Aracaju é uma cidade simpática, à beira de um rio e do
mar. A sua expansão se deu através da drenagem de áreas alagadas e do
aterramento de manguezais. No entanto, ainda é forte a presença do manguezal
dentro da cidade. Seguindo hábitos antigos, nesse exato momento, uma gigantesca
obra viária está sendo feita às custas do aterramento de partes do manguezal
sobrevivente às margens do Rio Sergipe. Sendo esse ecossistema protegido pelo
Código Florestal, é de se questionar como isso pode acontecer.
Como na maioria das cidades do Nordeste, Aracaju tem
uma boa qualidade de vida, com sistemas de transportes integrados por terminais
bem-organizados e ônibus circulando em faixas exclusivas, alguns deles
elétricos. Há ainda uma boa malha de ciclovias pela cidade. Percebe-se ali
também a forte melhoria das condições de vida dos moradores da região, fruto de
políticas públicas inclusivas do governo federal nas últimas décadas, apesar de
interrupções ocorridas.
Aracaju substituiu como capital a cidade de São
Cristóvão, fundada em 1590 como a capital da então Província de Sergipe del
Rey, a quarta mais antiga do Brasil. Como esta última se localizava longe do
mar, houve a necessidade de um porto marítimo para a Província. A escolha
recaiu na área onde depois foi erguida Aracaju. A sua fundação é de 1855,
projetada pelo engenheiro Sebastião José Basílio Pirro. O traçado da cidade
original é uma malha regular, com vias largas perpendiculares e paralelas à
linha do rio Sergipe. Depois, a cidade cresceu e novas malhas foram
adicionadas, também regulares, mas sem seguir a orientação da malha inicial.
Com uma história que guarda similaridades, Belo
Horizonte também substituiu a antiga capital do seu estado, Ouro Preto. Belo
Horizonte foi projetada por Aarão Reis, sendo a sua fundação datada de 1897. O
traçado do que deveria ser a cidade quase inteira, mas que hoje é apenas a sua
área central, também é uma malha ortogonal regular, à qual se sobrepõe outra
malha maior, em sentido diagonal à primeira. Uma trama semelhante à de La
Plata, na Argentina.
Fundadas com poucas décadas de diferença, as duas
capitais têm uma forte presença da arquitetura eclética, comum na virada do
século. Os edifícios públicos mais importantes seguem essa linha. Infelizmente,
boa parte das edificações ecléticas da área comercial do Centro de Aracaju
estão cobertas por letreiros gigantes, como era o Centro do Rio antes do
Corredor Cultural.
Belo Horizonte, por ser posterior, recebeu também
muitas edificações Art Déco. Em Aracaju, assim como em Belo Horizonte, uma
praça romântica, com coretos e jardins, emoldura o palácio do governo. Mas, nas
duas cidades, os palácios de governo terminaram perdendo essa função original,
sendo transformados em museus. As respectivas sedes de governo foram
transferidas para edifícios modernos.
Em Aracaju, como em outras cidades brasileiras, chama
a atenção homenagens a personagens e eventos discutíveis. Há um bairro Castelo
Branco, um conjunto habitacional Médici, uma avenida 31 de Março e, na sua área
metropolitana, um conjunto Fernando Collor. Em compensação, na cidade, e nos
arredores, há uma quase onipresença da planta véu de noiva ou jasmim do caribe.
Jardins de casas e calçadas têm o arbusto, com suas permanentes flores brancas.
É uma bela planta, não há muito tempo introduzida no país.
Edifícios da alta classe média de Aracaju foram
construídos na beira do Rio Sergipe, ao Sul do Centro Histórico. Mas, a cidade
vive um processo de descentralização. No momento, é Atalaia, bairro à
beira-mar, que se desenvolve como área de classe média alta. Para lá foram os
hotéis e a região se verticaliza. Aqueles antigos edifícios das classes altas,
perto do Centro, ainda resistem, mas devem perder status.
No bairro de Atalaia, casas baixas vão dando lugar,
rapidamente, a edifícios altos. O contraste entre as casas térreas e os novos
edifícios é gritante. Constrói-se em altura à beira-mar também. Essa
urbanização, talvez não planejada como foi o centro histórico, gera problemas,
como a falta de acessibilidade de algumas calçadas. Muitas vezes, a cota de
soleira das casas, que é a altura do piso da casa em relação à rua, é alta e
varia muito. Como resultado, mesmo numa rua plana, há degraus ao longo das calçadas,
tornando difícil a vida de idosos e cadeirantes.
Aracaju é uma cidade acolhedora e mantém uma escala
agradável. Ali a vida ainda é calma. Pelas ruas vai um povo moreno e
conversador. Pelos restaurantes ouve-se o toc-toc de pancadinhas para quebrar a
casca do caranguejo. A sempre presença do belo jasmim do caribe talvez seja um
sinal da hospitalidade dos sergipanos.
Artigo publicado em 24 de abril de 2026 no Diário do
Rio.












