sexta-feira, 12 de junho de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
O que há com nossos juízes?
Recentemente, ainda neste mês de junho, uma decisão da titular da 14ª Vara de Fazenda Pública cassou a liminar que havia sido obtida por ação movida pelo gabinete do Deputado Federal Chico Alencar (Psol) que impedia o corte de 58 árvores no Buraco do Lume. Em seu despacho, a juíza Neusa Regina Leite alega que "o cuidado com o meio ambiente não pode restringir o atuar da Administração, principalmente a gestão de políticas públicas e o desenvolvimento econômico". Esta frase, vinda de uma pessoa responsável por aplicar a lei e arbitrar disputas judiciais, representa a falência de todos os esforços dos movimentos ambientalistas, de todas as ONGs que vêm trabalhando pela transformação da sustentabilidade em tema transversal na gestão do Estado brasileiro. Não há partidos ambientalistas, nem cientistas brasileiros membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que possam dar conta da imutabilidade de um pensamento vindo lá do século XIX, ou mesmo de bem antes, que coloca o desenvolvimento econômico em primeiro lugar frente à proteção do meio ambiente e à qualidade de vida dos cidadãos.
Em maio de 2025, outra juíza, a Dra. Regina Lúcia
Chuquer, da 11ª Vara de Fazenda Pública, revogou a liminar que suspendia as
intervenções no Jardim de Alah e julgou improcedente a ação civil pública
movida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que
questionava a legalidade do projeto que visa transformar aquele parque público
tombado, em um shopping center. Serão 58 lojas, entre as quais uma conhecida
churrascaria, que já garantiu sua futura presença no ex-parque, e um
estacionamento para 228 vagas. Em sua sentença, a juíza afirmou: “Não foi
encontrado qualquer indício de lesão ao patrimônio histórico-cultural ou
ambiental. Ao contrário, a cidade ganhará um novo polo turístico e social”.
A magistrada não é capaz de perceber a imensa
contradição entre as exigências de preservação, advindas de um ato de
tombamento, e um projeto que propõe a transformação radical desse parque.
A ação destruidora do consórcio responsável pelo projeto é desconsiderada. A
juíza se baseia em pareceres favoráveis do Instituto Rio Patrimônio da
Humanidade (IRPH) e do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural,
dois órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio cultural do Município. O
fato desses pareceres serem frontalmente contrários à missão a que esses órgãos
deveriam se dedicar não é considerado pela juíza.
Ainda no caso do Jardim de Alah, houve depois uma
decisão unânime da 6ª Vara de Fazenda Pública, autorizando o prosseguimento das
obras de descaracterização do bem tombado, mas nomeadas no processo como de
revitalização do Jardim de Alah. Em seu parecer, o relator do caso, o
desembargador Sérgio Seabra Varella, citou essa pretensa “revitalização” como
um benefício que advirá com as obras. O desembargador se valeu de um parecer
emitido pelo Iphan, que não é o órgão responsável pelo tombamento do Jardim de
Alah, e que se referia à falta de interferência do projeto para o Jardim de
Alah na ambiência da Lagoa Rodrigo de Freitas, essa sim um bem tombado pelo
Iphan.
Também em maio, no dia 21 do corrente, o Desembargador
Carlos Alberto Menezes Direito Filho, da 5ª Vara de Direito Público deu parecer
favorável à retomada das obras no antigo Colégio Metodista Bennet, que haviam
suprimido 71 árvores. Ele escreveu: “A existência de licenças urbanísticas e
ambientais regularmente expedidas confere presunção de legitimidade à
intervenção administrativa autorizada”. Quando um juiz não se considera apto a
julgar se a ação do poder executivo é correta, limitando-se a aceitá-la como
tal, apenas por ela advir daquele poder, então não há propriamente um
julgamento. Se ele se debruçasse sobre a questão, veria que o ato de tombamento
declarou as árvores do local imunes ao corte, e criou uma área de entorno dos
bens tombados. Então a derrubada das 71 árvores, além de um crime ambiental foi
um desrespeito ao próprio decreto de tombamento. Mas o desembargador não viu.
A administração da Prefeitura, e o governo estadual,
são entes políticos, que através do processo eleitoral mudam de tempos em
tempos. Interesses do capital imobiliário, e de outros, podem se encastelar
nessas instâncias de governo, como parece ser o caso da atual situação da
Cidade do Rio de Janeiro e do seu Estado. Mas da justiça, mesmo sendo exercida
por seres humanos, sujeitos a paixões e a falhas, não se espera um alinhamento
tão imediato com as políticas dos governos do momento. Infelizmente, é o que parece
acontecer.
Artigo
publicado em 05 de junho de 2026 no Diário do Rio.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, nascido em Palma, Minas Gerais,
em 1944, desenvolveu toda a sua vida profissional no Rio de Janeiro, cidade à
qual serviu em diferentes cargos públicos ao longo da sua carreira. Ele foi o
idealizador e a grande liderança do projeto Corredor Cultural, que salvou da
destruição boa parte do centro do Rio de Janeiro. Ele também realizou projetos
para espaços públicos da cidade e foi Secretário de Urbanismo. Nesta entrevista
(com a colaboração da estagiária Beatriz Jucá Pereira Campos), realizada em 18
de maio de 2026, ele aborda as origens do projeto Corredor Cultural, as emoções
e os desafios vividos ao longo da consolidação do projeto.
O período na Holanda
Roberto Anderson: Augusto, eu queria voltar um pouco
no tempo e relembrar o processo de criação do Corredor Cultural. Teve toda
aquela história de você ir para Holanda, mas, antes de você ir para lá, você já
tinha um pouco de preocupação com esse assunto?
Augusto Ivan: Já sim. Eu trabalhei muito intensamente
na demolição do Morro de Santo Antônio, documentando aquilo. Eu não entendia muito
do assunto, mas eu tinha que entregar as plantas dos imóveis que seriam desapropriados.
Isso foi feito quando eu trabalhava na Secretaria de Obras, por onde eu entrei
na Prefeitura. Em 1974, surgiu uma oportunidade de ir para a Holanda e fui. Peguei
as malas e fui para a Holanda para um período no Bowucentrum International
Education, em Roterdã. Lá, desenvolvi um trabalho, juntamente com um africano,
para uma cidade na África.
Roberto Anderson: Houve uma segunda passagem pela
Holanda, não?
Augusto Ivan: Sim. Já de volta ao Rio, em 1978 eu
recebi um convite para voltar com uma bolsa do governo holandês. Uma bolsa para
que ex-alunos desenvolvessem projetos que pudessem ser reproduzidos em outros
lugares. Eu poderia desenvolver o trabalho que eu quisesse, que eu achasse mais
interessante.
Roberto Anderson: Que trabalho você desenvolveu lá?
Augusto Ivan: Como eu disse, eu estava trabalhando na
ocasião na Secretaria de Obras. Por conta própria, eu e o Marlon Costa e Souza,
outro arquiteto, que faleceu muito cedo, desenvolvemos um trabalho para o Largo
de São Francisco. Era um trabalho do jeito que a gente achava que devia ser uma
pesquisa, porque não era um trabalho acadêmico, com rigor acadêmico. Era uma
coisa que a gente fazia levantamentos e fazia propostas. Nós o denominamos de
Renovação Urbana do Largo de São Francisco. Quando cheguei na Holanda, eu
propus fazer um trabalho nessa área. Um trabalho na direção da preservação
daquele estranho conjunto de prédios que se recusava a morrer (no Special
Programe do Institute for Housing and Urban Development Studies - IHS, também
em Roterdã, Augusto Ivan desenvolveu o trabalho "Multifunctional
Development of the Inner City", que deu origem ao projeto Corredor
Cultural).
Roberto Anderson: Como era aquela área na época?
Augusto Ivan: Todo o centro da cidade do Rio de
Janeiro estava meio mortiço, mais ou menos como está agora, mas numa
perspectiva mais pessimista. Então, o trabalho que eu me propus a fazer foi levantar
a situação dos imóveis dentro de um rigor maior, e fazer propostas de
intervenção no espaço público. Na época, havia aqueles projetos de alinhamento
(PAA) que passavam por cima do Largo de Francisco. Não era possível fazer
nenhuma intervenção sem que se fizesse os PAA. Mas, a Prefeitura, no afã de
derrubar, de fazer projetos de renovação, de construir viadutos e outros
projetos viários, acabou paralisando o desenvolvimento da área. Como não se
podia fazer nada enquanto não se completasse o PAA, tudo ficou paralisado. O
que seria um projeto de destruição, acabou por preservar a região. Então a
gente estudou o que fez essa área tão interessante ficar de fora do
desenvolvimento urbano por tantos anos.
Roberto Anderson: Como foi a recepção desse trabalho
na Holanda?
Augusto Ivan: O IHS era um curso de habitação social,
destinado a formar pessoas, geralmente funcionários de governos de países em
desenvolvimento. Aí quando eu cheguei, eles levaram um susto. Eles acharam um
projeto inadequado. Mas eu falei que não queria fazer outro projeto, que tinha
ido lá para fazer aquele projeto. Eles acabaram me encaixando num módulo, onde
eu ficava meio à vontade com o trabalho de preservação e renovação do Largo de São
Francisco, o trabalho que havia sido começado aqui.
Roberto Anderson: Depois, com o projeto já em
aplicação, a instituição holandesa tomou conhecimento, ela reconheceu esse
trabalho?
Augusto Ivan: Sim, depois eles ainda encomendaram
outro trabalho sobre quatro favelas, Rocinha, Brás de Pina, Maré e Morro dos
Cabritos, em Copacabana. Eles queriam que a gente fizesse um mapeamento do
lugar, uma distribuição das atividades de planejamento, de execução de obras,
etc. Um trabalho a partir do que o Carlos Nelson havia feito em Brás de
Pina.
Os primórdios do Corredor Cultural
Roberto Anderson: E como foi a volta ao Rio?
Augusto Ivan: Eu voltei com o trabalho mais ou menos
pronto, mas não tinha utilidade nenhuma, ninguém queria ver aquele trabalho. Eu
estava meio vagando até que, um belo dia, o Armando Mendes, meu amigo, e que à
época era Superintendente de Planejamento na gestão do Klabin (prefeito de 1979
a 1980), me chamou. Ele falou: "Você não fez uma coisa lá para o Largo de
São Francisco, no seu curso de pós-graduação? Então, sai da Secretaria de Obras
e vem trabalhar na Secretaria de Planejamento". E foi aí que começou a dar
uma estrutura mínima ao trabalho, que agora podia se apresentar como um
trabalho da Prefeitura.
Roberto Anderson: Havia uma conjuntura política
favorável ao projeto, não?
Augusto Ivan: Sim, o Israel Klabin é uma figura que
merece todo o respeito nesse processo e que dava muita força para o projeto
acontecer. Ele cismou de apadrinhar o projeto do Corredor Cultural. Ele me
ligava para que eu passeasse com ele na cidade, que ele queria conhecer.
Roberto Anderson: Essa forma de trabalhar um conjunto
valorizando mesmo aqueles imóveis menos especiais era uma novidade, não?
Augusto Ivan: Sim, até então, eram os grandes
monumentos que importavam. Veja o exemplo do Morro da Conceição. Lá tem oito
monumentos tombados pelo Iphan, mas ele tem um entorno que faz um sentido junto
com a manutenção dos prédios numa situação de preservação de volumes. O Iphan
viu o Morro da Conceição como uma coisa volumétrica. Aí, a gente já vinha um
pouco adestrado, assumindo a posição que não, não era guardar os imóveis para
uma situação de cenário. Era para valer mesmo, preservar para poder manter. O
Ítalo Campofiorito foi o primeiro intelectual a dar um valor a essa
preservação, a esse projeto. Ele ajudou nos bastidores. Até então, o Patrimônio
era consagrado com uma área do Iphan. De qualquer forma, o Corredor Cultural
teve uma associação muito forte com o IPHAN, nós tivemos boas relações com o
Iphan e seus arquitetos, sem nunca ter tido briga.
Roberto Anderson: O Corredor Cultural tem as três
áreas, a Saara, a Praça XV e a Lapa. Dentro desses perímetros há áreas
excluídas. E há uma área grande do Centro que também ficou de fora. Como foram
definidos esses limites? Foi fácil? Foi preciso negociar muito para decidir o
que ficaria de fora?
Augusto Ivan: Boa pergunta. Essa questão foi objeto
de muita polêmica, de muita discussão, porque a gente não fez o chamado centro
histórico, de acordo com o que se fez na Espanha ou na Itália. A gente fez o
que dava para fazer, o que sobrou. Alguns sobrados na Rua da Alfândega, por
exemplo, entre a Rua Uruguaiana e a Avenida Rio Branco, ficaram de fora do
Corredor Cultural porque eles já pertenciam à mancha da renovação, a área já
estava muito modificada. A gente não avançou sobre áreas que já vinham
assoberbadamente sendo ocupadas pela especulação imobiliária. Ela não tinha
muito interesse nas áreas que selecionamos, porque a legislação era restritiva.
Tanto é, que alguns dos cadernos de divulgação e projetos do Corredor foram
bancados pela ADEMI.
Roberto Anderson: Então não houve áreas que você
tenha lamentado não entrar?
Augusto Ivan: Não. Quem lamentou foi a Rachel Sisson.
Ela não admitia que o Mosteiro de São Bento ficasse de fora. Ela queria que
fizesse parte de um conjunto. Fazia sentido, poderia ter sido feito. Mas era
uma área que ainda estava sendo muito alterada. Tinha prédios grandes surgindo
ali, como o RB1 (em 1997, foi criada a Apac da Rua Teófilo Otoni e arredores e,
em 2004, foi criada a Apac do entorno do Mosteiro de São Bento).
Roberto Anderson: Houve apoio amplo ao projeto então.
Augusto Ivan: Sim, havia espaço para o pequeno
comércio florescer. Então, eles (representantes do mercado imobiliário) ficaram
do nosso lado. Na sessão da Câmara de Vereadores em que foi aprovado o projeto
do Corredor Cultural, eles estavam presentes para apoiar, não para ir contra. Não
teve ninguém contra. Todo mundo era a favor. Eu sempre achei que tinha um lado
romântico no Corredor Cultural, as pessoas identificam esse passado como um
passado coletivo. Mesmo que você não tenha participado diretamente daquilo,
aquilo é caro à sua memória. As pessoas já ouviram falar daquela área, já foram
com o pai ou com a mãe, já foram passear na Saara, no Largo de São Francisco
etc.
A estrutura do Corredor Cultural
Roberto Anderson: E o Grupo Executivo do Corredor
Cultural, como é que ele surge?
Augusto Ivan: Ainda na gestão Klabin, foi criada a
Câmara Técnica para a implantação do Corredor Cultural. Depois, veio o Grupo Executivo,
do qual eu fazia parte (criado pela Lei 506/1984, cuja composição era mais
abrangente, mas depois foi reduzido para cinco membros de notório conhecimento
na área do patrimônio histórico e arquitetônico, pela Lei nº 1139 de 16 de
dezembro de 1987), um Escritório Técnico e um Conselho Consultivo (ambos
criados pela Lei nº 1139 1987).
O Escritório Técnico era responsável por acompanhar e dar
viabilidade, a batalhar no dia a dia, digamos assim. Pela Câmara Técnica e pelo
Grupo Executivo passaram pessoas importantes da nossa cultura, como Rachel
Jardim, Lélia Coelho Frota, Nélida Piñon, Rachel Sisson, Ítalo Campofiorito,
Sérgio Cabral pai, Sônia Mattos Caúla e Silva e Paulo Sérgio Duarte. Eram
pessoas com muito acesso à imprensa, que queria que elas falassem. O Conselho
Consultivo, muito amplo, não chegou a se reunir.
E havia o Rubem Fonseca, nosso grande escritor, que era o
presidente do RioArte na época. O Rubem Fonseca não dava entrevistas. Mas, para
o Corredor Cultural, ele era um bastião. Ele botou em um livro dele um
personagem com o meu nome. Era um arquiteto que andava pela cidade (personagem
e narrador do conto "A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro",
da coletânea "Feliz Ano Novo"). E ele me disse: "Você sabe que aquele
personagem do Augusto é você, né?".
Eu falei: "Isso aí, já me contaram". O Escritório
Técnico do Corredor Cultural era na mesma casa em que ele trabalhava, a
RioArte, o que facilitava as coisas. Essas pessoas (do Grupo Executivo) tiveram
um poder muito grande. E, também, uma compreensão e interesse grande pela
questão. Eles perguntavam coisas, como por que empena (lateral cega de uma
edificação), por que que chama empena? De onde veio essa palavra? Aí, gerava um
debate sobre a coisa chamada empena e a divulgação do assunto. Era bem
interessante que eles traziam para a área técnica um frescor, uma coisa
diferente. E dava vontade de trabalhar. A equipe trabalhava duramente.
Roberto Anderson: Quanta gente maravilhosa!
Augusto Ivan: É importante falar do papel da Rachel
Jardim. Ela organizava, em nome do prefeito, toda a discussão do projeto com a
Câmara dos Vereadores, antes da sua aprovação. O projeto foi muito debatido
antes de ser enviado para lá.
Uma vez pedi à Rachel um texto para um roteiro histórico
sobre o Corredor Cultural que eu fiz com a Ana Amora. Era um folder com
desenhos feitos à mão, que mostrava o skyline da região. E foi engraçado,
porque eu fui com a Rachel para a rua para mostrar o que que a gente queria que
estivesse no roteiro. Começamos na Lapa e circulamos por todo o Corredor, até à
Praça XV. Pelos lugares em que a gente passava, eu ia anotando no caderninho
aquilo que achava importante de mencionar no texto. No prazo acertado, a Rachel
veio e me disse: "Não consegui escrever aquilo que você me falou. Achei
muito careta". Aí ela fez um texto que começava assim: "Uma cidade o
que é? Um percurso no espaço, um percurso no tempo, um percurso em nós
mesmos?"("A cidade: o que é?”). Era uma coisa toda poética para
passear pelo centro da cidade guiado pelas escrituras de Raquel Jardim. Foi uma
pena terem retirado o nome dela do Parque das Ruínas, em Santa Teresa, projeto
que ela idealizou.
Roberto Anderson: Quem foram os primeiros arquitetos
do Escritório Técnico do Corredor Cultural?
Augusto Ivan: Era um pessoal muito legal. Bem no
início, trabalharam a Alice Reis e a Maria Lucia Neves. Depois vieram os
arquitetos Anita Tavares, Patrícia Vasconcellos, Maria Helena McLaren, Ana
Amora e André Zambelli. E Natércia Rossi, Elizabete Araújo e Sônia Gentile no
apoio, além do fotógrafo Zeca Linhares. Um pouco mais tarde, chegou a arquiteta
Annabella Blyth.
Captando a simpatia da população
Roberto Anderson: As ações do Corredor Cultural não
se limitaram à proteção da arquitetura, mas também buscaram captar a simpatia
da população, não é?
Augusto Ivan: Eu sempre tive uma ideia de ter uma
repercussão externa para garantir que as coisas não ficassem abandonadas, sem
pai nem mãe, com as mudanças de governos. A gente tinha muito trabalho de
divulgação, de comunicação para o exterior. Era um projeto muito aberto.
Qualquer pessoa que chegasse lá, tinha acesso a todas as informações. Montamos
uma biblioteca com verba própria da RioArte. Fotografamos muitíssimas coisas,
fizemos várias exposições. Tudo para chamar a atenção para aquele objeto, para
que aquela coisa permanecesse viva, valorizando os imóveis, que a gente tinha
para preservar.
Fizemos também um trabalho de como proteger o patrimônio.
Era um caderninho em que fizemos um levantamento das situações de risco de
incêndio, e que virou um manual. Esses cadernos começaram a virar um objeto de
curtição. Todo o pessoal da área queria ganhar, porque eles não eram vendidos.
E a gente tentando segurar, porque não tinha dinheiro para fazer mais. Fizemos
um sobre a cor no Corredor Cultural (A Cor, de Hilton Berredo e Zeca Linhares,
editado pela RioArte). E foram feitas umas coleções de cartões postais
coloridos da área. A Maria Helena McLaren e o Ítalo Campofiorito fizeram textos
para eles.
Roberto Anderson: E havia também umas atividades de
música e arte na rua.
Augusto Ivan: Sim, havia o Música na Praça
(coordenado por Liliam Zaremba), música em igreja (projeto Música nas Igrejas),
tinha o Tim Rescala com a bandinha dele (a Sereníssima Banda). As pessoas iam
atrás da bandinha do Tim, que juntava pessoas igual ao Flautista de Hamelin
para assistir às peças. Eram peças adaptadas de textos de Machado de Assis. Todo
esse trabalho foi pensado, não foi uma coisa que aconteceu, foi pensado, está documentado
de alguma maneira.
Fizemos também amizade com outros grupos que estavam na rua.
O Amir Haddad fez teatro também no Corredor Cultural. Celina Sodré era a
coordenadora desse projeto pelo RioArte (o projeto Cenas Cariocas levava música
e teatro às ruas do Corredor Cultural e também Aderbal Freire Filho participou
do projeto). E tinha música, que em geral era música clássica, que tocava na
rua. A ideia era ir para rua para configurar uma longevidade maior para o
projeto do Corredor Cultural.
As ações de preservação
Roberto Anderson: Quando começou o trabalho na
prática, você encontrou alguma resistência de comerciantes? Alguém se opôs às
determinações do Escritório Técnico do Corredor Cultural?
Augusto Ivan: Não. Não há, nem pontualmente falando,
algum interesse pessoal que tenha sido afetado pela legislação. Não foi um
tema. Não precisamos nos preocupar com isso. Mas, houve problemas um pouco
antes. Quando foi divulgada a planta do Corredor Cultural com os imóveis
preservados, começaram a ocorrer alguns incêndios. Achávamos muito suspeitos, desconfiávamos
que havia gente graúda por trás, mas não tínhamos prova nenhuma disso. Então, o
Klabin fez um decreto dizendo que, no caso de haver algum sinistro, haveria a
obrigação de reconstruir o imóvel igual ao prédio original. E se criava multas.
Isso estancou os incêndios rapidamente.
Na ocasião da discussão da renovação do prédio da Bolsa de
Valores, na Praça XV, ficou claro quem estava do lado da preservação e quem não
estava, quem preferia que nada fosse feito (o edifício Art Déco da Bolsa de
Valores, foi demolido para dar lugar ao que lá está). O novo edifício é do
escritório dos irmãos Roberto, projeto do Marcio Roberto. Eles acabaram
aprovando o projeto, mas sem conseguir os tais 43 metros de altura pretendidos.
Reduziu-se bastante a altura do prédio, ficando em torno de 20 metros.
Roberto Anderson: Como foram os primeiros trabalhos
do Escritório Técnico do Corredor Cultural?
Augusto Ivan: Uma primeira etapa foi a elaboração da
planta de preservação dos imóveis do ponto de vista de conjunto. Era um mapa,
um PAA grande com os imóveis todos numerados e tinha um hachurado sobre as
grandes manchas de imóveis preservados. Eu e o André Zambelli fizemos a planta.
Fomos para a rua e marcamos todos os imóveis da lista do Pedro de Alcântara (o
arquiteto Pedro de Alcântara havia coordenado um levantamento das
características arquitetônicas de imóveis de uma área do centro) e outros que
seriam preservados. A gente tinha três categorias de preservação. Havia o tipo
de imóvel tombável, aquele que não admitiria muita modificação, classificado
como de Preservação. Tinha uma categoria intermediária, de interesse mediano,
digamos, dos imóveis que tinham algum elemento de fachada interessante, mas
precisavam ser recuperados. Eram os para Reconstituição. E tinha aqueles
imóveis modernos, que eram classificados como de Renovação. Essa gradação de
valores foi consagrada na Lei 506/1985 (a lei que cria a Zona Especial do
Corredor Cultural, mas a Lei nº 1139/1987 não manteve essas categorias).
Então, esse foi o primeiro instrumento legal, com o qual a
gente podia finalmente pegar um processo e responder dentro da máquina
administrativa, já informando as restrições a seguir.
Roberto Anderson: O processo de trabalhar com imóveis
do Iphan tinha uma certa característica, mas trabalhar com imóveis do Corredor
Cultural era diferente. Como foi esse aprendizado?
Augusto Ivan: Foi um aprendizado na rua, lendo
coisas, indo a seminários, fazendo cursos... A gente descobria alguma coisa e
registrava. Por exemplo, os postes antigos, que a gente descobriu haver uma
grande concentração na área da Praça XV. Mas, ali no começo, não sabíamos de
onde vinha e o que era aquilo. Pouco a pouco, foi se criando esse conhecimento
acumulado.
Então foi um conhecimento que a gente foi adquirindo ao
longo do tempo. A gente abria uma ficha, na realidade eram uns envelopes pardos,
em que a gente enfiava tudo o que tinha a respeito de um imóvel, qualquer
coisa. Era imóvel por imóvel. Eram colocadas ali, as plantas, a aprovação de
licenciamento, os trâmites do licenciamento, propaganda que saísse na
televisão, material impresso etc.
E além do mais, quando era possível, nós desenhávamos a mão
cada fachada que entrava, ou alguma coisa de planta que fosse interessante. As
fachadas estão todas desenhadas. A Rua Uruguaiana inteira, de fora a fora, está
desenhada. Eu acho que também a Rua 7 de setembro está desenhada. Era muito
bonitinho.
Roberto Anderson: No início do Corredor Cultural, os
sobrados eram muitas vezes cobertos por imensos letreiros. Quando surgiu a
norma sobre os letreiros, limitando suas dimensões, houve alguma
resistência?
Augusto Ivan: Sim. A Saara, por exemplo, era uma área
em que todos eram nossos amigos no início. Depois, ficou um pouco estremecido
porque o projeto começou a afetar a atividade deles. A regra dos letreiros veio
de um dia para o outro, com uma data definida para passar a valer. Nós
realizamos um seminário sobre o assunto e, no dia seguinte, já estava na rua
uma lei limitando a altura dos letreiros. Era necessário, porque essa área
inteira era coberta por letreiros. A Praça XV também. As Casas Pernambucanas,
por exemplo, eram cobertas por uma placa de luxalon (marca de placas metálicas)
grande. Aquilo fechava todas as fachadas. Daí, um belo dia, a Prefeitura bateu na
porta e disse: "O senhor vai ter que tirar isso do seu imóvel". Aí,
foi uma coisa mais impositiva. O que ajudou é que falávamos com cuidado.
Dizíamos "olha, se o senhor não quer tirar o letreiro grande, não precisa
tirar, mas se não tirar, também não ganha a isenção (do IPTU). Então, esse
contato no dia a dia, face a face, facilitou muito.
Roberto Anderson: A preocupação de vocês era somente
com a arquitetura ou foi além?
Augusto Ivan: A gente fez um trabalho sobre
interiores. O foco da preservação foi nas fachadas, na aparência exterior, mas
dentro dos imóveis havia coisas interessantes que não tinham sido preservadas
no projeto do Corredor. Então a gente identificou essa necessidade de ter um
levantamento dos objetos, móveis ou até letreiros. O trabalho foi coordenado
pela Patrícia Vasconcellos. Ela fez um levantamento, imóvel por imóvel, daquilo
que existia dentro e que ainda valia a pena também preservar, cumulativamente
ao que já havia sido preservado. Ao final, esse trabalho foi encaminhado para o
Conselho Consultivo do Corredor Cultural, com uma listagem de todos os imóveis
que mereciam uma proteção maior dos seus interiores. Mas, esse processo desapareceu
sem que houvesse uma cópia. Mais tarde, usando a sua memória, a Patrícia
Vasconcelos conseguiu remontar essa coisa toda para fazer o livro dos
interiores.
Roberto Anderson: E como se chegou à isenção de IPTU
para os imóveis preservados?
Augusto Ivan: A isenção do IPTU foi uma coisa
importantíssima para fazer com que disparasse o processo de preservação no
centro da cidade, no Corredor Cultural. O projeto de isenção foi para a Câmara
dos Vereadores e passou rapidamente. Então, ficou gravado que aquele projeto
era para valer e que estava usando uns instrumentos mais diferentes, digamos
assim, mais contemporâneos. O conceito de preservação também era mais livre.
Roberto Anderson: Me fala um pouco do trabalho com os
artífices da área de Patrimônio. De como vocês tiveram dificuldade para achar
as pessoas quando começaram as obras.
Augusto Ivan: Essa dificuldade existiu de fato. A
gente tentou começar um trabalho de treinamento de pessoas, mas na realidade
pouca coisa foi feita. No final, começaram a aparecer os que ainda tinham esse
conhecimento, esse saber, digamos assim. Um exemplo foi um velho português que
fez a recuperação da Casa Franklin, aquela do vitral em forma de pavão (Avenida
Passos 55/57). Ele era ótimo e dizia que trabalhava com isso lá na terra dele
em Portugal, mas que não tinha mais serviço aqui no Brasil para o tipo de coisa
que ele fazia. O trabalho desse senhor foi filmado numa tentativa de captar
recursos para algo maior.
Ocorreram muitas discussões sobre a melhor maneira de
realizar as obras. Um exemplo foi a questão das claraboias, que era um elemento
importante na estrutura interna dos imóveis. Como não havia proteção para os
interiores, era difícil convencer da necessidade de mantê-las. Elas eram parte
da cobertura, que era protegida, mas muitas vezes os proprietários não queriam
fazer a sua recuperação. É difícil e quando se exige um pouquinho além da
conta, prejudica a aceitação do projeto. Acho que no início éramos mais
liberais nesse sentido das exigências.
A convivência com outras arquiteturas
Roberto Anderson: E sobre a área do Castelo, que
ficou de fora? Quando a Maria Helena McLaren esteve à frente do Escritório
Técnico do Corredor, ela dizia ter vontade de expandi-lo para o Castelo.
Augusto Ivan: Ah, sim, ela é a paladina do
Castelo! É importante lembrar que a
gente vinha de um contexto desfavorável. A questão do Castelo foi pensada, mas
achamos que era demais, e que já estava numa altura razoável. Aí não ia
precisar surgir muita coisa alta.
Roberto Anderson: Mas agora o prefeito Eduardo Paes
liberou o gabarito naquela área. Agora o céu é o limite.
Augusto Ivan: Eu não sou contra ter prédios altos. Mas,
tem que ser mais desenhado, você tem que baixar ao nível de detalhe no desenho.
Aí você vai estudar uma coisa razoável. Mas, acho que nós não temos cultura
(arquitetônica) suficiente para implantar um gabarito ilimitado.
Roberto Anderson: Você vê que em Londres há alguns
prédios muito altos, mas eles estão dentro de um contexto que não atrapalha a
paisagem.
Augusto Ivan: Eu acho que a pirâmide do Louvre
estabeleceu um novo marco. Pode sim uma pirâmide na praça do Louvre. Então,
isso balançou muito o coreto. Foi um casamento que me pareceu muito bem-sucedido
em termos da arquitetura, do ambiente, e do local. Já o Beaubourg, aquela
máquina infernal, uma fábrica de arte e de cultura, eu acho mais pesadão. Ele
derrubou muita coisa, né? Tenho dúvidas sobre o Beaubourg, mas, de qualquer
maneira, eu acho que cabe algo assim. Só acho que é preciso estudar mais.
Relações políticas
Roberto Anderson: Como era a relação com os
prefeitos?
Augusto Ivan: Alguns prefeitos merecem uma menção na
história do Corredor Cultural. O Klabin foi muito bom. O Marcelo Alencar
(prefeito de 1983 a 1986 e de 1989 a 1993) assinou as leis fundamentais para a
existência do Corredor Cultural e fez obras importantes, como a reurbanização
da Lapa, com projeto meu e do Marlon, e retirou o mercado de peixes da Praça
XV. O Cesar Maia (prefeito de 1993 a 1997 e de 2001 a 2009) iniciou a obra de
recuperação da Rua do Lavradio e deu uma sede para o Corredor Cultural. Já o Júlio
Coutinho (prefeito de 1980 a 1983) não tanto. Era preciso enfrentá-lo para
conseguir as coisas. Você vê que a gente já estava forte...
Roberto Anderson: Você saberia a razão?
Augusto Ivan: Talvez, ele estivesse instruído contra
o nosso trabalho. Foi na gestão dele que se tentou derrubar, por exemplo, a
Fundição Progresso (a Fundição Progresso havia sido desapropriada em 1975 para
a implantação de projetos modernistas, que incluíam a avenida Norte-Sul, via
nunca concluída inteiramente. Em 1982, houve a tentativa de demolir a
edificação). Mas, um grupo liderado pelo Perfeito Fortuna se organizou e
conseguiu impedir. Eles foram até a Dona Zoé (Zoé Chagas Freitas, esposa do
governador Chagas Freitas) e conseguiram tirar o Chagas de um jantar, com a
ajuda da Dona Zoé. Há uma foto linda que se tornou um marco da manutenção do
edifício. Era um homem com uma picareta assim no alto da fachada da Fundição se
preparando para quebrá-la. A picareta ficou parada no ar.
Outro prefeito simpático ao Corredor foi o Jamil Haddad (prefeito
do Rio de Janeiro em 1983). O irmão dele, Samir Haddad (foi Secretário
Municipal de Planejamento), era amigo da Sônia Caúla. Então a gente tinha
acesso ao secretário de planejamento para passar as nossas demandas. Por
exemplo, foi necessário fazer uma modificação grande quando a gente conseguiu
um levantamento topográfico, casa a casa. Foi aí que a gente começou a desenhar
como o imóvel ia ficar, antes mesmo de fazer as obras.
Roberto Anderson: Como foi a integração com a
Secretaria de Cultura?
Augusto Ivan: Durante um período a gente foi da
Secretaria de Planejamento, então o Corredor era separado de todas as outras
instituições ligadas ao Patrimônio. A equipe do Corredor Cultural era orgulhosa
do seu trabalho e se protegia. Ela era senhora do seu pedaço, não gostava que
se mexesse nele. Porque nós tínhamos um orçamento separado, e era muito. Mas,
às vezes, os secretários usavam recursos do nosso orçamento e aplicavam em
outras coisas. A Helena Severo (foi Secretária Municipal de Cultura do Rio de
Janeiro de 1993 a 1999) acabou com a independência que o Corredor Cultural
tinha. Ela levou o Corredor Cultural para dentro da Secretaria de Cultura. E aí
houve uma mistura de equipes. Mas, eu gosto dela. Eu acho que ela fez um
trabalho bonito na Secretaria de Cultura. Um exemplo são as esculturas que ela
levou para o Centro. Artistas, como José Resende, Amílcar de Castro, Ivens
Machado e Waltécio Caldas criaram trabalhos para o Centro. É uma pena que
muitas delas já não estejam lá.
Roberto Anderson: Como foi a integração do Corredor
na Secretaria de Cultura?
Augusto Ivan: O Corredor Cultural chegou a ter uma
sede, na Rua da Constituição, que depois dividiu com a Subprefeitura do Centro.
A história dessa sede é linda. O imóvel tinha sido da família da Carmen Costa,
uma cantora maravilhosa, que gravou "Eu sou a outra", de Lupicínio
Rodrigues. Ela nos visitava sempre e o sonho dela era ser tombada. Ela própria,
viva. Então, a gente falou: "Não, vamos deixar o prédio se deteriorar,
vamos ocupá-lo, porque preserva também a história da Carmen Costa, como ela
queria". Lá tinha um teatrinho de 50 lugares para palestras e
apresentações de música.
Depois nós saímos do centro da cidade, da casa que foi feita
para o Corredor Cultural e fomos para a Secretaria de Cultura. E as equipes do
Corredor Cultural e do Patrimônio do Município ficaram juntas, todo mundo mais
ou menos no mesmo espaço. Acredito que a junção administrativa do Corredor
Cultural com a área de Patrimônio do Município tirou força do projeto, mas não prejudicou
tanto o trabalho, reforçando a percepção de que é uma política pública. De uma
certa forma, o Corredor Cultural abriu as portas para uma visão diferente sobre
conjuntos urbanos antigos, o que resultou na criação das Apacs (Área de
Preservação do Ambiente Cultural). Muitas normas criadas pelo Corredor
terminaram sendo adotadas por elas, como a definição de cores de fachadas,
tamanhos de letreiros etc.
Roberto Anderson: Faltou alguma coisa importante a
ser trabalhada?
Augusto Ivan: Há uma coisa que a gente sempre falou
muito, mas que nunca deu para explorar e nem para tocar para a frente. É a
questão da moradia, levar a moradia para o Centro, para aproveitar imóveis com
espaço ocioso. Era uma preocupação na época do Corredor, mas era daquelas
tarefas que escapavam da nossa alçada. Mesmo assim, há pessoas morando no
Centro. Sei de uma família que criou os filhos lá. Não é uma coisa fria. Tem
gente que mora e vive lá.
Eu acho que eu fui emendando coisas. Novas demandas foram
sendo exigidas. O projeto do Corredor Cultural caminhou até a exaustão dos
itens que ele se propunha resolver. Depois, parou. Teve um tempo que parou.
Roberto Anderson: Você é que nunca parou. Foi até
Secretário de Urbanismo!
Augusto Ivan: Mas o tempo passa, o tempo rola. Depois
teve muita aventura. Depois dessa minha aventura no Patrimônio, teve a aventura
da Subprefeitura do Centro, a convite do Conde, quando foi Secretário de
Urbanismo (Luiz Paulo Conde foi prefeito entre 1997 e 2001), que foi mais
louca.
Roberto Anderson: Não sei se você concorda, mas no
período em que você estava no Corredor Cultural, a sua intervenção era mais
focada nos edifícios. Já na Subprefeitura, a ação extravasou para o espaço
público. Como um complemento. Você percebe isso?
Augusto Ivan: Sim, e a gente estudou o camelódromo,
por exemplo (Augusto se refere ao camelódromo da Rua Uruguaiana). Nós estudamos
um tipo de ocupação para o camelódromo. A Olga (Olga Bronstein, administradora
da II RA) trabalhou muito com isso.
Roberto Anderson: É, eu estava lá também. Ajudei a
pintar o chão do camelódromo.
Augusto Ivan: Pois é, passamos um fim de semana
juntos lá, pintando o chão. Os meus filhos também foram ajudar. Eram 1400
camelôs que tinham que entrar para aqueles terrenos. Eles teriam que entrar na
segunda-feira e a gente passou o fim de semana pintando à mão a numeração das
barracas no chão.
Roberto Anderson: Mais alguma coisa a lembrar?
Augusto Ivan: Muitas coisas importantes para a
memória do Corredor Cultural foram lembradas hoje. Que bom a gente está
registrando isso!
quinta-feira, 21 de maio de 2026
A armadilha das Cepacs no Rio
![]() |
| Foto: Marcia Foleto |
O Estatuto das Cidades, uma grande conquista de tantos quantos se preocupam com os destinos de nossas cidades, criou, entre outros instrumentos de planejamento urbano, a outorga onerosa do direito de construir. Ela é a possibilidade do município cobrar pelo licenciamento de áreas a serem construídas acima de um determinado índice, geralmente índice um, de utilização da área do terreno. Isso significa que a construção de uma vez a área do terreno seria livre de taxação. Mas o que ultrapassasse esse índice, até o índice máximo permitido para cada região, seria objeto de uma taxação. É uma forma de trazer recursos para os cofres municipais e de ressarcir o mesmo de gastos realizados com melhorias do espaço urbano.
Outra contribuição do Estatuto é a Operação
Consorciada, em que todos os recursos auferidos com a cobrança dos índices
acima do índice mínimo de aproveitamento do terreno são necessariamente
investidos em obras no perímetro definido pela operação consorciada, a qual é
aprovada pela Câmara Municipal. O projeto Porto Maravilha é uma Operação
Consorciada e esses índices taxáveis foram denominados Certificados de
Potencial Adicional de Construção - Cepacs.
Como o projeto era muito ambicioso, envolvendo a
demolição da Perimetral e a construção de diversas infraestruturas, entre elas
o Túnel Marcelo Alencar, definiu-se como meta a arrecadação de grandes volumes
de Cepacs. Para isso, as alturas dos futuros edifícios na região foram
estabelecidas em níveis bastante elevados, chegando até a 50 pavimentos.
Também ficaram elevados os índices de aproveitamento máximo dos terrenos.
Passados já vários anos, uma impressionante massa de
edifícios, muito próximos uns dos outros e muito altos, começa a surgir nas
proximidades da rodoviária, exatamente onde as alturas permitidas no projeto
são as mais elevadas. Tais edifícios, que já vem sendo chamados de Curilândia,
estão escondendo o Morro do Pinto, que fica logo atrás, uma agressão à paisagem
da cidade.
Dentro das regras do mercado imobiliário carioca, se
esses edifícios fossem mais baixos, talvez não fossem economicamente viáveis.
Além do custo de sua produção e dos lucros esperados com a venda das unidades,
é preciso contabilizar o custo das Cepacs, sem as quais o licenciamento não é
aprovado. Assim, um instrumento pensado para beneficiar a cidade, ao ser usado
num contexto de exploração máxima dos terrenos, termina por forçar a
verticalização da região.
Exemplo semelhante está para acontecer no projeto
Praça Onze, atualmente em discussão na Câmara de Vereadores. O projeto é
igualmente ambicioso, incluindo a demolição do Viaduto 31 de Março, a criação
de novas vias e a construção de uma futura biblioteca. Novamente, para se
custear todas essas obras, seria necessária a arrecadação de altas somas em
certificados de potencial adicional de construção.
A primeira versão do projeto apresentada trazia
edifícios de alturas variadas, alguns mais baixos nas proximidades da subida
para Santa Teresa. Mas, uma nova versão chegou a ser discutida, com edifícios
tão altos que barrariam a vista da cidade a partir do Largo das Neves, em Santa
Teresa. Só assim haveria a possibilidade de se arrecadar recursos no volume
capaz de custear o projeto.
Além do evidente prejuízo à paisagem e à ideia de uma
cidade com escala mais humana, haveria um outro problema. A arrecadação desses
recursos é incerta. O leilão das Cepacs no Porto Maravilha não teve
interessados e só a entrada da Caixa Econômica, comprando todo o volume de
certificados disponíveis salvou o projeto. Mas, não salvou a Caixa, que até
hoje tenta vender os tais certificados, para cuja aquisição foram usados
recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, uma evidente distorção de
propósitos.
Ao realizar o leilão das Cepacs do projeto Praça Onze, conseguirá a Prefeitura um novo comprador disposto a assumir riscos tão grandes como fez a Caixa Econômica no Porto Maravilha? É importante lembrar que persiste a oferta de muitíssimos certificados daquele primeiro projeto. São questões da realidade econômica, que sempre poderão ser artificialmente resolvidas por intervenções políticas. Mas aí a massa projetada de edificações já estará no forno, infladas pelos excessivos índices de aproveitamento dos terrenos e pelas Cepacs. E lá se vai a paisagem e a qualidade de vida.
Artigo publicado em 21 de maio de 2026 no Diário do Rio.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
Pode a soberba prejudicar paes?
Os gregos antigos falavam da húbris, que era o orgulho excessivo, a soberba, que levava à derrota dos guerreiros, atingidos pela ira de Nêmesis, deusa da retribuição divina e da vingança. Eduardo Paes e, como diz o Fábio Porchart, o seu "cover" parecem se esquecer desses cuidados recomendados pela antiguidade clássica. É impressionante a quantidade de projetos que levam adiante e que contrariam o senso comum e a proteção do meio ambiente e do Patrimônio.
Nos seus primeiros mandatos, Paes implodiu a antiga Fábrica da Brahma, um marco na paisagem do Catumbi. O seu projeto Porto Maravilha propôs edificações de até cinquenta pavimentos, sem a devida proteção de galpões remanescentes da atividade portuária na área do retroporto. Como resultado tardio, a cidade vê surgir uma barreira edificada junto à rodoviária, a Curilândia, que vai suprimindo da visão dos cariocas o Morro do Pinto e a igrejinha de N. Sra. de Montserrat.
Nesses últimos mandatos do Prefeito Paes, houve um avanço sem precedentes no licenciamento para a remoção de árvores de terrenos privados. De acordo com reportagem do jornalista André Trigueiro, o número de árvores retiradas desses terrenos para novos empreendimentos saltou de 5. 216 em 2021 para 13.130 em 2025, um crescimento de 151%. A cidade, que já sofre com um enorme déficit de arborização urbana, especialmente nas Zonas Norte e Oeste, fica assim mais desprotegida contra o aumento da temperatura causada pelo aquecimento global.
Essas retiradas aprovadas pela Prefeitura deveriam ser compensadas com o plantio de aproximadamente 175 mil mudas em vias urbanas. Ocorre que as mudas demoram a crescer, e nem todas vingam. E a Prefeitura não tem controle se esses plantios foram realmente realizados. O resultado é a perda significativa de arborização.
Um bom exemplo de licença absurda para corte de árvores ocorreu no antigo Colégio Metodista Bennet, no Flamengo. O palacete ali existente, de 1859, foi a residência do Barão de São Clemente. Em 2014, o imóvel e a sua cavalariça foram tombados pelo Município do Rio de Janeiro. As árvores que compunham o conjunto foram consideradas imunes ao corte. No entanto, contrariando o disposto no tombamento, neste ano o Prefeito liberou o corte de 71 árvores frondosas existentes no terreno. Os moradores das imediações do palacete estão revoltados e já realizaram dois protestos na porta do empreendimento.
No Jardim de Alah, um parque tombado pelo Município, a Prefeitura licenciou um projeto que o descaracteriza e impermeabiliza o solo, com a construção de centenas de metros quadrados para lojas, um verdadeiro minishopping no parque. No Pão de Açúcar, a Prefeitura aprovou o projeto de uma tirolesa, que destruiu parte do topo daquele monumento tombado. Recentemente, a Justiça até mandou parar a obra, mas o dano à pedra do Pão de Açúcar já está feito.
A última autorização polêmica dos Eduardos é o corte de aproximadamente cinco dezenas de árvores no Buraco do Lume para a construção de um imenso prédio de apartamentos. Ele ocupará uma área já consagrada como um espaço de uso público. No momento, uma decisão da Justiça sustou o corte das árvores, mas essa suspensão pode cair.
A sorte de Eduardo Paes é que a direita bolsonarista, atualmente a mais forte concorrente dele, não é afeita a essas questões de meio ambiente e paisagem. Querem mais é que todas essas “firulas” caiam na lata de lixo. Se esses oponentes pela direita fossem minimamente preocupados com isso, teriam um farto material de campanha para bombardear a candidatura Paes ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O ex-prefeito segue sua busca por mais poder, sem ligar para a opinião dos chatos dos ambientalistas e dos amantes do Patrimônio. Esquece-se que um dia Nêmesis pode acabar se irritando.
Aretigo publicado em 07 de maio de 2026 no Diário do Rio.
quinta-feira, 30 de abril de 2026
Recomendações sentimentais acerca de um certo Theatro
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| Foto Roberto Anderdson |
Vocês que estão aí, na Cinelândia, de boca aberta diante desse teatro têm razão, ele é mesmo estupendo. Reparem na escadaria, nas colunas coríntias e nos balcões. E os vitrais, viram como são belos? Se voltarem mais à noite, verão a luz interna passando por eles e a magia das formas coloridas acontecendo. Reparem nesse telhado de cobre. Percebam que ele começa a perder a pátina artificial, feita no último restauro, e a pátina natural está se formando. Mas, por agora, há um tom amarronzado querendo aparecer. É normal, o cobre tem vida própria e vai mudando de cor até chegar no verde do azinhavre.
Aproveitando que estão olhando para cima, aposto que
não deixaram de notar a grande águia dourada, sobre a cúpula mais
alta, e os ornatos da cobertura também dourados. Pois saibam que esse
atual douramento quase não aconteceu. Ele havia existido nos primórdios do
teatro. Mas a reação química com o cobre terminou por consumi-lo. Era preciso
refazer esse trabalho, mas quem dominava essa técnica por aqui? O douramento
sobre cobre é diferente do que existe nas talhas de madeira em nossas igrejas barrocas.
Foi preciso buscar o Sr. Fabrice Gohard, que já havia
feito esse trabalho para a cobertura da Ópera de Paris e para a tocha da
Estátua da Liberdade. Sim ela é dourada, não é falsa feito aquelas de certa
loja de departamentos. O Sr. Gohard e a sua equipe trabalharam um bocado para
dar conta de tantas peças a receber aquelas finíssimas folhas de ouro. Depois
de grudadas nas superfícies dos ornatos, elas permanecem lá para brilhar por
muitos e muitos anos.
Olá, você que mostra seu ingresso para o porteiro
escanear o código de barras. Perceba que ele geralmente é jovem, está
bem-vestido e não dá muita atenção a você, mas sim ao seu bilhete. Mas, saiba
que nem sempre foi assim. Lá pela década de 1970, os porteiros eram
funcionários não muito bem pagos, que olhavam nos olhos de quem chegava à
porta. Em troca de deixar alguns entrarem sem ingressos, aceitavam uma
gorjeta furtiva. Aos olhos atuais, isso pode parecer escandaloso. Mas era a
salvação da lavoura para jovens artistas sem dinheiro, que desejavam muito ver
seus ballets e suas óperas favoritas.
Os funcionários do Theatro estavam há tanto tempo na
casa, que aqueles que lidavam com o público conheciam os espectadores mais
assíduos pelos nomes. Eles puxavam uma conversa, perguntavam pela família e
contavam um pouco das suas vidas. Do filho que já vai para a faculdade e do
esforço para pagar as mensalidades.
Ei, menina, estudante de ballet, que está fazendo uma
pose diante dessa escada que leva ao nível do balcão nobre. Depois da foto,
repare nos mármores e nos ônix verdes que a compõem. E também nas figuras
femininas no início dos corrimãos. Ah, não deixe de apreciar a escultura em
mármore de Carrara, que preside a sua subida. Ela se chama A Verdade e está ali
para tornar a sua ida ao teatro mais esplendorosa.
Vocês três aí no Foyer do teatro. Olhem para cima e
observem a magnífica pintura A Música, de Eliseu Visconti. Percebam que é feita
numa técnica pontilhista, em que milhares de pequenas pinceladas, neste caso,
se sobrepõem à pintura das figuras e formas, as quais têm reflexos do
impressionismo. Ao entrarem na sala de espetáculo, verão no teto a pintura As
Horas, além das pinturas do proscênio e do pano de boca, todas do mesmo
artista.
Mas, antes, muito cuidado ao se debruçar sobre esses
balcões que se projetam acima da grande escada. A balaustrada de um deles já
despencou sobre os degraus lá embaixo. Ocorre que o Theatro Municipal se
equilibra sobre centenas de estacas de madeira, mergulhadas na lama do subsolo
da Cinelândia. A cada composição do metrô que passa, a cada ônibus mais furioso
que cruza a Praça Floriano, tudo balança milimetricamente. O ajuste das peças
se alarga, microtrincas surgem nas paredes de mármore, e tudo isso acaba por
deixar a balaustrada meio solta. Mas, não se preocupem tanto, ela já foi
recuperada e hoje não vai cair com vocês.
Por falar em subsolo, recomendo ao senhor que chegou
cedo para o concerto, a ópera ou o balé, que dê um pulinho lá no térreo, onde
fica o Salão Assyrio. Entre colunas encimadas por touros, seres alados,
arqueiros, fontes e mosaicos, representações em cerâmica esmaltada de Gilgamesh
dominando um leão e de Dario I apunhalando o gênio do mal lhe convidam a se
deixar enredar em contos e fábulas orientais.
Já de volta à plateia, daqui a pouco vai começar o
espetáculo. Nesse momento, os maquinistas estão a postos para fazer os cenários
subirem e descerem na hora certa. Os contrarregras já colocaram todos os
objetos em cena. O pessoal da iluminação trabalhou pesado para afinar todos os
refletores, cada um pendurado na sua vara. O diretor de palco está atrás da
cortina ainda fechada e é ele quem vai dizer quando o terceiro sinal pode ser
dado. Logo após esse sinal, as luzes da plateia começarão a se apagar.
Aprecie este momento de sublime expectativa. Há poucas emoções iguais a essa.
Bom espetáculo!
Artigo publicado em 30 de abril de 2026 no Diário do Rio.
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Rápidas impressões sobre Aracaju
Aracaju é uma cidade simpática, à beira de um rio e do
mar. A sua expansão se deu através da drenagem de áreas alagadas e do
aterramento de manguezais. No entanto, ainda é forte a presença do manguezal
dentro da cidade. Seguindo hábitos antigos, nesse exato momento, uma gigantesca
obra viária está sendo feita às custas do aterramento de partes do manguezal
sobrevivente às margens do Rio Sergipe. Sendo esse ecossistema protegido pelo
Código Florestal, é de se questionar como isso pode acontecer.
Como na maioria das cidades do Nordeste, Aracaju tem
uma boa qualidade de vida, com sistemas de transportes integrados por terminais
bem-organizados e ônibus circulando em faixas exclusivas, alguns deles
elétricos. Há ainda uma boa malha de ciclovias pela cidade. Percebe-se ali
também a forte melhoria das condições de vida dos moradores da região, fruto de
políticas públicas inclusivas do governo federal nas últimas décadas, apesar de
interrupções ocorridas.
Aracaju substituiu como capital a cidade de São
Cristóvão, fundada em 1590 como a capital da então Província de Sergipe del
Rey, a quarta mais antiga do Brasil. Como esta última se localizava longe do
mar, houve a necessidade de um porto marítimo para a Província. A escolha
recaiu na área onde depois foi erguida Aracaju. A sua fundação é de 1855,
projetada pelo engenheiro Sebastião José Basílio Pirro. O traçado da cidade
original é uma malha regular, com vias largas perpendiculares e paralelas à
linha do rio Sergipe. Depois, a cidade cresceu e novas malhas foram
adicionadas, também regulares, mas sem seguir a orientação da malha inicial.
Com uma história que guarda similaridades, Belo
Horizonte também substituiu a antiga capital do seu estado, Ouro Preto. Belo
Horizonte foi projetada por Aarão Reis, sendo a sua fundação datada de 1897. O
traçado do que deveria ser a cidade quase inteira, mas que hoje é apenas a sua
área central, também é uma malha ortogonal regular, à qual se sobrepõe outra
malha maior, em sentido diagonal à primeira. Uma trama semelhante à de La
Plata, na Argentina.
Fundadas com poucas décadas de diferença, as duas
capitais têm uma forte presença da arquitetura eclética, comum na virada do
século. Os edifícios públicos mais importantes seguem essa linha. Infelizmente,
boa parte das edificações ecléticas da área comercial do Centro de Aracaju
estão cobertas por letreiros gigantes, como era o Centro do Rio antes do
Corredor Cultural.
Belo Horizonte, por ser posterior, recebeu também
muitas edificações Art Déco. Em Aracaju, assim como em Belo Horizonte, uma
praça romântica, com coretos e jardins, emoldura o palácio do governo. Mas, nas
duas cidades, os palácios de governo terminaram perdendo essa função original,
sendo transformados em museus. As respectivas sedes de governo foram
transferidas para edifícios modernos.
Em Aracaju, como em outras cidades brasileiras, chama
a atenção homenagens a personagens e eventos discutíveis. Há um bairro Castelo
Branco, um conjunto habitacional Médici, uma avenida 31 de Março e, na sua área
metropolitana, um conjunto Fernando Collor. Em compensação, na cidade, e nos
arredores, há uma quase onipresença da planta véu de noiva ou jasmim do caribe.
Jardins de casas e calçadas têm o arbusto, com suas permanentes flores brancas.
É uma bela planta, não há muito tempo introduzida no país.
Edifícios da alta classe média de Aracaju foram
construídos na beira do Rio Sergipe, ao Sul do Centro Histórico. Mas, a cidade
vive um processo de descentralização. No momento, é Atalaia, bairro à
beira-mar, que se desenvolve como área de classe média alta. Para lá foram os
hotéis e a região se verticaliza. Aqueles antigos edifícios das classes altas,
perto do Centro, ainda resistem, mas devem perder status.
No bairro de Atalaia, casas baixas vão dando lugar,
rapidamente, a edifícios altos. O contraste entre as casas térreas e os novos
edifícios é gritante. Constrói-se em altura à beira-mar também. Essa
urbanização, talvez não planejada como foi o centro histórico, gera problemas,
como a falta de acessibilidade de algumas calçadas. Muitas vezes, a cota de
soleira das casas, que é a altura do piso da casa em relação à rua, é alta e
varia muito. Como resultado, mesmo numa rua plana, há degraus ao longo das calçadas,
tornando difícil a vida de idosos e cadeirantes.
Aracaju é uma cidade acolhedora e mantém uma escala
agradável. Ali a vida ainda é calma. Pelas ruas vai um povo moreno e
conversador. Pelos restaurantes ouve-se o toc-toc de pancadinhas para quebrar a
casca do caranguejo. A sempre presença do belo jasmim do caribe talvez seja um
sinal da hospitalidade dos sergipanos.
Artigo publicado em 24 de abril de 2026 no Diário do
Rio.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Serra dos Pretos Forros
![]() |
| Foto Jeremias Freitas |
Fiz o curso primário no Colégio São Vicente de Paulo, o colégio das irmãs de caridade que existiu na Tijuca. Era assim que se chamava o primeiro grau e o colégio ficava no alto da pequena elevação que tem na base o Santuário da Medalha Milagrosa.
Lá, as aulas de geografia eram também um pouco aulas
de arte. Os livretos da matéria vinham com mapas em branco que precisavam ser
coloridos. E as freiras caprichavam nessa tarefa. Éramos instruídos a raspar as
pontas dos lápis coloridos com uma faquinha. A raspagem tinha que ser bem fina,
para gerar um pó colorido. Depois, com pequenos chumaços de algodão, íamos
espalhando aquele pó sobre os mapas do Brasil, separando os estados por cores.
Como eram muitos, e os estojos de lápis tinham opções limitadas, precisávamos
ter cuidado para não deixar estados contíguos com a mesma cor.
Ao passar o algodão, de forma bem leve sobre aquele pó
colorido, criava-se um esfumaçamento, quase transparente, que era o resultado
esperado. O ruim era quando havia pedacinhos da ponta do lápis que, levados
pelo algodão, geravam riscos na mancha colorida. Era o sinal de que os cuidados
na raspagem do lápis e na leveza ao passar o algodão não tinham sido
suficientes.
Coloríamos mapas do Brasil, da Guanabara, dos bairros
e dos acidentes geográficos. A Serra da Tijuca era verde escuro, os rios,
lagoas e o mar eram azuis e as áreas urbanas marrons. O resto da folha, no
entorno do mapa, também podia receber uma cor. Quem sabe um vermelho ou um
amarelo. Tudo bem óbvio, para ser gravado na memória, e com o tempo necessário
para que aquele trabalho artístico fosse bem realizado.
Entre os nomes das serras cariocas, um sempre me
chamava a atenção, tanto que não o esqueci: a Serra dos Pretos Forros. Para uma
criança o nome parecia meio esquisito. Por que dar o nome de um tecido a uma
serra? A professora jamais explicou. E criança, às vezes, tem fixação em nomes
e expressões. O nome soava bonito e nunca me abandonou. Volta e meia me
lembrava dos pretos forros, nessa ordem gramatical então curiosa, em que o que
parecia adjetivo vinha antes do substantivo.
Só mais tarde vim a saber que a serra entre os bairros
de Água Santa e Lins e Vasconcelos, dividindo as zonas Oeste (Jacarepaguá) e
Norte (Grande Meier), tinha sido o caminho de escravizados fugindo em direção a
quilombos que se formaram no Maciço da Tijuca, da qual a serra faz parte. E
também de negros alforriados dos engenhos das redondezas que por ali foram se
instalando. Daí o nome.
Como é interessante o conhecimento! Uma vez sabedor
dessa história de resistência à opressão da escravidão, a ordem das palavras
pretos forros nunca mais deixou de fazer sentido. É com gosto que as pronuncio.
Desde o ano de 2000, a serra passou a ser uma Área de Proteção Ambiental e é
também parte de um dos quatro setores do Parque Nacional da Tijuca.
Apesar de sua história e beleza paisagística, a APA
dos Pretos Forros sofre com a pressão por sua ocupação pela mancha urbana,
especialmente em suas áreas mais íngremes, que vêm sendo ocupadas por moradia
irregular de baixa renda. Segundo estudo de Samara Silva dos Santos e Carlos
Eduardo das Neves[1],
a área urbana da APA passou de 22,68% em 1993 para 28,55% em 2024. Vale indicar
que nesse período houve também um avanço das áreas florestadas, que
substituíram áreas de agropecuária.
Hoje aquele colégio já não existe e a Guanabara foi um
sonho que durou pouco. Os mapas seguem mudando. O Brasil ganhou novos estados e
países mudaram de nomes. E as crianças têm à disposição estojos de lápis
de cor mais generosos. Aliás, nem sei se ainda colorem mapas com aquela técnica
de raspagem dos lápis coloridos. Mas a Serra dos Pretos Forros segue
firme, guardando suas histórias de fuga da violência do passado e de
resistência à pobreza no presente.
Artigo publicado em 16 de abril de 2026 no Diário do Rio.
[1] SANTOS & Neves, Mudanças na
dinâmica socioambiental da APA Serra dos Pretos Forros entre 1993 e 2022 – Rio
de Janeiro – DOI 10.51308/continentes.v1i27.621.







