José Wilker disse que deu o nome de A China é azul à peça que escreveu em 1968, encenada quatro anos depois no Teatro Ipanema, porque para ele a China era então um lugar inatingível. Naquele momento, a China vivia uma situação caótica, com a deposição de opositores de Mao Tsé-Tung e o envio de jovens e intelectuais para reeducação forçada no campo. Mas não era essa China real a que nomeava a peça. No Brasil, apesar da ditadura militar, uma certa classe média das grandes cidades vivia os anos de desbunde. A China de Wilker era algo como Xangrilá, que aliás virou nome de uma cidade real da China.
A China de hoje é um país muito diferente, que faz o
mundo se admirar com seus progressos econômicos e tecnológicos, desafia países
que outrora colonizaram partes do seu território, e se comporta como uma
esfinge, sem revelar até onde busca o lugar de nova potência dominante.
Assim como o Brasil, a China é um país extenso, de
grandes contrastes regionais, com paisagens, culturas e climas muito
diferentes. Mas não só isso. A China, em muitos aspectos, se mostra mais
desenvolvida do que países do chamado primeiro mundo. Ruas e calçadas bem
cuidadas e com pavimentações impecáveis, extensas redes de metrô, trens de alta
velocidade ligando os lugares, frota de veículos quase toda elétrica,
excelentes escolas e universidades e uso intensivo de tecnologia colocam o país
num patamar elevado.
A inserção da população nesse novo mundo chinês difere
de acordo com as faixas etárias e com a posição social. Apesar da redução de
população na faixa entre 15 e 30 anos, ainda em função da política do filho
único, e da redução na faixa entre 0 e 14, pela queda na taxa de natalidade, a
impressão que se tem é que a China é um país com uma grande quantidade de
crianças e de jovens. Eles estão muito presentes nas ruas das grandes
cidades.
As crianças são o xodó dos pais e dos avós, que se
esmeram nos cuidados, e mesmo nos mimos. Palmadas e castigos corporais não são
notados nos grandes centros e o país tem leis proibindo esse tipo de violência,
que anteriormente já foi muito presente nas famílias. Os jovens das grandes
cidades são antenados na moda e ocupam os espaços públicos com seus interesses
e hábitos conectados aos dos demais jovens do mundo. Posar para fotos em frente
a pontos turísticos, ainda mais aqueles monumentos do passado, muitas vezes em
roupas tradicionais, é uma atividade à qual especialmente as meninas se dedicam
com prazer. E os rapazes carregam as bolsas das namoradas.
Mas, a China é também um país de idosos. A faixa
etária acima de 65 anos já representa quase 16% da população. E eles parecem um
pouco deslocados da imagem que se criou da China moderna. Aqueles que viveram
as agruras da Revolução Cultural e da escassez de recursos precisam se adaptar
a um país em que o uso da tecnologia é condição para se realizar uma simples
compra ou se locomover. O contraste ainda é maior quando eles aparecem com seus
cestos de vime vendendo frutas, sentados em corredores de um mármore brilhando
de novo dos pisos perfeitos dos corredores das estações de metrô de algumas
cidades. No entanto, são esses idosos o elo de ligação com o passado.
Com o risco de generalizar, pode se dizer que, quando
abordados, chineses são simpáticos. Ao ouvirem a tentativa do estrangeiro de
falar mandarim, sorriem. Alguns podem parar o que estão fazendo para ajudar
alguém perdido. Ao mesmo tempo, podem furar fila ou se apressar para entrar no
vagão do metrô e achar um lugar vago. Nada perto da correria para se sentar nos
vagões dos trens do Rio nas estações terminais.
O inglês é ensinado desde o ensino fundamental, no
entanto poucos conseguem falar. Nada que os impeça de se comunicar com os
turistas. Em lojas e restaurantes, os atendentes logo sacam o celular e
utilizam algum App de tradução. Há um grande número de turistas ocidentais na
China. Mas eles desaparecem no mar de chineses, mesmo em pontos turísticos.
Assim, os estrangeiros ainda são objeto de alguma curiosidade.
Nos vagões dos trens e especialmente nos dos metrôs
quase todas as pessoas estão com a cabeça curvada, voltadas para o celular. Veem
todo tipo de vídeos, muitos sobre culinária ou de jogos eletrônicos. Mas, não
se vê pessoas lendo livros. Nas ruas, há um constante cheiro de comida. Há
muitos pequenos restaurantes e muita oferta de comida de rua. E toda ela
temperada com especiarias que perfumam o ambiente. E a comida transita o tempo
todo pelas cidades, seja pelas mãos de um exército de entregadores, seja nas
sacolas transparentes dos consumidores, ou como futuro lanche dos
trabalhadores.
Fora das grandes cidades as áreas de cultivo ocupam
quase todos os espaços. As pequenas vilas se apertam no pouco espaço de que
dispõem, para deixar mais lugar para as plantações. E há cada vez mais
conjuntos de edifícios residenciais espalhados nas áreas rurais.
As míticas paisagens de regiões montanhosas, tão
retratadas na pintura tradicional, até podem ter tons azulados que inspiraram
José Wilker. Mas o vermelho é a cor preferida dos muros dos templos e das
construções antigas, assim como das propagandas gigantes nas estações de metrô.
Além disso é a cor da bandeira. A China azul, que era também a cor dos
uniformes maoistas, parece ter ficado no passado.
Artigo publicado em 30 de julho de 2026 no Diário do
Rio.


