terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Caleidoscópio habanero

 

Havana é um desejo, especialmente para quem é de esquerda. E tem qualidades para encantar pessoas de qualquer orientação política. É uma das cidades mais interessantes das Américas. Não só os carros antigos foram preservados, como a sua riquíssima arquitetura, com exemplares do século XVI ao XX. Mas, o visitante é confrontado com difíceis questões da realidade atual. 

O povo é simpático, disposto a conversar e a fazer amizades. Cidade de largas avenidas projetadas por Forestier, que preservou a cidade velha. Nessa mesma época, Agache fazia o seu plano para o Rio de Janeiro, não completamente implementado, que aprofundava a destruição do tecido antigo iniciada com a abertura da avenida Central e o arrasamento do Morro do Castelo. 

Com grande esforço, uma parte de Havana Velha já está recuperada. Restaurados, sobrados e edifícios deslumbrantes rivalizam em qualidade arquitetônica com os das mais belas cidades do mundo. Recebem galerias e bons restaurantes. Duas quadras adiante, está a cidade real, de edifícios e sobrados ainda caindo aos pedaços, habitados por uma população que se vira como pode.

A cada pavimento térreo, uma venda improvisada. Em cada porta, uma mesinha para vender três saquinhos disso, quatro pacotes daquilo.

Em Vedado e Miramar, casas e mansões restauradas sediam embaixadas e centros de cultura. O Centro Fidel Castro ocupa uma das mais belas casas. Nas demais, roupas penduradas nas janelas indicam a sua ocupação por pessoas simples. Ou famílias apadrinhadas nos tempos mais heroicos. Casas e prédios de apartamentos estão depauperados, as calçadas estragadas, os jardins privados pouco cuidados.

No Malecon, famílias passeiam e pescadores jogam suas linhas para garantir o peixe do dia. Alguns edifícios e conjuntos habitacionais, de frente para o mar, mostram a argamassa rompida e armações de ferro expostas. Risco de desabamento em prédios ocupados e presença de ruínas na vizinhança.

Em Havana Velha, músicos nos bares e restaurantes tocam a boa música caribenha. A abordagem ao turista é frequente. Depois da pergunta sobre a procedência, pode vir a oferta de um suposto convite gratuito para um suposto show de salsa à noite. Como sinal de gratidão, o turista já pode ir pagando uma bebida ao generoso sujeito. Com boa conversa, logo se pede que o turista pague um trago, ou que compre leite para os filhos. Por necessidade, pede-se muito em Havana Velha.

Na ausência de um bom sistema de transporte público, ladas, chevrolets e todo tipo de carro velho fazem lotação. Há também o transporte por vans, tuc-tucs, alguns com carrocerias, e triciclos. Ônibus, que custam trinta vezes menos, demoram a vir. Quando chegam, muitas vezes estão lotados. O cobrador se desdobra para fechar a porta atrás do grupo que não coube, e se pendura para fora. Muita gente andando longas distâncias para se deslocar pela cidade. Porém, há pouca presença de bicicletas, que foram muitíssimo usadas no período especial, uma etapa econômica difícil que o país atravesso. 

Há problemas, como empoçamentos pontuais de esgoto, e na coleta de lixo, que pode ser visto acumulado nos pontos de descarte. Problemas que não são encontrados em outras cidades do país. 

Pouca iluminação pública nas ruas mais locais e cortes quase diários de energia nos bairros. Mesmo assim, as ruas são seguras. Nelas, as pessoas andam consultando seus celulares. Os inúmeros monumentos da cidade não tiveram suas partes em metal roubadas (cariocas entenderão). Mas, é possível presenciar a tentativa de roubo de um cordão do pescoço do gringo. 

Longas filas de carros nos postos de combustíveis, e filas e aglomerações nos caixas eletrônicos dos bancos e nas bodegas estatais, onde os preços são mais baixos, mas faltam produtos. 

Grandes hotéis, de redes internacionais, com poucas luzes acesas nos andares. Após a Covid, o turismo caiu e a economia do país não se recuperou.

Muitos relatos sobre a difícil situação econômica de Cuba e de como o embargo de mais de meio século não explica tudo. A necessidade de importar açúcar para um país que era grande produtor diz muito sobre a situação atual. A transição para a nova geração de dirigentes revolucionários não está sendo fácil.

É comum encontrar quem relate dificuldades para ter renda e critique o sistema. Queixam-se da perda de qualidade do ensino e dos atendimentos médicos. Os protestos massivos de três anos atrás resultaram em muitas prisões e condenações, desencorajando novas manifestações. Mas, a bandeira cubana é muito presente pela cidade e há, também, quem acredite que as coisas irão melhorar.

Desiludidos, ex-seguidores da Revolução vão se tornando pequenos capitalistas e contratam empregados. A auxiliar de uma hospedaria caseira consegue ganhar mais do que um médico, que trabalha na rede pública. A emigração é vista como solução, e muitos jovens o fazem, ou planejam fazer. Médicos, engenheiros e professores estão abandonando a profissão para trabalhar em coisas mais rentáveis, como atendente no comércio. 

Já se vê diferenças de posses entre quem tem parentes no exterior, ou está nos ramos de turismo e negócios, e os demais. Para estes, a subida dos preços tem tornado até a alimentação algo difícil. O jantar de um turista num restaurante comum pode valer quase a metade do salário de um médico, que só pode trabalhar para o Estado. Há pessoas revirando lixeiras. E há as que pedem dinheiro, dizendo ter fome.

Todos estão vestidos e calçados, ainda que de forma simples. Além dos desejados tênis, usam muito chinelos e botas de plástico, que são mais baratos. Boa parte dos jovens segue a moda básica internacional. 

Pessoas de Yoruba (Santeria, um nome depreciativo) se vestem de branco e com colares. As mulheres com saias ou calças, batas brancas rendadas e turbantes igualmente brancos. Muitas delas, jovens, cumprindo seus deveres de um ano após a raspagem dos cabelos, quando também devem usar uma sombrinha branca, resguardando-se do sol e do sereno.

As ruas de Havana Velha fervilham de gente. Crianças brincam nas ruas em seus uniformes de escola. Pessoas se sentam nos bancos, ou nas soleiras dos edifícios, para ver o movimento e conversar. Uma população de maioria negra vivendo em condições simples. Igualdade na vida apertada. 

Apesar dos problemas, parece haver energia entre os jovens, vontade de viver a vida e se alegrar com o que ela oferece. Sentar-se ao fim do dia à beira-mar, tocar um violão, encontrar os amigos para ouvir música num bar, namorar num lugar deserto sem ser assaltado, tudo isso se vê em Havana. 

O melhor de Cuba é o seu povo. Não se deve duvidar da capacidade de um povo que já fez uma revolução e sobrevive às dificuldades do embargo. Enfrentam tempos difíceis, mas o país é maior do que os problemas conjunturais. Vale muito a visita. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 23 de janeiro de 2025.

 

O porteiro

O porteiro é uma instituição nos bairros de classe média brasileira. Não ter porteiro é sinal de prédio sem prestígio, desvalorizado, de moradores self-service. Quem lhes dará bom dia? Quem ajudará a abrir a porta do elevador quando o morador estiver cheio de compras? Quem avisará que vai faltar água? Quem, afinal, fará aquela triagem dos que podem passar, segundo regras não escritas, mas bem aprendidas na nossa dividida sociedade?

Um dia, o porteiro talvez desapareça, ou fique restrito a prédios de áreas muito exclusivas das nossas cidades. Mas até lá, ele seguirá sendo a alma dos condomínios. O porteiro é nordestino? Há uma boa chance de que seja. O porteiro mora bem? O mais provável é que passe por perrengues na sua moradia. Mas, ao chegar ao trabalho, ao transpor a portaria e deixar no vestiário a bermuda e o chinelo, o uniforme lhe dá distinção e autoridade. Autoridade essa que só com o tempo ele saberá exercer plenamente. O bom porteiro é de meia-idade. 

O porteiro é querido, e criou um abaixo-assinado que apresenta a cada morador. Pede a adesão à sua reivindicação de galgar o posto de porteiro-chefe. Os moradores assinam, mesmo sem convicção. Quem haverá de contrariar o querido José? À tarde, a senhora do 504 lhe leva um prato com o empadão de frango que preparou para o marido. E no Natal todos assinarão o seu livro de contribuições. 

O porteiro-chefe tem regalias. Ele mora num pequeno apartamento no prédio em que trabalha. Seu CEP agora é o mesmo dos inquilinos e proprietários. Ele assume os ares da chefia e se coloca à disposição para receber reclamações sobre o mau serviço dos outros. O porteiro-chefe até já tem um pet. Quando está de folga, passeia seu totó pelas áreas livres do condomínio, para que ele brinque com os totós dos demais moradores. 

O porteiro se interessou recentemente pela bíblia. Agora passa os dias com a cara enfiada no livro. Lê e relê cada frase, buscando entender o seu oculto significado. À sua frente, o monitor mostra as imagens de várias câmeras do prédio. Mas ele só tem olhos para o Velho Testamento. Se não se livrar do transe espiritual, já, já será demitido. 

O prédio tem uma mulher porteira. É uma condição diferente da de mulher de porteiro, a que se está acostumado. Ela é atenciosa e os moradores já se habituaram. Mas o porteiro da noite faz intrigas. Diz que ela só está ali por ser a antiga empregada da síndica e que não entende nada dos sistemas de água, gás e luz do edifício. 

O novo porteiro é um estudante de cursinho pré-vestibular. Perdeu tempo por ter se dedicado à família e ao trabalho, mas, recentemente, concluiu o segundo grau e agora se prepara para o Enem. É focado, sabe que não pode perder mais tempo e por isso leva cadernos e livros para a mesa da portaria. Ao contrário dos porteiros vizinhos, não fica de conversinhas na rua, comentando a vida dos moradores. Os porteiros compartilham entre si o que sabem: quem trai quem, que casais brigam no corredor, quem dá uns pegas no elevador, quem deve o condomínio, e quem passa pela portaria sem cumprimentar. Do novo porteiro, dizem que é metido. 

O porteiro mais velho é solícito às demandas do síndico. Sabe que ele está querendo acertar e que, sem a sua ajuda, nada dará certo. O porteiro auxiliar é ciumento. Acredita que a ajuda ao jovem síndico logo trará perdas de vantagens e de momentos de escondido descanso. O porteiro auxiliar implica com o mais velho até que este reage e lhe chama a atenção.

Ah, que dia aziago. O porteiro auxiliar está meio perturbado e encontra pela frente uma barra de ferro. Com ela dá uma pancada na cabeça do velho, que já cai morto no chão de mármore da portaria. Percebendo a gravidade da situação, corre para o elevador, toca no botão do último andar e, ao chegar, aperta uma campainha qualquer. Abre-se a porta, e ele corre até a janela e de lá se atira.

O jovem síndico, ao voltar do cinema, encontra polícia, bombeiros e rabecão na sua portaria. Um drama rodriguiano e o fim da sua vontade de dar jeito naquele edifício. 

A calçada em frente à portaria é gradeada. A maioria dos prédios da rua são assim. De tarde, quando o entra e sai de moradores é mais calmo, dá para puxar uma cadeira e se sentar junto à grade que o separa do edifício vizinho. O porteiro de lá faz o mesmo e se estabelece uma conversa que ajuda a hora a passar. Quem de fora os vê, os imagina presidiários. Enjaulados, mas contentes.

O condomínio está caro, os moradores estão apertados, as obras de manutenção estão adiadas e o uniforme do porteiro está gasto. Não há previsão de verba para um novo, mas o trabalho do porteiro está garantido. Sem ele, os moradores fariam uma revolução. Seu Pedro continua no posto. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 16 de janeiro de 2025.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Entrevista com os alcaides

No último dia 28 de dezembro, o programa Cidades e Soluções, da GloboNews, foi ao ar com uma dupla entrevista com os prefeitos reeleitos do Rio de Janeiro e de São Paulo. As entrevistas conduzidas por André Trigueiro, experiente jornalista da área ambiental, têm mais interesse pelo que deixou de ser respondido, e perguntado, do que por aquilo que foi propriamente dito. E se o jornalista tivesse tido um ponto no seu ouvido soprando novas questões e indagações sobre o que pareceu ser uma ocultação dos reais problemas? Façamos esse exercício.

As perguntas apresentadas aos prefeitos foram praticamente as mesmas, mas o estilo de cada um, e as diferentes capacidades de sair pela tangente, tornam as entrevistas bastante diversas. Eduardo Paes, informal e falante, tem a manha carioca da sedução e a capacidade de fazer parecer que tudo o que produz é o mais correto. Já Nunes é mais contido, apesar de ter aceitado encenar a sua entrada na sala para o encontro com o entrevistador. O prefeito paulista buscou se calcar em dados, tentando passar despercebida a sua aliança com a extrema-direita, grande inimiga das ações em prol do meio ambiente. Revendo o vídeo, vamos às perguntas.

A primeira pergunta de André Trigueiro é sobre a crise climática e como proteger a população de eventos climáticos extremos. Eduardo Paes reconhece a existência da crise e as emergências que provoca. Na sua resposta, recorre à parceria da Prefeitura com a Nasa e à compra de um novo radar, para ter mais previsibilidade quando uma emergência ocorrer. Mas, o prefeito, que sequer tem um  órgão específico voltado para o clima, não se coloca diante de um horizonte mais alargado.

Segura essa aí, André, e lembre ao prefeito que, sendo uma cidade costeira, no futuro o Rio de Janeiro deverá ter áreas inundadas, com necessidade de realocação de populações. As soluções propostas pelo prefeito são aquelas já conhecidas, como a contenção de encostas e a realocação pontual de moradores, além da construção de piscinões para conter o excesso de vazão dos rios. A construção de um dique holandês junto ao Jardim Maravilha, uma comunidade de Guaratiba, também é citada. No entanto, André, sendo enorme a dimensão do problema a ser enfrentado por cidades sujeitas ao avanço do mar, sem um planejamento prévio, no futuro, o desastre será certo.   

Comentando sobre as milhares de pessoas vivendo em áreas de risco já reconhecidas, Eduardo Paes recorre à necessidade de que o governo federal reative seus programas de habitação popular, como o Minha Casa, Minha Vida. André, por favor, não deixe passar essa. É curioso não ocorrer ao prefeito que políticas habitacionais deveriam ser políticas locais, cabendo ao governo federal a correção de distorções. No entanto, ele, e boa parte dos prefeitos brasileiros, não investem na produção de habitação social, sabendo que a população mais pobre dará seu jeito. Jeito esse que, lá na frente, exigirá obras caríssimas de contenção de encostas, e poderá acarretar vidas perdidas.     

Sobre o mesmo tema da crise climática, Nunes apresenta um plano, o Planclima, com as diretrizes da Prefeitura para o problema. O prefeito paulista cita também as ações que visam substituir a frota de ônibus urbanos da cidade, trocando os movidos a diesel por ônibus elétricos. O poder econômico de São Paulo se manifesta na cifra anunciada de R$ 6 bilhões para fazer essa substituição. E nessa, André, a prefeitura paulista está à frente da carioca, que ainda não deu início à eletrificação da frota. Paes aposta na futura renovação do contrato de concessão das linhas urbanas da cidade, com a substituição dos ônibus a diesel após o fim das suas vidas úteis, ou seja, ainda um bom tempo de poluição e fortes emissões de CO² à frente.

Já sobre a quantia estimada de 500 mil pessoas morando em áreas de risco em São Paulo, o prefeito Nunes, que afirma ter o maior programa habitacional da história da cidade, diz que irá zerar esse número. Está vendo André, como, independentemente da análise da qualidade das ações voltadas para habitação social em São Paulo, é interessante o contraste entre um prefeito que executa o seu próprio programa e o que acredita que a responsabilidade é do governo federal?

Perguntado sobre o déficit de arborização urbana nas zonas Norte e Oeste da cidade, o prefeito Paes, que está iniciando o seu quarto mandato, reconhece o problema, e cita os parques já criados e os projetos para a criação de novos parques. Parques são ótimos, mas são soluções pontuais. Tentando explicar a falta de árvores, nas áreas menos aquinhoadas da cidade, Paes recorre a explicações confusas, como a adoção no passado de espécies equivocadas, falando das amendoeiras. Ah não, André, não deixe passar essa enrolação! Lembre ao prefeito que nem amendoeiras os bairros mais áridos da cidade têm. Confronta ele com a perda de capacidade operacional da Fundação Parques e Jardins e com a não implementação do Plano Diretor de Arborização Urbana, concluído em 2015!

André então pergunta sobre mobilidade sustentável nas cidades. O prefeito Nunes informa que já existem 886 km de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo, com previsão de chegar a mil km. Segundo o prefeito, todas as novas obras viárias da cidade contemplam a construção de ciclovias. Ele promete cuidar da sua manutenção. O prefeito promete também implantar um sistema de transporte hidroviário utilizando as represas Billings e Guarapiranga e os rios Tietê e Pinheiros. André, parece conhecer pouco essas realidades e apenas sorri satisfeito.

Sobre o mesmo assunto, Paes admite que nos últimos quatro anos investiu pouco em ciclovias, já que havia outras emergências deixadas pela desastrada administração Crivella. A cidade, que já teve a maior malha cicloviária do país, conta atualmente com 490 km de estrutura cicloviária. Para os próximos quatro anos, Paes promete o lançamento do Plano Cicloviário, pronto há dois anos e ainda não tornado público. Dois anos na gaveta! André, você conhece bem a realidade das ciclovias cariocas, tão esburacadas quanto nossas vias para automóveis. Ao não replicar, está sendo condescendente...

Sobre resíduos sólidos, o prefeito Nunes afirma que a cidade de São Paulo acaba de atingir a meta de 100% de coleta do lixo reciclado. No entanto, a porcentagem desse material que é reciclado está abaixo de 8%, uma enorme contradição na maior metrópole brasileira. Ao prefeito carioca, André Trigueiro lembra que a Comlurb tem o quarto maior orçamento do município, o que deveria significar uma melhor performance. Paes afirma que, para os próximos quatro anos, há maiores possibilidades de avanços na compostagem dos resíduos orgânicos do que na reciclagem. O prefeito admite que a porcentagem real de resíduos sólidos reciclados está abaixo dos 10% oficialmente divulgados. A própria coleta de resíduos ainda não é completa na cidade, e o prefeito afirma que isto seria uma condição para dar mais ênfase à reciclagem. André, conteste isso aí, por favor. É possível completar a coleta, avançando na reciclagem!

A propósito do Prefeito Paes ter apartado o licenciamento ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, levando-o para a área de desenvolvimento econômico, Trigueiro pergunta a Eduardo Paes se o licenciamento ambiental incomoda na hora de pensar o desenvolvimento da cidade, e se está funcionando. Peraí André, a pergunta colocada assim está muito ingênua. Você se lembra que uma vez questionou, ao vivo, a Secretária Municipal de Meio Ambiente sobre uma obra na Praia do Pepê, na Barra da Tijuca, voltada para a guarda de pranchas de windsurf. A obra estava produzindo grandes impactos ambientais, e a Secretária, muito sem graça, lhe informou que não tinha ingerência sobre o licenciamento ambiental. 

E não é só isso, as gigantescas transferências de potenciais construtivos entre bairros estão produzindo verticalizações e adensamentos problemáticos nos bairros mais visados pelas construtoras. Então, André, você sabe que não funciona, que a fórmula do Prefeito Paes entrega à raposa o cuidado das galinhas, no caso o nosso meio ambiente. Melhora a pergunta André!

Paes recorre à já gasta acusação de corporativismo, pois, segundo ele, os mesmos técnicos seguem fazendo as análises dos processos de licenciamento, apenas com uma chefia diferente. Ora, uma chefia ligada ao desenvolvimento econômico tem uma grande capacidade de pressionar para que questões ambientais sejam relevadas em prol desse desenvolvimento. Um desenvolvimento bem questionável, aliás. André, da próxima vez, esteja mais afiado, porque entrevistar essas raposas da política é tarefa muito difícil. Eles cursaram a escola da velha política, onde a verdade é meio velada, e absurdos, com jeito, podem parecer boas ações. Valeu a intenção, André. Obrigado.

Artigo publicado em 09 de janeiro de 2025 no Diário do Rio.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Bike, fogos, fumaça

Durante a semana foi aquela avalanche de desejos de bom Ano Novo. Mais intensa do que a da semana que antecedeu o Natal. Responder a todos é de praxe. Assim como, enviar esses mesmos votos aos amigos.  É bom saber que tanta gente lhe deseja bons momentos no futuro. Depois, chega o dia 31, com poucos planos. O tempo se anuncia sem chuva, o que é uma felicidade para os milhares de turistas e moradores da cidade que desejam ver os fogos nas praias. 

Os fogos de Copacabana já foram vistos de vários ângulos: da praia, da pedra do Arpoador e do alto das Laranjeiras. Até mesmo literalmente de baixo, quando eram acesos na areia, as explosões e configurações acontecendo acima de nossas cabeças, e as cinzas e faíscas caindo sobre as roupas brancas da multidão. Nunca, ainda, de uma janela da avenida Atlântica. Mas, rever os fogos é sempre uma boa alternativa para celebrar a chegada de um novo ano.

Imprevidente ou relaxado, sem bilhete de metrô, há que buscar alternativas para a chegada a Copa. Ônibus passam lotados de passageiros vestidos de branco. Parecem felizes, cantam e batem na lataria e no teto, naquele jeito carioca, meio selvagem, de expressar contentamento. A expectativa de todos é a de estar numa festa que a televisão diz ser imperdível. Fotos da festa serão enviadas para o mundo, e cariocas e turistas, pobres ou ricos, são parte do cenário. Mas, ônibus lotados estão fora de cogitação.

Multidões caminham em direção a Copacabana na noite de Ano Novo. Pequenos grupos trazendo flores e bebidas podem ser vistos nas ruas dos bairros vizinhos, todos seguindo na mesma direção. À medida que Copacabana vai ficando próxima, esses grupos já são rios de gente. São cada vez mais pessoas, até se afunilarem nas barreiras de revista policial, que passaram a existir nos últimos anos. 

Resta a fiel bicicleta, velha de guerra, de grande serventia nos deslocamentos pela cidade congestionada. A pedalada tem início em ruas desertas pelo feriado e desemboca nas ruas já tingidas por mais pessoas de branco. Já perto da meia-noite, o Túnel Novo é tomado por uma multidão alegre, em que grupos cantam suas músicas preferidas e se agitam com a reverberação de seus gritos e assovios no teto curvo. A sensação é a de ser parte da galera. É bonito, é bom estar na multidão quando ainda não há aperto. 

Nos momentos que antecedem a queima de fogos, cada espaço da avenida Atlântica e da praia está tomado por pessoas vindas de todos os cantos da cidade, do país e do mundo. A excitação é evidente e, em pouco tempo, todos estão concentrados nas areias para ver os fogos. No fim, viu-se pouco, já que uma densa fumaça se formou, espalhando-se depois pelos bairros vizinhos. Um clima de fog londrino produzido pelos fogos de Copacabana. 

Já no Leme o clima é de calma quermesse. Um pai corre empurrando o carrinho do filho só para vê-lo gargalhar e pedir "de novo". Um homem come tranquilamente a sua coxa de galinha, trazida no precioso farnel preparado pela esposa. Uma senhora, sentada na calçada, canta os animados louvores vindos do palco de música gospel montado na praia em frente. 

A chegada da música evangélica ao réveillon da praia de Copacabana é a curiosa novidade. É bom lembrar que o evento nasceu da tradição dos terreiros virem para as praias fazer suas oferendas a Iemanjá. Os moradores aproveitavam para tomar um passe e deixar flores no mar. Com a queima de fogos, os terreiros foram procurar praias mais tranquilas e Iemanjá ficou meio esquecida no evento de nome francês. 

Nessa celebração de Ano Novo, no palco onde logo Anitta, com seu poderoso bumbum, iria fazer o quadradinho, até Caetano Veloso resolveu cantar um louvor. Uma música meio sem graça, após as mais lindas canções tropicalistas. Sem a presença no palco de Maria Bethânia, que permanece fiel a Nossa Senhora da Purificação e aos seus orixás. Salve Bethânia, salve o Caetano tropicalista, salve 2025!

Artigo publicado em 03 de janeiro de 2025 no Diário do Rio. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Casas Casadas, arquitetura não compreendida


A promessa de um cinema nas Casas Casadas, em Laranjeiras, é antiga. Em 2004, ali se instalou a RioFilmes e, nada mais natural que também viesse um cinema. Em 2007, houve uma licitação com esse propósito. O vencedor lá estabeleceu o Espaço Rio Carioca, uma livraria e um café, com a previsão de também abrir um cinema. Mas, talvez não tenha havido capacidade financeira para concluir o projeto e pouco tempo depois o negócio foi encerrado. 

Depois disso, o espaço que seria destinado ao cinema ficou fechado por mais anos do que seria de se imaginar. Agora, finalmente, Laranjeiras ganhou o seu Cine José Wilker, homenagem muito merecida. O Grupo Casal, responsável pelo Cine Santa Teresa, é o gestor, o que é garantia de boa programação. Mas, as boas notícias param por aí. A obra do Cine José Wilker, assim como as demais intervenções realizadas nas Casas Casadas padecem de diversos equívocos arquitetônicos.

As Casas Casadas são um belíssimo conjunto de arquitetura eclética, de habitação multifamiliar com jardins frontais e entradas independentes para cada unidade. As seis edificações são geminadas, com porão alteado e mais dois pavimentos nas laterais, e mais três pavimentos no corpo central. O seu ecletismo mistura elementos neoclássicos e telhados em estilo chalé, com beirais decorados por lambrequins. A qualidade estética das Casas Casadas, os jardins individuais, o afastamento frontal, e as escadas, com degraus de granito e guarda-corpo de ferro fundido diante de cada unidade, constituem um objeto arquitetônico sem par na cidade.

O seu tombamento se deu sob a ameaça de venda, para que um prédio mais alto fosse construído no terreno. O antigo proprietário, inconformado com a preservação do imóvel, chegou a ser flagrado jogando pedras no seu próprio bem, para forçar a sua deterioração e futuro desmoronamento. Mas prevaleceu o bom senso e o imóvel foi adquirido pela Prefeitura.

No entanto, a obra de restauração do conjunto, realizada em 2004, foi bastante questionável, uma vez que eliminou as divisões internas que separavam as diversas casas. Assim, as unidades independentes foram fundidas, e as lindas escadas frontais, que levavam a cada uma, ficaram sem função. Na fachada posterior, foi instalado um corpo externo com elevador, cuja junção com o prédio original é bastante inadequada pela variedade de esquadrias que apresenta. Os equívocos do projeto de restauração se estenderam ao projeto do anexo, onde se encontra o novo cinema.

Segundo o teórico de restauro italiano Cesare Brandi, uma intervenção num bem deverá “concluir-se segundo aquilo que exige a instância estética”. Isso significa respeitar aquilo que ele designa como sua “sua fixa e não repetível subsistência como imagem”. Tal preceito deve guiar tanto os processos de restauração, como a inserção de acréscimos. Estes jamais devem suprimir ou ocultar partes significativas do bem, nem contribuir para a desvalorização da sua imagem.

Não foi o que ocorreu na inserção da circulação vertical na fachada posterior das Casas Casadas, nem tampouco no acréscimo do corpo lateral que serve ao cinema. Os dois elementos padecem de inadequação das esquadrias escolhidas, que grosseiramente disputam a primazia da atenção com o bem original. Elas são desproporcionalmente grandes, além de brancas, gritando a sua presença, em contraste com os delicados ornatos do prédio original. A cor escolhida para a fachada do cinema é a camurça, que briga com a pintura cor de tijolo das Casas Casadas.

Além disso, o anexo lateral foi inserido no meio do cunhal, aquele elemento decorativo da quina do prédio, além de suprimir a visão da fachada lateral da edificação. No interior do saguão do cinema, uma viga-calha, também branca, passa rente aos ornatos da fachada lateral do edifício histórico, dificultando a sua visualização, e provocando uma interferência que qualquer bom estudante de arquitetura deve saber que não é desejável. 

Apesar de haver trechos do jardim original, com plantas bastante adequadas para esse tipo de imóvel, logo na entrada do cinema foi criado um jardim com bolinhas de cerâmica expandida e pedriscos brancos, com aquele previsível jarro de barro deitado entre a vegetação e um resto de tronco de árvore. É o tipo de jardim de estande de vendas de lançamento imobiliário, que promete as delícias de uma vida burguesa a quem irá se endividar por anos a fio. 

A obra de restauração e adaptação a novos usos foi municipal, tendo sido avaliada tanto pelo Inepac, como pelo IRPH, os dois órgãos de Patrimônio locais, já que se trata de um bem tombado. É o caso de se perguntar o que aconteceu para que órgãos tão ciosos de uma boa análise de projetos dessa natureza tenham aceitado o projeto. Talvez a angústia de ter visto as Casas Casadas se deteriorando por tanto tempo tenha produzido mais maleabilidade na análise. 

Culminando todos os problemas arquitetônicos encontrados, na sessão da tarde do dia 20 de dezembro passado, por ocasião de uma forte chuva que caiu na cidade, choveu dentro da sala de cinema. De repente, a saga de Eunice Paiva em busca de reconhecimento do assassinato de seu marido sofreu a interferência de um barulho alto de cascata. Em meio à projeção, funcionários subiam e desciam as escadas da sala de cinema com baldes, procurando onde aparar as fortes goteiras. A atuação magistral de Fernanda Torres, e o próprio enredo, são capazes de levar o espectador às lágrimas. Mas, a percepção da luta dos funcionários para conter o vazamento de água da chuva as impediu de serem vertidas.

Se a chuva num edifício recém-inaugurado pelo próprio Prefeito é algo inaceitável, os problemas do restauro são lamentáveis. Infelizmente, só poderão ser solucionados numa próxima intervenção de grande porte, o que talvez nunca ocorra. Enquanto isso, o melhor a fazer é abstrair-se da existência de tais problemas e desfrutar as sessões de cinema. Se possível, sem goteiras. 

Artigo publicado em 27 de dezembro de 2024 no Diário do Rio.




segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Caio F. Abreu em Laranjeiras

Teatro é bom, é necessário. Mas há poucos disponíveis, especialmente para produções independentes, sem patrocínios. Manter um teatro, assim como um cinema, é caro. Acaba sendo preciso garantir que as produções que o ocupam atraiam um número suficiente de espectadores, capazes de gerar a renda que cubra os seus custos. Mesmo os teatros públicos precisam de produções com plateias que justifiquem os recursos investidos.

Mas e as produções independentes, os sem verbas, os experimentais? Como ficam? Tanto atores, como autores e diretores precisam de espaços onde iniciar um trabalho, que depois pode até ganhar plateias maiores. Muitas produções nem almejam isto. Apenas querem um espaço onde possam experimentar, criar espetáculos sem a exigência de sucesso de público, ou de um retorno financeiro. Mas,  compromissadas com a busca de novas linguagens e novos horizontes para as artes cênicas. 

Nas grandes cidades do mundo sempre há espaços alternativos que recebem essas produções. E aqui no Rio também, apesar de ainda serem poucos. Um deles, o Atelier Alexandre Mello, fica na Rua Alice, em Laranjeiras. Ali acontece até este fim de semana a peça Solidão de Caio F. Abreu. 

Num cenário reproduzindo um quarto de solteiro, lembrando o quarto de Van Gogh, dois atores repassam as palavras do escritor. Estas foram retiradas de dois de seus contos e de cartas escritas entre 1987 e 1990. A partir desse material, Hilton Vasconcellos e Rick Yates, dirigidos por Alexandre Mello, dão vida a personagens que expressam emoções íntimas, inadequações às convenções sociais, resistência à homofobia e sentimentos de solidão. Tudo ali, a dois metros da plateia. Suas respirações, seus suores, suas palavras, mesmo as sussurradas, chegando ao público em toda a sua potência, sem qualquer perda. 

Com uma linda vista para o vale do rio Carioca que, coitado, corre encanado, o Atelier é também lugar de cursos de teatro e movimento. E mantém a atmosfera de casa, de moradia de alguém. Alguém que, generosamente, abre as suas portas para receber convidados. Um local de resistência do fazer artístico. 

Laranjeiras, esse bairro tão querido, enfim vai ganhar seu primeiro cinema. Já tem os parques Guinle e da Alice, uma iniciativa comunitária que necessita de cuidados do poder público. Tem também uma ciclovia, à qual os moradores aderiram com entusiasmo. E todos esperam a volta do Mercado São José. Ainda não há um teatro em Laranjeiras, mas o bairro já tem seu espaço para produções experimentais. Que seja acolhido e tenha uma existência profícua. 

Artigo publicado em 19 de dezembro de 2024 no Diário do Rio.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

As prioridades do prefeito

O Censo de 2022 revelou que 21,73% da população carioca é moradora de favelas (1.349.942 em 6.211.223 habitantes). É um número impactante. Se boa parte das favelas cariocas já recebe abastecimento de água e, apesar de deficiente, tem coleta de lixo, diversos outros problemas permanecem e se agravam. Não há coleta de esgoto, não há segurança sobre a propriedade, não há segurança pessoal e a topografia e a disposição das casas facilita a ação do crime organizado. Além disso, são poucos os serviços públicos disponíveis, a acessibilidade é difícil, há doenças, como a tuberculose, advindas de más condições de moradia e os riscos ambientais são bem maiores do que nas áreas de moradia formal da cidade. 

Esse quadro, apesar de histórico, não deveria ser socialmente admissível. Além da gigantesca desigualdade social que revela, é reflexo de uma continuada inação do poder público. No entanto, seguimos a vida como se o problema não existisse. Passado o tempo das remoções forçadas, abandonado o exemplar programa Favela-Bairro, esquecemos desses 21,73% de cariocas. 

Na eleição que recentemente terminou, o tema urbanização de favelas, ou melhoria de suas condições, esteve ausente, assim como esteve ausente nas administrações passadas do prefeito. Ele, aliás, foi o responsável por terminar com o programa de urbanização de favelas já no seu primeiro mandato. A sua atual candidatura vitoriosa teve o apoio de parte da esquerda e, mesmo assim, o tema favela não veio à tona. 

Na verdade, a impressão que se tem é que o eleitor votou mais pelo conjunto de ações já realizadas na cidade como um todo do que por um conjunto de propostas futuras, as quais foram pouco divulgadas e debatidas. Talvez, para compensar esta lacuna, o prefeito reeleito se apressou em dizer que as tem. Eis que a primeira proposta de impacto para o próximo quadriênio não é voltada para esse quase um quarto de cariocas desfavorecidos, moradores de favelas. Pelo histórico de ações do prefeito, não era de se esperar que o fosse.

Com rufar de tambores, a Prefeitura anunciou a demolição do Elevado 31 de Março, no Catumbi. Sua demolição livraria a cidade desta abominável homenagem ao golpe militar, e transformaria aquele eixo numa via normal, com calçadas, edifícios residenciais e comércio. A proposição desse projeto, de difícil execução, pode vir na direção da reparação de um erro histórico, que foi a demolição do casario local para a construção do elevado, e o consequente esgarçamento do tecido urbano do bairro. 

Mas talvez o projeto chegue tarde, já que a construção do Sambódromo congelou a partição do Catumbi em duas partes. Além disso, a demolição da antiga fábrica da Brahma, cuja detonação foi acionada pelo próprio Prefeito, levou embora um Patrimônio importante para o bairro. Na falta desse marco, o projeto propõe uma homenagem às duas torres do Congresso Nacional. Faz lembrar o chamamento ao urbanista de Brasília para realizar o projeto para a Barra da Tijuca, no final da década de 1960. Não foi uma escolha feliz. 

A adesão a esse novo projeto para o Catumbi tem um formato curioso, que vem desde as gestões do prefeito César Maia. Alguns arquitetos com acesso ao prefeito da ocasião levam a ele suas propostas e, se ele se encanta, aquilo se transforma em política pública. Concursos de ideias e de projetos, abertos a todos os profissionais da área, nunca são lembrados como uma forma mais democrática e salutar de escolha de onde se investir os recursos públicos. 

Os moradores das favelas cariocas seguem fornecendo a base da mão de obra que faz a cidade funcionar. Seguem também influenciando de forma indelével a cultura carioca, e do país, com sua vibrante energia e juventude. Mas também seguem vivendo em condições precárias, submetidas à opressão do tráfico, da milícia e da polícia. Sua força eleitoral segue dispersa, incapaz de exigir as melhorias urbanas a que têm direito. E os prefeitos ingratos, cegos a essa realidade, se sucedem no poder. 

Artigo publicado em 12 de dezembro de 2024 no Diário do Rio.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

A imensidão de Angel Vianna

Durante muitas décadas, a chama da dança no Brasil foi levada pelas mulheres. Mulheres maravilhosas que superaram diversas dificuldades. Numa sociedade conservadora, havia o consenso de que deveriam se dedicar somente ao lar. Além das dificuldades financeiras normais para abrir seus estúdios, o fato de serem mulheres à frente dessas iniciativas agravava a situação. Houve mesmo um tempo em que a sociedade atrasada duvidava da moral das bailarinas. 

Para muitas delas, havia também dificuldades linguísticas, por terem vindo de outros países. A saudosa Dona Eugênia Feodorova, Maria Olenewa, Nina Verchinina, Slava Golenko, Graciela Figueroa, que retornou para o Uruguai deixando saudades, Dona Tatiana Leskova, que faz 102 anos com plena capacidade intelectual, e  outras, são exemplos dessas batalhadoras. Vieram de longe para semear num solo ainda pouco trabalhado no Rio de Janeiro.

Seus esforços deram frutos. Lourdes Bastos, Marli Tavares, Regina Sauer, Regina Miranda, Lia Rodrigues, Márcia Milhazes, Sônia Destri, são brasileiras que criaram suas companhias de dança no Rio e contribuíram para essa forte tradição feminina na dança brasileira. 

Não que não tenha havido homens nesse percurso, alguns também de outras terras, como Zdenek Hampl e Lennie Dale. E brasileiros, como Aldo Lotufo, Dennis Gray, Edmundo Carijó, Ceme Jambay, e Klauss Vianna. E aí chega-se à gigante Angel Vianna, cuja perda recente o mundo da dança brasileira chora.

Angel saiu de Belo Horizonte, em busca de horizontes mais amplos em Salvador, e depois, no Rio de Janeiro. Aqui deu aulas de ballet, a sua formação original. Mas logo iniciou com Klauss, seu companheiro nessa aventura, a busca por novas linguagens. Trabalhou com atores e, quando iniciou o trabalho que chamou de expressão corporal, rompeu uma barreira importante, atraindo pessoas de fora da dança. Profissionais liberais de diversas formações frequentaram suas aulas, descobrindo seus corpos, antes aprisionados por rotinas de trabalho e censuras várias. 

Angel tinha grandes ambições na sua ação de formação. Criou uma prestigiada escola técnica, que evoluiu para o estabelecimento de uma faculdade e uma pós-graduação em dança. Até então, instituições assim só existiam na esfera pública, e sem o claro direcionamento para uma linguagem contemporânea. Não só a dança lhe interessava, mas também os processos terapêuticos do corpo e pelo corpo. 

A atuação de Angel foi fundamental para a formação de uma parcela expressiva dos profissionais da dança na cidade, que trabalham com linguagens além do ballet. Sua generosidade atraiu para seus centros de formação pessoas talentosas, em busca de acolhimento e incentivo. Muito do que se produz em dança no Rio de Janeiro tem origem no inestimável trabalho da mestra.

Angel Vianna foi ousada também ao entrar em cena já em idade avançada, permitindo que as plateias apreciassem a beleza e delicadeza de um corpo marcado pelo tempo, com suas fortalezas e fragilidades. Vendo sua atuação em perspectiva, percebe-se que nela, essa marca feminina que está na base da dança brasileira transbordou em ondas amorosas, que tocaram tantas pessoas, e fertilizaram a dança carioca. 

Artigo publicado em 05 de dezembro de 2024 no Diário do Rio.


sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Aerotrópolis no molhado

Para muitos, planejar o futuro é importante. Para empresas, então, é vital. Mas, os planos, por melhores que sejam, podem ser contrariados por eventos que independem da vontade de quem os planeja. Mais ainda em tempos de emergência climática, quando o futuro se torna incerto, os planos podendo ser alterados por eventos fora do domínio humano. 

A construtora Technion obteve da RIOGaleão, empresa que detém a concessão do Aeroporto Tom Jobim, a cessão de uma área com 150 mil metros quadrados junto àquele aeroporto. Através da sua subsidiária, a Aldeya Life Park, ela vem há quatro anos desenvolvendo essa área nos moldes de uma "aerotrópolis". 

Aerotrópolis são áreas de atividades econômicas e culturais que se estabelecem no entorno de aeroportos. Estes funcionam como âncoras do desenvolvimento dessas atividades, tendo a facilidade logística como grande atrativo. Existem algumas condições para a formação dessas aerotrópolis. Inicialmente, é necessário haver disponibilidade de terras nas proximidades do aeroporto e boa acessibilidade por meios de transportes públicos e privados. Por outro lado, elas respondem ao aumento do número de viajantes e da sua demanda por consumo, às necessidades de aumento de receitas por parte dos aeroportos, a novas práticas de negócios e ao aumento das trocas comerciais entre países e regiões.

Atualmente, grandes aeroportos não são mais apenas locais de embarque e desembarque de passageiros. Há uma enorme gama de atividades que neles podem ser realizadas. Grupos de passageiros podem chegar, se hospedar nos hotéis vizinhos, participar de eventos, jogar, ou assistir concertos e retornar às cidades de origem, sem sequer entrar na cidade que visitam.

Há aerotrópolis formadas por plantas industriais, cujos produtos são imediatamente enviados para outros locais do planeta. Elas podem ter também cassinos, salas de concertos, hotéis e centros de convenções. No Schiphol, em Amsterdam, é possível jogar no Holland Casino ou ver exemplares da pintura flamenga na filial do Rijksmuseum ali existente. Em Heathrow, em Londres, é possível assistir a um concerto da London Philharmonic.

Alguns hotéis de aeroportos, como o Sheraton do Schiphol, o Hilton em Frankfurt e o Sofitel no Terminal 5 de Heathrow, são considerados entre os lugares mais populares para a realização de encontros de negócios em seus respectivos países. O The Squaire, o maior edifício de escritórios da Alemanha, foi aberto em 2011 no Aeroporto de Frankfurt. Com 140 mil metros quadrados, é um complexo de escritórios e hotel, com 660 m de comprimento e nove andares. O Aeroporto Internacional de Hong Kong é o mais movimentado do mundo por carga movimentada. Em sua área de 12,48 quilômetros quadrados há um centro de comércio que oferece entretenimento durante qualquer hora do dia.

A Prefeitura do Rio de Janeiro tem interesse no desenvolvimento de um projeto assim e, recentemente, no Urban 20, assinou acordo com a cidade chinesa de Zhengzhou. Lá, existe uma zona econômica aeroportuária, que é modelo de aerotrópolis para outras cidades. E a possibilidade de que um projeto assim venha a ocorrer no Rio vem se tornando mais real.

A Prefeitura se prepara para licitar o serviço de barcas ligando os aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim, o que aumentaria bastante a conexão entre os dois e com o centro do Rio. Para a área cedida à Technion, existe a expectativa de atrair diversos investimentos, como prédios corporativos, um centro de convenções, shopping, hospital e residências. A Universidade Estácio já abriu um campus ali.

Tudo parece caminhar para que se tente constituir uma nova aerotrópolis no Galeão. Mas, catástrofes climáticas deixaram de ser uma possibilidade para se tornar uma quase certeza com o crescente aquecimento global. O Acordo de Paris tenta segurar o aumento da temperatura média global em apenas 1,5º C. Como os países não conseguem se comprometer com metas de redução de emissões dos gases do efeito estufa, que impeçam a ultrapassagem desse patamar, o mundo caminha para um aumento de 2º C ou mais.

Com esse aumento da temperatura global, os oceanos deverão avançar sobre áreas costeiras, o que inclui as áreas dos aeroportos Tom Jobim e Santos Dumont. Simulações do site Surging Seas mostram o alagamento das pistas desses aeroportos e áreas vizinhas. O alagamento se alastraria ainda mais quando o patamar de 2º C de aumento da temperatura for ultrapassado. Esse é o grande problema de não se adotar medidas que contenham a catástrofe que se avizinha: um futuro com enormes prejuízos sociais e econômicos e projetos inviabilizados. Talvez, considerando-se essas previsões, se deva pensar em algo mais apropriado, como uma hidrópolis.  

Artigo publicado em 28 de novembro de 2024 no Diário do Rio.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

O poder do afeto

Recentemente, a querida amiga LK teve um problema de saúde, precisando ser internada. Um susto para a família que, em seguida, comunicou aos amigos que precisava de ajuda para cobrir as horas necessárias de acompanhamento no hospital. LK vive só, mas não é uma pessoa sozinha. Tem uma multidão de amigos, sejam da infância, das épocas de escola e faculdade, do meio teatral, onde desenvolveu sua carreira, e das inúmeras possibilidades de estabelecer relações de afeto, que a vida lhe proporcionou. Mais do que isso, que ela buscou.   

Esses amigos logo se puseram à disposição e tabelas de horários de acompanhamento foram prontamente preenchidas. A família de LK, como as famílias atuais, é pequena, apesar de coesa. Mas os mais jovens precisam também se desdobrar com os cuidados que a matriarca da família necessita. Assim, o recurso aos amigos se mostrou providencial. A cada dia, no mínimo três pessoas se alternaram como acompanhantes, e postaram comentários sobre como decorreu o período. LK estava sonolenta, comeu bem, conversou muito, estava de bom humor, recusou os remédios, se chateou com alguma coisa, gostou do enfermeiro de plantão, riu muito relembrando histórias, dormiu de tarde, recusou o suco, dormiu, e maravilha, os exames mostraram melhora contínua.

Esse modelo de compartilhamento de cuidados se mostrou uma excelente iniciativa. Deixaram de recair somente sobre a família o peso e a gravidade do momento, e ela se sentiu amparada por uma rede de amizades. Todos os que participaram, seja acompanhando fisicamente, seja recebendo notícias, tiveram a possibilidade de retribuir a afeição recebida ao longo da vida. E as tardes ou manhãs com LK, mesmo no hospital, sempre foram agradáveis. Fosse a situação mais grave ou a internação mais prolongada, a rede de apoio seria mais testada, talvez até se reduzisse. Mas tudo funcionou a contento.

Com novas configurações familiares se constituindo no Brasil, é importante ter novos modelos possíveis de cuidados mútuos, coletivos. Aumentou muito o número de pessoas vivendo sozinhas e as famílias se tornaram pequenas. O Censo Demográfico de 2022 mostrou que existem atualmente 13,7 milhões de pessoas morando sozinhas, correspondendo a 18,9% das residências do país. O Estado do Rio de Janeiro tem a maior concentração dessas pessoas, com 23,4% do total. Entre as pessoas vivendo sós, há uma alta concentração daquelas com mais de 60 anos (28,7%). Mas, entre 2010 e 2022, o maior aumento de indivíduos vivendo sós foi no grupo entre 25 e 39 anos, que cresceu de 8,3% para 13,4%. Isso pode indicar uma tendência de acentuação de lares de um indivíduo.       

Fazer amigos ao longo da vida é uma enorme riqueza que nem todos conseguem. Com eles, há mais possibilidades de se contar com algum conforto em momentos de precisão. Mas nossa sociedade, e nossas cidades, não têm sido configuradas de forma a propiciar o estabelecimento de amizades e relações. Para além das redes de amizade, é preciso a construção de redes de solidariedade. Grupos de pessoas dispostas a visitar idosos em casas de acolhimento, a acompanhá-los em hospitais. A sociedade civil pode tomar para si esta tarefa, ou delegá-la ao Estado, com mais impessoalidade.

O cuidado com o outro numa sociedade cada vez mais alienante é uma grave carência. Uma rede como a formada em torno de LK demonstra o quão afetuoso esse cuidado pode ser. LK já teve alta e está bem.

Artigo publicado em 21 de novembro no Diário do Rio.   

 

sábado, 16 de novembro de 2024

Cresce a favelização

Lagoa da Tijuca - foto Roberto Anderson

Em seu livro Planeta Favela, Mike Davis afirma que a maior parte da contínua urbanização do nosso mundo se dá na forma de áreas precarizadas quanto à existência de infraestrutura e de titulação, as favelas. A falta de recursos e de políticas públicas de habitação leva os novos moradores das cidades, não só em países em desenvolvimento, a se localizarem nesses espaços. Por isso, não causa espanto, mas deveria, os dados revelados pelo censo das favelas brasileiras recentemente divulgado pelo IBGE. 

O censo mostra a impactante contagem de 16,4 milhões de brasileiros vivendo em favelas, o que corresponde a 8,1% da população. Entre 2010 e 2022, houve um crescimento de 103% no número de municípios onde ocorrem favelas. O número de favelas no país teve um crescimento de 95%, alcançando a cifra de 12.348 áreas assim caracterizadas. A maior concentração delas está na região Sudeste (48,7%), seguida da região Nordeste (26,8%) e Norte (11,6%).

Com a incapacidade, e o desinteresse, de provisão de áreas urbanizadas para as famílias mais pobres, o fenômeno da favelização passou a existir em todo o país. Outra característica, especialmente nas grandes cidades, é a escassez de novas áreas passíveis de serem favelizadas, levando à visível verticalização daquelas melhor localizadas, como Rocinha e Rio das Pedras. 

Os brasileiros pobres continuam saindo, ou sendo expulsos, do campo para as cidades, continuam tendo seus filhos, e a alternativa de moradia para essas pessoas é a mais precária. A produção de habitação social pelo Estado sempre foi imensamente insuficiente para a enorme carência e demanda existente. Mesmo programas vistosos, e urbanisticamente equivocados, como o Minha Casa Minha Vida não foram capazes de sequer arranhar a dimensão do problema. 

Ao censo do IBGE é preciso acrescentar o levantamento realizado pela rede MapBiomas, que mostra como cresce a ocupação de áreas ambientalmente sensíveis, e perigosas, como encostas e beiras de rios. Segundo esse levantamento, entre 1985 e 2023, a ocupação de áreas de encostas teve um aumento de 3,3% ao ano, maior que os 2,4% ao ano da expansão de áreas urbanas. Essa ocupação de encostas intensificou-se nos últimos 38 anos, quando 70% dessa ocupação ocorreu. No Rio de Janeiro, entre 1985 e 2023, ocorreu a ocupação de mais 811 hectares de áreas de encostas, o segundo maior crescimento em cidades do país, logo atrás de São Paulo, com 820 novos hectares ocupados.

Já a ocupação de beira de rios e córregos avançou no mesmo período à proporção de um para cada quatro hectares de novas áreas ocupadas nas cidades. Em 2023, 26,6% das áreas urbanas do país encontravam-se a três metros ou menos da beira de rios e córregos. Tal situação, além de impactar esses cursos d’água, traz enormes riscos para os moradores ali estabelecidos.

Nem todas as áreas ocupadas em encostas ou em beiras de rios são áreas de moradia de baixa renda. Mas, pelo histórico da evolução urbana brasileira, é bem provável que uma parte significativa o seja. É o processo descrito por estudiosos como injustiça ambiental, em que aos pobres são reservadas as áreas mais problemáticas das cidades. Se não são as áreas sujeitas a desastres naturais, são aquelas de grande concentração de poluentes, como bordas de lixões e depósitos de resíduos industriais.

Nas décadas de 1960 e 70, especialmente aqui no Rio, vendeu-se a falsa ideia de que seria possível erradicar as favelas. Na verdade, o alvo do poder público foram aquelas localizadas na Zona Sul da cidade. A transferência de seus moradores para locais distantes produziu áreas altamente valorizadas, como a Lagoa e o Leblon. 

Já na década de 1990, teve início um processo de urbanização de favelas, o Favela-Bairro. No entanto, mesmo tendo sido internacionalmente reconhecido e replicado em outros países, ele foi paralisado pelo atual prefeito. Atualmente, a Cidade do Rio de Janeiro, assim como outras, não constrói habitação social, nem urbaniza suas favelas. Por mais estranho que isso pareça, o tema não esteve presente na campanha eleitoral municipal recentemente terminada. Realmente, não há motivos para surpresas com o dramático aumento das favelas.

Artigo publicado no Diário do Rio em 14 de novembro de 2024.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Viver, sonhar nas ruas

Rennes - foto RobertoAnderson

Eles, e elas, estão por aí, em quase todos os bairros das grandes e médias cidades. Mas, mesmo nas cidades pequenas, lá estão. A crise econômica passou, o Brasil está, tecnicamente, em situação de pleno emprego, mas os moradores de rua seguem existindo. 

Aparentemente, já não são as famílias despejadas pela violência econômica ou do crime organizado as que estão nas ruas. A melhora da situação do país, e talvez uma maior atuação das prefeituras, reduziu essa marca amarga do desabrigo. Também não se vê com tanta frequência aqueles bandos de crianças dormindo nas calçadas e cometendo pequenos delitos. Estarão os Conselhos da Infância e Juventude agindo? Com sorte, não teremos outra chacina da Candelária. 

Mas, seguem nas ruas os tipos apegados à mendicância ou simplesmente fora de órbita. Um pão conseguido aqui, uma quentinha ali, são suficientes para mantê-los por perto. O pedido é feito nas portas das padarias, nas varandas dos restaurantes, suas presenças incômodas quase se debruçando sobre os pratos. Despertam culpa ou repulsa, às vezes os dois sentimentos misturados. Com frequência conseguem alguma coisa. Me compra uma quentinha? Poucos dão atenção. Mas há sempre uma senhora, uma boa alma, que lhes atenda. 

São como cometas vindos de cracolândias distantes, vagando por bairros, especialmente os da Zona Sul do Rio, aos quais não se sabe como chegaram e por quanto tempo ali permanecerão. Despertam o receio da fixação de um novo ponto do vício. São parentes distantes do louco do bairro. Mas já não são vítimas da zombaria de crianças, que os olham assustados, puxados pelas mães. 

Alguns se fixam num local por um tempo. Varrem a calçada diante de suas tralhas e conquistam a simpatia de alguma vizinha que lhes leva algo de comer. Realizam pequenos serviços, como a guarda de carros nos horários em que o pessoal oficial já se foi, ou catam latas e materiais para reciclagem. Outros têm a atenção voltada para algo fora do mundo que os cerca, perambulam a esmo, se metem entre os carros com o sinal aberto, falam sozinhos, divagam sem nada concluir.

Difícil encontrar poesia, liberdade de espírito ou rebeldia onde o que sobressai é a triste figura do pedinte. Passantes podem desejar uma mágica que os faça desaparecer. Que deixem de atormentar as suas consciências. Mas não, eles seguem existindo e não há instituição pública que se interesse por eles.

Uns são tristemente jovens, e fica-se querendo adivinhar a pessoa de banho tomado e cabelos penteados que há muito se perdeu, a sujidade das ruas colada em seus corpos. Quem são, quem terão sido, que familiares terão deixado, existirá alguém que ainda pense neles?

Todas as noites dorme-se nas ruas sobre trapos ou restos de papelão. Às vezes o sono chega durante o dia. É quando o vai e vem dos passantes traz mais segurança. O caminho do sono lhes parece estranhamente fácil. Que bebidas, drogas ou cansaço lhes proporciona o abandono do sono na calçada suja, na terra fria, na porta dos estabelecimentos? Há tempos nos acostumamos com suas presenças. Pouco nos incomodamos.

Artigo publicado em 07 de novembro de 2024 no Diário do Rio

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Adeus ao pequeno palacete do Catete

Durante anos trabalhando no Centro do Rio de Janeiro, meu trajeto de ônibus passava pela rua do Catete. E, sendo adepto convicto dos sistemas de transporte público, isso significava aceitar certos perrengues. Mas, se fosse possível viajar sentado, e se o ar-condicionado estivesse funcionando, curtir a cidade pela janela era sempre um prazer. Ali na altura do Ciep Tancredo Neves, me deliciava com a visão dos sobrados que restavam do lado par da rua. O lado ímpar, naquele trecho, havia sido demolido para a construção do metrô, época em que se destruía o passado sem dó. Hoje essa destruição permanece, mas é mais envergonhada, silente. Mesmo assim, constante.

Em meio à fileira de sobrados daquele trecho de rua, havia um que particularmente me encantava. Era uma miniatura de um palacete barroco francês, uma obra do ecletismo, essa linha estética da arquitetura tão atacada pelos modernistas. Lá estava o pequeno sobrado com ares de superioridade entre seus pares. O que lhe conferia essa distinção era o telhado afrancesado em ardósia, com inclinação capaz de repelir a neve tropical. Havia também uma torre encimada por pináculos e janelas circulares de chapa metálica, salientes da superfície do telhado, à maneira das mansardas parisienses. 

Essa cobertura era todo o charme da edificação, já que sua fachada era semelhante às dos sobrados vizinhos. Mas ela ruiu. Foi consumida pelo fogo recente que a destruiu, na rua do Catete 48. Mais um sobrado destruído na cidade. Diz-se que andava invadido por população de rua. Se esse era o caso, o incêndio era uma questão de tempo. Como pode uma cidade não dar atenção ao seu rico Patrimônio?

É preciso deixar a imaginação fluir para tentar entender como aquela pequena joia foi erguida no Catete. Recriar os sonhos de grandeza de seu construtor. Ali perto, estava o Palácio que era a residência do presidente da República. Construir uma miniatura de um palácio francês certamente atrairia a atenção dos poderosos. A admiração de quantos teria captado? Quem teria se hospedado no seu sobrado? Que saraus ali teriam sido promovidos? 

A eternidade, a permanência, seria a recompensa desejada, e merecida, pelo esforço do construtor. Mas não, no século XXI o pequeno palacete ruiu ante um incêndio. Quem terão sido os herdeiros? Por que brutalidade da alma não seguiram cuidando do imóvel? Ou que catástrofe financeira teria se abatido sobre a família a ponto de não mais seguir cuidando do legado de um antepassado sonhador?

Ainda não tive coragem de ir ao local para ver a ruína desse bem que tanto me encantava. Já sei que o caminho até o Centro não será o mesmo. Uma lacuna na paisagem estará ali gritando que o mundo a que me afeiçoei vai desaparecendo.

Alguns privilegiados viajam diversas vezes às belas cidades europeias, como Paris, Londres, Amsterdam ou Roma. E sempre reencontram os marcos arquitetônicos que a todos fascinam. No Rio, vi desaparecer o Palácio Monroe na Cinelândia, o Solar do Visconde de São Lourenço na Lapa, a Fábrica da Brahma no Catumbi, os armazéns da Área Portuária, e uma infinidade de pequenos palacetes e sobrados, consumidos pela ação de proprietários embrutecidos ou pela omissão dos governos. Bem próximo ao pequeno palacete que ruiu, está outro maior, o São Cornélio, em longo processo de arruinamento que nada parece ser capaz de interromper. 

Percebo que o pequeno palacete do Catete ocupava um lugar de distinção nos elementos da minha paisagem particular. Ele se foi e o fato de saber que não mais existe é um incômodo de grande proporção. Ver o seu mundo desaparecer, perder referências, será isso também morrer? Talvez sim. Morre-se lentamente quando as coisas à sua volta, as pessoas e as ideias deixam de fazer sentido. Mas aqui retira-se violentamente elementos da paisagem que marcam nossas vidas. É triste. 

Artigo publicado em 31 de outubro de 2024 no Diário do Rio.