quarta-feira, 14 de julho de 2021

PRESERVAÇÃO E REQUALIFICAÇÃO DO CENTRO DO RIO NAS DÉCADAS DE 1980 e 1990 (texto produzido em 2002)

 


PRESERVAÇÃO E REQUALIFICAÇÃO DO CENTRO DO RIO

NAS DÉCADAS DE 1980 e 1990

A Construção de um Objetivo Difuso

(texto produzido em 2002)

Decadência do centro do Rio

A expansão da urbanização da cidade do Rio de Janeiro no século XX, em direção às zonas Sul e Norte e, posteriormente, à Zona Oeste, provocou a relativização da posição do seu centro como principal área de serviços. Vários centros de bairro passaram a receber funções antes restritas àquela área. Botafogo, Copacabana, Ipanema, Tijuca, Méier, Madureira e Barra constituíram-se em alternativas de localização para escritórios e grandes empresas, provocando um certo esvaziamento econômico do Centro. Este processo acentuou-se mais tarde, na década de 1980, quando, em função da concorrência representada por aqueles subcentros, e mesmo por outras cidades, várias empresas de grande porte deixaram a área. Portanto, essa é uma dinâmica antiga.

Também devem ser considerados os processos de renovação urbana, já presentes desde o início do século, mas que se intensificaram a partir de meados da década de 1950. A primazia do transporte individual levou à abertura de vias expressas por entre tecidos urbanos antigos, provocando demolições e alterações na forma-função de diversos bairros, e em especial na área central. A perda de população residente se intensificou, chegando a ser proibida a construção de unidades residenciais na área comercial e financeira[1] na década de 1970.

Outro fator, o fim da condição de capital do país em 1960, contribuiu enormemente para a diminuição de poder econômico da cidade, atingindo o Centro, onde grande parte da burocracia federal estava localizada. Um sintoma da percepção de perda de poder do Centro, foi o plano do urbanista grego Doxiadis, nessa mesma década, que, seguindo a tendência geral de espraiamento das cidades e abandono de seus centros históricos, propôs um novo CBD (Central Business District) em Santa Cruz, na Zona Oeste. Seu plano, além de privilegiar o transporte rodoviário e reforçar as práticas de “cirurgia urbana” do início do século, tratou da descentralização de funções urbanas na cidade. Mais tarde, na década de 1970, o plano de Lucio Costa para a Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá retomou essa discussão, propondo a relocação do centro da cidade, através da criação de um novo Centro Metropolitano em Jacarepaguá.

Estimulado, no entanto, pelo crescimento do período conhecido como “milagre econômico”, ainda nas décadas 1960 e 1970, o Centro acompanhou um movimento de intensa verticalização, ocorrido principalmente em alguns daqueles bairros que abrigavam as novas centralidades. Curiosamente, o aparente consenso que então se estabeleceu, sobre a validade de tal verticalização, abrangeu até mesmo os profissionais responsáveis pela preservação de monumentos. Guimaraens cita a dupla origem dos arquitetos e técnicos do IPHAN – modernismo e proteção do patrimônio – como explicação de grande parte de tais decisões.[2] Essa transformação, realizada às custas da demolição de grande parte do acervo arquitetônico do passado, terminou por gerar diversas reações de inconformismo, que contribuíram para a emergência de novos valores urbanísticos na cidade, mais ligados às questões de preservação.

As alterações econômicas do país, como não poderia deixar de ser, continuaram a ditar mudanças ocorridas no centro do Rio de Janeiro. Após 1989, o sistema financeiro ligado à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, teve uma queda acentuada, quando ocorreram fraudes ligadas à ação do especulador Naji Nahas. Desde então, e de forma crescente, os principais investidores transferiram-se para São Paulo consolidando o papel daquela cidade como maior centro financeiro do país. Se em 1994 havia 56 sedes de bancos na cidade, cuja localização se dava majoritariamente no Centro, em 2002 elas totalizam apenas 36, sendo que nenhuma corresponde aos dez maiores bancos do país.[3] No ano de 2000 o pregão da Bolsa do Rio foi transferido para São Paulo, o que representou um duro golpe para a economia da cidade. Vale lembrar que também há perdas da BOVESPA para a Bolsa de Nova York, num movimento de concentração, característico do momento atual da economia. 

Na década de 1980, a crise econômica gerou um enorme contingente de desempregados e dificultou o acesso de jovens ao emprego, os quais passaram a buscar ocupações no mercado informal, especialmente no comércio ambulante. Por outro lado, políticas públicas populistas permitiram um relaxamento da fiscalização sobre essa atividade. Em 1994, seu momento de maior expansão, o comércio ambulante foi encontrado ocupando as principais vias e corredores de comércio do Centro, com o visível aumento de suas barracas, a destruição ou o bloqueio de equipamentos urbanos como bancos e mudas de árvores e a concentração de várias pessoas por barraca.

A adoção de práticas, como a colocação de mercadorias nas calçadas das lojas e o pregão em voz alta, ou com o auxílio de amplificadores, representou uma dura concorrência para o comércio formal. Tal concorrência acabou gerando reações inadequadas por parte do comércio legalmente estabelecido, como o emprego desses mesmos ambulantes pelos chamados empresários do asfalto. Como efeito negativo mais imediato, houve a evasão de impostos, a colocação no mercado de produtos de origem duvidosa e a dificuldade de circulação nas calçadas.

Outra consequência da crise econômica da década de 1980, foi o enorme aumento da pobreza. Diversas famílias perderam suas moradias, indo juntar-se àquelas que já viviam nas ruas, realizando pequenos serviços como a guarda de automóveis ou o recolhimento de materiais recicláveis, um fenômeno forte no Centro. Até mesmo alguns trabalhadores, não dispondo de recursos para realizar a viagem diária de ida e volta para casa, passaram a pernoitar nas ruas do Centro. Também a coesão familiar foi afetada, o que lançou crianças nas ruas. Grande parte das praças do Centro passaram a ser ocupadas pela chamada população de rua, afastando outros frequentadores.

Os investimentos, públicos e privados, no Centro diminuíram e a decadência dos espaços físicos e das edificações passou a refletir tal situação. A falta de manutenção levou à deterioração dos calçadões do centro do Rio, um modelo de desenho urbano que muito havia se expandido naquela área. Sua pavimentação não estava adaptada ao tráfego noturno de caminhões de mercadorias, à passagem de carros que se dirigiam às garagens dos edifícios e dos carros-fortes. Por outro lado, essa destinação exclusiva de ruas a pedestres revelou-se um convite à instalação de mais ambulantes.

A escassez de vagas para automóveis no Centro, comum a qualquer grande metrópole, levou à invasão de calçadas e praças públicas por carros, sempre com o auxílio de um enorme contingente de “flanelinhas”, e com o descaso da autoridade policial. Os constantes vazamentos de esgotos, a escassez de água, a má qualidade da telefonia, a deficiência do sistema de iluminação pública, e a falta se segurança passaram a desqualificar o Centro e a inibir o crescimento dos investimentos privados na área. Assim, o processo de decadência do centro do Rio, num círculo vicioso, revelou-se, ao mesmo tempo, causa e consequência de diversas alterações ali ocorridas na década de 1980.

 

Origens do processo de volta ao centro

Novas formas de tratar as áreas centrais das cidades vinham, no entanto, surgindo. Nas últimas décadas do século XX, a reação à excessiva padronização e ao alto poder de transformação da arquitetura e do urbanismo modernista, a perda de identidade das megacidades, e as deseconomias geradas pelas “decadências” dos centros tradicionais formaram o quadro de fundo para o surgimento das propostas de recuperação dos centros urbanos de diversas cidades do mundo. Coincidindo com as propostas da pós-modernidade, também no Rio de Janeiro, o discurso de fuga do Centro passou por um processo de alteração no fim da década de 1970. Num certo paralelismo com o que já ocorrera no início do século, ressurgiu a opção de retomada do centro tradicional.

Tal opção foi de certa forma facilitada pelo fato do esvaziamento do Centro do Rio, apesar de significativo, ter sido apenas parcial. Villaça afirma que a longa tradição de uso do centro do Rio de Janeiro pela burguesia ajudou “...a manter a vida no centro e a nele reter os empregos de classe média para cima, conservando a vitalidade imobiliária.”[4] Sobre a manutenção das fontes de emprego, também Abreu se manifesta:

...se o crescimento populacional da zona sul após a Segunda Guerra Mundial retirou grande parte das atividades de serviços, comércio de luxo e diversões da área central, ele não foi capaz, entretanto, de descentralizar as principais fontes de emprego da classe média carioca, que continuaram a se localizar no centro... [5]

Como ação efetiva, a “recuperação” do centro da cidade do Rio de Janeiro, seguindo o padrão que ali se impôs, e que aliou Preservação e Requalificação, vem sendo um processo que nasceu com o lançamento do Corredor Cultural na passagem da década de 1970 para a de 1980. Naquele momento (1978-1979), duas perspectivas de tratamento da área central, oriundas de matrizes urbanísticas opostas, disputavam dentro da Secretaria Municipal de Planejamento a posição de política oficial da Prefeitura. Contra a corrente que propunha a preservação das áreas que mantinham características do tecido urbano que se consolidara até o século XIX, se organizava uma outra proposta, desenvolvida por técnicos ligados à COPPE-UFRJ, de renovação urbana radical da mesma área. Tal proposta, baseava-se na necessidade de suprir uma demanda por área construída no Centro, que seria gerada com a construção do metrô, estimada pelo plano de implantação e expansão do metrô (PIT-METRÔ) em torno de 3 milhões de m2.[6]  

Contrários à proposta de renovação urbana radical, os defensores da preservação de áreas do Centro utilizavam argumentos baseados na crise econômica que estaria sendo gerada pela crise do petróleo, e na saída de atividades econômicas do centro do Rio para São Paulo, ou para outros subcentros da cidade. Acreditavam que a demanda levantada pelo outro grupo não se concretizaria. Uma segunda linha de argumentação era a importância dos laços afetivos já estabelecidos pelos ocupantes das áreas de arquitetura antiga do Centro.[7]

Em 1980, o Prefeito Israel Klabin (1979-1980) tomou a decisão política de prestigiar a proposta de preservação de partes do Centro, o que resultou na concretização do Corredor Cultural[8]. Como estratégia de fortalecimento da posição preservacionista, foi criada a Câmara Técnica do Corredor Cultural, composta por intelectuais, como Nélida Piñon, Rubem Fonseca, Sérgio Cabral e outros[9]. A imprensa, respondendo a um mal-estar geral com a destruição do Patrimônio carioca, logo encampou a ideia do projeto, contribuindo para a sua popularização.

O projeto Corredor Cultural preservou três grandes conjuntos de sobrados no centro do Rio de Janeiro - Praça XV, Lapa, e imediações da SAARA[10] e do Largo de São Francisco -, totalizando cerca de 1600 imóveis, em sua maioria remanescentes do século XIX e do início do século XX. Em sua formulação, o projeto já tratava de questões abrangentes, como a necessidade de contenção de processos de especialização econômica e banimento de funções do centro do Rio, com a consequente perda de vitalidade econômica e cultural. Referia-se também à necessidade de desenvolver uma das diretrizes do Plano Urbanístico Básico - PUB-RIO, de 1977, aquela que recomendava a Revitalização do Centro.

Como um “mantra”, a ideia de revitalizar o Centro passou a frequentar o noticiário carioca nas duas últimas décadas do século XX. É à Revitalização do centro do Rio de Janeiro que políticos e formadores de opinião referem-se quando querem valorizar o processo de recuperação da área ou defender novas medidas. Matérias jornalísticas sobre o assunto ganham sempre algum destaque, refletindo e reforçando a aceitação da proposta na sociedade carioca. Nos períodos em que as intervenções urbanísticas foram mais intensas, como nos anos de 1995/96, não faltaram espaços na imprensa para a cobertura dos melhoramentos em curso. Muitas vezes, a ideia de Revitalização é também confundida com o próprio projeto Corredor Cultural. Tal expressão passou mesmo a significar, de forma mais ampla, qualquer tentativa de recuperação de área com conteúdo histórico em outros bairros do Rio de Janeiro ou mesmo de outras cidades do país.  

No caso carioca, no entanto, nos parece que o uso generalizado da expressão Revitalização é fruto da consolidação da expressão na opinião pública e do pouco desenvolvimento dessa discussão. Ao contrário do geralmente estabelecido, acreditamos ser possível reconhecer elementos que caracterizariam um processo de Requalificação do centro do Rio de Janeiro, presente principalmente a partir da década de 1990, que veio servir a processos de “city marketing” e de competitividade entre as cidades, característicos da globalização.

O conceito de Revitalização Urbana, quando utilizado para áreas centrais, refere-se muitas vezes a áreas periféricas aos centros, onde os processos de reestruturação econômica das últimas décadas produziram estruturas industriais ociosas e áreas de residência proletária empobrecidas. O uso generalizado do conceito de Revitalização para o centro do Rio pode ser questionado, na medida em que tal conceito pressupõe uma perda ou ausência de vitalidade das áreas afetadas. Mas aqui, trata-se de uma área que engloba o centro histórico, o centro comercial e financeiro (ACN ou CBD), e apenas uma parte do que é considerado como Zona Periférica do Centro. No caso do centro do Rio de Janeiro, onde ocorreu um processo de decadência física e econômica, mas com a manutenção de uma vitalidade relativa, são necessárias adaptações conceituais, que permitam uma melhor compreensão do processo.

O conceito de Requalificação abrange ações de reimplantação de antigas funções, como habitação, comércio, serviços e cultura, conforme apresentado no conceito de “Reanimação”, constante do dicionário organizado por Merlin e Choay[11]. Abrange, ainda, a reutilização do Patrimônio existente, o incremento do turismo e do lazer e a preocupação com as possibilidades de otimização dos espaços, conforme apresentado no conceito de “Revitalização” de Vicente Del Rio e José Geraldo Simões Júnior[12]. O conceito de Requalificação, no entanto, está menos ligado à ideia de perda anterior de vitalidade e traz mais clara a proposta de acréscimo de atividades geradoras de ganhos econômicos e de melhoria da qualidade dos espaços públicos e privados. Ele pode ser melhor aplicado em situações onde se trata de alteração das características físicas e da composição social e econômica de áreas ainda ocupadas. Envolvendo processos de elitização (gentrification), a Requalificação está principalmente voltada para o estabelecimento de novos padrões de organização e utilização dos espaços, com vistas a um melhor desempenho econômico.

No Rio de Janeiro, percebe-se que, ao longo do tempo, foi se consolidando um objetivo difuso de recuperação do seu centro, que aliava a preservação de seu Patrimônio à Requalificação dos espaços urbanos, e que se impôs através da administração dos conflitos e da sua capacidade de angariar apoios políticos, sobrevivendo a várias administrações. Foram sendo constituídos, ainda, objetivos estratégicos e até mesmo um programa de ação, não claramente estabelecido em documentos. Tal programa, apesar de refletir o predomínio de uma visão estético-funcional ligada a padrões das classes de mais alta renda, é mesclado de compromissos com formas de apropriação espacial mais populares, e adaptações provenientes da realidade social brasileira e da precariedade da infraestrutura da cidade.

Apesar de haver várias referências em documentos oficiais quanto à necessidade de revitalizar o Centro, não há propriamente a elaboração de um programa nesse sentido. O Plano de Governo 1986-1989, é o que mais se aproxima da elaboração desse programa, não sendo, no entanto, suficientemente desenvolvido e não tendo sido completamente seguido. A “Lei do Centro”, de 1994, e o “Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro” (cujo documento final foi homologado em 11 de setembro de 1995), que também se referem à revitalização do centro do Rio de Janeiro, são posteriores ao início do processo, funcionando, assim, como validadores do mesmo.

Por não ter sido claramente estabelecido, tal objetivo difuso pode ser definido como uma “estratégia implícita”[13], a qual refere-se a situações em que, seja por impossibilidade de acordo político, seja por falta de maior articulação entre as partes envolvidas, não se concretiza a formulação de um programa de ação, embora o mesmo seja aplicado na prática.[14] A existência de tal processo é percebida como uma confluência de interesses, quase como se uma força invisível fizesse coincidir ações de agentes diversos que se somam num objetivo comum. O conceito de estratégia implícita pode ser aplicado, também, a processos que tiveram curso em outras cidades do mundo como os grandes projetos promovidos por Mitterrand em Paris.

Percebe-se, também, que há um longo tempo de maturação de propostas, as quais somente se materializam depois de firmarem-se como amplamente aceitas. Projetos ligados à preservação dos imóveis de valor cultural do Centro e à revitalização econômica da área, assim como a recuperação da Praça XV, vêm sendo discutidos desde a década de 1970. No entanto, só foram executados no decorrer das duas décadas seguintes.

Avaliando as transformações do Centro, e em especial da Praça XV, Augusto Ivan, Subprefeito do Centro (1993-2000), afirma que “A recuperação da região foi exemplar. Não foi nada orquestrado, organizado. Foi acontecendo aos poucos.”[15] É este “acontecendo aos poucos” que caracteriza o caso da Revitalização/Requalificação do Centro do Rio, em contraste, por exemplo com as ações drásticas empreendidas na área do Pelourinho em Salvador, que provocaram uma certa artificialidade e cenarização da mesma. A aceitação da “estratégia implícita” de Requalificação do centro do Rio de Janeiro, criou uma convergência de ações públicas e privadas que, num processo gradual e aberto a novas propostas, portanto inconcluso por natureza, vem há duas décadas promovendo alterações naquela área.

Sobre a participação dos governos estadual e federal no programa, é interessante notar que os mesmos passaram a realizar ações no centro do Rio, seja através da preservação de monumentos, seja através da recuperação de espaços culturais, que caminham na mesma direção das ações municipais. Aos esforços municipais, vieram se juntar, ainda, diversas outras iniciativas privadas.

É possível se perceber a existência de três noções balizando a discussão e as justificativas para o reinvestimento no Centro, as quais vêm fornecendo as bases para as ações públicas e privadas naquela área: o esvaziamento econômico, a valorização da cultura e a questão do afrouxamento do controle social. O esvaziamento econômico do centro carioca, como já visto, foi um processo que veio se desenvolvendo ao longo de um período extenso e que levou à saída de empresas, de escritórios, e de unidades do pequeno comércio, provocando a perda de recursos e uma imagem de decadência.

A valorização cultural está ligada a uma tendência mundial de utilização da cultura como dinamizadora de projetos de recuperação urbana, entronizando-a como valor acima das lutas sociais. A cultura vem passando por um processo que a transforma em objeto de consumo de mais e mais pessoas, do qual as megaexposições itinerantes de artes plásticas são ótimos exemplos. Diversos projetos de intervenção urbana têm incluído espaços para a cultura que, muitas vezes, têm a função de vencer resistências e angariar apoios. Também, a implantação de grandes instituições culturais tem sido usada como propulsão de processos de requalificação de áreas degradadas em todo o mundo. Se esse processo, que envolve somas astronômicas, tem conseguido aumentar o número de pessoas que passam a ter contato com a produção cultural, por outro lado produz o risco de manipulação desta produção, retirando-lhe independência e dando-lhe valores de consumo.

Outro aspecto interessante do atual movimento cultural, em sua busca por novos ícones, é a sua capacidade de reciclagem, incluindo, naquilo que é reconhecido como cultura novos aspectos das manifestações populares, elementos da vida cotidiana, ou espaços decadentes das cidades. Sharon Zukin afirma que artistas e intelectuais contemporâneos estabelecem “a perspectiva adequada para se ver a paisagem urbana histórica.”[16] Tal “adequação” está ligada à inclusão de aspectos da realidade, desapercebidos pela população em geral, no rol dos objetos a terem seus significados reciclados e, portanto, capazes de ganhar novos valores mercadológicos. Os espaços urbanos em decadência, com seus novos valores simbólicos passam, em consequência, por uma enorme valorização imobiliária.

De forma análoga, o processo de requalificação do centro do Rio de Janeiro tem início com uma mudança de percepção sobre as suas áreas de urbanização mais antiga, o que leva à sua preservação no início da década de 1980. A partir de então, diversos equipamentos culturais de grande porte passaram a ser implantados ali nas duas últimas décadas. Iniciando-se com a abertura do Paço Imperial (1985), este processo teve sequência com a abertura do Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB (1989), da Casa França-Brasil (1990), do Espaço Cultural dos Correios (1993), do Centro Cultural Light (1994), do Centro de Artes Hélio Oiticica (1996), do Espaço Cultural da Marinha (1998), da reforma e revalorização do Cine Odeon (2000), e do Centro Cultural Justiça Federal (2001), na Cinelândia. Além desses, ganharam novo impulso o MNBA, o Museu Histórico Nacional e a Fundição Progresso, e foram abertos outros espaços culturais de menor porte, como o da Academia Brasileira de Letras, o da Faculdade Cândido Mendes, o do Banco Nacional de Desenvolvimento Social – BNDES, o Centro de Eventos Empresariais Bolsa do Rio e o da Caixa Econômica Federal.

Já a questão do afrouxamento do controle social está ligada à noção de que um excesso de transgressões na área central contribuía para um processo de anomia, de perda de autoridade e controle sobre o espaço, prejudicando a economia da mesma.[17] A grande quantidade de pequenos furtos realizados em ruas do Centro levou, por exemplo, o ex-Prefeito Marcelo Alencar (1989-1992) a denominar o Largo da Carioca como o “Vietnã Carioca”. As coberturas jornalísticas sobre o aumento do número de ambulantes em ruas do Centro, e as constantes reclamações dos comerciantes, alguns ameaçando fechar suas portas, criaram as condições políticas para uma intervenção mais drástica.

A Prefeitura vem tendo a liderança do processo de transformações no centro do Rio de Janeiro, no qual é possível se encontrar dois momentos distintos. O primeiro, se utiliza prioritariamente de instrumentos de zoneamento, como a Lei do Corredor Cultural, que protegeu conjuntos de imóveis de valor cultural, associados a intervenções urbanísticas localizadas, da "segunda geração de projetos urbanos", como as ocorridas na Lapa ou na Rua Uruguaiana, já na administração Marcelo Alencar (1989-1992). É interessante notar que naquele momento, as ações mais visíveis estavam circunscritas às áreas protegidas, alcançando uma escala limitada, ou seja os imóveis e alguns espaços urbanos em que estes estão situados.

Seguindo-se à criação do Corredor Cultural, outros conjuntos urbanos antigos foram também protegidos. Atendendo a uma demanda dos comerciantes da Rua da Carioca, que se sentiam ameaçados de perder suas lojas em função de planos de renovação urbana e processos de reedificação, o Estado do Rio de Janeiro, através do INEPAC – Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, tombou os sobrados daquela rua em 30 de junho de 1983. Foram criadas, ainda, as áreas municipais de preservação ambiental da Saúde, Santo Cristo e Gamboa (Dec. N. 7 351, de 14 de janeiro de 1988), da Cruz Vermelha (Dec. N. 11 883, de 30 de dezembro de 1992), e, posteriormente, da Rua Teófilo Otoni (Dec. N. 16 419, de 23 de dezembro de 1997).

Uma segunda etapa do processo de requalificação do centro do Rio de Janeiro pode ser observada no início na década de 1990, quando a Prefeitura passou a exercer uma forte liderança e as intervenções físicas e de controle sobre o espaço urbano passaram a ter maior proeminência. Associada ao modelo descrito como “a terceira geração dos projetos urbanos”, tal etapa do processo de requalificação do Centro se caracteriza pela ampliação de proposições do projeto Corredor Cultural e pela criação da Subprefeitura do Centro.

Nesse momento, as ações foram marcadas pela busca de parcerias, pela otimização das oportunidades, por intervenções mais disseminadas no espaço público e pela coerção de atividades irregulares, conhecida como “ordem urbana”. No entanto, mesmo que aquelas intervenções estivessem mais ligadas a uma visão de planejamento que acredita na superação do planejamento urbano convencional, dos planos e leis de zoneamento, substituindo-o pelo “planejamento estratégico”, ainda ocorreu uma importante intervenção no zoneamento da área, a chamada “Lei do Centro”. Esta lei, de 14.10.1994, entre outras medidas, passou a considerar adequado o uso habitacional no centro do Rio de Janeiro.

 

O Centro do Rio na fase dos Projetos Urbanos de Terceira Geração

As origens da fase atual do processo de Requalificação do centro do Rio de Janeiro precisam ser buscadas em diversas mudanças em relação ao enfoque gerencial da cidade, ocorridas no início dos anos 1990. Após a falência da Prefeitura do Rio, declarada no fim da administração Saturnino Braga (1985-1988), teve início um forte movimento de valorização da cidade consubstanciado em manifestações públicas de apreço à mesma, promovidas por organizações não governamentais.

A escolha do Rio de Janeiro, na administração Marcelo Alencar (1989-1992), para sediar a ECO-92[18], um bom exemplo de aproveitamento de oportunidades, característico do urbanismo de “terceira geração”, teve o efeito de injetar recursos públicos federais na cidade, que foram utilizados em obras de melhoria de sua infraestrutura urbana, como a Linha Vermelha. Ainda nessa administração, projetos de valorização do espaço público através de intervenções em pontos de grande visibilidade, como o “Rio-Orla” e as reformas do Largo da Lapa, da Av. Chile e da Rua Uruguaiana lançaram as bases para projetos posteriores como o “Rio-Cidade”.

As administrações Cesar Maia (1993-1996) e Conde (1997-2000) se propuseram a realçar essa ênfase no espaço público, através da descentralização administrativa, que permitiria ações mais disseminadas pela cidade; da intervenção física, que levaria a uma nova sinalização sobre o “status” do espaço público, especialmente através dos projetos “Rio-Cidade” e “Favela-Bairro”; e do controle de atividades nesses espaços. Esse novo enfoque foi o pano de fundo para o desenvolvimento das ações de Requalificação do centro do Rio de Janeiro, que ganharam, a partir de então, um novo patamar. Como já dito, tais projetos estavam, também, a serviço dos processos de “city marketing” aplicados à cidade. A escolha de nomes alusivos a conceitos positivos e de fácil utilização por campanhas publicitárias ajudou a criar imagens positivas da cidade, grandemente calcadas na intervenção urbanística.[19]

Na primeira gestão do prefeito Cesar Maia, foram criadas as Subprefeituras. Seguindo a divisão em Áreas de Planejamento - APs proposta pelo PUB-RIO, as Subprefeituras (na verdade, nomes-fantasia para as Coordenações das Aps) representaram uma maior descentralização administrativa[20]. Cada secretaria e órgão municipal passou a ter um representante por AP, que devia se relacionar com o Subprefeito da mesma. Para dirigir a Subprefeitura do Centro, que abrange a AP-1 (Centro, Área Portuária, Santa Teresa, São Cristóvão, Rio Comprido e Paquetá), foi indicado, desde a sua criação em 1993 até o ano 2000, o arquiteto Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, primeiro diretor do Escritório Técnico do Corredor Cultural (1979-1992), o que gerou uma continuidade de propósitos em relação àquele projeto e a expansão de suas intenções iniciais para a escala maior do espaço urbano. Essa continuidade foi, em grande medida, responsável pela definição de um programa de trabalho, e pelo reforço da diretriz requalificadora dos espaços públicos na formulação das políticas municipais para o centro do Rio de Janeiro, na década de 1990.

Foi elaborado, ainda, o Plano Estratégico para a Cidade do Rio de Janeiro, com consultoria de técnicos catalães[21], o qual propôs a revitalização do Centro, “cujo papel é de articular e de ser foco de atração da Cidade”[22] e o reforço da condição da cidade como polo cultural, através do desenvolvimento de um trabalho de “marketing”, tendo como objetivo o “Centro do Rio como mercado cultural”[23].

A conjugação de iniciativas, como a criação da Subprefeitura do Centro, o controle do comércio ambulante, as diversas intervenções urbanísticas nessa área, e o estabelecimento de parcerias entre o setor público e privado caracterizam, assim, o desenvolvimento nos anos 1990 do processo iniciado na década anterior com a criação do Corredor Cultural. Num certo paralelismo com a discussão sobre a imagem do Rio de Janeiro no início do século XX, que se deu no espaço físico do Centro, houve nos anos 1990 uma busca por um Centro com renovado poder simbólico, que se inserisse no processo de construção de uma maior competitividade econômica para a Cidade do Rio de Janeiro. O arquiteto Augusto Ivan afirma que:

...é preciso pensar o Centro estrategicamente, como gerador de economia para a cidade. Além de assegurar memória e identidade, o Centro precisa contar com investimentos em atividades da economia contemporânea.[24]

Duas vertentes, bastante interdependentes, podem ser encontradas nesta fase do processo de revitalização do centro do Rio de Janeiro. Uma, caracterizada por intervenções físicas, com um programa que envolveu melhorias urbanas, criação de condições de maior controle do espaço público, valorização de monumentos e recuperação de áreas degradadas. Segundo Augusto Ivan, cerca de US$ 100 milhões em investimentos municipais foram aplicados no Centro (II R.A.) no período entre os anos 1994 e 2000, alterando para cima a sua posição no quadro de distribuição de investimentos pelas áreas da cidade.

Outra vertente, se caracteriza pelas ações de cunho administrativo, como a criação de parcerias e a implementação de programas de controle social, popularizados no Rio de Janeiro pelo Prefeito Cesar Maia, como “ordem urbana”. A existência dessas duas vertentes é corroborada por Augusto Ivan, que, referindo-se ao processo de revitalização como a “arrumação da casa” o vê dividido em duas partes: a execução de obras como a recuperação de logradouros, embelezamento, iluminação, etc., e a “gerência do espaço público”, em que as prioridades são questões relacionadas à sensação de segurança e à diminuição da sensação de caos e desorganização.[25]

A diretriz, adotada pelo Prefeito Cesar Maia, de aliar as intervenções físicas na cidade ao controle urbano, foi também inspirada na atuação do Prefeito Rudolph Giuliani, de Nova Iorque, que a viu como uma forma de controlar a criminalidade naquela cidade. Em 1995, Cesar Maia chegou a sugerir a seus colaboradores a leitura das estratégias do prefeito nova-iorquino, de valorização do espaço público.[26]

 

Programa de Requalificação do Centro do Rio

Ao se analisar, retrospectivamente, as intervenções realizadas no Centro, é possível encontrar a recorrência de algumas ações e soluções urbanísticas adotadas, que poderiam ser vistas como constituintes de um programa. O eixo de tais intervenções pode ser consubstanciado na valorização dos espaços públicos, de forma a melhorar a circulação dos pedestres, e dar aos mesmos mais possibilidades de fruição desses espaços. Segundo Augusto Ivan[27], a valorização das possibilidades de circulação dos pedestres foi considerada como a “linha de trabalho mais importante de todo o processo”, provocada pela constatação de que o grande número de pessoas circulando a cada dia no Centro, em torno de 2 milhões, exigia uma prioridade para a sua circulação a pé.[28]

A adoção de ações visando valorizar o espaço dos pedestres e a noção de “ordem urbana” criaram um novo paradigma de intervenção urbanística no centro do Rio de Janeiro. Um exemplo dessa alteração é a radical mudança de propostas para a Rua do Lavradio. Em 1992, aquela rua contava com um recém construído terminal para nove linhas de ônibus. Havia a previsão de complementação do terminal com a abertura da parte não implantada do Projeto de Alinhamento (PA) da Rua Silva Jardim. Ali seria, então, construída a extensão do terminal de ônibus, com capacidade para mais 20 linhas. Naquele mesmo ano, um estudo da Secretaria Municipal de Fazenda, que buscava assentar os ambulantes espalhados pelas ruas do Centro, destinou 138 barracas de ambulantes para a Rua do Lavradio. No entanto, numa mudança de perspectiva, o projeto de recuperação daquela rua, cuja obra iniciou-se em 1999, retirou as linhas de ônibus ali anteriormente existentes, destinou as áreas remanescentes para a implantação de três pequenas praças e não previu qualquer espaço para os ambulantes. 

Outro exemplo dessa reversão é a Rua do Carmo, no trecho entre as ruas do Rosário e Ouvidor, que em 1992 era um calçadão tomado por catadores de papel à noite, e com previsão de receber um assentamento oficial de 13 barracas[29]. Esse trecho de rua não só não recebeu o assentamento de ambulantes, como foi gradeado e transformado numa pequena praça, numa parceria entre a Prefeitura e a Seguradora Nova América. Tal parceria, se por um lado gerou uma área recuperada, contribuindo para a permanência da empresa no Centro, por outro, gerou uma certa privatização daquele espaço público, uma vez que a segurança era privada e a sua abertura passou a ser em horários limitados.[30]

A habitação popular também foi contemplada na requalificação do Centro, ainda que de forma tímida, com o programa da Secretaria Municipal de Habitação - SMH de recuperação de cortiços e de adaptação de imóveis para a atividade residencial. Tal programa, se for realizado em maior escala, poderá ser uma importante sinalização em direção à ocupação de espaços daquela área com habitação[31].


Repercussões do processo de Requalificação do Centro do Rio de Janeiro

Diversamente do que vinha se registrando até então, nos últimos seis anos da década de 1990 houve uma reversão no nível de investimentos públicos municipais no Centro. Estes, no entanto, estiveram mais concentrados nas áreas comerciais (setores Quadrilátero Financeiro, Saara/Tiradentes/Uruguaiana, Cinelândia e Praça XV[32]). Já as áreas onde há a permanência da função residencial, como os setores Cruz Vermelha e Adjacências da Rua de Santana foram os menos privilegiados com novos investimentos públicos. Tal constatação revela uma forte contradição, uma vez que o discurso e mesmo as ações governamentais no sentido de recuperar a função habitacional no Centro, faziam prever maiores investimentos nas áreas onde tal função resistia.

Em termos de investimentos em equipamentos culturais, o setor Praça XV foi o setor mais privilegiado. Tais investimentos em equipamentos culturais não foram, no entanto, municipais, seguindo antes a “estratégia implícita”, que conformou aquele setor como destinado a grandes equipamentos culturais, e que gerou ações coordenadas de diversos outros agentes nesse sentido.

Como resultado dos investimentos realizados e de uma nova percepção sobre a área, é possível notar um desenvolvimento bastante significativo das atividades econômicas no centro do Rio de Janeiro. Desde o lançamento do edifício RB1 (Rio Branco n.º 1), marco da arquitetura pós-moderna e “inteligente” na cidade, com espaços mais amplos para as novas empresas e automatização das funções de controle de energia, segurança e comunicações, outros lançamentos imobiliários seguiram essa linha, tais como o Manhattan Tower na Av. Rio Branco e o Rio Metropolitan, na Av. Chile 500. Foi aberta, também, a possibilidade de intervenções de recuperação de prédios antigos (retrofit) como a que foi realizada no Edifício Amarelinho, ou no Candelária Corporate, na Praça Pio X.

A requalificação do Centro despertou a atenção de várias instituições universitárias, que vieram juntar-se àquelas que lá já existiam. O IBPINet – Instituto Brasileiro de Pesquisa em Informática, instalou-se na Rua do Mercado e, na segunda metade da década de 1990, as universidades Gama Filho, Estácio de Sá e Castelo Branco instalaram unidades no Centro. Em 2001, os cursos de pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas vieram para a área da Praça XV. Em 2002, a Faculdade de Direito Evandro Lins e Silva instalou-se na Rua da Quitanda, e a PUC trouxe para o Castelo alguns cursos de pós-graduação.

Outro reflexo das transformações em curso no Centro, e das mudanças em sua imagem, foi a volta de estabelecimentos de consumo mais sofisticado, como lojas de roupas e de calçados de qualidade, livrarias e bons restaurantes. Segundo o Presidente do Sindicato de Bares, Hotéis e Restaurantes, Sr. Artur Fraga, já nos primeiros anos da década de 1990, teria havido um intenso surgimento de bares e restaurantes no Centro.[33] Pesquisa da Federação de Comércio do Estado do Rio de Janeiro – Fecomércio apontou o Centro como o terceiro bairro na preferência dos consumidores para as compras do Dia dos Namorados em 1999. O Centro foi escolhido por 15% dos entrevistados, enquanto a Barra e Botafogo ficaram com a preferência de 20% cada[34].

O processo de requalificação do centro do Rio de Janeiro pode ser visto, dentre outras formas, como um processo de reafirmação do domínio do espaço do Centro pelas camadas de mais alta renda, numa disputa de projetos simbólicos e econômicos para aquele mesmo espaço. Tal disputa, já ocorrida no início do século com a Reforma Passos, envolve, necessariamente, processos de elitização. Assim, algumas áreas, anteriormente degradadas e ocupadas por atividades ligadas a classes sociais de menor renda, como comércio ambulante, catação de papel, pequenos bares, etc., foram valorizadas, passando a receber atividades comerciais mais sofisticadas. Exemplo disso é a Praça XV, onde até 1991 funcionou o mercado de peixes, com seu imenso contingente de caminhoneiros, vendedores, compradores de peixes e ambulantes. Ali, ocorreu um drástico processo de elitização, baseado no recurso à Cultura, e iniciado com a abertura do centro cultural no Paço Imperial em 1985.

No entanto, não houve no caso carioca uma expulsão completa das atividades que contribuíam para a definição do estado de “desordem urbana” no Centro. Entre uma possível intenção de expulsar certos grupos, e a capacidade de implementar tal iniciativa, houve uma intermediação ditada, seja pela reação oferecida pelos mesmos, seja por falta de condições operacionais do Poder Público. A interdição dos eixos principais ao comércio ambulante, por exemplo, foi acompanhada de um enorme esforço para enquadrar tais atividades dentro de padrões de convivência com o comércio legalmente estabelecido. Grande parte dos ambulantes, depois de forte resistência, foi organizada em mercados populares, assumindo, com o tempo, eles mesmos a tarefa de se autorregular.

Com relação aos catadores de papel, mesmo não tendo sido completamente bem sucedida, a Prefeitura realizou diversas tentativas de organizá-los em cooperativas, com locais próprios, uniformes, etc. A assim chamada “população de rua”, fenômeno crescente e cuja solução dependeria de alterações drásticas no atual modelo econômico brasileiro, juntamente com os ambulantes não assentados, que continuaram a fugir da fiscalização, permanecem como situações para as quais o processo de Requalificação do Centro não encontrou soluções.

Desta forma, mesmo constatando que, durante a última década, houve por parte das classes de renda mais baixa uma perda de espaço físico e simbólico no centro do Rio de Janeiro, parece-nos um pouco apressado alinhar, de forma automática, as intervenções urbanas naquela área com os processos clássicos de elitização ocorridos em outros países.

A ampla aceitação do processo de requalificação do Centro e as conquistas por ele alcançadas deram impulso a várias outras iniciativas de requalificação de espaços degradados na Zona Periférica do Centro. Ao contrário daquele processo, tais iniciativas, quando propostas, já têm surgido com um programa de ação mais claramente definido, ou seja, com estratégias explícitas, o que poderá impedir uma maior facilidade de adaptações ao longo de sua execução. Assim ocorreu com a proposta de recuperação da Praça Tiradentes, incluída no Projeto Monumenta, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID. Situação semelhante é a da Cidade Nova, para a qual foi concebido o projeto do Teleporto, uma proposta de criação de área com disponibilidade de terrenos infra estruturados, garagens subterrâneas e serviços de telemática de última geração.

À proposta de reabilitação da Cidade Nova, juntou-se o Projeto Sás, que previu a recuperação do corredor viário formado pelas ruas Estácio de Sá, Salvador de Sá e Mem de Sá, situado no espaço que liga o Centro à Tijuca. Estava prevista a recuperação de parte do casario local, a duplicação de algumas ruas, a abertura de outras, a criação de área de lazer e a melhoria da infraestrutura geral da área. Tal projeto contou com consultoria do arquiteto português Nuno Portas.

Também a Área Portuária vem sendo novamente olhada com grande interesse. A perspectiva de implantação de um Museu Guggenheim no Pier Mauá ativou a bolsa de propostas para a área. Mas não deve ser esquecido que diversos outros projetos-âncora também já foram pensados como a sua redenção, sem terem se concretizado.[35] Diferenciando-se de propostas anteriores, que sempre primaram pela excessiva intervenção, a proposta atual alinha uma série de projetos pré-existentes, alguns dos quais já vinham tendo sua execução planejada. Tal proposta reúne elementos que levam em conta aspectos ecológicos, como uma ciclovia e uma linha de VLT (veículo leve sobre trilhos), projetos habitacionais, projetos de intervenção urbana nas ruas do bairro, e projetos de cunho turístico-cultural, como a “cidade do samba” e a transformação do Armazém 5 do Cais do Porto em centro cultural. Os recursos para os projetos são municipais, federais e, principalmente, privados. A Companhia Docas, grande proprietária de imóveis na Área Portuária, acordou para o potencial representado por tal estoque de terrenos e edificações, se aliando à Prefeitura no planejamento das intervenções. Se os projetos para a Cidade Nova buscam torná-la um polo de alta tecnologia, os projetos da Prefeitura para a Área Portuária parecem querer torná-la um espaço dedicado à cultura e ao lazer. O uso habitacional tem sido mencionado nos projetos para as duas áreas.

No Morro da Conceição, também situado nas imediações da Área Portuária, é onde mais avançaram as perspectivas de uma requalificação programada na Zona Periférica do Centro. Ali, seguindo projeto realizado em convênio com o governo francês, a Prefeitura vem realizando obras de recuperação dos caminhos, escadarias e recantos. O projeto envolve, ainda, a possibilidade de investimentos municipais na recuperação de alguns imóveis públicos e de financiamentos aos proprietários para a recuperação dos imóveis particulares. Também a área da Lapa vem passando por modificações significativas, com a abertura de novas casas noturnas e boas perspectivas de desenvolvimento do projeto denominado Distrito Cultural da Lapa, do Governo Estadual.

A implementação do processo de requalificação aqui estudado provocou a paralisação da discussão sobre a necessidade do deslocamento do centro da cidade para um novo ponto geográfico dentro da metrópole. Assim, se conseguiu impedir a perda da primazia do Centro em relação a outros subcentros da cidade, mantendo-o com a dupla função de centro tradicional e centro principal.

Em que pese estarem outras cidades brasileiras inseridas num processo sistêmico que leva à adoção de programas semelhantes, as intervenções ocorridas no centro do Rio de Janeiro vêm tornando-se um caso exemplar, servindo de referencial para algumas dessas outras cidades. Por se tratar de um processo, a Requalificação do centro do Rio de Janeiro é naturalmente inconclusa, podendo passar por acelerações e desacelerações, em função de uma maior ou menor compreensão dos problemas existentes, dos métodos adotados e dos investimentos previstos. Dessa forma, podem também ocorrer períodos de retrocesso.

A segunda administração Cesar Maia, iniciada em 2001, ao não reconduzir a equipe técnica que era responsável pela Subprefeitura do Centro e pela II Administração Regional, colocou um imenso desafio para o processo de requalificação da área. Houve uma certa perda de impulso na ênfase, anteriormente existente, nas intervenções físicas nos espaços públicos. Também o cuidado com a conservação dos logradouros e o chamado “controle urbano” vêm sendo menos intensos. Já se observa uma maior deterioração dos espaços públicos, inclusive daqueles recentemente recuperados, em função de uma menor atenção com a sua manutenção.

No futuro, a força das ideias e do programa que vinha sendo implantado estará sendo testada. No entanto, as reações da imprensa e de setores da sociedade[36], exigindo maiores cuidados com o espaço público e com o controle das atividades aí exercidas, assim como a continuidade de investimentos por parte da iniciativa privada, e a continuidade de efeitos positivos advindos dos esforços já realizados, aparentemente, vêm demonstrando que a diretriz de requalificação da área está bastante consolidada e deverá permanecer.

 

 BIBLIOGRAFIA

ABREU, Maurício de Almeida. Evolução Urbana do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: IPLANRIO, 1997.

DAHRENDORF, Ralf. Lei e Ordem, Editorial Civitas, 1994.

DEL RIO, Vicente. “O Modelo da Revitalização Urbana e o Caso de Baltimore”. In: Cadernos do Patrimônio Cultural, nº 4/5 , Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, DGPC, 1994.

GUIMARAENS, Maria Conceição Alves. Paradoxos Entrelaçados: As Torres para o Futuro e a Tradição Nacional (a arquitetura do Patrimônio no Centro do Rio, Tese de Doutoramento, IPPUR-UFRJ, 1999.

MAGALHÃES, Roberto Anderson M. A Requalificação do Centro do Rio de Janeiro na Década de 1990, Dissertação de Mestrado, PROURB-UFRJ, 2001.

MERLIN, Pierre e CHOAY, Françoise. Dictionnaire de L’Urbanisme et de L’Aménagement, Paris, Presses Universitaires de France, 1988.

PLANO ESTRATÉGICO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Relatório Final do Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro, Rio Sempre Rio, Rio. 1995.

SANTOS, Márcia de Noronha. O Papel dos Equipamentos Culturais nas Transformações Recentes do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Monografia, FAU/UFRJ. 1993.

SIMÕES JR., José Geraldo. Revitalização de Centros Urbanos, São Paulo, Publicações Polis, 1994.

VILLAÇA, Flávio. Espaço Intra-urbano no Brasil, São Paulo, Studio Nobel, 1998.

ZUKIN, Sharon. “Paisagens Urbanas Pós-Modernas: Mapeando Cultura e Poder”. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 24, Rio de Janeiro, 1990.



[1] Decreto 322 de 03/03/1976.

[2] Guimaraens, 1999.

[3] Jornal O GLOBO de 21/05/2000

[4] F. Villaça, op. cit., p. 291

[5] M. Abreu, 1997, p. 130

[6] Há informações de que tal proposta era conhecida, de forma um pouco jocosa, como “demandópolis”.

[7] O estudo visando a preservação de áreas no centro do Rio, que mais tarde deu origem ao Corredor Cultural, foi encomendado pelo arquiteto Armando Mendes, então Superintendente da Secretaria Municipal de Planejamento, e contou com a participação de Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, Alice Reis, Maria Lúcia Neves e Rachel Jardim.

[8] Decreto 2556/80 criou a Comissão Especial de Implantação do Corredor Cultural.

[9] Resolução 195 do Secretário Municipal de Planejamento em 28/09/79.

[10] Sociedade de Amigos da Rua da Alfândega e Adjacências, área de comércio popular no Centro do Rio.

[11] Pierre Merlin e Françoise Choay, 1988.

[12] Vicente Del Rio, 1994 e José G. Simões Jr., 1994.

[13] Conceito emitido por Nuno Portas em seminário no PROURB-UFRJ em 1999.

[14] “A estratégia pode ser implícita, ou seja, não comunicada pelos métodos habituais do planejamento. Pode ser comunicada através de outros meios como entrevistas, declarações, etc. Isto caracteriza um processo difuso de comunicação. Mesmo assim, tal comunicação deve ser feita para que sirva à construção do consenso.” (...) “A estratégia implícita é a “inteligência ativa dos operadores principais, que conduzem o processo, os quais têm uma idéia (do que almejar – objetivos) na cabeça.” Nuno Portas em entrevista por telefone em 25/05/2000.

[15] Folha de São Paulo de 17/11/1999.

[16] Sharon Zukin, 1996, p. 210.

[17] Ralf Dahrendorf, 1994.

[18] Conferência Internacional da ONU sobre o Meio Ambiente.

[19] Exemplo disso, é o livro “Rio-Cidade, O Urbanismo de volta às Ruas”, lançado em 1996 pelo IPLANRIO, órgão de planejamento da Prefeitura.

[20] “Um dos pontos mais importantes nas ações de governo direcionadas à ALMA da cidade foi o processo de descentralização através das Subprefeituras. Com elas não buscávamos eficiência administrativa, mas vertebração dentro do mesmo método do plano estratégico de Madri. Buscávamos aproximar a população das decisões de governo, liberando o tempo da burocracia central, muitas vezes insensível, para as tarefas de formulação, planejamento e controle.” Cesar Maia, In: página Internet WWW/cesarmaia.com.br

[21] Consultores: Tubsa/ Tecnologies Urbanes Barcelona S.A. (Javier Creus, Jordi Borja, Manuel de Forn y Foxá)  e Inter B/ Consultoria Internacional de Negócios S/C Ltda. (Cláudia Zonenschain, Cláudio Frischtak, Eduardo Augusto Guimarães e Solange Pires).

[22] Relatório Final do Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro, 1995, p. 66.

[23] Idem, p. 30.

[24] A. Ivan F. Pinheiro, em entrevista à Revista URBS, nº 17, jun/ jul  2000, p. 42.

[25] In: Márcia N. Santos, 1993, p. 90.

[26] “The Mayor’s Strategic Policy Statement” recomendado ao integrantes do G54, um grupo formado por Secretários Municipais, Subprefeitos e diretores de companhias municipais.

[27] Em entrevista concedida em 11/12/2000.

[28] Em 31/12/1995, o Prefeito Cesar Maia, comentando com seus auxiliares do G54 o levantamento do IPLAN para o Processo de Estruturação dos Transportes da Região Metropolitana – 1994/1995, que apontava que 19,7% dos deslocamentos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro são feitos a pé, declarou: “Incrível! os deslocamentos a pé são muito mais importantes que os de automóvel (11,5%). Mas as pessoas e a imprensa dão muito maior atenção aos automóveis. Viva as calçadas! Viva os pedestres!    

[29] Estudo da Secretaria Municipal de Fazenda de 1992.

[30] Alguns anos depois esse gradeamento foi desfeito.

[31] Na área da II R.A. foi recuperado um cortiço na Travessa do Mosqueira. Outros 10 imóveis encontram-se, em 2000, em processo de estudos e licitação na SMH, com vistas à realização de serviços para adaptá-los a residências populares. São eles: R. da Constituição, 38 – 18 unidades; R. Regente Feijó, 57 – 5 unidades; R. Regente Feijó 62 – 5 unidades; Pç. Tiradentes, 71 – 12 unidades; R. Joaquim Silva, 122 – 14 unidades; R. de Santana, 119 – 13 unidades; R. do Teatro, 17 – 8 unidades; R. do Teatro 21 – 6 unidades; R. do Lavradio, 110 – 8 unidades e R. Joaquim Silva, 114 – 5 unidades. Fonte: SMH.   

[32] De forma a melhor compreender a atual diversidade do Centro, propomos dividi-lo em seus setores espaciais de maior homogeneidade: Praça XV; Lapa; Saara/ Pç. Tiradentes/Uruguaiana; Mal. Floriano/ Pç. Mauá; Mal. Floriano/Central do Brasil; Adjacências da Rua de Santana; Cruz Vermelha e Bairro de Fátima; Cinelândia; Castelo; Aeroporto; Esplanada de Santo Antônio; e Quadrilátero Financeiro.

[33] Revista Veja, de 13/11/1996.

[34] Gazeta Mercantil de 01/07/1999.

[35] Depois de diversas e difíceis negociações, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro assinou um contrato com a Fundação Guggenheim em que esta se comprometia a implementar uma sede do famoso museu na cidade, o qual receberia, entre outras, parte das exposições do Museu Hermitage, de São Petersburgo e do Kunsthistorisches Museum, de Viena. O local previsto para a sua construção seria o Pier Mauá, com projeto a cargo do arquiteto Jean Nouvel (Instituto do Mundo Árabe, em Paris). 

[36] Nos primeiros meses de 2001, uma série de reportagens do jornal O Globo e cartas de leitores apontaram problemas no controle da atividade dos ambulantes e do respeito a posturas municipais, levando as autoridades municipais a reafirmarem seu compromisso com a diretriz de “ordem urbana”. 


segunda-feira, 5 de julho de 2021

Quem decide afinal?

Tradicionalmente, as grandes cidades cresceram sem muitas limitações, em direção às suas periferias, consumindo áreas agricultáveis e reservas florestais. É o fenômeno que chamamos de espraiamento ou espalhamento das cidades, em inglês, sprawl. O Rio de Janeiro é uma cidade que cresceu em direção às suas fronteiras ao Norte, até se conurbar com as cidades da Baixada Fluminense. E ainda cresce em direção à Zona Oeste, tendo ocupado nas últimas décadas a Barra e o Recreio e adensado os bairros de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz. Guaratiba, a última fronteira verde da cidade, já está na rota desse insensato crescimento da mancha urbana.

As teorias urbanísticas contemporâneas consideram essa uma péssima ideia. Além da preservação de áreas verdes no entorno das cidades, como o “cinturão verde” de Londres, legalmente existente desde meados do século passado, atualmente se advoga a contenção da expansão horizontal, através do adensamento das áreas centrais, já infraestruturadas, no modelo conhecido como cidades compactas.

Para isso é preciso planejamento urbano e a real aplicação desse planejamento. No atual momento, em que se discute o Plano Diretor que orientará o desenvolvimento urbano da Cidade do Rio de Janeiro pelos próximos dez anos, é importante observar se as recomendações do plano que finda surtiram os efeitos desejados. Sem isso, corremos o risco de passar para o próximo plano sem uma prestação de contas referente ao plano anterior!

Atualmente, a Cidade do Rio de Janeiro está dividida em cinco áreas, o que facilita a compreensão das dinâmicas em curso e o seu direcionamento. São elas a Área de Planejamento 1 (AP-1), correspondente à área central; a Área de Planejamento 2 (AP-2), correspondente à Zona Sul e à Tijuca; a Área de Planejamento 3 (AP-3), correspondente à Zona Norte e aos subúrbios da Central e da Leopoldina; a Área de Planejamento 4 (AP-4), correspondente à Barra, Recreio e Jacarepaguá; e a Área de Planejamento 5 (AP-5), correspondente aos demais bairros da Zona Oeste.

O último Plano Diretor indicou orientações para a ocupação das cinco áreas de planejamento da cidade que, em parte, não se tornaram realidade. Assim, quanto ao crescimento, a AP-1 (excluindo-se a Área Portuária) e a AP-2 haviam sido definidas como controladas. Isso significava que a ocupação nessas áreas deveria sofrer restrições, já que foram consideradas próximas da saturação do adensamento e da intensidade de uso. É interessante notar que o projeto Reviver o Centro, recentemente aprovado na Câmara de Vereadores, altera essa percepção, incentivando novas edificações naquela área.

A AP-3 e a Área Portuária haviam sido definidas como incentivadas, ou seja, estimulava-se a sua ocupação, o que era correto, dado que, apesar de contarem com infraestrutura, perderam população nas últimas décadas. A AP-4 havia sido definida como condicionada. Isso significava que a sua ocupação dependeria da implantação de infraestrutura, já que a existente era considerada insuficiente.  E a AP-5 havia sido definida como assistida, significando que o Poder Público seria responsável por trazer infraestrutura para a região, o que era correto. Mas, também, que incentivaria a sua ocupação, o que ia contra a orientação de se estimular a reocupação de outras áreas, como a AP-3 e a área portuária.

É importante observar que as orientações do último Plano Diretor, especialmente aquelas com relação às APs 4 e 5, iam em sentido contrário ao da ideia de cidade compacta. Elas apenas consagravam a tendência de crescimento urbano em direção à Zona Oeste, o que pode ter sido atrativo para o mercado imobiliário, mas não foi benéfico para o conjunto da cidade.    

Para se entender o quão forte é essa tendência, vejamos alguns dados. Entre os anos de 1996 e 2006 a AP-4 (Barra, Recreio e Jacarepaguá) concentrou 57,76% de toda a metragem quadrada de edificações licenciada na Cidade do Rio de Janeiro. Esse quantitativo se refere aos licenciamentos para obras legais na cidade, já que há um número grande de edificações construídas à margem do licenciamento legal. De qualquer forma, ele dá a clara noção da importância da AP-4 para o mercado imobiliário carioca.  

Entre os anos de 2010 a 2015, ou seja, metade do período abrangido pelo último Plano Diretor decenal, essa proporção pouco se alterou. Enquanto à AP-1 coube apenas 9,87% da metragem quadrada de edificações licenciadas na cidade, à AP-3 coube 17,96%, à AP-4 coube 47,79% e à AP-5 coube 16,55%. Somando-se as duas áreas de planejamento da Zona Oeste, obtém-se a incrível marca de 64,34% da metragem quadrada de edificações licenciadas na cidade naquele período. Como se vê, a marcha para o Oeste permaneceu como uma forte tendência, a despeito das indicações do Plano Diretor quanto ao incentivo à reocupação da AP-3, por exemplo.

É importante lembrar que na vigência do último Plano Diretor a Prefeitura fez um movimento de sinalização da prioridade de ocupação da Área Portuária, com o Porto Maravilha. Milhões de reais foram gastos na demolição da Perimetral, na construção do Túnel Marcelo Alencar, na renovação da infraestrutura local e na criação de espaços de convívio. No entanto, nada disso alterou a realidade da dinâmica imobiliária instalada na cidade, já que os dirigentes das empresas, podendo optar, optaram pelo já conhecido e seguro mercado imobiliário da Zona Oeste.

Assim, se quisermos aprovar um Plano Diretor para os próximos dez anos, que realmente provoque uma inflexão nas tendências até aqui verificadas, e que promova o adensamento urbano das áreas centrais, assim como da Zona Norte, será preciso enfrentar a difícil tarefa de orientar o mercado imobiliário de acordo com os interesses da cidade, consubstanciados nesse plano. Para tanto, seria interessante o estabelecimento de cotas de licenciamento para as áreas não prioritárias para adensamento. Uma vez esgotadas essas cotas, as áreas que se deseja adensar se tornariam mais atrativas. E, muito importante, é preciso que daqui a dez anos verifiquemos se as indicações do novo Plano Diretor foram para valer.  

artigo publicado em 01 de julho de 2021 no Diário do Rio

500

foto Roberto Anderson
Os que estamos vivos neste momento no Brasil, podemos dizer que somos sobreviventes. Mas não que estejamos salvos. Nenhum de nós está com o atual presidente. Por isso, é preciso falar sobre o que vivenciamos, como sobrevivemos, e o que testemunhamos. É preciso falar muito, incansavelmente, como se fala do genocídio de judeus, de armênios, de cambojanos, e de hereros e namas na África. Que sejam publicados todos os diários do confinamento. 500 mil brasileiros mortos pela Covid-19, pela ação do seu próprio governo, é um fato importante demais, terrível demais, para que não o registremos de todas as formas possíveis. 

 

O mais absurdo é que sabemos que, daqui a alguns meses, esse triste patamar estará superado por marcas ainda maiores.

 

É preciso contar a nossa apreensão crescente, nos primeiros meses de 2020, com a marcha do vírus em direção às terras brasileiras. Como tínhamos a certeza da sua chegada e como víamos que nada era feito para retardar esse encontro fatal. Como nos angustiávamos com o sofrimento dos cidadãos e dos médicos e enfermeiros de Wuhan e, depois, do Norte da Itália e de Nova Iorque. Mal sabíamos o que nos esperava. Com o vírus no Brasil, vimos a, aparentemente, inexorável marcha da transmissão inicial entre amigos e parentes de pessoas chegadas do exterior passar para a transmissão comunitária. O vírus morava entre nós e estava livre para gestar novas variantes.

 

De repente, a indicação do fechamento de escolas, comércio, escritórios, o isolamento em casa, e a perplexidade dos que não mais poderiam viver do seu trabalho diário nas ruas. Quem era casado, tinha filhos, com eles ficou. Quem morava só, só ficou. Não mais sabíamos quando voltaríamos a encontrar os familiares, os amigos. A angústia cresceu no nosso peito. Tornou-se difícil, estressante demais assistir o noticiário. A cada imagem dos hospitais lotados eu, você, e muitos outros sentíamos o ar nos faltar, o coração palpitar e os sintomas da doença tomarem conta do nosso corpo. 

 

O ministro Mandetta dava entrevistas coletivas que deveriam servir para nos assegurar que alguém estava no comando. Mas um ar de político tradicional no seu discurso não contribuía para trazer confiança. Era o que tínhamos mas, de um momento para o outro, nem mais isso. No seu lugar, um Teich assustado e claramente perdido. E depois um Pazuello, general de fala autoritária, mas submisso ao presidente, que sabíamos não entender nada de saúde pública. Lembramos o dia em que Bolsonaro, com olhar siderado, veio à TV nos afirmar que não devíamos temer o que era só uma gripezinha. Nesse dia as panelas foram batidas com gosto. Pela primeira vez em muito tempo, o fazíamos para dizer que não seríamos levados ao destino trágico que nos esperava sem um grito de protesto. 

 

Fomos nos acostumando a termos médicos, como taxa de transmissão, isolamento social, medidas não farmacológicas, máscaras PFF2, respiradores, pronação e intubação. Sofremos com a incapacidade dos hospitais de atenderem a todos os que batiam às suas portas.  Nos horrorizamos com os que agonizaram sem oxigênio e com a corrida desesperada de seus parentes carregando cilindros pelas ruas de Manaus. E também com a tristeza da morte solitária, das câmaras frigoríficas para os corpos empilhados, das centenas de covas abertas por escavadeiras, dos enterros às pressas, muitas vezes noturnos.

 

O tempo passou arrastado. Dia e noite se confundiram no confinamento de nossas casas. Medo da aproximação com o entregador do supermercado ou da farmácia, medo ao entrar no supermercado, e empatia por aqueles que continuaram a trabalhar correndo riscos. Doar para alguma organização que recolhia alimentos para os mais necessitados, ou mesmo participar dessas ações, ajudou a dar sentido à nossa sobrevivência.

 

Para os que puderam praticar o isolamento social, o trabalho em home office deu alguma sensação de conexão com a normalidade. O zoom e seus similares nos salvaram da loucura de conversar com as paredes. Contatamos antigos amigos, assistimos lives sobre os mais variados assuntos e, quando já estávamos cansados, fomos brindados por apresentações sublimes de Bethânia, Gil, Lenine e Caetano. Eles nos transmitiam a certeza de que o Brasil que amávamos persistia vivo, esperando a hora de voltar a florescer.

 

As notícias das perdas não pararam de chegar. Às vezes, de conhecidos de conhecidos, outras, de amigos ou parentes próximos. O luto disperso, quase anônimo, se acumulando aos milhares. 100 mil brasileiros mortos nos pareceu um marco absurdo. Escalamos rapidamente outros marcos das centenas de milhar. À medida que passávamos de 200, 300 mil mortos, duvidávamos se éramos mesmo capazes de sermos sensíveis a esse imenso sofrimento.  

 

Cá estamos agora num estranho momento de travessia. Já há vacinados, mas não em número suficiente que tragam segurança a todos. A taxa de contaminação voltou a patamares altíssimos e suspeita-se de uma terceira ou quarta onda. Mesmo de máscaras, a vida vai voltando à quase normalidade, empurrados para as ruas que fomos pelo governo, que sonegou vacinas no tempo certo e auxílio econômico continuado a quem precisava. Passamos por uma guerra que atingiu milhares de famílias e dilacerou nossas emoções. Essa guerra não acabou. E ainda não sabemos o que aprendemos de tudo isso.


artigo publicado em 24 de junho de 2021 no Diário do Rio



quinta-feira, 17 de junho de 2021

Missão cumprida na Rua Uruguaiana

Mercado Popular da Rua Uruguaiana - foto Roberto Anderson

A crise econômica da década de 1980 lançou um grande número de desempregados nas ruas, trabalhando no comércio ambulante. Também naquele momento, os governantes assumiram posições mais conciliatórias, o que incluiu a permissão para que esse comércio se instalasse de forma mais permanente nas vias públicas das principais cidades do país.

Na cidade do Rio de Janeiro, o comércio ambulante conquistou espaços considerados nobres, como os grandes eixos viários do Centro, da Zona Sul e da Zona Norte, geralmente diante das portas das lojas do comércio já estabelecido. No Centro, as ruas Uruguaiana, Sete de Setembro, São José, Ouvidor e a Av. Rio Branco passaram a ser os pontos mais visados. Houve aumento no número de barracas e aumento de suas dimensões, o que trouxe transtornos à circulação dos pedestres e ao faturamento do comércio formal.

As reclamações dos comerciantes e de suas associações levaram o Governador Leonel Brizola (1983- 1986 e 1991-1994) e o Prefeito Saturnino Braga (1985-1988) a idealizar os camelódromos, áreas destinadas a concentrações desses ambulantes, fora das áreas tradicionais de comércio. Uma dessas tentativas, foi o camelódromo da Praça Onze. No entanto, como a lógica do comércio ambulante pressupõe o aproveitamento do movimento comercial previamente criado pelo comércio formal, essas iniciativas não tiveram sucesso.

Cadastramentos e planos de assentamento dos ambulantes em áreas específicas das calçadas também não deram muito certo no Rio de Janeiro. Uma das maiores falhas foi não contar com a existência dos “chefes” das áreas nobres, que indicavam quem poderia ocupar cada um dos pontos e quanto deveria contribuir a título de proteção. Os pontos de maior renda haviam passado a ser “propriedade” de ambulantes protegidos por esquemas, que incluíam o uso da força, como era o caso da Rua Uruguaiana. Lá, os ambulantes eram regulados, entre outros, pelos “irmãos metralha”, assim conhecidos não por sua delicadeza.

Outro fator a impedir o sucesso de tais planos era a existência de “empresários do asfalto”, pessoas com mais recursos, eventualmente lojistas, que criaram redes de pontos de venda, empregando diversos supostos ambulantes. Exemplo notório dessa atividade eram as barracas de produtos caros, como frutas e ferramentas, em geral muito bem guarnecidas e com esquemas de reposição de produtos que incluíam a participação de veículos do tipo kombis.

As infindáveis discussões sobre assentar os ambulantes foram interrompidas pelo surgimento de uma nova forma de tratar a questão, no quadro da política de “ordem urbana” instituída na cidade pelo Prefeito Cesar Maia (1993-1996). Essa nova diretriz era claramente inspirada na atuação do Prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani (1994-2001), que buscou controlar a criminalidade naquela cidade. A nova orientação no Rio passou a ser a retirada dos ambulantes dos principais eixos viários, mesmo que isso implicasse o confronto com a Guarda Municipal e os fiscais, encarregados de cumprir tal determinação.

As confusões com os ambulantes se tornaram constantes, com correrias, apreensões de mercadorias e transeuntes amedrontados. O clima não era nada bom. A anunciada retirada das centenas de ambulantes que ocupavam a Rua Uruguaiana, caso não lhes fosse dada uma opção, geraria um caos na cidade. Por fim, o prefeito conseguiu da Companhia do Metropolitano a cessão de quatro terrenos remanescentes da construção do metrô que, como dezenas de outros ao longo do seu trajeto, eram usados apenas como estacionamentos. Estava batido o martelo, os ambulantes da Uruguaiana e adjacências teriam que ser transferidos para esses terrenos e a Subprefeitura do Centro seria responsável por organizar espacialmente essa ocupação. Nascia o Mercado Popular da Uruguaiana.

Uma vez decidido que os ambulantes deveriam sair da rua, e que aqueles eram os terrenos disponíveis para a relocação dos mesmos, coube à equipe da Subprefeitura, comandada pelo valoroso Augusto Ivan, tentar cumprir o prazo estabelecido. Em três dias, incluindo um fim de semana, todas as vagas destinadas aos ambulantes deveriam estar demarcadas. O estudo para implantação do novo camelódromo buscou deixar corredores de passagem entre as centenas de barracas e destinou as áreas centrais para as barracas e carrocinhas de comida, como praças de alimentação.

Foi necessário pintar no chão o espaço destinado às 1759 vagas para barracas e numerá-las. Além de toda a equipe da Subprefeitura, na qual eu me incluía, foram convocados a mulher, os filhos do Subprefeito, e os amigos destes. A pintura dos espaços no chão entrou pela noite e varou o fim de semana. Na manhã de segunda-feira estava completa.

O Mercado Popular da Uruguaiana, organizado em 1994, tornou-se um símbolo da política de assentamento de ambulantes em locais pré-determinados. Posteriormente a Prefeitura construiu banheiros e uma sede para a administração. A empena de um sobrado limítrofe recebeu um tratamento de retirada do revestimento e colocação de um letreiro, de forma a dar uma identidade visual ao mercado. O fato de estar situado num importante corredor comercial, a SAARA, permitiu que os ambulantes experimentassem ali um enorme sucesso de vendas. Pouco a pouco as barracas foram sendo substituídas por boxes metálicos e se construiu as coberturas, consolidando o mercado.

Apesar disso, ele continua dominado por alguns grupos, já que a municipalidade não se interessa em manter o controle. Seguem também problemas antigos, como a venda de produtos piratas, cobranças de altas taxas por parte dos responsáveis pela organização do mercado, e recorrentes notícias de pagamento de propinas a policiais. Além disso, os pontos de venda do mercado, muito valorizados, passaram a ser repassados a outros comerciantes, inclusive novos imigrantes orientais, como coreanos e chineses.

A organização do Mercado Popular da Uruguaiana é um momento importante de ser revisitado porque tudo indica que a crise da Covid recriará impasses semelhantes. Já sabemos que entregar as ruas aos desassistidos, prejudicando o comércio formal não é solução, assim como não adianta reprimir cegamente a quem deseja trabalhar. Planejar novos espaços para o comércio informal, sem se eximir do controle, deverá ser uma tarefa da Prefeitura. Mas sem esquecer de criar portas de saída desses espaços para os que alcançarem a possibilidade de ter seu negócio formal, permitindo o surgimento de vagas para os novos desempregados que chegarem ao comércio ambulante.

artigo publicado no Diário do Rio em 17 de junho de 2021.


quinta-feira, 10 de junho de 2021

Ciclovias do Rio, quem as planeja?


Olha o pé, olha o pé, irmão, gritou o corredor que vinha em sentido contrário ao meu na ciclovia da orla de Copacabana. Demorou um pouco, mas percebi que ele se referia ao suporte para descanso da minha bicicleta que estava abaixado, quase arrastando no chão. Parei, resolvi o problema e segui satisfeito com a cumplicidade que existe entre pessoas nas ruas, que cuidam mutuamente umas das outras, como já nos dizia a sábia Jane Jacobs.

O Rio é uma cidade com um imenso potencial para o uso de transportes não motorizados, como a bicicleta, o skate e a patinete. Já na década de 1970, surgiu a pioneira Ciclovia de Sulacap na Avenida Marechal Fontenele. Depois disso, somente em 1991, na administração Marcelo Alencar, foram criadas novas ciclovias: a do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e as da orla, do Leme ao Recreio dos Bandeirantes, como parte do projeto Rio-Orla. Com 31 Km, elas tinham um evidente caráter de equipamentos de lazer. Grande parte da ciclovia da Lagoa é em faixa compartilhada com pedestres, situação pouco favorável, enquanto as da orla são em faixas segregadas.

 

A criação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, em 1993, impulsionou o projeto de construção de ciclovias no Rio. Alfredo Sirkis, então Secretário, começou a pensá-las como um sistema, interligadas quando possível, tratando as bicicletas como reais alternativas de transporte. A partir de 1999, foram construídas ciclovias na Zona Oeste (AP-5) e, em menor escala, na Zona Norte (AP-3), que reduziram o desequilíbrio na distribuição espacial em favor da Zona Sul (AP-2) e Barra (AP-4).

 

Considera-se que a Cidade do Rio de Janeiro tenha a maior malha cicloviária da América Latina. Mas é preciso reconhecer que nessa malha são computadas algumas situações pouco adequadas, como ciclofaixas que ocupam a quase totalidade de calçadas e ciclovias com excesso de obstáculos e interrupções. Algumas das últimas ciclovias construídas na cidade tornaram-se alvo de críticas, como a ciclovia da Avenida Niemeyer, a Tim Maia, parcialmente destruída pela força de ressacas não previstas no cálculo de sua construção, ou a ciclovia da Zona Oeste, da qual se afirma ter sido excessivamente cara e mal planejada. Uma exceção foi a ciclovia Stuart Jones, na Urca, inaugurada em 2011, que leva à Praia Vermelha.

 

Como já observado, inicialmente o programa cicloviário do Rio de Janeiro foi visto como parte do embelezamento da orla, sendo uma opção de lazer. Ao ser assumido pela área ambiental, tornou-se uma alternativa ao transporte motorizado. Nos últimos anos, no entanto, ocorreu uma redução dos investimentos no programa de ciclovias. É possível que o desgaste trazido com o desabamento da Ciclovia Tim Maia tenha servido de desculpa para essa paralisação. Chegamos, então ao atual momento, em que não se sabe bem onde esse programa foi parar na estrutura da Prefeitura. Ele teria sido transferido para a CET-Rio, mais por desinteresse da área ambiental, do que por uma conversão da área de transportes ao ideário da sustentabilidade. Seria interessante se as ciclovias fossem integradas ao sistema de mobilidade da cidade, mas isso exigiria uma adesão da engenharia de tráfego municipal a novas ideias, o que não está provado.

 

Este texto já vinha sendo escrito, quando algo bem desagradável me aconteceu. Ao entrar feliz e confiante com a minha nova (e cara) bicicleta na Rua Muniz Barreto, passando pela ciclofaixa existente na calçada após a Universidade Santa Úrsula, um sujeito, enrolado num cobertor desses de moradores de rua, me deu um violento empurrão, que me jogou no asfalto. Por muita sorte, não fui atropelado por algum carro. Em seguida, o sujeito fugiu levando a bicicleta. Corri atrás, gritei pega ladrão, até encontrei um motoqueiro solidário, mas nada.

 

Retornando à amiga Jane Jacobs lá do início, devo dizer que o trecho da rua onde fui roubado é deserto, sem prédios, portarias, janelas ou comércio voltados para as calçadas. Falta-lhe os famosos olhos da rua, que criam a rede invisível de proteção que propicia nossa segurança. Eu já havia tido uma experiência semelhante atravessando o Túnel Novo. Agora terei mais um ponto de estresse e atenção ao circular pela cidade. Muitas vítimas de assalto sentem isso, o absurdo da violência, a frustração e a impotência diante da perda, e uma certa apreensão ao passar por onde esses fatos ocorreram. Vamos criando nosso mapa de apreensões, mas continuando a pedalar.

Artigo publicado no Diário do Rio em 10 de junho de 2021

Jaime Lerner e o Rio

Projeto do Parque Metropolitano de Gramacho

O arquiteto Jaime Lerner, falecido recentemente, apesar de ser muito ligado à cidade de Curitiba, onde desenvolveu boa parte dos seus projetos, tem também uma importante ligação profissional com o Rio de Janeiro. Em 1975, no governo Faria Lima, quando foi criada a Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana – FUNDREM, Lerner foi convidado para ser seu primeiro presidente. Na época, houve muita esperança de que isso significasse trazer para cá o padrão de qualidade dos seus trabalhos na Prefeitura de Curitiba. Mas a esperança durou pouco, e Lerner foi substituído sem muitas explicações. No final, a atuação da FUNDREM ficou bastante comprometida com o pensamento tecnocrata de então, terminando por ser extinta no governo Moreira Franco, um imenso equívoco.

Jaime Lerner atuou depois junto à Prefeitura de Niterói, desenvolvendo um amplo projeto de mobilidade para a cidade, baseado na experiência de Curitiba, com terminais rodoviários, estações e novas linhas de ônibus. No Governo Brizola, foi novamente convidado a colaborar com o Rio de Janeiro, tendo sido responsável por um plano de reorganização dos transportes urbanos da cidade, que não chegou a ser inteiramente implantado. Esse plano, legou a abertura do Túnel Rebouças ao tráfego de ônibus, encurtando as distâncias para os trabalhadores da Zona Norte e Baixada.

 

Mais recentemente, em nova colaboração com o Rio de Janeiro, entre 2016 e 2018, o seu escritório foi responsável pela elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado - PEDUI, desenvolvido pela Câmara Metropolitana do Rio de Janeiro, o órgão criado para retomar o planejamento metropolitano local. Essa foi uma exigência contida no acórdão da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI nº 1842 e também do Estatuto das Metrópoles.

 

A construção do PEDUI foi um processo que contou com diversas reuniões temáticas, ouvindo a sociedade e com a realização de uma Conferência Metropolitana. O plano compreende diretrizes de desenvolvimento econômico, ocupação territorial, saneamento, meio ambiente, governança, e emprego e renda, consubstanciadas em mais de 130 propostas de ações. Entre aquelas de caráter projetual, vale citar o fortalecimento das diversas centralidades da metrópole, buscando criar uma estrutura polinucleada, ou seja, territorialmente mais equilibrada em termos de oferta de empregos e oportunidades. Concretamente, significaria reforçar centralidades, como Campo Grande, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Jardim Primavera, Magé, Queimados, Seropédica e Itaguaí. Esse reforço se daria com o incentivo à geração de emprego e renda, melhoria ou implantação de estrutura urbana, implantação de equipamentos de saúde, cultura e lazer, e intensificação do uso do solo, com mistura de funções.  

 

O PEDUI propõe também qualificar os ramais ferroviários e metroviários, ampliando esses últimos, assim como o sistema de VLTs, e criar ligações transversais aos mesmos, o que romperia com a lógica de unidirecionamento ao Centro do Rio de Janeiro. Ele propõe ainda um melhor aproveitamento do potencial de ocupação das áreas por onde esses ramais passam, com maior adensamento junto às estações, e a transformação das mesmas em polos de comércio e serviços. Ainda em termos de melhorias nos sistemas de transportes, estaria o aproveitamento do imenso potencial do transporte aquaviário da região, tanto nas baías, como nas lagoas.

 

Na área ambiental, o plano propõe, por exemplo, a constituição de um parque linear ao longo dos rios Sarapuí, que passa por diversos municípios da Baixada Fluminense, e Alcântara, em São Gonçalo. Isso incluiria oferta de habitações para os que hoje vivem às suas margens, recomposição de suas calhas, com reserva de áreas passíveis de inundação sazonal, revegetação das margens e implantação de equipamentos de lazer. Para as baías de Guanabara e Sepetiba, o PEDUI propõe sua despoluição e a recuperação do seu Patrimônio Cultural. Uma ação de grande impacto seria a implantação do Parque do Aterro de Gramacho, sobre a área que já serviu como destino dos resíduos sólidos metropolitanos. Em Seropédica, o plano propõe transformar as cavas criadas pela extração de areia em lagos interligados e perenes, que abasteceriam as indústrias locais.

 

O Estado do Rio de Janeiro, que ficou por várias décadas sem um órgão de planejamento metropolitano, agora tem um plano, um bom plano. A sua necessária implementação seria uma merecida homenagem ao mestre urbanista. 


Artigo publicado no Diário do Rio em 03 de junho de 2021

Lagoa de Piratininga: dos lotes subaquáticos aos jardins filtrantes


Nos últimos anos o vocabulário do urbanismo foi enriquecido com a terminologia dos projetos ambientalmente sustentáveis, e em especial por aquela relacionada ao que se convencionou chamar de soluções baseadas na natureza - SBN. Jardins de chuva, biovaletas, jardins filtrantes, florestas de bolso fazem parte do repertório de propostas que visam tornar as cidades mais biofílicas, opa, outro termo em ascensão.

Pois são estas propostas que estão sendo postas em prática no novo Parque Orla de Piratininga Alfredo Sirkis, uma iniciativa inédita no Brasil na escala ali empreendida. A Lagoa de Piratininga já foi objeto de um grande escândalo imobiliário no final da década de 1940, quando 20% do seu espelho d’água foi loteado, com a concordância dos gestores municipais de então. Esse absurdo, que ficou conhecido como lotes subaquáticos, foi fruto de uma visão, agora ultrapassada, que acreditava que lagoas, dunas e rios podiam ser aterrados, suprimidos ou espremidos para darem lugar ao que se vendia como progresso. Os que compraram os lotes sabiam que compravam terra dentro da água, mas mesmo assim o negócio lhes pareceu viável.

O projeto da Prefeitura de Niterói tem a particularidade de pensar em conjunto a lagoa, os rios que nela desaguam, as ilhas no seu interior e a qualidade das águas. Ele envolve, por exemplo, a renaturalização das bordas do rio Jacaré, que vai desaguar na lagoa, com a consolidação de suas bordas, demolição de construções, recriação de meandros na sua calha, e revegetação da mesma. Para isso, estão incluídas medidas fundamentais, como a implantação de sistemas de esgotamento sanitário nas comunidades vizinhas ao rio. Renaturalização de rios é o ideal de todos aqueles que se debruçam sobre a precária situação dos rios urbanos.  

No entorno da lagoa será implantado o parque, com uma série de amenidades para os usuários. Ciclovias, áreas de contemplação, piers para pesca, mirantes, que são estruturas verticais para a contemplação da paisagem, quadras para a prática de esportes, e passarelas sobre os jardins filtrantes. Além disso, haverá um Ecomuseu, com restaurantes, área de contemplação e resgate da memória local. Ao longo das ciclovias e das vias para os pedestres e os automóveis, serão implantados jardins de chuva e biovaletas, que irão filtrar as águas poluídas antes que cheguem ao espelho d’água.

Mas a intervenção mais impactante, do ponto de vista das soluções acima apontadas, é o conjunto de bacias de contenção de rejeitos e os jardins filtrantes implantados nas bordas da Lagoa de Piratininga. As bacias de contenção receberão as águas dos rios Jacaré, Cafubá e Arrozal. Ali os sedimentos trazidos pelos rios ficarão retidos em pequenos lagos para, de tempos em tempos, serem retirados. Na sequência, as águas passarão para os jardins filtrantes, que são áreas alagadas cobertas por plantas apropriadas para filtrar poluentes. Após esse processo natural, as águas já mais limpas chegarão à lagoa. Assim ela, que hoje é classificada como de nível quatro, por estar poluída por fósforo, nitrato, matéria orgânica, e lixo (SST), deverá chegar ao nível dois, que são aquelas apropriadas para navegação e pesca.    

O projeto que homenageia o grande ecologista Alfredo Sirkis, em coerência com o homenageado, é uma aposta numa reviravolta nas soluções tradicionais de engenharia de drenagem. Ao invés de canalizar o rio, busca-se a sua renaturalização. Ao contrário da coleta das águas pluviais para levá-las para mais longe, busca-se a sua filtragem e absorção no próprio local em que ocorrem. E tudo isto integrado à paisagem e com a oferta de opções de lazer. É importante observar e acompanhar o desenvolvimento do Parque Orla de Piratininga, porque o seu sucesso deverá representar um novo caminho para o urbanismo e o paisagismo. Niterói, corajosamente, sai na frente.  

Artigo publicado em 27 de maio de 2021 no Diário do Rio

Ausência

O arquiteto Fernando Betim

De repente uma ausência, um vazio ao seu lado. Desde que começou a pandemia de Covid-19, vimos mais de 440 mil brasileiros irem embora. Famílias que perderam avós, pais, filhos, irmãos. O mundo todo sofre. Os picos da pandemia mudam de cidade para cidade, de país para país. Wuhan causou perplexidade, a Itália sofreu, Nova Iorque sofreu, O Brasil sofre, a Índia é o novo ponto focal.

Nesse período, mesmo chamados de idiotas, os que puderam, buscaram se refugiar em suas casas, perdendo a convivência, o abraço, a naturalidade do encontro. Apesar de temermos esse presente alongado, buscamos acreditar que lá na frente nos reencontraremos. No entanto, as perdas vão se sucedendo. O parente de um conhecido aqui, a irmã de uma amiga ali, o músico talentoso, o ator querido, e novamente um conhecido, o conhecido de um conhecido, e a grande atriz.

Lares ficam sem provedores, a aposentadoria da avó deixa de ser a salvação da família, o filho que era a esperança de um outro futuro já não está mais ali. São pessoas, muitas pessoas, e a maioria não conhecemos. Mas a dor dos familiares e amigos que os perderam é grande e importa. Precisam ser lembrados. Por isso, quero lembrar o colega e amigo, o arquiteto e professor da PUC-Rio Fernando Betim, que partiu há poucos dias.

Até a semana passada ele vinha dando aula, juntamente com outros professores, no atelier de projetos de revitalização do curso de Arquitetura e Urbanismo. Ele era o que abria a sala de aula remota, era o que animava os alunos e professores, era o que sabia o nome e o apelido de cada aluno, suas histórias, dificuldades e potencialidades. E agora não está mais lá. Nem em sua casa, com sua família. Na aula remota não há mais uma janelinha com o professor Betim. Não mais as indicações de bons projetos e arquitetos ou as histórias sobre os queijos de Minas e as delícias da vida no campo, que ele exercia nos fins de semana.   

Fernando Betim esteve entre os criadores do curso de arquitetura da PUC-Rio e era com paixão que se dedicava ao mesmo. Era um exímio projetista em estruturas de madeira. Em Itamonte, onde tinha seu sítio, construía experimentando técnicas tradicionais, como o adobe, a taipa de mão e a madeira. No escritório modelo da PUC-Rio, juntamente com outros professores, coordenou projetos, como o edifício do curso de Design e o futuro teatro da PUC.

Casa em Itamonte
Atelier PUC-Rio

O campus da universidade está pontilhado por trabalhos em que, com os alunos, experimentava novas formas e técnicas. Logo na entrada está o bicicletário, estrutura alada que indica o comprometimento da universidade com esse modal de transporte. Mais à frente, o estande de informação e, em lugar privilegiado, a praça-banco, em que banco e pergolado serpenteiam até um tablado alteado, que convida à roda de bate-papo ou a uma soneca.
Campus da PUC-Rio

Betim era a gentileza e o comprometimento com a boa arquitetura. Um cara querido por todos. Agora é lembrança, uma lacuna a mais entre tantas que existirão quando um dia pudermos nos reencontrar. Espaços vazios entre nós a nos lembrar a tragédia pela qual passamos. E que poderia ter sido muito diferente.

Artigo publicado no Diário do Rio em 20 de maio de 2021

Existe um lugar no Rio São João

Casario da Beira Rio - Barra de São João
O rio São João nasce próximo a Macaé de Cima, uma reserva ambiental. Depois desce a serra, em direção à sua foz em Barra de São João, no município de Casimiro de Abreu. Ali, antes de desaguar no mar, ele se demora entre morros, manguezais, ilhas fluviais, e a borda da graciosa localidade Beira Rio. 

Casas centenárias e sobrados, alinhados na rua, formam a moldura perfeita para o rio. Eles têm na sedimentação do tempo, aprisionado em argamassas de pedra e cal, a sua graça. As casas se alternam entre aquelas maiores, que um dia tiveram um rico proprietário, e as mais singelas, de fachadas estreitas. Mas todas compartilham a solidez e beleza da arquitetura antiga, de paredes grossas, telhados cerâmicos, janelas e portas com folhas de madeira e caixilhos de vidro. As cores das paredes são o branco e as variações do amarelo. E as janelas são de cores fortes, como o verde e o azul.  Um ou outro sobrado se alteia em meio ao conjunto, pontuando uma sutil diversidade naquilo que transmite confortante unidade.  

 

Há poucos carros na rua em frente aos sobrados, calçada em paralelepípedos. Entre a mesma e o rio, há árvores também centenárias, fortemente enraizadas na margem coberta por uma vegetação que nos convida a estender a toalha do piquenique. Aqui e ali bancos permitem ao visitante se sentar para ver o rio, as casas ou os poucos passantes. Na borda da água, deques de madeira são propícios à preguiça.

 

Em contraposição ao casario, o tempo do rio é corrente, não capturável, passando, sempre passando. Barcos amarrados nos ancoradouros se prendem à cidade. O rio, que já corre lentamente, parece retardar seu curso ao passar diante da Beira Rio. Há uma combinação entre movimento e permanência que faz o encanto do lugar.

 

É curioso que uma rua tão bonita tenha poucos moradores. Há restaurantes. Junto a um deles há uma casa disponível para locação, muito usada por clientes que não se sentem aptos a retornar para suas cidades após uma noitada de boa comida e boa bebida. A biblioteca municipal ocupa um dos imóveis, depois de ter abandonado outro que ameaçava ruir. No mais belo sobrado da rua morou Romaric Büel, ex-adido cultural do Consulado da França no Rio de Janeiro e promotor de memoráveis eventos culturais no Brasil.

 

A singularidade desse pedaço de cidade, tão harmônico, tão charmoso, difere das quadras vizinhas, iguais a tantas outras, construídas sem muito esmero e atravessadas por estradas que destroem a possibilidade de constituição de um lugar. Ao contrário dessas, a Beira Rio em Barra de São João é o espaço que nos conecta a outros lugares míticos do Brasil, como Paraty e Cachoeiras, e à doçura de um Dorival Caymmi. É lugar para o entardecer e o se deixar ficar. É joia a se preservar.


Artigo publicado no Diário do Rio em 13 de maio de 2021.

E os Reservatórios Históricos na privatização?

Reservatório da Quinta da Boa Vista - foto Roberto Anderson

Que os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário devam ser públicos é uma tese com a qual muitos concordamos. Mas a CEDAE, com as eternas interferências políticas por que passou, deixou muito a desejar, terminando pouco apreciada pela população e parcialmente privatizada na última semana. O caderno de encargos da concessão dos serviços inclui metas importantes de saneamento, com benefícios futuros para a saúde pública e o meio ambiente. Mas há algo preocupante. A CEDAE é possuidora de um grande número de reservatórios tombados, tanto no Rio de Janeiro, como em municípios da sua área metropolitana, e nada se falou sobre a necessidade de recuperação e manutenção desses bens, que vêm se deteriorando.

Caixa Velha da Tijuca, Carioca, Macacos, Rio D’Ouro são alguns dos reservatórios históricos da CEDAE, construídos entre 1850 e 1930, que contam um pouco da evolução da engenharia brasileira, das concepções arquitetônicas e dos sistemas de abastecimento de água. A cronologia da construção desses reservatórios mostra o caminho da captação de água potável na Cidade do Rio de Janeiro e em sua vizinhança. Inicialmente foram exploradas as nascentes do Corcovado, expandindo-se depois em direção àquelas situadas no Rio Comprido, no Andaraí, na Tijuca, na Gávea e no Jardim Botânico. Esgotado o potencial dos mananciais cariocas, foram buscadas as águas da Serra do Tinguá, em Nova Iguaçu, até chegar ao Guandú e ao Paraíba.

Santa Teresa é o bairro com a maior concentração desses equipamentos. A primeira captação ali se deu com as águas do Rio Carioca. Em 1744, uma carta régia autorizou o Governador Gomes Freire de Andrada a dar novo direcionamento ao aqueduto da Carioca, obra imperfeita então existente, e construir o atual, conhecido como Arcos da Lapa. Próximo ao curso do rio Carioca, onde hoje termina a Rua Almirante Alexandrino, foi construída a Caixa da Mãe D’Água, que funcionava como caixa de passagem. Nela, uma cartela traz os dizeres: Reinando el rey D.João V, nosso senhor, e sendo General e Capitão-coronel desta capitania e das Minas Gomes Freire de Andrade, do seu conselho, Sargento-Maior da Batalha de seus exércitos - 1744.

Já na segunda metade do século XIX, junto à Caixa da Mãe D'Água, foi construído o Reservatório do Carioca. De 1865, ele era o mais importante dos primeiros reservatórios daquele período, com jardim, três reservatórios, o tanque de decantação, e a barragem. Em 2018, depois de longo período de abandono e vandalização, o reservatório foi restaurado, com pretensões de ser aberto ao público. Em 1883, entrou em funcionamento o terceiro equipamento do sistema de adução de águas em Santa Teresa, o Reservatório do França.

Outros dois reservatórios foram construídos depois do Reservatório da Carioca: o da Quinta da Boa Vista (1867) e o do Morro do Inglês (1868), na Ladeira do Ascurra, no Cosme Velho. O Reservatório da Quinta da Boa Vista é uma das mais belas construções dentre os reservatórios do Rio de Janeiro. Com características neoclássicas, formato octogonal, com colunas dóricas marcando os limites de cada uma das faces da construção, ele se situa na divisa com a Quinta da Boa Vista.

A captação das águas do Rio Maracanã e seus afluentes, na vertente norte da Floresta da Tijuca, se deu a partir de 1850, com a construção da Caixa Velha da Tijuca, no Alto da Boa Vista. O belo conjunto é composto pelo prédio das caixas d’água, dois açudes e residências de funcionários. Em 1883 entrou em funcionamento o reservatório Caixa Nova da Tijuca, também situado no Alto da Boa Vista, que recebia águas do Rio Maracanã. O seu estado de conservação não é bom. No terreno, além do reservatório, há duas fontes tipo Stella em ferro fundido, oriundas das fundições do Val D’Osne na França.

Em 1853, a construção de uma represa na Chácara da Cabeça, atual Casa Maternal Mello Matos, no alto da atual Rua Faro, no Jardim Botânico, permitiu a captação das águas do Rio Cabeça. Elas alimentaram torneiras e chafarizes no Largo dos Leões, do Amaral e das Três Vendas, atual Praça Santos Dumont. Em 1877 foi criado o Reservatório dos Macacos, no Horto, para captar as águas daquele rio. Atualmente, o reservatório é alimentado com água proveniente da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Guandu, que ali chega através do túnel Engenho Novo-Macacos, inaugurado em 1958, atravessando as serras dos Pretos Forros, da Tijuca e da Carioca.
Na mesma época da construção do Reservatório dos Macacos foi construído o Reservatório de São Bento, no Centro, junto ao convento do mesmo nome, em terras doadas pelos religiosos. Ele recebe as águas da adutora de São Pedro que carreia as águas das nascentes do rio do mesmo nome, localizadas na Reserva Biológica do Tinguá, em Jaceruba, cruzando a Baixada Fluminense. Similar a ele é o   Reservatório do Morro da Viúva, construído em 1878.

O Reservatório do Morro do Pinto é de 1874 e foi construído pelo Visconde de Mauá, que o cedeu ao poder público. Sua função era abastecer aquele morro com águas captadas lá mesmo. Hoje ele está desativado. O Reservatório do Livramento, que data de 1882, está situado no morro do mesmo nome, na atual Área Portuária. É uma construção simples, retangular, guarnecida por gradil, com uma escadaria de acesso ao nível da laje de cobertura.

Esgotados os mananciais cariocas, construiu-se em 1880 o Reservatório de Rio D’Ouro, em Nova Iguaçu. Para tanto, foram mobilizados importantes recursos, como a construção da Estrada de Ferro Rio D’Ouro. O reservatório é descoberto e o espelho d’água é divido ao meio por uma passarela. Do outro lado da mesma encontra-se a fonte “Ninfas na Fonte”, obra em ferro fundido das fundições do Val D’Osne na França. Sua beleza é realçada por estar em local amplo, cercado por mata. Relativamente próximo ao Reservatório de Rio D’Ouro se encontra o Reservatório de Jaceruba, na Reserva Biológica de Tinguá, também em Nova Iguaçu. Ele é mais simples, mas digno de nota é a escultura “Nereida”, em ferro fundido, também proveniente das fundições do Val D’Osne, de autoria do escultor Mathurin Moreau.

O Reservatório do Pedregulho está situado em local alto de São Cristóvão, acima do conjunto habitacional do mesmo nome, projetado pelo arquiteto Afonso Eduardo Reidy. O reservatório foi inaugurado em 1880 pelo Imperador D. Pedro II, recebendo as águas do Reservatório de Rio D’Ouro, e depois as águas de Tinguá, de Xerém, Mantiquira e Lajes. Pedregulho é hoje o grande centro distribuidor de água para a área central do Rio de Janeiro. 

Para atender à cidade de Niterói, em 1880 foi construído o Reservatório da Correção, situado nas terras do antigo aldeamento indígena de São Lourenço. Era alimentado por mananciais da Serra de Friburgo e atualmente está ligado ao sistema Imunana-Laranjal. O reservatório passou a ser administrado pela Prefeitura de Niterói e, em 2006, foi transformado em Parque das Águas.

O ano de 1908 foi profícuo em novos investimentos no sistema de abastecimento da cidade. Foram construídos os reservatórios Monteiro de Barros, no Engenho de Dentro, e de Paquetá, além das represas do Camorim e do Pau da Fome, em Jacarepaguá. O Reservatório Monteiro de Barros ocupa uma área extensa que, nas décadas de 1950 e 60, serviu como parque aberto à comunidade local. A entrada principal tem escadas adornadas por golfinhos e sapos de argamassa. Os motivos marinhos, como golfinhos e conchas se repetem na fachada da casa de manobras.

O Reservatório de Paquetá veio suprir a enorme carência daquela ilha. Até então, a água disponível provinha de poços, sendo salobra e imprópria para o consumo. O reservatório, construído no Morro do Costallat, era abastecido pelas águas do riacho da Cachoeira Pequena, localizado em Magé. Desde a captação até o reservatório, a adutora tinha 21km, sendo 4,4km submersos. O reservatório se encontra tão mal conservado que corre o risco de desaparecer. A elevatória, à beira-mar, foi ocupada.

O Reservatório da Penha é de 1914. Foi construído em concreto armado e tem forma de tronco de cone, sendo descoberto. Está situado acima do Parque Ari Barroso, na base da Serra da Misericórdia, e abastece os bairros entre Bonsucesso e Vigário Geral. O Reservatório Francisco Sá é de 1923, e está situado no Morro de Souza Cruz, no Andaraí.

A Zona Oeste recebeu também diversos reservatórios. No Parque da Pedra Branca há dois, notáveis pela beleza do sítio. A represa do Camorim, que fornece água para a região de Jacarepaguá, recebe as águas de vários rios, sendo o mais importante o Camorim, que depois vai formar a Lagoa do Camorim. E o do Pau da Fome, que recebe as águas dos rios Grande, Padaria e Figueira. Em 1925, foi inaugurado o Reservatório do Morro da União ou Tanque, que atendia aos bairros de Jacarepaguá, Quintino, Cascadura e Piedade. Em 1928, foi inaugurado o Reservatório Vitor Konder, em Campo Grande, para atender à Zona Oeste, de Bangu a Santa Cruz. O reservatório é uma bela edificação neocolonial, assim como, a casa de manobras e a casa do encarregado, formando um conjunto bastante interessante.

Em Copacabana se encontra o mais recente dos reservatórios históricos, o do Cantagalo, construído em 1930. Ele foi pensado para abastecer os bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon, que se expandiam. São dois reservatórios, escavados na rocha, mas apenas um deles está em funcionamento. A casa de manobras é um prédio eclético de três andares, com elementos que remetem à feição de fortaleza. Seu estado de conservação não é bom.

Em resumo, a CEDAE é proprietária de um importante Patrimônio cultural, que precisa ser restaurado e conservado. Situados em platôs nas encostas ou nos topos de morros, alguns reservatórios são verdadeiros mirantes de onde se descortinam vistas panorâmicas. Além dos elementos arquitetônicos há as esculturas e fontes que embelezam os sítios. E há os mananciais, que não deveriam estar desativados, já que podem ser úteis numa crise hídrica. Uma bela contribuição do processo de concessão, além da restauração e manutenção dos reservatórios, seria a criação de um museu que contasse a história da captação das águas para abastecer o Rio de Janeiro. Qual consórcio se habilita?

Texto publicado em 06 de maio de 2021 no Diário do Rio

 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Arborizar o Rio

Laura Cordioli - foto Jane Deluc

Nesse segundo abril da Covid, o Brasil, representado por um inimigo do meio ambiente, participou da Cúpula do Clima, convocada pelo presidente Joe Biden. Pressionado, o país melhorou em dez anos a sua proposta de alcance da neutralização das emissões de carbono, e repetiu promessas anteriores, que vem sabotando, de eliminação do desmatamento ilegal até 2030.

Essa última meta, se cumprida, deverá ser principalmente através de uma severa fiscalização na Amazônia, ponto mais crítico, com contribuições de redução também do desmatamento na Mata Atlântica. Já a neutralização das emissões, além de se dar pela redução do desmatamento, ocorreria ainda pelo reflorestamento de extensas áreas do país, e pela redução das emissões de gases do efeito estufa. Nesses dois últimos aspectos, as cidades brasileiras teriam um papel muito importante, ainda pouco assumido.

É urgente que se passe a ver as cidades como parte das soluções para os problemas ambientais, e agora para a crise climática. Isso exige uma mudança de paradigma. Até muito recentemente, a natureza era vista como um sistema complementar à cidade, a serviço da mesma, já que estaria a serviço dos seres humanos. A cidade estruturava seu meio ambiente imediato utilizando os recursos e a capacidade de depuração da natureza, ou seja, retirando recursos e devolvendo impurezas, como lixo e poluição. A cidade estaria numa posição hierarquicamente superior ao campo e às áreas naturais, o que justificava a prática predatória.

A percepção da natureza como sistema ambiental a ser preservado, com o qual a cidade deve se relacionar e se integrar, é uma proposição que precisa da adesão dos urbanistas e administradores públicos. Há um sentimento crescente de que as cidades são parte fundamental do problema ambiental e da sua solução. Não se pode alcançar a sustentabilidade em nível global sem primeiro realizar progressos nos espaços urbanos. As crises climática e ambiental, em grande medida, são causadas pelo crescimento e pela forma como se dá a utilização dos recursos e a produção de bens. E isto se concentra, na maior parte dos casos, nos espaços urbanos, onde já vivem 55% da população mundial.

Arborizar nossas cidades seria uma contribuição significativa ao programa de neutralização das emissões de carbono do Brasil. Desde a época colonial, as cidades brasileiras cresceram pela supressão de áreas florestadas ou alagadas. No Rio de Janeiro, um dos primeiros plantios de árvores em ruas se deu com as figueiras em frente à Santa Casa de Misericórdia, no final do século XIX. Depois, as reformas urbanas do Prefeito Pereira Passos ampliaram muitíssimo esta prática, que continuou sendo exercida pela municipalidade. O Mutirão Reflorestamento, que vem reflorestando encostas, é um belo desdobramento dessa ideia. Mas, como todos constatamos, a arborização urbana ainda é muito deficiente, especialmente em bairros da Zona Norte e Oeste da cidade.

Uma novidade encorajadora é a existência na cidade do Rio de Janeiro de mais de trinta coletivos de plantio de árvores, espalhados por diversos bairros. São pessoas que tomaram a iniciativa de plantar mudas de árvores em espaços onde as mesmas fazem falta. E o fazem com seus próprios parcos meios, movidos pela paixão. Os técnicos da Fundação Parques e Jardins já vêm interagindo com esses grupos, orientando-os quando necessário.

Há aí um vasto campo de trabalho, que reflete o crescente suporte dos moradores das cidades a ações em prol do meio ambiente e da sustentabilidade. As pessoas que se mobilizam o fazem não só por motivações altruístas, mas também por preocupações com questões que afetam diretamente as suas vidas, como a poluição, as ilhas de calor, as doenças causadas por esses fatores, e a vontade de morar num bairro mais verde. Capturar o carbono da atmosfera através da arborização intensiva de nossas cidades, em colaboração com a população, é um belo programa para o século XXI!

artigo publicado no Diário do Rio em 29/04/2021