sábado, 23 de agosto de 2025

Inimigos instantâneos

Você se considera uma pessoa pacífica e sem inimigos. Pacífica, até se deparar com as tentativas de golpe bolsonarista e as agressões de Trump ao Brasil. Aí o sangue ferve. Mas, fora isso, você cultiva a ideia de não ter inimizades. Em relação àqueles com os quais um dia brigou na vida, a zanga durou pouco. Logo você voltou a falar e não manteve rancores. Uma leve sombra de desconfiança talvez, vá lá. Você não professa nenhuma religião, mas se considera uma pessoa ética, que deseja a redução das injustiças do mundo e a proteção do meio ambiente. Você tenta levar sua vida numa boa.

Você está no meio do trânsito, bem atrasado, e o carro da frente naquela vagareza. Você consegue ultrapassá-lo, mas logo à frente o trânsito para. Tá daquele jeito, para e anda. E você precisando chegar logo no trabalho. Quando acha que vai andar, o sinal fecha. E aquele carro do motorista lento, que você ultrapassou, Deus sabe como, conseguiu passar o cruzamento antes que o sinal fechasse. Deve ser uma conspiração. Forças estranhas não deixam a sua vida deslanchar. Mas você é uma pessoa legal.

Numa noite dessas, enquanto dirigia seu carro de volta para casa, você se deparou com um indivíduo montado numa moto que gesticulava agressivamente em sua direção. Ele fazia gestos, mostrava o dedo, gritava coisas horríveis e ameaçadoras a seu respeito. A rua estava mal iluminada, e a moto dele estava com o farol apagado. Nessas circunstâncias, é possível que você o tenha fechado ao ultrapassar outro carro. Você jura para si mesmo que não o viu, sequer sabe que infração pode ter cometido, já que no escuro aquela moto não existia. Mas ali estava ele, enraivecido, jurando que lhe estraçalharia se pudesse. Um inimigo instantâneo que você não supunha que pudesse ter.  

Você pensa em como inimizades surgem a todo instante no trânsito. Há carros e motos demais, pistas de menos, e falta empatia. Qualquer coisa é motivo para uma briga. Espertos surgem do nada, ultrapassando pela margem errada e ocupando o lugar que você deixou vazio à frente para não bloquear o cruzamento durante o engarrafamento. Mais espertos ainda usam uma falsa sirene para passar à frente dos demais. 

Você não aguenta mais o excesso de buzinas. Basta o sinal ficar verde e atrás já terá alguém impaciente sinalizando que você deveria estar cem metros adiante. Você se irrita com a insistente buzina das motos. Os que as dirigem o fazem para que você não se atreva a mudar de faixa e não ouse barrar-lhes o caminho, velozes entre os carros. Você pragueja contra a paradinha em fila dupla, que inutiliza uma faixa inteira da rua, obrigando os carros a tentarem se desvencilhar da cilada.

Eventualmente, você também erra. O trânsito estava lento e, quando você viu o sinal fechou com o seu carro sobre a faixa de travessia. Falta grave, punida com algum pedestre desejando as piores coisas para você e sua pobre mãe. Errar é humano, mas no trânsito não pode, porque detona impaciências represadas.

Você está cansado, o dia de trabalho foi longo. Você acumula momentos de estresse no trânsito e xingamentos exagerados por pequenas faltas. O carro de trás, não se sabe por que razão, está com o farol alto refletindo no seu espelho retrovisor, cegando-o. Você protege a sua visão com a mão, espera que o motorista perceba que está lhe incomodando. Você não sabe se ele o faz de propósito ou se é mais um distraído no trânsito. Você se irrita, deixa que ele o ultrapasse. E aí, não resiste. Sem medir as consequências, você acende seu farol alto em represália. É a sua vez de persegui-lo de perto, buzinar e gesticular. Você chegou lá. Por hoje, tornou-se mais um bárbaro no trânsito.  

Artigo publicado no Diário do Rio em 22 de agosto de 2025.

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