Uma praça em Pequim
Pequim é uma cidade de mais de 21 milhões de
habitantes, em vias de se juntar a outras 11 cidades (Plano de Integração
Beijing-Tianjin-Hebei) num aglomerado urbano de 100 milhões de habitantes. O
traçado urbano da cidade é um xadrez formando grandes superquadras, que parte
da Cidade Proibida em direção às bordas. Anéis rodoviários concêntricos marcam
as várias faixas em que se divide a metrópole. Muitas dessas superquadras são
ex-hutongs, aglomerados de casas populares, demolidos para a construção de
edifícios modernos.
Por sua vez, essas superquadras contêm em seu interior
largas faixas com prédios residenciais, que às vezes se estendem de uma avenida
à outra, como condomínios. Ali há uma sensação de estar em pequenos bairros
fechados, ou vilas, com vigias nas entradas e restrições à circulação de
veículos de não moradores, mas com acesso franqueado a pedestres. Em geral, o
comércio se estabelece do lado de fora, nas avenidas.
No interior de uma dessas incontáveis áreas dentro das
superquadras da cidade a vida cotidiana se desenrola pacificamente. Há uma rua
central que conecta as duas grandes avenidas que margeiam a quadra, pela qual
se pode cortar caminho entre elas, evitando-se o longo percurso até a próxima
transversal. Dessa rua central partem ruas transversais, sem saída e mais
arborizadas. É na rua central que se encontram o compactador de lixo da quadra,
assim como o banheiro público bem cuidado.
A rua central é interrompida por uma praça onde, no
verão, há uma infinidade de acontecimentos até tarde da noite. Já bem cedo lá
está o grupo de Tai Chi, majoritariamente composto por senhoras de meia idade.
Os exercícios, aparentemente, não são difíceis e elas os executam com precisão.
À frente está o professor que lidera as sequências já decoradas. Em outro ponto
da praça o exercício é mais moderno, acompanhado por música e segue uma
coreografia. Entre esses dois pontos há um pequeno grupo de senhoras que
realizam exercícios semelhantes ao Tai Chi, também em cadência, mas com
espadas, que dão a terminação dos movimentos.
No centro da praça, mulheres mais jovens passeiam com
seus cachorros, idosos em cadeiras de rodas tomam sol, jovens pais passeiam com
seus bebês e crianças brincam jogando bola ou correndo. Em áreas cobertas
senhores e senhoras jogam carteado de forma ruidosa. Esses formam o grupo mais
permanente da praça e serão encontrados ali em diferentes horários.
É verão na China e o calor é fortíssimo. Então no meio
do dia a praça se esvazia um pouco. Restam os velhinhos do carteado que têm uma
área coberta para jogar. Chinelos, calças arregaçadas ou bermudas e camisetas
enroladas para cima, deixando a barriga de fora, formam o vestuário padrão. O
jogo segue animado.
À tardinha a praça volta a se encher. Agora há um
grupo de senhoras que seguem uma aula de dança liderada por três outras
senhoras com roupas de ginástica uniformizadas. A dança envolve a formação de
trenzinhos em que as participantes devem bater palmas, abrir e fechar os braços
e levantá-los acima das cabeças. Logo atrás das instrutoras vão aquelas que
melhor conhecem os movimentos. Já na rabeira há uma nítida defasagem do tempo
em que a coreografia deve ser realizada. Mas o contentamento é o mesmo.
Voltam também o grupo de dança mais moderna e as
senhoras com cachorros. E há as pessoas que se exercitam sozinhas, fazendo
exercícios curiosos, como balançar uma perna sem parar ou se dar soquinhos no
peito, nos ombros ou nas costas. Há também senhores que andam dando repetidos
soquinhos na barriga. Se a ideia é reduzi-la, não parece estar dando certo. Na
quadra de basquete o jogo está animadíssimo.
As crianças jogam bola e essa atividade vai seguir até
tarde da noite. O futebol está cada vez mais popular na China. À noite, chegam
também homens que se sentam numa mesa da praça para fazer uma conversa de vídeo
com algum parente distante, crianças ensaiando instrumentos musicais, e mães
que massageiam longamente a palma e os dedos das mãos de seus filhos.
Bem mais tarde da noite o movimento diminui um pouco,
mas não deixa de existir. A impressão que se tem é que as pessoas preferem
passar suas horas livres no espaço público do que ficar em casa vendo
televisão. A vitalidade dessa praça em Pequim é tudo o que os urbanistas
contemporâneos sonham alcançar. Ali já é um hábito, talvez milenar.
Artigo publicado em 24 de julho de 2026 no Diário do
Rio.

A China na vanguarda, busca melhor qualidade de vida para o povo!👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽
ResponderExcluirSua companhia foi preciosa para andar por Pequim
ResponderExcluirAbraço apertado
Shirley
Que experiência incrível, Bob.
ResponderExcluirO seu relato é perfeito! Parece que estamos lá. 😍
Retrato delicioso !
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