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sábado, 2 de agosto de 2025

Xangai

Xangai se tornou um porto aberto ao comércio com o Ocidente após a Guerra do Ópio, no século XIX. Em seguida, vários países colonialistas criaram concessões no seu território, nas quais os nacionais desses países ficavam fora da jurisdição chinesa. Ingleses, franceses alemães e americanos se estabeleceram na cidade, chegando a dominar ali um território quatro vezes maior do que o chinês, apesar de serem minoria. Também vieram para Xangai russos fugidos da Revolução Comunista e judeus, fugidos da Alemanha Nazista. Por fim, chegaram os japoneses, que dominaram tudo, subjugaram chineses e estrangeiros, e criaram um gueto para os judeus. Até serem derrotados, e ter início a grande saga do socialismo na China. 

Toda essa história marcada por humilhações, mas também por influências culturais diversas, explica um pouco o cosmopolitismo da cidade e o seu dinamismo. Em Xangai foi criado o Partido Comunista Chinês. Os nacionalistas de Chiang Kai-Shek elaboraram um plano urbano para a cidade baseado nas ideias da Cidade-jardim que, com a invasão japonesa foi abandonado. No processo de reabertura comercial da China, do início da década de 1980, Xangai teve um papel importante, com o estabelecimento ali, em 1990, da sexta Zona Econômica Especial do país, significando uma regulação mais orientada para o mercado.

As ruas de Xangai são vibrantes, com muito movimento. Ao contrário de Beijing, com suas larguíssimas avenidas, a trama de ruas de Xangai comporta também ruas mais estreitas, com variação de direções e de ambiência. Permanece o sistema de ocupação do interior das quadras com vilas, algumas de muito boa arquitetura.

Há muitas ruas de pedestres nas áreas comerciais, como na Cidade Velha, cujo comércio lembra o da Saara, sediado, no entanto, em maravilhosos edifícios de arquitetura tradicional chinesa. Outra rua comercial de pedestres é a Estrada Nanquim Leste, com belos prédios do início do século XX e letreiros iluminados à noite. As principais ruas da cidade são pontuadas por lojas das marcas internacionais de consumo de luxo. Por serem tantas, é de se imaginar que haja essa demanda, apesar da maioria das pessoas usarem roupas básicas e confortáveis. 

As calçadas de Xangai são muito bem pavimentadas, muitas delas com placas de granito. Há sempre guias para deficientes visuais e rampas de acessibilidade. O asfaltamento das vias é praticamente perfeito, sem buracos ou lombadas, mesmo com as temperaturas sendo altas no verão. Há banheiros públicos por toda parte, geralmente bastante limpos. Os parques da cidade são bem arborizados, com plantas variadas entre pedras e espelhos d'água, como são os jardins orientais. Os canteiros das calçadas são igualmente muito bem cuidados, com arbustos podados e flores. E ninguém parece preocupado em ser roubado. Para quem mora no Rio de Janeiro, tudo isso é de chamar muita atenção, não é mesmo?

Xangai tem uma arquitetura impressionante, tanto a do passado, que inclui influências dos estrangeiros que lá estiveram com seus projetos coloniais, quanto a dos arrojadíssimos arranha-céus contemporâneos. Cinéfilos têm viva a memória do sky-line de Nova Iorque visto a partir do Brooklyn. É sim uma bela visão. Mas, aquela que se tem dos arranha-céus de Pudong, a área de negócios de Xangai, vistos a partir do Bund rivaliza com a visão de Woody Allen. Elevando-se do outro lado do rio Huangpu, próximas entre si, estão, entre outras, as torres Pérola do Oriente (de TV), a de Xangai, a quarta maior do mundo com seus 128 andares, a Jim Mao e a do World Financial Center, também conhecida como abridor de garrafas.

Mas não só o outro lado do rio apresenta esse espetáculo arquitetural. A margem do Bund é pontuada por edifícios excepcionais do século XX, marcadamente ecléticos de diversas inspirações e Art-déco. São edifícios de design inglês e americano, tão interessantes e variados, que essa orla do rio é conhecida como Museu da Arquitetura Internacional. Destacam-se, entre outros, o antigo Cathai Hotel, o Asia Bulding, o American Club, o Shanghai Club, o Union Building e o HSBC Bulding.

Com esse rico passado, Xangai tem uma ação importante de preservação do seu Patrimônio. Por toda parte há imóveis sinalizados com placas da municipalidade, cobrindo desde a arquitetura tradicional chinesa à arquitetura estrangeira e híbrida lá criada. Para preservá-los, a engenharia de Xangai é capaz de realizar prodígios. 

Em 2023, uma área edificada de 4.030 m2 e pesando 8.270 toneladas, na localidade de Zhangyuan, foi temporariamente deslocada por robôs hidráulicos para a construção de estruturas subterrâneas. Eram edificações do início do século XX, no estilo Shikumen, uma mescla da arquitetura ocidental com a tradicional arquitetura Jiangnan, que configuravam a melhor área preservada desse tipo de construção. Elas foram movidas à velocidade de 10 m por dia. Agora, em 2025, após o fim das obras subterrâneas, as edificações foram movidas de volta ao seu antigo local

No entanto, projetos de renovação urbana vêm acontecendo na cidade, destruindo parte desse passado. As autoridades municipais buscam reduzir a carência de habitações através da renovação de vizinhanças inteiras. É o que ocorreu, por exemplo, em Laoximen (Velha Porta do Oeste). Ali, edificações do início do século XX foram esvaziadas para serem demolidas e substituídas por modernos edifícios de apartamentos. Isso está ocorrendo também na imensa área com pequenas edificações relativamente antigas, já esvaziadas, próximas à turística área da Cidade Velha.

Xangai é uma das estrelas do acelerado desenvolvimento da China. Empresas internacionais de diversas áreas lá se instalaram. Em extensão, o metrô da cidade é o segundo maior do mundo e o primeiro em número de passageiros anuais. Uma ida aos seus subúrbios comprova que se constrói muito por ali. Gruas marcam a paisagem, com diversos prédios residenciais em construção. Há muitas empresas lá instaladas. Linhas de transmissão de energia, às vezes triplas, também atravessam o campo, havendo cultivo até junto às bases das torres. 

O mundo está mudando rapidamente e novos polos de poder já surgiram. Xangai, assim como outras grandes cidades da China está mostrando isso para quem quiser ver.

Artigo publicado no Diário do Rio em 31 de julho de 2025.

 

Beijing

 

Hutong em Pequim - foto Roberto Anderson

Pequim (Beijing) é uma cidade muito antiga. A primeira área urbana fortificada data de 1045 AC. Era a cidade de Jicheng. Diversas conquistas do território se sucederam até ela tomar o nome de Beijing (a capital do Norte) em 1403. Nesse período, foram construídas a Cidade Proibida, Tiananmen e o Templo do Céu, três de suas maiores atrações. 

É a segunda maior da China, depois de Xangai. A sua estrutura viária é composta por anéis mais ou menos concêntricos e não exatamente redondos. Eles são uma marca da expansão da cidade, tomando-se como centro a Cidade Proibida. A partir do entorno dessa área, contam-se mais cinco anéis. Muitos bairros desses anéis têm nomes terminados em mén, que é porta em chinês. Estão referidos às portas dos antigos muros, da mesma forma que em Paris há localidades, e estações de metrô, com a denominação de Porte. Há também bairros cujos nomes são terminados em cūn, que significa vila. Eram os bairros fora dos muros. 

Esses anéis são largas avenidas, e há outras ruas e avenidas igualmente largas e muito bem arborizadas, cortando o território da cidade. Mas, essas vias delimitam grandíssimas quadras, áreas residenciais onde a circulação viária é limitada. No passado, eram as áreas de alta densidade de ocupação do solo por pequenas casas fora da Cidade Proibida. Elas ainda existem, são os hutongs, e hoje têm todos os serviços públicos. Mal comparando, são o que nossas favelas poderiam ser, caso tivessem um pouco mais de cuidado por parte do poder público. Atualmente, algumas dessas grandes quadras são ocupadas por edifícios, mas permanecem com um jeito de vila.

As ciclovias da cidade são bem largas, em certos casos, às custas de um drástico estreitamento das pistas para os carros. O uso de bicicletas é intenso e até um pouco descuidado com os pedestres. Além disso, esses milhões de bicicletas, elétricas ou não, quando não estão em uso, são estacionadas nas calçadas, tomando boa parte do espaço. As de aluguel têm placas solares nos bagageiros à frente. Já quase não se vê veículos a combustão, o silêncio dos elétricos impera.

É sabido que a China é populosa. Ao andar por Beijing, que tem 22 milhões de habitantes, tem-se essa confirmação. Há sempre muita gente em todos os lugares. À noite, pelo menos no verão, há pessoas caminhando nas ruas, fazendo compras, se exercitando, ou apenas sentadas ou deitadas nos bancos ou muretas curtindo o espaço público. E muitas crianças brincando nas praças. Vitalidade urbana não necessariamente dependente do consumo, como em cidades de países desenvolvidos do ocidente. 

Há uma enorme preocupação com a segurança. Muitas câmeras de vigilância podem ser vistas nas calçadas da cidade.  Ao entrar em qualquer estação de metrô, ou em atrações turísticas, todas as pessoas têm que passar seus pertences numa máquina de escanear, além de atravessar pórticos detectores de metal. Até as garrafas de água são checadas. Um aparelho portátil identifica que efetivamente seja água. 

Um caso a parte é a entrada na Praça Tiananmen. Ali as restrições são fortíssimas e o tempo de espera para atravessar os procedimentos de segurança é grande. Revista-se o visitante e todos os seus pertences, inclusive a carteira de dinheiro e a capa do celular. O lado bom é que não há a mínima preocupação em ser roubado na cidade. 

Estrangeiros são como ilhas num mar de chineses e são facilmente notados. Quando se está com aquele jeito de perdido, tentando decifrar nomes de estações de metrô, por exemplo, sempre aparece alguém oferecendo ajuda em inglês. Por ainda serem relativamente raros, pode acontecer de alguém dar um "hello" na rua, pedir para tirar uma foto junto, ou puxar conversa usando o tradutor do celular, só pelo prazer de ter contatado um estrangeiro.

Em geral, as pessoas não falam inglês, mas entre os jovens há mais gente que fale. Garçons e garçonetes recorrem muito a algum aplicativo de conversão de texto. E, nos mercados os vendedores são muito simpáticos e sorridentes, tentando se comunicar com o cliente.  

Os estrangeiros são também uma minoria acachapante nos pontos turísticos da cidade. Ao contrário da maioria das grandes cidades do mundo, em Pequim esses locais estão lotados pela população do país. Gente de todas as idades vem visitá-los. Muitos são do interior. Após a visita, sentam-se em algum lugar, comem o lanche que trouxeram, e alguns tiram até uma soneca. Com razão, sentem-se em casa.

O uso do celular é intenso e constante. Se a pessoa estiver parada, é quase certo que estará vendo algo na telinha. Quase nada é pago com dinheiro. Todos usam o aplicativo We Chat ou Alipay. O cliente abre o QR code do aplicativo no seu celular, o qual é escaneado pelo vendedor e pronto, o pagamento está feito. Nesse ponto, é mais simples do que o Pix. Máquinas de venda de bilhetes e produtos também escaneiam o QR code do comprador. 

Há, especialmente entre as mulheres, um grande temor dos raios solares. Muitas cobrem os braços, usam luvas e portam bonés de abas enormes. Sombrinhas também são muito usadas para caminhar sob o sol, não só por mulheres. E há quem faça uso de uma espécie de "niqab" cobrindo nariz, boca e pescoço.

A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, mas os brasileiros ainda não a têm nos seus roteiros turísticos. Em tempos de restrições crescentes à entrada nos Estados Unidos, a China deve ser uma forte opção a ser considerada. Brasileiros estão isentos de visto e os preços das coisas não são altos. E o país, a sua cultura e a sua gente são fascinantes.

 Artigo publicado em 24 de julho de 2025 no Diário do Rio

 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Por aí por Cuba

Em Cuba, o Brasil é muito lembrado como o país do carnaval e das novelas. Há sempre uma delas passando na TV local. A do momento é “Um lugar ao Sol”, com Cauã Reymond. Nosso país é visto como um aliado e Lula é elogiado até por cubanos que criticam o governo local. Mas, ele é questionado por militantes mais fervorosos sobre o não apoio à suposta vitória de Maduro. Já Bolsonaro, é uma unanimidade negativa.

Como país insular, Cuba tem uma cultura única e cativante. Sendo um país relativamente pequeno, mas muito diverso, percorrê-lo é entrar em contato com uma história construída por indígenas, colonizadores espanhóis, franceses e americanos, piratas, ditadores, guerrilheiros revolucionários, consultores soviéticos e invasores a serviço do imperialismo americano. O povo cubano a tudo resiste.

Há ônibus cujas passagens somente podem ser pagas em dólares ou euros. Neles, viajam os turistas e os cubanos que têm condições de pagar. É requerido um check-in presencial de, pelo menos, uma hora de antecedência, ou o lugar no ônibus é redistribuído. 

Esse rigor desaparece na estrada, quando o motorista faz diversas paradas aleatórias. Ele pode parar para deixar galões de combustível numa casa, ou comprar coisas que, talvez, sejam revendidas, como sacos com dezenas de biscoitos. Os passageiros não reclamam. É difícil encontrar ônibus direto entre locais mais distantes. Geralmente, são paradores.

As estradas são relativamente vazias, e os veículos passam em velocidades não muito altas. É curioso ver um carro de décadas atrás galhardamente viajando entre cidades. Os caminhões não podem ser altos, já que os viadutos que cruzam as estradas foram construídos com baixas alturas. Alguns desses caminhões, e mesmo alguns ônibus, que fazem trajetos mais regionais, têm carrocerias quase artesanais, produtos da carência e da inventividade.

Em estradas locais, é possível encontrar uma sucessão de pequenas placas de concreto com slogans revolucionários nas bordas: Si, se puede; Nuestra tarea: produzir, produzir y produzir; Reconstruir la industria de azúcar! A tinta gasta denota que eles não têm sido renovados.

A Revolução tem conquistas duráveis e o embargo provoca dificuldades terríveis. Mesmo em pequenos povoados do interior não se vê moradias precárias. As pessoas moram em casas e conjuntos habitacionais, construídos segundo modelos de pré-fabricação em concreto. Todos com a pintura um pouco gasta. Nas áreas cultivadas, vê-se, com frequência, o uso do arado puxado por junta de bois. 

Nas cidades cubanas, de quando em vez, se escuta pregões cantados de vendedores que passam a pé ou de bicicleta oferecendo pão, biscoitos, e outros produtos. É comum também o vendedor de frutas. Em carrocinhas, ou com umas pencas de bananas nas mãos. Este é o caso de um professor de geografia, que dá aulas à noite e vende bananas de dia. Membro do Partido Comunista de Cuba, mostra-se um defensor da Revolução, mesmo admitindo os problemas econômicos do país. Segundo ele, com Fidel, isso não estaria acontecendo. 

Varadero é destino de quem quer conhecer uma praia de lindo mar azul turquesa do Caribe. Estabelecida sobre uma restinga, a cidade é limpa e organizada, mas sem maiores atrativos do que a praia. Recebe um forte fluxo de turistas russos, e as placas indicativas das atrações estão também em russo. Não se vê cubanos na praia, ocupados em ganhar a vida servindo os turistas.

Trinidad é uma bela cidade colonial de 511 anos, com ruas calçadas em pedras irregulares, lembrando as cidades do ciclo do ouro no Brasil. A musicalidade e sensualidade cubanas estão presentes no ensaio conduzido por professoras numa praça da cidade. Os meninos tocam instrumentos de percussão, alguns desses são apenas uns galões de plástico, e dão o ritmo do evento. A cada compasso, as meninas dão uma mexida com as cadeiras, uma boa rebolada. O ensaio é para uma parada cívica e, de tempos em tempos, elas gritam uma frase de louvor ao líder da independência Jose Marti.

Anoitece com apagão programado em Trinidad, como em diversas outras cidades do país. A população já sabe o horário sem luz de cada dia. Apenas os restaurantes da área histórica têm energia de geradores para atender à clientela. Sem luz, a cidade fica menos alegre e mais silenciosa. As pessoas recolhem-se às suas casas. No final, a luz volta antes do previsto e a cidade retoma a vivacidade característica de suas noites, ao som da boa salsa.

Santa Clara é uma cidade fundada por habitantes do litoral, que fugiram dos constantes ataques de piratas na costa. Com relação à arquitetura, o interesse é a sua praça central, cercada de belos edifícios, e seus arredores. Polo industrial e universitário, em meio a uma área de produção agrícola, aí se vê uma classe média mais forte, que frequenta restaurantes, e parece sentir menos o peso dos atuais problemas econômicos do país. 

Santa Clara tem uma forte ligação com Che Guevara. Foi a brigada comandada por ele quem a conquistou durante o processo revolucionário. Alguns senhores, que vivenciaram o processo revolucionário, fazem o trabalho de guias junto ao monumento à vitória do Che em Santa Clara. Lá, vagões de trem e peças de artilharia são expostos. Os guias falam com entusiasmo das estratégias empregadas pelo Che e seus soldados para, com apenas 19 combatentes, e usando coquetéis molotov, vencerem quatrocentos soldados bem armados, que viajavam em um trem de vagões blindados. Romantismo puro.

Em outro local da cidade, um mausoléu e um monumento foram erigidos para receber os restos mortais do Che e dos combatentes que com ele caíram na Bolívia.

Em Havana, o Paseo del Prado é um belo boulevard entre a cidade velha e a área mais central. Pavimentado com desenhos geométricos, é delimitado por bancos de mármore trabalhado e belos vasos, esculturas e postes de ferro fundido. Ali, sob as árvores, se concentra a garotada moradora dos apartamentos subdivididos dos lindos prédios deteriorados da vizinhança. Crianças andam de patins ou de skates, os adolescentes escutam música e, no meio disso tudo, de vez em quando, mulheres passam oferecendo seus serviços sexuais. À noite, é possível ver casais dançando tangos, valsas, salsas e outros ritmos. A pouca luz e o chão liso formam o ambiente perfeito para o baile.

Em ruas mais movimentadas de Havana, se sente o cheiro forte de combustível queimado pelos carros antigos e pouco econômicos. Esses, por não serem em grande número, deixam espaço para os pedestres nas ruas mais locais. Nelas, as pessoas podem desfrutar do saudável hábito de caminhar pela rua, sem estarem restritas às calçadas. 

Em Cuba não se vê a miséria presente nos demais países das Américas. Mas, há uma crise econômica que vem trazendo descontentamento. Senhoras reclamam dos preços e baixam a voz para criticar o governo. O sonho americano e o desejo de emigrar são constantes entre os mais jovens. Escuta-se música cubana e latina, mas nessa batalha cultural a Revolução tem perdido terreno. Procure algum cubano vestindo roupas com alusão a Cuba. Não se vê. Também não há pessoas usando camisas com a estampa do Che. Há sim uma profusão de expressões e frases em inglês nas roupas. E camisetas de times americanos. Repare, ali vai uma menina que passa usando um boné do Trump... 

Artigo publicado em 30 de janeiro de 2025 no Diário do Rio.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Caleidoscópio habanero

 

Havana é um desejo, especialmente para quem é de esquerda. E tem qualidades para encantar pessoas de qualquer orientação política. É uma das cidades mais interessantes das Américas. Não só os carros antigos foram preservados, como a sua riquíssima arquitetura, com exemplares do século XVI ao XX. Mas, o visitante é confrontado com difíceis questões da realidade atual. 

O povo é simpático, disposto a conversar e a fazer amizades. Cidade de largas avenidas projetadas por Forestier, que preservou a cidade velha. Nessa mesma época, Agache fazia o seu plano para o Rio de Janeiro, não completamente implementado, que aprofundava a destruição do tecido antigo iniciada com a abertura da avenida Central e o arrasamento do Morro do Castelo. 

Com grande esforço, uma parte de Havana Velha já está recuperada. Restaurados, sobrados e edifícios deslumbrantes rivalizam em qualidade arquitetônica com os das mais belas cidades do mundo. Recebem galerias e bons restaurantes. Duas quadras adiante, está a cidade real, de edifícios e sobrados ainda caindo aos pedaços, habitados por uma população que se vira como pode.

A cada pavimento térreo, uma venda improvisada. Em cada porta, uma mesinha para vender três saquinhos disso, quatro pacotes daquilo.

Em Vedado e Miramar, casas e mansões restauradas sediam embaixadas e centros de cultura. O Centro Fidel Castro ocupa uma das mais belas casas. Nas demais, roupas penduradas nas janelas indicam a sua ocupação por pessoas simples. Ou famílias apadrinhadas nos tempos mais heroicos. Casas e prédios de apartamentos estão depauperados, as calçadas estragadas, os jardins privados pouco cuidados.

No Malecon, famílias passeiam e pescadores jogam suas linhas para garantir o peixe do dia. Alguns edifícios e conjuntos habitacionais, de frente para o mar, mostram a argamassa rompida e armações de ferro expostas. Risco de desabamento em prédios ocupados e presença de ruínas na vizinhança.

Em Havana Velha, músicos nos bares e restaurantes tocam a boa música caribenha. A abordagem ao turista é frequente. Depois da pergunta sobre a procedência, pode vir a oferta de um suposto convite gratuito para um suposto show de salsa à noite. Como sinal de gratidão, o turista já pode ir pagando uma bebida ao generoso sujeito. Com boa conversa, logo se pede que o turista pague um trago, ou que compre leite para os filhos. Por necessidade, pede-se muito em Havana Velha.

Na ausência de um bom sistema de transporte público, ladas, chevrolets e todo tipo de carro velho fazem lotação. Há também o transporte por vans, tuc-tucs, alguns com carrocerias, e triciclos. Ônibus, que custam trinta vezes menos, demoram a vir. Quando chegam, muitas vezes estão lotados. O cobrador se desdobra para fechar a porta atrás do grupo que não coube, e se pendura para fora. Muita gente andando longas distâncias para se deslocar pela cidade. Porém, há pouca presença de bicicletas, que foram muitíssimo usadas no período especial, uma etapa econômica difícil que o país atravesso. 

Há problemas, como empoçamentos pontuais de esgoto, e na coleta de lixo, que pode ser visto acumulado nos pontos de descarte. Problemas que não são encontrados em outras cidades do país. 

Pouca iluminação pública nas ruas mais locais e cortes quase diários de energia nos bairros. Mesmo assim, as ruas são seguras. Nelas, as pessoas andam consultando seus celulares. Os inúmeros monumentos da cidade não tiveram suas partes em metal roubadas (cariocas entenderão). Mas, é possível presenciar a tentativa de roubo de um cordão do pescoço do gringo. 

Longas filas de carros nos postos de combustíveis, e filas e aglomerações nos caixas eletrônicos dos bancos e nas bodegas estatais, onde os preços são mais baixos, mas faltam produtos. 

Grandes hotéis, de redes internacionais, com poucas luzes acesas nos andares. Após a Covid, o turismo caiu e a economia do país não se recuperou.

Muitos relatos sobre a difícil situação econômica de Cuba e de como o embargo de mais de meio século não explica tudo. A necessidade de importar açúcar para um país que era grande produtor diz muito sobre a situação atual. A transição para a nova geração de dirigentes revolucionários não está sendo fácil.

É comum encontrar quem relate dificuldades para ter renda e critique o sistema. Queixam-se da perda de qualidade do ensino e dos atendimentos médicos. Os protestos massivos de três anos atrás resultaram em muitas prisões e condenações, desencorajando novas manifestações. Mas, a bandeira cubana é muito presente pela cidade e há, também, quem acredite que as coisas irão melhorar.

Desiludidos, ex-seguidores da Revolução vão se tornando pequenos capitalistas e contratam empregados. A auxiliar de uma hospedaria caseira consegue ganhar mais do que um médico, que trabalha na rede pública. A emigração é vista como solução, e muitos jovens o fazem, ou planejam fazer. Médicos, engenheiros e professores estão abandonando a profissão para trabalhar em coisas mais rentáveis, como atendente no comércio. 

Já se vê diferenças de posses entre quem tem parentes no exterior, ou está nos ramos de turismo e negócios, e os demais. Para estes, a subida dos preços tem tornado até a alimentação algo difícil. O jantar de um turista num restaurante comum pode valer quase a metade do salário de um médico, que só pode trabalhar para o Estado. Há pessoas revirando lixeiras. E há as que pedem dinheiro, dizendo ter fome.

Todos estão vestidos e calçados, ainda que de forma simples. Além dos desejados tênis, usam muito chinelos e botas de plástico, que são mais baratos. Boa parte dos jovens segue a moda básica internacional. 

Pessoas de Yoruba (Santeria, um nome depreciativo) se vestem de branco e com colares. As mulheres com saias ou calças, batas brancas rendadas e turbantes igualmente brancos. Muitas delas, jovens, cumprindo seus deveres de um ano após a raspagem dos cabelos, quando também devem usar uma sombrinha branca, resguardando-se do sol e do sereno.

As ruas de Havana Velha fervilham de gente. Crianças brincam nas ruas em seus uniformes de escola. Pessoas se sentam nos bancos, ou nas soleiras dos edifícios, para ver o movimento e conversar. Uma população de maioria negra vivendo em condições simples. Igualdade na vida apertada. 

Apesar dos problemas, parece haver energia entre os jovens, vontade de viver a vida e se alegrar com o que ela oferece. Sentar-se ao fim do dia à beira-mar, tocar um violão, encontrar os amigos para ouvir música num bar, namorar num lugar deserto sem ser assaltado, tudo isso se vê em Havana. 

O melhor de Cuba é o seu povo. Não se deve duvidar da capacidade de um povo que já fez uma revolução e sobrevive às dificuldades do embargo. Enfrentam tempos difíceis, mas o país é maior do que os problemas conjunturais. Vale muito a visita. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 23 de janeiro de 2025.