Imagine-se que um rico empresário árabe proponha construir um resort de luxo sobre o sítio de memória de Auschwitz ou de algum outro campo de concentração, onde milhões de judeus, ciganos, gays e pessoas de esquerda foram mortas. Seria um Deus nos acuda. Mas Jared Kushner, genro de Trump, judeu e neto de sobreviventes do Holocausto, anuncia ao mundo o plano da dupla para construir algo semelhante em Gaza. Em Gaza, onde os corpos de boa parte dos aproximadamente 71 mil mortos pelo exército israelense (há estimativas que multiplicam esse número), naquilo que vem sendo considerado um genocídio, permanecem insepultos. Seus restos mortais ficaram sob os escombros de edifícios residenciais, escolas, universidades, hospitais e prédios religiosos impiedosamente bombardeados por Israel.
Na parte de Gaza ainda ocupada por Israel essas ruínas, e os corpos que lá estejam, estão sendo arrasadas, para aplainar o terreno para futuras ocupações. E para suprimir evidências dos crimes de guerra cometidos. Na parte não ocupada por Israel, a população palestina sobrevivente se amontoa em frágeis tendas, que são varridas pelas chuvas e pelas marés, onde bebês atualmente morrem de hipotermia. E, a cada dia, habitantes de Gaza seguem sendo mortos por bombardeios que desrespeitam o pretenso cessar-fogo. Mas Trump (e boa parte do dito mundo civilizado) não os vê. Ele só pensa em negócios.
O plano urbanístico de Jared Kushner, chamado Sunrise, foi apresentado ao mundo em Davos, na Suíça. A assistência não pareceu ter se escandalizado com a situação. Talvez muitos já pensassem em como também auferir lucros sobre a desgraça palestina. Que plano é este? Ele foi apresentado sem autoria. Mas, não existe projeto urbanístico ou arquitetônico sem arquiteto. Ou o ego da dupla é tão forte que impede a divulgação do nome do autor, ou este, pressentindo a natureza criminosa de sua atuação, não quis ser identificado.
Analisando-se o masterplan apresentado, é possível perceber uma clara divisão entre a faixa litorânea, a ser ocupada por arranha-céus ao estilo de Dubai, destinados a turistas e a sedes de corporações, e uma faixa posterior, que receberia moradias. Estas, muito provavelmente, não serão destinadas aos sobreviventes do genocídio. No mundo concebido por Trump, eles serão transferidos para países da periferia do sistema capitalista, que os aceitarão em troca de alguns benefícios econômicos. O nome disso é limpeza étnica.
A orla de Gaza, antes dos insanos bombardeios de Israel, era um lugar aprazível com palmeiras plantadas no canteiro central e cafés à beira-mar. Nem todas as construções eram sofisticadas, mas havia hotéis de qualidade. Um deles, o Al Mashtal, o único cinco estrelas, foi implodido por Israel pouco antes do “cessar-fogo”. Era uma orla com personalidade. Um dos piores defeitos apontados pelos viajantes atualmente é a pasteurização dos lugares, fazendo tudo parecer a mesma coisa. Pois bem, o projeto apresentado pela dupla Trump-Kushner propõe uma orla pasteurizada, em que o rico viajante não saberia se teria acordado em Dubai, Doha ou Gaza. As mesmas torres envidraçadas e o mesmo espetáculo de luzes noturnas nas fachadas.
Na parte posterior à orla das torres, o projeto propõe agrupamentos de edificações separados por grandes espaços verdes, definidos como parques. Atrás das áreas residenciais, estariam as zonas industriais e data centers. Se formos buscar as inspirações projetuais para esse trecho do projeto apresentado, chegaremos à proposta de Cidades-Jardim de Ebenezer Howard, lançadas no final do século XIX. Elas visavam responder a um mal-estar com os problemas das cidades, que haviam sido muito impactadas pela industrialização ocorrida naquele século. Ao contrário de cidades adensadas, poluídas, com uma massa de trabalhadores vivendo em péssimas condições, as Cidades-Jardins seriam a união das qualidades do campo e da cidade, com áreas urbanas limitadas, zoneamento para atividades industriais e mais presença de espaços verdes.
A proposta de Cidades-Jardins gerou alguns exemplos concretos e influenciou muitíssimo os urbanistas do período modernista, ou funcionalista, entre eles Le Corbusier, um entusiasta de regimes autoritários. Ele a adota como modelo para os moradores dos subúrbios de sua cidade ideal, e como inspiração para a presença de espaços verdes entre as torres que propõe nesse seu projeto. O mesmo modelo foi adotado para a vila de oficiais da SS nazista em Krume Lanke, perto de Berlim. Uma ironia do destino, já que Howard era um militante do movimento socialista.
Essas duas referências já dão pistas de que, apesar de ser um modelo que aproxima a natureza, é também um modelo de afastamento das pessoas, que não propicia locais de concentração intensa. Na Gaza trumpista, a área dedicada aos ricos e turistas teria características metropolitanas, enquanto o restante teria características de subúrbios pouco adensados. Ali viveriam os que trabalhariam nos resorts turísticos e nas indústrias, situadas nos fundos da cidade. Como ocorre em Dubai, muito provavelmente seriam imigrantes de variadas nacionalidades em busca de alguma oportunidade que as áreas turísticas oferecem. Muitas horas trabalhadas e pouca garantia.
Há uma outra influência importante no projeto. A desconsideração do passado, o recomeçar do zero, conhecida como tabula rasa, é uma atitude muito cara aos arquitetos e urbanistas modernistas, como Le Corbusier. Gaza é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo surgido ainda no século V a.C. O centro histórico de Gaza guarda vestígios de diversas civilizações. Há outros monumentos importantes, como o Palácio do Pachá, o Mosteiro de Santo Hilário e o Porto de Anthedon. Todos sofreram danos severos pelos bombardeios indiscriminados de Israel e deveriam ser restaurados ao fim dos conflitos. No entanto, o Plano de Trump simplesmente desconsidera milênios de história. Não há lugar para o passado no plano. Nem para cemitérios, mesquitas ou igrejas.
Projetos arquitetônicos e urbanísticos não são neutros. Trazem mensagens, espelham concepções de mundo e projetos de poder. A não divulgação do autor do projeto de Trump para Gaza é bastante significativa. O mundo que a direita internacional vem construindo é assustadoramente aético e, tanto a proposta para Gaza, como o Conselho trumpista para a “Paz”, que exclui os palestinos, são reflexos dessa falta de escrúpulos, brutalidade e vilania. A tentativa atual de moldar o mundo à imagem dos interesses do grande capital está bastante avançada, e se reflete nas lutas políticas que são travadas também no Brasil. Toda essa barbárie acontece nesse momento diante de nós. É preciso entendê-la, não ser ingênuo, defender a nossa soberania e saber de que lado se está.
Artigo publicado em 30 de janeiro de 2026 no Diário do Rio.















