O Viaduto 31 de Março (que nome infeliz!), que conecta o Túnel Santa Bárbara à Área Portuária, é parte da Linha Lilás, uma das linhas cromáticas planejadas para o Rio de Janeiro, na década de 1960, pelo urbanista Doxiadis. A obra, muito ligada ao rodoviarismo, a política de priorizar o automóvel, atormentou a vida dos moradores do Catumbi por mais de três décadas. A construção do viaduto também seccionou o bairro, gerando um enorme problema urbano para aquela região.
Para viabilizar a sua construção, um grande número de casas e sobrados foram demolidos, desestruturando o tecido urbano do bairro, retirando famílias dali e criando vastas áreas inóspitas e inseguras. O livro "Quando a Rua Vira Casa", de 1981, resultado da pesquisa realizada por Arno Vogel, Marco Antônio da Silva Mello e outros, retrata a vida dos moradores do Catumbi e como ela foi afetada pelas demolições para a construção do viaduto. "Residências, casas comerciais, fábricas, oficinas, bares e botequins, cinemas, clubes e templos, foram riscados do mapa, juntamente com as ruas, calçadas e esquinas, por onde corria o fluxo buliçoso da diversidade."
Em 1984, no primeiro governo Brizola, a construção do Sambódromo repetiu o mesmo equívoco, com a demolição das casas populares que ladeavam a rua onde ele seria erguido, provocando mais retirada de vida urbana e aprofundamento do seccionamento do bairro. Da antiga rua só sobrou o nome do lugar onde ocorrem os desfiles das escolas de samba.
Como se toda essa destruição não fosse suficiente, em 2011, visando adaptar o Sambódromo a algumas provas das Olimpíadas, Eduardo Paes forçou o destombamento deste equipamento, e do seu entorno, para que a antiga Cervejaria Brahma, um marco histórico da área, fosse demolida. O prefeito ainda se deu o infame prazer de acionar a implosão da cervejaria, que bem poderia ter sido reciclada como um equipamento cultural para o bairro.
Depois de tantos traumas, o Catumbi agora é novamente objeto de um projeto de renovação urbana, que pretende demolir o elevado 31 de Março e construir edifícios e novos espaços públicos em seu lugar. O projeto vem com a marca "maravilha", anteriormente atribuída à renovação da Área Portuária. Assim como naquele local, estão previstas arrecadações com a venda do potencial construtivo dos futuros edifícios e a semelhante demolição de uma obra rodoviária.
O curioso é que a marca é usada como se o projeto Porto Maravilha fosse um grande sucesso. Muito ao contrário, a maior parte daquela região permanece desocupada e a maioria dos certificados de potencial construtivo, emitidos na operação Porto Maravilha, encalharam. Continuam em mãos da Caixa Econômica, que amarga um baita prejuízo com esse investimento. Além disso, os antigos moradores da região, em geral pobres, foram expulsos.
Como o nome Catumbi é pouco glamouroso, ele desaparece no projeto atualmente em discussão pela Prefeitura, que ganha o nome da praça que existiu nas proximidades do Catumbi, a Praça Onze. Esta é outra que também foi engolida por reformas urbanas modernizadoras. O "desaparecimento" do Catumbi deverá se acentuar com a planejada chegada de centenas de novos moradores, ou de hóspedes de apartamentos para locação de alta rotatividade, em prédios voltados para um público bastante distinto daqueles moradores que ainda hoje resistem no local, em sua maioria de baixa renda.
A demolição do elevado 31 de Março é apresentada como medida de reconexão entre as partes do bairro, até aqui separadas. Mas, é importante lembrar que outro elemento ainda mais duro do que o elevado, o Sambódromo, continuará ali, cortando o tecido urbano do Catumbi. E, como o projeto aparentemente não cria uma alternativa de ligação viária com a Área Portuária, atualmente feita pelo elevado, este último poderá ficar mais isolado.
O Praça Onze Maravilha é mais um desses projetos que surgem sem um concurso de ideias e projetos, o que anteriormente já foi bastante combatido por órgãos de classe dos arquitetos, como o IAB. Ele exigirá mais anos de sacrifício dos moradores, que novamente conviverão com obras de longuíssima duração. Ao final, é até possível que seja criada uma nova centralidade. Mas, ela jamais trará de volta a vida simples e prazerosa que havia no Catumbi antes do seu atravessamento pelo "progresso" a qualquer custo.
Artigo publicado em 12 de março de 2026 no Diário do Rio.

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