quinta-feira, 28 de maio de 2026

 

Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, nascido em Palma, Minas Gerais, em 1944, desenvolveu toda a sua vida profissional no Rio de Janeiro, cidade à qual serviu em diferentes cargos públicos ao longo da sua carreira. Ele foi o idealizador e a grande liderança do projeto Corredor Cultural, que salvou da destruição boa parte do centro do Rio de Janeiro. Ele também realizou projetos para espaços públicos da cidade e foi Secretário de Urbanismo. Nesta entrevista (com a colaboração da estagiária Beatriz Jucá Pereira Campos), realizada em 18 de maio de 2026, ele aborda as origens do projeto Corredor Cultural, as emoções e os desafios vividos ao longo da consolidação do projeto.

O período na Holanda

Roberto Anderson: Augusto, eu queria voltar um pouco no tempo e relembrar o processo de criação do Corredor Cultural. Teve toda aquela história de você ir para Holanda, mas, antes de você ir para lá, você já tinha um pouco de preocupação com esse assunto?                                                                            

Augusto Ivan: Já sim. Eu trabalhei muito intensamente na demolição do Morro de Santo Antônio, documentando aquilo. Eu não entendia muito do assunto, mas eu tinha que entregar as plantas dos imóveis que seriam desapropriados. Isso foi feito quando eu trabalhava na Secretaria de Obras, por onde eu entrei na Prefeitura. Em 1974, surgiu uma oportunidade de ir para a Holanda e fui. Peguei as malas e fui para a Holanda para um período no Bowucentrum International Education, em Roterdã. Lá, desenvolvi um trabalho, juntamente com um africano, para uma cidade na África.

Roberto Anderson: Houve uma segunda passagem pela Holanda, não?

Augusto Ivan: Sim. Já de volta ao Rio, em 1978 eu recebi um convite para voltar com uma bolsa do governo holandês. Uma bolsa para que ex-alunos desenvolvessem projetos que pudessem ser reproduzidos em outros lugares. Eu poderia desenvolver o trabalho que eu quisesse, que eu achasse mais interessante.

Roberto Anderson: Que trabalho você desenvolveu lá?

Augusto Ivan: Como eu disse, eu estava trabalhando na ocasião na Secretaria de Obras. Por conta própria, eu e o Marlon Costa e Souza, outro arquiteto, que faleceu muito cedo, desenvolvemos um trabalho para o Largo de São Francisco. Era um trabalho do jeito que a gente achava que devia ser uma pesquisa, porque não era um trabalho acadêmico, com rigor acadêmico. Era uma coisa que a gente fazia levantamentos e fazia propostas. Nós o denominamos de Renovação Urbana do Largo de São Francisco. Quando cheguei na Holanda, eu propus fazer um trabalho nessa área. Um trabalho na direção da preservação daquele estranho conjunto de prédios que se recusava a morrer (no Special Programe do Institute for Housing and Urban Development Studies - IHS, também em Roterdã, Augusto Ivan desenvolveu o trabalho "Multifunctional Development of the Inner City", que deu origem ao projeto Corredor Cultural).

Roberto Anderson: Como era aquela área na época?

Augusto Ivan: Todo o centro da cidade do Rio de Janeiro estava meio mortiço, mais ou menos como está agora, mas numa perspectiva mais pessimista. Então, o trabalho que eu me propus a fazer foi levantar a situação dos imóveis dentro de um rigor maior, e fazer propostas de intervenção no espaço público. Na época, havia aqueles projetos de alinhamento (PAA) que passavam por cima do Largo de Francisco. Não era possível fazer nenhuma intervenção sem que se fizesse os PAA. Mas, a Prefeitura, no afã de derrubar, de fazer projetos de renovação, de construir viadutos e outros projetos viários, acabou paralisando o desenvolvimento da área. Como não se podia fazer nada enquanto não se completasse o PAA, tudo ficou paralisado. O que seria um projeto de destruição, acabou por preservar a região. Então a gente estudou o que fez essa área tão interessante ficar de fora do desenvolvimento urbano por tantos anos.

Roberto Anderson: Como foi a recepção desse trabalho na Holanda?

Augusto Ivan: O IHS era um curso de habitação social, destinado a formar pessoas, geralmente funcionários de governos de países em desenvolvimento. Aí quando eu cheguei, eles levaram um susto. Eles acharam um projeto inadequado. Mas eu falei que não queria fazer outro projeto, que tinha ido lá para fazer aquele projeto. Eles acabaram me encaixando num módulo, onde eu ficava meio à vontade com o trabalho de preservação e renovação do Largo de São Francisco, o trabalho que havia sido começado aqui.

Roberto Anderson: Depois, com o projeto já em aplicação, a instituição holandesa tomou conhecimento, ela reconheceu esse trabalho?                                                           

Augusto Ivan: Sim, depois eles ainda encomendaram outro trabalho sobre quatro favelas, Rocinha, Brás de Pina, Maré e Morro dos Cabritos, em Copacabana. Eles queriam que a gente fizesse um mapeamento do lugar, uma distribuição das atividades de planejamento, de execução de obras, etc. Um trabalho a partir do que o Carlos Nelson havia feito em Brás de Pina.      

Os primórdios do Corredor Cultural

Roberto Anderson: E como foi a volta ao Rio?

Augusto Ivan: Eu voltei com o trabalho mais ou menos pronto, mas não tinha utilidade nenhuma, ninguém queria ver aquele trabalho. Eu estava meio vagando até que, um belo dia, o Armando Mendes, meu amigo, e que à época era Superintendente de Planejamento na gestão do Klabin (prefeito de 1979 a 1980), me chamou. Ele falou: "Você não fez uma coisa lá para o Largo de São Francisco, no seu curso de pós-graduação? Então, sai da Secretaria de Obras e vem trabalhar na Secretaria de Planejamento". E foi aí que começou a dar uma estrutura mínima ao trabalho, que agora podia se apresentar como um trabalho da Prefeitura.

Roberto Anderson: Havia uma conjuntura política favorável ao projeto, não?

Augusto Ivan: Sim, o Israel Klabin é uma figura que merece todo o respeito nesse processo e que dava muita força para o projeto acontecer. Ele cismou de apadrinhar o projeto do Corredor Cultural. Ele me ligava para que eu passeasse com ele na cidade, que ele queria conhecer.

Roberto Anderson: Essa forma de trabalhar um conjunto valorizando mesmo aqueles imóveis menos especiais era uma novidade, não?

Augusto Ivan: Sim, até então, eram os grandes monumentos que importavam. Veja o exemplo do Morro da Conceição. Lá tem oito monumentos tombados pelo Iphan, mas ele tem um entorno que faz um sentido junto com a manutenção dos prédios numa situação de preservação de volumes. O Iphan viu o Morro da Conceição como uma coisa volumétrica. Aí, a gente já vinha um pouco adestrado, assumindo a posição que não, não era guardar os imóveis para uma situação de cenário. Era para valer mesmo, preservar para poder manter. O Ítalo Campofiorito foi o primeiro intelectual a dar um valor a essa preservação, a esse projeto. Ele ajudou nos bastidores. Até então, o Patrimônio era consagrado com uma área do Iphan. De qualquer forma, o Corredor Cultural teve uma associação muito forte com o IPHAN, nós tivemos boas relações com o Iphan e seus arquitetos, sem nunca ter tido briga.

Roberto Anderson: O Corredor Cultural tem as três áreas, a Saara, a Praça XV e a Lapa. Dentro desses perímetros há áreas excluídas. E há uma área grande do Centro que também ficou de fora. Como foram definidos esses limites? Foi fácil? Foi preciso negociar muito para decidir o que ficaria de fora?             

Augusto Ivan: Boa pergunta. Essa questão foi objeto de muita polêmica, de muita discussão, porque a gente não fez o chamado centro histórico, de acordo com o que se fez na Espanha ou na Itália. A gente fez o que dava para fazer, o que sobrou. Alguns sobrados na Rua da Alfândega, por exemplo, entre a Rua Uruguaiana e a Avenida Rio Branco, ficaram de fora do Corredor Cultural porque eles já pertenciam à mancha da renovação, a área já estava muito modificada. A gente não avançou sobre áreas que já vinham assoberbadamente sendo ocupadas pela especulação imobiliária. Ela não tinha muito interesse nas áreas que selecionamos, porque a legislação era restritiva. Tanto é, que alguns dos cadernos de divulgação e projetos do Corredor foram bancados pela ADEMI.

Roberto Anderson: Então não houve áreas que você tenha lamentado não entrar?        

Augusto Ivan: Não. Quem lamentou foi a Rachel Sisson. Ela não admitia que o Mosteiro de São Bento ficasse de fora. Ela queria que fizesse parte de um conjunto. Fazia sentido, poderia ter sido feito. Mas era uma área que ainda estava sendo muito alterada. Tinha prédios grandes surgindo ali, como o RB1 (em 1997, foi criada a Apac da Rua Teófilo Otoni e arredores e, em 2004, foi criada a Apac do entorno do Mosteiro de São Bento).

Roberto Anderson: Houve apoio amplo ao projeto então.      

Augusto Ivan: Sim, havia espaço para o pequeno comércio florescer. Então, eles (representantes do mercado imobiliário) ficaram do nosso lado. Na sessão da Câmara de Vereadores em que foi aprovado o projeto do Corredor Cultural, eles estavam presentes para apoiar, não para ir contra. Não teve ninguém contra. Todo mundo era a favor. Eu sempre achei que tinha um lado romântico no Corredor Cultural, as pessoas identificam esse passado como um passado coletivo. Mesmo que você não tenha participado diretamente daquilo, aquilo é caro à sua memória. As pessoas já ouviram falar daquela área, já foram com o pai ou com a mãe, já foram passear na Saara, no Largo de São Francisco etc.

A estrutura do Corredor Cultural

Roberto Anderson: E o Grupo Executivo do Corredor Cultural, como é que ele surge?

Augusto Ivan: Ainda na gestão Klabin, foi criada a Câmara Técnica para a implantação do Corredor Cultural. Depois, veio o Grupo Executivo, do qual eu fazia parte (criado pela Lei 506/1984, cuja composição era mais abrangente, mas depois foi reduzido para cinco membros de notório conhecimento na área do patrimônio histórico e arquitetônico, pela Lei nº 1139 de 16 de dezembro de 1987), um Escritório Técnico e um Conselho Consultivo (ambos criados pela Lei nº 1139 1987).

O Escritório Técnico era responsável por acompanhar e dar viabilidade, a batalhar no dia a dia, digamos assim. Pela Câmara Técnica e pelo Grupo Executivo passaram pessoas importantes da nossa cultura, como Rachel Jardim, Lélia Coelho Frota, Nélida Piñon, Rachel Sisson, Ítalo Campofiorito, Sérgio Cabral pai, Sônia Mattos Caúla e Silva e Paulo Sérgio Duarte. Eram pessoas com muito acesso à imprensa, que queria que elas falassem. O Conselho Consultivo, muito amplo, não chegou a se reunir.

E havia o Rubem Fonseca, nosso grande escritor, que era o presidente do RioArte na época. O Rubem Fonseca não dava entrevistas. Mas, para o Corredor Cultural, ele era um bastião. Ele botou em um livro dele um personagem com o meu nome. Era um arquiteto que andava pela cidade (personagem e narrador do conto "A arte de andar pelas ruas do Rio de Janeiro", da coletânea "Feliz Ano Novo"). E ele me disse: "Você sabe que aquele personagem do Augusto é você, né?".

Eu falei: "Isso aí, já me contaram". O Escritório Técnico do Corredor Cultural era na mesma casa em que ele trabalhava, a RioArte, o que facilitava as coisas. Essas pessoas (do Grupo Executivo) tiveram um poder muito grande. E, também, uma compreensão e interesse grande pela questão. Eles perguntavam coisas, como por que empena (lateral cega de uma edificação), por que que chama empena? De onde veio essa palavra? Aí, gerava um debate sobre a coisa chamada empena e a divulgação do assunto. Era bem interessante que eles traziam para a área técnica um frescor, uma coisa diferente. E dava vontade de trabalhar. A equipe trabalhava duramente.

Roberto Anderson: Quanta gente maravilhosa!                                              

Augusto Ivan: É importante falar do papel da Rachel Jardim. Ela organizava, em nome do prefeito, toda a discussão do projeto com a Câmara dos Vereadores, antes da sua aprovação. O projeto foi muito debatido antes de ser enviado para lá.           

Uma vez pedi à Rachel um texto para um roteiro histórico sobre o Corredor Cultural que eu fiz com a Ana Amora. Era um folder com desenhos feitos à mão, que mostrava o skyline da região. E foi engraçado, porque eu fui com a Rachel para a rua para mostrar o que que a gente queria que estivesse no roteiro. Começamos na Lapa e circulamos por todo o Corredor, até à Praça XV. Pelos lugares em que a gente passava, eu ia anotando no caderninho aquilo que achava importante de mencionar no texto. No prazo acertado, a Rachel veio e me disse: "Não consegui escrever aquilo que você me falou. Achei muito careta". Aí ela fez um texto que começava assim: "Uma cidade o que é? Um percurso no espaço, um percurso no tempo, um percurso em nós mesmos?"("A cidade: o que é?”). Era uma coisa toda poética para passear pelo centro da cidade guiado pelas escrituras de Raquel Jardim. Foi uma pena terem retirado o nome dela do Parque das Ruínas, em Santa Teresa, projeto que ela idealizou.                                                                                                                                          

Roberto Anderson: Quem foram os primeiros arquitetos do Escritório Técnico do Corredor Cultural?                                                                                                                     

Augusto Ivan: Era um pessoal muito legal. Bem no início, trabalharam a Alice Reis e a Maria Lucia Neves. Depois vieram os arquitetos Anita Tavares, Patrícia Vasconcellos, Maria Helena McLaren, Ana Amora e André Zambelli. E Natércia Rossi, Elizabete Araújo e Sônia Gentile no apoio, além do fotógrafo Zeca Linhares. Um pouco mais tarde, chegou a arquiteta Annabella Blyth.

Captando a simpatia da população

Roberto Anderson: As ações do Corredor Cultural não se limitaram à proteção da arquitetura, mas também buscaram captar a simpatia da população, não é?

Augusto Ivan: Eu sempre tive uma ideia de ter uma repercussão externa para garantir que as coisas não ficassem abandonadas, sem pai nem mãe, com as mudanças de governos. A gente tinha muito trabalho de divulgação, de comunicação para o exterior. Era um projeto muito aberto. Qualquer pessoa que chegasse lá, tinha acesso a todas as informações. Montamos uma biblioteca com verba própria da RioArte. Fotografamos muitíssimas coisas, fizemos várias exposições. Tudo para chamar a atenção para aquele objeto, para que aquela coisa permanecesse viva, valorizando os imóveis, que a gente tinha para preservar.

Fizemos também um trabalho de como proteger o patrimônio. Era um caderninho em que fizemos um levantamento das situações de risco de incêndio, e que virou um manual. Esses cadernos começaram a virar um objeto de curtição. Todo o pessoal da área queria ganhar, porque eles não eram vendidos. E a gente tentando segurar, porque não tinha dinheiro para fazer mais. Fizemos um sobre a cor no Corredor Cultural (A Cor, de Hilton Berredo e Zeca Linhares, editado pela RioArte). E foram feitas umas coleções de cartões postais coloridos da área. A Maria Helena McLaren e o Ítalo Campofiorito fizeram textos para eles.

Roberto Anderson: E havia também umas atividades de música e arte na rua.            

Augusto Ivan: Sim, havia o Música na Praça (coordenado por Liliam Zaremba), música em igreja (projeto Música nas Igrejas), tinha o Tim Rescala com a bandinha dele (a Sereníssima Banda). As pessoas iam atrás da bandinha do Tim, que juntava pessoas igual ao Flautista de Hamelin para assistir às peças. Eram peças adaptadas de textos de Machado de Assis. Todo esse trabalho foi pensado, não foi uma coisa que aconteceu, foi pensado, está documentado de alguma maneira.

Fizemos também amizade com outros grupos que estavam na rua. O Amir Haddad fez teatro também no Corredor Cultural. Celina Sodré era a coordenadora desse projeto pelo RioArte (o projeto Cenas Cariocas levava música e teatro às ruas do Corredor Cultural e também Aderbal Freire Filho participou do projeto). E tinha música, que em geral era música clássica, que tocava na rua. A ideia era ir para rua para configurar uma longevidade maior para o projeto do Corredor Cultural.

As ações de preservação

Roberto Anderson: Quando começou o trabalho na prática, você encontrou alguma resistência de comerciantes? Alguém se opôs às determinações do Escritório Técnico do Corredor Cultural?

Augusto Ivan: Não. Não há, nem pontualmente falando, algum interesse pessoal que tenha sido afetado pela legislação. Não foi um tema. Não precisamos nos preocupar com isso. Mas, houve problemas um pouco antes. Quando foi divulgada a planta do Corredor Cultural com os imóveis preservados, começaram a ocorrer alguns incêndios. Achávamos muito suspeitos, desconfiávamos que havia gente graúda por trás, mas não tínhamos prova nenhuma disso. Então, o Klabin fez um decreto dizendo que, no caso de haver algum sinistro, haveria a obrigação de reconstruir o imóvel igual ao prédio original. E se criava multas. Isso estancou os incêndios rapidamente.   

Na ocasião da discussão da renovação do prédio da Bolsa de Valores, na Praça XV, ficou claro quem estava do lado da preservação e quem não estava, quem preferia que nada fosse feito (o edifício Art Déco da Bolsa de Valores, foi demolido para dar lugar ao que lá está). O novo edifício é do escritório dos irmãos Roberto, projeto do Marcio Roberto. Eles acabaram aprovando o projeto, mas sem conseguir os tais 43 metros de altura pretendidos. Reduziu-se bastante a altura do prédio, ficando em torno de 20 metros.   

Roberto Anderson: Como foram os primeiros trabalhos do Escritório Técnico do Corredor Cultural?                                                                                                                     

Augusto Ivan: Uma primeira etapa foi a elaboração da planta de preservação dos imóveis do ponto de vista de conjunto. Era um mapa, um PAA grande com os imóveis todos numerados e tinha um hachurado sobre as grandes manchas de imóveis preservados. Eu e o André Zambelli fizemos a planta. Fomos para a rua e marcamos todos os imóveis da lista do Pedro de Alcântara (o arquiteto Pedro de Alcântara havia coordenado um levantamento das características arquitetônicas de imóveis de uma área do centro) e outros que seriam preservados. A gente tinha três categorias de preservação. Havia o tipo de imóvel tombável, aquele que não admitiria muita modificação, classificado como de Preservação. Tinha uma categoria intermediária, de interesse mediano, digamos, dos imóveis que tinham algum elemento de fachada interessante, mas precisavam ser recuperados. Eram os para Reconstituição. E tinha aqueles imóveis modernos, que eram classificados como de Renovação. Essa gradação de valores foi consagrada na Lei 506/1985 (a lei que cria a Zona Especial do Corredor Cultural, mas a Lei nº 1139/1987 não manteve essas categorias).

Então, esse foi o primeiro instrumento legal, com o qual a gente podia finalmente pegar um processo e responder dentro da máquina administrativa, já informando as restrições a seguir.                                                                                           

Roberto Anderson: O processo de trabalhar com imóveis do Iphan tinha uma certa característica, mas trabalhar com imóveis do Corredor Cultural era diferente. Como foi esse aprendizado?                                                                                              

Augusto Ivan: Foi um aprendizado na rua, lendo coisas, indo a seminários, fazendo cursos... A gente descobria alguma coisa e registrava. Por exemplo, os postes antigos, que a gente descobriu haver uma grande concentração na área da Praça XV. Mas, ali no começo, não sabíamos de onde vinha e o que era aquilo. Pouco a pouco, foi se criando esse conhecimento acumulado.   

Então foi um conhecimento que a gente foi adquirindo ao longo do tempo. A gente abria uma ficha, na realidade eram uns envelopes pardos, em que a gente enfiava tudo o que tinha a respeito de um imóvel, qualquer coisa. Era imóvel por imóvel. Eram colocadas ali, as plantas, a aprovação de licenciamento, os trâmites do licenciamento, propaganda que saísse na televisão, material impresso etc.

E além do mais, quando era possível, nós desenhávamos a mão cada fachada que entrava, ou alguma coisa de planta que fosse interessante. As fachadas estão todas desenhadas. A Rua Uruguaiana inteira, de fora a fora, está desenhada. Eu acho que também a Rua 7 de setembro está desenhada. Era muito bonitinho.

Roberto Anderson: No início do Corredor Cultural, os sobrados eram muitas vezes cobertos por imensos letreiros. Quando surgiu a norma sobre os letreiros, limitando suas dimensões, houve alguma resistência?                                                                  

Augusto Ivan: Sim. A Saara, por exemplo, era uma área em que todos eram nossos amigos no início. Depois, ficou um pouco estremecido porque o projeto começou a afetar a atividade deles. A regra dos letreiros veio de um dia para o outro, com uma data definida para passar a valer. Nós realizamos um seminário sobre o assunto e, no dia seguinte, já estava na rua uma lei limitando a altura dos letreiros. Era necessário, porque essa área inteira era coberta por letreiros. A Praça XV também. As Casas Pernambucanas, por exemplo, eram cobertas por uma placa de luxalon (marca de placas metálicas) grande. Aquilo fechava todas as fachadas. Daí, um belo dia, a Prefeitura bateu na porta e disse: "O senhor vai ter que tirar isso do seu imóvel". Aí, foi uma coisa mais impositiva. O que ajudou é que falávamos com cuidado. Dizíamos "olha, se o senhor não quer tirar o letreiro grande, não precisa tirar, mas se não tirar, também não ganha a isenção (do IPTU). Então, esse contato no dia a dia, face a face, facilitou muito.         

Roberto Anderson: A preocupação de vocês era somente com a arquitetura ou foi além?

Augusto Ivan: A gente fez um trabalho sobre interiores. O foco da preservação foi nas fachadas, na aparência exterior, mas dentro dos imóveis havia coisas interessantes que não tinham sido preservadas no projeto do Corredor. Então a gente identificou essa necessidade de ter um levantamento dos objetos, móveis ou até letreiros. O trabalho foi coordenado pela Patrícia Vasconcellos. Ela fez um levantamento, imóvel por imóvel, daquilo que existia dentro e que ainda valia a pena também preservar, cumulativamente ao que já havia sido preservado. Ao final, esse trabalho foi encaminhado para o Conselho Consultivo do Corredor Cultural, com uma listagem de todos os imóveis que mereciam uma proteção maior dos seus interiores. Mas, esse processo desapareceu sem que houvesse uma cópia. Mais tarde, usando a sua memória, a Patrícia Vasconcelos conseguiu remontar essa coisa toda para fazer o livro dos interiores.

Roberto Anderson: E como se chegou à isenção de IPTU para os imóveis preservados?                                                                                                      

Augusto Ivan: A isenção do IPTU foi uma coisa importantíssima para fazer com que disparasse o processo de preservação no centro da cidade, no Corredor Cultural. O projeto de isenção foi para a Câmara dos Vereadores e passou rapidamente. Então, ficou gravado que aquele projeto era para valer e que estava usando uns instrumentos mais diferentes, digamos assim, mais contemporâneos. O conceito de preservação também era mais livre.

Roberto Anderson: Me fala um pouco do trabalho com os artífices da área de Patrimônio. De como vocês tiveram dificuldade para achar as pessoas quando começaram as obras.

Augusto Ivan: Essa dificuldade existiu de fato. A gente tentou começar um trabalho de treinamento de pessoas, mas na realidade pouca coisa foi feita. No final, começaram a aparecer os que ainda tinham esse conhecimento, esse saber, digamos assim. Um exemplo foi um velho português que fez a recuperação da Casa Franklin, aquela do vitral em forma de pavão (Avenida Passos 55/57). Ele era ótimo e dizia que trabalhava com isso lá na terra dele em Portugal, mas que não tinha mais serviço aqui no Brasil para o tipo de coisa que ele fazia. O trabalho desse senhor foi filmado numa tentativa de captar recursos para algo maior.       

Ocorreram muitas discussões sobre a melhor maneira de realizar as obras. Um exemplo foi a questão das claraboias, que era um elemento importante na estrutura interna dos imóveis. Como não havia proteção para os interiores, era difícil convencer da necessidade de mantê-las. Elas eram parte da cobertura, que era protegida, mas muitas vezes os proprietários não queriam fazer a sua recuperação. É difícil e quando se exige um pouquinho além da conta, prejudica a aceitação do projeto. Acho que no início éramos mais liberais nesse sentido das exigências.

A convivência com outras arquiteturas

Roberto Anderson: E sobre a área do Castelo, que ficou de fora? Quando a Maria Helena McLaren esteve à frente do Escritório Técnico do Corredor, ela dizia ter vontade de expandi-lo para o Castelo.                                                                                 

Augusto Ivan: Ah, sim, ela é a paladina do Castelo!  É importante lembrar que a gente vinha de um contexto desfavorável. A questão do Castelo foi pensada, mas achamos que era demais, e que já estava numa altura razoável. Aí não ia precisar surgir muita coisa alta.         

Roberto Anderson: Mas agora o prefeito Eduardo Paes liberou o gabarito naquela área. Agora o céu é o limite.                                                                                                                       

Augusto Ivan: Eu não sou contra ter prédios altos. Mas, tem que ser mais desenhado, você tem que baixar ao nível de detalhe no desenho. Aí você vai estudar uma coisa razoável. Mas, acho que nós não temos cultura (arquitetônica) suficiente para implantar um gabarito ilimitado.                                                 

Roberto Anderson: Você vê que em Londres há alguns prédios muito altos, mas eles estão dentro de um contexto que não atrapalha a paisagem.

Augusto Ivan: Eu acho que a pirâmide do Louvre estabeleceu um novo marco. Pode sim uma pirâmide na praça do Louvre. Então, isso balançou muito o coreto. Foi um casamento que me pareceu muito bem-sucedido em termos da arquitetura, do ambiente, e do local. Já o Beaubourg, aquela máquina infernal, uma fábrica de arte e de cultura, eu acho mais pesadão. Ele derrubou muita coisa, né? Tenho dúvidas sobre o Beaubourg, mas, de qualquer maneira, eu acho que cabe algo assim. Só acho que é preciso estudar mais.

Relações políticas

Roberto Anderson: Como era a relação com os prefeitos?                                                 

Augusto Ivan: Alguns prefeitos merecem uma menção na história do Corredor Cultural. O Klabin foi muito bom. O Marcelo Alencar (prefeito de 1983 a 1986 e de 1989 a 1993) assinou as leis fundamentais para a existência do Corredor Cultural e fez obras importantes, como a reurbanização da Lapa, com projeto meu e do Marlon, e retirou o mercado de peixes da Praça XV. O Cesar Maia (prefeito de 1993 a 1997 e de 2001 a 2009) iniciou a obra de recuperação da Rua do Lavradio e deu uma sede para o Corredor Cultural. Já o Júlio Coutinho (prefeito de 1980 a 1983) não tanto. Era preciso enfrentá-lo para conseguir as coisas. Você vê que a gente já estava forte...

Roberto Anderson: Você saberia a razão?                                                                                         

Augusto Ivan: Talvez, ele estivesse instruído contra o nosso trabalho. Foi na gestão dele que se tentou derrubar, por exemplo, a Fundição Progresso (a Fundição Progresso havia sido desapropriada em 1975 para a implantação de projetos modernistas, que incluíam a avenida Norte-Sul, via nunca concluída inteiramente. Em 1982, houve a tentativa de demolir a edificação). Mas, um grupo liderado pelo Perfeito Fortuna se organizou e conseguiu impedir. Eles foram até a Dona Zoé (Zoé Chagas Freitas, esposa do governador Chagas Freitas) e conseguiram tirar o Chagas de um jantar, com a ajuda da Dona Zoé. Há uma foto linda que se tornou um marco da manutenção do edifício. Era um homem com uma picareta assim no alto da fachada da Fundição se preparando para quebrá-la. A picareta ficou parada no ar.   

Outro prefeito simpático ao Corredor foi o Jamil Haddad (prefeito do Rio de Janeiro em 1983). O irmão dele, Samir Haddad (foi Secretário Municipal de Planejamento), era amigo da Sônia Caúla. Então a gente tinha acesso ao secretário de planejamento para passar as nossas demandas. Por exemplo, foi necessário fazer uma modificação grande quando a gente conseguiu um levantamento topográfico, casa a casa. Foi aí que a gente começou a desenhar como o imóvel ia ficar, antes mesmo de fazer as obras.

Roberto Anderson: Como foi a integração com a Secretaria de Cultura?                        

Augusto Ivan: Durante um período a gente foi da Secretaria de Planejamento, então o Corredor era separado de todas as outras instituições ligadas ao Patrimônio. A equipe do Corredor Cultural era orgulhosa do seu trabalho e se protegia. Ela era senhora do seu pedaço, não gostava que se mexesse nele. Porque nós tínhamos um orçamento separado, e era muito. Mas, às vezes, os secretários usavam recursos do nosso orçamento e aplicavam em outras coisas. A Helena Severo (foi Secretária Municipal de Cultura do Rio de Janeiro de 1993 a 1999) acabou com a independência que o Corredor Cultural tinha. Ela levou o Corredor Cultural para dentro da Secretaria de Cultura. E aí houve uma mistura de equipes. Mas, eu gosto dela. Eu acho que ela fez um trabalho bonito na Secretaria de Cultura. Um exemplo são as esculturas que ela levou para o Centro. Artistas, como José Resende, Amílcar de Castro, Ivens Machado e Waltécio Caldas criaram trabalhos para o Centro. É uma pena que muitas delas já não estejam lá.   

Roberto Anderson: Como foi a integração do Corredor na Secretaria de Cultura?

Augusto Ivan: O Corredor Cultural chegou a ter uma sede, na Rua da Constituição, que depois dividiu com a Subprefeitura do Centro. A história dessa sede é linda. O imóvel tinha sido da família da Carmen Costa, uma cantora maravilhosa, que gravou "Eu sou a outra", de Lupicínio Rodrigues. Ela nos visitava sempre e o sonho dela era ser tombada. Ela própria, viva. Então, a gente falou: "Não, vamos deixar o prédio se deteriorar, vamos ocupá-lo, porque preserva também a história da Carmen Costa, como ela queria". Lá tinha um teatrinho de 50 lugares para palestras e apresentações de música.      

Depois nós saímos do centro da cidade, da casa que foi feita para o Corredor Cultural e fomos para a Secretaria de Cultura. E as equipes do Corredor Cultural e do Patrimônio do Município ficaram juntas, todo mundo mais ou menos no mesmo espaço. Acredito que a junção administrativa do Corredor Cultural com a área de Patrimônio do Município tirou força do projeto, mas não prejudicou tanto o trabalho, reforçando a percepção de que é uma política pública. De uma certa forma, o Corredor Cultural abriu as portas para uma visão diferente sobre conjuntos urbanos antigos, o que resultou na criação das Apacs (Área de Preservação do Ambiente Cultural). Muitas normas criadas pelo Corredor terminaram sendo adotadas por elas, como a definição de cores de fachadas, tamanhos de letreiros etc.  

Roberto Anderson: Faltou alguma coisa importante a ser trabalhada?

Augusto Ivan: Há uma coisa que a gente sempre falou muito, mas que nunca deu para explorar e nem para tocar para a frente. É a questão da moradia, levar a moradia para o Centro, para aproveitar imóveis com espaço ocioso. Era uma preocupação na época do Corredor, mas era daquelas tarefas que escapavam da nossa alçada. Mesmo assim, há pessoas morando no Centro. Sei de uma família que criou os filhos lá. Não é uma coisa fria. Tem gente que mora e vive lá.    

Eu acho que eu fui emendando coisas. Novas demandas foram sendo exigidas. O projeto do Corredor Cultural caminhou até a exaustão dos itens que ele se propunha resolver. Depois, parou. Teve um tempo que parou.

Roberto Anderson: Você é que nunca parou. Foi até Secretário de Urbanismo!

Augusto Ivan: Mas o tempo passa, o tempo rola. Depois teve muita aventura. Depois dessa minha aventura no Patrimônio, teve a aventura da Subprefeitura do Centro, a convite do Conde, quando foi Secretário de Urbanismo (Luiz Paulo Conde foi prefeito entre 1997 e 2001), que foi mais louca.

Roberto Anderson: Não sei se você concorda, mas no período em que você estava no Corredor Cultural, a sua intervenção era mais focada nos edifícios. Já na Subprefeitura, a ação extravasou para o espaço público. Como um complemento. Você percebe isso?                                                                        

Augusto Ivan: Sim, e a gente estudou o camelódromo, por exemplo (Augusto se refere ao camelódromo da Rua Uruguaiana). Nós estudamos um tipo de ocupação para o camelódromo. A Olga (Olga Bronstein, administradora da II RA) trabalhou muito com isso.                         

Roberto Anderson: É, eu estava lá também. Ajudei a pintar o chão do camelódromo.

Augusto Ivan: Pois é, passamos um fim de semana juntos lá, pintando o chão. Os meus filhos também foram ajudar. Eram 1400 camelôs que tinham que entrar para aqueles terrenos. Eles teriam que entrar na segunda-feira e a gente passou o fim de semana pintando à mão a numeração das barracas no chão.

Roberto Anderson: Mais alguma coisa a lembrar?

Augusto Ivan: Muitas coisas importantes para a memória do Corredor Cultural foram lembradas hoje. Que bom a gente está registrando isso!               

 Artigo publicado em 28 de maio de 2026 no Diário do Rio.                                                

 

8 comentários:

  1. Bela entrevista. Augusto Ivan é, para mim, uma espécie de herói.

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  2. Publiquei anonimamente por engano.

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  3. Que Maravilha de depoimento !
    Salvé o Augusto Ivan!!!

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  4. excelente! Augusto Ivan é uma grande profissional sempre
    atendo ao patrimônio..Foi um grande parceiro do MHN e contribuiu enormemente para recuperação o entorno do Museu e da Praça XV.
    Parabéns!!!

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  5. Lindo depoimento do arquiteto Augusto Ivan. Obrigada Roberto Anderson por registrar um trabalho como esse do Corredor Cultural que serviu de exemplo para várias cidades brasileiras.

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  6. Que regate histórico maravilhoso!!!!

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  7. Importantes relatos sobre esse trabalho espetacular e fundamental para a cidade!

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  8. ANTONIO LUIZ BARBOZA CORREIA28 de maio de 2026 às 16:35

    Excelente entrevista que deveria ser lida por todos que amam esta Cidade.

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