segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Murar os palácios de Brasília?

Praça dos Três Poderes - foto Roberto Anderson
Em artigo recente, publicado no jornal Estadão, o economista Roberto Macedo defendeu intervenções brutais na arquitetura palaciana de Brasília (Os vulneráveis edifícios de Brasília, de 19 de janeiro de 2023). Seu artigo foi motivado pela barbárie produzida na tentativa canhestra de golpe no último dia 8 de janeiro. Nessa ocasião ficou evidente que, se as forças de segurança se ausentarem, o que de fato ocorreu, tais edifícios se tornam presas fáceis de turbas enfurecidas. Após criticar a possibilidade de um arquiteto de orientação política comunista construir palácios de governo (que sandice!), a conclusão do articulista é que a arquitetura moderna, com sua leveza e transparência, seria inadequada para sediar o poder.

As soluções absurdas advindas dessa tese são então listadas. Macedo propõe a substituição das paredes de vidro das edificações da praça dos Três Poderes por muros de alvenaria. E que as portas envidraçadas sejam substituídas por grossas portas de ferro ou madeira. Quase se pode concluir que o passo seguinte seria a criação de um fosso e de pontes levadiças. 

O mais curioso é que, com sua formação, que passa a anos luz da formação dos arquitetos e urbanistas, o economista inicia suas proposições pela pergunta sobre o que fazer. Ele deve acreditar que está apto a prescrever receitas para a intervenção em obras de arquitetura. Como ele se sente à vontade para discorrer sobre soluções para alguns dos edifícios mais icônicos de Brasília, é possível imaginar que, na sua concepção, a arquitetura seria uma disciplina sem necessidade de formação específica, passível de ser equacionada na base de palpites de qualquer um.

Arquitetos, como Nádia Somekh e Hugo Segawa, já escreveram a respeito, contestando as ideias estapafúrdias do articulista, a sua falta de competência para julgar obras de arquitetura e para propor alterações tão drásticas, e a visão elitista do mesmo sobre cidades. Mas, nunca é demais buscar outros pontos de vista. Ainda mais quando a provocação é da arquiteta e amiga Fabiana Izaga.

Inicialmente, duas questões saltam aos olhos. Brasília é Patrimônio da Humanidade e como tal tem sua arquitetura protegida para o conhecimento e usufruto por novas gerações. Assim, as tontices propostas no artigo citado jamais poderiam ser implementadas. E o Capitólio, em Washington, que tem uma arquitetura tradicional, com altos muros e paredes espessas, tampouco ficou a salvo de uma invasão e depredação. Em comum às duas situações está o poder da construção de falsas narrativas por governantes e pessoas inescrupulosas, que são capazes de mobilizar multidões enfurecidas e iludidas. 

As ameaças atuais à democracia não se detêm frente a edifícios de paredes mais sólidas. Após a explosão de um carro bomba em um prédio do governo americano em Oklahoma City, duas quadras da avenida que passa em frente à Casa Branca foram fechadas ao tráfego de veículos. Igualmente foi vedado o acesso de veículos nas proximidades da sede do governo britânico. E barreiras físicas foram colocadas próximas ao Parlamento britânico. Essas também são edificações robustas, características de um outro momento da arquitetura. 

Os palácios de Brasília são leves e elegantes, projetados pelo genial Oscar Niemeyer. São belos exemplares da arquitetura moderna brasileira, pensadas para um país que respirava otimismo e almejava o progresso. São caudatárias da evolução da arquitetura e das técnicas construtivas, que passaram a exigir suportes cada vez mais delgados e a possibilidade de substituir a opacidade da alvenaria pela leveza dos panos de vidro. Os palácios de Brasília exibem o orgulho de uma arquitetura que, partindo de projetos inovadores, como os da ABI e do MEC no Rio de Janeiro, soube criar obras que foram celebradas mundo afora. 

As sedes da República brasileira foram pensadas para criar proximidade com o povo. São vulneráveis, como se viu, porque o país da época da sua construção era outro, com uma população que se orgulhava e respeitava os símbolos do poder, que se imaginava seria sempre democrático. Isso parece estar em questionamento, pelo menos para uma parcela dos brasileiros. Para que voltemos à harmonia e à civilidade frente às instituições da República e suas sedes, e frente a obras de arte, precisaremos superar as enormes fraturas sociais que vivenciamos, enfrentar o poder da mentira e da desinformação, e, nunca é demais dizer, investir em mais educação. Enquanto isso é preciso restaurar pacientemente o que se vandalizou e passar a contar com uma guarda verdadeiramente comprometida com a proteção da República. 

Artigo publicado em 26 de janeiro de 2023 no Diário do Rio.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Pensamentos de verão

Ipanema - foto Roberto Anderson
A claridade invade os aposentos numa hora em que o sono normalmente ainda quer continuar. Isso para quem tem a sorte de dormir com ar-condicionado, porque para quem não a tem, o sono é incômodo, suado. Amanhece, e o calor se torna despertador, empurrando para fora da cama. Até há pouco, estranhamente chovia e fazia temperaturas amenas. Mas agora o verão chegou. 

O carioca adora a rua e nessa época elas ficam mais movimentadas. Movimento da gente daqui e dos turistas, que logo assumem os hábitos locais. Caminhar mais devagar, arrastar as sandálias, botar uma bermuda, usar um top que agora é cropped, eis como os cariocas se apresentam. Tem-se a impressão que os turistas chegam para o réveillon, vão ficando para o auge do verão e se multiplicam no Carnaval. Como aves migratórias, estão aí, fazendo parte da paisagem do verão carioca. Alguns se aventuram pelo Centro, outros mais curiosos podem ir além do Maracanã. Mas o seu habitat é a Zona Sul. 

Ônibus com pontos finais em Copacabana, Ipanema e Urca sempre foram o desespero de moradores desses locais. Seus caros privilégios são compartilhados nos fins de semana por milhares de famílias e de jovens das periferias que buscam o alegre lazer das praias. Também o metrô e o BRT facilitam o seu deslocamento. É um direito de todos, afinal, que culpa têm se as praias da Baía de Guanabara estão poluídas? Há piscinas públicas em seus bairros? Há parques?

Com o excesso de gente, infelizmente, a cada fim de semana o saldo é de ônibus depredados, muito lixo deixado nas areias e nas ruas e, eventualmente, alguma correria que pode ou não corresponder a um arrastão. De novo, culpa dos milhares de jovens, ou da falta de oferta adequada de transporte? É verdade que, ultimamente, o vandalismo gratuito tem acontecido com mais frequência, mas geralmente, o passageiro sentado, num ambiente com ar refrigerado, tem poucos motivos para vandalizar o que quer que seja.

Apesar do direito ao lazer ser uma conquista histórica dos trabalhadores, nossos sistemas de transporte são planejados somente para levar as pessoas ao trabalho e de volta para casa. Nos fins de semana, quando a maioria tem alguma folga, há uma redução brutal na quantidade de ônibus em circulação e nos horários atendidos. O metrô ainda cria uma baldeação inexistente nos dias de semana. 

No verão, em dias de sol, ou seja, de praia, o metrô do Rio é diferente do metrô de qualquer outra cidade. No meio das pessoas que vão trabalhar, tem gente mais relaxada, tem bermuda e shortinho, tem roupa molhada, tem caixas de isopor, tem turmas de amigos e tem areia no chão. Quem não pode ir à praia, se não for mesquinho, até se alegra pelos que vão. 

As praias estão lotadas, é difícil achar um lugar na areia. No verão não há diferença entre domingo e segunda-feira, elas lotam igualmente. As areias das praias do Rio têm a propriedade de serem fofas e claras, moldura perfeita para o colorido dos guarda-sóis, das cangas e dos biquínis das meninas. Mas, depois que os vereadores liberaram a entrada de cães na praia, as areias andam contaminadas pelo que os proprietários desses cães deixam para trás. 

Há uma cacofonia na praia. Vendedores apregoam mate, limonada sorvete, picolé, cerveja, caipirinha, camarão, açaí, salada de frutas, empanadas argentinas, óculos de sol, chapéu, protetor solar e bronzeador, tatuagem de rena, cangas e saídas de praia. Tantos produtos, que é difícil lembrar de todos. São pregões que passam, alguns divertidos e criativos. Mas, o que fica é o irritante (para quem está de fora do jogo) som seco e repetitivo das bolas de frescobol batendo nas raquetes. Inútil tentar ouvir o som das ondas. Pior é quando alguém sem noção liga uma caixa de som. Delito supremo que faz a garota de Ipanema olhar de cara feia.

Quem sabe das coisas vai no fim do dia, quando o sol está mais baixo e os mais apressados já foram embora. É a hora da galera mais resistente, dos que conseguiram uma escapada depois do trabalho, do carteado ou do jogo de tabuleiro com os amigos, e até de uma cantoria com violão. Ou do delicado dedilhar do ukulele por um cara de dreads.

Na praia do fim do dia tem o já consagrado momento do pôr do sol. Nessa época ele desce lindamente no mar. O céu vai se alaranjando e as pessoas se tornando silhuetas contra o que resta de claridade no céu. Cresce a expectativa, haverá nuvens que impedirão a visão do sol até o fim, ou ele descerá na água, esplendoroso? 

Também na hora do pôr do sol o advento do celular mudou o comportamento das pessoas. Há agora um frenesi por fazer selfies à beira da água, tirar fotos dos filhos, posar de modelo, sempre tendo o sol poente como moldura. Não é exagero dizer que, sentado, às vezes, não se consegue mais ver o sol nessa hora suprema, tal a quantidade de pessoas com seus celulares à beira mar.

O sol se põe e o aplauso de praxe acontece. Sorte têm os que moram perto das praias e podem ficar por ali noite adentro. É a hora da corrida amena no calçadão ou na ciclovia, do passeio tranquilo de bicicleta, do banho de mar noturno, de ficar na areia jogando conversa fora. Com sorte, uma brisa deixará a noite bem agradável. Na beira do mar, bem entendido. Faz calor, e à beira-mar o verão do Rio é mais lindo.

Artigo publicado no Diário do Rio em 20 de janeiro de 2023.

Patriota estupidez

Vandalização do STF por bolsonaristas
Vai ser difícil passar a revolta. Ver o Patrimônio Cultural da República ser destruído, vilipendiado, roubado numa tentativa de golpe contra a democracia, foi um soco no estômago. Ver pessoas tomadas por um fervor antidemocrático, enroladas na bandeira nacional, exercendo toda a sua ignorância, maldade e estupidez, ferve o sangue, estremece o corpo, machuca a alma. A sensação de perda é similar àquela causada pelo incêndio do Museu Nacional. Lá atrás, o desleixo e a falta de verbas, agora o atendimento ao chamado de um sujeito torpe que finge patriotismo e cristianismo.

Dias antes, Janja Lula da Silva havia mostrado os danos no Palácio Alvorada provocados pelo descuido com aquele patrimônio público por parte do presidente evadido e de sua família. Ali foi uma destruição lenta, diária, produzida por pessoas sem cultura ou capacidade de enxergar beleza. Diferente da destruição das sedes da República brasileira, abrupta, rápida, violenta, televisionada, postada com orgulho em redes sociais, sob os olhares complacentes de quem deveria defendê-las.

Janja afirmou que buscará a restauração do Alvorada e dos bens móveis e integrados lá existentes. Mais ainda, ela buscará localizar e trazer de volta os móveis e as peças de arte que foram removidos do palácio. Na visita aberta à jornalista Natuza Nery foi possível ver danos, que até então pareciam os mais impressionantes, como madeiras de revestimento de móveis lascadas, metais oxidados, cortinas rasgadas, infiltrações no teto, imagens sacras no chão e marcas de suor, ou coisa parecida, em sofás. No entanto, o pior estava por vir: a destruição e roubo de peças históricas e artísticas únicas no assalto à Praça dos Três Poderes.

O Alvorada, como ocorre em outras moradias oficiais, tem uma área residencial para a família do mandatário e uma área mais pública, onde ocorrem recepções e jantares. Foi verificado que a disposição da mobília dessa área pública havia sido alterada, com mudança de lugar das peças, inclusive de obras de arte. Muito pior que isso, várias delas não se encontravam no local.

Com seu intenção de recuperar o que foi destruído no Alvorada, Janja, além de seus interesses manifestos pela questão das mulheres e da segurança alimentar, se inscreve numa tradição de (algumas) primeiras damas que se ocuparam com o restauro e conservação dos palácios onde, temporariamente, residiram. No Rio de Janeiro, Dona Zoé Chagas Freitas foi responsável pela penúltima restauração do Palácio Laranjeiras e do seu mobiliário. Os governantes que vieram depois não tiveram o mesmo cuidado, gerando a necessidade de nova restauração. 

Em 2009, quando teve início o projeto dessa última restauração no Laranjeiras, a atenção dos técnicos também foi impactada pelo deslocamento dos móveis de seus locais originais e pelo mau estado de conservação dos mesmos. Também tapeçarias e obras de arte se encontravam em estado lastimável. Foi realizado um trabalho primoroso na edificação e em todos os objetos móveis. Foi também estabelecida a localização correta dos diversos conjuntos de móveis e peças de decoração, de acordo com a coerência que guardam com a própria estrutura dos diversos ambientes. 

Ao final do governo Pezão, o ex-governador Witzel recebeu um palácio completamente restaurado. Consta que a vontade de habitar o palácio era tão intensa que, antes mesmo de se eleger, o ex-juiz teria visitado o Laranjeiras e afirmado que lá moraria. Witzel tinha filhos pequenos e, com eles e sua esposa, foi ocupar a ala residencial do palácio. 

Ocorre que, durante a última restauração, se projetou abrir a área social do palácio à visitação pública, o que só muito tempo depois se concretizou. Além da sua bela arquitetura, os visitantes têm acesso à toda a riqueza da decoração dos interiores do palácio. Nos antigos quartos do pavimento térreo foi instalada a mobília de quarto dos filhos da família Guinle, proprietária original do Laranjeiras. Ali havia duas camas bem pesadas, e elas logo chamaram a atenção do novo governador. Para servir aos próprios filhos, ele achou conveniente deslocar as camas da área museológica para a ala residencial de sua família! Como fazer chegar ao governador a indicação de que aquela era uma atitude inapropriada? Uma difícil tarefa para os técnicos do Patrimônio. 

Tais situações justificam a intenção de Janja de realizar um tombamento da arquitetura do interior do Alvorada. É uma forma de impedir que governantes se esqueçam de que aquela é sua casa de forma temporária. Mas a destruição produzida pelos terroristas da extrema-direita bolsonarista em Brasília ultrapassaram em muito qualquer dimensão imaginada. Muitos tesouros artísticos se perderam para sempre. Outros foram roubados. A recuperação dos edifícios e o restauro das obras de arte irão requerer recursos extras e a contribuição dos melhores restauradores em serviço no país. A democracia resistiu, mas daqui para a frente exigirá um nível de atenção e cuidado muito além do que se possa supor. 

Artigo publicado em 12 de janeiro de 2023 no Diário do Rio.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Um recomeço para o Patrimônio

Simulação do Edifício La Vue
Já há algum tempo o controle da gestão do Patrimônio se tornou alvo de cobiça. Cobiça de maus políticos querendo agradar empresários. Cobiça de empresários mais preocupados com seus lucros do que com o bem comum. E cobiça de ideólogos da guerra cultural da extrema-direita,  querendo impor a narrativa de um país elitista e excludente. 


A tentativa, em 2016, de intervenção em decisão do Iphan por parte do ex-deputado Geddel Vieira talvez não tenha sido a primeira ação desse tipo, mas, sem dúvida, foi um evento de grande magnitude. A resistência do então ministro da Cultura, Marcelo Calero, barrou esse absurdo, que beneficiaria a construção de uma torre de apartamentos de luxo em Salvador. Os vinte e quatro pavimentos do edifício La Vue produziriam terríveis efeitos, danosos à ambiência de bens tombados nas suas proximidades (conjuntos arquitetônicos e paisagísticos situados entre a ladeira da Barra, seguindo da Igreja da Vitória pela orla até a região do Morro do Cristo).


Toda a atenção trazida por este caso não foi suficiente para impedir nova instrumentalização do Iphan. No nefasto governo que acaba de se encerrar, aquele órgão, assim como a gestão da Cultura, foi tomado por pessoas despreparadas, que tinham por intuito desmoralizar o trabalho de várias gerações dedicadas à construção de um ideário e de normas de procedimento para o reconhecimento e a proteção do Patrimônio Cultural brasileiro. 


Em maio de 2020, o presidente que se evadiu nomeou Larissa Peixoto Dutra para a presidência do Iphan. Sua nomeação foi contestada na justiça por duas vezes. A primeira por não possuir os requisitos técnicos para o exercício do cargo. E a segunda por ter ficado claro que sua nomeação atendia o interesse de beneficiar uma obra da empresa Havan no Rio Grande do Sul, que havia sido paralisada ao topar com achados arqueológicos.


A nomeação de Larissa provocou mudanças também nas superintendências regionais do Iphan, com a entrada de pessoas igualmente em desacordo com as diretrizes de atuação do órgão. Esse tipo de intervenção é desastroso, pois afasta alguns funcionários mais ativos e desestimula os que permanecem. Não é fácil trabalhar sob chefias que não se guiam por normas técnicas, especialmente na área de Patrimônio. 


Não só o Iphan e seus funcionários sofreram. Também nos Estados, onde políticos ligados ao extremismo chegaram ao poder, os órgãos de Patrimônio locais foram vítimas de políticas de terra arrasada. Este foi o caso do Rio de Janeiro após a eleição do ex-governador Witzel. O Inepac foi fortemente afetado, com o afastamento de técnicos com décadas de experiência e respeito granjeado entre seus pares. Também o Conselho Estadual de Tombamento foi alterado, com a dispensa da contribuição de conselheiros de notório saber.


Hoje vivemos um novo momento, em que o Ministério da Cultura foi restabelecido e os ministérios do Meio Ambiente e Direitos Humanos, entre outros, voltam a ter políticas respeitáveis. Esse momento nos faz sonhar com o restabelecimento do respeito à atividade técnica do Iphan e à sua independência frente a interesses empresariais e políticos escusos. Que retornemos aos grandes ideais que levaram à criação do Sphan em 1937, atualizados por tantos debates e pela incorporação de novos conceitos em sua rica existência! 


artigo publicado em 05 de janeiro de 2023 no Diário do Rio. 

Aberto para balanço

foto Agência O Globo
Você crê que malhou pesado o ano inteiro. Mas o espelho insiste em mostrar gordurinhas, adiposidades que não deviam estar ali. Pensando bem, os braços estão mais definidos. As pernas, se não estão como as dos atletas, têm aguentado seu peso com galhardia. A coluna reclama, mas nem todo esforço foi em vão. Fim de ano, hora de realizar balanços. 

Você trabalhou duro, perseguiu o sonho de comprar um sítio na serra, mas ainda não foi nesse ano. Plantou árvores, e isso foi um feito importante. Seus três ipês crescerão capturando carbono da atmosfera, tentando se contrapor aos milhares de árvores abatidas no país, especialmente na Amazônia. Você terá lutado contra o aquecimento global, não importa quão insuficiente sua contribuição tenha sido. 

Todas as manhãs em que madrugou nesse ano foram como se cumprisse uma missão. Sim, o seu trabalho paga as suas contas, e até lhe dá prazer. Mas você se vê quase imbuído de uma missão. Não importa que os frutos pareçam escassos. Você foi lá, a cada dia, e combateu o bom combate. No final do ano vem uma pausa. É o tempo para pensar em como melhorar aquilo que já faz há tantos anos. Alguma coisa boa há de resultar de todo esse esforço. 

Você se angustiou com o crescimento da pobreza. Você se inteirou da fome. Você contribuiu com campanhas por cestas básicas, mas em alguns meses relaxou e se esqueceu. Na hora de dormir, às vezes você pensou nos que estão nas ruas. Mesmo assim você dormiu. 

Você viu bons filmes, foi a boas exposições, leu bons livros. Você prometeu que voltaria ao teatro com mais frequência, mas, ao fim e ao cabo, só viu uns ballets já consagrados. Você estranhou que, na música, seus artistas preferidos ainda sejam os de décadas atrás. Mas você esteve aberto para descobrir novos talentos. 

Você viajou, dormiu em camas de hotel, buscou entender novas cidades. Conheceu pessoas novas, fez novos amigos, alguns se tornaram amigos de infância. Você admirou novos personagens que surgiram na vida pública trazendo ideias interessantes, novos questionamentos. Você se animou com o fortalecimento das lutas antirracistas, das lutas das mulheres e dos movimentos anti-homofobia.

Você reencontrou amigos de priscas eras. Você confraternizou, ouviu suas histórias, viu as fotos dos seus filhos já crescidos. E viu as fotos dos filhos que os filhos dos seus amigos tiveram. Você, que sonha em tê-los, mas ainda não tem netos. Você se inteirou das mazelas dos seus amigos, de suas doenças e pensou nas suas próprias, que existem, mas talvez não sejam tão sérias. Em vão, você acreditou ter encontrado novos amores.

Você perdeu amigos queridos, foi a velórios, abraçou os que ficaram, sentiu que há menos amigos por perto. Os anos estão levando-os. Por vezes, você se resignou a uma vida mais pacata, mais séries e mais filmes na TV. Mas você também reagiu e buscou as ruas, os parques, o contato com estranhos que nasceram muitas décadas depois de você. 

Você se preocupou dia e noite com os rumos do seu país. Teve momentos em que tudo parecia perdido, as pessoas cegas por ideias autoritárias. Mas você não desistiu. Seguiu todas as redes sociais disponíveis, respondeu a postagens infames, se envolveu em polêmicas. Você teve sua vida vasculhada por extremistas que não gostaram do que você escreveu e criaram uma campanha contra você. Mas você resistiu e logo eles foram atacar a próxima vítima. 

Você ligou ou enviou mensagens para cada conhecido, mesmo aqueles mais distantes, tentando convencê-los a votar certo. Você ouviu desaforos, queixas, desilusões. Mas você insistiu, se inscreveu em grupos que queriam ajudar na campanha, você foi às ruas, você foi aos comícios, você temeu que mais uma vez o mal vencesse. Mas você elegeu o novo presidente do Brasil!

O ano termina e você pensa e repensa tudo o que passou. Não só neste ano, mas em todos os outros que se foram. Você tem a impressão de ter vivido muitas vidas. Foram tantos trabalhos, tantos ideais, tantos amores, e tudo é passado. Tudo já bem distante. Seu rosto mudou, seus cabelos grisalharam, sua energia diminuiu. Seu tempo se reduz. Mas você não perde a esperança, você está vivo e você estará lá, no próximo ano. Força, que ainda há muito o que fazer. Feliz Ano Novo!

artigo publicado no Diário do Rio em 29 de dezembro de 2023.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Trinta anos de Dança no Rio

Tiago Sousa - foto Coletivo CLAP
O festival Panorama da Dança Contemporânea faz 30 anos. Desde 1992 ele vem mobilizando artistas nacionais para que preparem seus trabalhos para a mostra, além de convidar artistas e companhias internacionais. Para a dança carioca ele foi sempre um evento fundamental. O Panorama nasceu junto com a emergência de grupos e companhias que buscavam linguagens próprias e tentavam se firmar profissionalmente. Em seus melhores momentos, o Panorama fazia a costura entre esses grupos, propiciava o diálogo com companhias de outros países, e funcionava como uma plataforma para a exposição desses artistas a curadores de outros festivais.

A partir do Panorama, muitas companhias e grupos brasileiros, especialmente os cariocas, foram levados a exibir seus trabalhos em teatros de outros países. Com o Panorama funcionando como coluna vertebral do movimento de dança carioca, ganhamos todos: os artistas, a dança e a cidade. Houve um momento em que o Rio de Janeiro foi o epicentro da dança contemporânea brasileira, chegando a atrair para cá companhias de outros Estados, que também se tornaram cariocas. Para a cultura local isso não tem preço. 

O mais interessante é que, em todos esses anos, o Panorama não se limitou às companhias já consolidadas e nem às áreas da cidade mais privilegiadas. Ao contrário, ele foi buscar artistas iniciantes e criadores da periferia. Diversidade sempre foi um atributo do Panorama. Diversidade de linguagens, de origens, étnica e social.

Para comemorar esses trinta anos, bailarinos e coreógrafos que já participaram das diversas edições do festival foram reunidos nesta semana no Teatro Sérgio Porto, uma noite memorável. Ali estavam criadores de gerações distintas. Quando, lá atrás, alguns já se apresentavam no festival, outros sequer haviam nascido. Mas agora estavam ali, todos irmanados no desejo de celebrar esse feito. Reivindicavam também que as autoridades políticas da cidade compreendam que o festival Panorama é um trunfo e um ativo valioso do Rio de Janeiro. 

A celebração mostrou a riqueza da dança contemporânea carioca. Ficou evidente como seus criadores foram buscar referências em fontes tão diversas, como o samba, o hip-hop e a dança de rua, a dança de salão, a dança moderna americana, o expressionismo alemão, a dança-teatro, o circo, as artes plásticas, o cinema, o butô, e as experiências de desconstrução da própria dança. Tudo isso perpassado e digerido antropofagicamente pela criatividade dos artistas locais. 

O que se viu foi um rio de memórias e afetos desembocando na cena do Sérgio Porto. Às vezes sereno, às vezes emocionado em lágrimas, às vezes volumoso e forte. Lá também estavam os que já se foram, criadores e produtores devidamente lembrados e homenageados. Como é bonito perceber que o fazer artístico e a emoção que ele desperta pode se dar apenas com o próprio corpo em movimento e, talvez, com o auxílio de quase nada, um pano, um surdo, uma tinta, ou uma bandeira. 

O Panorama da Dança Contemporânea é tudo isso e muito mais. Ele guarda a memória daquilo que de mais expressivo já se produziu na dança da cidade. Ele já impulsionou as carreiras de inúmeras companhias. E ele poderá impulsionar as conquistas de artistas que ainda nem nasceram nesse ano em que se comemora seus trinta anos. Mas para isso, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro precisa continuamente ser lembrada de que esse instrumento de promoção da cultura carioca, essa plataforma para novos talentos existe e deve ser apoiada de forma sustentável e generosa. Que venham mais trinta anos!

artigo publicado em 22 de dezembro de 2022 no Diário do Rio.

Roda mundo, roda-gigante

Tivoli Parque - Rio de Janeiro
Em 2008 foi inaugurada no Forte de Copacabana uma roda-gigante patrocinada por uma cervejaria. Ela tinha 36 metros de altura e teria sido inspirada na London Eye, a roda-gigante de Londres aberta em 1999. Mas, ela estava longe de alcançar os 135 metros de altura da roda londrina, quase quatro vezes mais alta que a sua similar carioca.

A roda de Copacabana, numa paisagem deslumbrante, foi um sucesso. Mas sua instalação no Forte era temporária, já que a sua simples localização num bem tombado já constituía um exemplo das pressões e contrapressões que envolvem investimentos desse tipo. Há os interesses da iniciativa privada, as normas de gestão dos bens tombados e os interesses políticos. As soluções nem sempre são as ideais. 

Apesar de mais associadas a parques de diversões, as rodas-gigantes surgiram como um divertimento de adultos. E são bastante antigas. No mundo moderno, a primeira delas foi a que existiu na Exposição Mundial de Paris, em 1889. Ela influenciou a de Chicago, com 80 metros de altura, construída por George Ferris para a Exposição Mundial naquela cidade, em 1893. Nos Estados Unidos, até hoje, rodas-gigantes são chamadas de “Ferris Wheel”. A mais antiga do mundo ainda existente é a Wiener Riesenrad, em Viena, com 65 metros de altura, inaugurada em 1897. À época, não foi um grande sucesso comercial, e seu construtor quase foi à falência.

Outra roda muito conhecida é a do parque de diversões de Coney Island, em Nova Iorque, com 45 metros de altura. No Rio, o saudoso (mas com um histórico de acidentes e outros problemas) Tivoli Park também tinha a sua roda-gigante. O parque estava situado onde hoje se encontra o Parque dos Patins, e homenageava o de Copenhague, aberto em 1843. A vista da Lagoa Rodrigo de Freitas e dos demais ícones da paisagem da Zona Sul do Rio de Janeiro era o grande atrativo daquele brinquedo.

Em se tratando de disputa pelo posto de mais alta do mundo, atualmente nenhuma supera a de Dubai, nos Emirados Árabes, com 250 metros de altura. Ela desbancou a de Las Vegas, com 167 metros, até então a mais alta. No Japão elas estão em várias cidades, sendo a de Osaka, com 123 metros, a mais alta daquele país.

Atualmente, pode-se dizer que as rodas-gigantes se autonomizaram dos parques de diversões. Ao ganharem em altura, perderam o ar de precariedade. Não mais as cadeiras balançando, o ar batendo na cara, e os gritos alegres das pessoas sendo ouvidos cá no chão. Não servem mais para as juras de amor dos casais, já que as cabines climatizadas recebem várias pessoas estranhas entre si. Mas parecem não ter perdido a atratividade. As filas na London Eye testemunham o sucesso desses equipamentos.

Elas se transformaram também num item importante dos projetos de revitalização de áreas urbanas. Seguindo os esforços de revitalização da Área Portuária, em 2019 o Rio de Janeiro ganhou ali uma nova roda-gigante, com 88 metros de altura. É a mesma altura daquela de Foz do Iguaçu. À beira da Baía de Guanabara, ela permite uma visão panorâmica nessa direção. Se a visão da baía é um ponto forte da roda carioca, a visão dos pontos turísticos mais conhecidos, como o Pão de Açúcar e o Corcovado, fica um pouco prejudicada pela distância. Outra aparente desvantagem é que, não muito longe, há edifícios até mais altos do que a roda, reduzindo um pouco a expectativa de se alcançar as alturas da cidade. Nada disso impede o fascínio de turistas e cariocas por essa nova atração.

Como não podia deixar de ser, São Paulo acaba de inaugurar a sua roda-gigante. Com três metros a mais do que a do Rio e em campo mais aberto. Mas sem uma baía à frente para gerar aquele reflexo do brilho do sol na água, que torna qualquer foto especial, ou, como se diz, instagramável. 

De qualquer forma, seja no Rio, seja em Dubai, rodas-gigantes continuam a nos fascinar pela possibilidade de alcançar as alturas, pela ilusão da visão dos pássaros, e pela possibilidade de observação da paisagem em volta a ser fotografada ou guardada com carinho na memória.

artigo publicado no Diário do Rio em 15 de dezembro de 2022.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Avenida (?) Brasil

antiga sede da Gastal concessionária da Willys
No Rio, existe uma avenida chamada Brasil. Seus números são gigantes. A maior avenida da cidade, a segunda maior do Brasil, a mais larga, a que tem o maior fluxo viário, e a mais engarrafada em horários de pico. Tem nome de avenida, mas é cada vez mais uma via expressa, onde os veículos trafegam a 90 km/h. É agressiva em relação aos pedestres, que são obrigados a subir escadas de muitíssimos degraus para atravessá-la por passarelas. A numeração das passarelas já chega a nomear localidades.

Ela é uma lembrança do Rio que não deu certo. Aberta para receber indústrias, viu quase todas falirem e fecharem. Conectaria a área central às suas regiões mais rurais. Mas terminou servindo como destino dos expulsos das áreas mais nobres. Conjuntos habitacionais foram sendo erguidos às suas margens, assim como favelas brotaram dos manguezais ou ocuparam encostas nas suas bordas. A avenida contribuiu também para o crescimento espraiado do tecido urbano, outro dos nossos problemas. 

À noite, especialmente se for uma noite de domingo, é um dos locais mais desoladores desta cidade. Suas estreitas calçadas permanecem sujas e vazias, o perigo é quase palpável. Um ou outro transeunte perdido se apressa em direção à sua casa em alguma rua transversal. Talvez os únicos que ali permanecem sejam os usuários de crack das imediações do viaduto da Ilha do Governador. 

As ruas que nela chegam não têm placas luminosas com seus nomes e as numerações das casas, luxo reservado às áreas da cidade que podem oferecer retorno às empresas de publicidade que exploram este serviço. 

A arborização é quase inexistente na Avenida Brasil. O ex-prefeito Conde ainda tentou plantar umas palmeiras no diminuto canteiro central que lá existia. Elas até iam bem, mas foram suprimidas pela obra do BRT. À exceção do palacete Manguinhos, a arquitetura ao longo da avenida é pavorosa. Outra joia arquitetônica que lá existia, a sede da Gastal, concessionária da Willys, projetada pelo arquiteto Paulo Antunes Ribeiro, foi demolida pelo então prefeito Cesar Maia. Foi abaixo para dar lugar à alça de subida da Linha Vermelha. Certamente, haveria outra solução.

Ao longo da avenida, além dos conjuntos habitacionais, há também inúmeras construções que foram invadidas e ocupadas por famílias sem teto. Eram prédios inacabados, e as vedações malfeitas e com poucas aberturas denotam a improvisação. São como fortalezas que se fecham à falta de hospitalidade da avenida.

A evidente decadência da Avenida Brasil vem provocando propostas urbanísticas diversas, em geral, baseadas no aumento do aproveitamento do potencial dos terrenos. Em 2011, o então Secretário de Urbanismo Sérgio Dias propôs a liberação de usos na avenida, bem como a flexibilização de parâmetros urbanísticos, como gabarito, taxa de ocupação e permeabilidade dos terrenos. Importante ressaltar que a liberação da obrigação de deixar áreas permeáveis, numa região notoriamente sujeita a inundações, seria desastrosa.

Agora, quando o novo Plano Diretor tem sua discussão arrastada, já estando com sua aprovação atrasada, a Prefeitura faz uma nova proposta. Seria a liberação total do gabarito e da extensão das edificações a serem construídas numa faixa de 500 metros das laterais da avenida, no trecho entre o Centro e a Zona Norte. A Prefeitura chamou essa proposta de Zona Franca Urbanística, uma invenção que remete às zonas de tributação especial, como a de Manaus.

Em algum momento, a avenida Brasil ganhará um BRT, cujas obras vêm se arrastando por três administrações municipais. É possível que os planos para incentivar a habitação e outras atividades caminhem. Mas, é difícil imaginar moradias à beira de uma via expressa sem boas calçadas, sem arborização e sem conforto e segurança para os pedestres. Habitar é mais do que ter um endereço. É preciso haver um lugar, e esse lugar só será convidativo e interessante se for tratado com a perspectiva do pedestre, atendendo especialmente as necessidades dos idosos e das crianças. Será preciso refazer o caminho de volta de via expressa a avenida.

artigo publicado em 08 de dezembro de 2022 no Diário do Rio.

Solução para o entulho naval na Baía de Guanabara

No último dia 14 de novembro, véspera de um feriado, quando aumenta muito o tráfego de veículos saindo da cidade, um navio abandonado na Baía de Guanabara bateu na ponte Rio-Niterói. O navio São Luiz foi arrastado por uma ventania um pouco acima do normal, após ter a corrente que o ligava à âncora rompida. Sem motores que lhe dessem autonomia, e sem que os dois vigias mal pagos conseguissem acionar a âncora de emergência, que estava travada, o navio seguiu à deriva até encontrar a mureta e os pilares da ponte. Um desastre, que provocou a sua interdição por três horas, já previsto em documentos sobre o estado de abandono do navio. As consequências poderiam ter sido bem mais graves. 

O absurdo é que sabemos, e vemos, que, além de todo o lixo e esgoto que recebe diariamente, a Baía de Guanabara vem sendo usada como depósito de navios abandonados, verdadeiras carcaças flutuantes. Alguns acabam naufragando, espalhando óleo e poluentes, e são graves obstáculos à navegação e à pesca. Nossa baía vem sendo tratada como lixeira naval. Procurados pelos meios de comunicação para dar explicações, órgãos, como o Ibama e o Inea tentaram empurrar suas responsabilidades para outros, enquanto a Marinha se negou a responder. 

Um mapeamento recente feito pela UFF, em parceria com a Prefeitura de Niterói e a Fundação Euclydes da Cunha, encontrou cerca de 60 embarcações no Canal de São Lourenço, no litoral daquele município. Mas há também um grande número de embarcações, de diversos tamanhos, abandonadas no meio da Baía de Guanabara, como o São Luís. Mais recentemente, para realizar uma matéria sobre esse problema, a reportagem do jornal O Globo encontrou 90 embarcações abandonadas na baía. Entre elas, dois navios cipriotas e um indiano abandonados no Caju. Mas esse número pode ser bem maior, já que estudo do ano passado do Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro encontrou o impressionante número de 250 embarcações fantasmas. 

Segundo o Movimento Baía Viva, nunca foi feito um inventário do número de embarcações que estão afundadas na Baía de Guanabara. E elas são muitas e podem trazer riscos à navegação. A impressão que se tem é que é um problema quase impossível de ser resolvido. 

Mas, nem sempre foi assim. O Deputado Estadual Carlos Minc, que em 2012 e 2013 esteve à frente da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, informou que, àquela época, foi possível encontrar uma forma bastante eficiente de lidar com o problema. Segundo o Deputado, a ação envolveu o Inea, a Capitania dos Portos, o Ministério da Pesca, e a Prefeitura de Niterói, em cujo litoral se concentram muitas dessas embarcações. Para mover as carcaças abandonadas, foram utilizados grandes guindastes fornecidos pelos estaleiros situados na Baía de Guanabara. 

Nessa ação foram levantados mais de 200 barcos encalhados ou afundados e foram retiradas mais de 60 embarcações da Baía de Guanabara. Um detalhe interessante foi a adesão da siderúrgica Gerdau, que passou a comprar os metais resultantes dessa coleta, propiciando o custeio parcial do projeto. 

Nossa baía é um bem natural compartilhado por diversos municípios, que faz parte das nossas mais belas paisagens. Apreciamos sua beleza a partir de suas margens não muito limpas, ou ao atravessá-la pela ponte ou pelas barcas. Alguns privilegiados nela velejam, e muitos pescadores ainda tentam dali tirar o seu sustento, apesar do lixo flutuante. Nela, a duras penas, ainda resiste um grupo de aproximadamente 30 golfinhos, além de tartarugas marinhas e peixes, cada vez menos numerosos. Ao tomarmos consciência de mais esse gigantesco problema que ameaça a Baía de Guanabara, precisamos exigir que, novamente, soluções sejam buscadas para se retirar da frente mais esse entulho que afeta nossas vidas. 

artigo publicado em 01 de dezembro de 2022 no Diário do Rio.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Memória negra na Rasa

foto de Dariany Silgom
No mês da consciência negra, é muito importante pensar a questão do racismo e suas bases em nossa história. No Estado do Rio de Janeiro, vale lembrar os locais ligados ao comércio de escravizados, origem da atual situação de desigualdade social e econômica que afeta os seus descendentes, tanto aqui, como no restante do país. O antigo Cais do Valongo, epicentro das estruturas escravistas da Área Portuária, voltou a ser visível e reverenciado após um belo trabalho de arqueologia. Também compunham essas estruturas o Cemitério dos Pretos Novos, destinado a recém-chegados que faleciam, o Lazareto da Gamboa, que abrigava os africanos que precisavam de quarenta por estarem acometidos de doenças contagiosas, e o Mercado do Valongo, onde seres humanos eram expostos para venda.

Esse conjunto de locais dedicados ao comércio de escravizados, juntamente com a Ilha de Bom Jesus, atualmente ligada à Ilha do Fundão, era parte do sistema escravista oficial na cidade. Neles o desembarque de africanos era legal e controlado pelas autoridades. Mas, havia também os pontos de desembarque ilegal ou ligados a ele, como a Ilha da Marambaia, Bracuí, em Angra dos Reis, as praias de Manguinhos e Buena, em São Francisco de Itabapoana, a Catedral do Santíssimo em Campos dos Goytacazes, onde ocorriam batismos de pessoas traficadas ilegalmente, e as praias de José Gonçalves e Rasa, em Búzios. 

Os desembarques ilegais buscavam burlar as legislações que proibiam o tráfico vindo da África, como a de 1831, que declarava serem livres todos os escravos vindos de fora do Império, e a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que, respondendo a pressões da Inglaterra, determinava a proibição do tráfico de africanos escravizados para o Brasil. 

As praias de José Gonçalves e Rasa, em Búzios, foram usadas como últimos pontos do tráfico clandestino de escravizados na antiga região de Cabo Frio. Acredita-se que nessas praias tenham desembarcado, entre os anos de 1844 e 1845, aproximadamente 7.040 africanos. A maioria deles ia para as fazendas do norte fluminense. 

Muitos desses escravizados que ali desembarcaram acabaram ficando em propriedades locais ligadas ao tráfico, gerando uma grande concentração de afrodescendentes na região. Estes, como forma de afirmação de suas identidades e de recuperação da memória desses antigos acontecimentos, buscaram a titulação de Quilombo da Rasa, reconhecida em 2005 pela Fundação Palmares e pelo Incra.

No dia da Consciência Negra de 2014, os moradores da Rasa instalaram na praça local uma escultura do artista local Gilmário Santana, representando uma mulher da etnia banto. Essa escultura seria o primeiro ponto de destaque da Rota da Escravatura, um circuito reconhecido pela Unesco que marcaria os pontos importantes dessa história.

No entanto, a atual Prefeitura de Búzios, sem nenhuma consulta à comunidade, recentemente deu início a uma obra na mesma praça, para construção de um Mercado do Pescador, projeto que apagaria a história quilombola que se quer evidenciar. A Associação das Comunidades Quilombolas em Armação dos Búzios apresentou denúncia ao Ministério Público Federal na última sexta-feira, às vésperas do Dia da Consciência Negra, e busca ampliar os apoios à sua causa.

Como vem ficando cada vez mais claro, a luta contra o racismo é uma tarefa de todos os brasileiros, independentemente de serem brancos, indígenas ou negros. A afirmação da identidade quilombola da Rasa e o resgate da história da escravidão naquela região são ações importantes que precisam ser apoiadas. 

Artigo publicado em 24 de novembro de 2022 no Diário do Rio

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Revitalizar e pavimentar

Praça Marechal Deodoro - Rio
A arquitetura e o urbanismo dos anos 90 foram pródigos em utilizar verbos iniciados pelo prefixo “re”. Reurbanizar, reabilitar, restaurar, revitalizar, requalificar, recuperar, eram expressões usadas nos mais variados contextos, muitas vezes de forma confusa ou abusiva. Chegou a existir um projeto de revitalização do Parque do Flamengo, como se o parque, arborizado e cada vez mais habitado por aves, pudesse estar morto. Malcuidado, abandonado pelas autoridades sim, estava e está. 

O urbanista Flávio Villaça contestava o uso do termo revitalizar para as operações urbanas que ocorriam no Centro do Rio de Janeiro na década de 90. Segundo ele, apesar da perda de escritórios e de comércio de luxo, e estar fisicamente deteriorado, por ter sido ocupado pelo comércio ambulante, o Centro nunca estivera tão vivo, tão cheio de gente. Se isso era economicamente bom para a cidade, eram outros quinhentos.  

Atualmente, a Prefeitura do Rio voltou, com toda carga, a usar a expressão revitalização. Revitaliza-se a orla da Lagoa, o bairro da Glória, e outros tantos recantos da cidade. Mas, nota-se que um item comum a essas intervenções é a pavimentação de áreas antes permeáveis. É assim na Lagoa e também está sendo na Glória. 

O lema do presidente Washington Luis era "governar é abrir estradas". A Prefeitura do Rio parece querer adotar o lema "revitalizar é pavimentar". O problema é que, atualmente, com o advento da noção de sustentabilidade, as melhores propostas para os espaços urbanos já deixaram para trás um modernismo que se afastava da natureza. Hoje se busca soluções baseadas na natureza para os problemas urbanos. Busca-se a inserção das atividades urbanas nos ciclos naturais. E isso inclui reforçar a drenagem natural dos solos, com menos impermeabilização das superfícies, maiores golas para as árvores, jardins de chuva, áreas destinadas a alagamentos temporários, etc.

E o que faz a Prefeitura? Pavimenta os espaços entre a ciclovia e o meio-fio na Lagoa e as praças com saibro da Glória. Seria a falta de pavimentação o que afugentava as pessoas, ou seria a falta de segurança, de atrativos e de bancos nessas praças? Não nos enganemos, não será a pavimentação no entorno do vandalizado monumento a Deodoro que trará pessoas para o local. Na Glória há uma série de pequenas praças que, à exceção da Praça Paris, ficaram perdidas entre a área edificada e o Parque do Flamengo. As pessoas atravessam-nas em direção ao parque, sem nelas permanecer. Aos domingos, durante e após a Feira da Glória, acontece uma roda de samba em um desses espaços em frente à Amurada da Glória. Mas é só. No resto da semana, pouco acontece, a não ser rodas de moradores de rua em torno de algum fogareiro improvisado.

É verdade que outros serviços estão sendo realizados, como a limpeza de monumentos e a recuperação de canteiros da Praça Paris. São muito benvindos, e os moradores da Glória esperavam há muito tempo por isso. Mas, apenas a pavimentação de espaços ociosos na Glória não solucionará a sua falta de uso. Seria corajoso aceitar que esses espaços poderiam receber atividades mais permanentes, como quiosques ou pequenos restaurantes, por exemplo. Nesses casos se justificaria a pavimentação de alguma parcela dessas praças. Mas deveria ser apenas o estritamente necessário ao funcionamento desses equipamentos. Se a Prefeitura continuar o atual esforço de pavimentação, sentiremos saudades das praças com piso de saibro, tão características do Rio de Janeiro e ... de Paris.

Artigo publicado no Diário do Rio em 17 de novembro de 2022.

Gal

Início dos anos 70, ditadura militar no Brasil. Em casa se falava de política, se criticava acidamente os milicos, mas todos sabíamos que o exercício dessa liberdade cessava da porta de casa pra fora. Nas ruas, todo cuidado era pouco. Os jovens, éramos submetidos a revistas policiais inesperadas. Como ainda se faz nas favelas. O procedimento adequado era não contestar, obedecer às ordens de mostrar documentos e não se mexer ao ser apalpado de cima a baixo. De vez em quando, éramos enfiados num camburão, sem muita explicação. 

Nesse ambiente opressor, revolucionário era ter opiniões contrárias a tudo que ali estava, mesmo que não fosse possível externá-las. E saborear intensamente a alegria de estar vivo. Ir à praia encontrar amigos que sempre estariam lá pelas dunas do píer. Rir, falar de cinema, experimentar drogas, dançar a noite toda nas festas, cujos endereços caiam nas mãos, sem que soubéssemos quem eram os donos das casas.

Em tal roteiro de vida, fazia parte assistir o show da Gal no Teresa Raquel. Era um dos momentos em que todas aquelas sensações se concentravam na sua figura sensual. Uma grande flor nos cabelos, uma saia colorida e rodada, um top bordado e o umbigo de fora, Gal era fatal. Corria pelo palco, dava pulinhos e cantava músicas de um Brasil que pouco conhecíamos, mescladas àqueles sucessos de Caetano e Gil. 

Gal então sentava próxima à beira do palco, pegava o violão e cantava minha honey baby, de Vapor Barato. Afastava a saia, o violão entre as pernas, que se entreabriam languidamente no ritmo da música. E nós, o seu público, mas também seus companheiros de viagem, embarcávamos no sonho. No sonho de que a felicidade existia, de que a nossa juventude era pra sempre, de que a liberdade existia.

Gal era a baiana que não havia sido expulsa do país pelos militares e que sobrevivia conosco àquele ambiente sufocante. Meio ingênua, meio malandra, usava a sua voz, o seu jeito de ser e a sua arte para nos falar da beleza e do tesão de existir. Gal foi a mulher da nossa jovem vida. Obrigado. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 10 de novembro de 2022.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

A cultura indígena da Aldeia Maracanã

Aldeia Maracanã em 2012 - foto Roberto Anderson
O governador Cláudio Castro foi reeleito. Como se trata da continuação do mesmo governo, seria hora de começar a cumprir algumas promessas de campanha, entre elas a conclusão da estação Gávea do metrô. Ela se encontra propositalmente inundada para tentar impedir o seu colapso. É absurdo que permaneça assim por mais tempo, com risco de deterioração do que já foi executado, deixando milhares de potenciais usuários, entre eles os alunos e professores da PUC-Rio, sem uma boa opção de transporte. 

Mas há também compromissos assumidos por governos anteriores que permanecem inatendidos. Entre eles, a restauração do antigo Museu do Índio no Maracanã e sua transformação em espaço cultural dedicado à cultura indígena do nosso país. Esse compromisso, assumido junto ao Ministério Público pelo ex-governador Sérgio Cabral, continua valendo e se transformou numa dívida do Estado do Rio de Janeiro que necessita ser saldada. Compromisso é compromisso e, lá atrás, a Secretaria de Estado de Cultura foi indicada como órgão executor dessa ação.

À época do governo Cabral, a então Secretária de Estado de Cultura chegou a ir ao Parque do Xingu e trouxe de lá lideranças indígenas muitíssimo respeitadas para discutirem o projeto num encontro no antigo Hotel Novo Mundo. Isso em nada resultou e os recursos usados nesse esforço midiático talvez pudessem ter sido melhor empregados na execução do projeto de restauração do imóvel, um item fundamental, sem o qual nenhuma obra pública se realiza.

O edifício que abrigou o antigo Museu do Índio, no Maracanã, não tem uma data de construção claramente definida, podendo ser do final do século XIX ou início do século XX. Erguido em terras doadas pelo Duque de Saxe, marido de D. Leopoldina, filha de D. Pedro II, sua destinação inicial foi um órgão ligado a pesquisas agrícolas. Ali o Marechal Rondon recebeu indígenas que, então, vinham de áreas quase inacessíveis do nosso país. Ali, também, Darcy Ribeiro trabalhou pela causa indígena e, a partir de 1953, criou o Museu do Índio, transferido em 1977 para Botafogo. Esse museu influenciou a criação de diversos outros museus etnográficos pelo mundo e foi premiado pela Unesco.

O imóvel, uma edificação eclética com características de prédio do serviço público do início do século XX, tem paredes sólidas e espaços generosos. Uma torre, revestida de pedras, é uma marca importante de sua feição. A cobertura se encontra danificada por falta de cuidados, assim como forros, escadas e esquadrias. Mas tudo isto é plenamente recuperável. No alto, junto à platibanda, a escultura enegrecida de uma águia assiste a decadência do imóvel.

Em 2006 o edifício e seu terreno foram ocupados por indígenas de diversas etnias, que construíram pequenas casas conformando a Aldeia Maracanã. Eles pretendiam criar ali um centro de difusão da cultura indígena. No governo Sérgio Cabral, o Estado do Rio de Janeiro comprou o imóvel com a intenção de demoli-lo, usando a desculpa de dar condições de evasão e circulação ao público do Estádio do Maracanã. No entanto, estudos comprovaram que essa alegação era falsa.

Em 2013, o governador expulsou os indígenas e apoiadores com a intervenção da polícia de choque e o uso de muita violência. Mas, logo depois, diante da repercussão negativa daquela situação, ele desistiu da demolição do imóvel. Fez, então, um acordo com os indígenas que lá residiam, que consistia na sua saída e na posterior restauração do imóvel para a consecução do sonhado centro de referência da cultura indígena. O imóvel foi também tombado pelo Estado do Rio de Janeiro e pela Prefeitura, o que, legalmente, exige a sua recuperação.

Como as obras não ocorressem, parte dos indígenas decidiu retornar, acampando no entorno do imóvel em condições ainda mais precárias. Esse grupo que ainda lá se encontra, tem um projeto de transformar o imóvel numa “universidade Indígena”. Já o grupo que saiu, e foi alojado no Minha Casa Minha Vida da rua Frei Caneca, permanece com a proposta anterior. O fato é que há dois grupos, que têm alguma discordância sobre métodos de ação e propostas para o imóvel, mas que necessitam ser igualmente ouvidos. O governo do Estado do Rio de Janeiro precisa sair da inércia atual e tomar iniciativas, antes que o imóvel se arruine de forma irremediável. E o Ministério Público precisa cobrar a execução do acordo.

Para se entender a validade do projeto proposto pelos indígenas, é interessante ver a resposta do antropólogo Mércio Gomes, que já dirigiu a Funai, a uma pergunta de jornalistas presentes a uma coletiva de imprensa no antigo Museu do Índio, à época das ameaças de expulsão. Ele comentou a reserva que ele e outros antropólogos tinham em compreender a existência de indígenas vivendo em cidades, já que a antropologia tradicional os vê em sua comunidade original, no meio rural ou florestado, e acredita que ali ele deva permanecer. No entanto, afirmou o antropólogo, os indígenas, ao invés de terem desaparecido como grupos étnicos autônomos, passaram a crescer em termos populacionais, reforçando os laços culturais que os unem. E eles vêm, individualmente ou em grupos, buscando obter maior conhecimento e melhores condições materiais de vida, aproximando-se das cidades. Há indígenas em universidades e em cursos técnicos, ou apenas trabalhando em profissões diversas nas cidades. Isto sem perder sua identidade indígena e o contato com seu grupo de origem.

A constituição de um grupamento de indígenas de várias partes do país no antigo Museu do Índio passou a se denominar Aldeia Maracanã. Após tantos embates e tanto tempo de luta, é plenamente justificável que aquele local venha a se transformar num ponto de referência da cultura indígena. Ele permitiria uma troca cultural maravilhosa, que muito enriqueceria cariocas, fluminenses e turistas. Já passou da hora do Governo do Estado do Rio de Janeiro cumprir essa promessa.

Artigo publicado em 03 de novembro no Diário do Rio.

Decreto de afetação do imóvel a atividades culturais indígenas


Novos tempos, projetos renovados?

Rocinha - foto Roberto Anderson
A poucos dias do segundo turno das eleições, quando escolheremos quem será o presidente do Brasil nos próximos quatro anos, as pesquisas indicam a possibilidade alvissareira de uma mudança de rumos no país. Se esta mudança vier, projetos que beneficiam a população mais pobre e buscam criar um futuro mais promissor voltarão a ser debatidos. Entre eles, o incentivo à construção civil, por meio de moradias populares e a urbanização de favelas. Mas essas duas iniciativas precisam passar por revisões importantes. Não devemos continuar a construir conjuntos habitacionais despersonalizados em áreas distantes dos centros urbanos, sem opções de trabalho e sem infraestrutura. Tampouco, devem ser feitas intervenções em favelas que não sejam aquelas desejadas pelos moradores.  

A favela da Rocinha exemplifica bem essa dissonância entre o interesse do poder público em intervir e a pouca sintonia com os anseios dos moradores. Após uma série de episódios violentos envolvendo grupos armados na Rocinha em 2004 o poder público criou um Plano Diretor para aquela área. Mais tarde houve um maior avanço com a definição de um projeto de reurbanização para a comunidade, o qual foi incluído no Programa de Aceleração do Crescimento - PAC 1. Esta primeira fase de intervenções contou com R$ 60 milhões do governo federal e R$ 12 milhões do governo estadual e o autor do projeto foi o arquiteto Luiz Carlos Toledo.

O projeto de urbanização foi muito discutido com os moradores e incorporou várias demandas dos mesmos, como a construção de um hospital e uma creche. Entre as poucas propostas efetivamente executadas estão a passarela projetada por Niemeyer e o Centro Esportivo.  No entanto, muitas outras não foram realizadas. A creche demorou a ser concluída e, no lugar do hospital, o governo acabou fazendo apenas uma UPA.

Os moradores queriam também um centro cultural, o saneamento do bairro e a construção de planos inclinados. A questão dos planos inclinados se transformou numa enorme queda de braço entre o governo estadual e os moradores e suas lideranças. O projeto de urbanização previa a construção de cinco desses equipamentos. Entre as vantagens apontadas pelos moradores e o arquiteto responsável estão as paradas mais próximas entre si, a possibilidade de levar bagagens e materiais de construção e também servir para a retirada do lixo da comunidade.

Em 2013 a Rocinha foi incluída no PAC 2. No entanto, aparentemente houve pouca discussão sobre como seriam aplicados os recursos da ordem de 1 bilhão e 600 milhões de reais. O governo do Estado do Rio, na época dirigido por uma turma que terminou presa, incluiu um teleférico no projeto e insistiu em sua instalação em detrimento dos planos inclinados anteriormente propostos.

O teleférico é um equipamento caro, com paradas distantes entre si, e com uma manutenção igualmente cara. Os dois sistemas implantados no Rio estão parados. Já os planos inclinados trabalham com uma tecnologia bastante conhecida e experimentada em diversos locais do Rio de Janeiro. Outras desvantagens do teleférico são a sua incapacidade de funcionamento em momentos de ventos fortes e tempestades, e a dificuldade de servir a cadeirantes ou a pessoas com problemas de mobilidade, já que trabalham em movimento contínuo. Além disso, há a ação oxidante da maresia, fortemente incidente na Rocinha.

As lideranças dos moradores consideraram que a opção pela execução dos planos inclinados, por serem mais baratos, liberaria recursos para o saneamento da comunidade, uma demanda urgente e muito justa. Mas, talvez, a forte visibilidade do projeto teleférico e o fato de servir como atração turística tenha levado o governo estadual naquela época a preferir essa opção. No final, nada foi feito.

Nos últimos anos, período em que os projetos de reurbanização da Rocinha ficaram parados, o arquiteto Luiz Carlos Toledo promoveu oficinas de discussão dos problemas urbanos daquele bairro com a participação de jovens moradores. Dessas oficinas devem ter saído muitas novas ideias interessantes. Se os brasileiros mostrarem juízo nas urnas, talvez chegue a hora de colocá-las em prática. 

Artigo publicado em 27 de outubro de 2022 no Diário do Rio.

A cidade pouco amigável

Amsterdam - foto Roberto Anderson
Em 1997, no governo de Cristovam Buarque, foi instituído em Brasília o sistema de faixas de pedestres sem sinais de trânsito. A partir de então, bastaria ao pedestre iniciar a travessia na faixa, que os automóveis parariam imediatamente. Desde então, e até 2021, segundo o Detran local, a morte de pedestres por atropelamento caiu 81,5%, indo de 266 casos para 49. Desses, apenas quatro perderam a vida atravessando a faixa de pedestres. Apesar de ser um evidente caso de sucesso, recentemente surgiram notícias sobre o crescente desrespeito de motoristas a essa norma.

Antenas Mockus foi prefeito de Bogotá em duas ocasiões, de 1995 a 1997 e de 2001 a 2004. Pouco convencional, Mockus realizou campanhas de educação no trânsito que envolviam mímicos, os quais faziam brincadeiras com os que violavam as regras de trânsito, como avançar o sinal ou atravessar fora das faixas de pedestres. Tal programa foi iniciado com 20 artistas e rapidamente evoluiu para a contratação de outros 400, devido ao grande sucesso obtido. 

Após o primeiro mandato de Mockus, Bogotá elegeu Enrique Peñalosa, para o período de 1998 a 2001. Ele realizou uma série de mudanças na capital colombiana visando priorizar os pedestres. Foram construídos 450 km de ciclovias e o sistema de BRT TransMilênio, um dos maiores do mundo. É sempre bom lembrar que a origem dos BRTs são os ligeirinhos de Jaime Lerner, em Curitiba.

Em 2009, o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, fechou grande parte de Times Square ao trânsito de veículos. Essa proposta foi depois consolidada com intervenções permanentes, que geraram novas áreas para os pedestres, e vitalizaram o comércio local de forma inequívoca. Esse tipo de intervenção se espalhou pela cidade, com a criação de ciclovias e mais áreas de lazer público conquistadas ao espaço anteriormente destinado aos automóveis. Da mesma forma, a prefeitura de Paris vem ampliando as áreas destinadas aos pedestres em locais icônicos, como as praças da Bastilha, Italie e Nation.

Não faltam bons exemplos, e diversas cidades do mundo vêm realizando transformações visando dar mais espaço aos pedestres, em detrimento do espaço conquistado em muitas décadas pelos automóveis. Elas vêm também apaziguando o trânsito de veículos, inclusive com a redução das velocidades de circulação dentro do espaço urbano. Com velocidades mais baixas, os atropelamentos, quando acontecem, são menos fatais.

No Rio de Janeiro, no entanto, nunca tivemos um prefeito que adotasse uma estratégia radical de aumento de espaço para os pedestres e ciclistas, apesar de algumas melhorias pontuais. Nem um que promovesse ações de educação no trânsito. Assim, a impressão que se tem é de aumento da má educação no trânsito e de redução da segurança de pedestres e ciclistas.

Aqui os carros param em fila dupla ou estacionam em calçadas à vontade. Ônibus param no meio das vias para pegar os passageiros, desprezando baias e recuos que eventualmente existam. Motoristas, em geral, não sinalizam ao fazer conversões nas esquinas, trazendo riscos a quem as atravessa. As ciclovias são invadidas por motociclistas, burrinhos-sem-rabo e carrocinhas. E as ciclorotas são meros desenhos no asfalto, onde caminhões de carga estacionam.

O carioca até pode brincar de ser passageiro numa cidade do primeiro mundo ao entrar no VLT. É confortável, climatizado, silencioso, raramente está cheio, e as estações são anunciadas em português e em inglês. O problema é que o VLT só liga o Centro a um único bairro, a Área Portuária. A realidade dos cariocas é de ônibus lotados, calorentos, barulhentos e extremamente sacolejantes. Sacolejam porque não são construídos para dar conforto aos passageiros e porque as ruas são muito esburacadas. Quanto aos trens, continuam pouco confiáveis nos horários.

O Rio sempre foi meio anárquico, um pouco como Nápoles, onde a máfia faz e acontece. Nossas máfias são ligadas ao jogo do bicho, ao tráfico e às milícias. Mas será que essa zona precisaria se estender às ruas e calçadas? O fato é que, além da péssima conservação de ruas e calçadas, não há muita fiscalização ou ações de educação no trânsito. Quem fiscaliza? Guardas municipais ou policiais militares? Não se sabe e tampouco eles estão muito presentes nas ruas cumprindo essa tarefa.

O urbanismo contemporâneo é fruto das contestações ao urbanismo dito funcionalista, feitas por valorosos combatentes da qualidade de vida urbana, Jane Jacobs à frente. Não mais se admite a separação de funções, com áreas da cidade reservadas exclusivamente para a moradia ou o trabalho. Não mais se admite desconsiderar o Patrimônio. Não mais se admite desconsiderar as questões ambientais. Mas, acima de tudo, se quer uma cidade favorável ao pedestre, em que o automóvel não tenha mais a primazia, e a convivência nos espaços públicos seja garantida e estimulada. Para isso não basta que os urbanistas exponham suas ideias. É preciso que a classe política local as ouça e lidere as transformações em direção a uma cidade mais amigável.

Artigo publicado em 21 de outubro de 2022 no Diário do Rio.