É outono no hemisfério Sul, o que não muda muita coisa nas temperaturas dos trópicos. Mas, o sol agora já nasce mais tarde e, quando o despertador toca, lá fora ainda está escuro. Acordar uma criança nessas condições se torna tarefa ainda mais difícil. Que mãe, que pai não sente pena de confirmar para o filho que sim, o despertador já tocou?
Num bairro mais distante, a senhora se levanta sem mesmo precisar que um relógio a desperte. Os anos em que leva acordando cedo já se tornaram parte da sua natureza. Pena que nem em feriados o sono consiga enganar o hábito. As conduções que terá que tomar exigem que a hora de despertar para o trabalho sejam as de qualquer trabalhador dessa cidade.
A roupa do dia seguinte havia sido deixada dobrada sobre a cadeira, de forma que, quando a criança concordasse em despertar, o tempo de se vestir fosse otimizado. Agora é lavar o rosto, fazer um xixi, pegar as coisas e se sentar junto à mesa da cozinha. O pão com manteiga já está na chapa, o café com muito leite está na caneca e o sanduíche que ele levará na mochila já está quase pronto.
O gás do botijão acabou e a senhora não teve tempo de comprar outro. Por sorte, tem café solúvel em casa, que é tomado frio mesmo. Pelo menos deu para esquentar o pão de forma com queijo na sanduicheira elétrica. A bolsa com seus objetos de trabalho está sempre na poltrona da sala. Então, é só dar uma última olhada no espelho, se certificar que as janelas estejam fechadas, passar a mão na bolsa e sair para a rua.
Ele se despede ainda sonolento. Não faz muito tempo que ganhou a autonomia para sair de casa desacompanhado. Agora é só descer a ladeira e depois andar alguns quarteirões. Correr com a mochila pesada é um saco, mas também ele não vai ficar molengando, como se fosse um coroa. Na próxima esquina é preciso ficar atento a um sujeito que, de vez em quando, aparece para tentar puxar papo. Na verdade, ele deve querer fazer algum ganho.
O ônibus hoje passou no horário e nem veio tão cheio. Um rapaz, desses que já não existem, lhe cedeu o lugar e ela pode até deixar o pensamento voar durante o trajeto. São tantos anos nesse percurso, mas nunca é a mesma coisa. Se chove, o trânsito para e o temor de se atrasar aumenta. Se faz um belo dia, dá pra ficar observando as outras pessoas que também acordaram cedo para ir ao trabalho. Amigos que caminham juntos ali, um casal que se despede acolá, a cidade entrando no seu modo diurno.
Hoje tudo correu bem e, depois da padaria, ele já conseguiu alcançar seus amigos. É hora de saber se os outros tiveram os mesmos perrengues, de ouvir a reclamação sobre alguma bronca de algum pai, de chutar umas pedras no caminho e de comentar sobre o time de futebol.
A senhora já saltou do ônibus e agora caminha economizando o valor da segunda passagem. Grupos de crianças vão pelas ruas e alguns senhores passeiam com seus cachorros. O funcionário da padaria lhe dá o bom dia costumeiro antes de lhe perguntar se é o de sempre: pão de queijo para a hora do lanche.
Agora com um grupo maior de amigos, ele chega no seu destino. Ela, um pouco cansada, passa pela portaria e dá bom dia a todos. Ele ainda encontra tempo para jogar com aquela bola murcha esquecida debaixo da escada. Ela cumprimenta os colegas. Ele sobe dois lances de escada, entra na sala e se senta na sua mesa. Ela recupera as energias, abre a porta e dá bom dia.
As férias de verão acabaram há algumas semanas e ainda está difícil se acostumar com a rotina. Mas, como serão todos os dias de semana dos próximos meses, lá estão os dois, professora e aluno, frente a frente, para mais um dia de aula. Boa sorte a eles.