quinta-feira, 30 de abril de 2026

Recomendações sentimentais acerca de um certo Theatro

Foto Roberto Anderdson

Vocês que estão aí, na Cinelândia, de boca aberta diante desse teatro têm razão, ele é mesmo estupendo. Reparem na escadaria, nas colunas coríntias e nos balcões. E os vitrais, viram como são belos? Se voltarem mais à noite, verão a luz interna passando por eles e a magia das formas coloridas acontecendo. Reparem nesse telhado de cobre. Percebam que ele começa a perder a pátina artificial, feita no último restauro, e a pátina natural está se formando. Mas, por agora, há um tom amarronzado querendo aparecer. É normal, o cobre tem vida própria e vai mudando de cor até chegar no verde do azinhavre.

Aproveitando que estão olhando para cima, aposto que não deixaram de notar a grande águia dourada, sobre a cúpula mais alta, e os ornatos da cobertura também dourados. Pois saibam que esse atual douramento quase não aconteceu. Ele havia existido nos primórdios do teatro. Mas a reação química com o cobre terminou por consumi-lo. Era preciso refazer esse trabalho, mas quem dominava essa técnica por aqui? O douramento sobre cobre é diferente do que existe nas talhas de madeira em nossas igrejas barrocas.

Foi preciso buscar o Sr. Fabrice Gohard, que já havia feito esse trabalho para a cobertura da Ópera de Paris e para a tocha da Estátua da Liberdade. Sim ela é dourada, não é falsa feito aquelas de certa loja de departamentos. O Sr. Gohard e a sua equipe trabalharam um bocado para dar conta de tantas peças a receber aquelas finíssimas folhas de ouro. Depois de grudadas nas superfícies dos ornatos, elas permanecem lá para brilhar por muitos e muitos anos. 

Olá, você que mostra seu ingresso para o porteiro escanear o código de barras. Perceba que ele geralmente é jovem, está bem-vestido e não dá muita atenção a você, mas sim ao seu bilhete. Mas, saiba que nem sempre foi assim. Lá pela década de 1970, os porteiros eram funcionários não muito bem pagos, que olhavam nos olhos de quem chegava à porta.  Em troca de deixar alguns entrarem sem ingressos, aceitavam uma gorjeta furtiva. Aos olhos atuais, isso pode parecer escandaloso. Mas era a salvação da lavoura para jovens artistas sem dinheiro, que desejavam muito ver seus ballets e suas óperas favoritas.

Os funcionários do Theatro estavam há tanto tempo na casa, que aqueles que lidavam com o público conheciam os espectadores mais assíduos pelos nomes. Eles puxavam uma conversa, perguntavam pela família e contavam um pouco das suas vidas. Do filho que já vai para a faculdade e do esforço para pagar as mensalidades.

Ei, menina, estudante de ballet, que está fazendo uma pose diante dessa escada que leva ao nível do balcão nobre. Depois da foto, repare nos mármores e nos ônix verdes que a compõem. E também nas figuras femininas no início dos corrimãos. Ah, não deixe de apreciar a escultura em mármore de Carrara, que preside a sua subida. Ela se chama A Verdade e está ali para tornar a sua ida ao teatro mais esplendorosa.

Vocês três aí no Foyer do teatro. Olhem para cima e observem a magnífica pintura A Música, de Eliseu Visconti. Percebam que é feita numa técnica pontilhista, em que milhares de pequenas pinceladas, neste caso, se sobrepõem à pintura das figuras e formas, as quais têm reflexos do impressionismo. Ao entrarem na sala de espetáculo, verão no teto a pintura As Horas, além das pinturas do proscênio e do pano de boca, todas do mesmo artista. 

Mas, antes, muito cuidado ao se debruçar sobre esses balcões que se projetam acima da grande escada. A balaustrada de um deles já despencou sobre os degraus lá embaixo. Ocorre que o Theatro Municipal se equilibra sobre centenas de estacas de madeira, mergulhadas na lama do subsolo da Cinelândia. A cada composição do metrô que passa, a cada ônibus mais furioso que cruza a Praça Floriano, tudo balança milimetricamente. O ajuste das peças se alarga, microtrincas surgem nas paredes de mármore, e tudo isso acaba por deixar a balaustrada meio solta. Mas, não se preocupem tanto, ela já foi recuperada e hoje não vai cair com vocês. 

Por falar em subsolo, recomendo ao senhor que chegou cedo para o concerto, a ópera ou o balé, que dê um pulinho lá no térreo, onde fica o Salão Assyrio. Entre colunas encimadas por touros, seres alados, arqueiros, fontes e mosaicos, representações em cerâmica esmaltada de Gilgamesh dominando um leão e de Dario I apunhalando o gênio do mal lhe convidam a se deixar enredar em contos e fábulas orientais.

Já de volta à plateia, daqui a pouco vai começar o espetáculo. Nesse momento, os maquinistas estão a postos para fazer os cenários subirem e descerem na hora certa. Os contrarregras já colocaram todos os objetos em cena. O pessoal da iluminação trabalhou pesado para afinar todos os refletores, cada um pendurado na sua vara. O diretor de palco está atrás da cortina ainda fechada e é ele quem vai dizer quando o terceiro sinal pode ser dado. Logo após esse sinal, as luzes da plateia começarão a se apagar. Aprecie este momento de sublime expectativa. Há poucas emoções iguais a essa. Bom espetáculo!

Artigo publicado em 30 de abril de 2026 no Diário do Rio.

 

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