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| Foto Jeremias Freitas |
Fiz o curso primário no Colégio São Vicente de Paulo, o colégio das irmãs de caridade que existiu na Tijuca. Era assim que se chamava o primeiro grau e o colégio ficava no alto da pequena elevação que tem na base o Santuário da Medalha Milagrosa.
Lá, as aulas de geografia eram também um pouco aulas
de arte. Os livretos da matéria vinham com mapas em branco que precisavam ser
coloridos. E as freiras caprichavam nessa tarefa. Éramos instruídos a raspar as
pontas dos lápis coloridos com uma faquinha. A raspagem tinha que ser bem fina,
para gerar um pó colorido. Depois, com pequenos chumaços de algodão, íamos
espalhando aquele pó sobre os mapas do Brasil, separando os estados por cores.
Como eram muitos, e os estojos de lápis tinham opções limitadas, precisávamos
ter cuidado para não deixar estados contíguos com a mesma cor.
Ao passar o algodão, de forma bem leve sobre aquele pó
colorido, criava-se um esfumaçamento, quase transparente, que era o resultado
esperado. O ruim era quando havia pedacinhos da ponta do lápis que, levados
pelo algodão, geravam riscos na mancha colorida. Era o sinal de que os cuidados
na raspagem do lápis e na leveza ao passar o algodão não tinham sido
suficientes.
Coloríamos mapas do Brasil, da Guanabara, dos bairros
e dos acidentes geográficos. A Serra da Tijuca era verde escuro, os rios,
lagoas e o mar eram azuis e as áreas urbanas marrons. O resto da folha, no
entorno do mapa, também podia receber uma cor. Quem sabe um vermelho ou um
amarelo. Tudo bem óbvio, para ser gravado na memória, e com o tempo necessário
para que aquele trabalho artístico fosse bem realizado.
Entre os nomes das serras cariocas, um sempre me
chamava a atenção, tanto que não o esqueci: a Serra dos Pretos Forros. Para uma
criança o nome parecia meio esquisito. Por que dar o nome de um tecido a uma
serra? A professora jamais explicou. E criança, às vezes, tem fixação em nomes
e expressões. O nome soava bonito e nunca me abandonou. Volta e meia me
lembrava dos pretos forros, nessa ordem gramatical então curiosa, em que o que
parecia adjetivo vinha antes do substantivo.
Só mais tarde vim a saber que a serra entre os bairros
de Água Santa e Lins e Vasconcelos, dividindo as zonas Oeste (Jacarepaguá) e
Norte (Grande Meier), tinha sido o caminho de escravizados fugindo em direção a
quilombos que se formaram no Maciço da Tijuca, da qual a serra faz parte. E
também de negros alforriados dos engenhos das redondezas que por ali foram se
instalando. Daí o nome.
Como é interessante o conhecimento! Uma vez sabedor
dessa história de resistência à opressão da escravidão, a ordem das palavras
pretos forros nunca mais deixou de fazer sentido. É com gosto que as pronuncio.
Desde o ano de 2000, a serra passou a ser uma Área de Proteção Ambiental e é
também parte de um dos quatro setores do Parque Nacional da Tijuca.
Apesar de sua história e beleza paisagística, a APA
dos Pretos Forros sofre com a pressão por sua ocupação pela mancha urbana,
especialmente em suas áreas mais íngremes, que vêm sendo ocupadas por moradia
irregular de baixa renda. Segundo estudo de Samara Silva dos Santos e Carlos
Eduardo das Neves[1],
a área urbana da APA passou de 22,68% em 1993 para 28,55% em 2024. Vale indicar
que nesse período houve também um avanço das áreas florestadas, que
substituíram áreas de agropecuária.
Hoje aquele colégio já não existe e a Guanabara foi um
sonho que durou pouco. Os mapas seguem mudando. O Brasil ganhou novos estados e
países mudaram de nomes. E as crianças têm à disposição estojos de lápis
de cor mais generosos. Aliás, nem sei se ainda colorem mapas com aquela técnica
de raspagem dos lápis coloridos. Mas a Serra dos Pretos Forros segue
firme, guardando suas histórias de fuga da violência do passado e de
resistência à pobreza no presente.
Artigo publicado em 16 de abril de 2026 no Diário do Rio.
[1] SANTOS & Neves, Mudanças na
dinâmica socioambiental da APA Serra dos Pretos Forros entre 1993 e 2022 – Rio
de Janeiro – DOI 10.51308/continentes.v1i27.621.

Que beleza de texto Roberto! Sensível e delicado. Obrigada por me levar de volta à minha infância. Eram « mapas mudos » e a eles tínhamos de dar voz, não era pouca coisa!
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