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| Via Ápia - Rocinha, Rio de Janeiro |
O intenso tiroteio da madrugada é capaz de parar uma parte da cidade. Mães e pais se perguntam se podem levar os filhos ao colégio, ou entregá-los à condução escolar, que transitará com as crianças por lugares que podem ter sido afetados pelo susto de momentos antes. Pode demorar, mas ainda nesse mesmo dia tudo voltará ao normal.
A chacina numa favela distante consegue parar quase
que a cidade toda. Vários bairros da cidade são impactados. As notícias dos
policiais entrando e atirando por entre as casas, as dezenas de corpos
enfileirados no asfalto, os ônibus incendiados ou sequestrados para criar
barreiras ao funcionamento normal da cidade e o governador corrupto se
vangloriando do seu ato violento, tudo isso paralisa a vida de muita gente. Já
é quase normal na cidade. Os patrões entendem a apreensão das pessoas. O
prefeito decreta que não será obrigatório ir ao trabalho naqueles próximos
dias. Mas, o medo já está alastrado.
O Carnaval também para a cidade. De um jeito
diferente, ele o faz pelo excesso de movimento. O dia e a noite se misturam,
feriados e dias de semana se mesclam, o trabalho e o prazer se entrelaçam, e os
desconhecidos se juntam. Nos blocos, pegados uns aos outros, estão unidos por
suor e purpurina. Uma greve geral, movida a música e cerveja.
O jogo do Brasil na Copa, o que faz? Mobiliza a
cidade, mobiliza o país inteiro. Tudo começa com os preparativos, que se
repetem a cada quatro anos. É preciso colecionar figurinhas para completar o
álbum da Copa, uma tarefa séria que envolve crianças e adultos. Atrapalha o
andamento das aulas e rouba tempo das atividades dos escritórios, mas é
totalmente tolerada, já que é por uma boa causa. Pintar a rua e colocar
bandeirinhas são atividades fundamentais para se criar o tal clima de Copa. É
também prova de coesão social do quarteirão. Bairro sem decoração de rua é
sinal de que é habitado por gente esquisita.
Tem também que comprar cornetas, ou qualquer coisa que
faça barulho. E camisas da seleção, de preferência as do camelô, que não pagam
royalties para os barões da CBF. Ah, e não esquecer os palpites sobre o próximo
jogo, fazer o bolão com os amigos, e curtir o medo de que o adversário seja
mais forte. Vale reclamar que o Brasil talvez já não seja o país do futebol e
coisa e tal.
Depois, é encomendar a cerveja e combinar com os
amigos o lugar de assistir. Dia de jogo do Brasil exige dispensa do trabalho,
se não o dia inteiro, pelo menos nas horas que o antecedem. Azar é se o
trabalho for enquadrado como atividade essencial. Aí o jeito é levar uma
televisão para assistir no plantão.
Horas antes do jogo começam os fogos, os mesmos que
anunciam a chegada da droga, assim como o início da operação policial na
favela. Fogos que ouvidos cariocas, já acostumados, não confundem com os tiros
das chacinas e das incursões policiais que dias antes podem ter ocorrido. Como
o Rio não tem igual. Forasteiros estranham, mas depois se acostumam.
Chega a hora do jogo. Desavenças políticas esquecidas,
separações entre ser fora ou dentro da lei superadas, chega o momento de
torcer. Os jogadores cantando o hino são o espelho da pátria. Canta-se nas
casas, diante dos televisores. Gigante pela própria natureza, belo, forte,
impávido colosso, a lembrança da terra adorada emociona. Passada a algazarra
que antecede o início do jogo, vem o silêncio. Nada se passa nas ruas, ninguém
se desloca, a cidade para por completo. Todos seguem atentos ao que se passa no
gramado a milhas de distância. Se tudo der certo, vai chegar a oportunidade de
explodir e gritar Goool! Do Brasil, é claro.
Artigo
publicado em 02 de julho de 2026 no Diário do Rio.
