O velho morou quase que a vida toda na sua cidade, mas ela agora lhe parece estranha. Muitas coisas mudaram. Muitas pessoas novas chegaram. Seus antigos amigos não estão por aí. Se foram, e isso lhe dói saber, ou saem pouco de casa.
Mas o velho gosta de sair, de fazer pequenas compras para abastecer a despensa. A cada dia traz algumas poucas coisas. O velho gosta que lhe deem bom dia. Gosta de reconhecer simpatia em estranhos. E espalha migalhas de pão pelo caminho, para que os passarinhos da redondeza venham catar.
O velho já perdeu a paciência com as coisas erradas que vê. Chama a atenção de quem joga lixo na rua. Não permite que o espertinho tente furar a fila. Ele logo pergunta: tem certeza de que seu lugar é aqui? O velho, nem tão velho, lamenta não dispor de uma bengala para golpear o motoqueiro abusado, que avança o sinal, ameaçando a sua calma na travessia da faixa.
O velho é capaz de perder as estribeiras. Ao ver o motorista nervoso, que não para de buzinar no sinal, reage de volta. A plenos pulmões, com o ar que lhe resta, grita: pare de buzinar, que meu ouvido não é penico!
O velho está cansado de guerras. Das suas particulares e das do mundo. Ele não se lembra de um momento em sua vida em que não tenha havido guerras. Mesmo que pequenos, sempre houve conflitos. E ele já sabe que, de alguma forma, os americanos estão sempre envolvidos.
O velho já teve ideais. Já discutiu por política na rua. Mas, agora perdeu a confiança nos políticos. Aliás, ele os despreza. Sabe que, na maioria das vezes, agem em seu próprio benefício. Ele gosta de votar. Mas está em dúvida se está valendo a pena. E recebe mensagens dos seus contemporâneos que são muito confusas. Tantas barbaridades contra o governo, que ele até desconfia.
O velho adora crianças, especialmente as não birrentas e não prisioneiras de jogos de celular. Talvez pense que as crianças sejam atemporais. E elas, as mais doces, gostam do velho. Respondem seus acenos. Riem de suas caretas, põem a língua para ele de volta.
O velho sente dores nas juntas. Adia a necessária ida ao médico, mas não esquece a ida à farmácia, onde deixa boa parte de suas economias. O velho veste roupas surradas porque tem apego a elas. Já não liga para roupas passadas a ferro, mas detesta meias furadas. Gasta só o necessário, mas o dinheiro para alguma caridade é sagrado.
O velho sente o peso da gravidade, que o quer curvo em direção ao chão. Mas ele resiste, tentando se manter empertigado. O velho almeja morar na quadra da praia, para entrar no mar todos os dias. Mas, o dinheiro que lhe resta é curto. Sabedoria é ficar em casa, para aproveitar ao máximo o valor do aluguel.
Ele já percebeu que a morte chega aos poucos. E já não a teme. Mas tem dúvidas se, como cantou Caetano, o homem velho é mesmo o rei dos animais.
Artigo publicado em 05 de março de 2026 no Diário do Rio.

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