A maquete da Pequim de outros tempos mostra a Cidade Proibida usufruindo de uma grande quantidade de espaço e, do lado de fora, uma aglomeração de milhares de pequenas casas, muito próximas umas das outras. Espaço era um privilégio. Talvez esse contraste tenha se tornado um padrão que diferencia áreas privadas de áreas públicas em muitas cidades chinesas atuais, especialmente aquelas localizadas em territórios planos.
De uma maneira geral, os espaços públicos, como praças
e parques dessas cidades são imensos. Se o espaço interno dos antigos hutongs é
apertado, e o das quadras modernas é um pouco maior, fora deles tudo é grande.
As avenidas são largas, as praças são grandes, também são grandes as áreas de
acesso às instituições públicas, e os shopping são gigantescos. Essa mesma
variação se repete na área rural, com as residências próximas umas das outras e
as áreas de cultivo livres de edificações.
A China é um país de 1,4 bilhão de habitantes. Mas,
94% desse bilhão está concentrado na metade Leste do país, ou seja, em 43% do
território. Ali, a densidade populacional é bem maior do que na parte Oeste.
Viver nessa parte do país significa viver em cidades superpopulosas, em que a
densidade pode chegar a 9.400 hab/km², como na área urbana de Xangai ou a
24.000 hab/km² no seu núcleo central. É bastante, mas não custa lembrar que, na
década de 1970, Copacabana tinha a absurda densidade de 30.972 hab/km². De
qualquer forma os mais de 30 milhões de habitantes da área metropolitana de
Xangai, e os milhões em outras cidades populosas, formam massas expressivas de
pessoas e adaptações são necessárias.
Viver numa grande cidade chinesa é estar acostumado a
transitar entre multidões em suas áreas mais centrais. As ruas de comércio mais
intenso são lotadas de gente e as estações de metrô estão sempre em horário de
rush. Mesmo assim, os trens não viajam superlotados, como acontece no Rio,
por exemplo. O segredo é um sistema eficiente, com intervalo mínimo entre as
composições. Além disso, a maioria dos passageiros está imersa no mundo da
telinha dos celulares, uma forma de isolamento dentro da multidão.
Mesmo vivendo rodeado de tanta gente, não há
preocupação com a possibilidade de roubo ou furto. É possível caminhar na rua
com a cabeça voltada para a tela do celular, cena muito comum, sabendo ser
impensável que um passante lhe arranque o aparelho das mãos. É possível deixar
seus pertences num lugar e, ao voltar, lá reencontrá-los. E, afora a grande
presença de câmeras, não se vê um grande aparato de segurança, com policiais
armados. O que vê com frequência são guardinhas ou funcionários desarmados
trabalhando para que a multidão possa circular sem problemas. E essa quantidade
de gente jamais passa aperto fora de casa por falta de banheiro público. Eles
existem, estão espalhados pelas cidades e são limpos.
Nas ruas e nas estações de trens ou metrô, as
autoridades precisam estar preparadas para momentos de grande acúmulo de
pessoas. Grades estão disponíveis para, se necessário fechar a circulação ou
redirecioná-la. Na entrada de cada uma das estações de metrô é necessário
passar bolsas e mochilas pelo aparelho de raio X. E olha que existem 6.680
estações de metrô, VLT e monotrilho no país! Em Pequim, e em algumas outras
cidades, até as garrafinhas de água são escaneadas para prevenir produtos
perigosos.
Em Xangai, a cada noite uma multidão se dirige à orla
do rio Huangpu para ver as luzes dos edifícios modernos do outro lado do rio.
Lá é a área do Bund, onde ficam os belos edifícios comerciais da época das
concessões a potências coloniais. O percurso dos que vão e dos que voltam é
separado e a multidão avança por partes, com a polícia regulando o fluxo. Tudo
muito ordeiro, sem chances de empurra-empurra. É semelhante ao que ocorre na
saída do réveillon na beira do Tâmisa em Londres, em que a multidão deixa
aquele lugar à mesma hora. Mas em Xangai isso é simplesmente um evento
diário.
Os grandes museus e outras atrações turísticas, em
geral, estão cheios de gente. Na maioria absoluta são chineses mesmo. Então a
entrada segue o padrão de filas que serpenteiam por labirintos de grades. Há
contagem de quantas pessoas entram e de quantas saem, de forma a impedir que se
ultrapasse a ocupação máxima tolerada pelo local. Não se entra nesses locais,
assim como nas estações de trens, sem que a carteirinha de identidade seja
escaneada.
Nas ruas, além dos carros, caminhões e ônibus,
circulam milhões de bicicletas e motos elétricas. A maioria das bicicletas é de
aluguel e elas ficam paradas em qualquer calçada, sem necessidade de um posto
fixo. Junto a locais mais movimentados, como em entradas de metrô, elas são
contadas às centenas e, às vezes, chegam a ficar um pouco amontoadas. As faixas
para a circulação de bicicletas e motos elétricas nas ruas são bastante largas
e nos cruzamentos, dependendo do sinal de trânsito, é possível seguir em
diagonal. Então é preciso bastante atenção, porque dezenas de ciclistas e
motociclistas atravessam as ruas em direções variadas em meio aos pedestres.
Mas não se vê acidentes.
Organizar a vida de cidades superpopulosas exige uma
adaptação dos habitantes, e os chineses parecem ter encontrado boas formas de
conviver com isso. Passa-se boa parte do tempo seguindo as normas de
convivência em meio a multidões. Claro, que pequenos esbarrões acontecem. Mas,
em seguida, chega-se a uma grande avenida ou a um grande parque e a sensação de
estar aglomerado desaparece. Recupera-se o espaço livre em torno do indivíduo.
Nos parques é até possível conseguir um pouco de isolamento. O usufruto do
espaço foi democratizado. Deve haver sabedoria por trás dessa organização
espacial em escalas tão diferenciadas.
Artigo publicado no Diário do Rio em 07 de agosto de
2026.
