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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O mar de Escobar

Muita gente anda animada com a praia do Flamengo. Finalmente o banho de mar ali está liberado, e a água tem estado limpa quase o ano todo. Se já era bacana fazer um piquenique no Parque do Flamengo, agora o banho de mar é o complemento ideal. Infelizmente, a balneabilidade dessa praia foi parcialmente conseguida com o desvio das águas do rio Carioca para o interceptor oceânico de Ipanema. A cidade desistiu de despoluir o rio que fornece o gentílico local e passou a jogá-lo em alto mar, misturado a todas as outras sujeiras dos seus moradores. 

Todo o povo descolado está feliz com a recém-descoberta prainha da Glória, que andava sequestrada pela marina de mesmo nome. Ela é pequenininha, de acessibilidade difícil, lindinha de se olhar do alto, e com vista para o Pão de Açúcar. De quebra, tem a movimentação dos aviões descendo na cabeceira da pista do Santos Dumont logo ali ao lado.

É bom lembrar que essas praias são reconstituições de praias que um dia existiram mais perto da linha dos edifícios, mas desaparecidas com os sucessivos aterros. Aterrou-se muito o mar do Rio de Janeiro. Entre Ramos e Copacabana, todo o litoral foi alterado pelo incansável trabalho de se conquistar terra ao mar, às lagoas, aos pântanos e aos manguezais. A cidade que se orgulha de suas belezas naturais travou uma guerra insana contra essa mesma natureza.

O mar do Rio de Janeiro, tão apreciado, já foi bastante desdenhado pela população que aqui se instalou após a colonização. Basta ver a implantação do atual Museu da República, um dia a residência do Barão de Nova Friburgo. Ele tinha um belo terreno à beira-mar e poderia ter construído um palacete debruçado sobre a praia. Mas não, preferiu construí-lo na esquina das ruas do Catete e Silveira Martins. Um palacete urbano, de costas para o mar, e deste separado por um imenso jardim.

Foi lento o crescimento do hábito do banho de mar no século XIX. Lá no início havia o banho medicinal de D João VI que, muito provavelmente, sentava-se numa banheira dentro das águas calmas do Caju. O aparato necessário para esses banhos era fornecido pela atual Casa de Banhos do Caju.

Mesmo quando o banho de mar já começava a ser um pouco mais usual, era ainda uma atividade estranha aos padrões dominantes. Em Dom Casmurro, Machado de Assis descreve Escobar, o oponente de Bentinho, como um homem moderno, morador do Flamengo e apreciador do banho de mar. E nesse mesmo mar Escobar morre afogado num dia de forte ressaca. 

Fazer morrer o personagem afogado na praia do Flamengo é um recurso curioso, já que em geral é a placidez que por ali domina. Na vida adulta, Ezequiel de Souza Escobar, esse era o seu nome completo, foi um morador do Flamengo e Bentinho, ou Bento de Albuquerque Santiago, foi um morador da Glória. Já na fase Casmurro, este último dá as costas ao litoral e vai viver recluso no Engenho Novo. 

Que cada braçada dos modernos banhistas da Praia do Flamengo preste homenagem ao valente e misterioso Escobar.

artigo publicado em 20 de agosto de 2026 no Diário do Rio

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Metrô Rio: descuido e decadência

As primeiras estações da Linha 1 do metrô do Rio de Janeiro, inauguradas em 1979, foram projetadas pelo escritório de arquitetura comandado por Sabino Barroso, Jaime Zettel e José Leal. Esses arquitetos haviam colaborado com Oscar Niemeyer nos projetos para Brasília e projetaram estações elegantes, dentro de uma linguagem do modernismo carioca. Aquelas mais centrais receberam placas de mármore branco nas paredes e granito escuro nos pisos. Aquelas menos centrais, como o Largo do Machado, tiveram suas paredes revestidas com pastilhas coloridas de vidro, também um revestimento de qualidade. 

As estações eram claras e agradáveis de nelas estar. Nos primeiros anos de funcionamento o metrô do Rio se destacava por ser o local mais limpo e bem cuidado da cidade. Havia um constante exército de pessoas da limpeza, cujo trabalho inibia a ação de eventuais "sujismundos", como eram chamadas as pessoas que jogavam lixo em locais públicos. Depois de anos de obras a céu aberto, que tumultuaram a vida da cidade, era uma recompensa merecida.

As estações construídas após as estações pioneiras deixaram a linha de qualidade das primeiras e o resultado foi uma mistura de estilos pouco coerente. Há a estação Botafogo, com aparência de obra inacabada, há a estação Siqueira Campos, com jeito de arquitetura brutalista, em que o concreto das estruturas permanece aparente, e há a estação Nossa Senhora da Paz, com obras de arte de gosto duvidoso evocando a igreja acima e o ambiente praieiro do bairro. 

Mas o maior problema é que o metrô do Rio, além de não avançar, se tornou uma salsicha, em que uma linha vai sendo embutida na outra. Essa alteração improvisada do projeto original impede uma redução nos intervalos entre as composições. O ritmo de abertura de novas estações chegou a zero nas duas administrações de Cláudio Castro, o único dos governantes recentes a não inaugurar nenhuma nova estação do metrô. A última extensão do metrô do Rio de Janeiro se deu em 2016, com a inauguração da estação Jardim Oceânico. A última vez que novos trens chegaram ao sistema de metrô foi em 2015, quando foram entregues os trens que faltavam de um lote de quinze composições compradas na China para a linha 4 do metrô.

Desde 1998, após a sua privatização, a gestão do metrô do Rio é feita pela empresa MetrôRio, atualmente controlada pelo Mubadala, fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos. Infelizmente, o metrô do Rio de Janeiro se transformou num espaço decadente, sujo e de mau gosto. Uma das primeiras ações da gestora foi cobrir com argamassa branca parte das paredes revestidas com pastilhas de vidro, um verdadeiro atentado à qualidade do projeto original. Em seguida instalaram placas metálicas coloridas nas paredes, fixadas com furos no revestimento original. Sobre estas placas colaram bolachas com imagens infantilóides de sandálias, de copos de suco e outras que, supostamente, representariam o clima da cidade. 

Em busca de aumentar a renda da gestora, as estações foram transformadas em verdadeiros mafuás, com todo tipo de barraca atravancando o caminho. Se um dia ocorrer uma situação de pânico, este será um enorme problema. O sistema de som do metrô está sempre admoestrando os usuários sobre os mais diversos temas, como se bárbaros fossem. As placas que revestem os corredores do metrô estão sujas. Volta e meia, escadas rolantes e esteiras param de funcionar e infiltrações e trincas são vistas por todo lado.

Por alguma razão, os trens do metrô ficaram mais barulhentos e mais sacolejantes. Os avisos sobre as próximas estações mal podem ser ouvidos. As estações e os vagões estão mal iluminados. Em alguns destes últimos, lâmpadas antigas por trás de placas de acrílico encardidas resultam numa luz mortiça, uma quase penumbra. Lembram aqueles ônibus já velhuscos que rodam por subúrbios distantes. Seria por economia ou para não deixar ver o descolorido dos bancos e a sujeira do piso? Todas essas foram transformações lentas, de um jeito que o usuário foi se acostumando, sem perceber que o seu metrô, o mais caro do Brasil, envelheceu precocemente. 

Artigo publicado em 13 de agosto de 2026 no Diário do Rio.

 


quinta-feira, 2 de julho de 2026

A cidade para

Via Ápia - Rocinha, Rio de Janeiro

O intenso tiroteio da madrugada é capaz de parar uma parte da cidade. Mães e pais se perguntam se podem levar os filhos ao colégio, ou entregá-los à condução escolar, que transitará com as crianças por lugares que podem ter sido afetados pelo susto de momentos antes. Pode demorar, mas ainda nesse mesmo dia tudo voltará ao normal. 

A chacina numa favela distante consegue parar quase que a cidade toda. Vários bairros da cidade são impactados. As notícias dos policiais entrando e atirando por entre as casas, as dezenas de corpos enfileirados no asfalto, os ônibus incendiados ou sequestrados para criar barreiras ao funcionamento normal da cidade e o governador corrupto se vangloriando do seu ato violento, tudo isso paralisa a vida de muita gente. Já é quase normal na cidade. Os patrões entendem a apreensão das pessoas. O prefeito decreta que não será obrigatório ir ao trabalho naqueles próximos dias. Mas, o medo já está alastrado.

O Carnaval também para a cidade. De um jeito diferente, ele o faz pelo excesso de movimento. O dia e a noite se misturam, feriados e dias de semana se mesclam, o trabalho e o prazer se entrelaçam, e os desconhecidos se juntam. Nos blocos, pegados uns aos outros, estão unidos por suor e purpurina. Uma greve geral, movida a música e cerveja.

O jogo do Brasil na Copa, o que faz? Mobiliza a cidade, mobiliza o país inteiro. Tudo começa com os preparativos, que se repetem a cada quatro anos. É preciso colecionar figurinhas para completar o álbum da Copa, uma tarefa séria que envolve crianças e adultos. Atrapalha o andamento das aulas e rouba tempo das atividades dos escritórios, mas é totalmente tolerada, já que é por uma boa causa. Pintar a rua e colocar bandeirinhas são atividades fundamentais para se criar o tal clima de Copa. É também prova de coesão social do quarteirão. Bairro sem decoração de rua é sinal de que é habitado por gente esquisita.

Tem também que comprar cornetas, ou qualquer coisa que faça barulho. E camisas da seleção, de preferência as do camelô, que não pagam royalties para os barões da CBF. Ah, e não esquecer os palpites sobre o próximo jogo, fazer o bolão com os amigos, e curtir o medo de que o adversário seja mais forte. Vale reclamar que o Brasil talvez já não seja o país do futebol e coisa e tal.

Depois, é encomendar a cerveja e combinar com os amigos o lugar de assistir. Dia de jogo do Brasil exige dispensa do trabalho, se não o dia inteiro, pelo menos nas horas que o antecedem. Azar é se o trabalho for enquadrado como atividade essencial. Aí o jeito é levar uma televisão para assistir no plantão. 

Horas antes do jogo começam os fogos, os mesmos que anunciam a chegada da droga, assim como o início da operação policial na favela. Fogos que ouvidos cariocas, já acostumados, não confundem com os tiros das chacinas e das incursões policiais que dias antes podem ter ocorrido. Como o Rio não tem igual. Forasteiros estranham, mas depois se acostumam.

Chega a hora do jogo. Desavenças políticas esquecidas, separações entre ser fora ou dentro da lei superadas, chega o momento de torcer. Os jogadores cantando o hino são o espelho da pátria. Canta-se nas casas, diante dos televisores. Gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso, a lembrança da terra adorada emociona. Passada a algazarra que antecede o início do jogo, vem o silêncio. Nada se passa nas ruas, ninguém se desloca, a cidade para por completo. Todos seguem atentos ao que se passa no gramado a milhas de distância. Se tudo der certo, vai chegar a oportunidade de explodir e gritar Goool! Do Brasil, é claro. 

Artigo publicado em 02 de julho de 2026 no Diário do Rio.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Meio ambiente desempoderado no Rio de Janeiro

Foto Marcia Foletto

Neste último final de semana os cariocas foram surpreendidos pelo cercamento de uma área no canteiro ajardinado do final do Parque do Flamengo, já chegando na Praia de Botafogo, onde antes havia um posto de gasolina. Logo ficou claro o propósito do cercamento: a construção de uma loja de automóveis chineses com 1.460 metros quadrados e seis metros de altura. E, para que tal construção fosse possível, rapidamente começou o trabalho de arrancamento de árvores adultas existentes no local. Felizmente, o Iphan-RJ, que não foi consultado antes do licenciamento, embargou essa obra.

O morador desta cidade deve ficar perplexo como a Prefeitura pode dar tal licença, contrariando o tombamento do Parque do Flamengo, a inclusão dessa área na região declarada como Patrimônio da Humanidade e o tombamento do espelho da Enseada de Botafogo. Mas aí ele pode se lembrar que essa mesma Prefeitura autorizou a transformação do Jardim de Alah, um parque tombado, num shopping center. E que a Prefeitura do Rio permitiu o corte de 71 árvores, imunes ao corte por decreto da própria Prefeitura, no antigo Colégio Bennet. E que no Buraco do Lume foram derrubadas 58 árvores com o consentimento da Prefeitura. E que a gestão Eduardo Paes é recordista em licenças para o abate de árvores na cidade.

Toda essa devastação começou a ser planejada quando, em 2021, Eduardo Paes criou uma monstruosidade administrativa: a separação das secretarias de meio ambiente e de urbanismo de seus respectivos setores de licenciamento. A Secretária de Meio Ambiente ficou como a rainha da Inglaterra, sem qualquer poder sobre o que se licenciou na área ambiental na cidade durante a sua gestão. As atribuições da SMAC foram entregues a executivos dispostos a agradar o mercado imobiliário e retirar "entraves" à consecução de projetos danosos à cidade. Como se não bastasse, o Decreto nº 51.503/22 transfere ao interessado a responsabilidade em apontar os impactos ao meio ambiente. O sonho de ruralistas mal-intencionados e de invasores de florestas na Amazônia foi realizado no Rio de Janeiro pelo ex-prefeito. 

Não só em relação ao meio ambiente esse licenciamento expedito tem trazido problemas. Também a proteção de bens tombados ou preservados vem deixando a desejar. Construções bem mais altas do que aquelas protegidas são erguidas ao lado das mesmas, muitas vezes no mesmo terreno. O Iphan deixa de ser consultado quando deveria ser e obras absurdas são iniciadas. Os arquitetos da área de Patrimônio da Prefeitura sabem o que devem fazer. Mas, aparentemente, a definição desses parâmetros não está mais em suas mãos. 

Tempos atrás o Deputado Carlos Minc entrou com uma ação arguindo a inconstitucionalidade dessa separação de funções das respectivas secretarias, mas não obteve sucesso. Mais recentemente, o mesmo deputado acompanhou um grupo de representantes de associações de moradores e de artistas que foram ao Prefeito Eduardo Cavalieri levando uma série de demandas, entre as quais essa questão dos licenciamentos. O Prefeito ficou de marcar uma reunião no prazo de um mês para discutir especificamente este assunto. No entanto, se não houver pressão da sociedade carioca, nada mudará e o Rio continuará a ser a única capital a ter esse sistema esdrúxulo em que os responsáveis pela área ambiental não têm o poder de vetar projetos danosos ao meio ambiente.

Artigo publicado em 19 de junho de 2026 no Diário do Rio.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

 

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, nascido em Palma, Minas Gerais, em 1944, desenvolveu toda a sua vida profissional no Rio de Janeiro, cidade à qual serviu em diferentes cargos públicos ao longo da sua carreira. Ele foi o idealizador e a grande liderança do projeto Corredor Cultural, que salvou da destruição boa parte do centro do Rio de Janeiro. Ele também realizou projetos para espaços públicos da cidade e foi Secretário de Urbanismo. Nesta entrevista (com a colaboração da estagiária Beatriz Jucá Pereira Campos), realizada em 18 de maio de 2026, ele aborda as origens do projeto Corredor Cultural, as emoções e os desafios vividos ao longo da consolidação do projeto.

O período na Holanda

Roberto Anderson: Augusto, eu queria voltar um pouco no tempo e relembrar o processo de criação do Corredor Cultural. Teve toda aquela história de você ir para Holanda, mas, antes de você ir para lá, você já tinha um pouco de preocupação com esse assunto?                                                                            

Augusto Ivan: Já sim. Eu trabalhei muito intensamente na demolição do Morro de Santo Antônio, documentando aquilo. Eu não entendia muito do assunto, mas eu tinha que entregar as plantas dos imóveis que seriam desapropriados. Isso foi feito quando eu trabalhava na Secretaria de Obras, por onde eu entrei na Prefeitura. Em 1974, surgiu uma oportunidade de ir para a Holanda e fui. Peguei as malas e fui para a Holanda para um período no Bowucentrum International Education, em Roterdã. Lá, desenvolvi um trabalho, juntamente com um africano, para uma cidade na África.

Roberto Anderson: Houve uma segunda passagem pela Holanda, não?

Augusto Ivan: Sim. Já de volta ao Rio, em 1978 eu recebi um convite para voltar com uma bolsa do governo holandês. Uma bolsa para que ex-alunos desenvolvessem projetos que pudessem ser reproduzidos em outros lugares. Eu poderia desenvolver o trabalho que eu quisesse, que eu achasse mais interessante.

Roberto Anderson: Que trabalho você desenvolveu lá?

Augusto Ivan: Como eu disse, eu estava trabalhando na ocasião na Secretaria de Obras. Por conta própria, eu e o Marlon Costa e Souza, outro arquiteto, que faleceu muito cedo, desenvolvemos um trabalho para o Largo de São Francisco. Era um trabalho do jeito que a gente achava que devia ser uma pesquisa, porque não era um trabalho acadêmico, com rigor acadêmico. Era uma coisa que a gente fazia levantamentos e fazia propostas. Nós o denominamos de Renovação Urbana do Largo de São Francisco. Quando cheguei na Holanda, eu propus fazer um trabalho nessa área. Um trabalho na direção da preservação daquele estranho conjunto de prédios que se recusava a morrer (no Special Programe do Institute for Housing and Urban Development Studies - IHS, também em Roterdã, Augusto Ivan desenvolveu o trabalho "Multifunctional Development of the Inner City", que deu origem ao projeto Corredor Cultural).

Roberto Anderson: Como era aquela área na época?

Augusto Ivan: Todo o centro da cidade do Rio de Janeiro estava meio mortiço, mais ou menos como está agora, mas numa perspectiva mais pessimista. Então, o trabalho que eu me propus a fazer foi levantar a situação dos imóveis dentro de um rigor maior, e fazer propostas de intervenção no espaço público. Na época, havia aqueles projetos de alinhamento (PAA) que passavam por cima do Largo de Francisco. Não era possível fazer nenhuma intervenção sem que se fizesse os PAA. Mas, a Prefeitura, no afã de derrubar, de fazer projetos de renovação, de construir viadutos e outros projetos viários, acabou paralisando o desenvolvimento da área. Como não se podia fazer nada enquanto não se completasse o PAA, tudo ficou paralisado. O que seria um projeto de destruição, acabou por preservar a região. Então a gente estudou o que fez essa área tão interessante ficar de fora do desenvolvimento urbano por tantos anos.

Roberto Anderson: Como foi a recepção desse trabalho na Holanda?

Augusto Ivan: O IHS era um curso de habitação social, destinado a formar pessoas, geralmente funcionários de governos de países em desenvolvimento. Aí quando eu cheguei, eles levaram um susto. Eles acharam um projeto inadequado. Mas eu falei que não queria fazer outro projeto, que tinha ido lá para fazer aquele projeto. Eles acabaram me encaixando num módulo, onde eu ficava meio à vontade com o trabalho de preservação e renovação do Largo de São Francisco, o trabalho que havia sido começado aqui.

Roberto Anderson: Depois, com o projeto já em aplicação, a instituição holandesa tomou conhecimento, ela reconheceu esse trabalho?                                                           

Augusto Ivan: Sim, depois eles ainda encomendaram outro trabalho sobre quatro favelas, Rocinha, Brás de Pina, Maré e Morro dos Cabritos, em Copacabana. Eles queriam que a gente fizesse um mapeamento do lugar, uma distribuição das atividades de planejamento, de execução de obras, etc. Um trabalho a partir do que o Carlos Nelson havia feito em Brás de Pina.      

Os primórdios do Corredor Cultural

Roberto Anderson: E como foi a volta ao Rio?

Augusto Ivan: Eu voltei com o trabalho mais ou menos pronto, mas não tinha utilidade nenhuma, ninguém queria ver aquele trabalho. Eu estava meio vagando até que, um belo dia, o Armando Mendes, meu amigo, e que à época era Superintendente de Planejamento na gestão do Klabin (prefeito de 1979 a 1980), me chamou. Ele falou: "Você não fez uma coisa lá para o Largo de São Francisco, no seu curso de pós-graduação? Então, sai da Secretaria de Obras e vem trabalhar na Secretaria de Planejamento". E foi aí que começou a dar uma estrutura mínima ao trabalho, que agora podia se apresentar como um trabalho da Prefeitura.

Roberto Anderson: Havia uma conjuntura política favorável ao projeto, não?

Augusto Ivan: Sim, o Israel Klabin é uma figura que merece todo o respeito nesse processo e que dava muita força para o projeto acontecer. Ele cismou de apadrinhar o projeto do Corredor Cultural. Ele me ligava para que eu passeasse com ele na cidade, que ele queria conhecer.

Roberto Anderson: Essa forma de trabalhar um conjunto valorizando mesmo aqueles imóveis menos especiais era uma novidade, não?

Augusto Ivan: Sim, até então, eram os grandes monumentos que importavam. Veja o exemplo do Morro da Conceição. Lá tem oito monumentos tombados pelo Iphan, mas ele tem um entorno que faz um sentido junto com a manutenção dos prédios numa situação de preservação de volumes. O Iphan viu o Morro da Conceição como uma coisa volumétrica. Aí, a gente já vinha um pouco adestrado, assumindo a posição que não, não era guardar os imóveis para uma situação de cenário. Era para valer mesmo, preservar para poder manter. O Ítalo Campofiorito foi o primeiro intelectual a dar um valor a essa preservação, a esse projeto. Ele ajudou nos bastidores. Até então, o Patrimônio era consagrado com uma área do Iphan. De qualquer forma, o Corredor Cultural teve uma associação muito forte com o IPHAN, nós tivemos boas relações com o Iphan e seus arquitetos, sem nunca ter tido briga.

Roberto Anderson: O Corredor Cultural tem as três áreas, a Saara, a Praça XV e a Lapa. Dentro desses perímetros há áreas excluídas. E há uma área grande do Centro que também ficou de fora. Como foram definidos esses limites? Foi fácil? Foi preciso negociar muito para decidir o que ficaria de fora?             

Augusto Ivan: Boa pergunta. Essa questão foi objeto de muita polêmica, de muita discussão, porque a gente não fez o chamado centro histórico, de acordo com o que se fez na Espanha ou na Itália. A gente fez o que dava para fazer, o que sobrou. Alguns sobrados na Rua da Alfândega, por exemplo, entre a Rua Uruguaiana e a Avenida Rio Branco, ficaram de fora do Corredor Cultural porque eles já pertenciam à mancha da renovação, a área já estava muito modificada. A gente não avançou sobre áreas que já vinham assoberbadamente sendo ocupadas pela especulação imobiliária. Ela não tinha muito interesse nas áreas que selecionamos, porque a legislação era restritiva. Tanto é, que alguns dos cadernos de divulgação e projetos do Corredor foram bancados pela ADEMI.

Roberto Anderson: Então não houve áreas que você tenha lamentado não entrar?        

Augusto Ivan: Não. Quem lamentou foi a Rachel Sisson. Ela não admitia que o Mosteiro de São Bento ficasse de fora. Ela queria que fizesse parte de um conjunto. Fazia sentido, poderia ter sido feito. Mas era uma área que ainda estava sendo muito alterada. Tinha prédios grandes surgindo ali, como o RB1 (em 1997, foi criada a Apac da Rua Teófilo Otoni e arredores e, em 2004, foi criada a Apac do entorno do Mosteiro de São Bento).

Roberto Anderson: Houve apoio amplo ao projeto então.      

Augusto Ivan: Sim, havia espaço para o pequeno comércio florescer. Então, eles (representantes do mercado imobiliário) ficaram do nosso lado. Na sessão da Câmara de Vereadores em que foi aprovado o projeto do Corredor Cultural, eles estavam presentes para apoiar, não para ir contra. Não teve ninguém contra. Todo mundo era a favor. Eu sempre achei que tinha um lado romântico no Corredor Cultural, as pessoas identificam esse passado como um passado coletivo. Mesmo que você não tenha participado diretamente daquilo, aquilo é caro à sua memória. As pessoas já ouviram falar daquela área, já foram com o pai ou com a mãe, já foram passear na Saara, no Largo de São Francisco etc.

A estrutura do Corredor Cultural

Roberto Anderson: E o Grupo Executivo do Corredor Cultural, como é que ele surge?

Augusto Ivan: Ainda na gestão Klabin, foi criada a Câmara Técnica para a implantação do Corredor Cultural. Depois, veio o Grupo Executivo, do qual eu fazia parte (criado pela Lei 506/1984, cuja composição era mais abrangente, mas depois foi reduzido para cinco membros de notório conhecimento na área do patrimônio histórico e arquitetônico, pela Lei nº 1139 de 16 de dezembro de 1987), um Escritório Técnico e um Conselho Consultivo (ambos criados pela Lei nº 1139 1987).

O Escritório Técnico era responsável por acompanhar e dar viabilidade, a batalhar no dia a dia, digamos assim. Pela Câmara Técnica e pelo Grupo Executivo passaram pessoas importantes da nossa cultura, como Rachel Jardim, Lélia Coelho Frota, Nélida Piñon, Rachel Sisson, Ítalo Campofiorito, Sérgio Cabral pai, Sônia Mattos Caúla e Silva e Paulo Sérgio Duarte. Eram pessoas com muito acesso à imprensa, que queria que elas falassem. O Conselho Consultivo, muito amplo, não chegou a se reunir.

E havia o Rubem Fonseca, nosso grande escritor, que era o presidente do RioArte na época. O Rubem Fonseca não dava entrevistas. Mas, para o Corredor Cultural, ele era um bastião. Ele botou em um livro dele um personagem com o meu nome. Era um arquiteto que andava pela cidade (personagem e narrador do conto "A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro", da coletânea "Feliz Ano Novo"). E ele me disse: "Você sabe que aquele personagem do Augusto é você, né?".

Eu falei: "Isso aí, já me contaram". O Escritório Técnico do Corredor Cultural era na mesma casa em que ele trabalhava, a RioArte, o que facilitava as coisas. Essas pessoas (do Grupo Executivo) tiveram um poder muito grande. E, também, uma compreensão e interesse grande pela questão. Eles perguntavam coisas, como por que empena (lateral cega de uma edificação), por que que chama empena? De onde veio essa palavra? Aí, gerava um debate sobre a coisa chamada empena e a divulgação do assunto. Era bem interessante que eles traziam para a área técnica um frescor, uma coisa diferente. E dava vontade de trabalhar. A equipe trabalhava duramente.

Roberto Anderson: Quanta gente maravilhosa!                                              

Augusto Ivan: É importante falar do papel da Rachel Jardim. Ela organizava, em nome do prefeito, toda a discussão do projeto com a Câmara dos Vereadores, antes da sua aprovação. O projeto foi muito debatido antes de ser enviado para lá.           

Uma vez pedi à Rachel um texto para um roteiro histórico sobre o Corredor Cultural que eu fiz com a Ana Amora. Era um folder com desenhos feitos à mão, que mostrava o skyline da região. E foi engraçado, porque eu fui com a Rachel para a rua para mostrar o que que a gente queria que estivesse no roteiro. Começamos na Lapa e circulamos por todo o Corredor, até à Praça XV. Pelos lugares em que a gente passava, eu ia anotando no caderninho aquilo que achava importante de mencionar no texto. No prazo acertado, a Rachel veio e me disse: "Não consegui escrever aquilo que você me falou. Achei muito careta". Aí ela fez um texto que começava assim: "Uma cidade o que é? Um percurso no espaço, um percurso no tempo, um percurso em nós mesmos?"("A cidade: o que é?”). Era uma coisa toda poética para passear pelo centro da cidade guiado pelas escrituras de Raquel Jardim. Foi uma pena terem retirado o nome dela do Parque das Ruínas, em Santa Teresa, projeto que ela idealizou.                                                                                                                                          

Roberto Anderson: Quem foram os primeiros arquitetos do Escritório Técnico do Corredor Cultural?                                                                                                                     

Augusto Ivan: Era um pessoal muito legal. Bem no início, trabalharam a Alice Reis e a Maria Lucia Neves. Depois vieram os arquitetos Anita Tavares, Patrícia Vasconcellos, Maria Helena McLaren, Ana Amora e André Zambelli. E Natércia Rossi, Elizabete Araújo e Sônia Gentile no apoio, além do fotógrafo Zeca Linhares. Um pouco mais tarde, chegou a arquiteta Annabella Blyth.

Captando a simpatia da população

Roberto Anderson: As ações do Corredor Cultural não se limitaram à proteção da arquitetura, mas também buscaram captar a simpatia da população, não é?

Augusto Ivan: Eu sempre tive uma ideia de ter uma repercussão externa para garantir que as coisas não ficassem abandonadas, sem pai nem mãe, com as mudanças de governos. A gente tinha muito trabalho de divulgação, de comunicação para o exterior. Era um projeto muito aberto. Qualquer pessoa que chegasse lá, tinha acesso a todas as informações. Montamos uma biblioteca com verba própria da RioArte. Fotografamos muitíssimas coisas, fizemos várias exposições. Tudo para chamar a atenção para aquele objeto, para que aquela coisa permanecesse viva, valorizando os imóveis, que a gente tinha para preservar.

Fizemos também um trabalho de como proteger o patrimônio. Era um caderninho em que fizemos um levantamento das situações de risco de incêndio, e que virou um manual. Esses cadernos começaram a virar um objeto de curtição. Todo o pessoal da área queria ganhar, porque eles não eram vendidos. E a gente tentando segurar, porque não tinha dinheiro para fazer mais. Fizemos um sobre a cor no Corredor Cultural (A Cor, de Hilton Berredo e Zeca Linhares, editado pela RioArte). E foram feitas umas coleções de cartões postais coloridos da área. A Maria Helena McLaren e o Ítalo Campofiorito fizeram textos para eles.

Roberto Anderson: E havia também umas atividades de música e arte na rua.            

Augusto Ivan: Sim, havia o Música na Praça (coordenado por Liliam Zaremba), música em igreja (projeto Música nas Igrejas), tinha o Tim Rescala com a bandinha dele (a Sereníssima Banda). As pessoas iam atrás da bandinha do Tim, que juntava pessoas igual ao Flautista de Hamelin para assistir às peças. Eram peças adaptadas de textos de Machado de Assis. Todo esse trabalho foi pensado, não foi uma coisa que aconteceu, foi pensado, está documentado de alguma maneira.

Fizemos também amizade com outros grupos que estavam na rua. O Amir Haddad fez teatro também no Corredor Cultural. Celina Sodré era a coordenadora desse projeto pelo RioArte (o projeto Cenas Cariocas levava música e teatro às ruas do Corredor Cultural e também Aderbal Freire Filho participou do projeto). E tinha música, que em geral era música clássica, que tocava na rua. A ideia era ir para rua para configurar uma longevidade maior para o projeto do Corredor Cultural.

As ações de preservação

Roberto Anderson: Quando começou o trabalho na prática, você encontrou alguma resistência de comerciantes? Alguém se opôs às determinações do Escritório Técnico do Corredor Cultural?

Augusto Ivan: Não. Não há, nem pontualmente falando, algum interesse pessoal que tenha sido afetado pela legislação. Não foi um tema. Não precisamos nos preocupar com isso. Mas, houve problemas um pouco antes. Quando foi divulgada a planta do Corredor Cultural com os imóveis preservados, começaram a ocorrer alguns incêndios. Achávamos muito suspeitos, desconfiávamos que havia gente graúda por trás, mas não tínhamos prova nenhuma disso. Então, o Klabin fez um decreto dizendo que, no caso de haver algum sinistro, haveria a obrigação de reconstruir o imóvel igual ao prédio original. E se criava multas. Isso estancou os incêndios rapidamente.   

Na ocasião da discussão da renovação do prédio da Bolsa de Valores, na Praça XV, ficou claro quem estava do lado da preservação e quem não estava, quem preferia que nada fosse feito (o edifício Art Déco da Bolsa de Valores, foi demolido para dar lugar ao que lá está). O novo edifício é do escritório dos irmãos Roberto, projeto do Marcio Roberto. Eles acabaram aprovando o projeto, mas sem conseguir os tais 43 metros de altura pretendidos. Reduziu-se bastante a altura do prédio, ficando em torno de 20 metros.   

Roberto Anderson: Como foram os primeiros trabalhos do Escritório Técnico do Corredor Cultural?                                                                                                                     

Augusto Ivan: Uma primeira etapa foi a elaboração da planta de preservação dos imóveis do ponto de vista de conjunto. Era um mapa, um PAA grande com os imóveis todos numerados e tinha um hachurado sobre as grandes manchas de imóveis preservados. Eu e o André Zambelli fizemos a planta. Fomos para a rua e marcamos todos os imóveis da lista do Pedro de Alcântara (o arquiteto Pedro de Alcântara havia coordenado um levantamento das características arquitetônicas de imóveis de uma área do centro) e outros que seriam preservados. A gente tinha três categorias de preservação. Havia o tipo de imóvel tombável, aquele que não admitiria muita modificação, classificado como de Preservação. Tinha uma categoria intermediária, de interesse mediano, digamos, dos imóveis que tinham algum elemento de fachada interessante, mas precisavam ser recuperados. Eram os para Reconstituição. E tinha aqueles imóveis modernos, que eram classificados como de Renovação. Essa gradação de valores foi consagrada na Lei 506/1985 (a lei que cria a Zona Especial do Corredor Cultural, mas a Lei nº 1139/1987 não manteve essas categorias).

Então, esse foi o primeiro instrumento legal, com o qual a gente podia finalmente pegar um processo e responder dentro da máquina administrativa, já informando as restrições a seguir.                                                                                           

Roberto Anderson: O processo de trabalhar com imóveis do Iphan tinha uma certa característica, mas trabalhar com imóveis do Corredor Cultural era diferente. Como foi esse aprendizado?                                                                                              

Augusto Ivan: Foi um aprendizado na rua, lendo coisas, indo a seminários, fazendo cursos... A gente descobria alguma coisa e registrava. Por exemplo, os postes antigos, que a gente descobriu haver uma grande concentração na área da Praça XV. Mas, ali no começo, não sabíamos de onde vinha e o que era aquilo. Pouco a pouco, foi se criando esse conhecimento acumulado.   

Então foi um conhecimento que a gente foi adquirindo ao longo do tempo. A gente abria uma ficha, na realidade eram uns envelopes pardos, em que a gente enfiava tudo o que tinha a respeito de um imóvel, qualquer coisa. Era imóvel por imóvel. Eram colocadas ali, as plantas, a aprovação de licenciamento, os trâmites do licenciamento, propaganda que saísse na televisão, material impresso etc.

E além do mais, quando era possível, nós desenhávamos a mão cada fachada que entrava, ou alguma coisa de planta que fosse interessante. As fachadas estão todas desenhadas. A Rua Uruguaiana inteira, de fora a fora, está desenhada. Eu acho que também a Rua 7 de setembro está desenhada. Era muito bonitinho.

Roberto Anderson: No início do Corredor Cultural, os sobrados eram muitas vezes cobertos por imensos letreiros. Quando surgiu a norma sobre os letreiros, limitando suas dimensões, houve alguma resistência?                                                                  

Augusto Ivan: Sim. A Saara, por exemplo, era uma área em que todos eram nossos amigos no início. Depois, ficou um pouco estremecido porque o projeto começou a afetar a atividade deles. A regra dos letreiros veio de um dia para o outro, com uma data definida para passar a valer. Nós realizamos um seminário sobre o assunto e, no dia seguinte, já estava na rua uma lei limitando a altura dos letreiros. Era necessário, porque essa área inteira era coberta por letreiros. A Praça XV também. As Casas Pernambucanas, por exemplo, eram cobertas por uma placa de luxalon (marca de placas metálicas) grande. Aquilo fechava todas as fachadas. Daí, um belo dia, a Prefeitura bateu na porta e disse: "O senhor vai ter que tirar isso do seu imóvel". Aí, foi uma coisa mais impositiva. O que ajudou é que falávamos com cuidado. Dizíamos "olha, se o senhor não quer tirar o letreiro grande, não precisa tirar, mas se não tirar, também não ganha a isenção (do IPTU). Então, esse contato no dia a dia, face a face, facilitou muito.         

Roberto Anderson: A preocupação de vocês era somente com a arquitetura ou foi além?

Augusto Ivan: A gente fez um trabalho sobre interiores. O foco da preservação foi nas fachadas, na aparência exterior, mas dentro dos imóveis havia coisas interessantes que não tinham sido preservadas no projeto do Corredor. Então a gente identificou essa necessidade de ter um levantamento dos objetos, móveis ou até letreiros. O trabalho foi coordenado pela Patrícia Vasconcellos. Ela fez um levantamento, imóvel por imóvel, daquilo que existia dentro e que ainda valia a pena também preservar, cumulativamente ao que já havia sido preservado. Ao final, esse trabalho foi encaminhado para o Conselho Consultivo do Corredor Cultural, com uma listagem de todos os imóveis que mereciam uma proteção maior dos seus interiores. Mas, esse processo desapareceu sem que houvesse uma cópia. Mais tarde, usando a sua memória, a Patrícia Vasconcelos conseguiu remontar essa coisa toda para fazer o livro dos interiores.

Roberto Anderson: E como se chegou à isenção de IPTU para os imóveis preservados?                                                                                                      

Augusto Ivan: A isenção do IPTU foi uma coisa importantíssima para fazer com que disparasse o processo de preservação no centro da cidade, no Corredor Cultural. O projeto de isenção foi para a Câmara dos Vereadores e passou rapidamente. Então, ficou gravado que aquele projeto era para valer e que estava usando uns instrumentos mais diferentes, digamos assim, mais contemporâneos. O conceito de preservação também era mais livre.

Roberto Anderson: Me fala um pouco do trabalho com os artífices da área de Patrimônio. De como vocês tiveram dificuldade para achar as pessoas quando começaram as obras.

Augusto Ivan: Essa dificuldade existiu de fato. A gente tentou começar um trabalho de treinamento de pessoas, mas na realidade pouca coisa foi feita. No final, começaram a aparecer os que ainda tinham esse conhecimento, esse saber, digamos assim. Um exemplo foi um velho português que fez a recuperação da Casa Franklin, aquela do vitral em forma de pavão (Avenida Passos 55/57). Ele era ótimo e dizia que trabalhava com isso lá na terra dele em Portugal, mas que não tinha mais serviço aqui no Brasil para o tipo de coisa que ele fazia. O trabalho desse senhor foi filmado numa tentativa de captar recursos para algo maior.       

Ocorreram muitas discussões sobre a melhor maneira de realizar as obras. Um exemplo foi a questão das claraboias, que era um elemento importante na estrutura interna dos imóveis. Como não havia proteção para os interiores, era difícil convencer da necessidade de mantê-las. Elas eram parte da cobertura, que era protegida, mas muitas vezes os proprietários não queriam fazer a sua recuperação. É difícil e quando se exige um pouquinho além da conta, prejudica a aceitação do projeto. Acho que no início éramos mais liberais nesse sentido das exigências.

A convivência com outras arquiteturas

Roberto Anderson: E sobre a área do Castelo, que ficou de fora? Quando a Maria Helena McLaren esteve à frente do Escritório Técnico do Corredor, ela dizia ter vontade de expandi-lo para o Castelo.                                                                                 

Augusto Ivan: Ah, sim, ela é a paladina do Castelo!  É importante lembrar que a gente vinha de um contexto desfavorável. A questão do Castelo foi pensada, mas achamos que era demais, e que já estava numa altura razoável. Aí não ia precisar surgir muita coisa alta.         

Roberto Anderson: Mas agora o prefeito Eduardo Paes liberou o gabarito naquela área. Agora o céu é o limite.                                                                                                                       

Augusto Ivan: Eu não sou contra ter prédios altos. Mas, tem que ser mais desenhado, você tem que baixar ao nível de detalhe no desenho. Aí você vai estudar uma coisa razoável. Mas, acho que nós não temos cultura (arquitetônica) suficiente para implantar um gabarito ilimitado.                                                 

Roberto Anderson: Você vê que em Londres há alguns prédios muito altos, mas eles estão dentro de um contexto que não atrapalha a paisagem.

Augusto Ivan: Eu acho que a pirâmide do Louvre estabeleceu um novo marco. Pode sim uma pirâmide na praça do Louvre. Então, isso balançou muito o coreto. Foi um casamento que me pareceu muito bem-sucedido em termos da arquitetura, do ambiente, e do local. Já o Beaubourg, aquela máquina infernal, uma fábrica de arte e de cultura, eu acho mais pesadão. Ele derrubou muita coisa, né? Tenho dúvidas sobre o Beaubourg, mas, de qualquer maneira, eu acho que cabe algo assim. Só acho que é preciso estudar mais.

Relações políticas

Roberto Anderson: Como era a relação com os prefeitos?                                                 

Augusto Ivan: Alguns prefeitos merecem uma menção na história do Corredor Cultural. O Klabin foi muito bom. O Marcelo Alencar (prefeito de 1983 a 1986 e de 1989 a 1993) assinou as leis fundamentais para a existência do Corredor Cultural e fez obras importantes, como a reurbanização da Lapa, com projeto meu e do Marlon, e retirou o mercado de peixes da Praça XV. O Cesar Maia (prefeito de 1993 a 1997 e de 2001 a 2009) iniciou a obra de recuperação da Rua do Lavradio e deu uma sede para o Corredor Cultural. Já o Júlio Coutinho (prefeito de 1980 a 1983) não tanto. Era preciso enfrentá-lo para conseguir as coisas. Você vê que a gente já estava forte...

Roberto Anderson: Você saberia a razão?                                                                                         

Augusto Ivan: Talvez, ele estivesse instruído contra o nosso trabalho. Foi na gestão dele que se tentou derrubar, por exemplo, a Fundição Progresso (a Fundição Progresso havia sido desapropriada em 1975 para a implantação de projetos modernistas, que incluíam a avenida Norte-Sul, via nunca concluída inteiramente. Em 1982, houve a tentativa de demolir a edificação). Mas, um grupo liderado pelo Perfeito Fortuna se organizou e conseguiu impedir. Eles foram até a Dona Zoé (Zoé Chagas Freitas, esposa do governador Chagas Freitas) e conseguiram tirar o Chagas de um jantar, com a ajuda da Dona Zoé. Há uma foto linda que se tornou um marco da manutenção do edifício. Era um homem com uma picareta assim no alto da fachada da Fundição se preparando para quebrá-la. A picareta ficou parada no ar.   

Outro prefeito simpático ao Corredor foi o Jamil Haddad (prefeito do Rio de Janeiro em 1983). O irmão dele, Samir Haddad (foi Secretário Municipal de Planejamento), era amigo da Sônia Caúla. Então a gente tinha acesso ao secretário de planejamento para passar as nossas demandas. Por exemplo, foi necessário fazer uma modificação grande quando a gente conseguiu um levantamento topográfico, casa a casa. Foi aí que a gente começou a desenhar como o imóvel ia ficar, antes mesmo de fazer as obras.

Roberto Anderson: Como foi a integração com a Secretaria de Cultura?                        

Augusto Ivan: Durante um período a gente foi da Secretaria de Planejamento, então o Corredor era separado de todas as outras instituições ligadas ao Patrimônio. A equipe do Corredor Cultural era orgulhosa do seu trabalho e se protegia. Ela era senhora do seu pedaço, não gostava que se mexesse nele. Porque nós tínhamos um orçamento separado, e era muito. Mas, às vezes, os secretários usavam recursos do nosso orçamento e aplicavam em outras coisas. A Helena Severo (foi Secretária Municipal de Cultura do Rio de Janeiro de 1993 a 1999) acabou com a independência que o Corredor Cultural tinha. Ela levou o Corredor Cultural para dentro da Secretaria de Cultura. E aí houve uma mistura de equipes. Mas, eu gosto dela. Eu acho que ela fez um trabalho bonito na Secretaria de Cultura. Um exemplo são as esculturas que ela levou para o Centro. Artistas, como José Resende, Amílcar de Castro, Ivens Machado e Waltécio Caldas criaram trabalhos para o Centro. É uma pena que muitas delas já não estejam lá.   

Roberto Anderson: Como foi a integração do Corredor na Secretaria de Cultura?

Augusto Ivan: O Corredor Cultural chegou a ter uma sede, na Rua da Constituição, que depois dividiu com a Subprefeitura do Centro. A história dessa sede é linda. O imóvel tinha sido da família da Carmen Costa, uma cantora maravilhosa, que gravou "Eu sou a outra", de Lupicínio Rodrigues. Ela nos visitava sempre e o sonho dela era ser tombada. Ela própria, viva. Então, a gente falou: "Não, vamos deixar o prédio se deteriorar, vamos ocupá-lo, porque preserva também a história da Carmen Costa, como ela queria". Lá tinha um teatrinho de 50 lugares para palestras e apresentações de música.      

Depois nós saímos do centro da cidade, da casa que foi feita para o Corredor Cultural e fomos para a Secretaria de Cultura. E as equipes do Corredor Cultural e do Patrimônio do Município ficaram juntas, todo mundo mais ou menos no mesmo espaço. Acredito que a junção administrativa do Corredor Cultural com a área de Patrimônio do Município tirou força do projeto, mas não prejudicou tanto o trabalho, reforçando a percepção de que é uma política pública. De uma certa forma, o Corredor Cultural abriu as portas para uma visão diferente sobre conjuntos urbanos antigos, o que resultou na criação das Apacs (Área de Preservação do Ambiente Cultural). Muitas normas criadas pelo Corredor terminaram sendo adotadas por elas, como a definição de cores de fachadas, tamanhos de letreiros etc.  

Roberto Anderson: Faltou alguma coisa importante a ser trabalhada?

Augusto Ivan: Há uma coisa que a gente sempre falou muito, mas que nunca deu para explorar e nem para tocar para a frente. É a questão da moradia, levar a moradia para o Centro, para aproveitar imóveis com espaço ocioso. Era uma preocupação na época do Corredor, mas era daquelas tarefas que escapavam da nossa alçada. Mesmo assim, há pessoas morando no Centro. Sei de uma família que criou os filhos lá. Não é uma coisa fria. Tem gente que mora e vive lá.    

Eu acho que eu fui emendando coisas. Novas demandas foram sendo exigidas. O projeto do Corredor Cultural caminhou até a exaustão dos itens que ele se propunha resolver. Depois, parou. Teve um tempo que parou.

Roberto Anderson: Você é que nunca parou. Foi até Secretário de Urbanismo!

Augusto Ivan: Mas o tempo passa, o tempo rola. Depois teve muita aventura. Depois dessa minha aventura no Patrimônio, teve a aventura da Subprefeitura do Centro, a convite do Conde, quando foi Secretário de Urbanismo (Luiz Paulo Conde foi prefeito entre 1997 e 2001), que foi mais louca.

Roberto Anderson: Não sei se você concorda, mas no período em que você estava no Corredor Cultural, a sua intervenção era mais focada nos edifícios. Já na Subprefeitura, a ação extravasou para o espaço público. Como um complemento. Você percebe isso?                                                                        

Augusto Ivan: Sim, e a gente estudou o camelódromo, por exemplo (Augusto se refere ao camelódromo da Rua Uruguaiana). Nós estudamos um tipo de ocupação para o camelódromo. A Olga (Olga Bronstein, administradora da II RA) trabalhou muito com isso.                         

Roberto Anderson: É, eu estava lá também. Ajudei a pintar o chão do camelódromo.

Augusto Ivan: Pois é, passamos um fim de semana juntos lá, pintando o chão. Os meus filhos também foram ajudar. Eram 1400 camelôs que tinham que entrar para aqueles terrenos. Eles teriam que entrar na segunda-feira e a gente passou o fim de semana pintando à mão a numeração das barracas no chão.

Roberto Anderson: Mais alguma coisa a lembrar?

Augusto Ivan: Muitas coisas importantes para a memória do Corredor Cultural foram lembradas hoje. Que bom a gente está registrando isso!               

 Artigo publicado em 28 de maio de 2026 no Diário do Rio.                                                

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A armadilha das Cepacs no Rio

Foto: Marcia Foleto

O Estatuto das Cidades, uma grande conquista de tantos quantos se preocupam com os destinos de nossas cidades, criou, entre outros instrumentos de planejamento urbano, a outorga onerosa do direito de construir. Ela é a possibilidade do município cobrar pelo licenciamento de áreas a serem construídas acima de um determinado índice, geralmente índice um, de utilização da área do terreno. Isso significa que a construção de uma vez a área do terreno seria livre de taxação. Mas o que ultrapassasse esse índice, até o índice máximo permitido para cada região, seria objeto de uma taxação. É uma forma de trazer recursos para os cofres municipais e de ressarcir o mesmo de gastos realizados com melhorias do espaço urbano. 

Outra contribuição do Estatuto é a Operação Consorciada, em que todos os recursos auferidos com a cobrança dos índices acima do índice mínimo de aproveitamento do terreno são necessariamente investidos em obras no perímetro definido pela operação consorciada, a qual é aprovada pela Câmara Municipal. O projeto Porto Maravilha é uma Operação Consorciada e esses índices taxáveis foram denominados Certificados de Potencial Adicional de Construção - Cepacs. 

Como o projeto era muito ambicioso, envolvendo a demolição da Perimetral e a construção de diversas infraestruturas, entre elas o Túnel Marcelo Alencar, definiu-se como meta a arrecadação de grandes volumes de Cepacs. Para isso, as alturas dos futuros edifícios na região foram estabelecidas em níveis bastante elevados, chegando até a 50 pavimentos.  Também ficaram elevados os índices de aproveitamento máximo dos terrenos. 

Passados já vários anos, uma impressionante massa de edifícios, muito próximos uns dos outros e muito altos, começa a surgir nas proximidades da rodoviária, exatamente onde as alturas permitidas no projeto são as mais elevadas. Tais edifícios, que já vem sendo chamados de Curilândia, estão escondendo o Morro do Pinto, que fica logo atrás, uma agressão à paisagem da cidade. 

Dentro das regras do mercado imobiliário carioca, se esses edifícios fossem mais baixos, talvez não fossem economicamente viáveis. Além do custo de sua produção e dos lucros esperados com a venda das unidades, é preciso contabilizar o custo das Cepacs, sem as quais o licenciamento não é aprovado. Assim, um instrumento pensado para beneficiar a cidade, ao ser usado num contexto de exploração máxima dos terrenos, termina por forçar a verticalização da região. 

Exemplo semelhante está para acontecer no projeto Praça Onze, atualmente em discussão na Câmara de Vereadores. O projeto é igualmente ambicioso, incluindo a demolição do Viaduto 31 de Março, a criação de novas vias e a construção de uma futura biblioteca. Novamente, para se custear todas essas obras, seria necessária a arrecadação de altas somas em certificados de potencial adicional de construção. 

A primeira versão do projeto apresentada trazia edifícios de alturas variadas, alguns mais baixos nas proximidades da subida para Santa Teresa. Mas, uma nova versão chegou a ser discutida, com edifícios tão altos que barrariam a vista da cidade a partir do Largo das Neves, em Santa Teresa. Só assim haveria a possibilidade de se arrecadar recursos no volume capaz de custear o projeto. 

Além do evidente prejuízo à paisagem e à ideia de uma cidade com escala mais humana, haveria um outro problema. A arrecadação desses recursos é incerta. O leilão das Cepacs no Porto Maravilha não teve interessados e só a entrada da Caixa Econômica, comprando todo o volume de certificados disponíveis salvou o projeto. Mas, não salvou a Caixa, que até hoje tenta vender os tais certificados, para cuja aquisição foram usados recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, uma evidente distorção de propósitos. 

Ao realizar o leilão das Cepacs do projeto Praça Onze, conseguirá a Prefeitura um novo comprador disposto a assumir riscos tão grandes como fez a Caixa Econômica no Porto Maravilha? É importante lembrar que persiste a oferta de muitíssimos certificados daquele primeiro projeto. São questões da realidade econômica, que sempre poderão ser artificialmente resolvidas por intervenções políticas. Mas aí a massa projetada de edificações já estará no forno, infladas pelos excessivos índices de aproveitamento dos terrenos e pelas Cepacs. E lá se vai a paisagem e a qualidade de vida.

Artigo publicado em 21 de maio de 2026 no Diário do Rio. 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pode a soberba prejudicar paes?

Os gregos antigos falavam da húbris, que era o orgulho excessivo, a soberba, que levava à derrota dos guerreiros, atingidos pela ira de Nêmesis, deusa da retribuição divina e da vingança. Eduardo Paes e, como diz o Fábio Porchart, o seu "cover" parecem se esquecer desses cuidados recomendados pela antiguidade clássica. É impressionante a quantidade de projetos que levam adiante e que contrariam o senso comum e a proteção do meio ambiente e do Patrimônio.

Nos seus primeiros mandatos, Paes implodiu a antiga Fábrica da Brahma, um marco na paisagem do Catumbi. O seu projeto Porto Maravilha propôs edificações de até cinquenta pavimentos, sem a devida proteção de galpões remanescentes da atividade portuária na área do retroporto. Como resultado tardio, a cidade vê surgir uma barreira edificada junto à rodoviária, a Curilândia, que vai suprimindo da visão dos cariocas o Morro do Pinto e a igrejinha de N. Sra. de Montserrat.

Nesses últimos mandatos do Prefeito Paes, houve um avanço sem precedentes no licenciamento para a remoção de árvores de terrenos privados. De acordo com reportagem do jornalista André Trigueiro, o número de árvores retiradas desses terrenos para novos empreendimentos saltou de 5. 216 em 2021 para 13.130 em 2025, um crescimento de 151%. A cidade, que já sofre com um enorme déficit de arborização urbana, especialmente nas Zonas Norte e Oeste, fica assim mais desprotegida contra o aumento da temperatura causada pelo aquecimento global. 

Essas retiradas aprovadas pela Prefeitura deveriam ser compensadas com o plantio de aproximadamente 175 mil mudas em vias urbanas. Ocorre que as mudas demoram a crescer, e nem todas vingam. E a Prefeitura não tem controle se esses plantios foram realmente realizados. O resultado é a perda significativa de arborização. 

Um bom exemplo de licença absurda para corte de árvores ocorreu no antigo Colégio Metodista Bennet, no Flamengo. O palacete ali existente, de 1859, foi a residência do Barão de São Clemente. Em 2014, o imóvel e a sua cavalariça foram tombados pelo Município do Rio de Janeiro. As árvores que compunham o conjunto foram consideradas imunes ao corte. No entanto, contrariando o disposto no tombamento, neste ano o Prefeito liberou o corte de 71 árvores frondosas existentes no terreno. Os moradores das imediações do palacete estão revoltados e já realizaram dois protestos na porta do empreendimento.

No Jardim de Alah, um parque tombado pelo Município, a Prefeitura licenciou um projeto que o descaracteriza e impermeabiliza o solo, com a construção de centenas de metros quadrados para lojas, um verdadeiro minishopping no parque. No Pão de Açúcar, a Prefeitura aprovou o projeto de uma tirolesa, que destruiu parte do topo daquele monumento tombado. Recentemente, a Justiça até mandou parar a obra, mas o dano à pedra do Pão de Açúcar já está feito.

A última autorização polêmica dos Eduardos é o corte de aproximadamente cinco dezenas de árvores no Buraco do Lume para a construção de um imenso prédio de apartamentos. Ele ocupará uma área já consagrada como um espaço de uso público. No momento, uma decisão da Justiça sustou o corte das árvores, mas essa suspensão pode cair. 

A sorte de Eduardo Paes é que a direita bolsonarista, atualmente a mais forte concorrente dele, não é afeita a essas questões de meio ambiente e paisagem. Querem mais é que todas essas “firulas” caiam na lata de lixo. Se esses oponentes pela direita fossem minimamente preocupados com isso, teriam um farto material de campanha para bombardear a candidatura Paes ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O ex-prefeito segue sua busca por mais poder, sem ligar para a opinião dos chatos dos ambientalistas e dos amantes do Patrimônio. Esquece-se que um dia Nêmesis pode acabar se irritando.


Aretigo publicado em 07 de maio de 2026 no Diário do Rio. 


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Recomendações sentimentais acerca de um certo Theatro

Foto Roberto Anderdson

Vocês que estão aí, na Cinelândia, de boca aberta diante desse teatro têm razão, ele é mesmo estupendo. Reparem na escadaria, nas colunas coríntias e nos balcões. E os vitrais, viram como são belos? Se voltarem mais à noite, verão a luz interna passando por eles e a magia das formas coloridas acontecendo. Reparem nesse telhado de cobre. Percebam que ele começa a perder a pátina artificial, feita no último restauro, e a pátina natural está se formando. Mas, por agora, há um tom amarronzado querendo aparecer. É normal, o cobre tem vida própria e vai mudando de cor até chegar no verde do azinhavre.

Aproveitando que estão olhando para cima, aposto que não deixaram de notar a grande águia dourada, sobre a cúpula mais alta, e os ornatos da cobertura também dourados. Pois saibam que esse atual douramento quase não aconteceu. Ele havia existido nos primórdios do teatro. Mas a reação química com o cobre terminou por consumi-lo. Era preciso refazer esse trabalho, mas quem dominava essa técnica por aqui? O douramento sobre cobre é diferente do que existe nas talhas de madeira em nossas igrejas barrocas.

Foi preciso buscar o Sr. Fabrice Gohard, que já havia feito esse trabalho para a cobertura da Ópera de Paris e para a tocha da Estátua da Liberdade. Sim ela é dourada, não é falsa feito aquelas de certa loja de departamentos. O Sr. Gohard e a sua equipe trabalharam um bocado para dar conta de tantas peças a receber aquelas finíssimas folhas de ouro. Depois de grudadas nas superfícies dos ornatos, elas permanecem lá para brilhar por muitos e muitos anos. 

Olá, você que mostra seu ingresso para o porteiro escanear o código de barras. Perceba que ele geralmente é jovem, está bem-vestido e não dá muita atenção a você, mas sim ao seu bilhete. Mas, saiba que nem sempre foi assim. Lá pela década de 1970, os porteiros eram funcionários não muito bem pagos, que olhavam nos olhos de quem chegava à porta.  Em troca de deixar alguns entrarem sem ingressos, aceitavam uma gorjeta furtiva. Aos olhos atuais, isso pode parecer escandaloso. Mas era a salvação da lavoura para jovens artistas sem dinheiro, que desejavam muito ver seus ballets e suas óperas favoritas.

Os funcionários do Theatro estavam há tanto tempo na casa, que aqueles que lidavam com o público conheciam os espectadores mais assíduos pelos nomes. Eles puxavam uma conversa, perguntavam pela família e contavam um pouco das suas vidas. Do filho que já vai para a faculdade e do esforço para pagar as mensalidades.

Ei, menina, estudante de ballet, que está fazendo uma pose diante dessa escada que leva ao nível do balcão nobre. Depois da foto, repare nos mármores e nos ônix verdes que a compõem. E também nas figuras femininas no início dos corrimãos. Ah, não deixe de apreciar a escultura em mármore de Carrara, que preside a sua subida. Ela se chama A Verdade e está ali para tornar a sua ida ao teatro mais esplendorosa.

Vocês três aí no Foyer do teatro. Olhem para cima e observem a magnífica pintura A Música, de Eliseu Visconti. Percebam que é feita numa técnica pontilhista, em que milhares de pequenas pinceladas, neste caso, se sobrepõem à pintura das figuras e formas, as quais têm reflexos do impressionismo. Ao entrarem na sala de espetáculo, verão no teto a pintura As Horas, além das pinturas do proscênio e do pano de boca, todas do mesmo artista. 

Mas, antes, muito cuidado ao se debruçar sobre esses balcões que se projetam acima da grande escada. A balaustrada de um deles já despencou sobre os degraus lá embaixo. Ocorre que o Theatro Municipal se equilibra sobre centenas de estacas de madeira, mergulhadas na lama do subsolo da Cinelândia. A cada composição do metrô que passa, a cada ônibus mais furioso que cruza a Praça Floriano, tudo balança milimetricamente. O ajuste das peças se alarga, microtrincas surgem nas paredes de mármore, e tudo isso acaba por deixar a balaustrada meio solta. Mas, não se preocupem tanto, ela já foi recuperada e hoje não vai cair com vocês. 

Por falar em subsolo, recomendo ao senhor que chegou cedo para o concerto, a ópera ou o balé, que dê um pulinho lá no térreo, onde fica o Salão Assyrio. Entre colunas encimadas por touros, seres alados, arqueiros, fontes e mosaicos, representações em cerâmica esmaltada de Gilgamesh dominando um leão e de Dario I apunhalando o gênio do mal lhe convidam a se deixar enredar em contos e fábulas orientais.

Já de volta à plateia, daqui a pouco vai começar o espetáculo. Nesse momento, os maquinistas estão a postos para fazer os cenários subirem e descerem na hora certa. Os contrarregras já colocaram todos os objetos em cena. O pessoal da iluminação trabalhou pesado para afinar todos os refletores, cada um pendurado na sua vara. O diretor de palco está atrás da cortina ainda fechada e é ele quem vai dizer quando o terceiro sinal pode ser dado. Logo após esse sinal, as luzes da plateia começarão a se apagar. Aprecie este momento de sublime expectativa. Há poucas emoções iguais a essa. Bom espetáculo!

Artigo publicado em 30 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Serra dos Pretos Forros

Foto Jeremias Freitas

Fiz o curso primário no Colégio São Vicente de Paulo, o colégio das irmãs de caridade que existiu na Tijuca. Era assim que se chamava o primeiro grau e o colégio ficava no alto da pequena elevação que tem na base o Santuário da Medalha Milagrosa. 

Lá, as aulas de geografia eram também um pouco aulas de arte. Os livretos da matéria vinham com mapas em branco que precisavam ser coloridos. E as freiras caprichavam nessa tarefa. Éramos instruídos a raspar as pontas dos lápis coloridos com uma faquinha. A raspagem tinha que ser bem fina, para gerar um pó colorido. Depois, com pequenos chumaços de algodão, íamos espalhando aquele pó sobre os mapas do Brasil, separando os estados por cores. Como eram muitos, e os estojos de lápis tinham opções limitadas, precisávamos ter cuidado para não deixar estados contíguos com a mesma cor. 

Ao passar o algodão, de forma bem leve sobre aquele pó colorido, criava-se um esfumaçamento, quase transparente, que era o resultado esperado. O ruim era quando havia pedacinhos da ponta do lápis que, levados pelo algodão, geravam riscos na mancha colorida. Era o sinal de que os cuidados na raspagem do lápis e na leveza ao passar o algodão não tinham sido suficientes. 

Coloríamos mapas do Brasil, da Guanabara, dos bairros e dos acidentes geográficos. A Serra da Tijuca era verde escuro, os rios, lagoas e o mar eram azuis e as áreas urbanas marrons. O resto da folha, no entorno do mapa, também podia receber uma cor. Quem sabe um vermelho ou um amarelo. Tudo bem óbvio, para ser gravado na memória, e com o tempo necessário para que aquele trabalho artístico fosse bem realizado. 

Entre os nomes das serras cariocas, um sempre me chamava a atenção, tanto que não o esqueci: a Serra dos Pretos Forros. Para uma criança o nome parecia meio esquisito. Por que dar o nome de um tecido a uma serra? A professora jamais explicou. E criança, às vezes, tem fixação em nomes e expressões. O nome soava bonito e nunca me abandonou. Volta e meia me lembrava dos pretos forros, nessa ordem gramatical então curiosa, em que o que parecia adjetivo vinha antes do substantivo. 

Só mais tarde vim a saber que a serra entre os bairros de Água Santa e Lins e Vasconcelos, dividindo as zonas Oeste (Jacarepaguá) e Norte (Grande Meier), tinha sido o caminho de escravizados fugindo em direção a quilombos que se formaram no Maciço da Tijuca, da qual a serra faz parte. E também de negros alforriados dos engenhos das redondezas que por ali foram se instalando. Daí o nome.

Como é interessante o conhecimento! Uma vez sabedor dessa história de resistência à opressão da escravidão, a ordem das palavras pretos forros nunca mais deixou de fazer sentido. É com gosto que as pronuncio. Desde o ano de 2000, a serra passou a ser uma Área de Proteção Ambiental e é também parte de um dos quatro setores do Parque Nacional da Tijuca. 

Apesar de sua história e beleza paisagística, a APA dos Pretos Forros sofre com a pressão por sua ocupação pela mancha urbana, especialmente em suas áreas mais íngremes, que vêm sendo ocupadas por moradia irregular de baixa renda. Segundo estudo de Samara Silva dos Santos e Carlos Eduardo das Neves[1], a área urbana da APA passou de 22,68% em 1993 para 28,55% em 2024. Vale indicar que nesse período houve também um avanço das áreas florestadas, que substituíram áreas de agropecuária.

Hoje aquele colégio já não existe e a Guanabara foi um sonho que durou pouco. Os mapas seguem mudando. O Brasil ganhou novos estados e países mudaram de nomes. E as crianças têm à disposição estojos de lápis de cor mais generosos. Aliás, nem sei se ainda colorem mapas com aquela técnica de raspagem dos lápis coloridos. Mas a Serra dos Pretos Forros segue firme, guardando suas histórias de fuga da violência do passado e de resistência à pobreza no presente. 

Artigo publicado em 16 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 


 



[1] SANTOS & Neves, Mudanças na dinâmica socioambiental da APA Serra dos Pretos Forros entre 1993 e 2022 – Rio de Janeiro – DOI 10.51308/continentes.v1i27.621.