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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O Projeto Sunrise para Gaza

Imagine-se que um rico empresário árabe proponha construir um resort de luxo sobre o sítio de memória de Auschwitz ou de algum outro campo de concentração, onde milhões de judeus, ciganos, gays e pessoas de esquerda foram mortas. Seria um Deus nos acuda. Mas Jared Kushner, genro de Trump, judeu e neto de sobreviventes do Holocausto, anuncia ao mundo o plano da dupla para construir algo semelhante em Gaza. Em Gaza, onde os corpos de boa parte dos aproximadamente 71 mil mortos pelo exército israelense (há estimativas que multiplicam esse número), naquilo que vem sendo considerado um genocídio, permanecem insepultos. Seus restos mortais ficaram sob os escombros de edifícios residenciais, escolas, universidades, hospitais e prédios religiosos impiedosamente bombardeados por Israel.

Na parte de Gaza ainda ocupada por Israel essas ruínas, e os corpos que lá estejam, estão sendo arrasadas, para aplainar o terreno para futuras ocupações. E para suprimir evidências dos crimes de guerra cometidos. Na parte não ocupada por Israel, a população palestina sobrevivente se amontoa em frágeis tendas, que são varridas pelas chuvas e pelas marés, onde bebês atualmente morrem de hipotermia. E, a cada dia, habitantes de Gaza seguem sendo mortos por bombardeios que desrespeitam o pretenso cessar-fogo. Mas Trump (e boa parte do dito mundo civilizado) não os vê. Ele só pensa em negócios.

O plano urbanístico de Jared Kushner, chamado Sunrise, foi apresentado ao mundo em Davos, na Suíça. A assistência não pareceu ter se escandalizado com a situação. Talvez muitos já pensassem em como também auferir lucros sobre a desgraça palestina. Que plano é este? Ele foi apresentado sem autoria. Mas, não existe projeto urbanístico ou arquitetônico sem arquiteto. Ou o ego da dupla é tão forte que impede a divulgação do nome do autor, ou este, pressentindo a natureza criminosa de sua atuação, não quis ser identificado.

Analisando-se o masterplan apresentado, é possível perceber uma clara divisão entre a faixa litorânea, a ser ocupada por arranha-céus ao estilo de Dubai, destinados a turistas e a sedes de corporações, e uma faixa posterior, que receberia moradias. Estas, muito provavelmente, não serão destinadas aos sobreviventes do genocídio. No mundo concebido por Trump, eles serão transferidos para países da periferia do sistema capitalista, que os aceitarão em troca de alguns benefícios econômicos. O nome disso é limpeza étnica.

A orla de Gaza, antes dos insanos bombardeios de Israel, era um lugar aprazível com palmeiras plantadas no canteiro central e cafés à beira-mar. Nem todas as construções eram sofisticadas, mas havia hotéis de qualidade. Um deles, o Al Mashtal, o único cinco estrelas, foi implodido por Israel pouco antes do “cessar-fogo”. Era uma orla com personalidade. Um dos piores defeitos apontados pelos viajantes atualmente é a pasteurização dos lugares, fazendo tudo parecer a mesma coisa. Pois bem, o projeto apresentado pela dupla Trump-Kushner propõe uma orla pasteurizada, em que o rico viajante não saberia se teria acordado em Dubai, Doha ou Gaza. As mesmas torres envidraçadas e o mesmo espetáculo de luzes noturnas nas fachadas.

Na parte posterior à orla das torres, o projeto propõe agrupamentos de edificações separados por grandes espaços verdes, definidos como parques. Atrás das áreas residenciais, estariam as zonas industriais e data centers. Se formos buscar as inspirações projetuais para esse trecho do projeto apresentado, chegaremos à proposta de Cidades-Jardim de Ebenezer Howard, lançadas no final do século XIX. Elas visavam responder a um mal-estar com os problemas das cidades, que haviam sido muito impactadas pela industrialização ocorrida naquele século. Ao contrário de cidades adensadas, poluídas, com uma massa de trabalhadores vivendo em péssimas condições, as Cidades-Jardins seriam a união das qualidades do campo e da cidade, com áreas urbanas limitadas, zoneamento para atividades industriais e mais presença de espaços verdes.       

A proposta de Cidades-Jardins gerou alguns exemplos concretos e influenciou muitíssimo os urbanistas do período modernista, ou funcionalista, entre eles Le Corbusier, um entusiasta de regimes autoritários. Ele a adota como modelo para os moradores dos subúrbios de sua cidade ideal, e como inspiração para a presença de espaços verdes entre as torres que propõe nesse seu projeto. O mesmo modelo foi adotado para a vila de oficiais da SS nazista em Krume Lanke, perto de Berlim. Uma ironia do destino, já que Howard era um militante do movimento socialista. 

Essas duas referências já dão pistas de que, apesar de ser um modelo que aproxima a natureza, é também um modelo de afastamento das pessoas, que não propicia locais de concentração intensa. Na Gaza trumpista, a área dedicada aos ricos e turistas teria características metropolitanas, enquanto o restante teria características de subúrbios pouco adensados. Ali viveriam os que trabalhariam nos resorts turísticos e nas indústrias, situadas nos fundos da cidade. Como ocorre em Dubai, muito provavelmente seriam imigrantes de variadas nacionalidades em busca de alguma oportunidade que as áreas turísticas oferecem. Muitas horas trabalhadas e pouca garantia.

Há uma outra influência importante no projeto. A desconsideração do passado, o recomeçar do zero, conhecida como tabula rasa, é uma atitude muito cara aos arquitetos e urbanistas modernistas, como Le Corbusier. Gaza é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo surgido ainda no século V a.C. O centro histórico de Gaza guarda vestígios de diversas civilizações. Há outros monumentos importantes, como o Palácio do Pachá, o Mosteiro de Santo Hilário e o Porto de Anthedon. Todos sofreram danos severos pelos bombardeios indiscriminados de Israel e deveriam ser restaurados ao fim dos conflitos. No entanto, o Plano de Trump simplesmente desconsidera milênios de história. Não há lugar para o passado no plano. Nem para cemitérios, mesquitas ou igrejas.

Projetos arquitetônicos e urbanísticos não são neutros. Trazem mensagens, espelham concepções de mundo e projetos de poder. A não divulgação do autor do projeto de Trump para Gaza é bastante significativa. O mundo que a direita internacional vem construindo é assustadoramente aético e, tanto a proposta para Gaza, como o Conselho trumpista para a “Paz”, que exclui os palestinos, são reflexos dessa falta de escrúpulos, brutalidade e vilania. A tentativa atual de moldar o mundo à imagem dos interesses do grande capital está bastante avançada, e se reflete nas lutas políticas que são travadas também no Brasil. Toda essa barbárie acontece nesse momento diante de nós. É preciso entendê-la, não ser ingênuo, defender a nossa soberania e saber de que lado se está.

Artigo publicado em 30 de janeiro de 2026  no Diário do Rio.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

De volta à barbárie

 

Gaza 2025

Em verdade todas as minhas aves e criaturas aladas voaram para longe

"Aí de mim! Por minha cidade " - eu direi.

Minhas filhas e meus filhos foram levados embora

"Ai de mim! Por meus homens" - direi.

"Oh minha cidade que não mais existe, minha [cidade] atacada sem causa,

Oh minha [cidade] atacada e destruída!"

O lamento da deusa Ningal é pela destruição de Ur, na antiga Mesopotâmia. Mas voltou a ser atual. Mais de dois mil anos antes de Cristo, Ur foi sitiada e destruída. Os elamitas, juntamente com aliados entre as tribos iranianas, cercaram Ur, provocando a fome. Em desespero, seus defensores abriram as portas da cidade para os invasores, que os assassinaram e saquearam casas e templos. 

O surgimento da civilização urbana foi acompanhado pelo aumento vertiginoso da selvageria entre os humanos. Desde tempos remotos, quando começaram a existir as cidades, passou a predominar o extermínio e a destruição em massa de comunidades inteiras. Segundo o historiador Lewis Mumford, o que antes tinha sido um sacrifício mágico para assegurar a fertilidade e as boas colheitas "foi transformado na exibição do poder que tinha uma comunidade, sob seu deus irado e seu rei-sacerdote, de controlar, dominar ou apagar totalmente outra comunidade."

Na guerra de Troia, verdadeira ou mitológica, como narrada por Homero em A Ilíada, após dez anos de cerco e o estratagema do cavalo, a cidade teria sido conquistada pelos aqueus. Esses teriam massacrado os troianos, tomado mulheres e crianças como escravos, e dessacralizado seus templos. 

Senaqueribe, rei do Império Neoassírio, assim descreveu a aniquilação da Babilônia: "A cidade e [suas] casas, desde seus alicerces até o alto, eu destruí, devastei, queimei com fogo; o muro e a muralha exterior, templos e deuses, torres de templos de tijolos de terra, tantas quantas existiam, arrasei..."

Delenda est Carthago, ou Cartago deve ser destruída, foi uma frase popularizada na República Romana. Ela se referia à necessidade de eliminar a cidade que ousava desafiar Roma. A cidade foi destruída em 146 a.C. Foi arrasada até os seus alicerces e seu chão foi salgado para que nada mais ali crescesse. 

Na primavera do ano 70 d.C. os exércitos romanos cercaram Jerusalém. O cerco produziu fome e doenças. Após romper as defesas da cidade, os romanos produziram a morte, a execução e a escravização de dezenas de milhares de habitantes de Jerusalém. A cidade foi arrasada, assim como o Segundo Templo, então o principal local de adoração e de sacrifício ritual dos judeus. Na tradição cristã, Jesus teria lamentado essa futura destruição da cidade. Ah! Jerusalém!

Centenas de anos se seguiram, repletos de destruições de impérios e genocídios na América e na África. Em 1942, como retaliação pela morte do governador alemão da Boêmia e da Morávia por combatentes tchecos, o exército alemão atacou a cidade de Lídice. Todos os homens foram fuzilados, as mulheres e crianças foram enviadas para campos de concentração e as edificações foram destruídas.

Ainda na Segunda Mundial, em 1945, Tóquio foi intensamente atacada por bombas incendiárias, matando, segundo dados da cidade, mais de 124 mil pessoas, número maior do que as vítimas em Hiroshima. As casas, construídas com materiais leves, serviram de combustível para o fogo. Mais de 50% da cidade ficou destruída. Seguiram- se as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Em todas, os relatos dos civis que sobreviveram mencionam corpos em chamas.

Desde o século XIX, já havia na Europa preocupações com os graves efeitos dos conflitos armados sobre as populações civis. Após os horrores das duas guerras mundiais, cresceu a consciência de que esses terríveis acontecimentos não deveriam se repetir. Diversos países, inclusive o Brasil, deram o nome de Lídice a alguma de suas cidades para que ela nunca deixasse de existir. A proteção da população civil e de bens civis durante conflitos armados passou a ser prevista no chamado Direito Internacional Humanitário (DIH), estabelecido pelas Convenções de Haia e de Genebra. A Convenção de Genebra (1949) definiu direitos dos militares fora de combate e dos civis.

Acreditava-se que essa legislação sobre crimes de guerra seria suficiente para prevenir o retorno da barbárie. Em 2025, após dois anos de intensa atuação do exército israelense em Gaza, as cidades desse território estão arrasadas. Acredita-se que mais de 65 mil palestinos tenham sido mortos, entre eles uma grande quantidade de mulheres e crianças. Segundo a Unicef, 64 mil crianças morreram ou foram feridas. Não foram poupadas as casas, as escolas, os templos e os hospitais. Em termos de saúde e educação, Gaza retrocedeu algumas décadas. Mas, com Gaza, a humanidade retrocedeu muito mais, de forma insuportável.

Artiogo publicado no Diário do Rio em 16 de outubro de 2025.

 

sábado, 13 de setembro de 2025

Gaza

 

Hind Rajab

Penso nas crianças que não crescerão, naquelas que não se tornarão jovens, que não viverão o primeiro amor. Penso nos jovens que não chegarão a ser adultos, naqueles que não cursarão uma universidade, que não formarão uma família. Penso nos adultos que não mais saberão o que é a felicidade, eternamente marcados por suas perdas e pelo que viram e sofreram.

Penso nas crianças sobreviventes, mutiladas, órfãs e traumatizadas. Penso na falta de abrigo de suas noites futuras. Penso nas escolas destruídas que não as recepcionarão. Penso no ódio contido que amargará suas existências. Penso no amargor que esse ódio impotente gestará. 

Penso nas mesquitas detonadas, suas cúpulas tombadas sobre os escombros. Penso nos cafés que não mais existem, nos jovens alegres e nos casais enamorados que não mais frequentam a orla. Penso no desaparecimento da própria orla.

Penso na terra cinza, calcinada, o que sobrou das explosões de bombas. Penso no que virou Rafah. Penso na terra marcada pelos traços de edificações arrasadas. Penso nas estrelas de Davi sulcadas nos terrenos aplainados, marcando um novo domínio.

Penso nos moradores dos edifícios residenciais jogando seus pertences pelas janelas porque é exíguo o prazo dado para evacuarem o lugar em que sempre moraram. Penso nos edifícios vindo abaixo com as histórias de vida dos novos deslocados.

São tantas as imagens, tantas crianças tremendo, seus pequenos corpos cobertos pela poeira dos destroços. São tantas crianças sem seus pequenos membros.  São tantos mortos. Gostaria que fossem apenas construções de inteligência artificial. Mas são reais. São retratos de sofrimentos reais. 

Penso em Hind Rajab, a menina de apenas cinco anos que estava num carro com seus pais, tios e primos fugindo da cidade de Gaza. O exército israelense bombardeou o carro em que ela se encontrava, matando toda a sua família. Penso em Hind usando o celular por horas, pedindo ajuda e dizendo que tinha medo. Penso nos paramédicos que, em vão, tentaram ajudá-la e que também foram mortos. Penso na ONG que leva o seu nome e que denuncia crimes de guerra. Penso nas centenas de voluntários que tentam levar alguma ajuda aos famintos de Gaza.

Penso em mais uma flotilha de internacionalistas que busca quebrar o cerco a Gaza e levar remédios e comida aos palestinos famintos. Barcos frágeis tentando transpor uma barreira de fogo em torno de Gaza. Penso em Thiago Ávila, em Greta Thunberg e em outros tantos que já foram presos antes e sabem que serão presos novamente. Penso no forte sentimento de solidariedade ao outro que os move.  

Me emociono com qualquer judeu da Diáspora que se manifesta e que diz: não em meu nome! Porque todo esse mal é feito, pretensamente, também em seu nome. Me solidarizo com a sua perda da mítica Israel. Porque o país real mostrou-se indigno das escrituras. 

Um genocídio é um genocídio. Foi o silêncio das outras pessoas que permitiu a existência dos anteriores. Foi o silêncio de cidadãos de bem que permitiu o Holocausto. É o silêncio dos nossos contemporâneos que permite a monstruosidade do que ocorre em Gaza. 

Artigo publicado em 11 de setembro de 2025 no Diário do Rio.