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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pode a soberba prejudicar paes?

Os gregos antigos falavam da húbris, que era o orgulho excessivo, a soberba, que levava à derrota dos guerreiros, atingidos pela ira de Nêmesis, deusa da retribuição divina e da vingança. Eduardo Paes e, como diz o Fábio Porchart, o seu "cover" parecem se esquecer desses cuidados recomendados pela antiguidade clássica. É impressionante a quantidade de projetos que levam adiante e que contrariam o senso comum e a proteção do meio ambiente e do Patrimônio.

Nos seus primeiros mandatos, Paes implodiu a antiga Fábrica da Brahma, um marco na paisagem do Catumbi. O seu projeto Porto Maravilha propôs edificações de até cinquenta pavimentos, sem a devida proteção de galpões remanescentes da atividade portuária na área do retroporto. Como resultado tardio, a cidade vê surgir uma barreira edificada junto à rodoviária, a Curilândia, que vai suprimindo da visão dos cariocas o Morro do Pinto e a igrejinha de N. Sra. de Montserrat.

Nesses últimos mandatos do Prefeito Paes, houve um avanço sem precedentes no licenciamento para a remoção de árvores de terrenos privados. De acordo com reportagem do jornalista André Trigueiro, o número de árvores retiradas desses terrenos para novos empreendimentos saltou de 5. 216 em 2021 para 13.130 em 2025, um crescimento de 151%. A cidade, que já sofre com um enorme déficit de arborização urbana, especialmente nas Zonas Norte e Oeste, fica assim mais desprotegida contra o aumento da temperatura causada pelo aquecimento global. 

Essas retiradas aprovadas pela Prefeitura deveriam ser compensadas com o plantio de aproximadamente 175 mil mudas em vias urbanas. Ocorre que as mudas demoram a crescer, e nem todas vingam. E a Prefeitura não tem controle se esses plantios foram realmente realizados. O resultado é a perda significativa de arborização. 

Um bom exemplo de licença absurda para corte de árvores ocorreu no antigo Colégio Metodista Bennet, no Flamengo. O palacete ali existente, de 1859, foi a residência do Barão de São Clemente. Em 2014, o imóvel e a sua cavalariça foram tombados pelo Município do Rio de Janeiro. As árvores que compunham o conjunto foram consideradas imunes ao corte. No entanto, contrariando o disposto no tombamento, neste ano o Prefeito liberou o corte de 71 árvores frondosas existentes no terreno. Os moradores das imediações do palacete estão revoltados e já realizaram dois protestos na porta do empreendimento.

No Jardim de Alah, um parque tombado pelo Município, a Prefeitura licenciou um projeto que o descaracteriza e impermeabiliza o solo, com a construção de centenas de metros quadrados para lojas, um verdadeiro minishopping no parque. No Pão de Açúcar, a Prefeitura aprovou o projeto de uma tirolesa, que destruiu parte do topo daquele monumento tombado. Recentemente, a Justiça até mandou parar a obra, mas o dano à pedra do Pão de Açúcar já está feito.

A última autorização polêmica dos Eduardos é o corte de aproximadamente cinco dezenas de árvores no Buraco do Lume para a construção de um imenso prédio de apartamentos. Ele ocupará uma área já consagrada como um espaço de uso público. No momento, uma decisão da Justiça sustou o corte das árvores, mas essa suspensão pode cair. 

A sorte de Eduardo Paes é que a direita bolsonarista, atualmente a mais forte concorrente dele, não é afeita a essas questões de meio ambiente e paisagem. Querem mais é que todas essas “firulas” caiam na lata de lixo. Se esses oponentes pela direita fossem minimamente preocupados com isso, teriam um farto material de campanha para bombardear a candidatura Paes ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O ex-prefeito segue sua busca por mais poder, sem ligar para a opinião dos chatos dos ambientalistas e dos amantes do Patrimônio. Esquece-se que um dia Nêmesis pode acabar se irritando.


Aretigo publicado em 07 de maio de 2026 no Diário do Rio. 


sexta-feira, 13 de março de 2026

O "maravilhamento" chega ao Catumbi

O Viaduto 31 de Março (que nome infeliz!), que conecta o Túnel Santa Bárbara à Área Portuária, é parte da Linha Lilás, uma das linhas cromáticas planejadas para o Rio de Janeiro, na década de 1960, pelo urbanista Doxiadis. A obra, muito ligada ao rodoviarismo, a política de priorizar o automóvel, atormentou a vida dos moradores do Catumbi por mais de três décadas. A construção do viaduto também seccionou o bairro, gerando um enorme problema urbano para aquela região. 

Para viabilizar a sua construção, um grande número de casas e sobrados foram demolidos, desestruturando o tecido urbano do bairro, retirando famílias dali e criando vastas áreas inóspitas e inseguras. O livro "Quando a Rua Vira Casa", de 1981, resultado da pesquisa realizada por Arno Vogel, Marco Antônio da Silva Mello e outros, retrata a vida dos moradores do Catumbi e como ela foi afetada pelas demolições para a construção do viaduto. "Residências, casas comerciais, fábricas, oficinas, bares e botequins, cinemas, clubes e templos, foram riscados do mapa, juntamente com as ruas, calçadas e esquinas, por onde corria o fluxo buliçoso da diversidade." 

Em 1984, no primeiro governo Brizola, a construção do Sambódromo repetiu o mesmo equívoco, com a demolição das casas populares que ladeavam a rua onde ele seria erguido, provocando mais retirada de vida urbana e aprofundamento do seccionamento do bairro. Da antiga rua só sobrou o nome do lugar onde ocorrem os desfiles das escolas de samba. 

Como se toda essa destruição não fosse suficiente, em 2011, visando adaptar o Sambódromo a algumas provas das Olimpíadas, Eduardo Paes forçou o destombamento deste equipamento, e do seu entorno, para que a antiga Cervejaria Brahma, um marco histórico da área, fosse demolida. O prefeito ainda se deu o infame prazer de acionar a implosão da cervejaria, que bem poderia ter sido reciclada como um equipamento cultural para o bairro.

Depois de tantos traumas, o Catumbi agora é novamente objeto de um projeto de renovação urbana, que pretende demolir o elevado 31 de Março e construir edifícios e novos espaços públicos em seu lugar. O projeto vem com a marca "maravilha", anteriormente atribuída à renovação da Área Portuária. Assim como naquele local, estão previstas arrecadações com a venda do potencial construtivo dos futuros edifícios e a semelhante demolição de uma obra rodoviária. 

O curioso é que a marca é usada como se o projeto Porto Maravilha fosse um grande sucesso. Muito ao contrário, a maior parte daquela região permanece desocupada e a maioria dos certificados de potencial construtivo, emitidos na operação Porto Maravilha, encalharam. Continuam em mãos da Caixa Econômica, que amarga um baita prejuízo com esse investimento. Além disso, os antigos moradores da região, em geral pobres, foram expulsos.

Como o nome Catumbi é pouco glamouroso, ele desaparece no projeto atualmente em discussão pela Prefeitura, que ganha o nome da praça que existiu nas proximidades do Catumbi, a Praça Onze. Esta é outra que também foi engolida por reformas urbanas modernizadoras. O "desaparecimento" do Catumbi deverá se acentuar com a planejada chegada de centenas de novos moradores, ou de hóspedes de apartamentos para locação de alta rotatividade, em prédios voltados para um público bastante distinto daqueles moradores que ainda hoje resistem no local, em sua maioria de baixa renda. 

A demolição do elevado 31 de Março é apresentada como medida de reconexão entre as partes do bairro, até aqui separadas. Mas, é importante lembrar que outro elemento ainda mais duro do que o elevado, o Sambódromo, continuará ali, cortando o tecido urbano do Catumbi. E, como o projeto aparentemente não cria uma alternativa de ligação viária com a Área Portuária, atualmente feita pelo elevado, este último poderá ficar mais isolado.

O Praça Onze Maravilha é mais um desses projetos que surgem sem um concurso de ideias e projetos, o que anteriormente já foi bastante combatido por órgãos de classe dos arquitetos, como o IAB. Ele exigirá mais anos de sacrifício dos moradores, que novamente conviverão com obras de longuíssima duração. Ao final, é até possível que seja criada uma nova centralidade. Mas, ela jamais trará de volta a vida simples e prazerosa que havia no Catumbi antes do seu atravessamento pelo "progresso" a qualquer custo.

Artigo publicado em 12 de março de 2026 no Diário do Rio.