sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O apagamento do projeto Rio Cidade

Imagem criada por Isabelle Cristina de Castro

Os espaços públicos no Brasil, e no Rio de Janeiro, sempre foram muito negligenciados pelo Poder Público. Os governantes costumam preferir novas obras à conservação daquilo que já existe. O eleitor tem também a sua parcela de culpa, ao premiar mais aquele que faz novas obras do que aquele que conserva. E, para o governante de plantão, elas têm o atrativo das licitações, dos conluios com empreiteiras, mais facilidades para esquemas, etc.

Contrariamente ao usual, na década de 1990, sob a liderança de Luiz Paulo Conde, o Rio viu uma grande intervenção nos espaços públicos da cidade, o projeto Rio Cidade. Ele vinha na forma de novas obras, mas era direcionado para qualificar calçadas, mobiliário urbano, arborização e sinalização de diversos corredores urbanos, distribuídos por todas as regiões da cidade. Por onde o projeto passou, calçadas foram repavimentadas com novos padrões, o posteamento foi renovado, assim como surgiram jardineiras e bancos nas calçadas. 

Aparentemente, os urbanistas que mais influenciaram os projetos do Rio Cidade foram Kevin Lynch e Gordon Cullen. E, nem sempre tiveram a leitura mais correta. De Lynch, os autores dos projetos parecem ter captado a ideia de se ter marcos nos espaços urbanos. O pórtico pós-moderno, que existiu entre Ipanema e Leblon, por exemplo, reforçaria a memória do local (Bar Vinte), onde antes o bonde fazia a volta, separando-se do Leblon. O monumento da Laranja, ou Laranja Descascada, em Campo Grande, lembraria o passado agrícola da região. Diversos outros marcos artificiais foram salpicados pela cidade, como a base em forma de minizigurate redondo para o poste curvo, que deveria iluminar o monumento a José de Alencar, no Catete. 

A realidade se mostrou adversa. Os moradores, inicialmente incomodados com pessoas subindo pelo pórtico de Ipanema, e depois com a sujeira na sua base, exigiram a sua demolição. Hoje, ali só resta um pirulito, que era o centro de uma rosa dos ventos no asfalto. No Catete, José de Alencar já não é iluminado pelo abajur gigante, e vários outros elementos que deveriam ser novos marcos da cidade deixaram de existir. A leitura pouco aprofundada de Lynch não deu certo. 

Já de Gordon Cullen parecem ter vindo a grande variedade de padrões de pisos nas calçadas, e também de postes de luz, além dos adesivos coloridos sobre o asfalto, que traziam interesse para alguns cruzamentos. Mas, depois de gastos, nunca foram repostos. Talvez, buscando reforçar o conceito de recinto urbano pensado por Cullen, que seria um lugar calmo e acolhedor, em meio ao burburinho da cidade, foi feito o fechamento da Praça Sara Kubitschek, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Um muro, com um painel em azulejos de autoria de Millor Fernandes, passou a separar a praça de sua movimentada calçada. 

Resultou daí uma praça distante dos olhos da rua, contrariamente ao que indicava Jane Jacobs, a pioneira na contestação ao urbanismo do período modernista. O não atendimento a um princípio básico da teoria dessa urbanista, a de que é preciso haver atratividade e movimento de pessoas nos espaços públicos para que eles sejam seguros, gerou um espaço apartado da vida intensa de Copacabana. Como resultado, a praça é insegura e os moradores estão demandando a demolição do muro. Salvando-se o painel de Millor, não seria má ideia. Mais uma correção traumática...

Ali mesmo em Copacabana, foi reaberto um trecho da rua Almirante Gonçalves, junto à avenida Nossa Senhora de Copacabana, que o projeto Rio Cidade havia fechado ao trânsito de veículos, gerando um largo para o descanso dos pedestres. Reaberto por pressão de comerciantes e moradores, como atesta o depoimento do então síndico do Edifício Estrela da Tarde, “O projeto era bom, mas (...) a praça sofre com o abandono (por parte do Poder Público)” (O Globo 18/10/2019). Nesse caso, foi contrariada a tendência mundial de se suprimir espaços dos automóveis em favor dos pedestres. 

Outros problemas podem ser apontados no projeto Rio Cidade, como o incentivo à criação de linhas de mobiliário urbano específicas para cada eixo onde foi aplicado. Bancos, postes de luz e abrigos de ônibus para uma única via, se mostraram uma deseconomia, além de nem sempre terem o melhor design. Também já não existem. Já os materiais imaginados pelos projetistas muitas vezes tiveram sua qualidade rebaixada durante a obra, como os já gastos ladrilhos hidráulicos das calçadas da rua Voluntários da Pátria. Uma solução muito usada em São Paulo e Buenos Aires, mas que aqui foi mal executada.

Como todo projeto inovador, no Rio Cidade foram cometidos erros e excessos. Mas, ele teve o mérito de, pela primeira vez em muitas décadas, pensar na qualidade do espaço público e no conforto dos usuários. Como, posteriormente, não teve manutenção, nem continuidade, suas qualidades e características estão deterioradas, sendo difícil reconhecê-las. Luiz Paulo Conde, com os projetos icônicos Rio Cidade, Favela Bairro e Novas Alternativas (recuperação de sobrados para moradia), representou um momento único na administração do Rio de Janeiro. Ali, arquitetos e urbanistas foram chamados a contribuir para melhorar a cidade. Depois, se voltou à rotina de empregar recursos apenas em grandes obras, idealizadas por grandes empreiteiras, sem grandes cuidados com o bem-estar dos cidadãos. Uma pena. 

Artigo publicado em 06 de fevereiro no Diário do Rio.

 

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