sexta-feira, 27 de março de 2026

Casa vazia

Nesta semana o governador do Estado do Rio de Janeiro renunciou, deixando o cargo vago até que nova eleição, neste caso indireta, seja realizada. O governador tinha boas razões para sair antes da hora. O processo que poderia cassá-lo por abusos no processo eleitoral em que foi reeleito havia sido retomado. De forma absurdamente tardia, ele acabou sendo condenado. Renunciou ao mandato, mas terminou inelegível. O vice-governador já havia renunciado antes, em troca de um cargo vitalício no Tribunal de Contas. E o próximo na linha de sucessão, o presidente da Assembleia Legislativa, esteve recentemente preso, perdendo o direito de suceder o governador renunciante. De maneiras que o Palácio Guanabara, pelo momento, é praticamente uma casa vazia.

Já virou lugar comum dizer que os eleitores do Estado do Rio de Janeiro votam de forma bastante descuidada. Antes do que agora saiu, e terminou condenado, cinco governadores anteriores foram presos e um sofreu impeachment. Esse caos político tem consequências terríveis para o Estado na qualidade da saúde e da educação, na violência crescente e na perda de pujança da economia fluminense. Neste ano teremos a oportunidade de escolher um novo governador. É hora de discutir o que se deseja desse novo ocupante do Palácio Guanabara.

O ensino médio no Estado do Rio, de responsabilidade do governo estadual, caiu na avaliação do IDEB de 2023, ficando na mais baixa posição no Sudeste. O número de matrículas em tempo integral teve redução de 3,7 mil entre 2022 e 2024. E o Estado do Rio é o único do Brasil a não ter aprovado legislação de repasse do ICMS para a educação, o que permitiria receber mais recursos do Fundeb. Esse descaso com a educação está comprometendo o futuro dos jovens da classe trabalhadora, já que os demais, em sua maioria, estão em escolas privadas. 

O desenvolvimento econômico no Estado do Rio de Janeiro é bastante assimétrico. A Região Metropolitana, que concentra a maioria da população, vem se mostrando menos dinâmica e incapaz de oferecer os postos de trabalho que sua população necessita. Isto tem reflexos em disparidades no desenvolvimento econômico das diversas regiões. Seria interessante um programa de descentralização do desenvolvimento através do reforço a potencialidades já existentes nas cidades fluminenses. Seria importante também o reforço do planejamento na escala metropolitana. Apesar da recriação de uma entidade metropolitana no Estado do Rio e da elaboração de planos coordenados por Jaime Lerner, quase nada vem sendo implementado.

Os sistemas de transportes de alta capacidade, trens e metrô, até aqui uma responsabilidade do governo do Estado, estão em péssimas condições. O metrô do Rio tem a tarifa mais cara do país e roda em linhas confusas, que se interpenetram. E sequer ultrapassa os limites da capital, como se fosse um sistema municipal. O governador tornado inelegível, mesmo com dois mandatos, não conseguiu inaugurar nenhuma nova estação. Já os trens, cujas linhas encolheram, vêm perdendo passageiros pela falta de confiança no sistema e pelo desconforto.

Há no Estado do Rio um imenso passivo ambiental a ser enfrentado e enormes desafios trazidos pelo desenvolvimento econômico pouco cuidadoso com o meio ambiente. A tão sonhada, e prometida, despoluição da Baía de Guanabara continua como um desafio que não encontrou solução por parte do Estado. A maior parte dos rios da Região Metropolitana estão gravemente poluídos e a noção de desenvolvimento sustentável se encontra ausente das ações do governo.

Há décadas não há concurso para novos funcionários públicos, ficando a administração estadual dependente de contratados, geralmente por indicação política. O reajuste salarial prometido aos funcionários não foi pago e os aposentados correm o risco de ficar sem suas aposentadorias no futuro, já que os recursos do sistema de aposentadoria foram jogados na lixeira do Banco Master.

Será este é o ano para se tentar deixar no passado esse histórico de maus governadores no Estado do Rio de Janeiro? Os eleitores têm esse poder. Mas esquemas de currais eleitorais, áreas dominadas pelo tráfico e pela milícia, e o poder dos maus pastores têm conseguido impedir que as eleições gerem avanços. Na verdade, o atraso segue à espreita. Ao final do ano saberemos se mais uma vez ele venceu.

Artigo publicado em 27 de março de 2026 no Diário do Rio.


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