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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

João, Pedro

 

João ama o Brasil. Pedro também ama. João é desconfiado, mas acredita que o governo está querendo acertar. Pedro já vivenciou muitas mudanças de governo, acha que entende de política, e tem horror ao governo. Para João, se juntar os prós e os contras, o país melhorou. Mas Pedro tem certeza de que, não só o país, como o mundo todo, piorou. As ideias atuais não lhe servem. Parece haver uma conspiração contra aquilo tudo que ele sempre prezou. 

João tira conclusões pela sua família, todos melhoraram um pouco. Tem até a filha de um parente que entrou na faculdade, vai ser doutora. O único porém é que dizem que lá na tal faculdade ela se juntou com más companhias, uma gente meio estranha. Pedro recebeu um vídeo mostrando que, nessas faculdades, só se ensina o que não se deve ensinar. Os professores, que não sabem nada, terminam botando ideias tortas na cabeça da juventude. Tá bem complicado. 

Pedro anda inseguro com o seu trabalho. As vendas estão fracas e o patrão dá indiretas de que a loja pode fechar. Se fechar, vai ser difícil arranjar um outro trabalho. A idade pesa. É por essas e outras que ele tem certeza de que o governo é mesmo muito ruim. João tá no corre. É mais de um bico, além do trampo na portaria do edifício. Mas ele tem fé que vai dar certo, que lá na frente seus esforços serão recompensados.

João tá de namorada nova. O tempo que morou junto com sua ex-mulher e a angústia da separação ficaram para trás. Agora é amor novo, vida nova. Só não sabe se deve propor de morarem juntos logo. Já não deu certo uma vez, melhor deixar as coisas seguirem seu rumo num tempo certo. Mas que tá bom, tá. Pedro largou a mulher e por um bom tempo não quer saber de ninguém. Também tá difícil de aparecer uma mulher como ele quer, compreensiva e carinhosa. E que não dê muitos palpites na sua vida. Antes só, do que mal acompanhado. 

João acha que não entende de política. Mas sabe o que é melhor para ele. Na hora de votar escolhe quem ele acha que é honesto e sincero. Nem precisa saber discursar muito bonito não. Pedro tem raiva desses políticos que dizem que vão ajudar o povo, mas que só querem mesmo é se ajudar. A escolha dos políticos devia ser por meio dos seus currículos. Nada dessa conversa de gente que mal sabe ler querer ser deputado. Deveria ser como um concurso público, com provas e tudo.

João tá pensando em fazer uma viagem nas férias. Pedro tá sem tempo pra isso. João tá pensando em fazer um empréstimo, mesmo que não saiba como irá pagar. Pedro tem assistido a uns vídeos que recebe pela Internet. Eles demonstram que ele tem razão. João ganhou um livro de um morador, mas tá com preguiça de ler. Pedro tem uma bandeira do Brasil na janela. João guarda a sua bandeira do Brasil para os jogos da Copa. Pedro ama o Brasil. João também.

Artigo publicado em 09 de outubro no Diário do Rio.

terça-feira, 25 de março de 2025

Ainda estamos aqui

Caminhada do enterro de D. Lida, vítima de bomba na OAB

A volta às histórias de vida de Eunice e Rubens Paiva, que o filme "Ainda estou aqui" tornou possível, suscitou uma onda de empatia com aquela família, assim como com milhares de outras famílias, que passaram por terríveis sofrimentos durante a ditadura militar. O filme possibilitou também que brasileiros desmemoriados ou mal-informados tomassem conhecimento desses fatos, e de como eles afetaram a vida de pessoas comuns.

A memória coletiva sobre erros do passado, visando a sua não repetição, é algo importante de ser cultivado. A Alemanha tenta não esquecer dos crimes do nazismo, sempre informando à juventude sobre o ocorrido. Mesmo assim, lá o perigo agora renasce, com a adesão de boa parte da população a partidos neonazistas, e com dirigentes governamentais apoiando o genocídio em Gaza. 

Os japoneses não deixam os horrores dos bombardeios atômicos caírem no esquecimento. Senhores e senhoras de idade, vítimas naquele terrível momento, seguem recontando, nos sensibilizando, e militando pela paz. O holocausto atômico marcou profundamente a sociedade japonesa. 

Entre nós, o importante trabalho de manter a memória dos tempos da ditadura militar tem sido pouco efetivo. Os horrores daquele período vão sendo esquecidos ou relativizados. Milhões de eleitores acharam possível votar em alguém que defendia a ditadura, assim como os torturadores. No final, como esperado, houve a tentativa de um golpe de estado. Isso deveria fazer soar o sinal de alarme entre as pessoas de bem. Talvez os levantamentos das Comissões da Verdade não tenham atingido a sensibilidade da maioria dos brasileiros, gerando uma vacina contra o totalitarismo. 

Algo que o filme de Walter Salles ensina é que é preciso chegar até à fonte das emoções das pessoas, aquilo que é compartilhado por todos os seres humanos. É preciso mostrar que a ditadura não perseguia apenas os que ativamente militavam contra ela. Ela era um mal na vida cotidiana de cada um.

É preciso contar aos jovens sobre o temor que havia entre as famílias de falar sobre política dentro de casa, e da fala baixa entre as pessoas, uma das precauções tomadas ao criticar o governo. É preciso lembrar da presença de um policial infiltrado nas salas de aulas das universidades, a todos vigiando. É preciso lembrar da falta de cerimônia dos policiais ao pararem qualquer jovem na rua, pois ele podia ser mais um oponente do regime. É preciso contar do medo nas assembleias estudantis, sempre vigiadas por alguém que poderia denunciar uma nova liderança. É preciso lembrar do gás lacrimogêneo, das correrias e dos helicópteros voando sobre as manifestações por democracia.

É preciso lembrar da humilhação que era levar para a censura o roteiro de uma peça, ou mesmo de um espetáculo de dança, para que uma funcionária obtusa considerasse se estava liberada ou não. É preciso recontar a saudade que famílias e amigos sentiam dos exilados. É preciso lembrar o que era viver sob o medo de ser mais um preso ou desaparecido. 

Os, agora cada vez menos, sobreviventes daqueles anos de chumbo precisam contar e recontar, e tentar tocar a sensibilidade das novas gerações, para que o horror nunca mais volte. 

Artigo publicado em 20 de março de 2025 no Diário do Rio