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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Meio ambiente desempoderado no Rio de Janeiro

Foto Marcia Foletto

Neste último final de semana os cariocas foram surpreendidos pelo cercamento de uma área no canteiro ajardinado do final do Parque do Flamengo, já chegando na Praia de Botafogo, onde antes havia um posto de gasolina. Logo ficou claro o propósito do cercamento: a construção de uma loja de automóveis chineses com 1.460 metros quadrados e seis metros de altura. E, para que tal construção fosse possível, rapidamente começou o trabalho de arrancamento de árvores adultas existentes no local. Felizmente, o Iphan-RJ, que não foi consultado antes do licenciamento, embargou essa obra.

O morador desta cidade deve ficar perplexo como a Prefeitura pode dar tal licença, contrariando o tombamento do Parque do Flamengo, a inclusão dessa área na região declarada como Patrimônio da Humanidade e o tombamento do espelho da Enseada de Botafogo. Mas aí ele pode se lembrar que essa mesma Prefeitura autorizou a transformação do Jardim de Alah, um parque tombado, num shopping center. E que a Prefeitura do Rio permitiu o corte de 71 árvores, imunes ao corte por decreto da própria Prefeitura, no antigo Colégio Bennet. E que no Buraco do Lume foram derrubadas 58 árvores com o consentimento da Prefeitura. E que a gestão Eduardo Paes é recordista em licenças para o abate de árvores na cidade.

Toda essa devastação começou a ser planejada quando, em 2021, Eduardo Paes criou uma monstruosidade administrativa: a separação das secretarias de meio ambiente e de urbanismo de seus respectivos setores de licenciamento. A Secretária de Meio Ambiente ficou como a rainha da Inglaterra, sem qualquer poder sobre o que se licenciou na área ambiental na cidade durante a sua gestão. As atribuições da SMAC foram entregues a executivos dispostos a agradar o mercado imobiliário e retirar "entraves" à consecução de projetos danosos à cidade. Como se não bastasse, o Decreto nº 51.503/22 transfere ao interessado a responsabilidade em apontar os impactos ao meio ambiente. O sonho de ruralistas mal-intencionados e de invasores de florestas na Amazônia foi realizado no Rio de Janeiro pelo ex-prefeito. 

Não só em relação ao meio ambiente esse licenciamento expedito tem trazido problemas. Também a proteção de bens tombados ou preservados vem deixando a desejar. Construções bem mais altas do que aquelas protegidas são erguidas ao lado das mesmas, muitas vezes no mesmo terreno. O Iphan deixa de ser consultado quando deveria ser e obras absurdas são iniciadas. Os arquitetos da área de Patrimônio da Prefeitura sabem o que devem fazer. Mas, aparentemente, a definição desses parâmetros não está mais em suas mãos. 

Tempos atrás o Deputado Carlos Minc entrou com uma ação arguindo a inconstitucionalidade dessa separação de funções das respectivas secretarias, mas não obteve sucesso. Mais recentemente, o mesmo deputado acompanhou um grupo de representantes de associações de moradores e de artistas que foram ao Prefeito Eduardo Cavalieri levando uma série de demandas, entre as quais essa questão dos licenciamentos. O Prefeito ficou de marcar uma reunião no prazo de um mês para discutir especificamente este assunto. No entanto, se não houver pressão da sociedade carioca, nada mudará e o Rio continuará a ser a única capital a ter esse sistema esdrúxulo em que os responsáveis pela área ambiental não têm o poder de vetar projetos danosos ao meio ambiente.

Artigo publicado em 19 de junho de 2026 no Diário do Rio.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O que há com nossos juízes?

 

Recentemente, ainda neste mês de junho, uma decisão da titular da 14ª Vara de Fazenda Pública cassou a liminar que havia sido obtida por ação movida pelo gabinete do Deputado Federal Chico Alencar (Psol) que impedia o corte de 58 árvores no Buraco do Lume. Em seu despacho, a juíza Neusa Regina Leite alega que "o cuidado com o meio ambiente não pode restringir o atuar da Administração, principalmente a gestão de políticas públicas e o desenvolvimento econômico". Esta frase, vinda de uma pessoa responsável por aplicar a lei e arbitrar disputas judiciais, representa a falência de todos os esforços dos movimentos ambientalistas, de todas as ONGs que vêm trabalhando pela transformação da sustentabilidade em tema transversal na gestão do Estado brasileiro. Não há partidos ambientalistas, nem cientistas brasileiros membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que possam dar conta da imutabilidade de um pensamento vindo lá do século XIX, ou mesmo de bem antes, que coloca o desenvolvimento econômico em primeiro lugar frente à proteção do meio ambiente e à qualidade de vida dos cidadãos.  

Em maio de 2025, outra juíza, a Dra. Regina Lúcia Chuquer, da 11ª Vara de Fazenda Pública, revogou a liminar que suspendia as intervenções no Jardim de Alah e julgou improcedente a ação civil pública movida pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que questionava a legalidade do projeto que visa transformar aquele parque público tombado, em um shopping center. Serão 58 lojas, entre as quais uma conhecida churrascaria, que já garantiu sua futura presença no ex-parque, e um estacionamento para 228 vagas. Em sua sentença, a juíza afirmou: “Não foi encontrado qualquer indício de lesão ao patrimônio histórico-cultural ou ambiental. Ao contrário, a cidade ganhará um novo polo turístico e social”.

A magistrada não é capaz de perceber a imensa contradição entre as exigências de preservação, advindas de um ato de tombamento, e um projeto que propõe a transformação radical desse parque. A ação destruidora do consórcio responsável pelo projeto é desconsiderada. A juíza se baseia em pareceres favoráveis do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural, dois órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio cultural do Município. O fato desses pareceres serem frontalmente contrários à missão a que esses órgãos deveriam se dedicar não é considerado pela juíza.

Ainda no caso do Jardim de Alah, houve depois uma decisão unânime da 6ª Vara de Fazenda Pública, autorizando o prosseguimento das obras de descaracterização do bem tombado, mas nomeadas no processo como de revitalização do Jardim de Alah. Em seu parecer, o relator do caso, o desembargador Sérgio Seabra Varella, citou essa pretensa “revitalização” como um benefício que advirá com as obras. O desembargador se valeu de um parecer emitido pelo Iphan, que não é o órgão responsável pelo tombamento do Jardim de Alah, e que se referia à falta de interferência do projeto para o Jardim de Alah na ambiência da Lagoa Rodrigo de Freitas, essa sim um bem tombado pelo Iphan.  

Também em maio, no dia 21 do corrente, o Desembargador Carlos Alberto Menezes Direito Filho, da 5ª Vara de Direito Público deu parecer favorável à retomada das obras no antigo Colégio Metodista Bennet, que haviam suprimido 71 árvores. Ele escreveu: “A existência de licenças urbanísticas e ambientais regularmente expedidas confere presunção de legitimidade à intervenção administrativa autorizada”. Quando um juiz não se considera apto a julgar se a ação do poder executivo é correta, limitando-se a aceitá-la como tal, apenas por ela advir daquele poder, então não há propriamente um julgamento. Se ele se debruçasse sobre a questão, veria que o ato de tombamento declarou as árvores do local imunes ao corte, e criou uma área de entorno dos bens tombados. Então a derrubada das 71 árvores, além de um crime ambiental foi um desrespeito ao próprio decreto de tombamento. Mas o desembargador não viu.

A administração da Prefeitura, e o governo estadual, são entes políticos, que através do processo eleitoral mudam de tempos em tempos. Interesses do capital imobiliário, e de outros, podem se encastelar nessas instâncias de governo, como parece ser o caso da atual situação da Cidade do Rio de Janeiro e do seu Estado. Mas da justiça, mesmo sendo exercida por seres humanos, sujeitos a paixões e a falhas, não se espera um alinhamento tão imediato com as políticas dos governos do momento. Infelizmente, é o que parece acontecer.   

Artigo publicado em 05 de junho de 2026 no Diário do Rio.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pode a soberba prejudicar paes?

Os gregos antigos falavam da húbris, que era o orgulho excessivo, a soberba, que levava à derrota dos guerreiros, atingidos pela ira de Nêmesis, deusa da retribuição divina e da vingança. Eduardo Paes e, como diz o Fábio Porchart, o seu "cover" parecem se esquecer desses cuidados recomendados pela antiguidade clássica. É impressionante a quantidade de projetos que levam adiante e que contrariam o senso comum e a proteção do meio ambiente e do Patrimônio.

Nos seus primeiros mandatos, Paes implodiu a antiga Fábrica da Brahma, um marco na paisagem do Catumbi. O seu projeto Porto Maravilha propôs edificações de até cinquenta pavimentos, sem a devida proteção de galpões remanescentes da atividade portuária na área do retroporto. Como resultado tardio, a cidade vê surgir uma barreira edificada junto à rodoviária, a Curilândia, que vai suprimindo da visão dos cariocas o Morro do Pinto e a igrejinha de N. Sra. de Montserrat.

Nesses últimos mandatos do Prefeito Paes, houve um avanço sem precedentes no licenciamento para a remoção de árvores de terrenos privados. De acordo com reportagem do jornalista André Trigueiro, o número de árvores retiradas desses terrenos para novos empreendimentos saltou de 5. 216 em 2021 para 13.130 em 2025, um crescimento de 151%. A cidade, que já sofre com um enorme déficit de arborização urbana, especialmente nas Zonas Norte e Oeste, fica assim mais desprotegida contra o aumento da temperatura causada pelo aquecimento global. 

Essas retiradas aprovadas pela Prefeitura deveriam ser compensadas com o plantio de aproximadamente 175 mil mudas em vias urbanas. Ocorre que as mudas demoram a crescer, e nem todas vingam. E a Prefeitura não tem controle se esses plantios foram realmente realizados. O resultado é a perda significativa de arborização. 

Um bom exemplo de licença absurda para corte de árvores ocorreu no antigo Colégio Metodista Bennet, no Flamengo. O palacete ali existente, de 1859, foi a residência do Barão de São Clemente. Em 2014, o imóvel e a sua cavalariça foram tombados pelo Município do Rio de Janeiro. As árvores que compunham o conjunto foram consideradas imunes ao corte. No entanto, contrariando o disposto no tombamento, neste ano o Prefeito liberou o corte de 71 árvores frondosas existentes no terreno. Os moradores das imediações do palacete estão revoltados e já realizaram dois protestos na porta do empreendimento.

No Jardim de Alah, um parque tombado pelo Município, a Prefeitura licenciou um projeto que o descaracteriza e impermeabiliza o solo, com a construção de centenas de metros quadrados para lojas, um verdadeiro minishopping no parque. No Pão de Açúcar, a Prefeitura aprovou o projeto de uma tirolesa, que destruiu parte do topo daquele monumento tombado. Recentemente, a Justiça até mandou parar a obra, mas o dano à pedra do Pão de Açúcar já está feito.

A última autorização polêmica dos Eduardos é o corte de aproximadamente cinco dezenas de árvores no Buraco do Lume para a construção de um imenso prédio de apartamentos. Ele ocupará uma área já consagrada como um espaço de uso público. No momento, uma decisão da Justiça sustou o corte das árvores, mas essa suspensão pode cair. 

A sorte de Eduardo Paes é que a direita bolsonarista, atualmente a mais forte concorrente dele, não é afeita a essas questões de meio ambiente e paisagem. Querem mais é que todas essas “firulas” caiam na lata de lixo. Se esses oponentes pela direita fossem minimamente preocupados com isso, teriam um farto material de campanha para bombardear a candidatura Paes ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O ex-prefeito segue sua busca por mais poder, sem ligar para a opinião dos chatos dos ambientalistas e dos amantes do Patrimônio. Esquece-se que um dia Nêmesis pode acabar se irritando.


Aretigo publicado em 07 de maio de 2026 no Diário do Rio. 


quinta-feira, 6 de março de 2025

Rio mais que 40º

Foto Ana Branco-Agência O Globo.

Deixamos fevereiro de 2025 para trás, o mês mais seco no Rio de Janeiro da série de medições iniciada em 1997. Não só isso, foi o mês em que os cariocas vivenciaram duas ondas de calor. Estados do Sul passaram por quatro dessas ondas, somente neste ano e, considerando o país como um todo, foram cinco!

Ondas de calor cada vez mais frequentes já vinham sendo anunciadas há tempos por quem estuda o fenômeno do aquecimento global. Pois bem, elas chegaram e devem se intensificar, tanto em frequência, quanto em aumento de temperaturas. A Prefeitura do Rio vem agindo no susto, aprendendo a buscar soluções quando os eventos se apresentam. Áreas de hidratação são criadas, eventualmente aulas são suspensas, recomendação de cuidados são divulgadas, como beber mais água, não se expor ao sol, etc. São medidas na direção correta e outras virão, mas são medidas paliativas.

O Rio é uma cidade quente, celebrada na música Rio 40° por outra querida Fernanda. Sua geografia particular nos encanta, mas os meteorologistas não sabem explicar o porquê de quase sempre termos as máximas temperaturas do país. Com o aquecimento global, o que é suportável com algum sacrifício, poderá se tornar um enorme desafio.

A cidade poderia estar mais bem preparada se a Prefeitura levasse a sério as recomendações dos estudiosos. Vejamos a questão da arborização urbana. Ela é quase inexistente em bairros da Zona Norte e Oeste. Na Zona Sul, onde existe, poderia ser muitíssimo melhorada. Com ondas de calor, precisamos de sombra, principalmente das árvores, já que áreas arborizadas têm queda de alguns graus na temperatura. 

A Prefeitura precisaria fazer uma busca mais forte por espaços para plantar, e precisaria abrir esses espaços naquelas calçadas que estão totalmente cimentadas. Atualmente, na Fundação Parques e Jardins há apenas uma máquina de cortar concreto nas calçadas. Durante a semana da primeira onda de calor do ano, debaixo do sol escaldante, os funcionários da Fundação Parques e Jardins estavam tentando abrir golas nas calçadas da rua Olegário Maciel, na Barra. Com uma única máquina, numa metrópole, o que podem conseguir? Muito pouco. E pior, os novos edifícios não têm obrigação de plantar árvores diante de suas calçadas ou de reservar espaços para isso. Tem sido comum a entrega de novos empreendimentos sem uma única muda de árvore plantada diante de suas fachadas, um absurdo. 

Com relação aos espaços não edificáveis, o Rio tem uma experiência exitosa, o Mutirão Reflorestamento. Ele é um projeto maravilhoso, que existe desde 1986. Mas, o projeto anda a passos lentos, como se não estivéssemos numa emergência em que a arborização das encostas da cidade seria fundamental para a redução das ilhas de calor. O Mutirão Reflorestamento, concebido para uma outra época, precisaria ser tornado um dos principais projetos da Prefeitura, com verbas e objetivos ambiciosos para a situação emergencial em que já estamos.

Além do reflorestamento de encostas, a Prefeitura precisaria cuidar de seus parques e praças. Somente alguns, que servem de vitrine eleitoral, são razoavelmente cuidados. Há décadas a Fundação Parques e Jardins se encontra sucateada, e os espaços verdes da cidade não são bem cuidados. Quando não chove, como neste mês de fevereiro que passou, a grama e os arbustos ressecam até ficarem irreconhecíveis. A Prefeitura do Rio de Janeiro nunca rega seus jardins. Ela os trata como mato. Flores então, nem pensar. Elas não existem no universo estético dos prefeitos cariocas. No entanto, gramados e canteiros bem cuidados contribuem para amenizar o calor.

Também a arquitetura produzida na cidade poderia auxiliar na melhoria da temperatura. Atualmente, são produzidos muitos edifícios de vidros espelhados que refletem o calor. Houve uma perda da sabedoria de como usar cores, materiais, espessuras das paredes, altura dos cômodos e ventilação cruzada em nossas edificações. Elas se tornaram dependentes de ar-condicionado nos seus espaços interiores, expelindo calor para o espaço exterior.

As cidades hispânicas, em seus centros históricos, costumam ter calçadas cobertas por galerias, uma solução antiga, mas interessante para lugares quentes. A cidade ecológica de Masdar, nos Emirados Árabes Unidos, tem gigantescos guarda-sóis mecânicos na sua praça principal. Durante o dia eles ficam abertos, provendo sombra, e se fecham à noite, revelando as estrelas. Fornecer sombra para os pedestres será vital na nova realidade que enfrentamos. Será preciso aliar tecnologia e criatividade.

A Prefeitura precisa também deixar de lado o seu preconceito com o uso de chafarizes por crianças e moradores de rua. Chafarizes aspergem água no ar e ajudam na redução da sensação de calor. O Rio precisa de fontes e chafarizes funcionando em todos os locais públicos. Se no calor as crianças entram nos chafarizes, é porque não lhes são dadas opções de diversão em dias quentes. A Prefeitura deveria construir piscinas públicas nos bairros distantes da orla. É assim nas grandes cidades do mundo. 

Com relação ao tema da hidratação nos períodos quentes, é necessária a atenção ao aumento do consumo de água em garrafas plásticas e ao seu descarte. A própria Prefeitura vem fornecendo água nessas garrafas e em copos de plástico nos seus pontos de hidratação. Não é uma boa solução. Em diversas cidades do mundo já existem pontos com torneiras de água filtrada, e refrescada, para enchimento de vasilhames reutilizáveis da população. São a versão contemporânea dos chafarizes e seria um serviço de primeira necessidade para a população carioca nos novos tempos. 

O aquecimento global e suas consequências é uma realidade desafiadora e as cidades precisarão pensar em medidas criativas para a sobrevivência dos cidadãos nesses tempos do novo normal. E em medidas de prevenção para momentos de eventos extremos. Há muito a fazer para além das medidas paliativas atuais. Se ouvisse os estudiosos e confiasse na população, a Prefeitura faria melhor. 

Artigo publicado em 06 de março de 2025 no Diário do Rio. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Excessos no projeto para o Jardim de Alah

Imagem do projeto do Consórcio Rio+Veerde

Em 1930, foi publicado o plano urbanístico de Alfred Agache para a Cidade do Rio de Janeiro. Entre suas propostas, que incluíam um metrô, Agache projetou um belo jardim para a área do Calabouço. Ele teria um espelho d'água em forma de canal, ladeado por canteiros ajardinados, caramanchões com trepadeiras floridas e aleias de palmeiras. O plano não foi implementado em sua integralidade, mas o jardim para o Calabouço influenciou o projeto do Jardim de Alah, implantado às margens do canal que liga a Lagoa Rodrigo de Freitas ao mar, entre Ipanema e Leblon.

Com uma estética Art-Déco, o Jardim de Alah recebeu esse sugestivo nome em razão de um filme americano que teria feito sucesso na época de sua inauguração, em 1938. Consta que gôndolas permitiam que os visitantes passeassem pelo canal. A plasticidade do Jardim de Alah levou ao seu tombamento pela Prefeitura no ano de 2001. No entanto, o parque foi cercado pela verticalização dos bairros vizinhos, e a paz dos visitantes foi atingida pela insegurança na cidade. Bem pior do que isso, foi o descaso das autoridades municipais com a sua conservação, estendida aos demais espaços públicos da cidade. Até mesmo um canteiro de obras do metrô chegou a ser instalado no jardim. Após a saída do canteiro, restou um espaço arrasado, onde havia as marcas dos sanitários construídos para os trabalhadores.

Não se sabe se a Prefeitura do Rio acionou a empresa do metrô, mas sabe-se que ela não retomou a conservação do parque. Ela optou por fazer uma licitação para a concessão do espaço por trinta e cinco anos. Venceu o consórcio Rio+Verde, que propôs um projeto que vem sendo alvo de muitas contestações. Sem entrar no mérito da concessão, dispensável caso a Prefeitura assumisse os cuidados com o parque, vale a pena discutir os elementos do projeto que têm provocado tanta recusa por parte de moradores e visitantes do Jardim de Alah. 

A concessão do Parque da Catacumba pode ser tomada como comparação. Numa intervenção minimalista, lá foi feita a sinalização de uma trilha, e foram instaladas estruturas de arvorismo, escalada e uma tirolesa. Já a proposta do consórcio vencedor para o Jardim de Alah altera de maneira muito radical a sua fisionomia, contrariando o tombamento municipal.

Na lateral próxima a Ipanema, o projeto propõe a construção de uma laje acima do solo, a poucos metros do espelho d’água, cobrindo a extensão de aproximadamente quatro quadras, entre a rua Barão da Torre e a avenida Epitácio Pessoa. Sob essa laje haveria lojas, restaurantes, um mercado e estacionamento. Visando amenizar essa intervenção, a parte superior dessa laje seria coberta por vegetação e alguma arborização. Mas nenhuma vegetação sobre a laje mudaria o fato de que ela seria um elemento de forte impermeabilização do solo do parque. Além disso, para a construção dessa imensa laje, haveria a necessidade de remoção ou realocação de árvores, o que foi contabilizado em 130 indivíduos de tamanhos variados.

A concessão do parque erra ao mirar ganhos excessivos e, para tanto, necessitar da construção de área em excesso sobre o parque. O seu caráter bucólico seria substituído por um ambiente de shopping à beira d’água. E a perda de permeabilidade do solo, quando se conhece as consequências que acarreta, seria um absurdo. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente poderia ter sido mais cuidadosa na apreciação do projeto proposto, mas ela não é mais responsável pelo licenciamento ambiental. O prefeito, que poderia ouvir o clamor público contra o atual projeto para o Jardim de Alah, não dá sinais de retirar seu apoio ao que está sendo proposto. Resta aos interessados, que não são poucos, a esperança de que a justiça leve o Rio+Verde a rever o seu problemático projeto.  

Artigo publicado no Fórum 21 em 17 de fevereiro de 2025 e no A terra é redonda em 18 de fevereiro de 2025.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Superexploração do Jardim de Alah

A Prefeitura do Rio de Janeiro é useira e vezeira da tática de deixar um próprio municipal, ou uma área pública, se deteriorar para depois vir com uma solução que envolva gastos maiores do que a simples conservação. Verbas para conservação não são tão grandes. Já uma obra de recuperação pode envolver licitação, a contratação de empresas e até, eventualmente, uma propinazinha de leve. O Jardim de Alah foi mais uma vítima dessa prática das administrações municipais cariocas.

Ele é um parque com 93 mil m2, inaugurado em 1938, na gestão do Prefeito Henrique Dodsworth, com projeto do arquiteto Azevedo Neto. Está situado nas duas margens do canal construído em 1920, que substituiu a ligação natural entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o mar. O seu nome remete a um filme de Hollywood lançado em 1936, refletindo as sensações idílicas suscitadas pelo projeto.

Mas, seguidos prefeitos, incluindo o atual, deixaram o Jardim de Alah se deteriorar, e até permitiram que o parque fosse usado como canteiro da obra do metrô. Quando as obras terminaram, a Prefeitura aceitou o Jardim de Alah de volta, com o seu trecho próximo à Lagoa totalmente destruído. Os usuários e moradores das redondezas se perguntaram como isso foi possível. A resposta parece estar no que veio a seguir. 

Com o Jardim de Alah, a tática de deixar deteriorar para depois fazer obra foi um pouco alterada. Ao invés de fazer uma licitação para escolher uma empresa que fizesse as obras sob a direção da prefeitura, decidiu-se pela concessão do parque inteiro à iniciativa privada, com um projeto bastante polêmico. O parque foi concedido por 35 anos ao consórcio Rio+Verde, do qual Alexandre Accioly é o principal investidor. 

É possível fazer a concessão de um parque público? Não é o ideal, já que teoricamente o poder público deveria utilizar os recursos disponíveis para fazer a manutenção desses espaços. Mas, concessões têm sido feitas. A do Parque da Catacumba, por exemplo, gerou intervenções minimalistas. Ali foram feitas a sinalização de uma trilha, estruturas de arvorismo e escalada, e uma tirolesa. Já a concessão do Jardim de Alah se deu com um projeto que altera de maneira muito radical a sua fisionomia, apesar do parque ser tombado pelo próprio Município do Rio de Janeiro. 

O projeto propõe a construção de edificações para receber lojas, restaurantes e estacionamento, supressão e realocação de árvores e exploração de serviços. No trecho do parque na lateral próxima a Ipanema, e junto à Lagoa, o projeto propõe a construção de uma laje acima do solo, a menos de 10 metros do espelho d’água. Essa laje cobriria a extensão de aproximadamente quatro quadras, entre a rua Barão da Torre e a avenida Epitácio Pessoa. Sua parte superior seria coberta por vegetação e alguma arborização. Sob essa laje haveria lojas, restaurantes, um mercado e estacionamento. Para a construção dessa imensa laje, haveria, como consequência, a necessidade de remoção ou realocação de árvores, o que foi contabilizado em 130 indivíduos de tamanhos variados.

Evidentemente, que uma laje coberta por vegetação, construída sobre uma edificação, pode ser um ganho ambiental. Mas, uma laje sobre um parque, cobrindo uma área já permeável, mesmo com os promotores do projeto falando o contrário, não tem como ser considerada um ganho para o meio ambiente. Ainda mais quando sua construção exige o corte de árvores e a impermeabilização de milhares de metros quadrados. Está aí, talvez, o grande equívoco do projeto. A concessão do parque mira ganhos excessivos e, para tanto, necessita da construção de área em excesso sobre o parque. O seu caráter bucólico, idílico, seria substituído pela característica de um shopping à beira d’água. E a perda de permeabilidade do solo, quando se sabe das consequências de tal ação, é um absurdo.  

O projeto propõe também uma creche para as crianças da Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional localizado em frente ao canal, construído por iniciativa de Dom Hélder Câmara, e que recebeu desalojados da antiga Favela do Pinto. Ótimo, o projeto do Parque do Flamengo previu estruturas voltadas para as crianças, que acabaram tendo seu uso desvirtuado. Um bom projeto de arquitetura daria conta da creche em harmonia com o jardim. 

O projeto da Rio+Verde visualiza os frequentadores consumindo alimentos e bebidas nas instalações que seriam construídas. Não haveria problemas se uma estrutura leve, também em harmonia com o jardim, resolvesse isso. Mas não, o consórcio quer a frequência, e o consumo, de centenas ou milhares de pessoas. Aí está a questão, o projeto do consórcio supera em muito a capacidade de suporte do Jardim de Alah. É um projeto equivocado para o local a que se destina. 

Então chegamos a isso, um impasse que o Prefeito se recusa a reconhecer. O Jardim de Alah poderia ter sido bem conservado pela Prefeitura, mas não foi. A Prefeitura poderia ter feito a recuperação do Jardim de Alah, mas não o fez. A concessão do Jardim de Alah poderia ter sido feita com propostas de intervenções mais delicadas e menos invasivas, mas não foi. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente poderia ter sido mais cuidadosa na apreciação do projeto proposto, mas esse poder lhe foi retirado. O prefeito poderia ouvir o clamor público contra o atual projeto para o Jardim de Alah, mas não o faz. Aparentemente, a única esperança seria a justiça obrigar a Rio+Verde a rever o seu mau projeto. 

Artigo publicado em 13 de fevereiro de 2024 no Diário do Rio.