sexta-feira, 19 de junho de 2026

Meio ambiente desempoderado no Rio de Janeiro

Foto Marcia Foletto

Neste último final de semana os cariocas foram surpreendidos pelo cercamento de uma área no canteiro ajardinado do final do Parque do Flamengo, já chegando na Praia de Botafogo, onde antes havia um posto de gasolina. Logo ficou claro o propósito do cercamento: a construção de uma loja de automóveis chineses com 1.460 metros quadrados e seis metros de altura. E, para que tal construção fosse possível, rapidamente começou o trabalho de arrancamento de árvores adultas existentes no local. Felizmente, o Iphan-RJ, que não foi consultado antes do licenciamento, embargou essa obra.

O morador desta cidade deve ficar perplexo como a Prefeitura pode dar tal licença, contrariando o tombamento do Parque do Flamengo, a inclusão dessa área na região declarada como Patrimônio da Humanidade e o tombamento do espelho da Enseada de Botafogo. Mas aí ele pode se lembrar que essa mesma Prefeitura autorizou a transformação do Jardim de Alah, um parque tombado, num shopping center. E que a Prefeitura do Rio permitiu o corte de 71 árvores, imunes ao corte por decreto da própria Prefeitura, no antigo Colégio Bennet. E que no Buraco do Lume foram derrubadas 58 árvores com o consentimento da Prefeitura. E que a gestão Eduardo Paes é recordista em licenças para o abate de árvores na cidade.

Toda essa devastação começou a ser planejada quando, em 2021, Eduardo Paes criou uma monstruosidade administrativa: a separação das secretarias de meio ambiente e de urbanismo de seus respectivos setores de licenciamento. A Secretária de Meio Ambiente ficou como a rainha da Inglaterra, sem qualquer poder sobre o que se licenciou na área ambiental na cidade durante a sua gestão. As atribuições da SMAC foram entregues a executivos dispostos a agradar o mercado imobiliário e retirar "entraves" à consecução de projetos danosos à cidade. Como se não bastasse, o Decreto nº 51.503/22 transfere ao interessado a responsabilidade em apontar os impactos ao meio ambiente. O sonho de ruralistas mal-intencionados e de invasores de florestas na Amazônia foi realizado no Rio de Janeiro pelo ex-prefeito. 

Não só em relação ao meio ambiente esse licenciamento expedito tem trazido problemas. Também a proteção de bens tombados ou preservados vem deixando a desejar. Construções bem mais altas do que aquelas protegidas são erguidas ao lado das mesmas, muitas vezes no mesmo terreno. O Iphan deixa de ser consultado quando deveria ser e obras absurdas são iniciadas. Os arquitetos da área de Patrimônio da Prefeitura sabem o que devem fazer. Mas, aparentemente, a definição desses parâmetros não está mais em suas mãos. 

Tempos atrás o Deputado Carlos Minc entrou com uma ação arguindo a inconstitucionalidade dessa separação de funções das respectivas secretarias, mas não obteve sucesso. Mais recentemente, o mesmo deputado acompanhou um grupo de representantes de associações de moradores e de artistas que foram ao Prefeito Eduardo Cavalieri levando uma série de demandas, entre as quais essa questão dos licenciamentos. O Prefeito ficou de marcar uma reunião no prazo de um mês para discutir especificamente este assunto. No entanto, se não houver pressão da sociedade carioca, nada mudará e o Rio continuará a ser a única capital a ter esse sistema esdrúxulo em que os responsáveis pela área ambiental não têm o poder de vetar projetos danosos ao meio ambiente.

Artigo publicado em 19 de junho de 2026 no Diário do Rio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário