quinta-feira, 2 de julho de 2026

A cidade para

Via Ápia - Rocinha, Rio de Janeiro

O intenso tiroteio da madrugada é capaz de parar uma parte da cidade. Mães e pais se perguntam se podem levar os filhos ao colégio, ou entregá-los à condução escolar, que transitará com as crianças por lugares que podem ter sido afetados pelo susto de momentos antes. Pode demorar, mas ainda nesse mesmo dia tudo voltará ao normal. 

A chacina numa favela distante consegue parar quase que a cidade toda. Vários bairros da cidade são impactados. As notícias dos policiais entrando e atirando por entre as casas, as dezenas de corpos enfileirados no asfalto, os ônibus incendiados ou sequestrados para criar barreiras ao funcionamento normal da cidade e o governador corrupto se vangloriando do seu ato violento, tudo isso paralisa a vida de muita gente. Já é quase normal na cidade. Os patrões entendem a apreensão das pessoas. O prefeito decreta que não será obrigatório ir ao trabalho naqueles próximos dias. Mas, o medo já está alastrado.

O Carnaval também para a cidade. De um jeito diferente, ele o faz pelo excesso de movimento. O dia e a noite se misturam, feriados e dias de semana se mesclam, o trabalho e o prazer se entrelaçam, e os desconhecidos se juntam. Nos blocos, pegados uns aos outros, estão unidos por suor e purpurina. Uma greve geral, movida a música e cerveja.

O jogo do Brasil na Copa, o que faz? Mobiliza a cidade, mobiliza o país inteiro. Tudo começa com os preparativos, que se repetem a cada quatro anos. É preciso colecionar figurinhas para completar o álbum da Copa, uma tarefa séria que envolve crianças e adultos. Atrapalha o andamento das aulas e rouba tempo das atividades dos escritórios, mas é totalmente tolerada, já que é por uma boa causa. Pintar a rua e colocar bandeirinhas são atividades fundamentais para se criar o tal clima de Copa. É também prova de coesão social do quarteirão. Bairro sem decoração de rua é sinal de que é habitado por gente esquisita.

Tem também que comprar cornetas, ou qualquer coisa que faça barulho. E camisas da seleção, de preferência as do camelô, que não pagam royalties para os barões da CBF. Ah, e não esquecer os palpites sobre o próximo jogo, fazer o bolão com os amigos, e curtir o medo de que o adversário seja mais forte. Vale reclamar que o Brasil talvez já não seja o país do futebol e coisa e tal.

Depois, é encomendar a cerveja e combinar com os amigos o lugar de assistir. Dia de jogo do Brasil exige dispensa do trabalho, se não o dia inteiro, pelo menos nas horas que o antecedem. Azar é se o trabalho for enquadrado como atividade essencial. Aí o jeito é levar uma televisão para assistir no plantão. 

Horas antes do jogo começam os fogos, os mesmos que anunciam a chegada da droga, assim como o início da operação policial na favela. Fogos que ouvidos cariocas, já acostumados, não confundem com os tiros das chacinas e das incursões policiais que dias antes podem ter ocorrido. Como o Rio não tem igual. Forasteiros estranham, mas depois se acostumam.

Chega a hora do jogo. Desavenças políticas esquecidas, separações entre ser fora ou dentro da lei superadas, chega o momento de torcer. Os jogadores cantando o hino são o espelho da pátria. Canta-se nas casas, diante dos televisores. Gigante pela própria natureza, belo, forte, impávido colosso, a lembrança da terra adorada emociona. Passada a algazarra que antecede o início do jogo, vem o silêncio. Nada se passa nas ruas, ninguém se desloca, a cidade para por completo. Todos seguem atentos ao que se passa no gramado a milhas de distância. Se tudo der certo, vai chegar a oportunidade de explodir e gritar Goool! Do Brasil, é claro. 

Artigo publicado em 02 de julho de 2026 no Diário do Rio.

Um comentário:

  1. Fico me perguntando quem vai recolher estes milhões de bandeirinhas e faixas depois da COPA ?
    . Já vi em anos anteriores em que acompanhamos bandeirolas apodrecendo na chuva e no sol, durante meses, numa decadência horrorosa. Talvez a Prefeitura recolha nas vias da zona sul, não nas periferias .. como vai ser este ano ?

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