quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O mar de Escobar

Muita gente anda animada com a praia do Flamengo. Finalmente o banho de mar ali está liberado, e a água tem estado limpa quase o ano todo. Se já era bacana fazer um piquenique no Parque do Flamengo, agora o banho de mar é o complemento ideal. Infelizmente, a balneabilidade dessa praia foi parcialmente conseguida com o desvio das águas do rio Carioca para o interceptor oceânico de Ipanema. A cidade desistiu de despoluir o rio que fornece o gentílico local e passou a jogá-lo em alto mar, misturado a todas as outras sujeiras dos seus moradores. 

Todo o povo descolado está feliz com a recém-descoberta prainha da Glória, que andava sequestrada pela marina de mesmo nome. Ela é pequenininha, de acessibilidade difícil, lindinha de se olhar do alto, e com vista para o Pão de Açúcar. De quebra, tem a movimentação dos aviões descendo na cabeceira da pista do Santos Dumont logo ali ao lado.

É bom lembrar que essas praias são reconstituições de praias que um dia existiram mais perto da linha dos edifícios, mas desaparecidas com os sucessivos aterros. Aterrou-se muito o mar do Rio de Janeiro. Entre Ramos e Copacabana, todo o litoral foi alterado pelo incansável trabalho de se conquistar terra ao mar, às lagoas, aos pântanos e aos manguezais. A cidade que se orgulha de suas belezas naturais travou uma guerra insana contra essa mesma natureza.

O mar do Rio de Janeiro, tão apreciado, já foi bastante desdenhado pela população que aqui se instalou após a colonização. Basta ver a implantação do atual Museu da República, um dia a residência do Barão de Nova Friburgo. Ele tinha um belo terreno à beira-mar e poderia ter construído um palacete debruçado sobre a praia. Mas não, preferiu construí-lo na esquina das ruas do Catete e Silveira Martins. Um palacete urbano, de costas para o mar, e deste separado por um imenso jardim.

Foi lento o crescimento do hábito do banho de mar no século XIX. Lá no início havia o banho medicinal de D João VI que, muito provavelmente, sentava-se numa banheira dentro das águas calmas do Caju. O aparato necessário para esses banhos era fornecido pela atual Casa de Banhos do Caju.

Mesmo quando o banho de mar já começava a ser um pouco mais usual, era ainda uma atividade estranha aos padrões dominantes. Em Dom Casmurro, Machado de Assis descreve Escobar, o oponente de Bentinho, como um homem moderno, morador do Flamengo e apreciador do banho de mar. E nesse mesmo mar Escobar morre afogado num dia de forte ressaca. 

Fazer morrer o personagem afogado na praia do Flamengo é um recurso curioso, já que em geral é a placidez que por ali domina. Na vida adulta, Ezequiel de Souza Escobar, esse era o seu nome completo, foi um morador do Flamengo e Bentinho, ou Bento de Albuquerque Santiago, foi um morador da Glória. Já na fase Casmurro, este último dá as costas ao litoral e vai viver recluso no Engenho Novo. 

Que cada braçada dos modernos banhistas da Praia do Flamengo preste homenagem ao valente e misterioso Escobar.

artigo publicado em 20 de agosto de 2026 no Diário do Rio

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