quinta-feira, 3 de abril de 2025

Encontro marcado

É outono no hemisfério Sul, o que não muda muita coisa nas temperaturas dos trópicos. Mas, o sol agora já nasce mais tarde e, quando o despertador toca, lá fora ainda está escuro. Acordar uma criança nessas condições se torna tarefa ainda mais difícil. Que mãe, que pai não sente pena de confirmar para o filho que sim, o despertador já tocou? 

Num bairro mais distante, a senhora se levanta sem mesmo precisar que um relógio a desperte. Os anos em que leva acordando cedo já se tornaram parte da sua natureza. Pena que nem em feriados o sono consiga enganar o hábito. As conduções que terá que tomar exigem que a hora de despertar para o trabalho sejam as de qualquer trabalhador dessa cidade. 

A roupa do dia seguinte havia sido deixada dobrada sobre a cadeira, de forma que, quando a criança concordasse em despertar, o tempo de se vestir fosse otimizado. Agora é lavar o rosto, fazer um xixi, pegar as coisas e se sentar junto à mesa da cozinha. O pão com manteiga já está na chapa, o café com muito leite está na caneca e o sanduíche que ele levará na mochila já está quase pronto. 

O gás do botijão acabou e a senhora não teve tempo de comprar outro. Por sorte, tem café solúvel em casa, que é tomado frio mesmo. Pelo menos deu para esquentar o pão de forma com queijo na sanduicheira elétrica. A bolsa com seus objetos de trabalho está sempre na poltrona da sala. Então, é só dar uma última olhada no espelho, se certificar que as janelas estejam fechadas, passar a mão na bolsa e sair para a rua.

Ele se despede ainda sonolento. Não faz muito tempo que ganhou a autonomia para sair de casa desacompanhado. Agora é só descer a ladeira e depois andar alguns quarteirões. Correr com a mochila pesada é um saco, mas também ele não vai ficar molengando, como se fosse um coroa. Na próxima esquina é preciso ficar atento a um sujeito que, de vez em quando, aparece para tentar puxar papo. Na verdade, ele deve querer fazer algum ganho.

O ônibus hoje passou no horário e nem veio tão cheio. Um rapaz, desses que já não existem, lhe cedeu o lugar e ela pode até deixar o pensamento voar durante o trajeto. São tantos anos nesse percurso, mas nunca é a mesma coisa. Se chove, o trânsito para e o temor de se atrasar aumenta. Se faz um belo dia, dá pra ficar observando as outras pessoas que também acordaram cedo para ir ao trabalho. Amigos que caminham juntos ali, um casal que se despede acolá, a cidade entrando no seu modo diurno.

Hoje tudo correu bem e, depois da padaria, ele já conseguiu alcançar seus amigos. É hora de saber se os outros tiveram os mesmos perrengues, de ouvir a reclamação sobre alguma bronca de algum pai, de chutar umas pedras no caminho e de comentar sobre o time de futebol. 

A senhora já saltou do ônibus e agora caminha economizando o valor da segunda passagem. Grupos de crianças vão pelas ruas e alguns senhores passeiam com seus cachorros. O funcionário da padaria lhe dá o bom dia costumeiro antes de lhe perguntar se é o de sempre: pão de queijo para a hora do lanche.

Agora com um grupo maior de amigos, ele chega no seu destino. Ela, um pouco cansada, passa pela portaria e dá bom dia a todos. Ele ainda encontra tempo para jogar com aquela bola murcha esquecida debaixo da escada. Ela cumprimenta os colegas. Ele sobe dois lances de escada, entra na sala e se senta na sua mesa. Ela recupera as energias, abre a porta e dá bom dia. 

As férias de verão acabaram há algumas semanas e ainda está difícil se acostumar com a rotina. Mas, como serão todos os dias de semana dos próximos meses, lá estão os dois, professora e aluno, frente a frente, para mais um dia de aula. Boa sorte a eles.

Artigo publicado em 03 de abril de 2025 no Diário do Rio.

domingo, 30 de março de 2025

Desordem urbana oficial

Quando um órgão público define uma restrição de edificação para a proteção do Patrimônio e, tempos depois, retira essa restrição, em favor de uma construção mais alta, logo se pensa em corrupção. É assim o modus operandi da maioria dos maus gestores. Mas, aqui na Cidade Maravilhosa, uma nova razão se sobrepõe ao ideal de proteção do Patrimônio e da paisagem: a desregulamentação (neo)liberal. 

É exatamente a mesma destruição/desregulamentação que está sendo levada a cabo por Trump e por Milei, apenas de forma menos estridente. No Rio de Janeiro de Eduardo Paes, uma obscura secretaria de desenvolvimento econômico concentra os licenciamentos ambiental e edilício, retirados das secretarias dessas respectivas áreas, passando por cima de conceitos de proteção do meio ambiente, da paisagem e da qualidade de vida arduamente construídos durante décadas.

Foi o que aconteceu no terreno lateral à Basílica Imaculada Conceição, na Praia de Botafogo, número 266. Muitas décadas atrás, dos dois lados da igreja, existiam duas edificações neoclássicas com dois pavimentos cada. Uma era o Colégio da Imaculada Conceição e a outra abrigava a residência das religiosas do colégio. Elas emolduravam a igreja neogótica, cuja torre em agulha marcava a paisagem da Enseada de Botafogo, e eram ligadas àquela igreja por passagens suspensas. Posteriormente essas construções ganharam mais um pavimento.

Com a construção do viaduto que liga a Praia de Botafogo à rua Pinheiro Machado, a residência das freiras foi demolida, já que o viaduto avançou sobre o terreno daquela edificação. Sem sua residência, as freiras passaram a dormir no andar superior do colégio, uma situação bastante desconfortável.

Anos atrás, elas decidiram encomendar a construção de uma nova residência no que havia restado do terreno ao lado da igreja. O IRPH, acertadamente, fez uma série de exigências relativas ao projeto, como não ultrapassar a altura das paredes laterais da igreja, que é tombada. Em Patrimônio, é o que se chama respeitar a ambiência do bem tombado. Considera-se que este deva estar inscrito em um contexto que respeite a sua escala, materialidade, forma e simbologia.

O novo edifício foi construído a partir do projeto do arquiteto Marcos Bittencourt. Sua altura efetivamente era mais baixa do que a da igreja, suas formas e materiais eram compatíveis com as do monumento tombado, marcando a diferença temporal. Durante os levantamentos no local para subsidiar o projeto arquitetônico, foi descoberta a ruína de parte da parede dos fundos do antigo imóvel, em pedra e cal, com os vãos das antigas janelas. Ela havia sido emparedada por muros e o projeto da nova edificação deu destaque a essa ruína.

Agora, nem dez anos depois de edificado, o imóvel foi vendido e demolido. No seu lugar, a Prefeitura aprovou um edifício bem mais alto do que a igreja, reduzindo o monumento religioso a um pequeno objeto encravado entre edifícios bem mais altos que sua agulha, a qual já foi um marco na paisagem de Botafogo. 

O que houve? Mudaram assim de forma tão radical os parâmetros para a proteção de bens tombados? Não, mas ocorre que a Prefeitura do Rio está dominada por uma lógica de mercado, que aprova qualquer coisa proposta por essa entidade difusa. Tais aprovações passam por cima de conceitos consagrados de preservação da ambiência de bens tombados e da necessidade de preservação do meio ambiente. O IRPH, herdeiro das experiências do antigo DGPC e do Escritório Técnico do Corredor Cultural, dois órgãos de excelência, não merecia tal situação. 

Este não é um caso isolado. A permissão para uma tirolesa no Pão de Açúcar e a aprovação de um shopping-center no Jardim de Alah são exemplos desse vale-tudo. Também a privatização de área de praia junto ao quiosque do Pepê, a construção de prédios altos como anexos de edificações preservadas, o pagamento para legalizar projetos fora dos parâmetros permitidos (mais valerá), e o gabarito liberado para novas construções no Centro são exemplos de licenciamentos contrários ao bom senso e à proteção da paisagem da cidade. É a desordem urbana promovida pelo próprio alcaide. Os que lucram com essa destruição no Rio de Janeiro têm recursos para passar férias em Paris e Londres. Dirão depois, como os europeus sabem preservar o seu Patrimônio!

Artigo publicado em 27 de março de 2025 no Diário do Rio.

terça-feira, 25 de março de 2025

Ainda estamos aqui

Caminhada do enterro de D. Lida, vítima de bomba na OAB

A volta às histórias de vida de Eunice e Rubens Paiva, que o filme "Ainda estou aqui" tornou possível, suscitou uma onda de empatia com aquela família, assim como com milhares de outras famílias, que passaram por terríveis sofrimentos durante a ditadura militar. O filme possibilitou também que brasileiros desmemoriados ou mal-informados tomassem conhecimento desses fatos, e de como eles afetaram a vida de pessoas comuns.

A memória coletiva sobre erros do passado, visando a sua não repetição, é algo importante de ser cultivado. A Alemanha tenta não esquecer dos crimes do nazismo, sempre informando à juventude sobre o ocorrido. Mesmo assim, lá o perigo agora renasce, com a adesão de boa parte da população a partidos neonazistas, e com dirigentes governamentais apoiando o genocídio em Gaza. 

Os japoneses não deixam os horrores dos bombardeios atômicos caírem no esquecimento. Senhores e senhoras de idade, vítimas naquele terrível momento, seguem recontando, nos sensibilizando, e militando pela paz. O holocausto atômico marcou profundamente a sociedade japonesa. 

Entre nós, o importante trabalho de manter a memória dos tempos da ditadura militar tem sido pouco efetivo. Os horrores daquele período vão sendo esquecidos ou relativizados. Milhões de eleitores acharam possível votar em alguém que defendia a ditadura, assim como os torturadores. No final, como esperado, houve a tentativa de um golpe de estado. Isso deveria fazer soar o sinal de alarme entre as pessoas de bem. Talvez os levantamentos das Comissões da Verdade não tenham atingido a sensibilidade da maioria dos brasileiros, gerando uma vacina contra o totalitarismo. 

Algo que o filme de Walter Salles ensina é que é preciso chegar até à fonte das emoções das pessoas, aquilo que é compartilhado por todos os seres humanos. É preciso mostrar que a ditadura não perseguia apenas os que ativamente militavam contra ela. Ela era um mal na vida cotidiana de cada um.

É preciso contar aos jovens sobre o temor que havia entre as famílias de falar sobre política dentro de casa, e da fala baixa entre as pessoas, uma das precauções tomadas ao criticar o governo. É preciso lembrar da presença de um policial infiltrado nas salas de aulas das universidades, a todos vigiando. É preciso lembrar da falta de cerimônia dos policiais ao pararem qualquer jovem na rua, pois ele podia ser mais um oponente do regime. É preciso contar do medo nas assembleias estudantis, sempre vigiadas por alguém que poderia denunciar uma nova liderança. É preciso lembrar do gás lacrimogêneo, das correrias e dos helicópteros voando sobre as manifestações por democracia.

É preciso lembrar da humilhação que era levar para a censura o roteiro de uma peça, ou mesmo de um espetáculo de dança, para que uma funcionária obtusa considerasse se estava liberada ou não. É preciso recontar a saudade que famílias e amigos sentiam dos exilados. É preciso lembrar o que era viver sob o medo de ser mais um preso ou desaparecido. 

Os, agora cada vez menos, sobreviventes daqueles anos de chumbo precisam contar e recontar, e tentar tocar a sensibilidade das novas gerações, para que o horror nunca mais volte. 

Artigo publicado em 20 de março de 2025 no Diário do Rio

sábado, 15 de março de 2025

Plantar o futuro

Plantar uma árvore é uma ação amorosa. Amor ao que existe, amor a este lugar, à Terra. É uma pequena ação de cura desse mundo tão devastado. Plantar árvores é uma interferência na flecha do tempo. Plantar e esperar os anos passarem, para depois reconhecer os troncos crescidos, que agora substituem aquelas mudas frágeis. A vida vai sendo vivida como é possível. Desafios vão sendo aceitos, conquistas e perdas se sucedem, a rotina é vivida em cada uma de suas ações repetidas. O tempo marca o corpo, tornando-o mais fraco. Enquanto isso as mudas plantadas se robustecem, projetando uma existência para muito além do tempo presente.

Vulcões entram em erupção e lançam colunas de fogo e fumaça no ar. Chaminés de indústrias e usinas mundo afora expelem toneladas de fuligem. Queimadas gregas, amazônicas e californianas pintam os céus de cinza. Bilhões de veículos queimam gasolina, diesel, álcool e o que mais houver. Aviões rasgam os céus deixando sua poeira fina, que cai sobre nós. Navios abarrotados de mercadorias cruzam os oceanos, tecendo, longe dos nossos olhos, uma malha de fumaça escura. As árvores tudo isso engolem. Elas constituem sua matéria dessas explosões da natureza, e da insanidade humana. Dia a dia, lentamente, agem pela redução da entropia, principalmente a que causamos.

A vida toda você buscou plantar árvores ou que elas fossem preservadas. Lutou pela preservação da Amazônia e da Mata Atlântica, contra a devastação do Cerrado. E teve mais derrotas do que vitórias. Um dia, você se vê dono de um sítio. Um pedaço de terra para dizer que é seu enquanto vivo for. Ele é a sua arca de Noé, para onde o que há de melhor em você poderá ser levado e guardado. E você planta.

De início, compra mudas de algum viveiro de estrada. Depois, passa a produzir suas próprias mudas. Coleta as sementes das frutas que come, para vê-las germinar. Descobre os segredos de como quebrar a dormência das sementes mais duras. Aquelas das árvores mais altas, das palmeiras mais exuberantes. Sua casa vira um berçário de futuros pomares e florestas.

Agora você viaja prestando atenção na flora de lugares longínquos. Você se torna um coletador de sementes, não se importando que sejam de espécies exóticas, estranhas ao clima e à paisagem daqui. Seu sítio tudo aceitará e o mundo vegetal será reproduzido ali em pequena escala.

Plantar árvores talvez seja uma forma de colonizar o futuro, deixando marcas vivas por aí. Como um cachorro que demarca território, você planta por todo lado. O seu mundo, o seu sítio agora estão povoados de projetos futuros. Ipês de todas as cores, que florescerão num tempo distante. Nêsperas que frutificarão num futuro incerto. Castanhas que cairão de araucárias que você não as verá tão grandes. Um paraíso projetado para quando você já estiver ausente. Você é feliz plantando.

Artigo publicado em 13 de março de 2025 no Diário do Rio.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Rio mais que 40º

Foto Ana Branco-Agência O Globo.

Deixamos fevereiro de 2025 para trás, o mês mais seco no Rio de Janeiro da série de medições iniciada em 1997. Não só isso, foi o mês em que os cariocas vivenciaram duas ondas de calor. Estados do Sul passaram por quatro dessas ondas, somente neste ano e, considerando o país como um todo, foram cinco!

Ondas de calor cada vez mais frequentes já vinham sendo anunciadas há tempos por quem estuda o fenômeno do aquecimento global. Pois bem, elas chegaram e devem se intensificar, tanto em frequência, quanto em aumento de temperaturas. A Prefeitura do Rio vem agindo no susto, aprendendo a buscar soluções quando os eventos se apresentam. Áreas de hidratação são criadas, eventualmente aulas são suspensas, recomendação de cuidados são divulgadas, como beber mais água, não se expor ao sol, etc. São medidas na direção correta e outras virão, mas são medidas paliativas.

O Rio é uma cidade quente, celebrada na música Rio 40° por outra querida Fernanda. Sua geografia particular nos encanta, mas os meteorologistas não sabem explicar o porquê de quase sempre termos as máximas temperaturas do país. Com o aquecimento global, o que é suportável com algum sacrifício, poderá se tornar um enorme desafio.

A cidade poderia estar mais bem preparada se a Prefeitura levasse a sério as recomendações dos estudiosos. Vejamos a questão da arborização urbana. Ela é quase inexistente em bairros da Zona Norte e Oeste. Na Zona Sul, onde existe, poderia ser muitíssimo melhorada. Com ondas de calor, precisamos de sombra, principalmente das árvores, já que áreas arborizadas têm queda de alguns graus na temperatura. 

A Prefeitura precisaria fazer uma busca mais forte por espaços para plantar, e precisaria abrir esses espaços naquelas calçadas que estão totalmente cimentadas. Atualmente, na Fundação Parques e Jardins há apenas uma máquina de cortar concreto nas calçadas. Durante a semana da primeira onda de calor do ano, debaixo do sol escaldante, os funcionários da Fundação Parques e Jardins estavam tentando abrir golas nas calçadas da rua Olegário Maciel, na Barra. Com uma única máquina, numa metrópole, o que podem conseguir? Muito pouco. E pior, os novos edifícios não têm obrigação de plantar árvores diante de suas calçadas ou de reservar espaços para isso. Tem sido comum a entrega de novos empreendimentos sem uma única muda de árvore plantada diante de suas fachadas, um absurdo. 

Com relação aos espaços não edificáveis, o Rio tem uma experiência exitosa, o Mutirão Reflorestamento. Ele é um projeto maravilhoso, que existe desde 1986. Mas, o projeto anda a passos lentos, como se não estivéssemos numa emergência em que a arborização das encostas da cidade seria fundamental para a redução das ilhas de calor. O Mutirão Reflorestamento, concebido para uma outra época, precisaria ser tornado um dos principais projetos da Prefeitura, com verbas e objetivos ambiciosos para a situação emergencial em que já estamos.

Além do reflorestamento de encostas, a Prefeitura precisaria cuidar de seus parques e praças. Somente alguns, que servem de vitrine eleitoral, são razoavelmente cuidados. Há décadas a Fundação Parques e Jardins se encontra sucateada, e os espaços verdes da cidade não são bem cuidados. Quando não chove, como neste mês de fevereiro que passou, a grama e os arbustos ressecam até ficarem irreconhecíveis. A Prefeitura do Rio de Janeiro nunca rega seus jardins. Ela os trata como mato. Flores então, nem pensar. Elas não existem no universo estético dos prefeitos cariocas. No entanto, gramados e canteiros bem cuidados contribuem para amenizar o calor.

Também a arquitetura produzida na cidade poderia auxiliar na melhoria da temperatura. Atualmente, são produzidos muitos edifícios de vidros espelhados que refletem o calor. Houve uma perda da sabedoria de como usar cores, materiais, espessuras das paredes, altura dos cômodos e ventilação cruzada em nossas edificações. Elas se tornaram dependentes de ar-condicionado nos seus espaços interiores, expelindo calor para o espaço exterior.

As cidades hispânicas, em seus centros históricos, costumam ter calçadas cobertas por galerias, uma solução antiga, mas interessante para lugares quentes. A cidade ecológica de Masdar, nos Emirados Árabes Unidos, tem gigantescos guarda-sóis mecânicos na sua praça principal. Durante o dia eles ficam abertos, provendo sombra, e se fecham à noite, revelando as estrelas. Fornecer sombra para os pedestres será vital na nova realidade que enfrentamos. Será preciso aliar tecnologia e criatividade.

A Prefeitura precisa também deixar de lado o seu preconceito com o uso de chafarizes por crianças e moradores de rua. Chafarizes aspergem água no ar e ajudam na redução da sensação de calor. O Rio precisa de fontes e chafarizes funcionando em todos os locais públicos. Se no calor as crianças entram nos chafarizes, é porque não lhes são dadas opções de diversão em dias quentes. A Prefeitura deveria construir piscinas públicas nos bairros distantes da orla. É assim nas grandes cidades do mundo. 

Com relação ao tema da hidratação nos períodos quentes, é necessária a atenção ao aumento do consumo de água em garrafas plásticas e ao seu descarte. A própria Prefeitura vem fornecendo água nessas garrafas e em copos de plástico nos seus pontos de hidratação. Não é uma boa solução. Em diversas cidades do mundo já existem pontos com torneiras de água filtrada, e refrescada, para enchimento de vasilhames reutilizáveis da população. São a versão contemporânea dos chafarizes e seria um serviço de primeira necessidade para a população carioca nos novos tempos. 

O aquecimento global e suas consequências é uma realidade desafiadora e as cidades precisarão pensar em medidas criativas para a sobrevivência dos cidadãos nesses tempos do novo normal. E em medidas de prevenção para momentos de eventos extremos. Há muito a fazer para além das medidas paliativas atuais. Se ouvisse os estudiosos e confiasse na população, a Prefeitura faria melhor. 

Artigo publicado em 06 de março de 2025 no Diário do Rio. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Jampa

Visitei João Pessoa no início década de 1980. Era uma cidade agradável, não muito grande, com belas igrejas num centro histórico interessante, junto a uma bucólica lagoa. Os bairros litorâneos ainda não eram subcentros importantes da cidade, sendo muito utilizados como área de veraneio das famílias de mais alta renda. Eram também preferidos por forasteiros, entre eles, professores vindos do Sul, que estavam sendo contratados pela Universidade Federal local. O litoral entre Tambaú e Cabedelo era praticamente vazio. Percorria-se essas praias quase sem encontrar com ninguém. 

Mas, desde o Plano de Remodelação de João Pessoa, de 1932, de autoria do urbanista Nestor de Figueiredo, já havia a previsão da ocupação do eixo em direção à Praia de Tambaú. A implantação dessas diretrizes definiu uma dicotomia social na cidade, indo as classes mais abastadas se localizar nessa área de expansão. Esse movimento de descentralização da cidade tornou-se mais efetivo na década de 90, quando se intensificou a ocupação de Cabo Branco, Tambaú e Manaíra no litoral, e de outros bairros, num movimento de espalhamento da mancha urbana. Hoje a cidade é bastante espraiada, com uma imensa área de preservação permanente no meio da mancha urbana, a Mata do Buraquinho, e áreas verdes ao longo dos rios.

As residências unifamiliares dos bairros da orla marítima, que serviam como casas de veraneio da elite local, foram substituídas por edifícios multifamiliares, em que o uso misto está muito presente. Como é comum em boa parte das cidades brasileiras, não há uma atenção à arborização urbana, quase inexistente. Com o fim dos quintais das residências unifamiliares, as árvores que ali existiam passam a fazer muita falta. As calçadas também não são ideais, já que estreitas e com obstáculos. Algumas são excessivamente inclinadas para conforto dos automóveis que acessam garagens ou estacionam em recuos dos prédios. E, atualmente, a tão desejada orla marítima se encontra poluída por ligações irregulares na rede de águas pluviais. 

O crescimento populacional de João Pessoa é um processo que vem se intensificando. No censo de 2010, foram contabilizados 723 mil habitantes, enquanto no último censo eles já eram 833 mil, um aumento de 110 mil pessoas. É interessante observar uma diferença em relação ao que ocorreu no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Belém, Fortaleza, Natal e Salvador, capitais que, de acordo com o Censo de 2022, perderam população no período entre as duas últimas contagens. Os pessoenses, que amam a qualidade de vida de sua cidade, já começam a se incomodar com o afluxo de novos moradores.

Esse crescimento se reflete na forte dinâmica da construção civil. Quase não há quadra nos bairros litorâneos em que não exista algum prédio sendo erguido. No entanto, os legisladores de João Pessoa, ou Jampa, tiveram a sabedoria de pensar essa verticalização de forma escalonada. Nas quadras próximas à praia são permitidos edifícios com três pavimentos e cobertura. Numa faixa mais recuada ficam os edifícios mais altos. Estes não costumam ser colados nas divisas laterais. Dessa forma, não se formou a barreira junto ao mar, típica de Copacabana, havendo melhor distribuição da capacidade de visualização do mar e melhor circulação dos ventos. Diga-se de passagem, que a orla, especialmente a de Tambaú, é muito usada à noite pelos pessoenses, que saem para passear, olhar o movimento e aproveitar a gostosa brisa que por lá sopra.

Mas, esse espalhamento gerou a saída de residências da área central. Ali ficou concentrado o comércio atacadista, em meio a um grande número de vendedores ambulantes. Nas proximidades desse centro, antigas residências foram transformadas em lojas e escritórios. Os edifícios residenciais ainda existentes no Centro são ocupados por famílias de renda mais baixa. Em 1982, o centro histórico de João Pessoa foi tombado pelo Estado da Paraíba. Mas, a perda de uso vem contribuindo para a degradação desse Patrimônio. E já se alerta o turista sobre locais inseguros nessa região, o que era impensável décadas atrás. 

Esse é um processo conhecido em outras capitais brasileiras. O abandono das áreas centrais de nossas cidades, e a falta de cuidado com seus espaços públicos, é um triste fato que se repete sem que os gestores locais percebam o mal que estão fazendo. Os custos posteriores de revitalização dessas áreas são infinitamente maiores. Em João Pessoa, devido à sua escala mediana, com a devida atenção muitos desses problemas ainda podem ser sanados. Seria preciso não seguir repetindo erros já cometidos em outros locais. Com todos os seus novos problemas, João Pessoa ainda é um local muito agradável. 

Artigo publicado em 27 de fevereiro de 2025 no Diário do Rio.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Excessos no projeto para o Jardim de Alah

Imagem do projeto do Consórcio Rio+Veerde

Em 1930, foi publicado o plano urbanístico de Alfred Agache para a Cidade do Rio de Janeiro. Entre suas propostas, que incluíam um metrô, Agache projetou um belo jardim para a área do Calabouço. Ele teria um espelho d'água em forma de canal, ladeado por canteiros ajardinados, caramanchões com trepadeiras floridas e aleias de palmeiras. O plano não foi implementado em sua integralidade, mas o jardim para o Calabouço influenciou o projeto do Jardim de Alah, implantado às margens do canal que liga a Lagoa Rodrigo de Freitas ao mar, entre Ipanema e Leblon.

Com uma estética Art-Déco, o Jardim de Alah recebeu esse sugestivo nome em razão de um filme americano que teria feito sucesso na época de sua inauguração, em 1938. Consta que gôndolas permitiam que os visitantes passeassem pelo canal. A plasticidade do Jardim de Alah levou ao seu tombamento pela Prefeitura no ano de 2001. No entanto, o parque foi cercado pela verticalização dos bairros vizinhos, e a paz dos visitantes foi atingida pela insegurança na cidade. Bem pior do que isso, foi o descaso das autoridades municipais com a sua conservação, estendida aos demais espaços públicos da cidade. Até mesmo um canteiro de obras do metrô chegou a ser instalado no jardim. Após a saída do canteiro, restou um espaço arrasado, onde havia as marcas dos sanitários construídos para os trabalhadores.

Não se sabe se a Prefeitura do Rio acionou a empresa do metrô, mas sabe-se que ela não retomou a conservação do parque. Ela optou por fazer uma licitação para a concessão do espaço por trinta e cinco anos. Venceu o consórcio Rio+Verde, que propôs um projeto que vem sendo alvo de muitas contestações. Sem entrar no mérito da concessão, dispensável caso a Prefeitura assumisse os cuidados com o parque, vale a pena discutir os elementos do projeto que têm provocado tanta recusa por parte de moradores e visitantes do Jardim de Alah. 

A concessão do Parque da Catacumba pode ser tomada como comparação. Numa intervenção minimalista, lá foi feita a sinalização de uma trilha, e foram instaladas estruturas de arvorismo, escalada e uma tirolesa. Já a proposta do consórcio vencedor para o Jardim de Alah altera de maneira muito radical a sua fisionomia, contrariando o tombamento municipal.

Na lateral próxima a Ipanema, o projeto propõe a construção de uma laje acima do solo, a poucos metros do espelho d’água, cobrindo a extensão de aproximadamente quatro quadras, entre a rua Barão da Torre e a avenida Epitácio Pessoa. Sob essa laje haveria lojas, restaurantes, um mercado e estacionamento. Visando amenizar essa intervenção, a parte superior dessa laje seria coberta por vegetação e alguma arborização. Mas nenhuma vegetação sobre a laje mudaria o fato de que ela seria um elemento de forte impermeabilização do solo do parque. Além disso, para a construção dessa imensa laje, haveria a necessidade de remoção ou realocação de árvores, o que foi contabilizado em 130 indivíduos de tamanhos variados.

A concessão do parque erra ao mirar ganhos excessivos e, para tanto, necessitar da construção de área em excesso sobre o parque. O seu caráter bucólico seria substituído por um ambiente de shopping à beira d’água. E a perda de permeabilidade do solo, quando se conhece as consequências que acarreta, seria um absurdo. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente poderia ter sido mais cuidadosa na apreciação do projeto proposto, mas ela não é mais responsável pelo licenciamento ambiental. O prefeito, que poderia ouvir o clamor público contra o atual projeto para o Jardim de Alah, não dá sinais de retirar seu apoio ao que está sendo proposto. Resta aos interessados, que não são poucos, a esperança de que a justiça leve o Rio+Verde a rever o seu problemático projeto.  

Artigo publicado no Fórum 21 em 17 de fevereiro de 2025 e no A terra é redonda em 18 de fevereiro de 2025.

Mestras vindas de longe

 

Nas primeiras décadas do século XX, professoras de ballet russas, e de outros países do Leste europeu, chegaram ao Brasil por diferentes razões. Podia ser a fuga do regime soviético, um amor no Rio de Janeiro, ou a esperança de refazer a vida no Novo Mundo. Traziam consigo o profundo conhecimento de uma arte que havia sido bem codificada por anos de desenvolvimento em terras eslavas. Haviam dançado as principais obras do repertório clássico para plateias exigentes de vários países e guardavam na memória as suas sequências coreográficas. Anotações e livros completavam a bagagem cultural que traziam aos trópicos. 

Buenos Aires era quase uma réplica do ambiente europeu, tornando a adaptação mais fácil. Lima, La Paz, Bogotá talvez fossem terrenos muito áridos a desbravar. O Rio era o exótico conquistável. Muita beleza, muito calor, pouca cultura, mas, sendo a capital, possuía uma elite desejosa de ver suas filhas aprimorando-se na arte do ballet, além do piano e do bordado. Superando o estranhamento com o novo país, e com garra, elas abriram seus estúdios e passaram a formar gerações que movimentaram o mundo da dança brasileira. 

Sempre fumando, um pouco irritadas com os pianistas que conseguiam, davam várias aulas por dia. A contagem do tempo musical podia começar em russo, passar pelo francês e terminar em sete e oito. Estabeleciam aqui a disciplina característica dessa arte. Crianças aprendiam a somente entrar em sala com seus coques perfeitos e fazendo reverência para as mestras. A fama que haviam conquistado se estendia para lugares distantes do país, de onde grupos vinham aprender com elas nas férias escolares. 

Ao encontrarem um talento a ser lapidado, dedicavam-se a ele com afinco. Que essa promessa não ousasse buscar sua formação em outras paragens! O ciúme era inevitável. Adolescentes temiam o julgamento sobre sua fraca evolução, a reprovação pelos quilos a mais ou pela falta de musicalidade. "Burra para o ballet" ou "você pode amar o ballet, mas ele não ama você" eram sentenças que levavam ao pranto aquelas sobre as quais recaiam.

Sem possibilidades de contatos frequentes com o mundo da dança europeia, precisavam confiar na memória, e nas antigas anotações, para remontar ballets no Theatro Municipal e para orientar suas discípulas. O tempo passou e elas já não eram as estrelas no palco. Suas alunas mais dedicadas haviam se tornado artistas talentosas que faziam seus olhos brilharem. Os rapazes demoravam a se interessar pela dança, mas chegavam ao ponto de cumprir bem o papel que então lhes era reservado, de suporte para as bailarinas. Já estas, encantavam plateias e se tornavam estrelas reconhecidas pelo público, pelas revistas e pelos políticos. 

Por trás do sucesso dessas estrelas brasileiras, lá estavam elas, as mestras já senhoras, com seus inconfundíveis sotaques e a maneira direta de dizer as coisas. Hoje, essas pioneiras se retiraram. Algumas, como Dona Eugênia, se foram deixando muitas saudades. Dona Tânia, aos 102 anos, permanece lúcida, o oráculo a quem ainda recorrem tantos e tantas que formou. O Rio deve muito a essas damas do ballet. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 20 de fevereiro de 2025. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Superexploração do Jardim de Alah

A Prefeitura do Rio de Janeiro é useira e vezeira da tática de deixar um próprio municipal, ou uma área pública, se deteriorar para depois vir com uma solução que envolva gastos maiores do que a simples conservação. Verbas para conservação não são tão grandes. Já uma obra de recuperação pode envolver licitação, a contratação de empresas e até, eventualmente, uma propinazinha de leve. O Jardim de Alah foi mais uma vítima dessa prática das administrações municipais cariocas.

Ele é um parque com 93 mil m2, inaugurado em 1938, na gestão do Prefeito Henrique Dodsworth, com projeto do arquiteto Azevedo Neto. Está situado nas duas margens do canal construído em 1920, que substituiu a ligação natural entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e o mar. O seu nome remete a um filme de Hollywood lançado em 1936, refletindo as sensações idílicas suscitadas pelo projeto.

Mas, seguidos prefeitos, incluindo o atual, deixaram o Jardim de Alah se deteriorar, e até permitiram que o parque fosse usado como canteiro da obra do metrô. Quando as obras terminaram, a Prefeitura aceitou o Jardim de Alah de volta, com o seu trecho próximo à Lagoa totalmente destruído. Os usuários e moradores das redondezas se perguntaram como isso foi possível. A resposta parece estar no que veio a seguir. 

Com o Jardim de Alah, a tática de deixar deteriorar para depois fazer obra foi um pouco alterada. Ao invés de fazer uma licitação para escolher uma empresa que fizesse as obras sob a direção da prefeitura, decidiu-se pela concessão do parque inteiro à iniciativa privada, com um projeto bastante polêmico. O parque foi concedido por 35 anos ao consórcio Rio+Verde, do qual Alexandre Accioly é o principal investidor. 

É possível fazer a concessão de um parque público? Não é o ideal, já que teoricamente o poder público deveria utilizar os recursos disponíveis para fazer a manutenção desses espaços. Mas, concessões têm sido feitas. A do Parque da Catacumba, por exemplo, gerou intervenções minimalistas. Ali foram feitas a sinalização de uma trilha, estruturas de arvorismo e escalada, e uma tirolesa. Já a concessão do Jardim de Alah se deu com um projeto que altera de maneira muito radical a sua fisionomia, apesar do parque ser tombado pelo próprio Município do Rio de Janeiro. 

O projeto propõe a construção de edificações para receber lojas, restaurantes e estacionamento, supressão e realocação de árvores e exploração de serviços. No trecho do parque na lateral próxima a Ipanema, e junto à Lagoa, o projeto propõe a construção de uma laje acima do solo, a menos de 10 metros do espelho d’água. Essa laje cobriria a extensão de aproximadamente quatro quadras, entre a rua Barão da Torre e a avenida Epitácio Pessoa. Sua parte superior seria coberta por vegetação e alguma arborização. Sob essa laje haveria lojas, restaurantes, um mercado e estacionamento. Para a construção dessa imensa laje, haveria, como consequência, a necessidade de remoção ou realocação de árvores, o que foi contabilizado em 130 indivíduos de tamanhos variados.

Evidentemente, que uma laje coberta por vegetação, construída sobre uma edificação, pode ser um ganho ambiental. Mas, uma laje sobre um parque, cobrindo uma área já permeável, mesmo com os promotores do projeto falando o contrário, não tem como ser considerada um ganho para o meio ambiente. Ainda mais quando sua construção exige o corte de árvores e a impermeabilização de milhares de metros quadrados. Está aí, talvez, o grande equívoco do projeto. A concessão do parque mira ganhos excessivos e, para tanto, necessita da construção de área em excesso sobre o parque. O seu caráter bucólico, idílico, seria substituído pela característica de um shopping à beira d’água. E a perda de permeabilidade do solo, quando se sabe das consequências de tal ação, é um absurdo.  

O projeto propõe também uma creche para as crianças da Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional localizado em frente ao canal, construído por iniciativa de Dom Hélder Câmara, e que recebeu desalojados da antiga Favela do Pinto. Ótimo, o projeto do Parque do Flamengo previu estruturas voltadas para as crianças, que acabaram tendo seu uso desvirtuado. Um bom projeto de arquitetura daria conta da creche em harmonia com o jardim. 

O projeto da Rio+Verde visualiza os frequentadores consumindo alimentos e bebidas nas instalações que seriam construídas. Não haveria problemas se uma estrutura leve, também em harmonia com o jardim, resolvesse isso. Mas não, o consórcio quer a frequência, e o consumo, de centenas ou milhares de pessoas. Aí está a questão, o projeto do consórcio supera em muito a capacidade de suporte do Jardim de Alah. É um projeto equivocado para o local a que se destina. 

Então chegamos a isso, um impasse que o Prefeito se recusa a reconhecer. O Jardim de Alah poderia ter sido bem conservado pela Prefeitura, mas não foi. A Prefeitura poderia ter feito a recuperação do Jardim de Alah, mas não o fez. A concessão do Jardim de Alah poderia ter sido feita com propostas de intervenções mais delicadas e menos invasivas, mas não foi. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente poderia ter sido mais cuidadosa na apreciação do projeto proposto, mas esse poder lhe foi retirado. O prefeito poderia ouvir o clamor público contra o atual projeto para o Jardim de Alah, mas não o faz. Aparentemente, a única esperança seria a justiça obrigar a Rio+Verde a rever o seu mau projeto. 

Artigo publicado em 13 de fevereiro de 2024 no Diário do Rio.

 

Um Gol Contra a Cidade

Roberto Anderson e Liszt Vieira

O Decreto que desapropriou a área do Gasômetro, na periferia do centro da cidade, é uma agressão jurídica e urbanística à cidade e seus habitantes. Um terreno pertencente à Caixa Econômica Federal, um bem público, vai ser entregue a uma empresa privada, o Clube de Regatas do Flamengo, para a construção de seu estádio, reforçando o fracassado dogma neoliberal de privatizar o que é público.

Lembremos que a desapropriação por utilidade pública torna público o que é privado, em benefício do interesse público. E que a execução da benfeitoria pretendida com a desapropriação se dá sob a gerência do poder expropriante. No caso, temos o inverso: uma empresa pública federal é expropriada de um de seus bens, o que contraria a legislação sobre desapropriações, recebendo um valor inferior ao que ela acredita valer o terreno, para favorecer um único clube privado de futebol. A articulação política para dobrar a Caixa Econômica é poderosa, refletindo a força do Flamengo. Além do Prefeito, há autoridades em Brasília envolvidas nesse processo.

Os custos das obras viárias e da infraestrutura caberão à Prefeitura, os prováveis problemas serão sentidos por toda a população, mas os benefícios serão privados. Tudo isso sem plano urbanístico, afetando o Patrimônio, sem a devida prioridade à construção de escolas, postos de saúde, saneamento, moradias etc.

Do ponto de vista urbanístico, os impactos com a construção de um estádio para 80 mil pessoas serão consideráveis, trazendo enormes problemas para o trânsito na área e no acesso à Ponte Rio-Niterói, e perturbando o bom funcionamento da rodoviária e do recém-inaugurado Terminal Gentileza. A uma distância de apenas 4 km do Maracanã, e não longe dos estádios de São Januário e Nilton Santos (Engenhão), este novo estádio é um contrassenso e uma ameaça à viabilidade econômica do Maracanã. Seria lamentável se o querido Maracanã tivesse o destino de outros construídos para a Copa de 2014 e que permanecem ociosos.

Além disso, não tem sentido reservar 90 mil m2 no centro da cidade para uso de apenas 4 ou 8 horas por semana. É importante salientar que o clube deseja comprar também um terreno vizinho, do outro lado da avenida Pedro II, para construir um estacionamento. Assim, a área subtraída a usos mais desejados, como moradia e serviços, seria bem maior. O terreno, apesar de esforços já realizados de descontaminação das substâncias tóxicas da antiga fábrica de gás, muito provavelmente ainda segue contaminado.

Não há estudos de impacto ambiental e de vizinhança. Toda essa operação está sendo feita embalada numa enganadora propaganda eleitoral de “revitalização” do centro da cidade. Mas o que vitaliza uma área é a vinda de novos habitantes e o comércio e serviços que os seguem. 

O Prefeito tem feito um uso distorcido do Estatuto das Cidades em projetos de operação urbana consorciada e acaba de sancionar a lei mais valerá, que admite a burla da legislação urbana mediante pagamento. Uma visão muito particular do que seja o bem comum. Enfim, em nome do seu interesse eleitoral e de alguns políticos, vai ser construído um elefante branco, sem nenhuma justificação técnica, acarretando enormes prejuízos à cidade.

Um prefeito, que nem sempre acertou em suas nomeações para o governo municipal, deve repensar seus valores de como administrar uma cidade. Seu populismo eleitoral pode até render ganhos a curto prazo, mas o caos urbano que vai deixar como legado irá certamente conspurcar sua imagem política no futuro.

Roberto Anderson Magalhães, arquiteto, ex-diretor do INEPAC e professor da PUC-Rio

Liszt Vieira, membro do Conselho da Associação Terrazul e da Coordenação do Fórum 21. Foi Coordenador do Fórum Internacional de ONGs durante a Conferência Rio-92.

Artigo publicado no Jornal O Globo de 09 de agosto de 2024.

 

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Buraco do Lume ou dos cariocas?

Buraco do Lume - foto Roberto Anderson

Nos últimos meses, uma série de artigos têm sido publicados na imprensa carioca contestando articulações do mercado imobiliário que possibilitem a construção de um edifício no terreno conhecido como Buraco do Lume, localizado no Centro, no Rio de Janeiro. Com a absurda lei do gabarito livre, de iniciativa do Prefeito Eduardo Paes, e que visa emular naquela área os arranha-céus de Manhattan, o céu é o limite para qualquer edificação que porventura substitua as árvores lá existentes. No entanto, o Prefeito faz que não é com ele, e não vem a público desautorizar essa possibilidade. Se o fizesse, estaria em consonância com opinião anteriormente por ele mesmo manifestada.

O tal buraco, ali atrás da Praça Mário Lago, antiga Melwin Jones, foi a área escavada para receber as fundações de um prédio. Tornou-se buraco quando o Grupo Lume o abandonou e paralisou as obras, após sofrer intervenção federal, por um acúmulo de gigantescas dívidas. Ficou assim por muitos anos, cheio de água da chuva e do lençol freático. Para evitar a proliferação de mosquitos, a Feema chegou a colocar peixes no lago que havia se formado. 

Israel Klabin, um prefeito de curto mandato, mas de muita ação, tomou a sábia decisão de aterrá-lo na década de 1980. Depois disso, ficou um terreno cercado por cabos e coberto de terra. Pouco a pouco, sem planejamento, foi ganhando mudas de árvores e ficando com jeito de quintal, em pleno Centro do Rio. Só mais recentemente, com o desgaste dos cabos que o cercavam, passou a ser atravessável, consolidando seus ares de espaço público. 

Na origem, o caráter privado do terreno é bastante discutível. Era parte do Morro do Castelo, equivocadamente demolido. Com o desmonte do Morro, tornou-se área pública e, por artifícios da administração da cidade, na década de 1970, foi incorporado ao patrimônio do antigo Banco do Estado da Guanabara. Mais tarde, foi repassado a investidores privados, entre eles o malfadado Grupo Lume. Com os problemas financeiros deste último, a propriedade do imóvel retornou então ao Banerj. E seus sucessores voltaram a privatizar o terreno. Essa confusa história da sua propriedade indica que o uso público do imóvel seria algo natural, uma volta às suas origens.

Que ameaças pairam sobre esse uso público? Primeiramente, a Lei dos Puxadinhos do Crivella, de 2020, aproveitou o embalo e revogou o Decreto nº 6.159, de 30 de setembro de 1986, que indicava o uso cultural como único uso possível para o terreno. Mas essa lei foi suspensa pelo STF, em razão de conter uma série de irregularidades. Vale lembrar que o Prefeito Eduardo Paes, em 2024, aprovou nova Lei dos Puxadinhos, igualando-se a Crivella em malfeitoria. Em 2022, os deputados estaduais aprovaram o projeto de lei do Deputado Rodrigo Amorim (União Brasil), que desfazia o tombamento legislativo do imóvel. Curiosamente, os esforços para tornar o local edificável vêm da extrema-direita e do evangelismo da Igreja Universal, representada pelo então prefeito Crivella. 

O que o carioca deseja? Que o prefeito garanta o uso público do espaço. Se, depois de tantas negociações ainda existir algum direito construtivo no terreno, que a Prefeitura proponha a troca de local desse potencial construtivo. Isso já foi feito na encosta do Morro Dois Irmãos. O então Secretário de Urbanismo Alfredo Sirkis comandou essa transação, permitindo o posterior reflorestamento daquela encosta. 

O Prefeito Paes conhece o mecanismo. Quando lhe interessou, como torcedor do Clube Vasco da Gama, permitiu a transferência de potencial construtivo até do gramado do estádio, o que gerou bons ganhos para o clube, viabilizando a ampliação daquele equipamento. 

No tal Buraco do Lume atualmente existem cerca de 45 árvores, sendo a maioria já crescida. Lá existem mangueiras e goiabeiras, árvores típicas de um plantio fortuito. Mas, há também touceiras de palmeiras areca-bambu, palmeiras jerivá, paineiras, ipês, figueiras religiosas já grandes, e fícus. Estes últimos costumam ser transplantados de vasos ornamentais quando seu tamanho excede o espaço das casas e escritórios. Nessas árvores, pássaros fizeram seus ninhos. E sob suas sombras descansam trabalhadores. 

O Buraco do Lume precisa continuar como esse quintal no meio do Centro. Não é necessário muito planejamento, basta que sejam plantadas mais árvores, de preferência frutíferas. Ele funciona como área de infiltração das águas pluviais numa área já muito densa e impermeabilizada. Qualquer chuva mais forte e a Rua São José ali ao lado já alaga. Sem esse escoadouro das águas, a situação vai piorar. 

Os cariocas transformaram um lugar com nome de buraco num espaço aprazível. Tomaram posse e o lugar agora é deles. Nenhum incorporador deveria ter o direito de destruí-lo.

Artigo publicado em 06 de fevereiro no Diário do Rio.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Por aí por Cuba

Em Cuba, o Brasil é muito lembrado como o país do carnaval e das novelas. Há sempre uma delas passando na TV local. A do momento é “Um lugar ao Sol”, com Cauã Reymond. Nosso país é visto como um aliado e Lula é elogiado até por cubanos que criticam o governo local. Mas, ele é questionado por militantes mais fervorosos sobre o não apoio à suposta vitória de Maduro. Já Bolsonaro, é uma unanimidade negativa.

Como país insular, Cuba tem uma cultura única e cativante. Sendo um país relativamente pequeno, mas muito diverso, percorrê-lo é entrar em contato com uma história construída por indígenas, colonizadores espanhóis, franceses e americanos, piratas, ditadores, guerrilheiros revolucionários, consultores soviéticos e invasores a serviço do imperialismo americano. O povo cubano a tudo resiste.

Há ônibus cujas passagens somente podem ser pagas em dólares ou euros. Neles, viajam os turistas e os cubanos que têm condições de pagar. É requerido um check-in presencial de, pelo menos, uma hora de antecedência, ou o lugar no ônibus é redistribuído. 

Esse rigor desaparece na estrada, quando o motorista faz diversas paradas aleatórias. Ele pode parar para deixar galões de combustível numa casa, ou comprar coisas que, talvez, sejam revendidas, como sacos com dezenas de biscoitos. Os passageiros não reclamam. É difícil encontrar ônibus direto entre locais mais distantes. Geralmente, são paradores.

As estradas são relativamente vazias, e os veículos passam em velocidades não muito altas. É curioso ver um carro de décadas atrás galhardamente viajando entre cidades. Os caminhões não podem ser altos, já que os viadutos que cruzam as estradas foram construídos com baixas alturas. Alguns desses caminhões, e mesmo alguns ônibus, que fazem trajetos mais regionais, têm carrocerias quase artesanais, produtos da carência e da inventividade.

Em estradas locais, é possível encontrar uma sucessão de pequenas placas de concreto com slogans revolucionários nas bordas: Si, se puede; Nuestra tarea: produzir, produzir y produzir; Reconstruir la industria de azúcar! A tinta gasta denota que eles não têm sido renovados.

A Revolução tem conquistas duráveis e o embargo provoca dificuldades terríveis. Mesmo em pequenos povoados do interior não se vê moradias precárias. As pessoas moram em casas e conjuntos habitacionais, construídos segundo modelos de pré-fabricação em concreto. Todos com a pintura um pouco gasta. Nas áreas cultivadas, vê-se, com frequência, o uso do arado puxado por junta de bois. 

Nas cidades cubanas, de quando em vez, se escuta pregões cantados de vendedores que passam a pé ou de bicicleta oferecendo pão, biscoitos, e outros produtos. É comum também o vendedor de frutas. Em carrocinhas, ou com umas pencas de bananas nas mãos. Este é o caso de um professor de geografia, que dá aulas à noite e vende bananas de dia. Membro do Partido Comunista de Cuba, mostra-se um defensor da Revolução, mesmo admitindo os problemas econômicos do país. Segundo ele, com Fidel, isso não estaria acontecendo. 

Varadero é destino de quem quer conhecer uma praia de lindo mar azul turquesa do Caribe. Estabelecida sobre uma restinga, a cidade é limpa e organizada, mas sem maiores atrativos do que a praia. Recebe um forte fluxo de turistas russos, e as placas indicativas das atrações estão também em russo. Não se vê cubanos na praia, ocupados em ganhar a vida servindo os turistas.

Trinidad é uma bela cidade colonial de 511 anos, com ruas calçadas em pedras irregulares, lembrando as cidades do ciclo do ouro no Brasil. A musicalidade e sensualidade cubanas estão presentes no ensaio conduzido por professoras numa praça da cidade. Os meninos tocam instrumentos de percussão, alguns desses são apenas uns galões de plástico, e dão o ritmo do evento. A cada compasso, as meninas dão uma mexida com as cadeiras, uma boa rebolada. O ensaio é para uma parada cívica e, de tempos em tempos, elas gritam uma frase de louvor ao líder da independência Jose Marti.

Anoitece com apagão programado em Trinidad, como em diversas outras cidades do país. A população já sabe o horário sem luz de cada dia. Apenas os restaurantes da área histórica têm energia de geradores para atender à clientela. Sem luz, a cidade fica menos alegre e mais silenciosa. As pessoas recolhem-se às suas casas. No final, a luz volta antes do previsto e a cidade retoma a vivacidade característica de suas noites, ao som da boa salsa.

Santa Clara é uma cidade fundada por habitantes do litoral, que fugiram dos constantes ataques de piratas na costa. Com relação à arquitetura, o interesse é a sua praça central, cercada de belos edifícios, e seus arredores. Polo industrial e universitário, em meio a uma área de produção agrícola, aí se vê uma classe média mais forte, que frequenta restaurantes, e parece sentir menos o peso dos atuais problemas econômicos do país. 

Santa Clara tem uma forte ligação com Che Guevara. Foi a brigada comandada por ele quem a conquistou durante o processo revolucionário. Alguns senhores, que vivenciaram o processo revolucionário, fazem o trabalho de guias junto ao monumento à vitória do Che em Santa Clara. Lá, vagões de trem e peças de artilharia são expostos. Os guias falam com entusiasmo das estratégias empregadas pelo Che e seus soldados para, com apenas 19 combatentes, e usando coquetéis molotov, vencerem quatrocentos soldados bem armados, que viajavam em um trem de vagões blindados. Romantismo puro.

Em outro local da cidade, um mausoléu e um monumento foram erigidos para receber os restos mortais do Che e dos combatentes que com ele caíram na Bolívia.

Em Havana, o Paseo del Prado é um belo boulevard entre a cidade velha e a área mais central. Pavimentado com desenhos geométricos, é delimitado por bancos de mármore trabalhado e belos vasos, esculturas e postes de ferro fundido. Ali, sob as árvores, se concentra a garotada moradora dos apartamentos subdivididos dos lindos prédios deteriorados da vizinhança. Crianças andam de patins ou de skates, os adolescentes escutam música e, no meio disso tudo, de vez em quando, mulheres passam oferecendo seus serviços sexuais. À noite, é possível ver casais dançando tangos, valsas, salsas e outros ritmos. A pouca luz e o chão liso formam o ambiente perfeito para o baile.

Em ruas mais movimentadas de Havana, se sente o cheiro forte de combustível queimado pelos carros antigos e pouco econômicos. Esses, por não serem em grande número, deixam espaço para os pedestres nas ruas mais locais. Nelas, as pessoas podem desfrutar do saudável hábito de caminhar pela rua, sem estarem restritas às calçadas. 

Em Cuba não se vê a miséria presente nos demais países das Américas. Mas, há uma crise econômica que vem trazendo descontentamento. Senhoras reclamam dos preços e baixam a voz para criticar o governo. O sonho americano e o desejo de emigrar são constantes entre os mais jovens. Escuta-se música cubana e latina, mas nessa batalha cultural a Revolução tem perdido terreno. Procure algum cubano vestindo roupas com alusão a Cuba. Não se vê. Também não há pessoas usando camisas com a estampa do Che. Há sim uma profusão de expressões e frases em inglês nas roupas. E camisetas de times americanos. Repare, ali vai uma menina que passa usando um boné do Trump... 

Artigo publicado em 30 de janeiro de 2025 no Diário do Rio.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Caleidoscópio habanero

 

Havana é um desejo, especialmente para quem é de esquerda. E tem qualidades para encantar pessoas de qualquer orientação política. É uma das cidades mais interessantes das Américas. Não só os carros antigos foram preservados, como a sua riquíssima arquitetura, com exemplares do século XVI ao XX. Mas, o visitante é confrontado com difíceis questões da realidade atual. 

O povo é simpático, disposto a conversar e a fazer amizades. Cidade de largas avenidas projetadas por Forestier, que preservou a cidade velha. Nessa mesma época, Agache fazia o seu plano para o Rio de Janeiro, não completamente implementado, que aprofundava a destruição do tecido antigo iniciada com a abertura da avenida Central e o arrasamento do Morro do Castelo. 

Com grande esforço, uma parte de Havana Velha já está recuperada. Restaurados, sobrados e edifícios deslumbrantes rivalizam em qualidade arquitetônica com os das mais belas cidades do mundo. Recebem galerias e bons restaurantes. Duas quadras adiante, está a cidade real, de edifícios e sobrados ainda caindo aos pedaços, habitados por uma população que se vira como pode.

A cada pavimento térreo, uma venda improvisada. Em cada porta, uma mesinha para vender três saquinhos disso, quatro pacotes daquilo.

Em Vedado e Miramar, casas e mansões restauradas sediam embaixadas e centros de cultura. O Centro Fidel Castro ocupa uma das mais belas casas. Nas demais, roupas penduradas nas janelas indicam a sua ocupação por pessoas simples. Ou famílias apadrinhadas nos tempos mais heroicos. Casas e prédios de apartamentos estão depauperados, as calçadas estragadas, os jardins privados pouco cuidados.

No Malecon, famílias passeiam e pescadores jogam suas linhas para garantir o peixe do dia. Alguns edifícios e conjuntos habitacionais, de frente para o mar, mostram a argamassa rompida e armações de ferro expostas. Risco de desabamento em prédios ocupados e presença de ruínas na vizinhança.

Em Havana Velha, músicos nos bares e restaurantes tocam a boa música caribenha. A abordagem ao turista é frequente. Depois da pergunta sobre a procedência, pode vir a oferta de um suposto convite gratuito para um suposto show de salsa à noite. Como sinal de gratidão, o turista já pode ir pagando uma bebida ao generoso sujeito. Com boa conversa, logo se pede que o turista pague um trago, ou que compre leite para os filhos. Por necessidade, pede-se muito em Havana Velha.

Na ausência de um bom sistema de transporte público, ladas, chevrolets e todo tipo de carro velho fazem lotação. Há também o transporte por vans, tuc-tucs, alguns com carrocerias, e triciclos. Ônibus, que custam trinta vezes menos, demoram a vir. Quando chegam, muitas vezes estão lotados. O cobrador se desdobra para fechar a porta atrás do grupo que não coube, e se pendura para fora. Muita gente andando longas distâncias para se deslocar pela cidade. Porém, há pouca presença de bicicletas, que foram muitíssimo usadas no período especial, uma etapa econômica difícil que o país atravesso. 

Há problemas, como empoçamentos pontuais de esgoto, e na coleta de lixo, que pode ser visto acumulado nos pontos de descarte. Problemas que não são encontrados em outras cidades do país. 

Pouca iluminação pública nas ruas mais locais e cortes quase diários de energia nos bairros. Mesmo assim, as ruas são seguras. Nelas, as pessoas andam consultando seus celulares. Os inúmeros monumentos da cidade não tiveram suas partes em metal roubadas (cariocas entenderão). Mas, é possível presenciar a tentativa de roubo de um cordão do pescoço do gringo. 

Longas filas de carros nos postos de combustíveis, e filas e aglomerações nos caixas eletrônicos dos bancos e nas bodegas estatais, onde os preços são mais baixos, mas faltam produtos. 

Grandes hotéis, de redes internacionais, com poucas luzes acesas nos andares. Após a Covid, o turismo caiu e a economia do país não se recuperou.

Muitos relatos sobre a difícil situação econômica de Cuba e de como o embargo de mais de meio século não explica tudo. A necessidade de importar açúcar para um país que era grande produtor diz muito sobre a situação atual. A transição para a nova geração de dirigentes revolucionários não está sendo fácil.

É comum encontrar quem relate dificuldades para ter renda e critique o sistema. Queixam-se da perda de qualidade do ensino e dos atendimentos médicos. Os protestos massivos de três anos atrás resultaram em muitas prisões e condenações, desencorajando novas manifestações. Mas, a bandeira cubana é muito presente pela cidade e há, também, quem acredite que as coisas irão melhorar.

Desiludidos, ex-seguidores da Revolução vão se tornando pequenos capitalistas e contratam empregados. A auxiliar de uma hospedaria caseira consegue ganhar mais do que um médico, que trabalha na rede pública. A emigração é vista como solução, e muitos jovens o fazem, ou planejam fazer. Médicos, engenheiros e professores estão abandonando a profissão para trabalhar em coisas mais rentáveis, como atendente no comércio. 

Já se vê diferenças de posses entre quem tem parentes no exterior, ou está nos ramos de turismo e negócios, e os demais. Para estes, a subida dos preços tem tornado até a alimentação algo difícil. O jantar de um turista num restaurante comum pode valer quase a metade do salário de um médico, que só pode trabalhar para o Estado. Há pessoas revirando lixeiras. E há as que pedem dinheiro, dizendo ter fome.

Todos estão vestidos e calçados, ainda que de forma simples. Além dos desejados tênis, usam muito chinelos e botas de plástico, que são mais baratos. Boa parte dos jovens segue a moda básica internacional. 

Pessoas de Yoruba (Santeria, um nome depreciativo) se vestem de branco e com colares. As mulheres com saias ou calças, batas brancas rendadas e turbantes igualmente brancos. Muitas delas, jovens, cumprindo seus deveres de um ano após a raspagem dos cabelos, quando também devem usar uma sombrinha branca, resguardando-se do sol e do sereno.

As ruas de Havana Velha fervilham de gente. Crianças brincam nas ruas em seus uniformes de escola. Pessoas se sentam nos bancos, ou nas soleiras dos edifícios, para ver o movimento e conversar. Uma população de maioria negra vivendo em condições simples. Igualdade na vida apertada. 

Apesar dos problemas, parece haver energia entre os jovens, vontade de viver a vida e se alegrar com o que ela oferece. Sentar-se ao fim do dia à beira-mar, tocar um violão, encontrar os amigos para ouvir música num bar, namorar num lugar deserto sem ser assaltado, tudo isso se vê em Havana. 

O melhor de Cuba é o seu povo. Não se deve duvidar da capacidade de um povo que já fez uma revolução e sobrevive às dificuldades do embargo. Enfrentam tempos difíceis, mas o país é maior do que os problemas conjunturais. Vale muito a visita. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 23 de janeiro de 2025.