O arquiteto dinamarquês Jan Gehl foi professor na
Escola de Arquitetura de Copenhage. Após se aposentar, passou a trabalhar no
seu escritório de arquitetura e deu consultoria a projetos em diversas cidades,
entre elas Londres, Nova Iorque e Sydney. Ele publicou sete livros acerca de
suas pesquisas, que estão traduzidos em quarenta e duas línguas. O primeiro
deles foi “A vida entre edifícios”, de 1974.
Em 2010 Gehl publicou o seu livro de maior repercussão, o “Cidades para pessoas”.
Agora, em uma série de palestras para a PUC-Paraná, o arquiteto nos fala sobre
suas reflexões e descobertas.
Segundo Gehl, nos anos 1960 quase tudo foi feito para
expulsar as pessoas e a vida dos lugares públicos das cidades. Isto se deu em
razão de dois novos paradigmas que foram introduzidos no planejamento urbano e
se tornaram dominantes: o modernismo e a invasão dos veículos motorizados. Contra
este estado de coisas surgiram contestações, vindo a primeira delas da
jornalista nova-iorquina Jane Jacobs, que publicou o livro “Morte e vida das grandes
cidades americanas”, em 1961. Neste livro a autora relata as suas críticas ao
urbanismo modernista, amadurecidas na sua luta contra os projetos rodoviaristas
do prefeito Robert Moses. Para Gehl, ela é a avó de uma visão humanista do
planejamento e do desenho urbano. O próprio Jan Gehl foi influenciado por essas
novas ideia, tendo que abandonar o tipo de planejamento modernista que havia
aprendido. Ele então voltou para a universidade para estudar as relações das
pessoas com os espaços e um novo tipo de desenho urbano.
Gehl lembra que o homo sapiens é uma criatura
que anda, que se move a baixa velocidade, que tem um sistema de sentidos
frontal, horizontal, e que é muito interessado em outras pessoas, ou seja, é um
animal social. Ao longo da história, as cidades foram construídas baseadas no
corpo humano, com ruas e praças. Estas cidades antigas tinham uma escala humana.
Eram feitas por pessoas e para pessoas, para o movimento lento. A vida das
cidades ocorria em ruas ou em praças: transporte, mercados, procissões e
encontros de pessoas. A tecnologia disponível só permitia edifícios de dois ou
três pavimentos e somente alguns edifícios eram marcantes. A maioria dos
edifícios eram anônimos, distribuídos pelas ruas e praças.
Mas isso mudou abruptamente e um marco dessa transformação
das cidades foi a Carta de Atenas, de 1933, feita por um grupo de arquitetos
reunidos no Congresso Internacional de Arquitetura Moderna - CIAM. Um princípio
fundamental dessa carta foi a proposta de separação de funções nas cidades, que
isolou as áreas de moradias das áreas de trabalho e das áreas de lazer. Daí vem
o nome funcionalismo para o urbanismo modernista. Esses arquitetos tinham
argumentos, como os problemas de saneamento das cidades, as favelas, os cortiços,
as doenças infecciosas e a superpopulação das grandes cidades. Esses eram problemas
que vinham desde a revolução industrial, que inchou e poluiu essas cidades. Os arquitetos
passaram a acreditar num homem moderno, saudável e, por conseguinte, mais
produtivo. Assim, eles se moveram do planejamento de espaços para o
planejamento de objetos: os edifícios soltos no espaço.
Passou a vigorar um novo modo de projetar, em que o
desenho das cidades é feito como se estivéssemos voando. Gehl o chama de
“Síndrome de Brasília”. Lá, a quinhentos metros acima do solo, tudo parece
interessante, se vê a forma de um avião, etc. Vista da altura de um voo de
helicóptero, a cidade ainda parece interessante, com os edifícios ordenados.
Mas, ao chegar no nível do solo, não há nada que entusiasme. As pessoas são
obrigadas a andar por vários quilômetros e não há espaços de encontro e
convivência. Seria preciso abandonar o método de trabalho de olhar as áreas urbanas
de cima, movendo objetos no espaço, para começar a compreender o que se passa
ao nível dos olhos dos usuários.
O modernismo foi a era dos espaços vazios, dos espaços
onde ninguém gostaria de estar. Foi também um adeus à escala humana no
planejamento das cidades. As pessoas passaram a ser convidadas a circular nos
espaços residuais em torno das edificações. Gehl diz que o funcionalismo nunca
foi amado pelas pessoas e sim pelos planejadores, pelos ditadores e por pessoas
que queriam construir muito e rápido.
Segundo Gehl, por volta dos anos 1960 também ocorreu a
invasão maciça dos veículos motorizados em muitas cidades do mundo. Com a
entrada deles, as pessoas foram expulsas das ruas e confinadas em calçadas.
Elas passaram a andar como se estivessem em estreitas bordas de desfiladeiros,
com as faixas de travessia funcionando como pontes entre essas bordas. Também
chegaram as grandes estruturas para os automóveis, os viadutos e os túneis,
ocupando gigantescos espaços das cidades e consumindo recursos, no que ficou
conhecido como rodoviarismo.
Gehl lembra que o rodoviarismo trouxe também uma
mudança de escala nos espaços urbanos. Antes eles eram pequenos, para a
velocidade humana de 5 km/h. Era possível ver os detalhes, as pessoas nas ruas
e nos edifícios, os anúncios e, à distância, os monumentos, como a igreja, ou
as montanhas. Mas, em todo o mundo, passamos a ter o que se chamou de as
cidades de 60 km/h, a velocidade média dos automóveis. Nas cidades desenhadas
para a escala da velocidade do automóvel os anúncios são gigantescos e a
arquitetura existente é feita para chamar a atenção dos motoristas, algo muito
comum em subúrbios de cidades americanas.
Também o mobiliário urbano das cidades se alterou,
para se adaptar à velocidade. Surgiram, por exemplo, bancos desconfortáveis,
feitos para que as pessoas sentem por apenas alguns minutos. Caixas postais
foram adaptadas para que o motorista atirasse a correspondência para dentro. E
calçadas se tornaram lugares de passagem rápida, sem fachadas ativas, ou seja,
animadas, que captem a atenção dos passantes.
Convencidos de que o ideário funcionalista estava
equivocado, Gehl e seus colaboradores usaram a cidade de Copenhage como
laboratório. Por ser uma cidade de porte médio, que não havia sido muito
modificada pelo rodoviarismo, era mais fácil a comunicação com o poder público.
Os políticos e planejadores urbanos logo se interessaram pelos estudos que vinham
sendo realizados e passaram a aplicar essas ideias. Ainda na década de 1960 surgiram
em Copenhage ruas de pedestres, o que deu início ao grande trabalho de tornar a
cidade mais interessante. Praças foram sendo liberadas da massiva presença dos
automóveis, o uso de bicicletas foi incentivado e foram criadas áreas de
permanência para as pessoas ao ar livre. A cidade se tornou mais atraente.
Influenciado pelas obras “A dimensão oculta”, do
antropólogo Edward T. Hall, e “Espaço Pessoal” do psicólogo Robert Sommer, Jan
Gehl dedicou boa parte do seu último livro aos sentidos dos seres humanos e à
sua relação com os espaços. Analisando a capacidade de visão humana, Gehl
lembra que vemos melhor numa faixa horizontal à frente dos olhos, limitada até pontos
laterais em relação ao nosso corpo, com melhor capacidade de inclinar a cabeça
para baixo do que para cima. A consequência dessas observações para o desenho
urbano é que os arquitetos deveriam prestar muito mais atenção aos pavimentos
térreos das edificações, tornando-os interessantes, do que aos pavimentos
superiores. São os pavimentos térreos o que vemos quando circulamos pelas ruas.
As fachadas desses térreos também deveriam ter mais linhas verticais do que
horizontais, o que geraria uma sensação de caminho mais curto. Também é
necessário mais cuidado com as pavimentações das calçadas e espaços públicos, incluindo
os materiais a serem utilizados, já que é por onde circulamos e prestamos muita
atenção ao piso. Eles devem trazer conforto ao caminhar. Pisos muito
irregulares ou com muitas frestas geram desconforto, especialmente para
mulheres que usam sapatos de salto alto.
A menor acuidade visual à distância dos seres humanos
deveria implicar em algumas alterações no desenho urbano. Uma delas seria a
limitação das alturas dos edifícios, uma vez que, segundo Gehl, a partir do
quinto pavimento já não é possível manter contato com quem está na rua ou tomar
parte da vida da cidade. Outra medida seria projetar espaços públicos que não
sejam exageradamente grandes. As boas praças das cidades antigas não tinham
mais do que cem metros, a distância em que somos capazes de ver outras pessoas.
A praça Tiananmen, em Pequim, tem quinhentos mil metros quadrados, tornando-a
um espaço em que o ser humano se apequena e o Estado se agiganta.
Mas, para Jan Gehl, também as medidas do espaço
interpessoal têm um papel na compreensão dos espaços. Cidades em que há
proximidade entre as casas passam sensação de acolhimento e calor. Ao
contrário, cidades com grandes espaços e grandes edifícios transmitem a
sensação de isolamento do ser humano e de falta de acolhimento. La Défense, em
Paris, seria um exemplo dessa última situação.
Com relação à permanência das pessoas nos espaços públicos,
elas preferem estar nas bordas, geralmente com as costas protegidas por paredes
ou anteparos. Então é interessante prover essas bordas, com degraus ou muretas,
para que elas se sentem. Um banco de praça solto no meio de um espaço vazio não
é nada convidativo. As pessoas gostam de estar em nichos nos edifícios, sejam
portarias de edifícios, seja entre colunas de uma arcada. Elas gostam de ter a
presença de um elemento lateral, como se estivessem junto a um piano num salão
de festas. Pequenas colunas ou objetos verticais no espaço público podem suprir
essa necessidade.
É importante ter atenção também ao clima. Em lugares
frios, as pessoas buscam o sol. Mas em lugares quentes, as pessoas buscam a
sombra. Não adianta colocar um banco num local sem sombra numa cidade quente, ninguém
o usará. Em lugares com muito vento, são necessários anteparos para criar um
microclima agradável.
Jan Gehl também fala sobre bordas suaves, significando
o oferecimento de espaços de transição entre os espaços públicos e os espaços
privados. Jardins em frente às residências, varandas, escadarias junto às
entradas, balcões próximos do nível das calçadas são exemplos de elementos que geram
bordas suaves. Em suas pesquisas Jan Gehl percebeu que boa parte do movimento
no espaço público ocorre nesse intervalo entre as calçadas e o interior das
residências. Moradores chegam ali para ver o movimento das ruas, passantes
conversam com pessoas nas varandas, jovens e idosos passam o tempo nas
escadarias ou em cadeiras em frente aos edifícios. A sua conclusão é que bordas
suaves geram cidades suaves.
Jan Gehl definiu uma lista de cinco atitudes a serem
adotadas no desenho urbano que facilitariam o encontro entre as pessoas. São
elas: ausência de paredes, proximidade, baixa velocidade, estar no mesmo nível e
orientação em direção ao outro. Essa lista é derivada das suas observações
sobre como as pessoas usam os espaços públicos e que situações tornam a
permanência dessas pessoas ali e a interação entre elas mais favorável. Usando
a observação cuidadosa do uso dos espaços públicos, revendo os erros e acertos
do passado e pensando em colocar as pessoas no centro dos projetos, Gehl
construiu um arcabouço de ideias que podem ser muito úteis à requalificação de
nossas cidades.
Artigo publicado em 28 de setembro de 2026 no Diário
do Rio.

Excelente! Texto claro, exposição lógica e ao mesmo tempo sensível, técnico e humano!
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