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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Serra dos Pretos Forros

Foto Jeremias Freitas

Fiz o curso primário no Colégio São Vicente de Paulo, o colégio das irmãs de caridade que existiu na Tijuca. Era assim que se chamava o primeiro grau e o colégio ficava no alto da pequena elevação que tem na base o Santuário da Medalha Milagrosa. 

Lá, as aulas de geografia eram também um pouco aulas de arte. Os livretos da matéria vinham com mapas em branco que precisavam ser coloridos. E as freiras caprichavam nessa tarefa. Éramos instruídos a raspar as pontas dos lápis coloridos com uma faquinha. A raspagem tinha que ser bem fina, para gerar um pó colorido. Depois, com pequenos chumaços de algodão, íamos espalhando aquele pó sobre os mapas do Brasil, separando os estados por cores. Como eram muitos, e os estojos de lápis tinham opções limitadas, precisávamos ter cuidado para não deixar estados contíguos com a mesma cor. 

Ao passar o algodão, de forma bem leve sobre aquele pó colorido, criava-se um esfumaçamento, quase transparente, que era o resultado esperado. O ruim era quando havia pedacinhos da ponta do lápis que, levados pelo algodão, geravam riscos na mancha colorida. Era o sinal de que os cuidados na raspagem do lápis e na leveza ao passar o algodão não tinham sido suficientes. 

Coloríamos mapas do Brasil, da Guanabara, dos bairros e dos acidentes geográficos. A Serra da Tijuca era verde escuro, os rios, lagoas e o mar eram azuis e as áreas urbanas marrons. O resto da folha, no entorno do mapa, também podia receber uma cor. Quem sabe um vermelho ou um amarelo. Tudo bem óbvio, para ser gravado na memória, e com o tempo necessário para que aquele trabalho artístico fosse bem realizado. 

Entre os nomes das serras cariocas, um sempre me chamava a atenção, tanto que não o esqueci: a Serra dos Pretos Forros. Para uma criança o nome parecia meio esquisito. Por que dar o nome de um tecido a uma serra? A professora jamais explicou. E criança, às vezes, tem fixação em nomes e expressões. O nome soava bonito e nunca me abandonou. Volta e meia me lembrava dos pretos forros, nessa ordem gramatical então curiosa, em que o que parecia adjetivo vinha antes do substantivo. 

Só mais tarde vim a saber que a serra entre os bairros de Água Santa e Lins e Vasconcelos, dividindo as zonas Oeste (Jacarepaguá) e Norte (Grande Meier), tinha sido o caminho de escravizados fugindo em direção a quilombos que se formaram no Maciço da Tijuca, da qual a serra faz parte. E também de negros alforriados dos engenhos das redondezas que por ali foram se instalando. Daí o nome.

Como é interessante o conhecimento! Uma vez sabedor dessa história de resistência à opressão da escravidão, a ordem das palavras pretos forros nunca mais deixou de fazer sentido. É com gosto que as pronuncio. Desde o ano de 2000, a serra passou a ser uma Área de Proteção Ambiental e é também parte de um dos quatro setores do Parque Nacional da Tijuca. 

Apesar de sua história e beleza paisagística, a APA dos Pretos Forros sofre com a pressão por sua ocupação pela mancha urbana, especialmente em suas áreas mais íngremes, que vêm sendo ocupadas por moradia irregular de baixa renda. Segundo estudo de Samara Silva dos Santos e Carlos Eduardo das Neves[1], a área urbana da APA passou de 22,68% em 1993 para 28,55% em 2024. Vale indicar que nesse período houve também um avanço das áreas florestadas, que substituíram áreas de agropecuária.

Hoje aquele colégio já não existe e a Guanabara foi um sonho que durou pouco. Os mapas seguem mudando. O Brasil ganhou novos estados e países mudaram de nomes. E as crianças têm à disposição estojos de lápis de cor mais generosos. Aliás, nem sei se ainda colorem mapas com aquela técnica de raspagem dos lápis coloridos. Mas a Serra dos Pretos Forros segue firme, guardando suas histórias de fuga da violência do passado e de resistência à pobreza no presente. 

Artigo publicado em 16 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 


 



[1] SANTOS & Neves, Mudanças na dinâmica socioambiental da APA Serra dos Pretos Forros entre 1993 e 2022 – Rio de Janeiro – DOI 10.51308/continentes.v1i27.621.

 

domingo, 28 de setembro de 2025

Rio de memórias

Hospital da Gamboa - Rio de janeiro

Uma cidade é onde se mora e se trabalha, onde se diverte e se ama. É onde se trava a luta pela subsistência, pelo sustento ou pelo sucesso. É o lugar onde moram pessoas queridas, que até podem ser família. É a coleção dos lugares preferidos e também, muito atual, dos lugares temidos. Pode ser a sua nova morada ou pode ser aquele lugar para onde sempre se volta após as viagens. Para quem nela vive há muito tempo, uma cidade pode ser também uma coleção de pontos de memória.

Mesmo tendo vivido em outras cidades, o Rio é o cenário da maior parte da minha vida. Alguns desses lugares deixaram de existir, deixando a memória de um acontecimento vagando como alma penada, sem ter onde pousar. Outros se transformaram tanto, que se tornaram irreconhecíveis. Mas há muitos que ainda estão aí na minha querida cidade. 

Na infância, me lembro de ter ido para o Hospital da Gamboa, enganado que a retirada das amígdalas seria indolor e recompensada com um sorvete. O hospital, que ainda existe, fica numa pequena elevação e lá cheguei numa manhã fria trazendo de casa um lençol. Estranha recomendação. Logo descobri que ele seria usado para me enrolar, prendendo meus braços para que não interferisse na carnificina que estava para se desenrolar. Sentado com os braços presos, restavam os pés, ainda capazes de chutar as canelas do médico, em protesto por aquela invasão da minha garganta. O sorvete não compensou a angústia daquele terrível momento. 

Me lembro do bonde que subia para o Alto da Boa Vista. Numa tarde de domingo, a cidade dos edifícios ficava para trás e uma floresta ia se tornando mais densa à medida em que se avançava estrada acima. Esse bonde, e todos os outros que usei na infância, já não existe. Restou o de Santa Teresa que só conheci já adulto.

Me lembro de uma floresta em pleno coração da Tijuca, lugar dos passeios dos alunos do Instituto São Vicente de Paulo. Lá no alto, no meio das árvores, havia a maior imagem de Nossa Senhora que podia existir. A floresta deu lugar a um hospital e a imagem foi parar na torre da basílica dedicada à santa, erguendo-se numa laje seca sobre o bairro, abaixo de seu filho lá na montanha mais alta.

Me lembro do colégio de freiras da rua Pereira da Silva, onde fui deixado durante um feriado. Do lado de dentro das grades, vi passar todo tipo de gente fantasiada, provocando e fazendo graça. E aprendi que aquilo era o Carnaval. O colégio é hoje um condomínio residencial, mas as grades ainda estão por lá. 

Me lembro do cheiro de maresia de Copacabana, algo que era presente a cada ida ao bairro. Me lembro das filas nos supermercados para comprar os produtos que estavam em falta. Somente alguns quilos de açúcar ou de feijão por pessoa. As crianças eram colocadas na fila para aumentar a quantidade de unidades que cada família levaria para casa. Me lembro também dos cortes de energia. Aqueles racionamentos ficaram no passado e a maresia foi empurrada junto com o mar para mais longe.

Me lembro da orla bucólica entre a Freguesia e o Cocotá, na Ilha do Governador, caminho que percorria quando era assolado pela vontade juvenil de me isolar. Me lembro do longo trajeto de ônibus entre a Ilha e o Colégio Pedro II de São Cristóvão, passando por muitos bairros da Zona Norte, num trajeto irracional, mas certamente mais lucrativo para a empresa. Me lembro das horas roubadas ao colégio e passadas com colegas na Quinta da Boa Vista. Tudo isso, de certa forma, ainda está por aí.

A cidade se transformou muito. Muito mais moradores, muito mais carros e edifícios, e muito menos cuidado com a paisagem e o passado. Todos perdem um pouco das suas lembranças. O trabalho de quem lida com o Patrimônio tem sido a difícil tentativa de preservar elementos da memória coletiva dos habitantes das cidades. Uma tarefa tão pouco compreendida por empresários e governantes.

Artigo publicado em 26 de setembro de 2025 no Diário do Rio.