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| Suvaco do Cristo - foto Roberto Anderson |
E, aos 40 anos de idade, o Suvaco do Cristo se despediu do carnaval. Muita gente se pergunta por que o Suvaco acabou. A resposta pode ser o cansaço. A turma que o organizou nessas quatro décadas é praticamente a mesma. E colocar um bloco na rua dá muito trabalho. Se for um bloco "oficial", ou seja, que aceita seguir as regras da Prefeitura do Rio de Janeiro, aí a coisa é infernal. E cara.
Lá pelos anos 60 a 80 do século passado, a Prefeitura só enfeitava as ruas, que eram liberadas para o que viesse a acontecer. Havia até concurso para a decoração carnavalesca da cidade. Mas, com o renascimento do carnaval de rua, as exigências da Prefeitura para os foliões só aumentaram. Os organizadores dos blocos têm que contratar ambulâncias, banheiros químicos, organizadores do trânsito e atender a uma enorme burocracia. Já no caso das escolas de samba o tratamento é o oposto. A Prefeitura oferece o próprio Sambódromo, os espaços para criar os carros alegóricos e as fantasias e a verba para custear o desfile das escolas. Há aí uma enorme discrepância em relação ao tratamento dado aos blocos.
Mas, para além do cansaço, há também as mudanças pelas quais o carnaval de rua carioca passou. Lá no início do Suvaco, e também dos seus contemporâneos Simpatia é Quase Amor e Barbas, na Zona Sul só havia a Banda de Ipanema. A classe média carioca até fugia para a Serra ou a Região dos Lagos. O Suvaco, como disse o seu presidente, João Avelleira, trouxe picardia para a festa. E ainda enfrentou a ira da igreja, que se achava dona da figura do Cristo. Os desfiles, que no início eram familiares e caseiros, despertaram a atenção de milhares de jovens que passaram a lotar o bloco. Não à toa, a sua saída passou a ser bem cedinho, para despistar. Essa é uma marca que vem sendo adotada por muitos blocos atuais.
Seguindo a picada aberta pelo Suvaco, vieram depois um sem-número de blocos. Mas, a maioria deles tinham como modelo as escolas de samba. Vinham com samba enredo, às vezes, com alas de baianas, e os núcleos de suas baterias eram emprestados de escolas de samba menores. O Suvaco teve bons sambas enredos, como o composto por Lenine. Mas, não deixavam de ser samba-enredo de “brancos”. Além disso, a estrutura era verticalizada, com músicos e baianas pagos para darem a alma do bloco, e animar a festa da moçada. O Suvaco, muito apropriadamente, até criou uma contrapartida, a ação comunitária Divinas Axilas, em que costureiras da Favela Santa Marta produziam fantasias e adereços para gerar renda.
Com o tempo, a garotada, que acompanhava os pais e avós nesses blocos trintões e quarentões, tomou gosto pela coisa e resolveu também sair criando seus próprios blocos. E as multidões de adolescentes que seguiam o Suvaco se dispersaram. Como não poderia deixar de ser, esses novos blocos são muito diferentes daqueles dos seus pais. Neles, os músicos são a turma que dá início e a cara da coisa. As suas preferências musicais definem a personalidade dos blocos. Há os de marchinhas antigas, de música latina, de funk, de reggae, de maracatu, de fanfarras e de música eletrônica. A estrutura é horizontal, sem patrões. Nesse ponto, se aproximam dos antigos blocos de sujo. E boa parte desses blocos se recusa a entrar na ciranda de legalização da Prefeitura.
O cansaço que levou ao fim do Suvaco já tinha produzido o fim do Bloco de Segunda. É o Carnaval carioca se renovando. Hoje há tantos blocos, que fica difícil acompanhá-los. Há ainda os secretos, que só iniciados ficam sabendo onde sairá. O Suvaco vai deixar saudades. Fez muito pelo Carnaval de rua do Rio, renascido depois de quase morrer. Teve uma vida longa, afinal, quarenta anos numa festa anárquica como o Carnaval é uma eternidade. Facilitaria muito a vida do folião se a Prefeitura, com os patrocínios que tem, assumisse a responsabilidade de prover a infraestrutura para a festa. No Sambódromo e nas ruas. Muitos outros blocos com a irreverência do Suvaco do Cristo apareceriam.
Artigo publicado em 13 de fevereiro de 2026 no Diário do Rio.

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