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domingo, 2 de fevereiro de 2025

Por aí por Cuba

Em Cuba, o Brasil é muito lembrado como o país do carnaval e das novelas. Há sempre uma delas passando na TV local. A do momento é “Um lugar ao Sol”, com Cauã Reymond. Nosso país é visto como um aliado e Lula é elogiado até por cubanos que criticam o governo local. Mas, ele é questionado por militantes mais fervorosos sobre o não apoio à suposta vitória de Maduro. Já Bolsonaro, é uma unanimidade negativa.

Como país insular, Cuba tem uma cultura única e cativante. Sendo um país relativamente pequeno, mas muito diverso, percorrê-lo é entrar em contato com uma história construída por indígenas, colonizadores espanhóis, franceses e americanos, piratas, ditadores, guerrilheiros revolucionários, consultores soviéticos e invasores a serviço do imperialismo americano. O povo cubano a tudo resiste.

Há ônibus cujas passagens somente podem ser pagas em dólares ou euros. Neles, viajam os turistas e os cubanos que têm condições de pagar. É requerido um check-in presencial de, pelo menos, uma hora de antecedência, ou o lugar no ônibus é redistribuído. 

Esse rigor desaparece na estrada, quando o motorista faz diversas paradas aleatórias. Ele pode parar para deixar galões de combustível numa casa, ou comprar coisas que, talvez, sejam revendidas, como sacos com dezenas de biscoitos. Os passageiros não reclamam. É difícil encontrar ônibus direto entre locais mais distantes. Geralmente, são paradores.

As estradas são relativamente vazias, e os veículos passam em velocidades não muito altas. É curioso ver um carro de décadas atrás galhardamente viajando entre cidades. Os caminhões não podem ser altos, já que os viadutos que cruzam as estradas foram construídos com baixas alturas. Alguns desses caminhões, e mesmo alguns ônibus, que fazem trajetos mais regionais, têm carrocerias quase artesanais, produtos da carência e da inventividade.

Em estradas locais, é possível encontrar uma sucessão de pequenas placas de concreto com slogans revolucionários nas bordas: Si, se puede; Nuestra tarea: produzir, produzir y produzir; Reconstruir la industria de azúcar! A tinta gasta denota que eles não têm sido renovados.

A Revolução tem conquistas duráveis e o embargo provoca dificuldades terríveis. Mesmo em pequenos povoados do interior não se vê moradias precárias. As pessoas moram em casas e conjuntos habitacionais, construídos segundo modelos de pré-fabricação em concreto. Todos com a pintura um pouco gasta. Nas áreas cultivadas, vê-se, com frequência, o uso do arado puxado por junta de bois. 

Nas cidades cubanas, de quando em vez, se escuta pregões cantados de vendedores que passam a pé ou de bicicleta oferecendo pão, biscoitos, e outros produtos. É comum também o vendedor de frutas. Em carrocinhas, ou com umas pencas de bananas nas mãos. Este é o caso de um professor de geografia, que dá aulas à noite e vende bananas de dia. Membro do Partido Comunista de Cuba, mostra-se um defensor da Revolução, mesmo admitindo os problemas econômicos do país. Segundo ele, com Fidel, isso não estaria acontecendo. 

Varadero é destino de quem quer conhecer uma praia de lindo mar azul turquesa do Caribe. Estabelecida sobre uma restinga, a cidade é limpa e organizada, mas sem maiores atrativos do que a praia. Recebe um forte fluxo de turistas russos, e as placas indicativas das atrações estão também em russo. Não se vê cubanos na praia, ocupados em ganhar a vida servindo os turistas.

Trinidad é uma bela cidade colonial de 511 anos, com ruas calçadas em pedras irregulares, lembrando as cidades do ciclo do ouro no Brasil. A musicalidade e sensualidade cubanas estão presentes no ensaio conduzido por professoras numa praça da cidade. Os meninos tocam instrumentos de percussão, alguns desses são apenas uns galões de plástico, e dão o ritmo do evento. A cada compasso, as meninas dão uma mexida com as cadeiras, uma boa rebolada. O ensaio é para uma parada cívica e, de tempos em tempos, elas gritam uma frase de louvor ao líder da independência Jose Marti.

Anoitece com apagão programado em Trinidad, como em diversas outras cidades do país. A população já sabe o horário sem luz de cada dia. Apenas os restaurantes da área histórica têm energia de geradores para atender à clientela. Sem luz, a cidade fica menos alegre e mais silenciosa. As pessoas recolhem-se às suas casas. No final, a luz volta antes do previsto e a cidade retoma a vivacidade característica de suas noites, ao som da boa salsa.

Santa Clara é uma cidade fundada por habitantes do litoral, que fugiram dos constantes ataques de piratas na costa. Com relação à arquitetura, o interesse é a sua praça central, cercada de belos edifícios, e seus arredores. Polo industrial e universitário, em meio a uma área de produção agrícola, aí se vê uma classe média mais forte, que frequenta restaurantes, e parece sentir menos o peso dos atuais problemas econômicos do país. 

Santa Clara tem uma forte ligação com Che Guevara. Foi a brigada comandada por ele quem a conquistou durante o processo revolucionário. Alguns senhores, que vivenciaram o processo revolucionário, fazem o trabalho de guias junto ao monumento à vitória do Che em Santa Clara. Lá, vagões de trem e peças de artilharia são expostos. Os guias falam com entusiasmo das estratégias empregadas pelo Che e seus soldados para, com apenas 19 combatentes, e usando coquetéis molotov, vencerem quatrocentos soldados bem armados, que viajavam em um trem de vagões blindados. Romantismo puro.

Em outro local da cidade, um mausoléu e um monumento foram erigidos para receber os restos mortais do Che e dos combatentes que com ele caíram na Bolívia.

Em Havana, o Paseo del Prado é um belo boulevard entre a cidade velha e a área mais central. Pavimentado com desenhos geométricos, é delimitado por bancos de mármore trabalhado e belos vasos, esculturas e postes de ferro fundido. Ali, sob as árvores, se concentra a garotada moradora dos apartamentos subdivididos dos lindos prédios deteriorados da vizinhança. Crianças andam de patins ou de skates, os adolescentes escutam música e, no meio disso tudo, de vez em quando, mulheres passam oferecendo seus serviços sexuais. À noite, é possível ver casais dançando tangos, valsas, salsas e outros ritmos. A pouca luz e o chão liso formam o ambiente perfeito para o baile.

Em ruas mais movimentadas de Havana, se sente o cheiro forte de combustível queimado pelos carros antigos e pouco econômicos. Esses, por não serem em grande número, deixam espaço para os pedestres nas ruas mais locais. Nelas, as pessoas podem desfrutar do saudável hábito de caminhar pela rua, sem estarem restritas às calçadas. 

Em Cuba não se vê a miséria presente nos demais países das Américas. Mas, há uma crise econômica que vem trazendo descontentamento. Senhoras reclamam dos preços e baixam a voz para criticar o governo. O sonho americano e o desejo de emigrar são constantes entre os mais jovens. Escuta-se música cubana e latina, mas nessa batalha cultural a Revolução tem perdido terreno. Procure algum cubano vestindo roupas com alusão a Cuba. Não se vê. Também não há pessoas usando camisas com a estampa do Che. Há sim uma profusão de expressões e frases em inglês nas roupas. E camisetas de times americanos. Repare, ali vai uma menina que passa usando um boné do Trump... 

Artigo publicado em 30 de janeiro de 2025 no Diário do Rio.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Caleidoscópio habanero

 

Havana é um desejo, especialmente para quem é de esquerda. E tem qualidades para encantar pessoas de qualquer orientação política. É uma das cidades mais interessantes das Américas. Não só os carros antigos foram preservados, como a sua riquíssima arquitetura, com exemplares do século XVI ao XX. Mas, o visitante é confrontado com difíceis questões da realidade atual. 

O povo é simpático, disposto a conversar e a fazer amizades. Cidade de largas avenidas projetadas por Forestier, que preservou a cidade velha. Nessa mesma época, Agache fazia o seu plano para o Rio de Janeiro, não completamente implementado, que aprofundava a destruição do tecido antigo iniciada com a abertura da avenida Central e o arrasamento do Morro do Castelo. 

Com grande esforço, uma parte de Havana Velha já está recuperada. Restaurados, sobrados e edifícios deslumbrantes rivalizam em qualidade arquitetônica com os das mais belas cidades do mundo. Recebem galerias e bons restaurantes. Duas quadras adiante, está a cidade real, de edifícios e sobrados ainda caindo aos pedaços, habitados por uma população que se vira como pode.

A cada pavimento térreo, uma venda improvisada. Em cada porta, uma mesinha para vender três saquinhos disso, quatro pacotes daquilo.

Em Vedado e Miramar, casas e mansões restauradas sediam embaixadas e centros de cultura. O Centro Fidel Castro ocupa uma das mais belas casas. Nas demais, roupas penduradas nas janelas indicam a sua ocupação por pessoas simples. Ou famílias apadrinhadas nos tempos mais heroicos. Casas e prédios de apartamentos estão depauperados, as calçadas estragadas, os jardins privados pouco cuidados.

No Malecon, famílias passeiam e pescadores jogam suas linhas para garantir o peixe do dia. Alguns edifícios e conjuntos habitacionais, de frente para o mar, mostram a argamassa rompida e armações de ferro expostas. Risco de desabamento em prédios ocupados e presença de ruínas na vizinhança.

Em Havana Velha, músicos nos bares e restaurantes tocam a boa música caribenha. A abordagem ao turista é frequente. Depois da pergunta sobre a procedência, pode vir a oferta de um suposto convite gratuito para um suposto show de salsa à noite. Como sinal de gratidão, o turista já pode ir pagando uma bebida ao generoso sujeito. Com boa conversa, logo se pede que o turista pague um trago, ou que compre leite para os filhos. Por necessidade, pede-se muito em Havana Velha.

Na ausência de um bom sistema de transporte público, ladas, chevrolets e todo tipo de carro velho fazem lotação. Há também o transporte por vans, tuc-tucs, alguns com carrocerias, e triciclos. Ônibus, que custam trinta vezes menos, demoram a vir. Quando chegam, muitas vezes estão lotados. O cobrador se desdobra para fechar a porta atrás do grupo que não coube, e se pendura para fora. Muita gente andando longas distâncias para se deslocar pela cidade. Porém, há pouca presença de bicicletas, que foram muitíssimo usadas no período especial, uma etapa econômica difícil que o país atravesso. 

Há problemas, como empoçamentos pontuais de esgoto, e na coleta de lixo, que pode ser visto acumulado nos pontos de descarte. Problemas que não são encontrados em outras cidades do país. 

Pouca iluminação pública nas ruas mais locais e cortes quase diários de energia nos bairros. Mesmo assim, as ruas são seguras. Nelas, as pessoas andam consultando seus celulares. Os inúmeros monumentos da cidade não tiveram suas partes em metal roubadas (cariocas entenderão). Mas, é possível presenciar a tentativa de roubo de um cordão do pescoço do gringo. 

Longas filas de carros nos postos de combustíveis, e filas e aglomerações nos caixas eletrônicos dos bancos e nas bodegas estatais, onde os preços são mais baixos, mas faltam produtos. 

Grandes hotéis, de redes internacionais, com poucas luzes acesas nos andares. Após a Covid, o turismo caiu e a economia do país não se recuperou.

Muitos relatos sobre a difícil situação econômica de Cuba e de como o embargo de mais de meio século não explica tudo. A necessidade de importar açúcar para um país que era grande produtor diz muito sobre a situação atual. A transição para a nova geração de dirigentes revolucionários não está sendo fácil.

É comum encontrar quem relate dificuldades para ter renda e critique o sistema. Queixam-se da perda de qualidade do ensino e dos atendimentos médicos. Os protestos massivos de três anos atrás resultaram em muitas prisões e condenações, desencorajando novas manifestações. Mas, a bandeira cubana é muito presente pela cidade e há, também, quem acredite que as coisas irão melhorar.

Desiludidos, ex-seguidores da Revolução vão se tornando pequenos capitalistas e contratam empregados. A auxiliar de uma hospedaria caseira consegue ganhar mais do que um médico, que trabalha na rede pública. A emigração é vista como solução, e muitos jovens o fazem, ou planejam fazer. Médicos, engenheiros e professores estão abandonando a profissão para trabalhar em coisas mais rentáveis, como atendente no comércio. 

Já se vê diferenças de posses entre quem tem parentes no exterior, ou está nos ramos de turismo e negócios, e os demais. Para estes, a subida dos preços tem tornado até a alimentação algo difícil. O jantar de um turista num restaurante comum pode valer quase a metade do salário de um médico, que só pode trabalhar para o Estado. Há pessoas revirando lixeiras. E há as que pedem dinheiro, dizendo ter fome.

Todos estão vestidos e calçados, ainda que de forma simples. Além dos desejados tênis, usam muito chinelos e botas de plástico, que são mais baratos. Boa parte dos jovens segue a moda básica internacional. 

Pessoas de Yoruba (Santeria, um nome depreciativo) se vestem de branco e com colares. As mulheres com saias ou calças, batas brancas rendadas e turbantes igualmente brancos. Muitas delas, jovens, cumprindo seus deveres de um ano após a raspagem dos cabelos, quando também devem usar uma sombrinha branca, resguardando-se do sol e do sereno.

As ruas de Havana Velha fervilham de gente. Crianças brincam nas ruas em seus uniformes de escola. Pessoas se sentam nos bancos, ou nas soleiras dos edifícios, para ver o movimento e conversar. Uma população de maioria negra vivendo em condições simples. Igualdade na vida apertada. 

Apesar dos problemas, parece haver energia entre os jovens, vontade de viver a vida e se alegrar com o que ela oferece. Sentar-se ao fim do dia à beira-mar, tocar um violão, encontrar os amigos para ouvir música num bar, namorar num lugar deserto sem ser assaltado, tudo isso se vê em Havana. 

O melhor de Cuba é o seu povo. Não se deve duvidar da capacidade de um povo que já fez uma revolução e sobrevive às dificuldades do embargo. Enfrentam tempos difíceis, mas o país é maior do que os problemas conjunturais. Vale muito a visita. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 23 de janeiro de 2025.