quinta-feira, 28 de maio de 2026

 

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, nascido em Palma, Minas Gerais, em 1944, desenvolveu toda a sua vida profissional no Rio de Janeiro, cidade à qual serviu em diferentes cargos públicos ao longo da sua carreira. Ele foi o idealizador e a grande liderança do projeto Corredor Cultural, que salvou da destruição boa parte do centro do Rio de Janeiro. Ele também realizou projetos para espaços públicos da cidade e foi Secretário de Urbanismo. Nesta entrevista (com a colaboração da estagiária Beatriz Jucá Pereira Campos), realizada em 18 de maio de 2026, ele aborda as origens do projeto Corredor Cultural, as emoções e os desafios vividos ao longo da consolidação do projeto.

O período na Holanda

Roberto Anderson: Augusto, eu queria voltar um pouco no tempo e relembrar o processo de criação do Corredor Cultural. Teve toda aquela história de você ir para Holanda, mas, antes de você ir para lá, você já tinha um pouco de preocupação com esse assunto?                                                                            

Augusto Ivan: Já sim. Eu trabalhei muito intensamente na demolição do Morro de Santo Antônio, documentando aquilo. Eu não entendia muito do assunto, mas eu tinha que entregar as plantas dos imóveis que seriam desapropriados. Isso foi feito quando eu trabalhava na Secretaria de Obras, por onde eu entrei na Prefeitura. Em 1974, surgiu uma oportunidade de ir para a Holanda e fui. Peguei as malas e fui para a Holanda para um período no Bowucentrum International Education, em Roterdã. Lá, desenvolvi um trabalho, juntamente com um africano, para uma cidade na África.

Roberto Anderson: Houve uma segunda passagem pela Holanda, não?

Augusto Ivan: Sim. Já de volta ao Rio, em 1978 eu recebi um convite para voltar com uma bolsa do governo holandês. Uma bolsa para que ex-alunos desenvolvessem projetos que pudessem ser reproduzidos em outros lugares. Eu poderia desenvolver o trabalho que eu quisesse, que eu achasse mais interessante.

Roberto Anderson: Que trabalho você desenvolveu lá?

Augusto Ivan: Como eu disse, eu estava trabalhando na ocasião na Secretaria de Obras. Por conta própria, eu e o Marlon Costa e Souza, outro arquiteto, que faleceu muito cedo, desenvolvemos um trabalho para o Largo de São Francisco. Era um trabalho do jeito que a gente achava que devia ser uma pesquisa, porque não era um trabalho acadêmico, com rigor acadêmico. Era uma coisa que a gente fazia levantamentos e fazia propostas. Nós o denominamos de Renovação Urbana do Largo de São Francisco. Quando cheguei na Holanda, eu propus fazer um trabalho nessa área. Um trabalho na direção da preservação daquele estranho conjunto de prédios que se recusava a morrer (no Special Programe do Institute for Housing and Urban Development Studies - IHS, também em Roterdã, Augusto Ivan desenvolveu o trabalho "Multifunctional Development of the Inner City", que deu origem ao projeto Corredor Cultural).

Roberto Anderson: Como era aquela área na época?

Augusto Ivan: Todo o centro da cidade do Rio de Janeiro estava meio mortiço, mais ou menos como está agora, mas numa perspectiva mais pessimista. Então, o trabalho que eu me propus a fazer foi levantar a situação dos imóveis dentro de um rigor maior, e fazer propostas de intervenção no espaço público. Na época, havia aqueles projetos de alinhamento (PAA) que passavam por cima do Largo de Francisco. Não era possível fazer nenhuma intervenção sem que se fizesse os PAA. Mas, a Prefeitura, no afã de derrubar, de fazer projetos de renovação, de construir viadutos e outros projetos viários, acabou paralisando o desenvolvimento da área. Como não se podia fazer nada enquanto não se completasse o PAA, tudo ficou paralisado. O que seria um projeto de destruição, acabou por preservar a região. Então a gente estudou o que fez essa área tão interessante ficar de fora do desenvolvimento urbano por tantos anos.

Roberto Anderson: Como foi a recepção desse trabalho na Holanda?

Augusto Ivan: O IHS era um curso de habitação social, destinado a formar pessoas, geralmente funcionários de governos de países em desenvolvimento. Aí quando eu cheguei, eles levaram um susto. Eles acharam um projeto inadequado. Mas eu falei que não queria fazer outro projeto, que tinha ido lá para fazer aquele projeto. Eles acabaram me encaixando num módulo, onde eu ficava meio à vontade com o trabalho de preservação e renovação do Largo de São Francisco, o trabalho que havia sido começado aqui.

Roberto Anderson: Depois, com o projeto já em aplicação, a instituição holandesa tomou conhecimento, ela reconheceu esse trabalho?                                                           

Augusto Ivan: Sim, depois eles ainda encomendaram outro trabalho sobre quatro favelas, Rocinha, Brás de Pina, Maré e Morro dos Cabritos, em Copacabana. Eles queriam que a gente fizesse um mapeamento do lugar, uma distribuição das atividades de planejamento, de execução de obras, etc. Um trabalho a partir do que o Carlos Nelson havia feito em Brás de Pina.      

Os primórdios do Corredor Cultural

Roberto Anderson: E como foi a volta ao Rio?

Augusto Ivan: Eu voltei com o trabalho mais ou menos pronto, mas não tinha utilidade nenhuma, ninguém queria ver aquele trabalho. Eu estava meio vagando até que, um belo dia, o Armando Mendes, meu amigo, e que à época era Superintendente de Planejamento na gestão do Klabin (prefeito de 1979 a 1980), me chamou. Ele falou: "Você não fez uma coisa lá para o Largo de São Francisco, no seu curso de pós-graduação? Então, sai da Secretaria de Obras e vem trabalhar na Secretaria de Planejamento". E foi aí que começou a dar uma estrutura mínima ao trabalho, que agora podia se apresentar como um trabalho da Prefeitura.

Roberto Anderson: Havia uma conjuntura política favorável ao projeto, não?

Augusto Ivan: Sim, o Israel Klabin é uma figura que merece todo o respeito nesse processo e que dava muita força para o projeto acontecer. Ele cismou de apadrinhar o projeto do Corredor Cultural. Ele me ligava para que eu passeasse com ele na cidade, que ele queria conhecer.

Roberto Anderson: Essa forma de trabalhar um conjunto valorizando mesmo aqueles imóveis menos especiais era uma novidade, não?

Augusto Ivan: Sim, até então, eram os grandes monumentos que importavam. Veja o exemplo do Morro da Conceição. Lá tem oito monumentos tombados pelo Iphan, mas ele tem um entorno que faz um sentido junto com a manutenção dos prédios numa situação de preservação de volumes. O Iphan viu o Morro da Conceição como uma coisa volumétrica. Aí, a gente já vinha um pouco adestrado, assumindo a posição que não, não era guardar os imóveis para uma situação de cenário. Era para valer mesmo, preservar para poder manter. O Ítalo Campofiorito foi o primeiro intelectual a dar um valor a essa preservação, a esse projeto. Ele ajudou nos bastidores. Até então, o Patrimônio era consagrado com uma área do Iphan. De qualquer forma, o Corredor Cultural teve uma associação muito forte com o IPHAN, nós tivemos boas relações com o Iphan e seus arquitetos, sem nunca ter tido briga.

Roberto Anderson: O Corredor Cultural tem as três áreas, a Saara, a Praça XV e a Lapa. Dentro desses perímetros há áreas excluídas. E há uma área grande do Centro que também ficou de fora. Como foram definidos esses limites? Foi fácil? Foi preciso negociar muito para decidir o que ficaria de fora?             

Augusto Ivan: Boa pergunta. Essa questão foi objeto de muita polêmica, de muita discussão, porque a gente não fez o chamado centro histórico, de acordo com o que se fez na Espanha ou na Itália. A gente fez o que dava para fazer, o que sobrou. Alguns sobrados na Rua da Alfândega, por exemplo, entre a Rua Uruguaiana e a Avenida Rio Branco, ficaram de fora do Corredor Cultural porque eles já pertenciam à mancha da renovação, a área já estava muito modificada. A gente não avançou sobre áreas que já vinham assoberbadamente sendo ocupadas pela especulação imobiliária. Ela não tinha muito interesse nas áreas que selecionamos, porque a legislação era restritiva. Tanto é, que alguns dos cadernos de divulgação e projetos do Corredor foram bancados pela ADEMI.

Roberto Anderson: Então não houve áreas que você tenha lamentado não entrar?        

Augusto Ivan: Não. Quem lamentou foi a Rachel Sisson. Ela não admitia que o Mosteiro de São Bento ficasse de fora. Ela queria que fizesse parte de um conjunto. Fazia sentido, poderia ter sido feito. Mas era uma área que ainda estava sendo muito alterada. Tinha prédios grandes surgindo ali, como o RB1 (em 1997, foi criada a Apac da Rua Teófilo Otoni e arredores e, em 2004, foi criada a Apac do entorno do Mosteiro de São Bento).

Roberto Anderson: Houve apoio amplo ao projeto então.      

Augusto Ivan: Sim, havia espaço para o pequeno comércio florescer. Então, eles (representantes do mercado imobiliário) ficaram do nosso lado. Na sessão da Câmara de Vereadores em que foi aprovado o projeto do Corredor Cultural, eles estavam presentes para apoiar, não para ir contra. Não teve ninguém contra. Todo mundo era a favor. Eu sempre achei que tinha um lado romântico no Corredor Cultural, as pessoas identificam esse passado como um passado coletivo. Mesmo que você não tenha participado diretamente daquilo, aquilo é caro à sua memória. As pessoas já ouviram falar daquela área, já foram com o pai ou com a mãe, já foram passear na Saara, no Largo de São Francisco etc.

A estrutura do Corredor Cultural

Roberto Anderson: E o Grupo Executivo do Corredor Cultural, como é que ele surge?

Augusto Ivan: Ainda na gestão Klabin, foi criada a Câmara Técnica para a implantação do Corredor Cultural. Depois, veio o Grupo Executivo, do qual eu fazia parte (criado pela Lei 506/1984, cuja composição era mais abrangente, mas depois foi reduzido para cinco membros de notório conhecimento na área do patrimônio histórico e arquitetônico, pela Lei nº 1139 de 16 de dezembro de 1987), um Escritório Técnico e um Conselho Consultivo (ambos criados pela Lei nº 1139 1987).

O Escritório Técnico era responsável por acompanhar e dar viabilidade, a batalhar no dia a dia, digamos assim. Pela Câmara Técnica e pelo Grupo Executivo passaram pessoas importantes da nossa cultura, como Rachel Jardim, Lélia Coelho Frota, Nélida Piñon, Rachel Sisson, Ítalo Campofiorito, Sérgio Cabral pai, Sônia Mattos Caúla e Silva e Paulo Sérgio Duarte. Eram pessoas com muito acesso à imprensa, que queria que elas falassem. O Conselho Consultivo, muito amplo, não chegou a se reunir.

E havia o Rubem Fonseca, nosso grande escritor, que era o presidente do RioArte na época. O Rubem Fonseca não dava entrevistas. Mas, para o Corredor Cultural, ele era um bastião. Ele botou em um livro dele um personagem com o meu nome. Era um arquiteto que andava pela cidade (personagem e narrador do conto "A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro", da coletânea "Feliz Ano Novo"). E ele me disse: "Você sabe que aquele personagem do Augusto é você, né?".

Eu falei: "Isso aí, já me contaram". O Escritório Técnico do Corredor Cultural era na mesma casa em que ele trabalhava, a RioArte, o que facilitava as coisas. Essas pessoas (do Grupo Executivo) tiveram um poder muito grande. E, também, uma compreensão e interesse grande pela questão. Eles perguntavam coisas, como por que empena (lateral cega de uma edificação), por que que chama empena? De onde veio essa palavra? Aí, gerava um debate sobre a coisa chamada empena e a divulgação do assunto. Era bem interessante que eles traziam para a área técnica um frescor, uma coisa diferente. E dava vontade de trabalhar. A equipe trabalhava duramente.

Roberto Anderson: Quanta gente maravilhosa!                                              

Augusto Ivan: É importante falar do papel da Rachel Jardim. Ela organizava, em nome do prefeito, toda a discussão do projeto com a Câmara dos Vereadores, antes da sua aprovação. O projeto foi muito debatido antes de ser enviado para lá.           

Uma vez pedi à Rachel um texto para um roteiro histórico sobre o Corredor Cultural que eu fiz com a Ana Amora. Era um folder com desenhos feitos à mão, que mostrava o skyline da região. E foi engraçado, porque eu fui com a Rachel para a rua para mostrar o que que a gente queria que estivesse no roteiro. Começamos na Lapa e circulamos por todo o Corredor, até à Praça XV. Pelos lugares em que a gente passava, eu ia anotando no caderninho aquilo que achava importante de mencionar no texto. No prazo acertado, a Rachel veio e me disse: "Não consegui escrever aquilo que você me falou. Achei muito careta". Aí ela fez um texto que começava assim: "Uma cidade o que é? Um percurso no espaço, um percurso no tempo, um percurso em nós mesmos?"("A cidade: o que é?”). Era uma coisa toda poética para passear pelo centro da cidade guiado pelas escrituras de Raquel Jardim. Foi uma pena terem retirado o nome dela do Parque das Ruínas, em Santa Teresa, projeto que ela idealizou.                                                                                                                                          

Roberto Anderson: Quem foram os primeiros arquitetos do Escritório Técnico do Corredor Cultural?                                                                                                                     

Augusto Ivan: Era um pessoal muito legal. Bem no início, trabalharam a Alice Reis e a Maria Lucia Neves. Depois vieram os arquitetos Anita Tavares, Patrícia Vasconcellos, Maria Helena McLaren, Ana Amora e André Zambelli. E Natércia Rossi, Elizabete Araújo e Sônia Gentile no apoio, além do fotógrafo Zeca Linhares. Um pouco mais tarde, chegou a arquiteta Annabella Blyth.

Captando a simpatia da população

Roberto Anderson: As ações do Corredor Cultural não se limitaram à proteção da arquitetura, mas também buscaram captar a simpatia da população, não é?

Augusto Ivan: Eu sempre tive uma ideia de ter uma repercussão externa para garantir que as coisas não ficassem abandonadas, sem pai nem mãe, com as mudanças de governos. A gente tinha muito trabalho de divulgação, de comunicação para o exterior. Era um projeto muito aberto. Qualquer pessoa que chegasse lá, tinha acesso a todas as informações. Montamos uma biblioteca com verba própria da RioArte. Fotografamos muitíssimas coisas, fizemos várias exposições. Tudo para chamar a atenção para aquele objeto, para que aquela coisa permanecesse viva, valorizando os imóveis, que a gente tinha para preservar.

Fizemos também um trabalho de como proteger o patrimônio. Era um caderninho em que fizemos um levantamento das situações de risco de incêndio, e que virou um manual. Esses cadernos começaram a virar um objeto de curtição. Todo o pessoal da área queria ganhar, porque eles não eram vendidos. E a gente tentando segurar, porque não tinha dinheiro para fazer mais. Fizemos um sobre a cor no Corredor Cultural (A Cor, de Hilton Berredo e Zeca Linhares, editado pela RioArte). E foram feitas umas coleções de cartões postais coloridos da área. A Maria Helena McLaren e o Ítalo Campofiorito fizeram textos para eles.

Roberto Anderson: E havia também umas atividades de música e arte na rua.            

Augusto Ivan: Sim, havia o Música na Praça (coordenado por Liliam Zaremba), música em igreja (projeto Música nas Igrejas), tinha o Tim Rescala com a bandinha dele (a Sereníssima Banda). As pessoas iam atrás da bandinha do Tim, que juntava pessoas igual ao Flautista de Hamelin para assistir às peças. Eram peças adaptadas de textos de Machado de Assis. Todo esse trabalho foi pensado, não foi uma coisa que aconteceu, foi pensado, está documentado de alguma maneira.

Fizemos também amizade com outros grupos que estavam na rua. O Amir Haddad fez teatro também no Corredor Cultural. Celina Sodré era a coordenadora desse projeto pelo RioArte (o projeto Cenas Cariocas levava música e teatro às ruas do Corredor Cultural e também Aderbal Freire Filho participou do projeto). E tinha música, que em geral era música clássica, que tocava na rua. A ideia era ir para rua para configurar uma longevidade maior para o projeto do Corredor Cultural.

As ações de preservação

Roberto Anderson: Quando começou o trabalho na prática, você encontrou alguma resistência de comerciantes? Alguém se opôs às determinações do Escritório Técnico do Corredor Cultural?

Augusto Ivan: Não. Não há, nem pontualmente falando, algum interesse pessoal que tenha sido afetado pela legislação. Não foi um tema. Não precisamos nos preocupar com isso. Mas, houve problemas um pouco antes. Quando foi divulgada a planta do Corredor Cultural com os imóveis preservados, começaram a ocorrer alguns incêndios. Achávamos muito suspeitos, desconfiávamos que havia gente graúda por trás, mas não tínhamos prova nenhuma disso. Então, o Klabin fez um decreto dizendo que, no caso de haver algum sinistro, haveria a obrigação de reconstruir o imóvel igual ao prédio original. E se criava multas. Isso estancou os incêndios rapidamente.   

Na ocasião da discussão da renovação do prédio da Bolsa de Valores, na Praça XV, ficou claro quem estava do lado da preservação e quem não estava, quem preferia que nada fosse feito (o edifício Art Déco da Bolsa de Valores, foi demolido para dar lugar ao que lá está). O novo edifício é do escritório dos irmãos Roberto, projeto do Marcio Roberto. Eles acabaram aprovando o projeto, mas sem conseguir os tais 43 metros de altura pretendidos. Reduziu-se bastante a altura do prédio, ficando em torno de 20 metros.   

Roberto Anderson: Como foram os primeiros trabalhos do Escritório Técnico do Corredor Cultural?                                                                                                                     

Augusto Ivan: Uma primeira etapa foi a elaboração da planta de preservação dos imóveis do ponto de vista de conjunto. Era um mapa, um PAA grande com os imóveis todos numerados e tinha um hachurado sobre as grandes manchas de imóveis preservados. Eu e o André Zambelli fizemos a planta. Fomos para a rua e marcamos todos os imóveis da lista do Pedro de Alcântara (o arquiteto Pedro de Alcântara havia coordenado um levantamento das características arquitetônicas de imóveis de uma área do centro) e outros que seriam preservados. A gente tinha três categorias de preservação. Havia o tipo de imóvel tombável, aquele que não admitiria muita modificação, classificado como de Preservação. Tinha uma categoria intermediária, de interesse mediano, digamos, dos imóveis que tinham algum elemento de fachada interessante, mas precisavam ser recuperados. Eram os para Reconstituição. E tinha aqueles imóveis modernos, que eram classificados como de Renovação. Essa gradação de valores foi consagrada na Lei 506/1985 (a lei que cria a Zona Especial do Corredor Cultural, mas a Lei nº 1139/1987 não manteve essas categorias).

Então, esse foi o primeiro instrumento legal, com o qual a gente podia finalmente pegar um processo e responder dentro da máquina administrativa, já informando as restrições a seguir.                                                                                           

Roberto Anderson: O processo de trabalhar com imóveis do Iphan tinha uma certa característica, mas trabalhar com imóveis do Corredor Cultural era diferente. Como foi esse aprendizado?                                                                                              

Augusto Ivan: Foi um aprendizado na rua, lendo coisas, indo a seminários, fazendo cursos... A gente descobria alguma coisa e registrava. Por exemplo, os postes antigos, que a gente descobriu haver uma grande concentração na área da Praça XV. Mas, ali no começo, não sabíamos de onde vinha e o que era aquilo. Pouco a pouco, foi se criando esse conhecimento acumulado.   

Então foi um conhecimento que a gente foi adquirindo ao longo do tempo. A gente abria uma ficha, na realidade eram uns envelopes pardos, em que a gente enfiava tudo o que tinha a respeito de um imóvel, qualquer coisa. Era imóvel por imóvel. Eram colocadas ali, as plantas, a aprovação de licenciamento, os trâmites do licenciamento, propaganda que saísse na televisão, material impresso etc.

E além do mais, quando era possível, nós desenhávamos a mão cada fachada que entrava, ou alguma coisa de planta que fosse interessante. As fachadas estão todas desenhadas. A Rua Uruguaiana inteira, de fora a fora, está desenhada. Eu acho que também a Rua 7 de setembro está desenhada. Era muito bonitinho.

Roberto Anderson: No início do Corredor Cultural, os sobrados eram muitas vezes cobertos por imensos letreiros. Quando surgiu a norma sobre os letreiros, limitando suas dimensões, houve alguma resistência?                                                                  

Augusto Ivan: Sim. A Saara, por exemplo, era uma área em que todos eram nossos amigos no início. Depois, ficou um pouco estremecido porque o projeto começou a afetar a atividade deles. A regra dos letreiros veio de um dia para o outro, com uma data definida para passar a valer. Nós realizamos um seminário sobre o assunto e, no dia seguinte, já estava na rua uma lei limitando a altura dos letreiros. Era necessário, porque essa área inteira era coberta por letreiros. A Praça XV também. As Casas Pernambucanas, por exemplo, eram cobertas por uma placa de luxalon (marca de placas metálicas) grande. Aquilo fechava todas as fachadas. Daí, um belo dia, a Prefeitura bateu na porta e disse: "O senhor vai ter que tirar isso do seu imóvel". Aí, foi uma coisa mais impositiva. O que ajudou é que falávamos com cuidado. Dizíamos "olha, se o senhor não quer tirar o letreiro grande, não precisa tirar, mas se não tirar, também não ganha a isenção (do IPTU). Então, esse contato no dia a dia, face a face, facilitou muito.         

Roberto Anderson: A preocupação de vocês era somente com a arquitetura ou foi além?

Augusto Ivan: A gente fez um trabalho sobre interiores. O foco da preservação foi nas fachadas, na aparência exterior, mas dentro dos imóveis havia coisas interessantes que não tinham sido preservadas no projeto do Corredor. Então a gente identificou essa necessidade de ter um levantamento dos objetos, móveis ou até letreiros. O trabalho foi coordenado pela Patrícia Vasconcellos. Ela fez um levantamento, imóvel por imóvel, daquilo que existia dentro e que ainda valia a pena também preservar, cumulativamente ao que já havia sido preservado. Ao final, esse trabalho foi encaminhado para o Conselho Consultivo do Corredor Cultural, com uma listagem de todos os imóveis que mereciam uma proteção maior dos seus interiores. Mas, esse processo desapareceu sem que houvesse uma cópia. Mais tarde, usando a sua memória, a Patrícia Vasconcelos conseguiu remontar essa coisa toda para fazer o livro dos interiores.

Roberto Anderson: E como se chegou à isenção de IPTU para os imóveis preservados?                                                                                                      

Augusto Ivan: A isenção do IPTU foi uma coisa importantíssima para fazer com que disparasse o processo de preservação no centro da cidade, no Corredor Cultural. O projeto de isenção foi para a Câmara dos Vereadores e passou rapidamente. Então, ficou gravado que aquele projeto era para valer e que estava usando uns instrumentos mais diferentes, digamos assim, mais contemporâneos. O conceito de preservação também era mais livre.

Roberto Anderson: Me fala um pouco do trabalho com os artífices da área de Patrimônio. De como vocês tiveram dificuldade para achar as pessoas quando começaram as obras.

Augusto Ivan: Essa dificuldade existiu de fato. A gente tentou começar um trabalho de treinamento de pessoas, mas na realidade pouca coisa foi feita. No final, começaram a aparecer os que ainda tinham esse conhecimento, esse saber, digamos assim. Um exemplo foi um velho português que fez a recuperação da Casa Franklin, aquela do vitral em forma de pavão (Avenida Passos 55/57). Ele era ótimo e dizia que trabalhava com isso lá na terra dele em Portugal, mas que não tinha mais serviço aqui no Brasil para o tipo de coisa que ele fazia. O trabalho desse senhor foi filmado numa tentativa de captar recursos para algo maior.       

Ocorreram muitas discussões sobre a melhor maneira de realizar as obras. Um exemplo foi a questão das claraboias, que era um elemento importante na estrutura interna dos imóveis. Como não havia proteção para os interiores, era difícil convencer da necessidade de mantê-las. Elas eram parte da cobertura, que era protegida, mas muitas vezes os proprietários não queriam fazer a sua recuperação. É difícil e quando se exige um pouquinho além da conta, prejudica a aceitação do projeto. Acho que no início éramos mais liberais nesse sentido das exigências.

A convivência com outras arquiteturas

Roberto Anderson: E sobre a área do Castelo, que ficou de fora? Quando a Maria Helena McLaren esteve à frente do Escritório Técnico do Corredor, ela dizia ter vontade de expandi-lo para o Castelo.                                                                                 

Augusto Ivan: Ah, sim, ela é a paladina do Castelo!  É importante lembrar que a gente vinha de um contexto desfavorável. A questão do Castelo foi pensada, mas achamos que era demais, e que já estava numa altura razoável. Aí não ia precisar surgir muita coisa alta.         

Roberto Anderson: Mas agora o prefeito Eduardo Paes liberou o gabarito naquela área. Agora o céu é o limite.                                                                                                                       

Augusto Ivan: Eu não sou contra ter prédios altos. Mas, tem que ser mais desenhado, você tem que baixar ao nível de detalhe no desenho. Aí você vai estudar uma coisa razoável. Mas, acho que nós não temos cultura (arquitetônica) suficiente para implantar um gabarito ilimitado.                                                 

Roberto Anderson: Você vê que em Londres há alguns prédios muito altos, mas eles estão dentro de um contexto que não atrapalha a paisagem.

Augusto Ivan: Eu acho que a pirâmide do Louvre estabeleceu um novo marco. Pode sim uma pirâmide na praça do Louvre. Então, isso balançou muito o coreto. Foi um casamento que me pareceu muito bem-sucedido em termos da arquitetura, do ambiente, e do local. Já o Beaubourg, aquela máquina infernal, uma fábrica de arte e de cultura, eu acho mais pesadão. Ele derrubou muita coisa, né? Tenho dúvidas sobre o Beaubourg, mas, de qualquer maneira, eu acho que cabe algo assim. Só acho que é preciso estudar mais.

Relações políticas

Roberto Anderson: Como era a relação com os prefeitos?                                                 

Augusto Ivan: Alguns prefeitos merecem uma menção na história do Corredor Cultural. O Klabin foi muito bom. O Marcelo Alencar (prefeito de 1983 a 1986 e de 1989 a 1993) assinou as leis fundamentais para a existência do Corredor Cultural e fez obras importantes, como a reurbanização da Lapa, com projeto meu e do Marlon, e retirou o mercado de peixes da Praça XV. O Cesar Maia (prefeito de 1993 a 1997 e de 2001 a 2009) iniciou a obra de recuperação da Rua do Lavradio e deu uma sede para o Corredor Cultural. Já o Júlio Coutinho (prefeito de 1980 a 1983) não tanto. Era preciso enfrentá-lo para conseguir as coisas. Você vê que a gente já estava forte...

Roberto Anderson: Você saberia a razão?                                                                                         

Augusto Ivan: Talvez, ele estivesse instruído contra o nosso trabalho. Foi na gestão dele que se tentou derrubar, por exemplo, a Fundição Progresso (a Fundição Progresso havia sido desapropriada em 1975 para a implantação de projetos modernistas, que incluíam a avenida Norte-Sul, via nunca concluída inteiramente. Em 1982, houve a tentativa de demolir a edificação). Mas, um grupo liderado pelo Perfeito Fortuna se organizou e conseguiu impedir. Eles foram até a Dona Zoé (Zoé Chagas Freitas, esposa do governador Chagas Freitas) e conseguiram tirar o Chagas de um jantar, com a ajuda da Dona Zoé. Há uma foto linda que se tornou um marco da manutenção do edifício. Era um homem com uma picareta assim no alto da fachada da Fundição se preparando para quebrá-la. A picareta ficou parada no ar.   

Outro prefeito simpático ao Corredor foi o Jamil Haddad (prefeito do Rio de Janeiro em 1983). O irmão dele, Samir Haddad (foi Secretário Municipal de Planejamento), era amigo da Sônia Caúla. Então a gente tinha acesso ao secretário de planejamento para passar as nossas demandas. Por exemplo, foi necessário fazer uma modificação grande quando a gente conseguiu um levantamento topográfico, casa a casa. Foi aí que a gente começou a desenhar como o imóvel ia ficar, antes mesmo de fazer as obras.

Roberto Anderson: Como foi a integração com a Secretaria de Cultura?                        

Augusto Ivan: Durante um período a gente foi da Secretaria de Planejamento, então o Corredor era separado de todas as outras instituições ligadas ao Patrimônio. A equipe do Corredor Cultural era orgulhosa do seu trabalho e se protegia. Ela era senhora do seu pedaço, não gostava que se mexesse nele. Porque nós tínhamos um orçamento separado, e era muito. Mas, às vezes, os secretários usavam recursos do nosso orçamento e aplicavam em outras coisas. A Helena Severo (foi Secretária Municipal de Cultura do Rio de Janeiro de 1993 a 1999) acabou com a independência que o Corredor Cultural tinha. Ela levou o Corredor Cultural para dentro da Secretaria de Cultura. E aí houve uma mistura de equipes. Mas, eu gosto dela. Eu acho que ela fez um trabalho bonito na Secretaria de Cultura. Um exemplo são as esculturas que ela levou para o Centro. Artistas, como José Resende, Amílcar de Castro, Ivens Machado e Waltécio Caldas criaram trabalhos para o Centro. É uma pena que muitas delas já não estejam lá.   

Roberto Anderson: Como foi a integração do Corredor na Secretaria de Cultura?

Augusto Ivan: O Corredor Cultural chegou a ter uma sede, na Rua da Constituição, que depois dividiu com a Subprefeitura do Centro. A história dessa sede é linda. O imóvel tinha sido da família da Carmen Costa, uma cantora maravilhosa, que gravou "Eu sou a outra", de Lupicínio Rodrigues. Ela nos visitava sempre e o sonho dela era ser tombada. Ela própria, viva. Então, a gente falou: "Não, vamos deixar o prédio se deteriorar, vamos ocupá-lo, porque preserva também a história da Carmen Costa, como ela queria". Lá tinha um teatrinho de 50 lugares para palestras e apresentações de música.      

Depois nós saímos do centro da cidade, da casa que foi feita para o Corredor Cultural e fomos para a Secretaria de Cultura. E as equipes do Corredor Cultural e do Patrimônio do Município ficaram juntas, todo mundo mais ou menos no mesmo espaço. Acredito que a junção administrativa do Corredor Cultural com a área de Patrimônio do Município tirou força do projeto, mas não prejudicou tanto o trabalho, reforçando a percepção de que é uma política pública. De uma certa forma, o Corredor Cultural abriu as portas para uma visão diferente sobre conjuntos urbanos antigos, o que resultou na criação das Apacs (Área de Preservação do Ambiente Cultural). Muitas normas criadas pelo Corredor terminaram sendo adotadas por elas, como a definição de cores de fachadas, tamanhos de letreiros etc.  

Roberto Anderson: Faltou alguma coisa importante a ser trabalhada?

Augusto Ivan: Há uma coisa que a gente sempre falou muito, mas que nunca deu para explorar e nem para tocar para a frente. É a questão da moradia, levar a moradia para o Centro, para aproveitar imóveis com espaço ocioso. Era uma preocupação na época do Corredor, mas era daquelas tarefas que escapavam da nossa alçada. Mesmo assim, há pessoas morando no Centro. Sei de uma família que criou os filhos lá. Não é uma coisa fria. Tem gente que mora e vive lá.    

Eu acho que eu fui emendando coisas. Novas demandas foram sendo exigidas. O projeto do Corredor Cultural caminhou até a exaustão dos itens que ele se propunha resolver. Depois, parou. Teve um tempo que parou.

Roberto Anderson: Você é que nunca parou. Foi até Secretário de Urbanismo!

Augusto Ivan: Mas o tempo passa, o tempo rola. Depois teve muita aventura. Depois dessa minha aventura no Patrimônio, teve a aventura da Subprefeitura do Centro, a convite do Conde, quando foi Secretário de Urbanismo (Luiz Paulo Conde foi prefeito entre 1997 e 2001), que foi mais louca.

Roberto Anderson: Não sei se você concorda, mas no período em que você estava no Corredor Cultural, a sua intervenção era mais focada nos edifícios. Já na Subprefeitura, a ação extravasou para o espaço público. Como um complemento. Você percebe isso?                                                                        

Augusto Ivan: Sim, e a gente estudou o camelódromo, por exemplo (Augusto se refere ao camelódromo da Rua Uruguaiana). Nós estudamos um tipo de ocupação para o camelódromo. A Olga (Olga Bronstein, administradora da II RA) trabalhou muito com isso.                         

Roberto Anderson: É, eu estava lá também. Ajudei a pintar o chão do camelódromo.

Augusto Ivan: Pois é, passamos um fim de semana juntos lá, pintando o chão. Os meus filhos também foram ajudar. Eram 1400 camelôs que tinham que entrar para aqueles terrenos. Eles teriam que entrar na segunda-feira e a gente passou o fim de semana pintando à mão a numeração das barracas no chão.

Roberto Anderson: Mais alguma coisa a lembrar?

Augusto Ivan: Muitas coisas importantes para a memória do Corredor Cultural foram lembradas hoje. Que bom a gente está registrando isso!               

 Artigo publicado em 28 de maio de 2026 no Diário do Rio.                                                

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A armadilha das Cepacs no Rio

Foto: Marcia Foleto

O Estatuto das Cidades, uma grande conquista de tantos quantos se preocupam com os destinos de nossas cidades, criou, entre outros instrumentos de planejamento urbano, a outorga onerosa do direito de construir. Ela é a possibilidade do município cobrar pelo licenciamento de áreas a serem construídas acima de um determinado índice, geralmente índice um, de utilização da área do terreno. Isso significa que a construção de uma vez a área do terreno seria livre de taxação. Mas o que ultrapassasse esse índice, até o índice máximo permitido para cada região, seria objeto de uma taxação. É uma forma de trazer recursos para os cofres municipais e de ressarcir o mesmo de gastos realizados com melhorias do espaço urbano. 

Outra contribuição do Estatuto é a Operação Consorciada, em que todos os recursos auferidos com a cobrança dos índices acima do índice mínimo de aproveitamento do terreno são necessariamente investidos em obras no perímetro definido pela operação consorciada, a qual é aprovada pela Câmara Municipal. O projeto Porto Maravilha é uma Operação Consorciada e esses índices taxáveis foram denominados Certificados de Potencial Adicional de Construção - Cepacs. 

Como o projeto era muito ambicioso, envolvendo a demolição da Perimetral e a construção de diversas infraestruturas, entre elas o Túnel Marcelo Alencar, definiu-se como meta a arrecadação de grandes volumes de Cepacs. Para isso, as alturas dos futuros edifícios na região foram estabelecidas em níveis bastante elevados, chegando até a 50 pavimentos.  Também ficaram elevados os índices de aproveitamento máximo dos terrenos. 

Passados já vários anos, uma impressionante massa de edifícios, muito próximos uns dos outros e muito altos, começa a surgir nas proximidades da rodoviária, exatamente onde as alturas permitidas no projeto são as mais elevadas. Tais edifícios, que já vem sendo chamados de Curilândia, estão escondendo o Morro do Pinto, que fica logo atrás, uma agressão à paisagem da cidade. 

Dentro das regras do mercado imobiliário carioca, se esses edifícios fossem mais baixos, talvez não fossem economicamente viáveis. Além do custo de sua produção e dos lucros esperados com a venda das unidades, é preciso contabilizar o custo das Cepacs, sem as quais o licenciamento não é aprovado. Assim, um instrumento pensado para beneficiar a cidade, ao ser usado num contexto de exploração máxima dos terrenos, termina por forçar a verticalização da região. 

Exemplo semelhante está para acontecer no projeto Praça Onze, atualmente em discussão na Câmara de Vereadores. O projeto é igualmente ambicioso, incluindo a demolição do Viaduto 31 de Março, a criação de novas vias e a construção de uma futura biblioteca. Novamente, para se custear todas essas obras, seria necessária a arrecadação de altas somas em certificados de potencial adicional de construção. 

A primeira versão do projeto apresentada trazia edifícios de alturas variadas, alguns mais baixos nas proximidades da subida para Santa Teresa. Mas, uma nova versão chegou a ser discutida, com edifícios tão altos que barrariam a vista da cidade a partir do Largo das Neves, em Santa Teresa. Só assim haveria a possibilidade de se arrecadar recursos no volume capaz de custear o projeto. 

Além do evidente prejuízo à paisagem e à ideia de uma cidade com escala mais humana, haveria um outro problema. A arrecadação desses recursos é incerta. O leilão das Cepacs no Porto Maravilha não teve interessados e só a entrada da Caixa Econômica, comprando todo o volume de certificados disponíveis salvou o projeto. Mas, não salvou a Caixa, que até hoje tenta vender os tais certificados, para cuja aquisição foram usados recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, uma evidente distorção de propósitos. 

Ao realizar o leilão das Cepacs do projeto Praça Onze, conseguirá a Prefeitura um novo comprador disposto a assumir riscos tão grandes como fez a Caixa Econômica no Porto Maravilha? É importante lembrar que persiste a oferta de muitíssimos certificados daquele primeiro projeto. São questões da realidade econômica, que sempre poderão ser artificialmente resolvidas por intervenções políticas. Mas aí a massa projetada de edificações já estará no forno, infladas pelos excessivos índices de aproveitamento dos terrenos e pelas Cepacs. E lá se vai a paisagem e a qualidade de vida.

Artigo publicado em 21 de maio de 2026 no Diário do Rio. 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pode a soberba prejudicar paes?

Os gregos antigos falavam da húbris, que era o orgulho excessivo, a soberba, que levava à derrota dos guerreiros, atingidos pela ira de Nêmesis, deusa da retribuição divina e da vingança. Eduardo Paes e, como diz o Fábio Porchart, o seu "cover" parecem se esquecer desses cuidados recomendados pela antiguidade clássica. É impressionante a quantidade de projetos que levam adiante e que contrariam o senso comum e a proteção do meio ambiente e do Patrimônio.

Nos seus primeiros mandatos, Paes implodiu a antiga Fábrica da Brahma, um marco na paisagem do Catumbi. O seu projeto Porto Maravilha propôs edificações de até cinquenta pavimentos, sem a devida proteção de galpões remanescentes da atividade portuária na área do retroporto. Como resultado tardio, a cidade vê surgir uma barreira edificada junto à rodoviária, a Curilândia, que vai suprimindo da visão dos cariocas o Morro do Pinto e a igrejinha de N. Sra. de Montserrat.

Nesses últimos mandatos do Prefeito Paes, houve um avanço sem precedentes no licenciamento para a remoção de árvores de terrenos privados. De acordo com reportagem do jornalista André Trigueiro, o número de árvores retiradas desses terrenos para novos empreendimentos saltou de 5. 216 em 2021 para 13.130 em 2025, um crescimento de 151%. A cidade, que já sofre com um enorme déficit de arborização urbana, especialmente nas Zonas Norte e Oeste, fica assim mais desprotegida contra o aumento da temperatura causada pelo aquecimento global. 

Essas retiradas aprovadas pela Prefeitura deveriam ser compensadas com o plantio de aproximadamente 175 mil mudas em vias urbanas. Ocorre que as mudas demoram a crescer, e nem todas vingam. E a Prefeitura não tem controle se esses plantios foram realmente realizados. O resultado é a perda significativa de arborização. 

Um bom exemplo de licença absurda para corte de árvores ocorreu no antigo Colégio Metodista Bennet, no Flamengo. O palacete ali existente, de 1859, foi a residência do Barão de São Clemente. Em 2014, o imóvel e a sua cavalariça foram tombados pelo Município do Rio de Janeiro. As árvores que compunham o conjunto foram consideradas imunes ao corte. No entanto, contrariando o disposto no tombamento, neste ano o Prefeito liberou o corte de 71 árvores frondosas existentes no terreno. Os moradores das imediações do palacete estão revoltados e já realizaram dois protestos na porta do empreendimento.

No Jardim de Alah, um parque tombado pelo Município, a Prefeitura licenciou um projeto que o descaracteriza e impermeabiliza o solo, com a construção de centenas de metros quadrados para lojas, um verdadeiro minishopping no parque. No Pão de Açúcar, a Prefeitura aprovou o projeto de uma tirolesa, que destruiu parte do topo daquele monumento tombado. Recentemente, a Justiça até mandou parar a obra, mas o dano à pedra do Pão de Açúcar já está feito.

A última autorização polêmica dos Eduardos é o corte de aproximadamente cinco dezenas de árvores no Buraco do Lume para a construção de um imenso prédio de apartamentos. Ele ocupará uma área já consagrada como um espaço de uso público. No momento, uma decisão da Justiça sustou o corte das árvores, mas essa suspensão pode cair. 

A sorte de Eduardo Paes é que a direita bolsonarista, atualmente a mais forte concorrente dele, não é afeita a essas questões de meio ambiente e paisagem. Querem mais é que todas essas “firulas” caiam na lata de lixo. Se esses oponentes pela direita fossem minimamente preocupados com isso, teriam um farto material de campanha para bombardear a candidatura Paes ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O ex-prefeito segue sua busca por mais poder, sem ligar para a opinião dos chatos dos ambientalistas e dos amantes do Patrimônio. Esquece-se que um dia Nêmesis pode acabar se irritando.


Aretigo publicado em 07 de maio de 2026 no Diário do Rio. 


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Recomendações sentimentais acerca de um certo Theatro

Foto Roberto Anderdson

Vocês que estão aí, na Cinelândia, de boca aberta diante desse teatro têm razão, ele é mesmo estupendo. Reparem na escadaria, nas colunas coríntias e nos balcões. E os vitrais, viram como são belos? Se voltarem mais à noite, verão a luz interna passando por eles e a magia das formas coloridas acontecendo. Reparem nesse telhado de cobre. Percebam que ele começa a perder a pátina artificial, feita no último restauro, e a pátina natural está se formando. Mas, por agora, há um tom amarronzado querendo aparecer. É normal, o cobre tem vida própria e vai mudando de cor até chegar no verde do azinhavre.

Aproveitando que estão olhando para cima, aposto que não deixaram de notar a grande águia dourada, sobre a cúpula mais alta, e os ornatos da cobertura também dourados. Pois saibam que esse atual douramento quase não aconteceu. Ele havia existido nos primórdios do teatro. Mas a reação química com o cobre terminou por consumi-lo. Era preciso refazer esse trabalho, mas quem dominava essa técnica por aqui? O douramento sobre cobre é diferente do que existe nas talhas de madeira em nossas igrejas barrocas.

Foi preciso buscar o Sr. Fabrice Gohard, que já havia feito esse trabalho para a cobertura da Ópera de Paris e para a tocha da Estátua da Liberdade. Sim ela é dourada, não é falsa feito aquelas de certa loja de departamentos. O Sr. Gohard e a sua equipe trabalharam um bocado para dar conta de tantas peças a receber aquelas finíssimas folhas de ouro. Depois de grudadas nas superfícies dos ornatos, elas permanecem lá para brilhar por muitos e muitos anos. 

Olá, você que mostra seu ingresso para o porteiro escanear o código de barras. Perceba que ele geralmente é jovem, está bem-vestido e não dá muita atenção a você, mas sim ao seu bilhete. Mas, saiba que nem sempre foi assim. Lá pela década de 1970, os porteiros eram funcionários não muito bem pagos, que olhavam nos olhos de quem chegava à porta.  Em troca de deixar alguns entrarem sem ingressos, aceitavam uma gorjeta furtiva. Aos olhos atuais, isso pode parecer escandaloso. Mas era a salvação da lavoura para jovens artistas sem dinheiro, que desejavam muito ver seus ballets e suas óperas favoritas.

Os funcionários do Theatro estavam há tanto tempo na casa, que aqueles que lidavam com o público conheciam os espectadores mais assíduos pelos nomes. Eles puxavam uma conversa, perguntavam pela família e contavam um pouco das suas vidas. Do filho que já vai para a faculdade e do esforço para pagar as mensalidades.

Ei, menina, estudante de ballet, que está fazendo uma pose diante dessa escada que leva ao nível do balcão nobre. Depois da foto, repare nos mármores e nos ônix verdes que a compõem. E também nas figuras femininas no início dos corrimãos. Ah, não deixe de apreciar a escultura em mármore de Carrara, que preside a sua subida. Ela se chama A Verdade e está ali para tornar a sua ida ao teatro mais esplendorosa.

Vocês três aí no Foyer do teatro. Olhem para cima e observem a magnífica pintura A Música, de Eliseu Visconti. Percebam que é feita numa técnica pontilhista, em que milhares de pequenas pinceladas, neste caso, se sobrepõem à pintura das figuras e formas, as quais têm reflexos do impressionismo. Ao entrarem na sala de espetáculo, verão no teto a pintura As Horas, além das pinturas do proscênio e do pano de boca, todas do mesmo artista. 

Mas, antes, muito cuidado ao se debruçar sobre esses balcões que se projetam acima da grande escada. A balaustrada de um deles já despencou sobre os degraus lá embaixo. Ocorre que o Theatro Municipal se equilibra sobre centenas de estacas de madeira, mergulhadas na lama do subsolo da Cinelândia. A cada composição do metrô que passa, a cada ônibus mais furioso que cruza a Praça Floriano, tudo balança milimetricamente. O ajuste das peças se alarga, microtrincas surgem nas paredes de mármore, e tudo isso acaba por deixar a balaustrada meio solta. Mas, não se preocupem tanto, ela já foi recuperada e hoje não vai cair com vocês. 

Por falar em subsolo, recomendo ao senhor que chegou cedo para o concerto, a ópera ou o balé, que dê um pulinho lá no térreo, onde fica o Salão Assyrio. Entre colunas encimadas por touros, seres alados, arqueiros, fontes e mosaicos, representações em cerâmica esmaltada de Gilgamesh dominando um leão e de Dario I apunhalando o gênio do mal lhe convidam a se deixar enredar em contos e fábulas orientais.

Já de volta à plateia, daqui a pouco vai começar o espetáculo. Nesse momento, os maquinistas estão a postos para fazer os cenários subirem e descerem na hora certa. Os contrarregras já colocaram todos os objetos em cena. O pessoal da iluminação trabalhou pesado para afinar todos os refletores, cada um pendurado na sua vara. O diretor de palco está atrás da cortina ainda fechada e é ele quem vai dizer quando o terceiro sinal pode ser dado. Logo após esse sinal, as luzes da plateia começarão a se apagar. Aprecie este momento de sublime expectativa. Há poucas emoções iguais a essa. Bom espetáculo!

Artigo publicado em 30 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Rápidas impressões sobre Aracaju

Aracaju é uma cidade simpática, à beira de um rio e do mar. A sua expansão se deu através da drenagem de áreas alagadas e do aterramento de manguezais. No entanto, ainda é forte a presença do manguezal dentro da cidade. Seguindo hábitos antigos, nesse exato momento, uma gigantesca obra viária está sendo feita às custas do aterramento de partes do manguezal sobrevivente às margens do Rio Sergipe. Sendo esse ecossistema protegido pelo Código Florestal, é de se questionar como isso pode acontecer. 

Como na maioria das cidades do Nordeste, Aracaju tem uma boa qualidade de vida, com sistemas de transportes integrados por terminais bem-organizados e ônibus circulando em faixas exclusivas, alguns deles elétricos. Há ainda uma boa malha de ciclovias pela cidade. Percebe-se ali também a forte melhoria das condições de vida dos moradores da região, fruto de políticas públicas inclusivas do governo federal nas últimas décadas, apesar de interrupções ocorridas.

Aracaju substituiu como capital a cidade de São Cristóvão, fundada em 1590 como a capital da então Província de Sergipe del Rey, a quarta mais antiga do Brasil. Como esta última se localizava longe do mar, houve a necessidade de um porto marítimo para a Província. A escolha recaiu na área onde depois foi erguida Aracaju. A sua fundação é de 1855, projetada pelo engenheiro Sebastião José Basílio Pirro. O traçado da cidade original é uma malha regular, com vias largas perpendiculares e paralelas à linha do rio Sergipe. Depois, a cidade cresceu e novas malhas foram adicionadas, também regulares, mas sem seguir a orientação da malha inicial.

Com uma história que guarda similaridades, Belo Horizonte também substituiu a antiga capital do seu estado, Ouro Preto. Belo Horizonte foi projetada por Aarão Reis, sendo a sua fundação datada de 1897. O traçado do que deveria ser a cidade quase inteira, mas que hoje é apenas a sua área central, também é uma malha ortogonal regular, à qual se sobrepõe outra malha maior, em sentido diagonal à primeira. Uma trama semelhante à de La Plata, na Argentina. 

Fundadas com poucas décadas de diferença, as duas capitais têm uma forte presença da arquitetura eclética, comum na virada do século. Os edifícios públicos mais importantes seguem essa linha. Infelizmente, boa parte das edificações ecléticas da área comercial do Centro de Aracaju estão cobertas por letreiros gigantes, como era o Centro do Rio antes do Corredor Cultural. 

Belo Horizonte, por ser posterior, recebeu também muitas edificações Art Déco. Em Aracaju, assim como em Belo Horizonte, uma praça romântica, com coretos e jardins, emoldura o palácio do governo. Mas, nas duas cidades, os palácios de governo terminaram perdendo essa função original, sendo transformados em museus. As respectivas sedes de governo foram transferidas para edifícios modernos.

Em Aracaju, como em outras cidades brasileiras, chama a atenção homenagens a personagens e eventos discutíveis. Há um bairro Castelo Branco, um conjunto habitacional Médici, uma avenida 31 de Março e, na sua área metropolitana, um conjunto Fernando Collor. Em compensação, na cidade, e nos arredores, há uma quase onipresença da planta véu de noiva ou jasmim do caribe. Jardins de casas e calçadas têm o arbusto, com suas permanentes flores brancas. É uma bela planta, não há muito tempo introduzida no país.

Edifícios da alta classe média de Aracaju foram construídos na beira do Rio Sergipe, ao Sul do Centro Histórico. Mas, a cidade vive um processo de descentralização. No momento, é Atalaia, bairro à beira-mar, que se desenvolve como área de classe média alta. Para lá foram os hotéis e a região se verticaliza. Aqueles antigos edifícios das classes altas, perto do Centro, ainda resistem, mas devem perder status.

No bairro de Atalaia, casas baixas vão dando lugar, rapidamente, a edifícios altos. O contraste entre as casas térreas e os novos edifícios é gritante. Constrói-se em altura à beira-mar também. Essa urbanização, talvez não planejada como foi o centro histórico, gera problemas, como a falta de acessibilidade de algumas calçadas. Muitas vezes, a cota de soleira das casas, que é a altura do piso da casa em relação à rua, é alta e varia muito. Como resultado, mesmo numa rua plana, há degraus ao longo das calçadas, tornando difícil a vida de idosos e cadeirantes.

Aracaju é uma cidade acolhedora e mantém uma escala agradável. Ali a vida ainda é calma. Pelas ruas vai um povo moreno e conversador. Pelos restaurantes ouve-se o toc-toc de pancadinhas para quebrar a casca do caranguejo. A sempre presença do belo jasmim do caribe talvez seja um sinal da hospitalidade dos sergipanos.

Artigo publicado em 24 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 



quinta-feira, 16 de abril de 2026

Serra dos Pretos Forros

Foto Jeremias Freitas

Fiz o curso primário no Colégio São Vicente de Paulo, o colégio das irmãs de caridade que existiu na Tijuca. Era assim que se chamava o primeiro grau e o colégio ficava no alto da pequena elevação que tem na base o Santuário da Medalha Milagrosa. 

Lá, as aulas de geografia eram também um pouco aulas de arte. Os livretos da matéria vinham com mapas em branco que precisavam ser coloridos. E as freiras caprichavam nessa tarefa. Éramos instruídos a raspar as pontas dos lápis coloridos com uma faquinha. A raspagem tinha que ser bem fina, para gerar um pó colorido. Depois, com pequenos chumaços de algodão, íamos espalhando aquele pó sobre os mapas do Brasil, separando os estados por cores. Como eram muitos, e os estojos de lápis tinham opções limitadas, precisávamos ter cuidado para não deixar estados contíguos com a mesma cor. 

Ao passar o algodão, de forma bem leve sobre aquele pó colorido, criava-se um esfumaçamento, quase transparente, que era o resultado esperado. O ruim era quando havia pedacinhos da ponta do lápis que, levados pelo algodão, geravam riscos na mancha colorida. Era o sinal de que os cuidados na raspagem do lápis e na leveza ao passar o algodão não tinham sido suficientes. 

Coloríamos mapas do Brasil, da Guanabara, dos bairros e dos acidentes geográficos. A Serra da Tijuca era verde escuro, os rios, lagoas e o mar eram azuis e as áreas urbanas marrons. O resto da folha, no entorno do mapa, também podia receber uma cor. Quem sabe um vermelho ou um amarelo. Tudo bem óbvio, para ser gravado na memória, e com o tempo necessário para que aquele trabalho artístico fosse bem realizado. 

Entre os nomes das serras cariocas, um sempre me chamava a atenção, tanto que não o esqueci: a Serra dos Pretos Forros. Para uma criança o nome parecia meio esquisito. Por que dar o nome de um tecido a uma serra? A professora jamais explicou. E criança, às vezes, tem fixação em nomes e expressões. O nome soava bonito e nunca me abandonou. Volta e meia me lembrava dos pretos forros, nessa ordem gramatical então curiosa, em que o que parecia adjetivo vinha antes do substantivo. 

Só mais tarde vim a saber que a serra entre os bairros de Água Santa e Lins e Vasconcelos, dividindo as zonas Oeste (Jacarepaguá) e Norte (Grande Meier), tinha sido o caminho de escravizados fugindo em direção a quilombos que se formaram no Maciço da Tijuca, da qual a serra faz parte. E também de negros alforriados dos engenhos das redondezas que por ali foram se instalando. Daí o nome.

Como é interessante o conhecimento! Uma vez sabedor dessa história de resistência à opressão da escravidão, a ordem das palavras pretos forros nunca mais deixou de fazer sentido. É com gosto que as pronuncio. Desde o ano de 2000, a serra passou a ser uma Área de Proteção Ambiental e é também parte de um dos quatro setores do Parque Nacional da Tijuca. 

Apesar de sua história e beleza paisagística, a APA dos Pretos Forros sofre com a pressão por sua ocupação pela mancha urbana, especialmente em suas áreas mais íngremes, que vêm sendo ocupadas por moradia irregular de baixa renda. Segundo estudo de Samara Silva dos Santos e Carlos Eduardo das Neves[1], a área urbana da APA passou de 22,68% em 1993 para 28,55% em 2024. Vale indicar que nesse período houve também um avanço das áreas florestadas, que substituíram áreas de agropecuária.

Hoje aquele colégio já não existe e a Guanabara foi um sonho que durou pouco. Os mapas seguem mudando. O Brasil ganhou novos estados e países mudaram de nomes. E as crianças têm à disposição estojos de lápis de cor mais generosos. Aliás, nem sei se ainda colorem mapas com aquela técnica de raspagem dos lápis coloridos. Mas a Serra dos Pretos Forros segue firme, guardando suas histórias de fuga da violência do passado e de resistência à pobreza no presente. 

Artigo publicado em 16 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 


 



[1] SANTOS & Neves, Mudanças na dinâmica socioambiental da APA Serra dos Pretos Forros entre 1993 e 2022 – Rio de Janeiro – DOI 10.51308/continentes.v1i27.621.

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Duas sentenças e um Iphan e um IRPH no meio

Foto: Agência Nacional

Recentemente, num prazo de doze dias, a Justiça do Rio de Janeiro emitiu duas decisões relativas a intervenções da iniciativa privada em importantes bens tombados da Cidade do Rio de Janeiro. As duas decisões envolveram avaliações feitas pelo Iphan sobre a admissibilidade de tais intervenções e tiveram conclusões absolutamente divergentes.

No caso do projeto de intervenção no Jardim de Alah, que já produziu o corte de dezenas de árvores, e levará à impermeabilização do solo, à descaracterização do bem tombado e à exploração sobre o mesmo de atividades comerciais que se assemelham a um pequeno shopping, a decisão foi favorável aos empreendedores. As obras, que ainda entrarão na fase de implantação das fundações, foram autorizadas a ser retomadas. Serão 58 lojas e um estacionamento para 228 vagas, cujas lajes de cobertura receberão uma camada de terra e algum ajardinamento, como fosse uma intervenção ecológica.

Já no caso da construção de uma tirolesa no Pão de Açúcar, cujas obras estão com os serviços previstos avançados, a justiça foi desfavorável ao empreendimento, determinando a sua imediata paralisação. A obra da tirolesa do Pão de Açúcar provocou cortes irreversíveis na pedra da montanha, que é o próprio objeto do tombamento. Em sua decisão, o Juiz Paulo André Espírito Santo Manfredini, da 20ª Vara Federal do Rio escreveu que “determinou a anulação, por vício insanável de motivação insuficiente e ausência de amplo debate público dos atos administrativos do Iphan que concederam a licença para a instalação da tirolesa no Pão de Açúcar”.

A sentença ressalta ainda a atuação irregular do Iphan, que teria se omitido em fiscalizar o bem tombado e autorizado a obra, mesmo após ter constatado seu início sem o devido licenciamento. Para culminar a reprimenda ao Iphan, o juiz afirmou que o Instituto ainda passou a defender que a obra era legítima e que não gerava qualquer dano ou risco ao Pão de Açúcar. Como se pode perceber, o Juiz Manfredini analisou as ações do Iphan à luz das suas obrigações como órgão de proteção ao Patrimônio, considerando que o mesmo falhou em sua missão. Como consequência, o Iphan e a Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar foram condenados a pagar uma indenização por danos morais no valor de R$ 30 milhões, que serão destinados ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos.

Já no caso do Jardim de Alah, houve uma decisão unânime da 6ª Vara de Fazenda Pública, autorizando o prosseguimento das obras de descaracterização do bem tombado, mas nomeadas no processo como de revitalização do Jardim de Alah. Em seu parecer, o relator do caso, o desembargador Sérgio Seabra Varella, cita essa “revitalização” como um benefício que advirá com as obras, ignorando os anos de abandono provocado pela Prefeitura, essa sim a grande responsável pelo estado deplorável em que se encontra o bem tombado. O desembargador ressalta que “consta no processo parecer emitido pelo Iphan, órgão máximo de proteção ao patrimônio cultural do Brasil, como pontuado pelo Ministério Público em suas razões de apelação, a concluir pela ausência de oposição do Órgão ao projeto de revitalização, por não afetar a visibilidade a ambiência de bem tombado a nível nacional, in verbis: (...) 'Não se vislumbram danos permanentes que possam ser causados pelo projeto em tela quanto à visibilidade e ambiência do bem tombado nacional Conjunto Paisagístico da Lagoa Rodrigo de Freitas. Nada tenho a opor à execução do projeto de revitalização do Jardim de Alah conforme o Projeto Executivo de arquitetura e complementares protocolado'."

O tombamento do Jardim de Alah é municipal, portanto, a análise do Iphan foi apenas sobre a interferência na ambiência da Lagoa Rodrigo de Freitas, essa sim um bem tombado federal. Já o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, o órgão de Patrimônio municipal, responsável pelo tombamento do Jardim de Alah, falhou no mesmo nível de gravidade em que o Iphan falhou ao analisar a intervenção no Pão de Açúcar. E o desembargador, aparentemente, não percebeu esse detalhe importante. O parecer do Iphan não se referia ao Jardim de Alah e sim à Lagoa Rodrigo de Freitas.

É curioso ver como na análise do processo referente ao Jardim de Alah o desembargador toma o parecer do Iphan como uma verdade absoluta, eximindo-se de questionar se o órgão tinha competência para aprovar uma obra que levará à desfiguração do parque tombado. O Desembargador esqueceu-se de questionar o papel do IRPH e a qualidade da aprovação que foi dada para a intervenção. Ao contrário do Juiz Manfredini, que percebeu uma falha terrível na atuação do Iphan, chegando a multá-lo, a 6ª Vara de Fazenda Pública se eximiu de questionar a atuação do órgão de Patrimônio municipal.

Ainda cabe recurso quanto à decisão desfavorável à preservação do Jardim de Alah, e o Ministério Público do Rio de Janeiro apresentou recurso ao Superior Tribunal de Justiça. Nesse recurso é ressaltado que a 6ª Vara de Fazenda Pública proferiu sua decisão sem a produção de provas técnicas que poderiam esclarecer os danos ao meio ambiente e ao Patrimônio, o que seriam nulidades processuais. Espera-se que nessa instância os senhores ministros avaliem os danos reais que o projeto irá causar ao Jardim de Alah e questionem, tanto o parecer do Iphan, quanto o do IRPH sobre a validade de uma obra tão radical num bem tombado. E que, em caso de vitória dos defensores do Patrimônio e do meio ambiente, que também seja estabelecida uma indenização por danos morais. Os órgãos de Patrimônio, cuja atuação é da responsabilidade de funcionários dedicados, também são passíveis de se equivocar.

Artigo publicado em 09 de abril de 2026 no Diário do Rio.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Uma tarde na Rua da Alfândega

Foto Gabriela Melgaço Merino

Dia desses passei algumas horas na Rua da Alfândega observando os seus sobrados. Há pessoas que observam pássaros e há até quem observe trens, aviões ou caminhões. Uma parte dos arquitetos tem mania de observar sobrados e imóveis antigos. E de fotografá-los. Ah, como são interessantes os sobrados da Rua da Alfândega!

Essa rua dá nome à SAARA, sendo uma de suas principais vias. Ali há de tudo, como de resto em toda aquela área comercial. São muitas lojas de roupas, de bugigangas vindas da China, que devem ser itens de primeira necessidade para quem as compra, lojas de bolsas e de mochilas, lojas de artigos para festas, e lanchonetes. E há também muitas joalherias, geralmente guardadas por algum segurança sentado numa banqueta alta do lado de fora da loja, mas voltado para o seu interior.

Aliás, esses lojistas de joias foram os que alertaram os seguranças da SAARA para o fato de que havia um sujeito curioso tirando fotos das lojas, talvez mal-intencionado, quando o interesse era apenas a arquitetura mesmo. O segurança, até com educação, veio transmitir a absurda regra de que seria proibido fotografar os sobrados daquelas ruas, porque os comerciantes ficariam nervosos. Quem sabe, as fotos seriam para arquitetar não um projeto de pesquisa, mas um plano de roubo das lojas e das joalherias... Ser observador de sobrados tem desses perrengues.

A rua da Alfândega é protegida pela Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge. Apesar de haver uma sociedade limitada de santos na mesma igreja, todos só a conhecem como a Igreja de São Jorge. E o santo faz questão de dominar o pedaço, com sua imagem montada a cavalo em tamanho natural próxima ao altar. É ela o foco das atenções e orações dos devotos do santo, e de Ogum, especialmente em dias dedicados a festejá-lo.

São relativamente poucos os sobrados em mau estado de conservação ali na Alfândega. Muitos se encontram bem pintados ou, no máximo, com alguma mancha na pintura pela ação do tempo e da umidade. A combinação de cores é sempre alegre, com azuis, verdes, rosas e cremes dominando as superfícies das paredes. E ornatos em cores claras, numa profusão de mísulas, florões, frisos, datas de construção e nomes das ordens religiosas proprietárias dos imóveis. As portas e janelas são guarnecidas por cercaduras de pedra. 

Se o observador for atento, perceberá a riqueza do trabalho de serralharia dos balcões. Vistas à distância, lembram obras de filigranas. Aqui pequenas colunas constituídas por folhas, ali dragões longilíneos a guardar os senhores da casa. Não só os detalhes de suas decorações são fascinantes, como também os formatos dos balcões. Alguns são bojudos, outros são retos e diretos. Alguns são discretos, outros estão ali como peças mais vistosas da decoração. Também as peças de granito em que estão assentados são dignas de apreciação. Geralmente seguem tamanhos padronizados de corte, e suas emendas são, às vezes, quase imperceptíveis. 

Esses sobrados foram salvos do apagamento e da destruição pelo projeto Corredor Cultural. Apagamento porque muitos deles tinham suas características escondidas atrás de gigantescos painéis de propaganda ou estavam pintados de preto para não aparecerem. Destruição porque os projetos pretensamente modernizadores da cidade, como a inacabada avenida Norte-Sul, pretendiam terminar o trabalho de demolição já iniciado com a abertura das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas. Hoje estão aí, recuperados, abrigando um comércio variado e fazendo a alegria de quem se detém a observá-los.

Artigo publicado em 02 de abril de 2026 no Diário do Rio.