sexta-feira, 12 de junho de 2026

Bom passeio na Boa Morte

Igreja de São José da Boa Morte - foto Roberto Anderson

Em Cachoeiras de Macacu, quase na fronteira com Guapimirim, existe a ruína de uma igreja, cuja história vale a pena conhecer. É o que restou da Igreja São José da Boa Morte. Tal como o Convento São Boaventura, em Itaboraí, a região em que ela está foi assolada no século XIX por epidemias de febre amarela e malária, levando os moradores a fugirem do local para sobreviverem. O tempo, ajudado pela ação de saqueadores em busca de improváveis tesouros enterrados nas paredes do templo, fez o seu trabalho de roer revestimentos, derrubar telhados e carcomer a alvenaria. Durante muitas décadas a antiga igreja permaneceu isolada numa pequena elevação sobre um descampado, como imagem fantasmagórica do que um dia havia sido.

As epidemias que assolaram o Brasil naquela época provocaram enormes sofrimentos para a população aqui residente e para os imigrantes recém-chegados. A região de Cachoeiras de Macacu e arredores foi atingida entre os anos 1828 e 1833 por um intenso surto de malária, conhecida como a Febre de Macacu. Ela obrigou à transferência da antiga Vila de Santo Antônio de Sá, onde hoje se encontram as ruínas do Convento de São Boaventura, para a atual Itaboraí. Em Cachoeiras de Macacu, as pessoas atingidas pela febre se refugiavam na Igreja de São José da Boa Morte, esperando por seu fim. Já a febre amarela teve seu primeiro grande surto no Estado do Rio de Janeiro nos anos 1849 e 1850. Ele teve início na capital e logo se alastrou pelo interior, chegando até às regiões serranas. O segundo surto se deu em 1870.

A igreja de São José da Boa Morte original era mais simples, de pau-a-pique, construída por volta de 1734 por uma Irmandade. Como o santo teria tido uma morte serena, assistido por seu filho, Jesus, e por Maria, ele, além de outras causas, passou a ser o padroeiro de uma morte tranquila, o desejo de tantos quantos alcançam a velhice. No século XIX a igreja foi reformada, passando a ter paredes de alvenaria, pisos de mármore e revestimentos de azulejos. A igreja contava com um coro e uma torre sineira. Mas o abandono cobrou um alto preço e, da antiga igreja só sobraram as ruínas, sem a cobertura, sem o piso, sem a torre dos sinos, sem portas e janelas. As paredes bem construídas resistiram ao tempo, dando aos moradores locais um motivo para que considerassem aquela construção parte do seu patrimônio.

Foi o interesse que esses moradores dedicavam ao lugar que levou o Inepac a tombar a edificação, assim mesmo como ruínas, com a dura passagem do tempo incorporada à sua feição. Pelo tombamento, a ruína deveria ser preservada, e não mais voltaria a ser uma igreja com telhado e portas como as demais. A beleza deste monumento era justamente o testemunho do tempo, o embate entre as forças da natureza e um objeto construído pelas mãos dos homens, que insiste em existir.  

No entanto, o tempo e o abandono continuaram agindo sobre as ruínas, que no futuro poderiam não mais existir. Foi aí que uma história bonita começou a ser tecida. Em 2014, os alunos Carolina Leal, André Xavier e Millena Cutilada, do curso de arquitetura da PUC-Rio, desenvolveram um trabalho acadêmico voltado para a consolidação da ruína da Igreja de São José da Boa Morte e a valorização dela como elemento na paisagem cultural de Cachoeiras de Macacu. A Prefeitura local tomou conhecimento do projeto e o adotou trabalhando para que, de alguma forma, o projeto se transformasse em realidade.

Durante esses anos, a proposta foi aperfeiçoada, patrocínios foram buscados, com as bênçãos da lei Rouanet e o apoio da Prefeitura de Cachoeiras de Macacu. O entulho acumulado por décadas foi retirado e nele foram recuperados fragmentos de cerâmica e vidro da época. Essas peças estão expostas num Centro de Visitantes construído próximo à ruína. A vegetação invasiva que ameaçava a igreja foi retirada e as suas estruturas foram consolidadas. Também foi criada uma nova estrutura no lugar do antigo coro e uma plataforma na área do antigo altar.

As alvenarias de pedra e tijolo das paredes estão à mostra, assim como o arco cruzeiro. Ao chegar, o visitante já se depara com a bela fachada da igreja, com sua larga portada, encimada por três janelas do coro e um frontão de ponto elevado. Todos os vãos vazados antecipam o prazer de se reencontrar com esse viajante do tempo. O projeto foi desenvolvido pela Elysium Sociedade Cultural, sob a responsabilidade da arquiteta Jéssica Marques. A pesquisa histórica foi feita por Rachel Wider e a obra foi conduzida pela empresa Biapó. O sonho de consolidação da ruína tornou-se realidade. 

Artigo publicado em 12 de junho de 2026 no Diário do Rio.

 

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