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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Piquenique, variações amorosas

No início, há um casal deitado no chão. Ela move lentamente as mãos, sobe ligeiramente os braços, e suas mãos e braços ficam pairando e balançando no ar. Esses movimentos vão se expandindo para o corpo, agora com várias partes envolvidas nessa dança. Mas ela e ele seguem na horizontal, ambos estirados no chão. Ela o toca e continua a se movimentar. Todo um bailado acontece, sem que eles saiam dessa posição. 

Ela passa por cima dele, o rodeia, volta a passar por cima. E por baixo. Um mundo de coisas acontece sem que, na maior parte do tempo, deixem de estar deitados. Eles são Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore, numa coreografia de Márcia Milhazes. Depois, um leva o outro para a posição vertical e agora sua dança é amorosa e brincalhona.

Experimentam diversas possibilidades. Ele a conduz pela cabeça, e agora é ela quem o conduz pela cabeça. Dançam abraçados, se afastam, voltam a estar juntos. Vivenciam vários momentos de um casal. Arrebatados, curiosos, se atraindo, se afastando, se surpreendendo, talvez se amando, mas juntos. Frágeis no mundo, mundo em guerras crescentes e cada vez mais abrangentes, podemos pensar. 

O cenário é de Beatriz Milhazes e a mudança de luz o torna um painel floral de cores variáveis. O casal está vestido com um sem-número de roupas, muito leves e sobrepostas. E à medida que a dança se desenvolve, vão se desfazendo de cada peça. Uma pele brilhosa que se vai, revela outra de ainda mais delicadezas e brilhos. As peles vão ficando pelo chão. 

De algum ponto surgem máscaras, e agora, qual um casal que faça uso de fantasias e jogos de animar uma relação, eles brincam e encarnam personagens carnavalescos. São Clóvis de Santa Cruz brincando no palco. As músicas que embalam as suas danças são bem variadas, passando por um fox-canção cantado por Orlando Silva, choros, batuques, Clementina de Jesus, Carmen Miranda e música barroca. E as peles que os vestem seguem sendo despidas. Às vezes, são usadas como adereços da brincadeira.

Ana e Domenico usam da expressividade dos seus corpos e dos movimentos propostos por Márcia, e também do afloramento de emoções diversas em seus rostos. Ora são enamorados, ora intrigados, depois alegres e às vezes ligeiramente perdidos. Há uma falta de senso e propósito nas suas inter-relações, mas há afeto e atração em ações repetidas, como ademais é a banalidade cotidiana de cada um de nós. O tempo em que esse trio já trabalha junto depurou uma sintonia absurda, revelada no palco.

Muitos outros momentos se sucedem. Em todo o percurso, eles pouco se distanciam. Há também saltos e giros e mais sutilezas de movimentos de partes do corpo isolados. A dança de Márcia Milhazes é feita de detalhes, de braços, pernas, cabeças, e troncos que convergem, para depois divergirem, numa sucessão caleidoscópica de possibilidades e surpresas. As suas criações vêm sendo tecidas há várias décadas e mostram uma consistência dificilmente alcançada na produção coreográfica brasileira. Seu trabalho está no Sesc Copacabana, não percam.

Artigo publicado em 15 de janeiro de 2026 no Diário do Rio.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A rubra energia de Esther Weitzman

Foto Renato Mangolin

Uma onda vermelha, dançante, cobriu o palco do Teatro Carlos Gomes neste fim de semana. Foi o espetáculo "As histórias que contamos sobre nós", de Esther Weitzman. No palco, vestidos de vermelho, bailarinos de técnicas e corpos diversos, com muita vitalidade, que estabelecem uma conexão imediata com a plateia. O espetáculo atual é uma remontagem, com outro elenco, do trabalho criado em 2019, que celebrou os vinte anos da companhia. 

A primeira cena, uma das melhores, é ao som de Sympathy for the Devil e já marca a energia que o grupo tem para passar. Duetos acontecem, formações de conjunto e, principalmente, logo transparece em cena as qualidades individuais de cada um dos componentes, o que marca todo o decorrer do espetáculo. 

Após Rolling Stones, a trilha sonora, entre outras maravilhas, ainda brinda o público com Robert Plant, Chuck Berry, Freddie Mercury e Tom Waits. Só coisa boa. Em Bohemian Rhapsody, há momentos de grande beleza com a presença somente dos homens em cena. Eles transmitem força, mas também a fragilidade do masculino em transição do mundo atual. 

Obras coreográficas que partem da diversidade dos componentes de um grupo, buscando tirar partido do que cada um tem de melhor e de suas histórias pessoais, podem resultar em trabalhos bastante interessantes. De uma certa forma, os trabalhos de Pina Bausch partem desse recurso. Entre nós, numa escala mais amadorística, o espetáculo "Sonhando Inocente", com formandos da Escola Angel Vianna, ou a "Obra Aluna", com alunos do Grupo Coringa também tinham essa estrutura. O presente trabalho de Esther Weitzman alcança um alto nível de coesão e de apuro, fruto de muito ensaio e dedicação. 

Esther Weitzman é agregadora, amiga de todos, umas das pessoas mais positivas e agradáveis do mundo da dança carioca. No trabalho com a sua companhia ela vem experimentando borrar limites que tradicionalmente eram associados à dança. Em "Dançar não é preciso" ela trabalhou com bailarinos bem jovens. Em "Jogos de Damas" ela reuniu bailarinas de idades variadas e em "Breve", em que ela própria está em cena com Paulo Marques e Toni Rodrigues, é a elegância e a maturidade dos três artistas o maior atrativo da peça. 

Agora, ela remonta um trabalho anterior dando espaço a novos bailarinos. Uns trazem movimentações cheias de energia e outros, com mais limitações físicas, demonstram ter iguais possibilidades de transmitir emoção através do movimento. Em meio a esse conjunto, sobressai a experiência e a qualidade de movimento de Frederico Paredes. O público responde com entusiasmo e eventual participação quando também é convidado a dançar. 

Tudo isso num Teatro Carlos Gomes renovado por uma nova obra de restauração, que o deixou impecável. Toda a beleza de sua arquitetura e de sua decoração interna se encontra em seu máximo esplendor. Um orgulho para a Cidade do Rio de Janeiro. 

Artigo publicado em 12 de junho de 2025 no Diário do Rio.

domingo, 4 de maio de 2025

Celeste de Milhazes e Poppe


Há coreógrafos que têm uma marca própria, que reconhecemos em cada novo trabalho, o que é bom quando ela é de qualidade. Alguns têm essa marca na encenação, outros na temática de suas obras. E há os que têm uma escrita coreográfica particular, um vocabulário de movimentos, ou como eles são construídos. Os trabalhos de Márcia Milhazes têm essa característica.

Márcia é senhora dos detalhes, da sequência de movimentos que parecem se repetir, mas que se alteram sem que se perceba ao certo como isso se deu. Ela se diz barroca. Nesse ponto, lembra o trabalho da sua irmã artista plástica. Mas, Márcia é também construtora de emoções. Emoções que são transmitidas pela movimentação de seus bailarinos. Assistir a um trabalho seu deixa no espectador um leve sorriso no rosto ao perceber a inteligência e o intrincado do que observa. 

Em seus trabalhos, há uma construção de quase personagens, seres capazes de transmitir dúvida, alegria, angústia, sem dizer palavra, apenas com o fluxo de movimentos que passam por seus corpos. Movimentos que executam com sua individualidade reforçada, presente ali em cena.

Celeste é o seu mais novo trabalho, criado para a bailarina Maria Alice Poppe. O encontro das duas artistas é potente, capaz de gerar fagulhas intensas. Um solo, uma mulher sozinha em cena, com toda a força da capacidade de interpretação através do movimento de Maria Alice, lapidada em anos de muito trabalho. Celeste evoca muitas mulheres no corpo ágil da bailarina. Uma jovem ingênua talvez, ansiosa, angustiada, uma Macabéa. Há também o êxtase que torce o corpo, dobra a espinha, de uma Teresa de Ávila. Mas, é apenas Celeste. 

Mãos se contorcem, cotovelos se encontram, para depois se afastarem em braços que se abrem e deixam uma perna subir. O corpo gira, as mãos se cruzam, os braços se estendem à frente e acima, a cabeça se volta para baixo, depois para trás, o corpo estremece, o olhar se volta para o lado, numa tessitura de movimentos em permanente fluxo de emoções e energia. Que bom poder usar a palavra tessitura, é a mais apropriada. É uma boa definição da impressão que a obra nos causa. 

Esse encontro entre essas duas maravilhosas trabalhadoras da dança, artistas de imenso talento, ainda pode render muitas delícias para um público carente de produções da dança carioca. 

Artigo publicado em 02 de maio de 2025 no Diário do Rio.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Mestras vindas de longe

 

Nas primeiras décadas do século XX, professoras de ballet russas, e de outros países do Leste europeu, chegaram ao Brasil por diferentes razões. Podia ser a fuga do regime soviético, um amor no Rio de Janeiro, ou a esperança de refazer a vida no Novo Mundo. Traziam consigo o profundo conhecimento de uma arte que havia sido bem codificada por anos de desenvolvimento em terras eslavas. Haviam dançado as principais obras do repertório clássico para plateias exigentes de vários países e guardavam na memória as suas sequências coreográficas. Anotações e livros completavam a bagagem cultural que traziam aos trópicos. 

Buenos Aires era quase uma réplica do ambiente europeu, tornando a adaptação mais fácil. Lima, La Paz, Bogotá talvez fossem terrenos muito áridos a desbravar. O Rio era o exótico conquistável. Muita beleza, muito calor, pouca cultura, mas, sendo a capital, possuía uma elite desejosa de ver suas filhas aprimorando-se na arte do ballet, além do piano e do bordado. Superando o estranhamento com o novo país, e com garra, elas abriram seus estúdios e passaram a formar gerações que movimentaram o mundo da dança brasileira. 

Sempre fumando, um pouco irritadas com os pianistas que conseguiam, davam várias aulas por dia. A contagem do tempo musical podia começar em russo, passar pelo francês e terminar em sete e oito. Estabeleciam aqui a disciplina característica dessa arte. Crianças aprendiam a somente entrar em sala com seus coques perfeitos e fazendo reverência para as mestras. A fama que haviam conquistado se estendia para lugares distantes do país, de onde grupos vinham aprender com elas nas férias escolares. 

Ao encontrarem um talento a ser lapidado, dedicavam-se a ele com afinco. Que essa promessa não ousasse buscar sua formação em outras paragens! O ciúme era inevitável. Adolescentes temiam o julgamento sobre sua fraca evolução, a reprovação pelos quilos a mais ou pela falta de musicalidade. "Burra para o ballet" ou "você pode amar o ballet, mas ele não ama você" eram sentenças que levavam ao pranto aquelas sobre as quais recaiam.

Sem possibilidades de contatos frequentes com o mundo da dança europeia, precisavam confiar na memória, e nas antigas anotações, para remontar ballets no Theatro Municipal e para orientar suas discípulas. O tempo passou e elas já não eram as estrelas no palco. Suas alunas mais dedicadas haviam se tornado artistas talentosas que faziam seus olhos brilharem. Os rapazes demoravam a se interessar pela dança, mas chegavam ao ponto de cumprir bem o papel que então lhes era reservado, de suporte para as bailarinas. Já estas, encantavam plateias e se tornavam estrelas reconhecidas pelo público, pelas revistas e pelos políticos. 

Por trás do sucesso dessas estrelas brasileiras, lá estavam elas, as mestras já senhoras, com seus inconfundíveis sotaques e a maneira direta de dizer as coisas. Hoje, essas pioneiras se retiraram. Algumas, como Dona Eugênia, se foram deixando muitas saudades. Dona Tânia, aos 102 anos, permanece lúcida, o oráculo a quem ainda recorrem tantos e tantas que formou. O Rio deve muito a essas damas do ballet. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 20 de fevereiro de 2025.