quinta-feira, 2 de abril de 2026

Uma tarde na Rua da Alfândega

Foto Gabriela Melgaço Merino

Dia desses passei algumas horas na Rua da Alfândega observando os seus sobrados. Há pessoas que observam pássaros e há até quem observe trens, aviões ou caminhões. Uma parte dos arquitetos tem mania de observar sobrados e imóveis antigos. E de fotografá-los. Ah, como são interessantes os sobrados da Rua da Alfândega!

Essa rua dá nome à SAARA, sendo uma de suas principais vias. Ali há de tudo, como de resto em toda aquela área comercial. São muitas lojas de roupas, de bugigangas vindas da China, que devem ser itens de primeira necessidade para quem as compra, lojas de bolsas e de mochilas, lojas de artigos para festas, e lanchonetes. E há também muitas joalherias, geralmente guardadas por algum segurança sentado numa banqueta alta do lado de fora da loja, mas voltado para o seu interior.

Aliás, esses lojistas de joias foram os que alertaram os seguranças da SAARA para o fato de que havia um sujeito curioso tirando fotos das lojas, talvez mal-intencionado, quando o interesse era apenas a arquitetura mesmo. O segurança, até com educação, veio transmitir a absurda regra de que seria proibido fotografar os sobrados daquelas ruas, porque os comerciantes ficariam nervosos. Quem sabe, as fotos seriam para arquitetar não um projeto de pesquisa, mas um plano de roubo das lojas e das joalherias... Ser observador de sobrados tem desses perrengues.

A rua da Alfândega é protegida pela Igreja de São Gonçalo Garcia e São Jorge. Apesar de haver uma sociedade limitada de santos na mesma igreja, todos só a conhecem como a Igreja de São Jorge. E o santo faz questão de dominar o pedaço, com sua imagem montada a cavalo em tamanho natural próxima ao altar. É ela o foco das atenções e orações dos devotos do santo, e de Ogum, especialmente em dias dedicados a festejá-lo.

São relativamente poucos os sobrados em mau estado de conservação ali na Alfândega. Muitos se encontram bem pintados ou, no máximo, com alguma mancha na pintura pela ação do tempo e da umidade. A combinação de cores é sempre alegre, com azuis, verdes, rosas e cremes dominando as superfícies das paredes. E ornatos em cores claras, numa profusão de mísulas, florões, frisos, datas de construção e nomes das ordens religiosas proprietárias dos imóveis. As portas e janelas são guarnecidas por cercaduras de pedra. 

Se o observador for atento, perceberá a riqueza do trabalho de serralharia dos balcões. Vistas à distância, lembram obras de filigranas. Aqui pequenas colunas constituídas por folhas, ali dragões longilíneos a guardar os senhores da casa. Não só os detalhes de suas decorações são fascinantes, como também os formatos dos balcões. Alguns são bojudos, outros são retos e diretos. Alguns são discretos, outros estão ali como peças mais vistosas da decoração. Também as peças de granito em que estão assentados são dignas de apreciação. Geralmente seguem tamanhos padronizados de corte, e suas emendas são, às vezes, quase imperceptíveis. 

Esses sobrados foram salvos do apagamento e da destruição pelo projeto Corredor Cultural. Apagamento porque muitos deles tinham suas características escondidas atrás de gigantescos painéis de propaganda ou estavam pintados de preto para não aparecerem. Destruição porque os projetos pretensamente modernizadores da cidade, como a inacabada avenida Norte-Sul, pretendiam terminar o trabalho de demolição já iniciado com a abertura das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas. Hoje estão aí, recuperados, abrigando um comércio variado e fazendo a alegria de quem se detém a observá-los.

Artigo publicado em 02 de abril de 2026 no Diário do Rio.

2 comentários:

  1. Muito interessantes as observações do Roberto Anderson sobre aquilo que há para ser visto e aquilo que se perde no cotidiano quando não prestamos atenção na riqueza arquitetônica da nossa tão maltratada mas tão querida cidade!

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  2. Roberto, sorte nossa que compartilhamos o seu interesse e sua delicadeza de fino observador do cotidiano quase apagado do Rio de Janeiro.

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