![]() |
| Foto Roberto Anderdson |
Vocês que estão aí, na Cinelândia, de boca aberta diante desse teatro têm razão, ele é mesmo estupendo. Reparem na escadaria, nas colunas coríntias e nos balcões. E os vitrais, viram como são belos? Se voltarem mais à noite, verão a luz interna passando por eles e a magia das formas coloridas acontecendo. Reparem nesse telhado de cobre. Percebam que ele começa a perder a pátina artificial, feita no último restauro, e a pátina natural está se formando. Mas, por agora, há um tom amarronzado querendo aparecer. É normal, o cobre tem vida própria e vai mudando de cor até chegar no verde do azinhavre.
Aproveitando que estão olhando para cima, aposto que
não deixaram de notar a grande águia dourada, sobre a cúpula mais
alta, e os ornatos da cobertura também dourados. Pois saibam que esse
atual douramento quase não aconteceu. Ele havia existido nos primórdios do
teatro. Mas a reação química com o cobre terminou por consumi-lo. Era preciso
refazer esse trabalho, mas quem dominava essa técnica por aqui? O douramento
sobre cobre é diferente do que existe nas talhas de madeira em nossas igrejas barrocas.
Foi preciso buscar o Sr. Fabrice Gohard, que já havia
feito esse trabalho para a cobertura da Ópera de Paris e para a tocha da
Estátua da Liberdade. Sim ela é dourada, não é falsa feito aquelas de certa
loja de departamentos. O Sr. Gohard e a sua equipe trabalharam um bocado para
dar conta de tantas peças a receber aquelas finíssimas folhas de ouro. Depois
de grudadas nas superfícies dos ornatos, elas permanecem lá para brilhar por
muitos e muitos anos.
Olá, você que mostra seu ingresso para o porteiro
escanear o código de barras. Perceba que ele geralmente é jovem, está
bem-vestido e não dá muita atenção a você, mas sim ao seu bilhete. Mas, saiba
que nem sempre foi assim. Lá pela década de 1970, os porteiros eram
funcionários não muito bem pagos, que olhavam nos olhos de quem chegava à
porta. Em troca de deixar alguns entrarem sem ingressos, aceitavam uma
gorjeta furtiva. Aos olhos atuais, isso pode parecer escandaloso. Mas era a
salvação da lavoura para jovens artistas sem dinheiro, que desejavam muito ver
seus ballets e suas óperas favoritas.
Os funcionários do Theatro estavam há tanto tempo na
casa, que aqueles que lidavam com o público conheciam os espectadores mais
assíduos pelos nomes. Eles puxavam uma conversa, perguntavam pela família e
contavam um pouco das suas vidas. Do filho que já vai para a faculdade e do
esforço para pagar as mensalidades.
Ei, menina, estudante de ballet, que está fazendo uma
pose diante dessa escada que leva ao nível do balcão nobre. Depois da foto,
repare nos mármores e nos ônix verdes que a compõem. E também nas figuras
femininas no início dos corrimãos. Ah, não deixe de apreciar a escultura em
mármore de Carrara, que preside a sua subida. Ela se chama A Verdade e está ali
para tornar a sua ida ao teatro mais esplendorosa.
Vocês três aí no Foyer do teatro. Olhem para cima e
observem a magnífica pintura A Música, de Eliseu Visconti. Percebam que é feita
numa técnica pontilhista, em que milhares de pequenas pinceladas, neste caso,
se sobrepõem à pintura das figuras e formas, as quais têm reflexos do
impressionismo. Ao entrarem na sala de espetáculo, verão no teto a pintura As
Horas, além das pinturas do proscênio e do pano de boca, todas do mesmo
artista.
Mas, antes, muito cuidado ao se debruçar sobre esses
balcões que se projetam acima da grande escada. A balaustrada de um deles já
despencou sobre os degraus lá embaixo. Ocorre que o Theatro Municipal se
equilibra sobre centenas de estacas de madeira, mergulhadas na lama do subsolo
da Cinelândia. A cada composição do metrô que passa, a cada ônibus mais furioso
que cruza a Praça Floriano, tudo balança milimetricamente. O ajuste das peças
se alarga, microtrincas surgem nas paredes de mármore, e tudo isso acaba por
deixar a balaustrada meio solta. Mas, não se preocupem tanto, ela já foi
recuperada e hoje não vai cair com vocês.
Por falar em subsolo, recomendo ao senhor que chegou
cedo para o concerto, a ópera ou o balé, que dê um pulinho lá no térreo, onde
fica o Salão Assyrio. Entre colunas encimadas por touros, seres alados,
arqueiros, fontes e mosaicos, representações em cerâmica esmaltada de Gilgamesh
dominando um leão e de Dario I apunhalando o gênio do mal lhe convidam a se
deixar enredar em contos e fábulas orientais.
Já de volta à plateia, daqui a pouco vai começar o
espetáculo. Nesse momento, os maquinistas estão a postos para fazer os cenários
subirem e descerem na hora certa. Os contrarregras já colocaram todos os
objetos em cena. O pessoal da iluminação trabalhou pesado para afinar todos os
refletores, cada um pendurado na sua vara. O diretor de palco está atrás da
cortina ainda fechada e é ele quem vai dizer quando o terceiro sinal pode ser
dado. Logo após esse sinal, as luzes da plateia começarão a se apagar.
Aprecie este momento de sublime expectativa. Há poucas emoções iguais a essa.
Bom espetáculo!
Artigo publicado em 30 de abril de 2026 no Diário do Rio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário