Um dia, o porteiro talvez desapareça, ou fique restrito a prédios de áreas muito exclusivas das nossas cidades. Mas até lá, ele seguirá sendo a alma dos condomínios. O porteiro é nordestino? Há uma boa chance de que seja. O porteiro mora bem? O mais provável é que passe por perrengues na sua moradia. Mas, ao chegar ao trabalho, ao transpor a portaria e deixar no vestiário a bermuda e o chinelo, o uniforme lhe dá distinção e autoridade. Autoridade essa que só com o tempo ele saberá exercer plenamente. O bom porteiro é de meia-idade.
O porteiro é querido, e criou um abaixo-assinado que apresenta a cada morador. Pede a adesão à sua reivindicação de galgar o posto de porteiro-chefe. Os moradores assinam, mesmo sem convicção. Quem haverá de contrariar o querido José? À tarde, a senhora do 504 lhe leva um prato com o empadão de frango que preparou para o marido. E no Natal todos assinarão o seu livro de contribuições.
O porteiro-chefe tem regalias. Ele mora num pequeno apartamento no prédio em que trabalha. Seu CEP agora é o mesmo dos inquilinos e proprietários. Ele assume os ares da chefia e se coloca à disposição para receber reclamações sobre o mau serviço dos outros. O porteiro-chefe até já tem um pet. Quando está de folga, passeia seu totó pelas áreas livres do condomínio, para que ele brinque com os totós dos demais moradores.
O porteiro se interessou recentemente pela bíblia. Agora passa os dias com a cara enfiada no livro. Lê e relê cada frase, buscando entender o seu oculto significado. À sua frente, o monitor mostra as imagens de várias câmeras do prédio. Mas ele só tem olhos para o Velho Testamento. Se não se livrar do transe espiritual, já, já será demitido.
O prédio tem uma mulher porteira. É uma condição diferente da de mulher de porteiro, a que se está acostumado. Ela é atenciosa e os moradores já se habituaram. Mas o porteiro da noite faz intrigas. Diz que ela só está ali por ser a antiga empregada da síndica e que não entende nada dos sistemas de água, gás e luz do edifício.
O novo porteiro é um estudante de cursinho pré-vestibular. Perdeu tempo por ter se dedicado à família e ao trabalho, mas, recentemente, concluiu o segundo grau e agora se prepara para o Enem. É focado, sabe que não pode perder mais tempo e por isso leva cadernos e livros para a mesa da portaria. Ao contrário dos porteiros vizinhos, não fica de conversinhas na rua, comentando a vida dos moradores. Os porteiros compartilham entre si o que sabem: quem trai quem, que casais brigam no corredor, quem dá uns pegas no elevador, quem deve o condomínio, e quem passa pela portaria sem cumprimentar. Do novo porteiro, dizem que é metido.
O porteiro mais velho é solícito às demandas do síndico. Sabe que ele está querendo acertar e que, sem a sua ajuda, nada dará certo. O porteiro auxiliar é ciumento. Acredita que a ajuda ao jovem síndico logo trará perdas de vantagens e de momentos de escondido descanso. O porteiro auxiliar implica com o mais velho até que este reage e lhe chama a atenção.
Ah, que dia aziago. O porteiro auxiliar está meio perturbado e encontra pela frente uma barra de ferro. Com ela dá uma pancada na cabeça do velho, que já cai morto no chão de mármore da portaria. Percebendo a gravidade da situação, corre para o elevador, toca no botão do último andar e, ao chegar, aperta uma campainha qualquer. Abre-se a porta, e ele corre até a janela e de lá se atira.
O jovem síndico, ao voltar do cinema, encontra polícia, bombeiros e rabecão na sua portaria. Um drama rodriguiano e o fim da sua vontade de dar jeito naquele edifício.
A calçada em frente à portaria é gradeada. A maioria dos prédios da rua são assim. De tarde, quando o entra e sai de moradores é mais calmo, dá para puxar uma cadeira e se sentar junto à grade que o separa do edifício vizinho. O porteiro de lá faz o mesmo e se estabelece uma conversa que ajuda a hora a passar. Quem de fora os vê, os imagina presidiários. Enjaulados, mas contentes.
O condomínio está caro, os moradores estão apertados, as obras de manutenção estão adiadas e o uniforme do porteiro está gasto. Não há previsão de verba para um novo, mas o trabalho do porteiro está garantido. Sem ele, os moradores fariam uma revolução. Seu Pedro continua no posto.
Artigo publicado no Diário do Rio em 16 de janeiro de 2025.
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