terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Que venham os ônibus elétricos

pátio de recarga de ônibus em Berlim

Nesse carnaval, e nos anteriores, o metrô do Rio funcionou seguidamente, dia e noite. É quando acontece uma das situações mais interessantes da cidade, que é entrar nos trens e ver pessoas alegres e fantasiadas. Nos horários de desfiles na Sapucaí, a coisa fica ainda mais interessante, porque as fantasias são grandes e elaboradas, num maravilhoso contraste com a maior seriedade do dia a dia. No entanto, para chegar a uma estação do metrô o passageiro sofreu, porque os ônibus quase desapareceram das ruas nesses dias. A falta de respeito de cada dia com o usuário é elevada à máxima potência durante a folia.

O sumiço de linhas de ônibus ocorrido no Rio de Janeiro durante a pandemia até hoje não foi completamente revertido. Mas mesmo aquelas linhas restabelecidas continuam a contar com poucos veículos, provocando longas esperas em pontos de ônibus analógicos, em que não é possível saber quando o próximo ônibus virá. Não é assim nas cidades dos países mais desenvolvidos, e nem tampouco em diversas cidades do Brasil, onde a qualidade da mobilidade urbana é um dos seus principais pontos positivos.

Se ter um sistema de ônibus que funcione de forma razoável, e com conforto, é algo ainda distante para os cariocas, muito mais distante é ter um sistema voltado para a sustentabilidade ambiental. Além de barulhentos, com uma frota não completamente dotada de ar-condicionado, nossos ônibus são de motores a diesel, ou seja, poluentes, emissores de gases do efeito estufa. Considerando as metas brasileiras, referentes ao Acordo de Paris, de zerar a emissão líquida de gases do efeito estufa até 2050, é fundamental o engajamento da cidade na eletrificação da sua frota de ônibus urbanos. Cada ônibus elétrico nas ruas representa uma redução aproximada de 100 toneladas de CO2 na atmosfera por ano.   

De acordo com a plataforma E-bus, que monitora o uso de ônibus elétricos na América Latina, atualmente o Brasil conta com apenas 444 ônibus com esta característica. Na América Latina já são 5.084 os ônibus movidos a eletricidade, o que inclui trólebus e mistos. Os países latino-americanos que lideram essa estatística são o Chile, com 2.043 ônibus elétricos, e a Colômbia, com 1.590. A cidade de São Paulo conta com 269 ônibus elétricos, a maior frota entre as cidades brasileiras. No final de 2023, a capital paulista conseguiu a aprovação pelo BNDES de R$ 2,5 bilhões, destinados à compra de até 1,3 mil veículos, o que representaria 10% da sua frota atual.

No Estado do Rio de Janeiro, apenas Volta Redonda aparece no cômputo do E-bus, com ínfimos três ônibus. Segundo essa plataforma, a cidade do Rio de Janeiro não conta com nenhum ônibus elétrico. E não há sinais de busca por eletrificação da frota carioca. Desde que começou a reformar o sistema BRT, sucateado na administração Crivella, a Prefeitura, segundo a SMTR, adquiriu 713 ônibus, dos quais 427 já estão operando, substituindo os antigos azuis. Eles são modelo Padron, com motor traseiro e tecnologia Euro 6, menos poluente. Mais recentemente, o prefeito anunciou a compra de mais 150 ônibus para suprir as linhas desaparecidas na cidade. Mas em nenhuma dessas compras há ônibus elétricos.

A cidade pode estar perdendo uma grande oportunidade, já que o BNDES, através do Fundo Clima, conta com R$ 10 bilhões em caixa para financiamentos desses veículos, com juros subsidiados e prazos de quitação mais longos do que os de mercado. Outra fonte de financiamento é o PAC Seleções, que destinará R$ 3 bilhões para a renovação das frotas das prefeituras. O governo federal vem também elaborando medidas para impulsionar a produção nacional de ônibus elétricos.

A cidade de Niterói, que desde 2021 conta com uma Secretaria Municipal do Clima, a primeira do país, já testou modelos de ônibus elétricos das empresas BYD e HIGER, para possível adoção no sistema de transportes coletivos. Um dos grandes desafios para a adoção desses veículos é o correto equacionamento do carregamento das baterias, de forma a mantê-los funcionando nos períodos necessários. A prefeitura de Niterói solicitou à COPPE um estudo de viabilidade, que mostrou que o sistema pode ser viável, com um menor custo de manutenção do que os ônibus convencionais, e com uma energia mais barata do que o diesel. A médio prazo o sistema poderia até ser superavitário.   

Envolvendo uma escala bem maior, o sistema de transporte público de Berlim, operado pela empresa estatal BVG, vem realizando a troca de sua frota convencional por ônibus elétricos, já contando com 200 unidades desses veículos, a maior frota da Alemanha. O projeto envolve a troca de 1600 veículos em alguns anos, assim como a criação de uma completa infraestrutura para a sua recarga e manutenção. Algumas áreas da cidade começam a contar também com miniônibus elétricos, sem motoristas, capazes de conduzir os passageiros aos destinos desejados.

Não são poucos os desafios para a implantação de sistemas de ônibus elétricos nas cidades. Os investimentos iniciais são altos, já que o custo unitário desses veículos pode ser três vezes maior do que o de um ônibus convencional. Mas com custos de manutenção menores e os benefícios ao clima e ao meio ambiente, é uma alternativa que deve ser encarada. É preciso sair da inércia, e dar início a um projeto de eletrificação da frota de ônibus urbanos do Rio. Uma melhor qualidade de vida hoje e no futuro são razões mais do que suficientes. E os cariocas teriam mais um excelente meio de transporte para andar fantasiados no carnaval.

artigo publicado em 22 de fevereiro de 2024 no Diário do Rio


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Para todos

Você gosta de carnaval? Sentado naquele banco, vendo o bloco passar, ele ouviu a pergunta banal, vinda de um folião, que junto com um grupo de amigos, havia se sentado ao seu lado. 

Você gosta de ver os jovens alucinar, né? Lembrado de que não era mais jovem, ele respondeu que sim, que amava o carnaval. Mais não disse. No entanto, ali entre desconhecidos, vendo um bloco que não o empolgava, se viu como uma figura estranha à paisagem. 

 

Pensou que, de alguma forma, aquela não era mais a sua cidade. Os edifícios, apesar de tanta destruição e especulação, ainda eram reconhecíveis. As ruas e as praças idem. Mas as pessoas em volta lhe eram totalmente desconhecidas. Não havia chance, como em outros tempos, de encontrar um amigo, um conhecido, um colega de trabalho. Outras gerações haviam chegado. Deviam ser os netos, ou filhos, daqueles com quem um dia havia brincado.

 

O que sentia não era agradável. Isolado na multidão, pensou onde andariam os seus, mesmo aqueles de quem tinha uma vaga lembrança de já ter encontrado. No Facebook havia as suas fotos e, de quando em vez, uma postagem ou uma reação ao que escrevia. Mas lá estava também cheio de fotos daqueles que se foram. Memórias fixadas, que ano a ano têm os seus aniversários lembrados. E até alguns parabéns oferecidos por parte de algum desavisado. Um mundo de amigos e conhecidos em profusão, mas menos real do que o peso do isolamento naquele bloco de carnaval. 

 

A pergunta do folião distraído o havia jogado direto na quarta-feira de cinzas. Num lugar de melancolia. Num limbo reservado aos que insistem em permanecer por esse mundo além da juventude e do vigor físico. 

 

Era preciso reagir, voltar à folia. O uísque na garrafinha de metal ajudaria. Tomou logo dois grandes goles. Andou para mais perto dos instrumentos. O som da bateria sempre ajudava. Olhou em volta, viu pessoas bonitas por perto, meninos alegres se beijando, meninas desinibidas da geração do não é não. Sentiu que dava para entrar no ritmo, e se foi, anônimo na multidão, buscando também alucinar. 


Artigo publicado em 15 de fevereiro de 2024 no Diário do Rio.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

A rua é do carnaval

 

Tudo o que hoje é consagrado no carnaval carioca surgiu da criatividade e da espontaneidade do seu povo. Desde o Zé Pereira, ou mesmo antes, tem sido assim. Existe uma ocasião festiva e existem a gaiatice e a alegria dos que habitam estas paragens. Junta-se a fome com a vontade de comer. No entanto, já há alguns anos passou a se utilizar no Rio a expressão Carnaval não Oficial para designar o que talvez seja a atual verdadeira expressão dessa festa. 

 

As escolas de samba, que hoje têm o seu lugar de desfile e subvenções do poder público, surgiram pequenas, pobres, desfilando nos subúrbios. Blocos, como o Bola Preta, também surgiram pequenos. As exceções são os tais megablocos, que já nascem grandes e ricos, com patrocínios para alugar caminhões gigantes, onde um artista famoso reforça seu marketing. Mas esse é um modelo que já chegou pronto e poderoso, com poucas raízes na festa carioca. Segundo Kiko Horta, um dos fundadores do Cordão do Boitatá, "todo dia surge um megabloco, a cidade fica tomada, e a organização do carnaval fica direcionada para eles".

 

O Carnaval de rua é aquele espontâneo, que nos surpreende e encanta, que parece estar em todos os lugares, e que dá densidade à festa. Sem ele, restariam só o Sambódromo e alguns bailes privados. Lá pela década de 1970, o carnaval do Rio era assim, as ruas estavam vazias. Mas, há algumas décadas, o carnaval de rua retomou sua força. E isso vem ocorrendo em ciclos de crescente criatividade. Da Banda de Ipanema, com o resgate das marchinhas, aos blocos de sambas temáticos, como o Suvaco do Cristo, passou-se aos blocos atuais, que são de uma variedade impressionante. Há os blocos de sopros, alguns especializados num único instrumento, os de maracatu, de frevo, de rock, de música latina, eletrônica ou sertaneja, sem falar naqueles especializados em homenagear compositores específicos. 

 

Algumas dessas formações cresceram e passaram a aceitar as regras da municipalidade. Outras não, ou por serem muito pequenas e sem recursos, ou por simplesmente não desejarem ser oficializadas. O Boi Tolo, por exemplo, tem boa parte do seu charme na anarquia dos seus trajetos e na fragmentação do próprio bloco. Mas, nem por isso esses blocos devem deixar de receber uma rede de apoio da Prefeitura e do governo do Estado. Não há porque condená-los, carnaval é mesmo uma subversão. E já há um fluxo considerável de turistas especialmente para essa festa nas ruas. 

 

A distinção no trato imposta entre oficiais e não oficiais se mostra perversa com a cidade e os foliões. A estes últimos não são oferecidos nem banheiros químicos, nem policiamento. Como resultado, por um lado, isso cria a necessidade do folião se virar como pode, deixando um rastro de sujeira e fedentina. Com razão, isto produz certa animosidade dos moradores. Por outro lado, o descaso do poder público gera a insegurança que produziu o esfaqueamento de uma pessoa no fim de um dos ensaios da Orquestra Voadora. 


Os poderes públicos, e em especial a Prefeitura, deveriam deixar de ter preferências e passar a apoiar todas as expressões do carnaval carioca, sem distinção. O que se pede é que, em todas as áreas onde haja o costume de se festejar seja disponibilizada uma rede de instalações sanitárias, atenção à saúde e à segurança. Não é muito, é o justo retorno da municipalidade a quem tanta alegria nos traz. 


Artigo publicado em 09 de fevereiro no Diário do Rio

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Chilear

Vulcão Osorno-foto Roberto Anderson

Com consciência política, mas jovem. Capaz de encarar um convite do tipo apareça em Santiago como um convite concreto. E, sabedor de que apenas um ano antes havia se passado um terrível e violento golpe de estado, incapaz de medir os perigos para um jovem cabeludo em terras chilenas. Outra ditadura militar, bem mais sanguinária do que aquela à qual já estava submetido em casa. 

A viagem se estendera desde o Rio, passando pelos confins do Mato Grosso, pela Bolívia, em estado de sítio, e pelo Peru até Lima, onde também vigorava um toque de recolher. Era o verão das ditaduras nessa parte do Hemisfério Sul. De Lima a Santiago a grana só permitia uma viagem de carona. E ela se deu sobre caixotes de aves, sobre cargas de cereais ou na boleia de um caminhão bem acabado, cujo radiador esquentou e explodiu no meio do deserto, na Pan-americana. 

A entrada no Chile foi a pé, porque nenhum motorista iria se responsabilizar por aquele viajante fora de contexto. Comparados aos caminhões que circulavam no lado peruano, os chilenos eram um luxo, minuciosamente fiscalizados pelos carabineiros. A carona não vinha fácil. Um motorista disse: o tempo dos favores passou. E o toque de recolher exigia que ao anoitecer já estivesse em algum caminhão. Num trecho mais longo, a sorte foi encontrar um motorista que se propôs a dar a carona, em troca de que fosse mantido acordado...

Em Santiago, na casa da menina anfitriã, ouvia-se bem baixinho, para não ser escutado da rua, músicas de Violeta Parra e Quilapayun. Era o mais revolucionário que se podia fazer. E conjecturava-se onde poderia estar um dos seus irmãos, envolvido com a oposição e sumido há uns dias. Esta foi a primeira vez no Chile e, olhando em perspectiva, parece que foi realmente arriscado. 

A segunda vez foi durante o fortíssimo terremoto de 2010. Acordado no meio da noite com a casa balançando e com o som das paredes e janelas se batendo, foi difícil encontrar a porta de saída, o botão que a abria, e o que poderia ser um lugar seguro para se estar. Em meio a tremores secundários, ficou claro para os habitantes daquela cidade ao sul de Santiago que aquele não era um terremoto qualquer. O país é forte em emoções.

Comprido e espremido entre os Andes e o Pacífico, o Chile é um país de paisagens absolutamente contrastantes. Áreas desérticas ao Norte, vales de vinhedos ao centro, e um território austral, de paisagens sublimes, que vai se desfazendo em ilhas em direção ao Estreito de Magalhães.

Vá ao Sul, diziam as pessoas do Norte. Lá, eles são amáveis e são lindas as paisagens. Essas exortações vindas de outras amáveis pessoas, moradoras de Arica e de Iquique, fazem pensar na sua generosidade em relação aos compatriotas do Sul. Chegar aí, nessa terceira visita, é adentrar um território de vulcões, lagos e florestas. É saber sobre os bravos Mapuches e Huichilles, que resistiram ao colonizador, foram escravizados, mas até hoje lutam por seus direitos. É conhecer a Ilha de Chiloé, com suas lindas igrejas de madeira. 

É passar entre montanhas ainda cobertas com restos de neve durante o verão. Até quando resistirão à crise climática? É encontrar vulcões que vão marcando a paisagem e definindo territórios. O Osorno, há duzentos anos quieto, com seu cone perfeito, terreno pedregoso, terminando em branco de neve. O Calbuco, que em 2015 entrou em erupção e cobriu de cinzas a pequena cidade de Ensenada. O Tronador, cujo nome remete aos estrondos provocados pelo derretimento de suas geleiras. 

Nas partes mais chuvosas, há densos bosques, e estepes nas áreas mais secas. Nos bosques, linhas claras aparecem entre as árvores verdes do verão. São os troncos secos daquelas que já cumpriram seu ciclo de vida, mas continuam de pé entre suas irmãs. 

E lagos, muitos lagos, ladeados por montanhas que se espelham em suas águas esmeraldas, azuis intensos ou verdes claros, resultado da variação de sedimentos vulcânicos em seu leito. Essa beleza se estende para o lado argentino da cordilheira. Viajar por esses lagos é vivenciar a dita divina beleza que nosso planeta consegue abrigar. Hay que volver a Chile. 

Artigo publicado em 01 de fevereiro de 2024 no Diário do Rio. 

Cores e ladeiras

Valparaíso - foto Roberto Anderson

Sobe-se muitas ladeiras. Ao dizer muitas, entenda-se muitas mesmo, mais do que as pobres canelas da maioria possam suportar. As ruas serpenteiam morro acima em curvas fechadas que exigem perícia dos motoristas. Micro-ônibus são o meio de transporte principal. Uma mistura de casas, casarões e palacetes, em platôs de diversas alturas, e em variadas posições, criam o efeito presépio. Lá embaixo se avista as águas da baía, de onde sopra um refrescante ar marinho. 

Poderia ser a descrição de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Mas, é Valparaiso, no Chile. Graciosa cidade à beira-mar, com uma exígua área plana e uma enorme quantidade de morros e morrotes, os cerros, que se sobrepõem uns aos outros, se interligam por ladeiras que sobem e descem, e onde uma população criativa e acolhedora se instalou. 

Alguns desses cerros, especialmente o Alegre e o Concepción, foram marcados pela ocupação de imigrantes alemães. Ali, eles construíram casas inspiradas em suas origens e igrejas com torres em agulha. Muitas dessas casas são revestidas por chapas metálicas onduladas, vindas da Inglaterra desde o final do século XIX. Tais chapas, que recebiam cores vibrantes, hoje se mostram um suporte ideal para a obra de artistas do grafite, que passaram a ocupar todas as superfícies disponíveis, gerando uma verdadeira galeria a céu aberto. 

A cidade é um enorme ponto de atração turística. O visitante sempre encontra uma escada colorida, uma fachada inusitada, um grafite, ou arte urbana, dependendo de como se queira nomear, tudo contra um céu, em geral muito azul, e com o mar ao fundo. Uma grande quantidade de bons restaurantes, cafés e galerias de arte são os pontos de apoio dos visitantes. Sem uma sensação de insegurança a atormentá-los, o que, infelizmente, se vivencia no Rio. 

Curiosamente, as partes altas da cidade parecem bem mais cuidadas do que as partes planas, junto ao porto, onde há uma certa confusão de vendedores ambulantes, lixo nas ruas e prédios descuidados ou fechados. Aí é onde se encontra a administração pública, o comércio e os escritórios. É também onde se localiza o mercado, uma interessante construção em enxaimel metálico. 

Como o porto ocupa quase toda a frente marítima da cidade, esta não usufrui muito do contato mais próximo com o mar. O mar então se apresenta como a paisagem vista do alto e nos pratos de peixes e mariscos frescos servidos nos restaurantes. Próxima ao porto está a avenida Brasil, com seu canteiro central emoldurado por uma aleia de palmeiras-do-chile. É uma beleza de projeto paisagístico, ofuscado pelo descuido com a pavimentação e a liberalidade com o estacionamento sobre as calçadas.

Valparaiso, Valpito para os íntimos, é lugar para esquecer a pressa, deixar-se levar pela curiosidade em descobrir uma nova rua, uma nova escada, uma graça agregada a algum balcão, ou um desenho emoldurando alguma porta. Se se dispuser a ter calma, lá o passeante se sentirá livre como as gaivotas que voam por cima dos telhados da cidade.

Artigo publicado no Diário do Rio em 25 de janeiro de 2024.

Desigualdade territorial e (in)justiça ambiental

Enchente no Rio de Janeiro 2024

Nesse início de 2024, novas enchentes atingiram principalmente os bairros cariocas mais próximos à Baixada Fluminense e municípios daquela região. Essas áreas afetadas por alagamentos, com perdas de vidas e de bens materiais, são caracterizadas por serem áreas de moradia de pessoas mais pobres, e com pouquíssima infraestrutura de saneamento. De acordo com a realidade brasileira, essa população é predominantemente composta por pretos e pardos.

Como reação a essa situação, reavivou-se o debate sobre as consequências desiguais das calamidades ambientais e climáticas, conforme a situação social dos habitantes das cidades. Essa desigualdade econômica e territorial, também foi tratada com foco na questão racial, a partir da expressão racismo ambiental. No entanto, é preciso se questionar até que ponto a racialização desse tema não desvia o foco da raiz do problema, que seria a desigualdade econômica, característica do sistema capitalista, aqui um capitalismo selvagem. Assim, vale a pena revisitar a noção de justiça ambiental, que busca explicitar situações de injustiça nos territórios populares.

O movimento por Justiça Ambiental veio contestar a noção anteriormente dominante no movimento ambiental-ecológico de um meio ambiente uno, cujos problemas afetariam uniformemente a todos. Ao introduzir no debate ambiental as contradições existentes nas sociedades, o movimento por Justiça Ambiental explicitou que a questão ambiental é atravessada por contradições sociais.

Segundo David Harvey, os ricos ocupam nichos privilegiados no habitat, enquanto os pobres tendem a trabalhar e viver nas zonas mais tóxicas e arriscadas. Segundo o autor, nos EUA, o movimento por justiça ambiental e contra o racismo ambiental tornou-se uma força política significativa. Ele parte da constatação de que são as áreas ocupadas pelos pobres e por grupos raciais étnicos e culturais discriminados aquelas mais expostas aos problemas ambientais. Esses grupos têm dificuldades, impostas, de acesso aos recursos naturais e suas áreas são aquelas destinadas a receber os resíduos tóxicos e as atividades industriais poluentes.

Outra característica importante do movimento, é a de trazer para a discussão ambiental uma escala mais humana, em que os danos ambientais sejam enquadrados numa análise que considere a pobreza, as questões de classe social, de gênero e de localização geográfica. Ela permite superar uma visão de “culpabilização das vítimas”, na medida em que a pobreza muitas vezes é vista como um problema ambiental em si mesma e responsável pela dilapidação dos recursos, e não como uma questão de desigualdade na distribuição das riquezas.

O marco da luta por justiça ambiental foi o caso Love Canal em Buffalo, no Estado de New York, quando, em 1977, descobriu-se que os porões de casas da área estavam cheios de líquidos contaminantes, em função de terem sido indevidamente construídas sobre um canal aterrado. Em sua luta, o movimento por justiça ambiental tem aliado objetivos ecológicos a objetivos sociais, num processo que visa reforçar e empoderar as posições dos grupos em situação de desigualdade. Assim, movimentos de base local passaram a se articular na defesa de suas áreas de moradia, contra o despejo de substâncias tóxicas, contra localizações de atividades poluentes, ou contra a falta de condições adequadas de moradia.

Em sua organização, os movimentos por justiça ambiental são uma reação ao distanciamento daqueles que trabalham numa perspectiva global, os “globalistas”, dos problemas locais. Com isso, o movimento por justiça ambiental se mostrou uma renovação e radicalização revigorada do movimento ambiental, na medida em que foca nas vítimas ambientais.

A partir destas lutas localizadas, tais grupos realizaram uma ponte com temas mais gerais, crescendo em termos de abrangência territorial e social, e adotando uma visão que relaciona meio ambiente e justiça social. As questões levantadas pelo movimento por justiça ambiental são muito pertinentes a outros grupos sociais de outros países, especialmente aqueles do Sul Global, já que neles se repete o padrão de atingir bairros e empregos destinados aos pobres com poluição industrial ou com saneamento deficiente.

É importante salientar que a luta contra a pobreza, e contra condições de injustiça ambiental, se trava em condições muito difíceis. A nova realidade de ressurgimento da extrema-direita exige ainda maior atenção e clareza na comunicação. Sem se descuidar das lutas contra o racismo, a misoginia e a homofobia, entre outras, é fundamental a construção de discursos abrangentes que mobilizem o conjunto dos trabalhadores e pobres em geral das cidades e do campo. Nesse sentido, o conceito de injustiça ambiental tem muito a contribuir.

Artigo publicado no Diário do Rio em 19 de janeiro de 2024.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Afinal, quem protege o que?

As pipocas Maná, cuja carrocinha funciona na lateral da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, assim como na avenida Almirante Barroso e em Madureira, foram objeto da Lei 8.230/2023, que as declarou Patrimônio Cultural Carioca para inscrição no Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial da Cidade do Rio de Janeiro. Inventário aprofundado sobre a singularidade e importância cultural do bem? Não há. Projeto de salvaguarda desse conhecimento ou atividade específica? Também não há. Como se esses itens não fossem fundamentais no processo de reconhecimento do Patrimônio Imaterial!

Os vereadores que propuseram a lei, de vários matizes ideológicos, podem ser clientes contumazes da carrocinha de pipocas, mas seu prazer em saborear essa iguaria seria suficiente para que propusessem sua proteção como Patrimônio? Os vereadores percorreram a cidade para conhecer outras carrocinhas de comida de rua ou se ativeram à comodidade do que estava ali ao lado? Provavelmente, sem a carrocinha da Câmara, as pipocas Maná jamais seriam notadas pelos nobres vereadores. 

 

Não só pipocas, mas também o mate e a limonada de praia e o biscoito Globo foram declarados Patrimônio Imaterial do Rio. E em que isso mudou na forma como são exercidos esses negócios? No século passado houve uma evolução da visão de Patrimônio, que levou esse conceito a abarcar os valores contidos em manifestações culturais, como a folia de reis e o samba de roda. Foi um processo muito bem-vindo. Mas, o uso da expressão Patrimônio Imaterial pelo populismo mais rasteiro, sem qualquer trabalho de formulação mais aprofundado, ameaça se tornar um enorme retrocesso. 

 

O populismo no trato do Patrimônio vem tendo um importante elemento na atuação das Casas Legislativas sobre esse tema. Como se vê na questão da execução dos gastos do orçamento federal, tem havido uma certa confusão, num sistema presidencialista, sobre os papéis dos poderes executivo e legislativo no nosso país. Também na declaração de bens de Patrimônio os poderes legislativos têm avançado sobre uma atividade com todas as características de pertencer ao poder executivo. 

 

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro desejou tombar, entre outras, a casa do ex-deputado Sivuca. O projeto de Lei não trazia quaisquer informações que embasassem tal proposta, nem fotos, nada. Mas, certamente, haveria a expectativa de que os órgãos de Patrimônio do poder executivo cuidassem desse bem, sobre o qual não tinham qualquer informação. Isso faz muito pouco sentido. 

 

Tradicionalmente, os órgãos de Patrimônio contestavam a validade dos tombamentos legislativos, considerando-os uma prerrogativa do executivo. No entanto, o Ministro Gilmar Mendes, na Ação Civil Originária - ACO 1208, decidiu que os tombamentos legislativos são válidos, com caráter provisório. Os tombamentos definitivos, pela mesma ACO, seriam, estes sim, restritos ao Poder Executivo.

 

O problema aqui é que a maior parte dos tombamentos realizados pelos órgãos de patrimônio, por falta de pessoal e de recursos, permanecem como provisórios por tempo indefinido. Com as mesmas implicações do tombamento definitivo. Enquanto isso, o poder legislativo tem sido pródigo em votar tombamentos, que agora precisarão ser gerenciados pelo poder executivo. 


Uma lei recente, a 10.269/2024, institui o Programa de Registro de Patrimônio Vivo da Cultura Fluminense, programa esse a ser levado a cabo pelo Inepac. Ou seja, além dos seus próprios tombamentos e dos tombamentos legislativos, o órgão também será responsável por cadastrar pessoas importantes para a cultura local e gerenciar esse cadastro. Um cadastro bem mais dinâmico do que o de bens imóveis, por exemplo. Mas, como é sabido, o Inepac vive há décadas uma penúria de meios e de pessoal, não contando com um técnico concursado sequer.

 

Na votação do Plano Diretor de São Paulo, a Câmara de Vereadores daquela cidade avançou um pouco mais sobre as prerrogativas dos órgãos de patrimônio locais, ao impedir que um tombamento do poder executivo interfira em normas urbanísticas no entorno de um bem tombado. Isso é que se conhece como área de proteção da ambiência do bem tombado, um perímetro estabelecido para manter o contexto em que o bem se insere. Agora, a Câmara Municipal paulista tomou para si a palavra final sobre os parâmetros nessas áreas.


Todas essas situações estão a pedir uma melhor definição sobre o papel de cada um dos poderes. É certo que o poder legislativo poderia ter algum papel na preservação do Patrimônio, especialmente sobre aquele ameaçado por ação ou inação do poder executivo. Seria uma intervenção emergencial. Mas, seguindo então a decisão do Ministro Gilmar, seria necessária uma melhor caracterização de tombamento provisório e uma clara definição da obrigação de um estudo aprofundado para a sua proposição.

 

O fato é que a existência de dois atores definindo o que é Patrimônio, um obrigado a fazer estudos, inventários, a definição de áreas de proteção da ambiência e a gestão desses bens, e outro agindo com um viés mais populista, tem gerado mais confusão do que proteção. 


Artigo publicado no Diário do Rio em 11 de janeiro de 2024.


domingo, 7 de janeiro de 2024

E a revisão do Plano Diretor?

 

Santa Teresa e Catumbi - foto Roberto Anderson

Ano novo, velhos assuntos, pelo menos no que se refere à exploração do solo urbano carioca. A revisão decenal do Plano Diretor do Rio foi concluída pela Câmara de Vereadores com bastante atraso. Agora encontra-se à espera de eventuais vetos e da aprovação do Prefeito. Assunto árido não só para leigos, mas que interfere nas vidas de todos.


A primeira questão a salientar no novo Plano é a da baixa participação da sociedade. É certo que ocorreram reuniões com a participação de representantes de associações. Mas, as contribuições oriundas dessa participação não foram muito consideradas no projeto que foi à votação. Quando surgiram centenas de emendas dos parlamentares tudo foi mais fechado, sem que a população pudesse acompanhar. Uma avaliação realizada pelo IBAM sobre tais emendas não foi tornada pública a tempo, e as pessoas que assistiam à votação não tinham ciência do que estava sendo votado. Sequer os vereadores tinham plena ciência do que votavam.


O texto menciona a adequação do Plano às diretrizes da Agenda 2030 e aos objetivos do desenvolvimento sustentável, uma derrota para o Vereador Carlos Bolsonaro, que apresentou diversas emendas supressivas sobre estes aspectos. Outros objetivos importantes também são citados, como a integração metropolitana, nunca ocorrida, a redução do déficit habitacional, a proteção do meio ambiente e do Patrimônio, a adaptação aos impactos da crise climática, o respeito à capacidade de suporte das áreas urbanas, a supressão da fiação aérea, a paridade de gênero nos Conselhos Municipais, e uma maior participação da população no planejamento urbano da cidade. Planos sempre trazem objetivos nobres...


O Plano institui para todo o Município, com a exceção de áreas de proteção ambiental e de ocupação menos intensiva, o Coeficiente de Aproveitamento Básico do terreno - CAB =1. Isto significa que, no licenciamento da edificação, o que corresponder a uma vez a área do terreno fica isenta de taxação. Já o que exceder esse coeficiente, até o limite máximo permitido, os Coeficientes de Aproveitamento Máximo - CAM, passará a ser taxado. É a outorga onerosa, prevista no Estatuto da Cidade, que traz para os cofres municipais recursos para investimentos em obras públicas. O problema é que essa taxação não será imediata, progredirá lentamente até atingir o seu valor correto ao longo da vigência do Plano, e poderá ser parcelada em até trinta e seis cotas, ou mesmo trocada por obras, também não valendo para todos os bairros.

 

O Plano Diretor traz a intenção de adensar as centralidades já existentes e as áreas próximas aos corredores de transporte, e de desestimular a ocupação de áreas periféricas e de ocupação rarefeita, o que é positivo. O problema está na intensidade com que isto é feito.

 

Partindo do Centro, em direção às áreas no entorno da Avenida Brasil, e englobando quase toda a Zona Norte, é criada uma Macrozona de Estruturação Urbana, onde se pretende dar atenção à recuperação do tecido urbano e da infraestrutura existente, e onde são permitidos os maiores coeficientes de aproveitamento dos terrenos (CAM) por Área de Planejamento. O da AP1, a Área Central, e da área da Estação Leopoldina, por exemplo, chega a 15, o que equivale ao vigente na área de Midtown de Manhattan, aquela de edifícios mais altos. O da AP-3, a Zona Norte, pode chegar até 7, o que equivale ao possível em áreas como Lower East Side e Chelsea, também naquela ilha. No entanto, na AP-3, quando o terreno estiver situado ao longo de eixos do metrô, das linhas de trem ou do BRT, ou se forem destinados à habitação social, o CAM poderá crescer em 50%. Ou seja, são esperadas fortes verticalizações nessas regiões e as construções históricas junto às estações de trem podem desaparecer.

 

O Plano admite o parcelamento, a edificação ou a utilização compulsória do solo urbano não edificado ou subutilizado, mas tal inovação, importante para combater a especulação imobiliária, fica a depender de lei específica a ser elaborada. Os terrenos objeto dessas medidas estarão também sujeitos ao aumento progressivo do IPTU, até o cumprimento da exigência de edificação. Além disso, os imóveis em estado de abandono, e com débitos municipais, poderão ser arrecadados, passando para a propriedade do Município.

 

As zonas residenciais, mesmo aquelas mais restritas, passam a admitir a existência de atividades de serviços compatíveis com as mesmas, uma novidade. Escritórios e consultórios, por exemplo, poderão estar localizados nessas áreas. Há, também, a instituição da Zona Agrícola, um reconhecimento da existência dessa atividade no Município. O Plano cria uma Zona Franca Urbanística – ZFU ao longo da Avenida Brasil e da Rodovia Presidente Dutra. Pelo que foi anunciado anteriormente, a ideia era ser uma zona de gabarito liberado. No entanto, como esta liberação não foi alcançada, restou apenas a definição de mais uma zona urbana.

No Leblon, a área do antigo quartel, na Rua Bartolomeu Mitre, é reservada para instalações do serviço público ou de lazer, contrariando as intenções do governo estadual, que deseja vender o terreno com mais possibilidades de uso. E, somente por pressão das associações de moradores, os parâmetros dos planos locais de alguns bairros da Zona Sul, como Urca e Botafogo, foram parcialmente mantidos.

 

Há novidades interessantes na área de habitação social. O Plano traz a obrigação de que empreendimentos imobiliários com mais de 20 mil m² de área construída tenham que reservar 10% dessa área para habitação de famílias com até seis salários mínimos de renda. Esse é um item que pode promover mais mistura social. Mas, não é comum empreendimentos de alto padrão terem essa área. O Plano cria também o programa de locação social, já citado na Lei do Reviver Centro, e ainda não implementado. E a Prefeitura é autorizada, o que não é uma obrigação, a prover assistência técnica de engenharia e arquitetura a moradias de baixa renda. Este é um serviço já previsto na lei federal n° 11.888/2008, mas não aplicado no Rio. 

 

Sobre a questão da facilitação da ocupação de encostas, houve uma enorme pressão para a liberação da abertura de ruas acima da cota 60, defendida como forma de se evitar a favelização, e esse item, pela primeira vez foi aprovado. Além disso, os Maciços da Tijuca, Pedra Branca e Gericinó-Mendanha estão inseridos nas áreas onde se deseja estimular a construção de habitação social. Houve também a aprovação de um maior adensamento no Alto da Boa Vista. 

 

Tais liberalidades com a ocupação de encostas representam uma aceitação de que a Prefeitura não está preparada, ou não quer se preparar, para exercer a sua função de reguladora do uso do solo. As encostas mais verdes ou menos ocupadas da cidade contribuem para a beleza da paisagem, a amenização do clima e a retenção de águas pluviais. São serviços ambientais fundamentais num quadro de crise climática. Há também aquelas onde a ocupação, legal ou ilegal, já foi consolidada. Manter como estão aquelas encostas ainda com baixa ou nenhuma ocupação deveria ser um objetivo a ser atingido. Já a ideia de que uma maior ocupação legal dessas encostas evitará favelas não tem correspondido à realidade. Nas condições atuais, quando ocorre uma ocupação legal, acaba ocorrendo outra ilegal nas suas proximidades. É onde, em geral, vão morar as pessoas que servem a essas propriedades.

 

Sobre as favelas, foi positivo que passem a existir no Plano Diretor. Elas são descritas a partir de suas potencialidades, e não de suas dificuldades, e deverão ser objeto de planos locais, cujos princípios são definidos no Plano. O curioso é que a discussão do Plano Diretor se colocava contra os planos locais já existentes para outros bairros. A incorporação do instrumento do Termo Territorial Coletivo, o TTC, que permite soluções criativas para a questão fundiária nas favelas, foi também um passo importante, mas que dependerá de lei específica a ser votada pela Câmara. 

 

Como já havia ocorrido na discussão do Plano Diretor anterior, mais uma vez o plano não aceitou a autoaplicabilidade do Estudo de Impacto de Vizinhança, que só poderá ser utilizado após lei específica que o regulamente. Há mais de 10 anos a Câmara de Vereadores se exime de fazer esta regulamentação! O curioso é que, mesmo não tendo aplicabilidade imediata, ficou definido que o Estudo de Impacto de Vizinhança não será aplicado à implantação de templos religiosos, justamente uma grande fonte de reclamações. 

 

É indicada também que os atuais veículos de transporte de passageiros passem, gradualmente, a substituir os combustíveis fósseis por outros menos poluentes, mas sem definição de prazo. O Plano trouxe uma estranheza que é a possibilidade de utilização de até 20% dos terrenos de clubes da cidade para outros usos. Isto poderá trazer mais adensamento, já que áreas livres desses clubes poderão ser edificadas, desvirtuando o licenciamento que obtiveram. E o Plano trouxe um absurdo, que é a liberação de clubes de tiros em toda a cidade, salvo em áreas de conservação e de residência mais restrita, emenda trazida pela bancada de extrema-direita. Seria importante que esse item fosse vetado pelo Prefeito. Mas, será? 

 

Nesta fase atual, o Plano traz boas intenções e alguns avanços, a maioria a depender de leis específicas posteriores, que nossa Câmara sempre “esquece” de produzir. Mas com itens certeiros para agradar ao mercado imobiliário, de aplicação imediata. Além disso, esse planejamento por coeficientes de aproveitamento e gabaritos é simplista, desconsiderando aspectos importantes da paisagem, um dos maiores bens da cidade. Tanto no Rio, como em São Paulo, o mercado, através de seus representantes no Poder Legislativo, que não são poucos, atuou para garantir mais dez anos de bons negócios, geralmente às custas do bem-estar geral.

 

As mesmas velhas forças que vêm pautando a desfiguração do Rio de Janeiro continuam o seu trabalho. Desde a expulsão dos moradores pobres do Centro, na Reforma Passos e na demolição do Morro do Castelo, até a posterior destruição da arquitetura eclética e pomposa que substituiu o casario colonial, passando pela verticalização sem qualidade das edificações por toda a cidade, através da constante alteração casuística das leis, foram sempre os interesses do mercado imobiliário que agiram. Na elaboração do recentemente concluído Plano Diretor, não foi diferente.


Artigo publicado em 04 de janeiro de 2024 no Diário do Rio.

domingo, 31 de dezembro de 2023

Para um feliz 2024, se possível

foto Roberto Anderson

Em alguns dias será um novo ano. Se não déssemos tanta importância à contagem do tempo, talvez essa passagem não fosse tão marcante. Mas, assim somos. A chegada de um ano novo acaba sendo uma oportunidade de avaliar o que passou, de pensar no que pode mudar, e de ter propósitos.

O ano que vai acabando já mostrou alguns problemas que estarão no futuro. A crise climática continuará a extrapolar os debates acadêmicos, extravasando para as ruas na forma de ondas de calor sufocantes, de secas, de chuvas torrenciais que provocam enchentes cada vez mais dramáticas, e de aumento das áreas consideradas de risco. 

No mundo, a guerra deixou de ser fria, tornou-se disseminada, com as potências nucleares enfrentando-se por intermédio de terceiros. Ataques massivos por drones não são mais ficção. As imagens dos bombardeados, das crianças atingidas, dos desabrigados, dos exilados, dos forçados a emigrar nos comove e incomoda. 

Os extremistas de direita estarão à espreita para, na primeira oportunidade, tentar novamente destruir a democracia. A inteligência artificial, apesar de trazer benefícios, também nos fará duvidar do que vemos e ouvimos. Aquela pessoa impoluta poderá ter a sua imagem e voz clonadas, para cometer as maiores barbaridades. O vizinho do lado, ou o seu espectro, poderá lhe induzir a cair num golpe financeiro. 

O mundo parece estar ficando cada vez mais complicado. E todos esses são problemas muito grandes, cujas soluções não estão muito ao alcance de cada um de nós, cidadãos comuns. Mas, há atitudes que podemos tomar como propósitos para o novo ano que, se não resolvem as grandes questões, podem nos fazer um bem danado. Que tal uma pequena lista de ações ao nosso alcance?

Cuidar melhor de si, do que se come, renegar os ultraprocessados e os alimentos regados a agrotóxicos. Gastar mais tempo na cozinha experimentando novas receitas para servir à família e aos amigos. Por falar nestes, lembrar de ligar ou, vá lá, mandar mensagens para saber como estão. E dar um jeito de combinar um encontro, de preferência, vários ao longo do ano. 

Fazer caminhadas ou, se possível, corridas pelo menos duas vezes por semana. Não é muito. Voltar para a academia ou, para quem já lá está, manter-se firme, mesmo que os benefícios nem sempre apareçam no espelho como desejamos. Se a academia for insuportável, escolher nadar, jogar, quem sabe até competir. 

Aprender uma nova língua, que pode ser o mandarim, para melhor entender a nova potência do século XXI. Contrariando o senso comum, sempre é tempo de aprender. Mesmo que o aprendizado seja lento, a cabeça estará funcionando, a caixinha da memória estará sendo desafiada a expandir-se.

Lembrar que é o ano de eleger o prefeito ou a prefeita e os vereadores, aqueles que são responsáveis pela qualidade de vida nas cidades, ou a falta dela. Procurar entender quem são os candidatos, ouvir suas propostas e saber reconhecer ali o que são promessas vãs e o que merece credibilidade. Se possível, seria desejável escolher um bom candidato, melhor ainda se for uma candidata, com antecedência e, por que não, conseguir alguns votos para quem merecer a sua confiança. 

Plantar uma árvore (essa é velha). Mas se não for possível fazer isso, ligar para a Prefeitura, procurar na Internet o órgão responsável por plantios, e pedir, reclamar, exigir que seja plantada uma bela muda naquele espaço vazio na calçada, que os urbanistas chamam de golas. Melhor ainda, quando for fazer aquela caminhada ou corrida da promessa lá de cima, anotar as golas vazias do seu bairro e repassar os endereços para a prefeitura. 

Ler mais nas folhas de papel dos livros, ver mais filmes do que novelas, ir a mais festas do que a cultos, ir mais vezes ao teatro, porque lá os atores e os bailarinos esperam para apresentar um evento único, que não será igual ao do dia que passou, nem aos vindouros. Viajar mais, se possível, com baixa pegada de carbono. 

Namorar, se der, amar. Reencantar-se com pessoas e atividades que andavam parecendo enfadonhas. Abraçar os filhos, os irmãos, os pais, os avós e os amigos. Querer mais vida, mais anos novos, mais surpresas agradáveis, mesmo sabendo que as desagradáveis também virão. Ter coragem para seguir na corrente do tempo, sempre à frente, sem parar. Feliz Ano Novo. 

Artigo publicado em 28 de dezembro de 2023 no Diário do Rio.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

A Usina dos italianos de Porto Real

 

Porto Real é uma cidade do Sul fluminense, com aproximadamente 20 mil habitantes, que sedia a fábrica da Peugeot Citroën, atual Stellantis. Até 1995, era parte de Resende. Mas, lá no passado, foi a localidade de Minhocal. Por ter tido uma porção de terra doada à coroa, na qual havia um desembarcadouro às margens do rio Paraíba do Sul, tornou-se Porto Real. 

No final do século XIX, ela recebeu um grupo de colonos italianos que, supostamente, deveriam ir para Santa Catarina. Mas eles teriam preferido ficar por ali mesmo, já que gostaram do lugar. Esses colonos trabalharam duro, plantaram cana-de-açúcar e, para beneficiar essa produção, foi inaugurada em 1889 uma bela edificação projetada por arquitetos franceses, que veio a se chamar Açucareira Porto Real. Além da importância afetiva por ser parte importante da história local, o edifício é um dos cartões postais da cidade. É uma bela edificação industrial, em alvenaria de tijolos aparentes, com um corpo mais alto, em cuja fachada estão incrustados um relógio e um oratório. 

A antiga usina assemelha-se em tipologia a outros edifícios industriais preservados, como as antigas fábricas de tecidos Bangu, o Moinho Fluminense e a Companhia Têxtil Brasil Industrial, esta última em Paracambi. Inexplicavelmente, a antiga Usina, depois fábrica da Coca-Cola, até hoje não é tombada, nem tem qualquer proteção legal. Mas, isso não lhe retira importância e a necessidade de ser preservada. Já faz muito tempo que os edifícios industriais do século XIX, e mesmo do século XX, entraram no radar dos órgãos de Patrimônio, que vêm buscando preservar esse período da história humana. 

Em maio deste ano, parte da fachada desabou, um acontecimento triste e deplorável, por evidenciar falta de cuidado. A parte desabada corresponde a uns 15% da edificação, portanto, a sua recuperação é perfeitamente possível e desejável. No entanto, a absurda solução encontrada pela Coca-Cola foi encomendar um projeto que parta da demolição total do que restou e reconstrua a edificação como um pastiche do prédio histórico existente. Sim, é isso mesmo, querem demolir o prédio histórico para reconstruí-lo como cenário. 

Após esta ação danosa, criminosa mesmo, de demolição do que ainda resta de pé se concretizar, a empresa planeja reconstruir a volumetria do edifício utilizando alvenaria de bloco de concreto, com pilares pré-moldados. Posteriormente, toda fachada da nova edificação seria revestida com tijolinhos cerâmicos, similares aos tijolinhos maciços existentes na estrutura atual, que não são apenas um revestimento. As janelas e as portas da nova edificação teriam as mesmas medidas das atuais, mas seriam fabricadas em alumínio.

Quem imaginaria que a Coca-Cola promoveria algo fake, não é mesmo? Essa solução é inadmissível, e contraria todos os cânones de gestão de bens culturais. O Ministério Público deveria olhar esse caso de destruição do Patrimônio de Porto Real e impedir que a demolição do que ainda existe se concretize. Os cidadãos de Porto Real deveriam se indignar com a destruição da sua história. E o órgão de Patrimônio estadual, o Inepac, deveria agir, antes que seja tarde demais. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 21 de dezembro de 2023. 

 

sábado, 16 de dezembro de 2023

Nerds na Portuária

Apesar de suas políticas urbanas que ameaçam a paisagem carioca e a qualidade de vida dos cidadãos, o prefeito do Rio acertou ao trazer a graduação em matemática do Instituto de Matemática Pura e Aplicada-IMPA para a Área Portuária. O IMPA Tech funcionará num galpão da Prefeitura, dividindo espaço com startups e empresas de tecnologia, na avenida Professor Pereira Reis. Apesar de estar devendo mais explicações à sua vizinhança no Horto sobre as obras de edificações ali na encosta florestada, o IMPA fez um golaço ao criar essa graduação.

A Área Portuária, mesmo com todos os investimentos ali já realizados, não tem recebido atividades que gerem movimento e atraiam público. Isso se deve ao modelo de urbanização trazido pelo projeto Porto Maravilha. Ele é baseado em índices de aproveitamento dos terrenos e possibilidade de altas edificações, sem um plano de massa que imagine o resultado final, sem reserva de terrenos para habitação, sem espaços para o pequeno comércio, e voltado para um público de mais alta renda. Público este que, até o momento, tem desdenhado da área, continuando apegado à Zona Sul e à Barra.

Financiada pelo governo federal, a futura graduação do IMPA oferecerá até 100 vagas por ano para alunos selecionados em todo o país, buscando trazer para o Rio aqueles que demonstrarem vocação e aptidão para o raciocínio matemático. Eles receberão uma ajuda de custo e alojamento providenciado pela Prefeitura, em apartamentos que a mesma adquirirá na área. Apesar do folclore de terem características de pessoas mais absortas no seu mundo de equações, a presença desses alunos vivendo e estudando no coração da Área Portuária terá uma grande capacidade de vitalizá-la, bem mais do que os empreendimentos voltados para escritórios ali já realizados. 

A criação do curso do IMPA tem também a característica de ir ao encontro de uma das grandes vocações da cidade, a de ser um polo de produção de saber, aberto a estudantes e a pesquisadores de todo o país. Existe no Rio outra instituição de ensino com um papel semelhante ao que terá o IMPA Tech: o Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil do Senai, o Senai Cetiqt. Ele tem sedes na Cidade Universitária e na Barra da Tijuca e também recebe estudantes de várias partes do país, oferecendo alojamentos para os que vêm de fora. 

O Senai Cetiqt é o maior centro de produção de conhecimento na área têxtil e de confecção, incluindo a moda, e na área química. E está no Rio de Janeiro. As universidades públicas de excelência aqui situadas também têm essa capacidade de atrair para o Rio estudantes de outros lugares. Numa outra área do saber, mas não menos importante, a Escola Nacional de Circo, na Praça da Bandeira, é também uma instituição nacional, que recebe alunos de outros estados. 

Juntamente com o poder de atração das atividades culturais que aqui acontecem, e não se pode perder de vista o papel da Rede Globo nesse aspecto, todas essas instituições são responsáveis por manter o Rio como cidade de todos os brasileiros. A presença, mesmo que temporária, desses recém-chegados evita que a cidade caia num provincianismo, próprio de locais pouco abertos ao diferente. O Rio é lindo e os cariocas são ótimos. Apesar de a cidade estar meio perdida, o seu potencial é imenso. Não é tão difícil encontrar que caminhos seguir. 

Artigo publicado em 14 de dezembro de 2023 no Diário do Rio.

sábado, 9 de dezembro de 2023

A cura

Robert Smith

Era o início da década de 1980. O trabalho de garçom, num restaurante perto da Washington Square, era um dos vários bicos que a vida de artista sem recursos em Nova York oferecia. O lugar era bonito, tinha paredes decoradas com grandes espelhos barrocamente emoldurados. O que mais chamava a atenção era o bar, com suas estantes torneadas, de novo os espelhos, dezenas de taças penduradas, e a enorme variedade de bebidas expostas. 

O restaurante, que já não existe, era bem frequentado. Muitas pessoas que iam assistir peças no Public Theater ali perto, antes jantavam no Garvin's. Foi o que fez Jackie Onassis certa noite, gerando uma ciranda de garçons passando perto da sua mesa. Numa tarde de salão vazio, lá também esteve Rod Stewart. Desacompanhado, tomou com calma a sua bebida, sem ser importunado por ninguém. 

A maioria dos garçons era de jovens. Alguns estudavam teatro, outros dança, apesar de também haver imigrantes em busca do sonho americano. O uniforme era calça preta, camisa de smoking branca, gravata borboleta vinho e sapato social. Mas, havia tolerância para tênis preto, se fosse de couro. 

A formalidade pretensiosa do Garvin's era o oposto da vida de cada um dos que lá trabalhavam. Nos momentos mais calmos, as conversas giravam sobre os projetos de vida, notícias de suas casas distantes (ninguém em Nova York parece ser de lá) e pequenas gozações com a cara de cada um. O sotaque dos estrangeiros era um prato cheio para isso.

Era o tempo em que a AIDS crescia assustadoramente e pouco ainda se sabia sobre ela. Todo mundo tinha algum amigo ou conhecido tocado pela doença e isso desestabilizava, gerava medo. Eram também os tempos dos governos reacionários de Margareth Thatcher e Ronald Reagan, confirmando que sim, o sonho havia acabado. Apesar de tudo, o mundo pulsava com a sensação de que a vida estava por um triz. Tudo mudava, e não se sabia bem para onde ia. 

Foi num momento de preparação do salão para o jantar que o barman colocou pra tocar uma fita do The Cure. Era uma batida forte e com muita melodia, a voz angustiada e sufocada de Robert Smith exalando revolta. As letras absurdamente sombrias e desesperançadas eram a cara do momento. Boys don't cry. Na capa, estava estampado o visual gótico. Identificação e paixão imediatas. Guardado o nome na memória, na primeira possibilidade a fita cassete foi devidamente comprada, passando a ser ouvida over and over. 

Os perrengues da vida num país estrangeiro, os dias de frio, o sair para o trabalho com o dia escurecendo, porque é assim no inverno, os desencontros amorosos, mas também as conquistas, as descobertas, os progressos, tudo podia ser pontuado pelo romantismo estranho, pela melancolia ou o niilismo do The Cure. 

De volta ao Brasil, apesar da claridade ambiente, os tons sombrios da banda continuavam a fazer sentido. Era como se o batom borrado agora o fosse pela ação do sol e do suor. Tentar rir disso, it's Friday, I'm in love seguiu batendo forte. A fita cassete ainda existe, mas já não há mais onde tocá-la.

Agora, em 2023, a Thatcher se foi, o Reagan idem, o mundo segue em crise, mas o The Cure continua. E fez um lindo show em São Paulo.

Artigo publicado em 07 de dezembro de 2023 no Diário do Rio.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

A Traviata


Enfim, chegou o dia de assistir à ópera. Mais do que isso, vinte e dois anos depois, enfim, La Traviata volta ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Muito tempo de ausência de uma obra desse porte numa cidade que se acredita um polo cultural. Longe vão os tempos de bonança da Fundação Teatro Municipal, quando o casal de governadores da terra do chuvisco concordava em dotá-la com um orçamento até maior do que o da própria Secretaria de Cultura. Coisas curiosas aconteciam então. 

Para chegar ao Municipal, civilizadamente, boa parte do público opta por utilizar o metrô. Infelizmente, essa preferência não é recompensada pela administração desse sistema de transporte, que fecha a entrada mais próxima ao teatro nos fins de semana. Isso obriga senhoras e senhores, em seus melhores trajes, a se deslocarem pela praça mal iluminada, com aspecto de abandono. Nesta temporada da Traviata dois cantores, que haviam acabado de participar do espetáculo, foram agredidos por assaltantes na Cinelândia.

No último fim de semana, a bela chegada ao teatro esteve obliterada por uma enorme tenda dedicada a atender pessoas que desejavam limpar os seus nomes, renegociando dívidas. Nada contra tal atividade, mas somente gestores incultos permitem esse tipo de equipamento gigante na vizinhança do principal conjunto de monumentos da cidade: o próprio teatro, a Câmara de Vereadores, a Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes. O que dizem os órgãos de Patrimônio?

Apesar de ter negada a visão, a partir da praça, dos vitrais iluminados do teatro, das suas colunas coríntias, dos seus ornatos e da imponente águia dourada, subir a escadaria externa do Municipal é sempre uma grande emoção. Ali estão os grupos de senhoras vindas em vans que as retiram do provável isolamento que advém com a idade. Ali estão representantes da elite econômica carioca, tanto os que genuinamente apreciam um bom espetáculo, quanto aqueles que ascenderam mais recentemente e sabem o quanto pega bem assistir a uma ópera. 

Dispersos pela escadaria também estão os amantes do canto lírico que necessitam ver ao vivo as óperas que tanto amam, da mesma forma como necessitam do ar que respiram. E também estão os artistas, e outras pessoas sem recursos, e sem acessos a convites, desejosos que um anjo apareça e lhes ofereça um ingresso que tenha sobrado. Lugar tão familiar no passado...

Adentrar o Theatro é uma experiência de maravilhamento. Mármores e pedras de tons variados, bronzes, esculturas, ornatos folheados a ouro, tudo muito rico, tudo muito nobre, a mais bela joia da cidade. A subida da escadaria central, com sua finalização bipartida, seus corrimãos de ônix, e o grande vão acima, terminado num vitral ladeado por pinturas, é sempre um ato que confere charme e grandeza ao mais simples dos mortais. Na era das redes sociais, essa subida se tornou incontornável, assim como a devida parada para fotos. 

O que os frequentadores justamente maravilhados não percebem são as microfissuras nos mármores das paredes e dos pisos, resultado provável da trepidação provocada pela circulação do metrô e da antiga situação de tráfego intenso de ônibus na lateral do teatro. Afinal, as fundações dessa magnífica edificação são toras de madeira de lei, submersas no lençol freático da região. Essa trepidação, e a movimentação do edifício, já causaram, muitos anos atrás, a queda da balaustrada do foyer. Tudo agora restaurado, não há motivos para preocupação, não há riscos iminentes, só "sinais de expressão" de uma longa existência. 

Se o espectador foi curioso, antes de entrar na sala de espetáculos, terá dado uma circulada pelo interior do teatro. E terá se deparado com o belíssimo foyer, onde a abóbada de berço e os tímpanos são decorados com pinturas magníficas de Eliseu Visconti. A pintura principal é a representação da música e utiliza técnicas de pontilhismo.

Se desceu a escada certa, terá encontrado o Salão Assyrio. A fantasia palaciana europeia agora abre espaço para um misto de referências à Pérsia, à Babilônia e à Assyria. Estão lá arqueiros, leões, os kerubs, que são seres alados, e fontes com Gilgamesh e o imperador Dario, tudo em cerâmica esmaltada, executada por finíssimos artesãos do passado. Uma pena que parte do teto, no lugar de ter a pintura decorativa recomposta, recebeu apenas um adesivo fotográfico na última restauração, a de 2008-2009. 

Antes do início da função, e devidamente sentado, se possível nos assentos privilegiados da plateia e do balcão nobre, o melhor a fazer é observar as belezas da sala de espetáculos. À frente, o belo arco dourado que contorna a boca de cena, com seus medalhões e laços contendo feixes canelados. Na lateral, antes da boca de cena, estão os camarotes da presidência da República e do governador. Não têm bom ângulo de visão, mas estão em locais privilegiados para que os dignitários sejam vistos. Abaixo deles, os camarotes que se debruçam sobre o fosso da orquestra. Na última restauração foram cortados para dar mais espaço à orquestra, mas não tiveram seus ornatos recompostos.

Acima, a pintura também de Visconti para o friso do proscênio, datada de 1936, quando a boca de cena original foi alargada. Por trás da pintura que decora o proscênio, há outra escondida, do mesmo artista, feita para a boca de cena original, apenas redescoberta na última restauração. No mesmo momento em que ocorreu o alargamento da boca de cena, a estrutura interna do teatro, em pilaretes metálicos, foi substituída por outra em concreto armado. Vigas gigantes de concreto agora passam escondidas por cima do plafond da sala de espetáculos, delicadamente decorado com a pintura As Horas, de 1908, do mesmo Visconti. 

Já toca o terceiro sinal, o espetáculo vai começar. A luz da sala se apaga, os músicos dão a última afinada nos instrumentos, o maestro, sob aplausos, assume o seu lugar no fosso da orquestra, e soam os primeiros acordes. A produção está muito bem cuidada, com o coro, o ballet e a orquestra em ótima forma. A soprano Ludmila Bauerfeldt, no papel de Violetta Valéry, encanta. Os figurinos e as coreografias idem.

No segundo ato há uma certa estranheza com a simples cortina com plantas trepadeiras fazendo as vezes da casa de campo do casal de enamorados. Bem distante do suntuoso cenário da última produção, quando havia um belo jardim na casa de Violetta. Foi por ele que o então médico de plantão no palco do teatro se equivocou de caminho, e adentrou a cena. Curiosidades de um palco centenário.

Também a inversão temporal do último ato, quando Violetta é apresentada como uma visão fantasmagórica, já falecida, cria um certo estranhamento em relação ao que é cantado, onde ela ainda tem um sopro de apego à vida. Talvez, uma concessão do diretor ao expressionismo alemão, assim como a dançarina de braços desnudos que aparece no segundo ato, na cena em que a protagonista é destratada por Alfredo. 

Ao final, a plateia oferece seus aplausos calorosos e merecidos aos artistas. Num ato incomum, são chamados ao palco alguns trabalhadores dos bastidores. Lá estão, entre outros, Leila, a chefe das camareiras e Divina, a responsável pelas perucas das personagens. É justo, sem eles não há espetáculo. E sem mais óperas, concertos e ballets o Rio é menos Rio. Obrigado Theatro Municipal, queremos mais.

Artigo publicado em 30 de novembro de 2023 no Diário do Rio.