O Brasil parece estar na moda. O Carnaval esteve cheio de estrangeiros. Nunca tantos gringos ganharam tantos seguidores nas redes sociais falando sobre suas experiências no Brasil. É verdade que, lá no século XVI, os relatos de Hans Staden sobre os exotismos de nossa terra fizeram sucesso na Europa. Mas agora há uma profusão desses relatos, que atraem novos viajantes que, por sua vez, também divulgarão as suas impressões. Vale tudo. Vale falar de comida, dos costumes que acham curiosos, do namoro apimentado, e até da experiência de ser assaltado. O jeito de ser do brasileiro foi até capaz de atrair para nós um campeão olímpico de ski na neve!
O mundo e nós mesmos brasileiros, em geral gostamos de pensar e ver o Brasil como uma terra de natureza bela, de praias formosas, que lançam modas, com uma forte herança cultural, um povo simpático e trabalhador, que dança samba, ama o futebol, e festeja o carnaval. Terra essa que, além de tudo, é abençoada por Deus! Mas, aí está se falando muito do Rio de Janeiro! A Cidade Maravilhosa ainda é uma grande formadora da imagem do Brasil. Antes deste país crescer em direção ao Centro-Oeste, antes de se embrenhar pela Amazônia, já aqui eram moldadas as principais características do que seria a nação. Cidade colonial, sede do Vice-Reinado, corte, capital da República, capital cultural, que outra cidade brasileira teve tantos títulos? Pensar o Brasil, conhecer o país, passa por um olhar atento ao Rio de Janeiro, e os turistas bem o sabem!
Nos vemos refletidos nas fotos captadas pelos visitantes. Boa parte dos ícones dessa imagem de Brasil estão generosamente espalhados pela cidade. Aí estão as magníficas praias cariocas, e a Pedra da Gávea, o Pão de Açúcar e o Morro Dois Irmãos, algumas dessas fantásticas formações rochosas que se destacam de maneira espetacular na nossa paisagem, e que um dia, lá no Pleistoceno, já foram ilhas. Aí estão os Arcos da Lapa, o belo aqueduto construído por Gomes Freire no século XVIII, que trazia as águas do Rio Carioca desde os altos de Santa Teresa até a cidade colonial. E também o Cristo Redentor, obra Art Déco inaugurada em 1931, projeto de Heitor da Silva Costa, com a colaboração de Paul Landowski. O Maracanã, projetado em 1948 e considerado à época um dos maiores desafios da engenharia brasileira, símbolo do esporte que consagrou o Brasil pelo mundo afora. E o MAM, obra mais bela do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, de 1953, e o igualmente modernista Monumento dos Pracinhas, de 1956, projetado pelos arquitetos Hélio Ribas Marinho e Marcos Konder Neto.
Mas o Rio encanta ainda pelos detalhes. As calçadas em pedras portuguesas, com seus desenhos de ondas que correm o mundo e os postos de salva-vidas, referência do mapa mental dos cariocas, que conhecem sua praia predileta pela numeração de cada posto. Os conjuntos de sobrados do Centro, do Catete e da Área Portuária, salvados da fúria da especulação imobiliária, que agora volta a ameaçar a cidade. São também o retrato de um Brasil acolhedor e amoroso, onde o pequeno comerciante imigrante se estabeleceu. E os gringos já descobriram as favelas, com suas ladeiras, festas de funk e pousadas baratas. Há o bondinho, que balança pendurado entre os morros da Urca e o Pão de Açúcar desde o início do século XX e o prédio da Central do Brasil, com seu relógio que nunca mais andou na hora. Há também a cúpula da Candelária, impressionante obra de engenharia do final do século XIX, revestida em lioz, e sua imponente fachada em cantaria, marcando o eixo da Avenida Presidente Vargas, a grande via em direção à Zona Norte do Rio.
Assim é o Rio de Janeiro, generoso em imagens que falam de si e do Brasil, orgulhoso de suas belezas, as quais exibe a quem quiser ver, receptivo a todos que aqui chegam e que logo já são meio cariocas. Assim é o grandioso painel que, cada vez mais numerosos, visitantes dessa cidade terão à disposição para suas postagens em redes sociais. Como nem tudo é bacana, é hora de a Prefeitura regularizar o aluguel de alta rotatividade. Em outras cidades em que o afluxo de visitantes também cresceu, os preços dos aluguéis para os moradores foram às alturas. E quando isso aconteceu, os turistas acabaram sendo hostilizados. Dá para resolver antes de se chegar a tanto.
Artigo publicado em 19 de fevereiro de 2026 no Diário do Rio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário