Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Ícone cariocas/ícones brasileiros

 

O Brasil parece estar na moda. O Carnaval esteve cheio de estrangeiros. Nunca tantos gringos ganharam tantos seguidores nas redes sociais falando sobre suas experiências no Brasil. É verdade que, lá no século XVI, os relatos de Hans Staden sobre os exotismos de nossa terra fizeram sucesso na Europa. Mas agora há uma profusão desses relatos, que atraem novos viajantes que, por sua vez, também divulgarão as suas impressões. Vale tudo. Vale falar de comida, dos costumes que acham curiosos, do namoro apimentado, e até da experiência de ser assaltado. O jeito de ser do brasileiro foi até capaz de atrair para nós um campeão olímpico de ski na neve!    

 

O mundo e nós mesmos brasileiros, em geral gostamos de pensar e ver o Brasil como uma terra de natureza bela, de praias formosas, que lançam modas, com uma forte herança cultural, um povo simpático e trabalhador, que dança samba, ama o futebol, e festeja o carnaval. Terra essa que, além de tudo, é abençoada por Deus! Mas, aí está se falando muito do Rio de Janeiro! A Cidade Maravilhosa ainda é uma grande formadora da imagem do Brasil. Antes deste país crescer em direção ao Centro-Oeste, antes de se embrenhar pela Amazônia, já aqui eram moldadas as principais características do que seria a nação. Cidade colonial, sede do Vice-Reinado, corte, capital da República, capital cultural, que outra cidade brasileira teve tantos títulos? Pensar o Brasil, conhecer o país, passa por um olhar atento ao Rio de Janeiro, e os turistas bem o sabem!

 

Nos vemos refletidos nas fotos captadas pelos visitantes. Boa parte dos ícones dessa imagem de Brasil estão generosamente espalhados pela cidade. Aí estão as magníficas praias cariocas, e a Pedra da Gávea, o Pão de Açúcar e o Morro Dois Irmãos, algumas dessas fantásticas formações rochosas que se destacam de maneira espetacular na nossa paisagem, e que um dia, lá no Pleistoceno, já foram ilhas. Aí estão os Arcos da Lapa, o belo aqueduto construído por Gomes Freire no século XVIII, que trazia as águas do Rio Carioca desde os altos de Santa Teresa até a cidade colonial. E também o Cristo Redentor, obra Art Déco inaugurada em 1931, projeto de Heitor da Silva Costa, com a colaboração de Paul Landowski. O Maracanã, projetado em 1948 e considerado à época um dos maiores desafios da engenharia brasileira, símbolo do esporte que consagrou o Brasil pelo mundo afora. E o MAM, obra mais bela do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, de 1953, e o igualmente modernista Monumento dos Pracinhas, de 1956, projetado pelos arquitetos Hélio Ribas Marinho e Marcos Konder Neto.

 

Mas o Rio encanta ainda pelos detalhes. As calçadas em pedras portuguesas, com seus desenhos de ondas que correm o mundo e os postos de salva-vidas, referência do mapa mental dos cariocas, que conhecem sua praia predileta pela numeração de cada posto. Os conjuntos de sobrados do Centro, do Catete e da Área Portuária, salvados da fúria da especulação imobiliária, que agora volta a ameaçar a cidade. São também o retrato de um Brasil acolhedor e amoroso, onde o pequeno comerciante imigrante se estabeleceu. E os gringos já descobriram as favelas, com suas ladeiras, festas de funk e pousadas baratas. Há o bondinho, que balança pendurado entre os morros da Urca e o Pão de Açúcar desde o início do século XX e o prédio da Central do Brasil, com seu relógio que nunca mais andou na hora. Há também a cúpula da Candelária, impressionante obra de engenharia do final do século XIX, revestida em lioz, e sua imponente fachada em cantaria, marcando o eixo da Avenida Presidente Vargas, a grande via em direção à Zona Norte do Rio.

 

Assim é o Rio de Janeiro, generoso em imagens que falam de si e do Brasil, orgulhoso de suas belezas, as quais exibe a quem quiser ver, receptivo a todos que aqui chegam e que logo já são meio cariocas. Assim é o grandioso painel que, cada vez mais numerosos, visitantes dessa cidade terão à disposição para suas postagens em redes sociais. Como nem tudo é bacana, é hora de a Prefeitura regularizar o aluguel de alta rotatividade. Em outras cidades em que o afluxo de visitantes também cresceu, os preços dos aluguéis para os moradores foram às alturas. E quando isso aconteceu, os turistas acabaram sendo hostilizados. Dá para resolver antes de se chegar a tanto.


Artigo publicado em 19 de fevereiro de 2026 no Diário do Rio.

terça-feira, 25 de março de 2025

Ainda estamos aqui

Caminhada do enterro de D. Lida, vítima de bomba na OAB

A volta às histórias de vida de Eunice e Rubens Paiva, que o filme "Ainda estou aqui" tornou possível, suscitou uma onda de empatia com aquela família, assim como com milhares de outras famílias, que passaram por terríveis sofrimentos durante a ditadura militar. O filme possibilitou também que brasileiros desmemoriados ou mal-informados tomassem conhecimento desses fatos, e de como eles afetaram a vida de pessoas comuns.

A memória coletiva sobre erros do passado, visando a sua não repetição, é algo importante de ser cultivado. A Alemanha tenta não esquecer dos crimes do nazismo, sempre informando à juventude sobre o ocorrido. Mesmo assim, lá o perigo agora renasce, com a adesão de boa parte da população a partidos neonazistas, e com dirigentes governamentais apoiando o genocídio em Gaza. 

Os japoneses não deixam os horrores dos bombardeios atômicos caírem no esquecimento. Senhores e senhoras de idade, vítimas naquele terrível momento, seguem recontando, nos sensibilizando, e militando pela paz. O holocausto atômico marcou profundamente a sociedade japonesa. 

Entre nós, o importante trabalho de manter a memória dos tempos da ditadura militar tem sido pouco efetivo. Os horrores daquele período vão sendo esquecidos ou relativizados. Milhões de eleitores acharam possível votar em alguém que defendia a ditadura, assim como os torturadores. No final, como esperado, houve a tentativa de um golpe de estado. Isso deveria fazer soar o sinal de alarme entre as pessoas de bem. Talvez os levantamentos das Comissões da Verdade não tenham atingido a sensibilidade da maioria dos brasileiros, gerando uma vacina contra o totalitarismo. 

Algo que o filme de Walter Salles ensina é que é preciso chegar até à fonte das emoções das pessoas, aquilo que é compartilhado por todos os seres humanos. É preciso mostrar que a ditadura não perseguia apenas os que ativamente militavam contra ela. Ela era um mal na vida cotidiana de cada um.

É preciso contar aos jovens sobre o temor que havia entre as famílias de falar sobre política dentro de casa, e da fala baixa entre as pessoas, uma das precauções tomadas ao criticar o governo. É preciso lembrar da presença de um policial infiltrado nas salas de aulas das universidades, a todos vigiando. É preciso lembrar da falta de cerimônia dos policiais ao pararem qualquer jovem na rua, pois ele podia ser mais um oponente do regime. É preciso contar do medo nas assembleias estudantis, sempre vigiadas por alguém que poderia denunciar uma nova liderança. É preciso lembrar do gás lacrimogêneo, das correrias e dos helicópteros voando sobre as manifestações por democracia.

É preciso lembrar da humilhação que era levar para a censura o roteiro de uma peça, ou mesmo de um espetáculo de dança, para que uma funcionária obtusa considerasse se estava liberada ou não. É preciso recontar a saudade que famílias e amigos sentiam dos exilados. É preciso lembrar o que era viver sob o medo de ser mais um preso ou desaparecido. 

Os, agora cada vez menos, sobreviventes daqueles anos de chumbo precisam contar e recontar, e tentar tocar a sensibilidade das novas gerações, para que o horror nunca mais volte. 

Artigo publicado em 20 de março de 2025 no Diário do Rio