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| Imagem criada por Isabelle Cristina de Castro |
Os espaços públicos no Brasil, e no Rio de Janeiro, sempre foram muito negligenciados pelo Poder Público. Os governantes costumam preferir novas obras à conservação daquilo que já existe. O eleitor tem também a sua parcela de culpa, ao premiar mais aquele que faz novas obras do que aquele que conserva. E, para o governante de plantão, elas têm o atrativo das licitações, dos conluios com empreiteiras, mais facilidades para esquemas, etc.
Contrariamente
ao usual, na década de 1990, sob a liderança de Luiz Paulo Conde, o Rio viu uma
grande intervenção nos espaços públicos da cidade, o projeto Rio Cidade. Ele
vinha na forma de novas obras, mas era direcionado para qualificar calçadas,
mobiliário urbano, arborização e sinalização de diversos corredores urbanos,
distribuídos por todas as regiões da cidade. Por onde o projeto passou,
calçadas foram repavimentadas com novos padrões, o posteamento foi renovado,
assim como surgiram jardineiras e bancos nas calçadas.
Aparentemente,
os urbanistas que mais influenciaram os projetos do Rio Cidade foram Kevin
Lynch e Gordon Cullen. E, nem sempre tiveram a leitura mais correta. De Lynch,
os autores dos projetos parecem ter captado a ideia de se ter marcos nos
espaços urbanos. O pórtico pós-moderno, que existiu entre Ipanema e Leblon, por
exemplo, reforçaria a memória do local (Bar Vinte), onde antes o bonde fazia a
volta, separando-se do Leblon. O monumento da Laranja, ou Laranja Descascada,
em Campo Grande, lembraria o passado agrícola da região. Diversos outros marcos
artificiais foram salpicados pela cidade, como a base em forma de minizigurate
redondo para o poste curvo, que deveria iluminar o monumento a José de Alencar,
no Catete.
A realidade se
mostrou adversa. Os moradores, inicialmente incomodados com pessoas subindo
pelo pórtico de Ipanema, e depois com a sujeira na sua base, exigiram
a sua demolição. Hoje, ali só resta um pirulito, que era o centro de uma rosa
dos ventos no asfalto. No Catete, José de Alencar já não é iluminado pelo
abajur gigante, e vários outros elementos que deveriam ser novos marcos da
cidade deixaram de existir. A leitura pouco aprofundada de Lynch não deu
certo.
Já de Gordon
Cullen parecem ter vindo a grande variedade de padrões de pisos nas calçadas, e
também de postes de luz, além dos adesivos coloridos sobre o asfalto, que
traziam interesse para alguns cruzamentos. Mas, depois de gastos, nunca foram
repostos. Talvez, buscando reforçar o conceito de recinto urbano pensado por
Cullen, que seria um lugar calmo e acolhedor, em meio ao burburinho da cidade,
foi feito o fechamento da Praça Sara Kubitschek, na avenida Nossa Senhora
de Copacabana. Um muro, com um painel em azulejos de autoria de Millor
Fernandes, passou a separar a praça de sua movimentada calçada.
Resultou daí
uma praça distante dos olhos da rua, contrariamente ao que indicava Jane
Jacobs, a pioneira na contestação ao urbanismo do período modernista. O
não atendimento a um princípio básico da teoria dessa urbanista, a de que é
preciso haver atratividade e movimento de pessoas nos espaços públicos para que
eles sejam seguros, gerou um espaço apartado da vida intensa de Copacabana.
Como resultado, a praça é insegura e os moradores estão demandando a demolição
do muro. Salvando-se o painel de Millor, não seria má ideia. Mais uma correção
traumática...
Ali mesmo em
Copacabana, foi reaberto um trecho da rua Almirante Gonçalves, junto à avenida
Nossa Senhora de Copacabana, que o projeto Rio Cidade havia fechado ao
trânsito de veículos, gerando um largo para o descanso dos pedestres. Reaberto
por pressão de comerciantes e moradores, como atesta o depoimento do então
síndico do Edifício Estrela da Tarde, “O projeto era bom, mas (...) a praça
sofre com o abandono (por parte do Poder Público)” (O Globo
18/10/2019). Nesse caso, foi contrariada a tendência mundial de se
suprimir espaços dos automóveis em favor dos pedestres.
Outros
problemas podem ser apontados no projeto Rio Cidade, como o incentivo à criação
de linhas de mobiliário urbano específicas para cada eixo onde foi aplicado.
Bancos, postes de luz e abrigos de ônibus para uma única via, se mostraram uma
deseconomia, além de nem sempre terem o melhor design. Também já não existem.
Já os materiais imaginados pelos projetistas muitas vezes tiveram sua qualidade
rebaixada durante a obra, como os já gastos ladrilhos hidráulicos das calçadas
da rua Voluntários da Pátria. Uma solução muito usada em São Paulo e Buenos
Aires, mas que aqui foi mal executada.
Como todo
projeto inovador, no Rio Cidade foram cometidos erros e excessos. Mas, ele teve
o mérito de, pela primeira vez em muitas décadas, pensar na qualidade do espaço
público e no conforto dos usuários. Como, posteriormente, não teve manutenção,
nem continuidade, suas qualidades e características estão deterioradas, sendo
difícil reconhecê-las. Luiz Paulo Conde, com os projetos icônicos Rio Cidade,
Favela Bairro e Novas Alternativas (recuperação de sobrados para moradia),
representou um momento único na administração do Rio de Janeiro. Ali,
arquitetos e urbanistas foram chamados a contribuir para melhorar a cidade.
Depois, se voltou à rotina de empregar recursos apenas em grandes obras,
idealizadas por grandes empreiteiras, sem grandes cuidados com o bem-estar dos
cidadãos. Uma pena.
Artigo publicado em 06 de fevereiro no Diário do Rio.

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