escada que desce de uma comunidade. É fácil reconhecer, sempre há lixo transbordando de contêineres que cismam de serem insuficientes para as necessidades do povo que mora lá em cima. O consulado do Sri Lanka se instalou junto à escada e fico pensando no contraste entre o edifício consular e os materiais endereçados à Comlurb.

Outra marca constante naquele ponto é o transbordamento da caixa de esgoto, provocando um rio indesejável até o lado da calçada por onde sigo. Minha estratégia é esperar que não venha nenhum carro e dar uma corridinha nesse intervalo até o ponto onde já não haja esgoto correndo no asfalto e na sarjeta. Em caso contrário o banho não será nada agradável. Ah CEDAE, por que não me sinto revoltado com sua privatização? Fossem de esquerda ou de direita, os governos se sucederam lhe mantendo nessa ineficiência.

Quase no fim da rua Alice, passo pela creche Sarita Konder, projetada e construída com recursos do arquiteto Marcos Konder. Nesses meses de pandemia a creche tem estado vazia, não se vê crianças, nem mães nos portões. Depois a rua entra no túnel do mesmo nome e despenca em direção ao Catumbi. Mas aí já é com outro nome.

Vou mudando de calçada de acordo com a insolação. Se mais cedo em busca do sol, se mais tarde, em busca da sombra, e chego à rua Júlio Otoni. Passo agora por pitangas caídas na calçada, vindas lá do alto, de um terreno com muro de pedra. Por isso mesmo, quando caem já se espatifam um pouco. Jamelões, pitangas e mangas no caminho, mas nunca consigo catar.

Carros velhos nas calçadas vizinhas, pessoas esperando no ponto de ônibus, velhos e crianças sentados em cadeiras e caixotes na curva do edifício modernista sobre pilotis marcam a entrada da favela Júlio Otoni. Carros de polícia entram e saem, ou passam pela rua em ritmo lento, com suspeição.

Um pouco acima estão as casas de festas. Nesses tempos de pandemia muitas manhãs foram marcadas pelos restos da festança clandestina ou mesmo pela festa em si, adentrando o dia, despreocupada de mortes, contaminações e todas essas coisas que nos afligem e entristecem.

Por fim chego aos trilhos da rua Almirante Alexandrino e ao mirante de onde se descortina o lado Norte da cidade. Descendo morro abaixo, os barracos dos Prezeres. Depois o Catumbi, a Central, a Baía de Guanabara. E mais adiante, se o dia estiver limpo, a Serra do Mar e o Dedo de Deus. A caminhada foi boa, hora de descer de volta pra casa.

Artigo publicado no Diário do Rio em 22 de janeiro de 2021