quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Desastre ambiental em Mariana, hora de mudanças na extração dos recursos minerais

“Lira Itabirana”
de Carlos Drummond de Andrade

I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

O desastre ambiental em Mariana – MG, provocado pelo rompimento da barragem de Fundão, com danos na barragem de Santarém, da mineradora Samarco em 05 de novembro de 2015 é agora, tristemente, o maior da história nesse tipo de desastre. Todos sabemos que não foi um simples acidente, apesar da presidente da República, através do Decreto 8.572, de 13 de novembro de 2015, tê-lo incluído na categoria de desastres naturais, um verdadeiro disparate. Mesmo a alegação de que no dia anterior ao rompimento das barragens teriam ocorridos tremores de terra de 2.8 na escala Richter não é suficiente para dar causas naturais ao que aconteceu. Tremores de terra nessa escala não são uma novidade naquela área e a engenharia das barragens necessariamente deveria considerar esse fator de risco.

Havia um povoado abaixo da área de mineração, o distrito de Bento Ribeiro, ele próprio antigo centro de mineração no século XVIII. E mesmo assim foi dada a licença ambiental para a construção de várias lagoas de acumulação de rejeitos por cima da cabeça dos moradores, que a cada noite dormiam sem perceber o perigo a que estavam expostos. A quantidade de rejeitos vazada foi suficiente para destruir a vida no Rio Doce. Uma vez ocorrido o desastre, que matou várias pessoas, destruiu cidades, plantações e o rio, ficamos sabendo que a empresa, controlada pela Vale e pela australiana BHP, não tinha um plano de emergência confiável, nem formas viáveis de avisar à população abaixo, nem recursos técnicos ou financeiros para fazer frente a um desastre ambiental dessa magnitude. E nem um seguro capaz de cobrir a dimensão do risco da atividade que ali era exercida.

Protesto na sede da Vale do Rio Doce em 16.11.2015 - Foto de Silvia Knoller
Mas a Samarco não era nenhuma empresa de fundo de quintal. E nem uma empresa hostil aos trabalhadores. Em 2014, pela oitava vez, ela foi incluída entre as 150 Melhores empresas pra se trabalhar no Brasil, de acordo com a pesquisa da Revista Você S.A. da Editora Abril.
Seria a produção desse risco um problema específico da mineradora Samarco ou um problema da forma como se realiza atualmente a mineração, especialmente no Brasil? Este é um setor que, desde o período colonial, nunca deixou de ter uma enorme importância na economia brasileira. Em 2010 as exportações minerais (incluindo combustíveis) responderam por 33% do total de exportações do Brasil, o que representou US $ 50 bilhões naquele ano (Instituto Brasileiro de Mineração). Assim, é enorme a capacidade da atividade de mineração de influenciar as políticas públicas, parlamentares e a sua regulação. Exemplo disso é o Código de Mineração, atualmente em discussão no Congresso que, se aprovado, afrouxaria a regulação sobre o setor e sobreporia o interesse da mineração ao do meio ambiente e da paisagem natural.

No Brasil, o Estado de Minas Gerais é conhecido, entre outras coisas, por sua riqueza mineral. A exploração do minério de ferro, que ali é abundante, tem provocado o desmonte de numerosas montanhas, alterando a paisagem e provocando a ira dos poetas. Sobre a destruição da Serra do Curral em Belo Horizonte, Carlos Drummond de Andrade escreveu:
Esta serra tem dono. Não mais a natureza a governa. Desfaz-se, com o minério, uma antiga aliança, um rito da cidade. Desiste ou leva bala. Encurralados todos, a Serra do Curral, os moradores cá embaixo. Jeremias me avisa: "Foi assolada toda a serra; de improviso derrubaram minhas tendas, abateram meus pavilhões. Vi os montes, e eis que tremiam. E todos os outeiros estremeciam. Olhei terra, e eis que estava vazia, sem nada nada nada".
Sossega minha saudade. Não me cicies outra vez o impróprio convite. Não quero mais, não quero ver-te, meu Triste Horizonte e destroçado amor (Triste Horizonte - 1976).

Em Mariana a Samarco buscava ferro e este vem misturado a outros minerais. O processo de separação é feito por peneiração, concentração e filtragem, onde é utilizada água. O ferro é carreado para aproveitamento fora da área de mineração e o rejeito é conduzido para barragens onde, com o tempo, é sedimentado e a água reaproveitada. Ao final da vida útil de uma barragem ela deve ser recuperada, recebendo uma cobertura de terra vegetal e o replantio de espécies locais. Mesmo com essa previsão de recuperação, todo o processo gera profundas alterações no meio ambiente e na paisagem. E as barragens podem ser altamente perigosas, como estamos descobrindo agora.

O assunto é bastante complexo e envolve duas questões de fundo. A primeira é a necessidade de internalização dos riscos da produção. Este é um processo que já vem ocorrendo há muito tempo na produção industrial. A poluição, antes considerada uma externalidade ao processo produtivo a ser dividida com toda a sociedade, passou a ser corrigida e, depois, prevenida. Hoje não é mais aceitável que a fumaça das fábricas polua a atmosfera ou que a água suja de processos industriais seja lançada em corpos hídricos. Atualmente caminha-se mais e mais para responsabilizar as empresas pela vida inteira dos produtos que fabricam, obrigando-as a recolhê-los ao fim de sua vida útil e dar novos usos aos materiais que os compõem.  

No entanto, no setor de extração de minérios os riscos continuam a ser divididos com toda a população. Os riscos das barragens de rejeitos são divididos com todos. Os riscos da exploração do pré-sal, que são imensos, e que podem atingir uma escala muito maior do que o que se viu no desastre de Mariana, são ignorados pela sociedade. Caso ocorra um acidente com um poço de petróleo em alto mar, a empresa petrolífera não terá recursos e meios de evitar uma catástrofe ambiental. Isso tem que mudar. Este não é mais o tempo de se correr atrás dos acidentes para corrigi-los. A tônica atual é a prevenção, é se colocar o princípio da precaução antes de tudo.  

A outra questão a ser discutida é que essas operações de risco existem para atender a demandas por recursos naturais. Quem demanda? Todos que consumimos produtos em profusão. E o modelo de desenvolvimento econômico do país, para o qual são vitais os recursos obtidos com as exportações. E os países em crescimento acelerado, como a China, que movem céus e terras para terem acesso a esses recursos.

E aí se chega à discussão sobre a necessidade de desmaterialização da economia, ou seja, de diminuição do consumo de matéria e energia em termos relativos (por unidade de produto) e em termos absolutos. A movimentação de matéria em nível global já atinge proporções alarmantes, o que inclui também a sua extração. Bilhões de toneladas de materiais são extraídos todo ano de seus locais de origem, incluindo combustíveis fósseis, água, areia, cascalho, minério, rochas e madeiras. Grande parte nem chega a ser inserida no sistema produtivo, perdendo-se antes disso. E aquela que é utilizada, pouco tempo depois vai se transformar em rejeito. Vários autores focam suas análises ambientais nessa questão. Segundo Johnston e Pestel[1], mesmo os problemas relativos à exploração dos recursos energéticos não renováveis podem ser olhados através do foco da transferência de matéria na ecosfera. Assim, o efeito estufa, por exemplo, poderia ser reduzido à sua dimensão de transferência de matéria de seu lugar original, o subsolo, no caso dos depósitos fósseis de carbono, para a atmosfera, onde não podem ser absorvidos.

Preconiza-se então, entre outras medidas, uma aceleração no processo já em curso na sociedade pós-industrial de desmaterialização da economia. Isto inclui a descentralização da produção e a circulação da informação, com vistas a reduzir os deslocamentos pendulares e aqueles deslocamentos que possam ser substituídos pela transmissão de informações. Segundo Emilio Gerelli[2], nos países ocidentais mais industrializados já há sinais evidentes de que esse processo teve início. Citando um trabalho de Jaenicke e outros pesquisadores alemães[3], o autor afirma que o periodo áureo da desmaterilização teria sido entre os anos 1970 e 1985, quando registrou-se nessas economias uma forte redução do consumo de aço, da produção de cimento, e no transporte de mercadorias, apesar de ter ocorrido aumento do PIB (Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha Ocidental, Suécia e Grã Bretanha são classificadas num grupo com redução absoluta no consumo de aço, na produção de cimento e no transporte de mercadorias. Bélgica e Grã Bretanha apresentaram também redução do consumo de energia primária. Áustria, Finlândia, Japão, Noruega e Itália (1980-1990) encontram-se num segundo grupo com redução de apenas dois dos itens analisados). Isto foi possível graças à redução de input dos fatores materiais, substituídos por informação, conhecimentos e novas tecnologias.

Mesmo nos países em desenvolvimento, onde esse efeito ainda não ocorreu, o autor percebe que o processo de desenvolvimento vem se dando de forma mais econômica em termos de recursos materiais. Tais ideias estão claramente calcadas na visualização das possibilidades de ganhos com o teletrabalho, do início da década de 1990. Outros aspectos relacionados são a redução da taxa de obsolescência dos materiais e dos produtos, a questão da eficiência energética, a reciclagem e a reutilização de materiais.

Então, seja caminhando no sentido de se inserir o princípio de precaução nas operações de extração mineral, e de se internalizar os custos de previsão dos riscos dessa operação e de recuperação do meio ambiente em caso de desastres, seja caminhando no sentido de reduzir a necessidade que a sociedade como um todo tem da exploração desses recursos naturais, é preciso mudar radicalmente a maneira como se lida atualmente com a questão da mineração e da exploração desses recursos. Como ficou evidente no terrível desastre em Mariana, não há mais espaço para se continuar como se nada estivesse errado.



[1] JOHNSTON, Peter e PESTEL, Robert. – “Sustainability in an Information Society”, In: Telework ´95  - Telework Practice and new employment opportunities – Proceedings of the 2 nd European Assembly on Teleworking and new way of working – Auditorium della Tecnica Confederation of Italian industry, Rome, 1995, pp. 195-200 (p.196).
[2] GERELLI, Emilio. Società post-industriale e ambiente. Roma: Editori Laterza, 1995 (pag. 21).
[3] M. Jaenicke, H. Moench, T. Raneberg e U.E. Simonis. “Structural Change and Environmental Impact”, In: Intereconomics, jan e fev 1989.

domingo, 1 de novembro de 2015

Quinta do Caju

Pescadores da Quinta do Caju
Quinta do Caju, área de colonização portuguesa, já foi um importante ponto de pesca, antes da poluição da Baía de Guanabara. Os moradores pioneiros construíram casas em madeira, que se tornaram uma característica do local. No entanto atualmente há poucas remanescentes.



Mico?

O governo federal levou a Caixa a se associar ao prefeito do Rio, investindo R$ 3,5 bilhões em CEPACS da Área Portuária. Foram usados recursos dos trabalhadores (FAT e FGTS) que se tornaram micos na mão da Caixa. A Caixa ainda não conseguiu vender 57% desses papéis. Dos 43% negociados, a própria Caixa entrou como parceira dos empreendimentos. E 35% dos papéis vendidos estão estocados a espera de tempos melhores.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

BRT Transbrasil: Patrimônio em risco na área da Central do Brasil

A prefeitura do Rio de Janeiro vem implantando linhas de BRTs pela cidade, o que é positivo do ponto de vista da mobilidade. Claro que sempre é possível se discutir se a opção pelos ônibus articulados é a de maior capacidade e a que melhor atende à cidade. A mais recente linha anunciada é o BRT Transbrasil, que virá pela Avenida Brasil e adentrará o Centro do Rio. O Consórcio Porto Novo, composto pelas empresas OAS e Odebrecht, comprometidas na Operação Lava-Jato, e ganhador da licitação para realizar as intervenções na Área Portuária, assumiu a execução das obras da primeira etapa desse BRT. Espera-se que tenha havido nova licitação...

Traçado do BRT Transbrasil


Para chegar à Presidente Vargas, o BRT Transbrasil passará pela Rua Rivadávia Corrêa, ainda na Área Portuária e, após atravessar o Túnel João Ricardo, alcançará a Rua Bento Ribeiro, em frente à Estação Central do Brasil. No entanto, para chegar a essa rua o BRT promoveria um arrasa quarteirão em todo o lado par da mesma. Os estudos apontam a necessidade de demolição de 44 imóveis, sendo 24 deles protegidos pela Lei que criou a Apac SAGAS (Lei 971/1987). São imóveis de feição eclética, que variam de um a três pavimentos, e compõem muito bem a imagem daquela área nos arredores da Central do Brasil.



A gestão da Apac SAGAS é do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade-IRPH, órgão da própria Prefeitura. É preciso saber se o IRPH concorda com este arrasamento proposto e, até mesmo se já deu essa autorização. É importante, também, verificar se uma eventual alteração na lista de imóveis preservados não teria que ser submetida à Câmara de Vereadores. É verdade que esta última vem aprovando todas as demandas do Prefeito, mesmo as mais absurdas e danosas para nossa cidade.   

O projeto BRT Transbrasil está estimado em mais de R$ 2 bilhões. É um custo bastante alto e deve ser exigida total transparência. A cidade precisa saber se a concessão para a realização das obras segue os princípios do interesse público e se a destruição desses 24 imóveis preservados pela Lei SAGAS encontra-se realmente em discussão.










segunda-feira, 28 de julho de 2014

Arte para os jovens, trabalho para os artistas




Há uma discussão em curso no Congresso Nacional que interessa a todos aqueles que trabalham com o ensino de arte ou se preparam para fazê-lo. Trata-se do projeto de lei 7032 de 2010 – PL 7032/2010 que altera os parágrafos 2º e 6º do artigo 26 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, o qual fixa as diretrizes e bases da educação nacional – LDB. Esse projeto de lei institui, como conteúdo obrigatório no ensino de Artes, a música, as artes plásticas e as artes cênicas.

E por que isso deve nos interessar? Tendo sido incluído o ensino de artes no ensino básico, abriu-se a possibilidade que alunos desse ciclo entrem em contato com diversas expressões artísticas, algo que todos consideramos fundamental para uma educação humanista e abrangente. Abriu-se, também, um enorme campo de trabalho para os profissionais com licenciatura nas diversas linguagens artísticas. E isto é um bem precioso que traz oportunidades para milhares de pessoas.

Mas se há um projeto que altera a LDB devemos buscar conhece-lo e acompanhar sua tramitação. O que diz o parágrafo 2ºdo artigo 26 da LDB? Que "O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos." E o parágrafo 6º se refere a uma lei de 2008 que modificou a LDB inserindo a música como conteúdo obrigatório, mas não exclusivo, do componente curricular de que trata parágrafo 2º já citado.

Então o PL 7032/2010 vem corrigir a alteração introduzida no parágrafo 6º que se refere exclusivamente à música. A nova redação incluiria as artes plásticas e as artes cênicas. Ter as diversas expressões artísticas citadas na questão do ensino de artes é importante, pois cada cidade, cada colégio poderá escolher aquela linguagem que melhor se adapte ao interesse dos seus alunos ou que tenha maior possibilidade de contratação de professores. Todos têm a ganhar, inclusive a música, única atualmente citada, que, sozinha, não tem como suprir o quantitativo de professores necessários.

Mas para além da redação original do PL 7032/2010 há outra questão que deve chamar a atenção dos profissionais da dança. Trata-se do fato de que ela não é citada na redação inicialmente proposta, quando seria muitíssimo importante que o fosse. A citação da dança, uma linguagem absolutamente independente enquanto estrutura de aprendizado e de ensino, é fundamental para que não haja confusão entre aquilo que se espera do professor contratado. E nem haja supressão de postos de trabalho que poderiam ser preenchidos pelos profissionais da dança. A correção dessa lacuna na redação do projeto de lei vem sendo buscada pelos profissionais da dança, que através de grupos de ação, como o Fórum Nacional de Dança, vêm acompanhando a tramitação do projeto e pedindo esta correção aos parlamentares que o analisam.

Com uma redação apropriada da lei que trata do ensino de artes no ciclo básico da educação dos nossos jovens todos temos a ganhar: estudantes, profissionais e professores. Fique atento!


domingo, 20 de julho de 2014

Rocinha: urbanização, PACs e teleférico - o que dizem os moradores

Centro hospitalar projetado para Rocinha, mas não construído
Após uma série de episódios violentos envolvendo grupos armados na Rocinha em 2004 o poder público criou um Plano Diretor para aquela área. Mais tarde houve um maior avanço com a definição de um projeto de reurbanização para a comunidade, o qual foi incluído no PAC 1 do governo federal. Esta primeira fase de intervenções contou com R$ 60 milhões do governo federal e R$ 12 milhões do governo estadual e o autor do projeto foi o arquiteto Luiz Carlos Toledo.

Esse projeto de urbanização foi muito discutido com os moradores e incorporou varias demandas dos mesmos, como a construção de um hospital e uma creche. Entre as poucas propostas efetivamente executadas estão a passarela projetada por Niemeyer e o Centro Esportivo.  No entanto, muitas outras não foram realizadas. A creche só recentemente foi concluída, mas permanece fechada. No caso do hospital, o governo acabou fazendo apenas uma UPA.

Os moradores queriam também um centro cultural, o saneamento do bairro e a construção de planos inclinados. A questão dos planos inclinados se transformou numa enorme queda de braço entre os moradores e suas lideranças de um lado e o governo estadual do outro. O projeto de urbanização previu a construção de cinco desses equipamentos. Entre as vantagens apontadas pelos moradores e o arquiteto responsável estão as paradas mais próximas entre si, a possibilidade de levar bagagens e materiais de construção e também servir para a retirada do lixo da comunidade.

Em 2013 a Rocinha foi incluída no PAC2 e o escritório vencedor da licitação para esta segunda fase foi o Arquitraço, igualmente conceituado. No entanto, aparentemente houve pouca discussão sobre como seriam aplicados os recursos da ordem de 1 bilhão e 600 milhões de reais. O governo do estado (Emop) incluiu o teleférico no projeto e vem insistindo em sua instalação em detrimento dos planos inclinados anteriormente propostos. O teleférico teria um custo da ordem de R$ 700 milhões. 

O teleférico é um equipamento caro, com paradas distantes entre si, e com uma manutenção igualmente cara, dependente de peças importadas. Já os planos inclinados trabalham com uma tecnologia bastante conhecida e experimentada em diversos locais do Rio de Janeiro. Outras desvantagens do teleférico são a sua incapacidade de funcionamento em momentos de ventos fortes e tempestades, e a incapacidade de servirem a cadeirantes ou a pessoas com problemas de mobilidade, já que trabalham em movimento contínuo. Além disso, a Rocinha é uma área fortemente sujeita à ação da maresia, o que certamente apressaria sua deterioração.

Mas há ainda um aspecto pouco percebido que se refere à necessidade de remoções de moradias para a construção desse equipamento. Seriam removidas casas para dar lugar às estações e também para permitir a acessibilidade de caminhões à base dos postes que sustentam o teleférico.

As lideranças dos moradores consideram que a opção pela execução dos planos inclinados anteriormente previstos, por serem mais baratos, liberaria recursos para o saneamento da comunidade, uma demanda urgente e muito justa.   

A defesa do teleférico por parte da Emop é que ele permitiria a integração da comunidade com o metrô da Linha 4. No entanto a estação do teleférico mais próxima do metrô seria exatamente onde haveria um dos planos inclinados previstos. Depreende-se que a forte visibilidade do projeto teleférico e o fato de servir como atração turística leva o governo estadual a preferir essa opção.

Recentemente houve uma audiência pública sobre o projeto e o presidente da Emop foi muito contestado. Ele afirmou que iria fazer reuniões nos 32 sub-bairros da Rocinha para discutir o projeto.

Outra questão que move os moradores e os vizinhos de São Conrado é a questão do reassentamento de famílias moradoras de áreas de risco. O arquiteto Luiz Carlos Toledo havia projetado edifícios com apartamentos de até três quartos, mais adaptados ao tamanho de certas famílias da comunidade. No entanto, a Caixa Econômica só financiou prédios com apartamentos de até dois quartos. Alguns desses prédios foram construídos onde havia uma garagem de ônibus.

No momento, discute-se a construção de novos prédios que ocupariam uma área considerada como de preservação ambiental, o que vem mobilizando a vizinhança de São Conrado contra o projeto.

Os moradores continuam mobilizados e esperam que suas vozes sejam ouvidas e suas demandas sejam consideradas.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Mobiliário urbano carioca, ainda uma carência



Abrigo de ônibus da era Chagas Freitas

A oferta mais ampla de mobiliário urbano padronizado na Cidade do Rio de Janeiro é algo relativamente recente. No início do século XX, foram instalados em diversas praças os gloriosos bancos Paris, nunca igualados em qualidade. E também diversas linhas de postes em ferro fundido, ou arcos para sustentação de luminárias, que eram o símbolo do progresso que a iluminação pública trazia. Muito apreciado era o “colar de pérolas de Copacabana” formado pela linha de postes com iluminação a vapor de mercúrio, instalados em 1936, e que seguiam a curvatura da orla.  

Depois, pareceu que a administração pública da cidade se esqueceu de como equipamentos assim eram importantes. A sua qualidade caiu muito, e foram feitas diversas improvisações. Exemplo disso, eram os pavorosos abrigos de ônibus instalados no período em que Chagas Freitas governou o Estado. Eles traziam inscritos no concreto o nome do governador. Abrigar o cidadão do sol e da chuva era uma benesse do mandatário! Somente alguns anos depois, no governo Brizola, surgiram os abrigos pré-fabricados em concreto, projetados por João Figueiras Lima, o Lelé, e produzidos pela antiga Fábrica de Escolas, projeto também daquele período. Alguns desses abrigos ainda resistem por aí, até mesmo com outros usos, como na Praça Ben Gurion, em Laranjeiras.

Como a querer recuperar o tempo perdido, o projeto Rio Cidade, concebido pelo então Secretário de Urbanismo, e depois prefeito, Luiz Paulo Conde, derramou uma profusão de modelos de postes, de abrigos de ônibus, de bancos, de lixeiras e de jardineiras na cidade. Cada eixo escolhido para receber uma intervenção passou a ter sua própria linha de mobiliário urbano. Postes tortos, fradinhos com bolas metálicas atarraxáveis nas pontas (que rapidamente foram furtadas), luminárias de luz indireta, bancos de concreto, havia de tudo.

No entanto, logo se percebeu que faltava uma economia de escala nessa fórmula. A cada abrigo ou poste necessitando de reposição, se fazia necessária a sua produção de forma quase artesanal. Por serem poucas unidades, produzi-los encarecia demais o processo. Assim, na gestão do próprio Conde como prefeito, foi realizada uma licitação para a implantação de um conjunto de itens de mobiliário urbano na cidade por empresas especializadas, que substituíram a maioria desse mobiliário anteriormente instalado. Para efeito dessa licitação, a cidade foi dividida em três grandes áreas e, desde então, passamos a conviver com abrigos de ônibus, painéis de publicidade e relógios digitais padronizados, frutos de design industrial.

Parte importante e integrante daquela licitação era a colocação de banheiros públicos em toda a cidade. Seriam banheiros dotados de tecnologia, com sistemas autolimpantes, que atenderiam uma secular queixa dos cariocas de todas as idades: a falta de banheiros públicos nas ruas. Porém, muito rapidamente, começaram os problemas e adiamentos. As empresas ganhadoras das licitações implantaram os abrigos de ônibus, dotados de espaços para a exploração de publicidade, assim como os relógios e, logicamente, os painéis publicitários. Mas os banheiros, ah os banheiros...

Logo surgiram notícias nos jornais de que havia problemas para sua instalação. Dizia-se, por exemplo, que era difícil conseguir que o órgão responsável fizesse as ligações de esgoto. Os poucos que foram implantados ficaram sem manutenção e passaram a apresentar problemas. Durante a pandemia acabaram lacrados e até hoje seguem inutilizados.  

Mas, antes disso, o cartunista Ziraldo, grande na sua arte, mas talvez não tão bom designer, levou ao prefeito a proposta de um mictório público simplificado. Alguns protótipos foram instalados com o nome de Unidade Fornecedora de Alívio – UFA. Em seguida, o prefeito anunciou a instalação de 100 unidades de UFA na cidade. Usou-se, inclusive, os recursos para a instalação dos banheiros da licitação de mobiliário urbano padronizado.

O grande problema com esses mictórios é que eles eram instalados de forma improvisada, aproveitando bueiros de águas pluviais, sem ralos nos pisos que drenassem os excessos da falta de pontaria masculina. Os pisos onde esses mictórios foram instalados logo se transformaram em lugares com aquele odor característico, incomodando um bocado. Deve ser por isso que também sumiram da paisagem da cidade. Enquanto isso, as empresas vencedoras das licitações de mobiliário urbano, aparentemente, ficaram desobrigadas de instalar os banheiros com boa tecnologia que faltavam. Continuam a explorar somente o filé mignon da coisa, ou seja, os equipamentos portadores de publicidade. E a população carioca, como sempre, permanece sem banheiros públicos.   

Mobiliário urbano é coisa séria, e dá a medida do conforto que a cidade oferece a seus usuários. E também precisam ser bem desenhados. Um visível retrocesso, por exemplo, são as torres de ventilação de câmaras subterrâneas de eletricidade. Antes feitas em ferro fundido decorado, agora são simples e feias chaminés em concreto. O Rio precisa de mais bancos de praça (que tal reproduzir os bancos Paris?), mais abrigos de ônibus, banheiros públicos, postes de iluminação decentes, quiosques, e coretos nas praças. Quando os teremos?

 artigo publicado no Diário do rio em 26 de maio de 2022.

UFA no Largo do Machado



sábado, 8 de março de 2014

a calçada, o papa e a cidade

Escultura Papa João Paulo II na calçada da Catedral Metropolitana do Rio
Recentemente mais uma placa de esculturas e monumentos cariocas do Rio de Janeiro foi roubada. Desta vez foi aquela que identificava a escultura do papa João Paulo II na calçada da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, na Avenida Chile. Rouba-se tudo no espaço público carioca, especialmente peças em metal. Uma lástima. A curiosidade é que esse monumento ao papa entrou no lugar onde a Prefeitura pretendia instalar uma escultura de Ascânio M M. Dom Eugênio, então cardeal do Rio, disse não e mandou colocar a escultura que lá está. Assim é. Apesar de estar em frente à Catedral, a calçada da catedral não é reconhecida como pública. Na França, há alguns anos atrás, o prefeito de uma pequena cidade foi condenado a ressarcir os cofres públicos por ter mandado fazer uma estátua religiosa para uma praça da cidade...



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Vila Olímpica na Cidade Universitária



No Plano Diretor da UFRJ descubro que há a intenção de se fazer na Ilha do Fundão uma Cidade Esportiva com estádio de atletismo e futebol, parque aquático, ginásio poliesportivo, clube sócio esportivo, além de um espaço de lazer na orla e residências universitárias. Mas não é mais ou menos isso o programa da Vila Olímpica? Não seria esse o legado que as Olimpíadas deveriam deixar para a cidade? Muito difícil de aceitar a opção pela Barra da Tijuca. Só a especulação imobiliária explica...



Estrela Dalva de Paracuru

Paracuru - foto Roberto Anderson
Conheci grande personagem de Paracuru, motorista viajado que já rodou o Brasil e esteve em terras peruanas. Me disse que lá faz um friozinho que ele até apreciava, mas que com a idade não gosta mais não. 
Numa prosa rica de entonações que cativam a atenção do ouvinte e que, por via das dúvidas, se vale de pequenos toques no braço do seu interlocutor, me explicou como a estrela Dalva marca as estações. Repare moço que hoje a noite ela vai nascer ali naquele canto atrás da mangueira. Ela vai demorar uns meses pra chegar até lá em cima da lagoa. Ai é o inverno, depois do dia de São José e deve chover. Mas tem vezes que a estrela desce muito rápido daquele lugar. Aí lascou-se, é frio demais na Europa e o Japão se acabando em chuvas.
E mais me contou sobre La niña e El niño, mas aí já era outra estória.




domingo, 12 de janeiro de 2014

Patrimônio em agonia

Rua do Riachuelo com Rua dos Inválidos - Foto Washington Fajardo

Acompanhei a agonia desse prédio. Ele era ocupado por diversas famílias. A Defesa Civil resolveu interdita-lo e retirou os moradores. A partir daí, sem alguém que cuidasse de fazer um arranjo no telhado ou coisa assim, o prédio entrou ladeira abaixo. Sem cobertura, as paredes ameaçavam desabar. Os vizinhos chamavam a defesa civil e esta quando vinha, marretava (eu vi) as paredes superiores para que caíssem e iam embora. Só que as marretadas abalavam as paredes mais abaixo e meses depois lá estava a Defesa Civil marretando mais um pouco. No final, o proprietário ou os interessados em explorar o estacionamento terminaram o serviço. Como o Poder Público é cego ou venal, o estacionamento funciona ou funcionou por longos anos, recompensado o crime. Moral da história: às vezes é melhor não expulsar os invasores sem que se saiba que destino terá o prédio.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Para quem é a verba?

Sérgio Sá Leitão - Secretário de Cultura do Rio de Janeiro

Não só no Rio, mas também em outras capitais e Estados brasileiros, as Secretarias de Cultura vêm abdicando de importante funções que lhes são afeitas, como a de construir políticas culturais, promover projetos consistentes com duração além de alguns espetáculos e exposições, democratizar o acesso a meios de produzir cultura e de mostrar essa produção, e incentivar a renovação das linguagens. Ao invés disso, essas secretarias preferem repassar boa parte das verbas ao mercado, via produtores, o qual passa a ditar como o dinheiro público deve ser investido.
Quando essas mesmas secretarias decidem repassar verbas diretamente a projetos artísticos, suas escolhas recaem sobre projetos há muito tempo consolidados, que nem de longe representam o futuro. Não se está aqui a defender que projetos como o da OSB não sejam apoiados pelo Poder Público. Mas é evidente que as escolhas estéticas e culturais dos secretários, na maioria das vezes, são pessoais, refletindo o que conheceram ou assimilaram em seus anos de juventude. Essas Secretarias fazem escolhas mirando no passado, incapazes que são de acompanhar o desenvolvimento artístico do presente. Pedir-lhes que se informem sobre o que poderá ser o futuro seria, então, quase impossível.
Mas o mais grave mesmo é o vazio que deixam após o fechamento de um ciclo de poder. Nada se constrói. Nada permanece. O que se vê é o eterno recomeço com artistas e grupos artísticos inseguros sobre como sustentarão seus processos criativos para além da vigência de um edital.
   
"(...) o secretário Sérgio Sá Leitão assinando cinco convênios de quatro anos de duração com entidades escolhidas por ele e sua equipe. Por terem “excelência e público”, a Companhia de Dança Deborah Colker receberá R$ 2 milhões por ano; a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), R$ 6 milhões; o AfroReggae, R$ 3,5 milhões; o Grupo Tá na Rua, R$ 1 milhão; e a Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), R$ 460 mil. No total, só neste ano, foram distribuídos, entre os cinco grupos, R$ 13 milhões — um terço do que foi disponibilizado pela secretaria no edital de fomento à cultura da cidade (R$ 33 milhões)."

http://oglobo.globo.com/cultura/secretaria-de-cultura-repassa-13-milhoes-para-cinco-convenios-11116823


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ocaso de um bairro carioca

Lâmina projetada pelo escritório Niemeyer para a Brahma
Antiga Fábrica da Brahma no bairro do Catumbi - Rio de Janeiro
O Catumbi é um bairro que passou por uma longa e contínua desestruturação. Já em 1980, o excelente livro “Quando a Rua vira Casa”, de Arno Vogel e Marco Antônio da Silva Mello, com ilustrações de Orlando Mollica, retratou como os moradores foram afetados pelas demolições ali realizadas para a construção do viaduto de triste nome (31 de março), que liga o Túnel Santa Bárbara à Área Portuária. Aliás, que prefeito terá a coragem necessária para sanar esse problema? 

Em 1984, foi construído o Sambódromo, que consolidou a separação entre os dois lados do bairro: aquele junto à encosta de Santa Teresa e o restante, nas proximidades do Cemitério do Catumbi e do antigo presídio da Frei Caneca. O arquiteto Augusto Ivan de Freitas Pinheiro, atual Secretário de Urbanismo do Rio de Janeiro, tempos atrás, analisou essa ruptura em brilhante artigo de página inteira no antigo Caderno B do Jornal do Brasil.

O presídio foi desativado e integralmente demolido no governo Cabral. Ao contrário do ocorrido no Carandiru, em São Paulo, onde dois pavilhões foram mantidos e ganharam novos usos, do presídio da Frei Caneca nada sobrou. Ou por outra, sobrou apenas o portal desconectado do contexto original. Por mais dolorosas que sejam suas histórias, resquícios de antigos presídios podem nos ensinar sobre as mazelas de nossas sociedades. Mas, como fez Brizola com o presídio da Ilha Grande, nossos governantes preferem o apagamento desses testemunhos da brutalidade humana.

Prometia-se a construção de edifícios residenciais no lugar do antigo presídio, e havia a esperança de que um bom projeto fosse escolhido. Vã esperança. O projeto edificado foi um conjunto habitacional do gênero Minha Casa Minha Vida, cuja implantação e tipologia tem pouca integração com a arquitetura e o tecido urbano do bairro.

Conjunto habitacional no terreno do antigo presídio da Frei Caneca

O último golpe veio em 2011, com a demolição da Fábrica da Brahma, imóvel que era parte da área de ambiência do tombamento do Sambódromo. Com os órgãos de tombamento pressionados pelos governantes, a absurda demolição foi aprovada. Concretizou-se uma operação financeira, cujo balanço não ficou muito transparente. A cervejaria pagou a construção de mais um trecho do Sambódromo e em troca ganhou o direito de demolir sua fábrica histórica para erguer em seu lugar uma lâmina com 80 metros de altura (vinte pavimentos). Alguns elementos decorativos do edifício foram enviados para Petrópolis, ou seja, nem aqui ficaram.


O edifício projetado por Oscar Niemeyer (mais de seu escritório do que do próprio autor, já que o mesmo se encontrava bastante doente à época), um objeto prismático de vidros escuros espelhados, se insere como outro alienígena numa área que ainda conta com dezenas de sobrados ecléticos e edifícios da qualidade do Hospital Escola São Francisco da UFRJ. Ao comentar sua construção (O Globo de 01/12/2013), bem como o potencial da área para o mercado imobiliário, o então presidente do órgão de Patrimônio municipal se entusiasmou dizendo: Agora parece que vai! Realmente não tem sido fácil a proteção de paisagens culturais nesse nosso Rio de Janeiro dos dias atuais. Passados tantos anos, o novo edifício permanece subutilizado, um elefante cinza no Catumbi, que segue esvaziado e maltratado.


Artigo publicado no Diário do Rio em 20 de abril de 2023.  



terça-feira, 12 de novembro de 2013

O que Yeb Sano falou à COP19

Yeb Sano, representante das Filipinas

O discurso do representante das Filipinas na COP19 - 19º Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas em Varsóvia  tocou a todos os presentes por vir do representante de um país que acabava de viver uma catástrofe, muito provavelmente, já fruto das alterações climáticas por que passa nosso planeta. O Supertufão Haiyan (ou Yolanda) varreu o território filipino com uma fúria pouco vista matando milhares de pessoas e deixando um sem número de desabrigados. O representante daquele país na COP19 foi pessoalmente tocado, já que membros de sua própria família foram atingidos.   



Discurso à COP19, por Yeb Sano, líder da delegação filipina

Sr. Presidente, tenho a honra de falar em nome do povo resiliente da República das Filipinas.

No início , permita-me que minha delegação endosse plenamente a declaração feita pelo ilustre Embaixador da República de Fiji, em nome do G77 e China , bem como a declaração feita pela Nicarágua, em nome dos países em desenvolvimento com interesses semelhantes.

Em primeiro lugar, o povo das Filipinas, e nossa delegação aqui para a 19a Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas aqui em Varsóvia, do fundo de nossos corações, muito agradecem pela sua expressão de solidariedade para com o meu país em face dessa dificuldade nacional.

Em meio à tragédia, a delegação das Filipinas é consolada pela hospitalidade da Polônia, com o seu povo nos oferecendo sorrisos em todos os lugares que vamos. Os funcionários do hotel e as pessoas nas ruas, voluntários e trabalhadores dentro do Estádio Nacional têm calorosamente nos oferecido palavras amáveis ​​ de apoio. Então, obrigado à Polônia.

Os arranjos que foram feitos para esta COP também são os mais excelentes e nós apreciamos muito o esforço tremendo que vocês puseram nos preparativos para este importante encontro.

Agradecemos também a todos vocês, amigo(a)s e colegas nesta sala e de todos os cantos do mundo, pelo modo como vocês se colocaram ao nosso lado neste momento difícil. Agradeço a todos os países e governos que estenderam a sua solidariedade e ofereceram assistência para as Filipinas. Agradeço aos jovens aqui presentes e aos bilhões de jovens de todo o mundo que estão ao lado da minha delegação e que estão nos assistindo moldar o seu futuro. Agradeço à sociedade civil, tanto os(as) que estão trabalhando em campo, correndo contra o tempo nas áreas mais atingidas, e aquele(a)s que estão aqui em Varsóvia, nos estimulando a ter um sentido de urgência e de ambição. Estamos profundamente comovidos por esta manifestação de solidariedade humana. Esta manifestação de apoio revela-nos que, como raça humana, podemos nos unir, para cuidar daquilo que nos importa como espécie.

Passaram-se apenas 11 meses desde Doha, quando minha delegação apelou ao mundo para abrir os olhos para a dura realidade que enfrentamos, visto que, então, estávamos também diante de uma tempestade catastrófica que resultou na calamidade mais cara da história das Filipinas. Menos de um ano , portanto, não podíamos imaginar que um desastre muito maior viria! Com uma aparente crueldade do destino, o meu país está sendo testado por este inferno chamado Supertufão Haiyan, que foi descrito por especialistas como o mais forte tufão que já atingiu um pedaço de terra no curso da história humana. Era tão forte que, se houvesse uma categoria 6, ele teria sido encaixado imediatamente. Até este momento, continuamos incertos quanto à extensão da devastação , já que a informação nos chega de uma forma dolorosamente lenta, a conta-gotas, porque as linhas de energia elétrica e de comunicação foram cortadas e pode demorar um pouco até que estes sejam restauradas. A avaliação inicial é a de que Haiyan deixou um rastro de destruição em massa que não tem precedentes, impensável e terrível , afetando 2/3 das Filipinas , com cerca de meio milhão de pessoas agora desabrigadas, e com cenas que lembram as consequências de um tsunami, com um vasto deserto de lama e escombros e cadáveres. De acordo com satélites da National Oceanic and Atmospheric Administration dos EUA estimou-se que Haiyan haja alcançado uma pressão mínima entre cerca de 860 mbar (hPa ou 25,34 inHg ) e o Joint Typhoon Warning Center estima que Haiyan possa ter atingido ventos sustentados por um minuto ou mais de 315 km/h (195 mph) com rajadas de até  378 km/h ( 235 mph ), tornando-o o mais forte tufão na história moderna. Apesar dos grandes esforços que o meu país tinha feito na preparação para o ataque de uma tempestade-monstro, ele era simplesmente uma força poderosa demais e até mesmo para uma nação familiarizada com tempestades, o Supertufão Haiyan foi como nada que já tivéssemos experimentado antes, ou talvez nada que qualquer país já tenha experimentado antes!

O quadro, no rescaldo, emerge muito lentamente rumo a uma visão mais clara. A devastação é colossal! E como se isso não fosse suficiente, outra tempestade está se formando novamente nas águas quentes do Pacífico ocidental. Tremo só de pensar em um outro tufão atingindo os mesmos lugares onde as pessoas ainda nem sequer conseguiram começar a se levantarem...

Para quem continua a negar a realidade que é a mudança climática, eu desafio a sair de sua torre de marfim e ficar longe do conforto da sua poltrona! Eu desafio a ir para as ilhas do Pacífico , as ilhas do Caribe e as ilhas do Oceano Índico e ver os impactos da elevação do nível do mar, para as regiões montanhosas do Himalaia e os Andes para ver as comunidades enfrentarem inundações por degelo, para o Ártico, onde as comunidades tentam lidar com a rápida diminuição da calota polar, para as grandes deltas do Mekong, o Ganges , o Amazonas e o Nilo, onde vidas e meios de subsistência são perdidos em enchentes, para as colinas da América Central que enfrenta furacões monstruosos semelhantes, para as vastas savanas da África, onde as mudanças climáticas também se tornam uma questão de vida ou morte, com comida e água se tornando escassa. Não esqueçamos os enormes furacões no Golfo do México e da costa leste da América do Norte. E se isso não for suficiente, você pode querer fazer uma visita às Filipinas no momento!

A ciência deu-nos uma imagem que se torna cada vez mais clara. O relatório do IPCC sobre mudança climática e eventos extremos ressaltou os riscos associados às mudanças nos padrões climáticos bem como a frequência de eventos extremos. A ciência nos diz, simplesmente, que a mudança climática vai implicar em tempestades tropicais mais intensas. À medida que a Terra se aquece, o que inclui os oceanos, a energia que é armazenada nas águas nas vizinhanças das Filipinas vai aumentar a intensidade de tufões e a tendência que vemos agora é que as tempestades mais destrutivas serão a nova norma.

Isto terá implicações profundas em muitas de nossas comunidades , especialmente as que lutam contra o duplo desafio da crise de desenvolvimento e a crise da mudança climática. Tufões , como Yolanda (Haiyan) e seus impactos representam um lembrete preocupante para a comunidade internacional de que não podemos nos dar ao luxo de adiar a ação climática. Varsóvia deverá se entregar a um esforço ambicioso e deve reunir a vontade política necessária para enfrentar a mudança climática.

Em Doha, perguntamos: "Se não nós, então quem? Se não for agora, então quando? Se não for aqui, onde?" (Emprestado do líder estudantil filipino Ditto Sarmiento , durante a Lei Marcial). Essa frase pode ter caído em ouvidos moucos. Mas aqui em Varsóvia, pode-se muito bem fazer essas mesmas perguntas francas: "Se não nós , quem? Se não for agora, então quando? Se não for aqui em Varsóvia, onde?"

O que o meu país está a atravessar, como resultado deste evento climático extremo, é loucura. A crise climática é uma loucura!

Nós podemos parar com esta loucura! Aqui em Varsóvia!

É a 19ª COP , mas poderíamos muito bem parar de contar, porque o meu país se recusa a aceitar que será necessária uma COP30 ou uma COP40 para resolver a questão da mudança climática. E porque parece que, apesar dos ganhos significativos que tivemos desde que a UNFCCC nasceu, há 20 anos, portanto, continuamos a falhar no cumprimento do objetivo final da Convenção? Agora, nos encontramos em uma situação em que temos de perguntar a nós mesmos – será possível nunca atingir o objetivo definido no artigo 2 º - que é evitar interferência antrópica perigosa com o sistema climático? Ao não cumprir o objetivo da Convenção, podemos estar sancionando a condenação de países vulneráveis!

E se não conseguimos cumprir o objetivo da Convenção, temos que enfrentar o problema de perdas e danos. Perdas e danos associados à mudança climática são uma realidade hoje em todo o mundo. Metas de redução de emissões dos países desenvolvidos estão perigosamente baixas e devem ser elevadas imediatamente, mas mesmo se eles estivessem de acordo com a demanda de redução de 40-50% abaixo dos níveis de 1990, ainda teríamos algumas alterações climáticas inevitáveis e ainda seria preciso lidar com a questão das perda e danos.

Nós nos encontramos em um momento crítico e a situação é tal que até mesmo as metas mais ambiciosas de redução de emissões por parte dos países desenvolvidos, que deveriam ter assumido a liderança na luta contra a mudança climática nas últimos 2 décadas, não serão suficientes para evitar a crise. Agora é tarde demais, tarde demais para falar sobre o mundo ser capaz de confiar em países do Anexo I (do protocolo de Kyoto, isto é, países desenvolvidos) para resolver a crise climática! Entramos em uma nova era  que exige a solidariedade global, a fim de combater a mudança climática e garantir que a busca do desenvolvimento humano sustentável continue na linha da frente dos esforços da comunidade global. É por isso que os meios de apoio para os países em desenvolvimento são cada vez mais cruciais.

Foi o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, Maurice Strong , que disse que "a história nos lembra que o que não é possível hoje pode ser inevitável amanhã".

Nós não podemos sentar e ficar impotentes olhando para este impasse climático internacional. Agora é hora de agir. Precisamos de uma rota climática de emergência!

Eu falo pela minha delegação. Mas mais do que isso, eu falo pelas inúmeras pessoas que deixarão de ser capazes de falar por si mesmas depois de perecerem sob a tempestade. Também falo por aquele(a)s que ficaram órfã(o)s por esta tragédia. Também falo pelas pessoas correndo agora contra o tempo para salvar os sobreviventes e aliviar o sofrimento das pessoas afetadas pelo desastre.

Podemos tomar medidas drásticas agora para garantir que evitemos um futuro onde supertufões sejam parte do dia-a-dia da vida. Porque nos recusamos, como nação, a aceitar um futuro onde supertufões como Haiyan sejam um fato corriqueiro. Nós nos recusamos a aceitar que fugir de tempestades, evacuando as nossas famílias que sofrem com a devastação e a miséria e tendo que contar os nossos mortos, torne-se a nossa vida! Nós simplesmente nos recusamos a isso!

Devemos parar de chamar eventos, como esse desastre, de naturais. Não é natural que as pessoas continuem a lutar para erradicar a pobreza e buscar o desenvolvimento e sejam golpeados pelo ataque de uma tempestade-monstro, agora considerada como a tempestade mais forte que já atingiu terra habitada. Não é natural pois a ciência já nos disse que o aquecimento global vai provocar tempestades mais intensas! Não é natural, quando a espécie humana já mudou profundamente o clima!

E desastres nunca são naturais. Eles são a interseção de outros fatores além dos físicos. Eles resultam do acúmulo da violação constante dos limites econômicos, sociais e ambientais. A maioria dos desastres meteorológicos é resultado da desigualdade e as pessoas mais pobres do mundo estão em maior risco devido à sua vulnerabilidade e décadas de subdesenvolvimento, que, diga-se de passagem, é ligado ao tipo de busca do crescimento econômico que domina o mundo, o mesmo tipo de busca do chamado crescimento econômico e consumo insustentável, que alterou o sistema climático!

Supertufão Haiyan vistodo espaço - Agência Espacial Japonesa
Agora, se me permitem, quero falar em um tom mais pessoal.

O Supertufão Haiyan desembarcou na cidade natal de minha família e a devastação é impressionante. Eu me esforço para encontrar palavras diante das imagens que vemos a partir da cobertura da imprensa. Eu me esforço para encontrar palavras para descrever como me sinto sobre as perdas e danos que sofremos com este cataclismo.

Até essa hora , eu agonizo enquanto espero por notícias quanto ao destino de meus próprios parentes. O que me dá força renovada e grande alívio foi quando o meu irmão conseguiu se comunicar conosco, para dizer que ele sobreviveu ao ataque (de Haiyan). Nos últimos dois dias, ele ficou recolhendo corpos dos mortos com suas próprias mãos. Ele está com fome e cansado, já que suprimentos e alimentos têm dificuldade de chegar nas áreas mais atingidas .

Chamamos esta COP para prosseguir os trabalhos até que um resultado significativo esteja à vista. Até que sejam feitas promessas concretas para garantir a mobilização de recursos para o Fundo Verde para o Clima. Até que a promessa de criação de um mecanismo de proteção sobre perdas e danos seja cumprida, até que haja segurança no financiamento para adaptação, até que as vias concretas para alcançar os necessários 100 bilhões de dólares sejam construídas, até que vejamos uma ambição real sobre a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa. Devemos colocar o dinheiro onde nossas bocas estão!

Este processo sob a UNFCCC tem sido chamado de muitos nomes. Ele tem sido chamado de uma farsa . Ele tem sido chamado de um encontro anual, intensivo em queima de carbono, de passageiros frequentes inúteis. Ele tem sido chamado de muitos nomes. Mas ele também tem sido chamado de Projeto para salvar o planeta. Ele tem sido chamado de "salvar o amanhã hoje" . Nós podemos consertar isso. Nós podemos parar com esta loucura. Agora. Aqui mesmo, no meio deste estádio de futebol (a COP se realiza no Estádio Nacional, em Varsóvia).

Peço-lhes para nos liderar. E que se deixe a Polônia para sempre conhecida como o lugar em que realmente nos importamos em parar com esta loucura . A Humanidade pode se mostrar à altura da ocasião ? Eu ainda acredito que sim, que nós podemos!