No início, há um casal deitado no chão. Ela move lentamente as mãos, sobe ligeiramente os braços, e suas mãos e braços ficam pairando e balançando no ar. Esses movimentos vão se expandindo para o corpo, agora com várias partes envolvidas nessa dança. Mas ela e ele seguem na horizontal, ambos estirados no chão. Ela o toca e continua a se movimentar. Todo um bailado acontece, sem que eles saiam dessa posição.
Ela passa por cima dele, o rodeia, volta a passar por cima. E por baixo. Um mundo de coisas acontece sem que, na maior parte do tempo, deixem de estar deitados. Eles são Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore, numa coreografia de Márcia Milhazes. Depois, um leva o outro para a posição vertical e agora sua dança é amorosa e brincalhona.
Experimentam diversas possibilidades. Ele a conduz pela cabeça, e agora é ela quem o conduz pela cabeça. Dançam abraçados, se afastam, voltam a estar juntos. Vivenciam vários momentos de um casal. Arrebatados, curiosos, se atraindo, se afastando, se surpreendendo, talvez se amando, mas juntos. Frágeis no mundo, mundo em guerras crescentes e cada vez mais abrangentes, podemos pensar.
O cenário é de Beatriz Milhazes e a mudança de luz o torna um painel floral de cores variáveis. O casal está vestido com um sem-número de roupas, muito leves e sobrepostas. E à medida que a dança se desenvolve, vão se desfazendo de cada peça. Uma pele brilhosa que se vai, revela outra de ainda mais delicadezas e brilhos. As peles vão ficando pelo chão.
De algum ponto surgem máscaras, e agora, qual um casal que faça uso de fantasias e jogos de animar uma relação, eles brincam e encarnam personagens carnavalescos. São Clóvis de Santa Cruz brincando no palco. As músicas que embalam as suas danças são bem variadas, passando por um fox-canção cantado por Orlando Silva, choros, batuques, Clementina de Jesus, Carmen Miranda e música barroca. E as peles que os vestem seguem sendo despidas. Às vezes, são usadas como adereços da brincadeira.
Ana e Domenico usam da expressividade dos seus corpos e dos movimentos propostos por Márcia, e também do afloramento de emoções diversas em seus rostos. Ora são enamorados, ora intrigados, depois alegres e às vezes ligeiramente perdidos. Há uma falta de senso e propósito nas suas inter-relações, mas há afeto e atração em ações repetidas, como ademais é a banalidade cotidiana de cada um de nós. O tempo em que esse trio já trabalha junto depurou uma sintonia absurda, revelada no palco.
Muitos outros momentos se sucedem. Em todo o percurso, eles pouco se distanciam. Há também saltos e giros e mais sutilezas de movimentos de partes do corpo isolados. A dança de Márcia Milhazes é feita de detalhes, de braços, pernas, cabeças, e troncos que convergem, para depois divergirem, numa sucessão caleidoscópica de possibilidades e surpresas. As suas criações vêm sendo tecidas há várias décadas e mostram uma consistência dificilmente alcançada na produção coreográfica brasileira. Seu trabalho está no Sesc Copacabana, não percam.

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