quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Há muita França aqui


 

Chafariz do Palácio Guanabara

É sempre bom relembrar a longa relação entre o Brasil e a França, e suas marcas em nossa cidade. Esses dois países passaram por momentos de aproximação forçada, como as invasões do período colonial, e por outros de intensa sedução cultural. Lá no período colonial a França não reconhecia o Tratado de Tordesilhas e defendia o princípio do direito à posse das novas terras por quem as ocupasse. Assim, foram duas as tentativas francesas de fixação no território brasileiro: no Maranhão, a partir de 1594 com o projeto da França Equinocial, que gerou a fundação de São Luiz, e no Rio de Janeiro, em 1555, com o projeto da França Antártica. Deste último episódio ficou o nome da ilha onde atualmente se encontra a Escola Naval, homenageando o chefe da expedição francesa, Villegagnon. É possível que futuras escavações arqueológicas naquele local ainda descubram vestígios do Forte de Coligny, ali erguido pelos invasores. Posteriormente os corsários Jean François Duclerc (1710) e René Duguay-Trouin (1711) tentaram invadir o Rio de Janeiro, tendo o segundo obtido sucesso e somente se retirado após o pagamento de grande soma em dinheiro e de saques nas casas e igrejas. Duguay-Trouin, vilão no Brasil, hoje tem estátua em Saint-Malo e medalhão na Prefeitura de Rennes. Como em porta arrombada sempre se coloca tranca, as visitas corsárias provocaram a construção das Fortalezas da Conceição e de Santa Cruz, além do reforço no Forte de São João.

As invasões francesas que se seguiram em nossa cidade foram bem mais amenas e geraram uma profícua cooperação cultural e comercial. Trazida por D. João VI, a Missão Francesa nos legou o estilo arquitetônico do império, o neoclássico. Grandjean de Montigny foi o grande expoente desse período e suas mais importantes obras em nossa cidade são a Casa França-Brasil, a portada da Escola de Belas Artes, que se encontra no Jardim Botânico, e o solar onde residia o arquiteto, na PUC. Seus seguidores brasileiros também criaram obras importantes, no melhor estilo neoclássico, como o prédio frontal da Santa Casa de Misericórdia, a Casa da Moeda e o Palácio do Itamaraty. No paisagismo, também, houve a importantíssima presença de Glaziou, que nos deixou a atual configuração do Passeio Público, do Campo de Santana e da Quinta da Boa Vista.

Outras contribuições francesas à cidade no século XIX são os monumentos em ferro fundido que se encontram em diversos locais públicos, vindos em sua maioria das fundições do Val D’Osne. Entre eles estão os chafarizes do Monroe, do Palácio Guanabara e da Praça São Salvador. É desta época também a bela igreja neogótica na Praia de Botafogo, projeto do Padre Jules Clavelin, o mesmo autor da igreja do Seminário do Caraça, em Minas Gerais. Além disso, não se deve esquecer do Templo da Humanidade, na Glória, projetado por Miguel Lemos para sediar a Igreja Positivista do Brasil, inspirada nos princípios do francês Auguste Comte. Sua fachada é uma redução da fachada do Panthéon em Paris.

Nas primeiras décadas do século XX, a influência cultural francesa ainda se mantinha forte. Prova disso é a Praça Paris, que foi construída em 1926 pelo Prefeito Prado Junior. A cidade, então, recebeu diversos arquitetos franceses que aqui também deixaram suas obras. Entre eles, Joseph Gire, autor do projeto do Hotel Copacabana Palace e coautor do projeto do Palácio Laranjeiras, juntamente com Armando Carlos da Silva Teles. Alfred Agache elaborou o primeiro plano diretor da cidade, cujos vestígios são as galerias cobertas dos prédios do Castelo. Outra obra importante é a sede da Academia Brasileira de Letras, que foi o pavilhão francês na Exposição Internacional de 1922, uma réplica do Petit Trianon em Versalles. Também nesse período, foi erguido um dos símbolos mais importantes da cidade: o Cristo Redentor, cuja cabeça e mãos são obras do escultor francês Paul Landowski.

Por fim, não podemos nos esquecer da obra mais recente de um francês no Rio de Janeiro: a Cidade da Música, de Christian de Portzampac. Apesar de sua localização, que poderia ter contribuído para a revitalização de alguma área mais carente da cidade, é inegável que é um excelente projeto. O próprio arquiteto o considera uma de suas obras mais importantes.

Além dos sabores da culinária, e dos prazeres da literatura e da moda, podemos perceber que a relação de nossa cidade com a França está também consolidada em belos exemplares de nossa arquitetura e de nossos jardins. Revisitá-los é uma forma de provar uma “madeleine” e embarcar numa viagem pela França que há em nós. 

 Artigo publicado em 27 de agosto de 2026 no Diário do Rio.

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário