quinta-feira, 30 de julho de 2026

A China é vermelha


José Wilker disse que deu o nome de A China é azul à peça que escreveu em 1968, encenada quatro anos depois no Teatro Ipanema, porque para ele a China era então um lugar inatingível. Naquele momento, a China vivia uma situação caótica, com a deposição de opositores de Mao Tsé-Tung e o envio de jovens e intelectuais para reeducação forçada no campo. Mas não era essa China real a que nomeava a peça. No Brasil, apesar da ditadura militar, uma certa classe média das grandes cidades vivia os anos de desbunde. A China de Wilker era algo como Xangrilá, que aliás virou nome de uma cidade real da China. 

A China de hoje é um país muito diferente, que faz o mundo se admirar com seus progressos econômicos e tecnológicos, desafia países que outrora colonizaram partes do seu território, e se comporta como uma esfinge, sem revelar até onde busca o lugar de nova potência dominante. 

Assim como o Brasil, a China é um país extenso, de grandes contrastes regionais, com paisagens, culturas e climas muito diferentes. Mas não só isso. A China, em muitos aspectos, se mostra mais desenvolvida do que países do chamado primeiro mundo. Ruas e calçadas bem cuidadas e com pavimentações impecáveis, extensas redes de metrô, trens de alta velocidade ligando os lugares, frota de veículos quase toda elétrica, excelentes escolas e universidades e uso intensivo de tecnologia colocam o país num patamar elevado. 

A inserção da população nesse novo mundo chinês difere de acordo com as faixas etárias e com a posição social. Apesar da redução de população na faixa entre 15 e 30 anos, ainda em função da política do filho único, e da redução na faixa entre 0 e 14, pela queda na taxa de natalidade, a impressão que se tem é que a China é um país com uma grande quantidade de crianças e de jovens. Eles estão muito presentes nas ruas das grandes cidades. 

As crianças são o xodó dos pais e dos avós, que se esmeram nos cuidados, e mesmo nos mimos. Palmadas e castigos corporais não são notados nos grandes centros e o país tem leis proibindo esse tipo de violência, que anteriormente já foi muito presente nas famílias. Os jovens das grandes cidades são antenados na moda e ocupam os espaços públicos com seus interesses e hábitos conectados aos dos demais jovens do mundo. Posar para fotos em frente a pontos turísticos, ainda mais aqueles monumentos do passado, muitas vezes em roupas tradicionais, é uma atividade à qual especialmente as meninas se dedicam com prazer. E os rapazes carregam as bolsas das namoradas. 

Mas, a China é também um país de idosos. A faixa etária acima de 65 anos já representa quase 16% da população. E eles parecem um pouco deslocados da imagem que se criou da China moderna. Aqueles que viveram as agruras da Revolução Cultural e da escassez de recursos precisam se adaptar a um país em que o uso da tecnologia é condição para se realizar uma simples compra ou se locomover. O contraste ainda é maior quando eles aparecem com seus cestos de vime vendendo frutas, sentados em corredores de um mármore brilhando de novo dos pisos perfeitos dos corredores das estações de metrô de algumas cidades. No entanto, são esses idosos o elo de ligação com o passado. 

Com o risco de generalizar, pode se dizer que, quando abordados, chineses são simpáticos. Ao ouvirem a tentativa do estrangeiro de falar mandarim, sorriem. Alguns podem parar o que estão fazendo para ajudar alguém perdido. Ao mesmo tempo, podem furar fila ou se apressar para entrar no vagão do metrô e achar um lugar vago. Nada perto da correria para se sentar nos vagões dos trens do Rio nas estações terminais. 

O inglês é ensinado desde o ensino fundamental, no entanto poucos conseguem falar. Nada que os impeça de se comunicar com os turistas. Em lojas e restaurantes, os atendentes logo sacam o celular e utilizam algum App de tradução. Há um grande número de turistas ocidentais na China. Mas eles desaparecem no mar de chineses, mesmo em pontos turísticos. Assim, os estrangeiros ainda são objeto de alguma curiosidade. 

Nos vagões dos trens e especialmente nos dos metrôs quase todas as pessoas estão com a cabeça curvada, voltadas para o celular. Veem todo tipo de vídeos, muitos sobre culinária ou de jogos eletrônicos. Mas, não se vê pessoas lendo livros. Nas ruas, há um constante cheiro de comida. Há muitos pequenos restaurantes e muita oferta de comida de rua. E toda ela temperada com especiarias que perfumam o ambiente. E a comida transita o tempo todo pelas cidades, seja pelas mãos de um exército de entregadores, seja nas sacolas transparentes dos consumidores, ou como futuro lanche dos trabalhadores. 

Fora das grandes cidades as áreas de cultivo ocupam quase todos os espaços. As pequenas vilas se apertam no pouco espaço de que dispõem, para deixar mais lugar para as plantações. E há cada vez mais conjuntos de edifícios residenciais espalhados nas áreas rurais. 

As míticas paisagens de regiões montanhosas, tão retratadas na pintura tradicional, até podem ter tons azulados que inspiraram José Wilker. Mas o vermelho é a cor preferida dos muros dos templos e das construções antigas, assim como das propagandas gigantes nas estações de metrô. Além disso é a cor da bandeira. A China azul, que era também a cor dos uniformes maoistas, parece ter ficado no passado.

Artigo publicado em 30 de julho de 2026 no Diário do Rio. 

 





sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma praça em Pequim


Uma praça em Pequim

Pequim é uma cidade de mais de 21 milhões de habitantes, em vias de se juntar a outras 11 cidades (Plano de Integração Beijing-Tianjin-Hebei) num aglomerado urbano de 100 milhões de habitantes. O traçado urbano da cidade é um xadrez formando grandes superquadras, que parte da Cidade Proibida em direção às bordas. Anéis rodoviários concêntricos marcam as várias faixas em que se divide a metrópole. Muitas dessas superquadras são ex-hutongs, aglomerados de casas populares, demolidos para a construção de edifícios modernos. 

Por sua vez, essas superquadras contêm em seu interior largas faixas com prédios residenciais, que às vezes se estendem de uma avenida à outra, como condomínios. Ali há uma sensação de estar em pequenos bairros fechados, ou vilas, com vigias nas entradas e restrições à circulação de veículos de não moradores, mas com acesso franqueado a pedestres. Em geral, o comércio se estabelece do lado de fora, nas avenidas. 

No interior de uma dessas incontáveis áreas dentro das superquadras da cidade a vida cotidiana se desenrola pacificamente. Há uma rua central que conecta as duas grandes avenidas que margeiam a quadra, pela qual se pode cortar caminho entre elas, evitando-se o longo percurso até a próxima transversal. Dessa rua central partem ruas transversais, sem saída e mais arborizadas. É na rua central que se encontram o compactador de lixo da quadra, assim como o banheiro público bem cuidado.

A rua central é interrompida por uma praça onde, no verão, há uma infinidade de acontecimentos até tarde da noite. Já bem cedo lá está o grupo de Tai Chi, majoritariamente composto por senhoras de meia idade. Os exercícios, aparentemente, não são difíceis e elas os executam com precisão. À frente está o professor que lidera as sequências já decoradas. Em outro ponto da praça o exercício é mais moderno, acompanhado por música e segue uma coreografia. Entre esses dois pontos há um pequeno grupo de senhoras que realizam exercícios semelhantes ao Tai Chi, também em cadência, mas com espadas, que dão a terminação dos movimentos. 

No centro da praça, mulheres mais jovens passeiam com seus cachorros, idosos em cadeiras de rodas tomam sol, jovens pais passeiam com seus bebês e crianças brincam jogando bola ou correndo. Em áreas cobertas senhores e senhoras jogam carteado de forma ruidosa. Esses formam o grupo mais permanente da praça e serão encontrados ali em diferentes horários. 

É verão na China e o calor é fortíssimo. Então no meio do dia a praça se esvazia um pouco. Restam os velhinhos do carteado que têm uma área coberta para jogar. Chinelos, calças arregaçadas ou bermudas e camisetas enroladas para cima, deixando a barriga de fora, formam o vestuário padrão. O jogo segue animado. 

À tardinha a praça volta a se encher. Agora há um grupo de senhoras que seguem uma aula de dança liderada por três outras senhoras com roupas de ginástica uniformizadas. A dança envolve a formação de trenzinhos em que as participantes devem bater palmas, abrir e fechar os braços e levantá-los acima das cabeças. Logo atrás das instrutoras vão aquelas que melhor conhecem os movimentos. Já na rabeira há uma nítida defasagem do tempo em que a coreografia deve ser realizada. Mas o contentamento é o mesmo. 

Voltam também o grupo de dança mais moderna e as senhoras com cachorros. E há as pessoas que se exercitam sozinhas, fazendo exercícios curiosos, como balançar uma perna sem parar ou se dar soquinhos no peito, nos ombros ou nas costas. Há também senhores que andam dando repetidos soquinhos na barriga. Se a ideia é reduzi-la, não parece estar dando certo. Na quadra de basquete o jogo está animadíssimo.

As crianças jogam bola e essa atividade vai seguir até tarde da noite. O futebol está cada vez mais popular na China. À noite, chegam também homens que se sentam numa mesa da praça para fazer uma conversa de vídeo com algum parente distante, crianças ensaiando instrumentos musicais, e mães que massageiam longamente a palma e os dedos das mãos de seus filhos. 

Bem mais tarde da noite o movimento diminui um pouco, mas não deixa de existir. A impressão que se tem é que as pessoas preferem passar suas horas livres no espaço público do que ficar em casa vendo televisão. A vitalidade dessa praça em Pequim é tudo o que os urbanistas contemporâneos sonham alcançar. Ali já é um hábito, talvez milenar.

Artigo publicado em 24 de julho de 2026 no Diário do Rio. 

 

 




quinta-feira, 2 de julho de 2026

A cidade para

Via Ápia - Rocinha, Rio de Janeiro

O intenso tiroteio da madrugada é capaz de parar uma parte da cidade. Mães e pais se perguntam se podem levar os filhos ao colégio, ou entregá-los à condução escolar, que transitará com as crianças por lugares que podem ter sido afetados pelo susto de momentos antes. Pode demorar, mas ainda nesse mesmo dia tudo voltará ao normal. 

A chacina numa favela distante consegue parar quase que a cidade toda. Vários bairros da cidade são impactados. As notícias dos policiais entrando e atirando por entre as casas, as dezenas de corpos enfileirados no asfalto, os ônibus incendiados ou sequestrados para criar barreiras ao funcionamento normal da cidade e o governador corrupto se vangloriando do seu ato violento, tudo isso paralisa a vida de muita gente. Já é quase normal na cidade. Os patrões entendem a apreensão das pessoas. O prefeito decreta que não será obrigatório ir ao trabalho naqueles próximos dias. Mas, o medo já está alastrado.

O Carnaval também para a cidade. De um jeito diferente, ele o faz pelo excesso de movimento. O dia e a noite se misturam, feriados e dias de semana se mesclam, o trabalho e o prazer se entrelaçam, e os desconhecidos se juntam. Nos blocos, pegados uns aos outros, estão unidos por suor e purpurina. Uma greve geral, movida a música e cerveja.

O jogo do Brasil na Copa, o que faz? Mobiliza a cidade, mobiliza o país inteiro. Tudo começa com os preparativos, que se repetem a cada quatro anos. É preciso colecionar figurinhas para completar o álbum da Copa, uma tarefa séria que envolve crianças e adultos. Atrapalha o andamento das aulas e rouba tempo das atividades dos escritórios, mas é totalmente tolerada, já que é por uma boa causa. Pintar a rua e colocar bandeirinhas são atividades fundamentais para se criar o tal clima de Copa. É também prova de coesão social do quarteirão. Bairro sem decoração de rua é sinal de que é habitado por gente esquisita.

Tem também que comprar cornetas, ou qualquer coisa que faça barulho. E camisas da seleção, de preferência as do camelô, que não pagam royalties para os barões da CBF. Ah, e não esquecer os palpites sobre o próximo jogo, fazer o bolão com os amigos, e curtir o medo de que o adversário seja mais forte. Vale reclamar que o Brasil talvez já não seja o país do futebol e coisa e tal.

Depois, é encomendar a cerveja e combinar com os amigos o lugar de assistir. Dia de jogo do Brasil exige dispensa do trabalho, se não o dia inteiro, pelo menos nas horas que o antecedem. Azar é se o trabalho for enquadrado como atividade essencial. Aí o jeito é levar uma televisão para assistir no plantão. 

Horas antes do jogo começam os fogos, os mesmos que anunciam a chegada da droga, assim como o início da operação policial na favela. Fogos que ouvidos cariocas, já acostumados, não confundem com os tiros das chacinas e das incursões policiais que dias antes podem ter ocorrido. Como o Rio não tem igual. Forasteiros estranham, mas depois se acostumam.

Chega a hora do jogo. Desavenças políticas esquecidas, separações entre ser fora ou dentro da lei superadas, chega o momento de torcer. Os jogadores cantando o hino são o espelho da pátria. Canta-se nas casas, diante dos televisores. Gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso, a lembrança da terra adorada emociona. Passada a algazarra que antecede o início do jogo, vem o silêncio. Nada se passa nas ruas, ninguém se desloca, a cidade para por completo. Todos seguem atentos ao que se passa no gramado a milhas de distância. Se tudo der certo, vai chegar a oportunidade de explodir e gritar Goool! Do Brasil, é claro. 

Artigo publicado em 02 de julho de 2026 no Diário do Rio.