sábado, 27 de março de 2021

O linchamento do servidor


Nesta semana me vi envolvido num turbilhão de forças políticas que buscaram me pintar como alguém com os piores sentimentos do mundo, capaz de desejar a morte de alguém, no caso o Presidente da República.

Sou de oposição, me orgulho de não ter votado no atual Presidente, justamente por antever ameaças à democracia que os seus seguidos mandatos como Deputado já demonstravam. Mas nem nos meus piores pesadelos poderia imaginar que a ação política do Presidente levaria o Brasil à catastrófica situação em que se encontra. Por sua ação contra a compra de vacinas, por sua incitação às aglomerações contagiantes, por desacreditar o uso das máscaras, pela recomendação do uso de remédios sem comprovação científica, e por intervenção direta na política de saúde, ao demitir ministros comprometidos com o combate à pandemia, chegamos à inacreditável soma de 300 mil mortos, com tendência de crescimento. Médicos e enfermeiros estão exaustos, muitos tendo morrido, hospitais estão superlotados, nem todos os doentes conseguem atendimento, e os cemitérios são densamente povoados pelos corpos dos vencidos.

Na última quinta-feira participei de reunião de trabalho em que pessoas tiravam as máscaras, ou se aproximavam perigosamente sem as mesmas, num claro sinal de incompreensão da gravidade do momento. À noite, cheguei em casa cansado, depois de trabalhar o dia inteiro com minha máscara apertada, temendo por minha saúde, e fiz um desabafo no Facebook. Escrevi “quero o fim político ou físico de Bolsonaro”. Claro que não desejo matar ninguém, não acredito em soluções violentas, sou da paz. O que escrevi era a expressão de uma vontade por uma solução mágica, que fizesse o presidente desaparecer, se desmanchar no ar, ser apenas um pesadelo que não mais existisse quando acordássemos. E assim, as pessoas de bem, e da ciência, poderiam cuidar da pandemia, dar fim a esse momento trágico no país.

Um dia após minha postagem, já havia muitos ataques de seguidores do Presidente da República. Dois dias depois fui surpreendido por um vídeo do Deputado Federal Luiz Lima dizendo que havia pedido à PGR o meu enquadramento na Lei de Segurança Nacional. E em seguida, surgiu um vídeo no YouTube me apresentando como um ser execrável. Estou realmente assustado com o desenrolar dos acontecimentos e com a possibilidade de alguma ação extremada contra minha pessoa.

Admito que o que eu escrevi pode ter deixado brechas a outras interpretações. Somos falhos, muitas vezes erramos. Mas tenho a absoluta certeza de que não tenho desejos de violência contra ninguém. No entanto, estou sendo acusado de incitação a um crime. Como incitar alguém se escrevi na primeira pessoa do singular? Sujeito oculto eu, não há como conclamar ninguém. Qualquer que seja o conteúdo do que escrevi, é a expressão de um pensamento pessoal. Não lidero grupos, nem fanáticos.

E aí entramos perigosamente no campo do cerceamento da liberdade de expressão. A invocação à Lei de Segurança Nacional, reconhecida por diversos juristas como um entulho da ditadura militar, tem como única finalidade acossar opositores do Presidente, fazê-los se sentirem ameaçados pelo Estado, calar suas vozes. Levantamento feito pela equipe de advogados congregada por Felipe Neto encontrou mais de 200 pessoas no Brasil sofrendo ameaças semelhantes. Isso é uma situação absurda, um retrocesso, uma ameaça à democracia!

Um dos comentários escritos por apoiadores da atitude do Deputado é bem exemplificador do pensamento dominante entre esse grupo: “Esse bandido tinha que ser funcionário público”. O Deputado vem pressionando o Prefeito em relação a diversas questões das quais discorda, como o cancelamento do carnaval, a desativação de hospitais de campanha, a interdição das praias no auge da pandemia, e o fechamento de atividades na cidade visando a redução de casos de Covid-19 e de internações, e consequentemente de mortes. Não teve muito sucesso. Mas, ao se deparar com a postagem de um cidadão, pareceu encontrar um ponto fraco, onde sua pressão sobre a Prefeitura poderia ter sucesso. Fui usado numa suja disputa política.

Para meu conforto, um conjunto imensamente expressivo de entidades de classe, como o Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB-RJ, o Sindicato de Arquitetos do Rio de Janeiro - SARJ, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo – CAU-RJ, a Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura – FENEA, a Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e urbanismo – ABEA, a Associação Brasileira de Arquitetos e Paisagistas – ABAP, e a Sociedade de Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro – SEAERJ vieram a público afirmar que uma punição ou exoneração estaria ferindo “as prerrogativas constitucionais asseguradas a todo cidadão, registradas no artigo quinto, inciso IV da Carta Constitucional, sobre a liberdade de expressão e manifestação de livre pensamento.”

Também individualmente um número imenso de amigos, colegas, políticos e conhecidos vieram demonstrar seu apoio aos meus direitos, e à minha integridade física e emocional. É esse amparo que permite atravessar a atual tormenta, sabendo que a rejeição a toda essa situação não se trata da proteção apenas à minha pessoa, mas à liberdade de expressão dos brasileiros. A democracia é um bem precioso que nos custou muito alcançar. Não podemos ceder nem um milímetro! O Brasil é maior do que esses que nos atacam.

artigo publicado no Diário do Rio em 25/03/2021


A restauração da cobertura de cobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro


Há vários anos já vinha se cogitando sobre a necessidade de se realizar a restauração da cobertura de cobre do Teatro Municipal. Entre outros problemas, ela já apresentava perda de estanqueidade das chapas de cobre, permitindo a passagem da umidade. Algumas chapas examinadas permitiam a constatação a olho nu das micro-fissuras existentes. Havia o desgaste natural, afinal o Theatro estava fazendo cem anos. Mas também ocorreram intervenções equivocadas ao longo desse tempo. Foram encontradas, por exemplo, chapas presas com pregos, o que permitia a entrada da água pela perfuração realizada, e um produto de vedação, que havia sido aplicado, já deteriorado e fixado ao cobre. Além disso, as pessoas responsáveis pela manutenção do edifício terminavam por ajudar no desgaste ao pisar nas partes planas e mesmo sobre partes mais frágeis, como cúpulas e ornatos.

As calhas em cobre também apresentam problemas, como rachaduras e perfurações por pregos, que prejudicavam a sua estanqueidade. E havia obstruções nos tubos de queda. Tantos problemas levaram à ocorrência de infiltrações nos tetos artísticos das rotundas e do corpo central sobre o foyer. Neste último, o painel de Visconti chegou a ser bastante danificado.

Diversas alternativas técnicas foram buscadas para essa restauração. Chegou-se a se pensar na substituição total do madeiramento, das chapas planas e da maior parte dos ornatos em cobre. Tal alternativa, no entanto, era excessivamente cara e não previa o aproveitamento dos ornatos originais, verdadeiras obras de arte.

Mas, em 2008, o Theatro obteve o patrocínio do BNDES e da Petrobras, o que, afinal, possibilitou a execução da obra. Foi escolhida a empresa Ópera Prima para a condução dos trabalhos de restauro da cobertura e, para a execução dos serviços em cobre, foi contratada a empresa N.Didini, que já havia executado serviços semelhantes na cobertura de cobre da Catedral da Sé de São Paulo. A obra foi acompanhada pelo IPHAN e pelo INEPAC.

A restauração foi executada baseando-se na premissa de que os ornatos deveriam ser mantidos após serem recuperados. Eles foram tratados caso a caso, promovendo-se a “lanternagem”, a soldagem das partes soltas, e a substituição de partes deterioradas. Somente as chapas planas foram integralmente substituídas.

A obra teve início pelas duas rotundas e pelo corpo central sobre o foyer, elementos na parte frontal da cobertura. Posteriormente a obra foi avançando para outras partes da cobertura. Cada peça desmontada cuidadosamente recebeu uma identificação indicativa de sua posição, material e função. Numa ficha foram lançados os problemas encontrados e as intervenções necessárias.

A obra contemplou também o madeiramento abaixo das chapas de cobre. Madeiras ou partes delas que estavam comprometidas foram substituídas usando o ipê cumaru. No madeiramento do corpo central sobre o foyer foram encontradas madeiras originais em pinho de Riga e outras peças já substituídas.

Uma característica conhecida das coberturas de cobre é a cor verde, resultado da pátina que se forma ao longo do tempo. A substituição das chapas lisas produziria uma diferença de cor entre as novas chapas e os ornatos já esverdeados. Assim, optou-se por patinar as novas chapas, visando uma apreensão mais uniforme do conjunto. O processo consistiu em aplicar um produto, capaz de provocar a pátina, deixando as mesmas por um tempo numa estufa com nuvem de água em dispersão. Na presença da umidade, a reação necessária se produzia.

O douramento dos ornatos foi um capítulo à parte na restauração do Theatro Municipal. No passado já haviam sido feitas prospecções que encontraram resquícios de douramento nos mesmos. Ao se fazer a sua remoção para o restauro, foi possível comprovar a existência desse douramento, ainda existente em algumas partes. Fotos antigas, especialmente as de Augusto Malta, também confirmaram esta percepção. No entanto, não foram encontrados no Brasil profissionais que realizassem o douramento sobre cobre no exterior de edificações.

Pesquisas que realizei me levaram ao atelier de Fabrice Gohard, de Paris, que havia feito as obras de douramento da cúpula da Ópera de Paris, da chama da estátua da liberdade em Nova Iorque e da cobertura do Palácio de Versailles. Foi realmente uma grande sorte tê-lo tido à frente do douramento da cobertura do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que agora segue lindo, nos encantando por pelo menos mais cem anos.

artigo publicado no Diário do Rio em 18/03/2021


Repensando o Porto Maravilha

A Perimetral - foto Roberto Anderson

O Estatuto das Cidades, de 2001, reuniu legislações anteriormente existentes a novas propostas, longamente defendidas por arquitetos e urbanistas. Entre elas estão a outorga onerosa e as operações consorciadas. A primeira se refere à possibilidade de a municipalidade estabelecer um índice mínimo de aproveitamento do terreno, ou seja, quantas vezes a medida da sua área pode servir de parâmetro para o direito líquido e certo de se edificar. Assim o índice 1 permitiria ao proprietário edificar o correspondente a uma vez a área do terreno. Tudo o que passasse desse índice seria mediante pagamento à municipalidade. Já a operação consorciada permite estabelecer por lei um perímetro onde essa outorga onerosa se dará e a exigência de que os recursos auferidos serão investidos na área definida pela operação.

O Porto Maravilha é uma operação consorciada. Diferentemente do que ocorreu na urbanização da Barra da Tijuca, quando o poder público arcou com os investimentos em infraestrutura, e o capital imobiliário capturou os ganhos com a enorme valorização dos terrenos, o projeto buscou, acertadamente, recuperar os investimentos públicos. Através do leilão das Cepacs, os Certificados de Potencial Construtivo, ou seja, o potencial de construção acima do índice 1, a Prefeitura intencionou levantar recursos para pagar os investimentos, como a demolição da Perimetral, a construção do Túnel Marcelo Alencar, as novas galerias de águas pluviais, etc.

Essas obras, por terem  sido extremamente custosas, obrigaram a emissão de um volume alto de Cepacs, obtido com a elevação dos gabaritos da área, que variam de 30 a 50 pavimentos. Na falta de compradores no momento do seu lançamento, a Prefeitura foi socorrida pela Caixa Econômica Federal que, de uma vez, arrematou a totalidade dos certificados disponíveis.

O tempo mostrou que esse não foi um bom negócio para a Caixa. A sua entrada no negócio teve, obviamente, uma interferência política. Na sequência advieram a crise econômica do governo Dilma, a do governo Bolsonaro e a pandemia. Sem liquidez, a Caixa deixou de fazer repasses ao consórcio de empresas privadas responsável pelos investimentos e pela manutenção da área do projeto, o que levou a Prefeitura a reassumir ali os serviços públicos.    

A situação atual é de aguda crise econômica, sem perspectivas de saída a curto prazo, baixos investimentos da construção civil, uma Área Portuária que ainda não conseguiu entregar as suas maravilhas e um grande volume de certificados parados, em posse da Caixa Econômica. É necessário pensar saídas.

A relação entre o volume de Cepacs e o estoque de terrenos para sua aplicação se encontra estática. Se o valor delas fosse reduzido, a Caixa arcaria com o prejuízo, pela diferença de preço que pagou pelas mesmas. Mas e se o estoque de terrenos fosse ampliado? Talvez houvesse um aumento da demanda pelos certificados, facilitando a sua saída. Isso poderia se dar com a incorporação de bairros vizinhos à Área Portuária à Operação Consorciada do Porto Maravilha. O Caju e São Cristóvão, com enormes possibilidades de edificação, seriam bons candidatos a integrarem a Operação.

Como a Operação do Porto Maravilha é fruto de uma lei, a ampliação da sua base territorial teria que se dar por nova lei a ser votada na Câmara de Vereadores. Seria também uma oportunidade para se corrigir dois graves problemas do projeto: a ausência de um Estudo de Massa, que defina que imagem urbana se deseja alcançar, e a reserva de terrenos para a habitação, especialmente a habitação social, a grande ausente do projeto.

A paralisação do projeto Porto Maravilha não é boa para a cidade, nem para a construção civil. Decisões que rompam a atual inércia precisam ser tomadas. É hora de se buscar propostas e soluções.

artigo publicado no Diário do Rio em 11/03/2021

sexta-feira, 5 de março de 2021

A ruína de nossas edificações

Parque das Ruínas - foto Roberto Anderson

Tendo sido convidado a participar de uma banca de conclusão de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF, para análise de uma dissertação, cujo tema está relacionado à percepção e exploração de imóveis arruinados, fui levado a pensar sobre essa questão.

Nossas cidades estão repletas de imóveis nessa situação, pelas mais diversas causas. No Rio de Janeiro, são muitos os antigos galpões industriais tornados inúteis pela decadência econômica da cidade, especialmente a decadência do seu setor industrial. Bairros inteiros, como São Cristóvão e demais bairros da Zona Norte estão coalhados desses prédios abandonados, saqueados pela falta de cuidados, à espera do desabamento, da demolição, ou da grande sorte da reconversão.

Mas não são só grandes galpões e edifícios industriais a sofrer o processo de arruinamento. Por todos os bairros mais antigos da cidade há sobrados, cujas coberturas já se foram, e que permanecem com suas paredes descascadas, inabitados ou invadidos por quem não tem mais do que isso. Às vezes só as fachadas, já sem janelas, se equilibram sabe-se lá como, sem apoios laterais. Incêndios, propositais ou não, falta de recursos para realizar a manutenção, desaparecimento dos proprietários, muitas são as causas desse abandono.

Quando protegidos por algum órgão de Patrimônio, em geral, se recomenda a reconstrução, com a recuperação daquilo que for possível, sem a criação de falsos elementos históricos. Um pouco raramente, o milagre se dá, e aquilo que parecia condenado ao arrasamento ressurge recuperado, habitado, reentrado na rotina dos imóveis em uso na cidade. Mas a verdade é que os recursos são escassos e a grande maioria segue sua sina em direção ao arrasamento, após longos anos de agonia fantasmagórica.

Alguns desses imóveis, no entanto, se consolidam no nosso imaginário como ruínas. Tornam-se parte da paisagem exibindo suas entranhas tomadas por vegetação, suas paredes nuas recobertas pelo limo, a tal ponto que já não desejamos sua reconstrução, mas apenas a redução do ritmo de sua continuada decadência. Como se pudessem ser congelados no estágio de deterioração em que se encontram, sem prosseguimento em direção ao arrasamento, ou retorno à condição original.

O Convento São Boaventura, em Itaboraí, é um exemplo de ruína consolidada, tanto imageticamente, quanto estruturalmente, após intervenções que estancaram seu processo de arruinamento. Da mesma forma a Igreja São José da Boa Morte, em Cachoeiras de Macacu foi objeto de tombamento na sua condição de ruína, não cabendo a sua reconstrução. Ambos foram abandonados após surtos de doenças endêmicas, como cólera e malária, que ali grassavam no século XIX.

No bairro de Santa Teresa existe um belo exemplo de recuperação híbrida de um imóvel, que permitiu o seu uso sem o retorno à sua condição original, mantendo-se a imagem de ruína. Trata-se do Parque das Ruínas que, após intervenção projetada pelo arquiteto Ernani Freire, tornou visitável a antiga casa de Laurinda Santos Lobo. Mas não foi desfeito o trabalho do tempo e do vandalismo sofrido pela casa, que descascou suas paredes e suprimiu esquadrias, pisos e tetos. Depois de tanto tempo existindo naquelas condições, a sua imagem como ruína já havia se incorporado à do bairro.

Mas como distinguir imóveis arruinados, que tanto poderão ser recuperados, como resvalarem para o arrasamento quase completo, daqueles que se consolidam no nosso imaginário como ruínas? É pouco clara essa separação, é subjetiva, mas é preciso buscá-la. Só a ação do tempo, mas não de um tempo curto, mas de um tempo alongado, cobrindo mais de uma geração, pode criar essa percepção.

Assim, passaríamos a tratá-los de "lugares abandonados", arruinados talvez, para criar uma separação com a expressão ruína. O simples abandono não gera ruína. O desabamento de um telhado, ou de algumas paredes, não é suficiente para gerar a percepção de ruína. Em arquitetura, essa não é uma questão trivial. Exige sensibilidade de quem se depara com um imóvel arruinado. Pode se propor a sua recuperação ou a sua restauração. Mas há um ponto, que é dado pelo tempo, pela sedimentação no imaginário das pessoas da sua forma arruinada, em que a propositura de recuperação soaria equivocada.

De qualquer forma é triste ver como o direito à propriedade, levado às últimas consequências, produz tanto dano e tanta destruição. Há instrumentos de intervenção para estancar tal epidemia de arruinamento. O Estatuto das Cidades cria essas condições. Mas como é difícil convencer os gestores públicos a lançarem mão dos mesmos!

artigo publicado no Diário do Rio em 04 de março de 2021


O Serro e a mineradora

Igreja de Santa Rita - foto Rogério Emerson

A cidade em que nossos pais nasceram, quando diferente da nossa, é um pouco como o segundo time do coração. A cidade da minha mãe é o Serro, em Minas Gerais. Dela, ouvia histórias, como a da caça a pepitas de ouro feita pelas crianças entre as pedras das ruas, após uma chuvarada. Ou a da marcha dos jovens se despedindo da cidade por terem se alistado para lutar na Segunda Guerra. Mas as melhores histórias eram sobre bailes no clube da cidade, quando minha mãe podia se gabar dos seus feitos como boa dançarina, de sua predileção por esse ou aquele parceiro de tango, e de como seu pai não achava nada apropriadas aquelas liberdades.

Visitei a cidade por diversas vezes ao longo da vida. Alguns tios e primos lá permaneciam e eu tinha onde me hospedar. Lá presenciei a força da enxurrada pelas ruas, imaginando se ainda seria possível encontrar pepitas. Lá vi uma procissão com as mulheres carregando pedras nas cabeças em cumprimento a promessas nem sempre atendidas. Lá subi em árvores gigantescas para comer bacupari. E lá conheci o “footing”, o hábito de passear todas as noites pela praça, indo e vindo, os brancos na parte externa e os negros na parte interna da mesma.

O Serro é uma cidade colonial do ciclo do ouro, protegida na primeira leva de cidades tombadas pelo Iphan, de onde já saíram brasileiros ilustres (essa frase sempre é usada por serranos) e que depois parou no tempo, como Parati, esquecida da rota do progresso. Foi nessa cidade esquecida que vi pela televisão a maior conquista da minha modernidade, o homem pisando na lua!

Mas isso foi quando já havia televisão nas casas. Quando a televisão chegou ao Serro, os donos das poucas casas privilegiadas se sentiam na obrigação de abrigar os vizinhos e amigos, além dos que se aglomeravam do lado de fora para ver pela janela as peripécias da novela O Sheik de Agadir. Depois o prefeito colocou uma televisão num poste da praça e as pessoas pararam de circular. Formavam uma rodinha em torno da tv. Mas quando, mais tarde, as TVs se popularizaram nas casas, a praça se esvaziou.

O Serro tem um queijo único, conhecido em diversas partes do Brasil, e tem uma linda festa de Nossa Senhora do Rosário. Na véspera da festa acontece a queima de fogos, que desenham a imagem da santa num mastro. Já no dia da dedicado à Virgem do Rosário, três grupos com roupas e instrumentos distintos desfilam pela cidade, após terem assistido à missa da manhã. Os caboclos são os mais vistosos, usam batom, cocares e saiotes de penas, brincos com pingentes, colares, peitilho com bordados e pedras coloridas e, às vezes, sob eles, camisas coloridas de times de futebol. Os caboclos manejam um pequeno arco de madeira, cuja flecha produz um som seco ao ser puxada contra o mesmo. O acordeom acompanha o ritmo produzido pelos arcos dos demais caboclos.   

Há também os catopês, com seus mantos de chita colorida, seus cocares, seus tambores e sua dança contida. E há os marujos, vestidos de marinheiros, tocando violões e acordeons, com sua música de influência mais europeia, marcada pelo ritmo das espadas do capitão riscando o chão. Acompanhados do rei e da rainha da festa, os três grupos vão às casas dos festeiros, que oferecem comidas e muita bebida. Circulam pela cidade e quando se encontram fazem as “embaixadas”, quando recitam falas imemoriais relembrando guerras passadas, a nau catarineta e um tanto de coisas que só os mais velhos sabem o significado.

Pois essa terra, de onde vieram minha mãe e toda a sua família, com suas igrejas e casario centenários, vive agora um conflito pela aceitação por parte do prefeito da instalação da mineradora Herculano na cidade. Ela se propõe a explorar uma jazida do mais puro minério de ferro ali adormecido por milhões de anos. E há os que se opõem à proposta em nome da defesa do meio ambiente e da qualidade das águas locais.

É uma luta difícil, com acusações de que o prefeito teria dado o aval de conformidade para a instalação da mineradora baseado nas decisões de uma reunião do Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente anulada por conter irregularidades. Os defensores do meio ambiente têm a difícil tarefa de convencer os habitantes da cidade, por onde o progresso deixou de passar, que a proposta da mineradora traz armadilhas para o futuro, embrulhadas em benesses para o presente. Os defensores da proposta da mineradora aprenderam a usar argumentos que misturam palavras melífluas, que parecem significar proteção ao meio ambiente, com aquelas mais surradas, de bem-estar, progresso material e oportunidade única para uma geração.    

Minas Gerais tem sua história ligada a diversos ciclos de mineração, assim como à exaustão desses recursos, deixando para trás cidades destruídas, como lamentou Drumond por sua Itabira, ou Brumadinho, destruída com a perda de centenas de vidas no rompimento de uma barragem. Dói saber que essa história poderá se repetir no Serro, a cidade mítica da minha família.  

artigo publicado no Diário do Rio em 25 de fevereiro de 2021


Precisamos falar sobre parques ocupados

UPP no Parque Ary Barroso - foto Roberto Anderson 

No governo de Sergio Cabral, quando a implantação de UPAS havia se tornado uma das estrelas daquela administração, o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac foi instado a analisar um “pedido” para a instalação de uma delas no Parque Ary Barroso, na Penha. Por ser tombado, o Instituto precisava ser ouvido sobre o assunto. Os técnicos, naturalmente, se colocaram contra a iniciativa, mas ao fim a decisão do órgão de tombamento foi a de permitir, em caráter provisório, desde que se ocupasse o mínimo de espaço possível. Hoje, computando-se a área para estacionamento e outras atividades, esse espaço já não é tão mínimo.

Na sequência dessa aprovação instalou-se naquele parque uma UPP sobre a área de campos de esporte, e uma Arena Carioca, equipamento que substitui as lonas culturais, em área mais ao centro do parque. No momento, parte da UPP se encontra inutilizada após um incêndio. A carcaça da edificação, enegrecida pelo fogo, continua lá. Boa parte do parque foi também ocupada por veículos, já sem uso, da polícia ou por veículos dos usuários dos equipamentos lá instalados. O resultado é um parque irreconhecível, espremido entre tais equipamentos públicos e uma área de encosta do próprio parque, onde a presença da unidade policial não inibe a existência de malfeitos. O Parque Ary Barroso, que já teve cascatas e lagos, áreas ajardinadas e de esportes, é sempre lembrado com nostalgia pelos moradores da Penha e adjacências.

Essa não é uma prática isolada. No Parque Recanto do Trovador, em Vila Isabel, igualmente tombado, a instalação de uma Nave do Conhecimento foi embargada, mas uma Vila Olímpica já havia sido construída e lá permanece. A Vila Olímpica, apesar de atualmente maltratada, é um equipamento extremamente útil aos moradores da comunidade contígua ao parque. Mas não há dúvidas de que representa uma interferência forte na sua paisagem.

No Centro, a Praça Procópio Ferreira, em frente à Central do Brasil, se encontra integralmente ocupada por instalações da Guarda Municipal. E no Leblon, a Praça Nossa Senhora Auxiliadora perdeu grande parte de sua área para um CIEP, ainda no governo Brizola.  Há pela cidade diversos outros exemplos semelhantes.

Não se discute a necessidade de que o poder público tenha espaços para seus equipamentos. Por isso, a legislação de aprovação de loteamentos exige a destinação de parcelas do mesmo a praças ou escolas. Muitos desses terrenos, por não terem sido corretamente ocupados, terminam sendo invadidos, o que cria situações de difícil reversão. No entanto, em áreas mais valorizadas da cidade há sempre maior dificuldade de se encontrar tais espaços. E aí as praças são vistas como uma alternativa possível. Mas não deveriam ser.

É preciso sair desse jogo de empate para a administração pública, mas que talvez seja de perdas para a cidade. A ocupação de uma praça ou parque, parcial ou integralmente, não deve ser vista como benéfica para a mesma. O primeiro passo deveria ser a compreensão de que todos os órgãos públicos buscam a melhor forma de produzir serviços para a coletividade, mas que isso não pode se dar em detrimento dos serviços prestados por um deles. Uma praça fechada ou parcialmente ocupada é um serviço a menos para o cidadão e muitos serviços ambientais a menos para a cidade.   

A atividade econômica da cidade perdeu dinamismo nos últimos anos, deixando muitos imóveis, especialmente os industriais vazios. Na área central houve uma grande saída de empresas. A requalificação de galpões ou de edifícios de escritórios pode ser uma boa alternativa para a instalação desses equipamentos. Mas para que tal escolha seja feita, a opção parque ou praça não poderia estar disponível. Será possível mudar?

artigo publicado no Diário do Rio em 18 de fevereiro de 2021


Das coisas do Rio

foto Roberto Anderson

Me lembro da maresia que invadia as ruas de Copacabana. Ao atravessar o Túnel Novo já se percebia uma atmosfera espessa, uma névoa, e o cheiro de mar. A umidade que colava na calçada. Seria real ou ilusão de uma criança? Depois disso a praia foi aterrada e o mar empurrado para dezenas de metros adiante. Então é possível que antes esse fenômeno acontecesse mesmo.

Eu me lembro dos voos dos morcegos perto da árvore de sapoti. De sua entrada pelas janelas, e do medo que, em seu voo cego, batessem em mim.

 

Eu me lembro do saco surrado de bolinhas de gude. Não me lembro muito do jogo, nem se jogava bem. Mas, de alguma forma, eu acumulava bolinhas, minha riqueza. Eram muito para quem tinha tão pouco.

 

Eu me lembro das caminhadas solitárias pela borda do mar, mar calmo da Baía de Guanabara. De andar equilibrando na mureta ao longo desse mar, passando por amendoeiras, dono do meu tempo e do meu querer.

 

Me lembro das placas de piche na praia da Freguesia, na Ilha do Governador. Eram placas arredondadas, de tamanhos diversos, originadas da lavagem displicente e criminosa dos porões dos petroleiros na Baía de Guanabara.  Em certos dias, era difícil não pisar nelas, que grudavam na sola do pé. Na saída da praia, além de retirar a areia dos pés, era preciso passar um graveto para tirar a parte mais grossa das placas. Mas as manchas escuras na sola do pé só com o varsol, que já ficava na borda do tanque esperando o momento de ser útil.

Me lembro do bonde que subia para o Alto da Boa Vista. À medida em que subia, a temperatura ia baixando, e o verde das árvores dominando a paisagem. No ponto final o cobrador virava os encostos dos bancos e o que era atrás virava frente. Aí era só descer com o mesmo bonde. Passeio bom e barato para quem tinha pouco dinheiro.

Lembro também das borboletas no caminho do trem do Corcovado. Mais do que do Cristo ou da paisagem, me recordo da profusão de borboletas voando do lado de fora das janelas do trem.

Me lembro das horas de aulas matadas na Quinta da Boa Vista, da gravata ensebada do Pedro II, com o nó sempre pronto.

Me lembro da ida em bando à praia, sem camisa, descalço, só com o dinheiro da passagem no bolso da bermuda, para não ter a preocupação de deixar algo na areia enquanto passávamos horas dentro d’água.

Tenho a deliciosa lembrança de atravessar de pedalinho a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, por cortesia do amigo que lá trabalhava, para tomar sorvete em Ipanema nas noites de verão.

O Rio é a minha casa, está gravado na minha pele, nas minhas memórias, no que eu sou.


artigo publicado no Diário do Rio em 11 de fevereiro de 2021

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Reviver o Centro

foto Roberto Anderson
E novamente o centro do Rio de Janeiro se encontra numa situação difícil, ameaçado de decadência, e objeto de um projeto de revitalização. Ao longo de sua história foram inúmeras as idas e vindas, os ciclos de esvaziamento e retomada do Centro. Essa “decadência”, no entanto, está sempre associada à maior presença das classes mais desfavorecidas, sejam os moradores dos cortiços do fim do século XIX, sejam os ambulantes dos anos 1980, sejam agora os moradores de rua, os sem teto, cada vez mais numerosos ali.

O primeiro esvaziamento da área, quando ainda não era o centro, mas sim a quase totalidade da cidade, se deu com a chegada da família real, no início do século XIX. Com a ida desta última para São Cristóvão, a área se tornou o centro de uma cidade expandida, e perdeu a moradia das famílias abastadas. Foi então ocupada por trabalhadores, imigrantes e, após o fim da escravatura, por negros libertos, muitos vindos da Bahia. As reformas urbanas do período Pereira Passos expulsaram essa população através da demolição de suas moradias e do que hoje chamaríamos de um processo de gentrificação. As moradias dos pobres foram substituídas por escritórios, lojas e sedes bancárias. Mais tarde, o Decreto Municipal 322, de 1976, chegou a proibir a edificação de moradias na área, proibição essa só alterada pela Lei do Centro, a Lei nº 2236/1994.

O Centro retomado pelas classes dominantes se tornou uma vitrine da cidade, com suas lojas de moda e cafés. Depois, por volta de década de 1950, o Centro passou a sofrer a concorrência de outros bairros, como Copacabana, Tijuca, Méier, Madureira, Botafogo e Ipanema, que passaram a receber funções antes restritas àquela área. Mas ele se manteve como centro principal, lugar de chegada de vários sistemas de transportes, como os trens, as barcas e até mesmo aviões, e lugar de maior concentração de postos de trabalho.

A mudança da capital para Brasília, na década de 1960, o Plano de Lucio Costa para a Barra da Tijuca e Jacarepaguá na década de 1970, e a crise da Bolsa do Rio, com a consequente transferência do setor financeiro para São Paulo foram baques importantes que, na década de 1980, se refletiram numa decadência física dos espaços públicos do Centro, na fuga das grandes empresas e na afluência do comércio ambulante, que tomou todos os espaços disponíveis.

Segundo Villaça, a decadência do centro do Rio de Janeiro naquele período, quando comparada às de outros centros de metrópoles brasileiras, era menos acentuada, já que foi menos abandonado como local de emprego das classes de mais alta renda. Segundo o autor, a longa tradição de uso pela burguesia ajudou “...a manter a vida no centro e a nele reter os empregos de classe média para cima, conservando a vitalidade imobiliária.”¹ A grande oferta de equipamentos culturais e o comércio qualificado também ajudaram a manter a vitalidade do centro do Rio de janeiro, mesmo com todos os problemas que vinha enfrentando.

A reação do poder público na década de 1990, com intensa participação da Subprefeitura do Centro, se deu através das ações de controle urbano, que disciplinaram a atividade de comércio ambulante, e a requalificação dos espaços públicos, por investimentos públicos, ou por parcerias público-privadas. Tais ações foram suficientes para o retorno do comércio de luxo, a abertura de universidades privadas, e o retorno de empresas.

A crise atual se mostra mais preocupante. O esvaziamento provocado pela pandemia e agravado pela má administração anterior parece dizer que já não basta uma intervenção de ordenamento urbano ou de embelezamento. As condições descritas por Vilaça talvez já não existam. O trabalho presencial nos escritórios está esvaziado desde o início da pandemia e não deverá retornar aos patamares anteriores. Assim, o Centro que só conta com moradias nas suas áreas periféricas, como a Lapa e o Bairro de Fátima, perdeu a atividade que pelo menos lhe dava vida em uma parte do dia.

Como dito acima, desde 1994 é permitido a construção de habitações no Centro. Mas o mercado imobiliário não reagiu. A contínua concessão de licenças para edificação em outros bairros, especialmente na Barra da Tijuca e no Recreio, e a sinalização efetiva do poder público de que esses eram locais favorecidos para investimentos públicos, talvez ajude a explicar a inércia da função habitacional no Centro. Assim, só uma demonstração clara do poder público de que deseja incentivar moradias naquela área, inclusive com isenções fiscais, como se anuncia no projeto Reviver Centro, poderá alterar o quadro atual. 

Acertadamente o projeto também dá isenções fiscais à reconversão de edifícios de escritórios em prédios habitacionais. Essa é uma excelente oportunidade para o mercado imobiliário, já que boa parte dos edifícios do Centro padecem de decadência tecnológica. Um número altíssimo desses edifícios, construídos entre as décadas de 1920 e 1970, têm espaços internos pequenos, que não mais condizem com as necessidades das empresas, mesmo antes da pandemia. Faltam-lhes recursos tecnológicos e conforto, demandados pelas mesmas, como ar-condicionado central, serviços avançados de telefonia, saídas para equipamentos de informática, elevadores inteligentes, segurança, administração monitorada por circuitos internos de TV, etc. Assim, é bem possível que o mercado imobiliário abrace essa oportunidade de ouro. Mas atenção, o risco de se deixar os pobres de fora é sempre tentador.

Há ainda um fato que, na nossa tradição de planejamento frouxo, precisaria ser modificado. Trata-se da liberalidade na concessão de licenças para edificação. Apesar do atual Plano Diretor sinalizar prioridades, elas não se manifestam no efetivo direcionamento pelo poder público da concessão de licenças para edificação. Esse modelo tornou inócua a oferta de espaços para edificação na Área Portuária e poderá sabotar o Reviver Centro. Estaremos dispostos a exercer um planejamento mais impositivo ou permitiremos que o mercado imobiliário defina suas próprias prioridades? A saber...        
¹ - VILLAÇA, Flávio (1998). Espaço Intra-urbano no Brasil, São Paulo, Studio Nobel, pp. 288 e 291.

Artigo publicado em 05 de fevereiro de 2021 no Diário do Rio

A Fazenda

foto Roberto Anderson
O sujeito precisa acordar cedo, mas é cedo de verdade, quando, mesmo no verão, o céu ainda não clareou. É que o caminho até o local de partida para a lida é longo. Quando for seis horas da manhã, ele já terá que abrir os portões. 

Os outros trabalhadores também já estão chegando aos diversos locais de encontro, de onde partirão para o trabalho. Mas dá para tomar um café e saber das novidades dos colegas. Depois é reunir enxadas, ancinhos e tesouras. Se for dia de plantio, uma turma já estará indo ao horto escolher mudas para empilhá-las na caminhonete. 

Enquanto isso o encarregado de preparar o alimento dos animais já começa a picar legumes e hortaliças, e a separar o milho e a ração. A bicharada come bastante, e mais de uma vez por dia! É o que garante o pelo lustroso e as penas coloridas. 

As turmas de campo já chegaram onde vão atuar. Avaliam o quanto o mato avançou e o que dá para aproveitar. Nos últimos tempos tudo estava meio abandonado. Capinam duro, arrancam com as mãos as ervas daninhas, seus olhos treinados sabendo separar o que pode ficar. 

Antes do plantio, é preciso afofar a terra. Enxadas entram em ação. A terra tá bem seca e um pouco de água vai bem. As mudinhas vão sendo retiradas dos saquinhos pretos e plantadas nas covinhas onde agora seguirão sua vida fora da proteção da estufa. 

Pessoas passam e gostam de ver as turmas trabalhando. Cumprimentam, perguntam sobre o que está sendo plantado, e às vezes oferecem para aguar as plantinhas nos dias seguintes. 

A alegria é grande porque hoje também é dia de plantio de mudas de árvores. Os locais e as espécies foram escolhidas por especialistas, com décadas de experiência no assunto. Mas são os braços trabalhadores que abrem as covas, jogam adubo, colocam a muda no lugar onde, se tudo correr bem, se desenvolverão. As folhas da leucena, árvore oportunista para uns, invasora para outros, mas cujas folhas são ricas em nitrogênio, são ótimas para figurarem nesse berço em que a futura árvore crescerá. Por fim, tem que fincar os tutores, ligá-los às mudas, e jogar as últimas pás de terra.

O sol já vai alto, o trabalho está avançado quando o pessoal do escritório chega para conferir. Alguns são entusiasmados, indagam sobre tudo e até tentam meter a mão na massa. Mas sua função é outra. Precisam planejar onde as turmas trabalharão nas próximas semanas, garantir insumos e ferramentas, e o mais importante, se o pagamento virá direitinho, sem surpresas ou atrasos.

Muitas vezes as marmitas são consumidas ali mesmo, os trabalhadores sentados em alguma sombra. Bom mesmo é quando dá para voltar à sede, onde um companheiro prepara a bóia, com os ingredientes comprados por todos. Não há luxos. O refeitório é simples, assim como os vestiários. O pagamento sempre foi menor do que o desejado. Mas o amor às plantas e aos animais faz com que todos se dediquem ao longo de todos esses anos.

À tardinha é hora de voltar aos locais de onde partiram. Tomar um bom banho, trocar de roupa, pegar a mochila surrada, dar adeus aos companheiros, e voltar para casa. Logo os portões serão fechados. A lida do dia na fazenda urbana chegou ao fim. Amanhã tudo recomeça na Fundação Parques e Jardins.

Artigo publicado em 28 de janeiro de 2021 no Diário do Rio 

domingo, 24 de janeiro de 2021

O caminho de Santa Teresa


Saio pelo portão do condomínio realizando o ritual de molhar a mão no álcool bento. Inicio a subida em direção a Santa Teresa e logo passo pela esquina ocupada por entulhos. Hoje é com areia e restos de latas de tinta. Outro dia eram móveis quebrados e lixo. Às vezes é um carro sobre a calçada. Penso no desejo de fazer uma mini mini praça no local, trazendo um pouco de beleza e salubridade para essa triste esquina.

Passando a escadinha e entrando pela rua Alice, caminho pela calçada estreita, muitas vezes mais baixa do que o asfalto ao lado. Passo pelo jamelão que se debruça do terreno murado, deixando suas marcas roxas e caroços esmagados no piso. Do outro lado desce alguém sem máscara, me obrigando a passar para o asfalto, desafiando a sorte de não ser abatido por uma van ou ônibus acelerado.

A rua segue em zig-zag e alcanço a caixa de livros, que podem ser retirados, por empréstimo ou apropriação. Almas iluminadas criaram a caixa com todo cuidado e a abastecem regularmente. Mas a portinhola de vidro foi vandalizada. Hoje os livros são de física e matemática. Mas já encontrei ali parte da biblioteca de algum urbanista.

Andando ladeira acima alcanço a escada que desce de uma comunidade. É fácil reconhecer, sempre há lixo transbordando de contêineres que cismam de serem insuficientes para as necessidades do povo que mora lá em cima. O consulado do Sri Lanka se instalou junto à escada e fico pensando no contraste entre o edifício consular e os materiais endereçados à Comlurb.

Outra marca constante naquele ponto é o transbordamento da caixa de esgoto, provocando um rio indesejável até o lado da calçada por onde sigo. Minha estratégia é esperar que não venha nenhum carro e dar uma corridinha nesse intervalo até o ponto onde já não haja esgoto correndo no asfalto e na sarjeta. Em caso contrário o banho não será nada agradável. Ah CEDAE, por que não me sinto revoltado com sua privatização? Fossem de esquerda ou de direita, os governos se sucederam lhe mantendo nessa ineficiência.

Quase no fim da rua Alice, passo pela creche Sarita Konder, projetada e construída com recursos do arquiteto Marcos Konder. Nesses meses de pandemia a creche tem estado vazia, não se vê crianças, nem mães nos portões. Depois a rua entra no túnel do mesmo nome e despenca em direção ao Catumbi. Mas aí já é com outro nome.

Vou mudando de calçada de acordo com a insolação. Se mais cedo em busca do sol, se mais tarde, em busca da sombra, e chego à rua Júlio Otoni. Passo agora por pitangas caídas na calçada, vindas lá do alto, de um terreno com muro de pedra. Por isso mesmo, quando caem já se espatifam um pouco. Jamelões, pitangas e mangas no caminho, mas nunca consigo catar.

Carros velhos nas calçadas vizinhas, pessoas esperando no ponto de ônibus, velhos e crianças sentados em cadeiras e caixotes na curva do edifício modernista sobre pilotis marcam a entrada da favela Júlio Otoni. Carros de polícia entram e saem, ou passam pela rua em ritmo lento, com suspeição.

Um pouco acima estão as casas de festas. Nesses tempos de pandemia muitas manhãs foram marcadas pelos restos da festança clandestina ou mesmo pela festa em si, adentrando o dia, despreocupada de mortes, contaminações e todas essas coisas que nos afligem e entristecem.

Por fim chego aos trilhos da rua Almirante Alexandrino e ao mirante de onde se descortina o lado Norte da cidade. Descendo morro abaixo, os barracos dos Prezeres. Depois o Catumbi, a Central, a Baía de Guanabara. E mais adiante, se o dia estiver limpo, a Serra do Mar e o Dedo de Deus. A caminhada foi boa, hora de descer de volta pra casa.

Artigo publicado no Diário do Rio em 22 de janeiro de 2021

Parques mais ecológicos

Parque Abbés-Pierre Grands Moulins

As cidades são criações do gênio humano e constituem ecossistemas artificiais. Segundo Odum, “uma cidade, especialmente uma cidade industrializada, é um ecossistema incompleto ou heterotrófico (que se alimenta de outros) dependente de grandes áreas externas a ele para a obtenção de energia, alimentos, fibras, água e outros materiais”[1]. Sem este ambiente externo, do qual a cidade se alimenta, ela não poderia sobreviver. A busca pela sustentabilidade intenta transformar essa relação das cidades com o ambiente externo, o território em que se inserem, de forma a que deixem de pesar tanto sobre o mesmo. A partir da evolução histórica de cada cidade, deveria ser buscada uma dinâmica de ocupação e crescimento que considerasse a natureza original do território, a necessidade de preservação dos seus elementos mais importantes, e as possibilidades de coexistência dos espaços construídos com essa natureza envolvente.

Além dessa relação respeitosa com a natureza envolvente, é importante também estar atento à natureza existente no interior da cidade. O urbanismo que considere a sustentabilidade deverá preocupar-se com a manutenção de espaços naturais no exterior, assim como no interior da cidade. Ele deverá criar condições para a hospedagem da fauna silvestre, inclusive nas áreas urbanas, e a integração entre espaços naturais e espaços humanizados. Parques, praças, áreas naturais, e demais espaços verdes devem, além da função de lazer, ter a função de manter a vida nas cidades.

As cidades são criações do gênio humano e constituem ecossistemas artificiais. Segundo Odum, “uma cidade, especialmente uma cidade industrializada, é um ecossistema incompleto ou heterotrófico (que se alimenta de outros) dependente de grandes áreas externas a ele para a obtenção de energia, alimentos, fibras, água e outros materiais”[1]. Sem este ambiente externo, do qual a cidade se alimenta, ela não poderia sobreviver. A busca pela sustentabilidade intenta transformar essa relação das cidades com o ambiente externo, o território em que se inserem, de forma a que deixem de pesar tanto sobre o mesmo. A partir da evolução histórica de cada cidade, deveria ser buscada uma dinâmica de ocupação e crescimento que considerasse a natureza original do território, a necessidade de preservação dos seus elementos mais importantes, e as possibilidades de coexistência dos espaços construídos com essa natureza envolvente.

A experiência parisiense, durante o período 2001-2007, em que os partidos socialista e verde dividiram o poder, é interessante de se analisar. Lá, o órgão responsável pelos espaços verdes e o meio ambiente (DEVE), aplicando instrumentos de autorregulação, abandonou a forma tradicional com que tratava esses espaços, baseada nos aspectos estéticos dos mesmos, adotando uma visão ambiental. No período citado, programou-se a criação de 30ha. de novos jardins e o acréscimo de mais 100.000 árvores urbanas, aumentando a sua diversidade. Foram utilizadas diversas possibilidades para a criação desses espaços, como parques de vizinhança, alguns com hortas comunitárias, parques lineares sobre o viaduto desativado de Daumesnil, e muros e tetos verdes. Juntamente com a manutenção de franjas de vegetação selvagem em linhas de trem desativadas, eles contribuíram para estabelecer corredores ecológicos dentro da cidade. Estes elementos tiveram também a função de conexão entre as diversas áreas verdes urbanas e as áreas livres na periferia, os corredores ecológicos.

Além da criação de novos espaços, houve também a busca por maior eficiência na gestão, inclusive com o recurso à certificação. O parque Bois de Boulogne e todas as ações fitossanitárias da instituição passaram pela certificação ISO 9.000 e 14.000. Buscou-se o consumo mínimo de energia, com menos aguagem e menos poda, e a criação de espaços mais ecológicos, com a presença de água em pequenos pântanos e áreas de baixo cuidado paisagístico.

Um bom exemplo de parque criado com esta nova orientação é o Jardins d’Eole. Lá não se usa adubo ou pesticidas e as folhas caídas são deixadas no terreno. Há áreas de maior cuidado, por terem uso mais intenso e áreas deixadas para desenvolvimento livre, sem constante poda. Outro exemplo interessante é o Jardins Abbé-Pierre – Grands Moulins, criado em 2009, onde áreas de forração nativa são também deixadas para livre desenvolvimento. Tais exemplos de parques necessitam uma preparação do público através de projetos de educação ambiental, para que o ecológico não seja visto como desleixo.

Agora, que no Rio de janeiro há uma gestão verde dos parques e jardins da cidade, tais experiências valem a pena ser revisitadas. Os parques históricos já têm suas dinâmicas estabelecidas. Mas está posto o desafio de se pensar novos parques que venham a prestar relevantes serviços ambientais, utilizando-se como técnica as soluções baseadas na natureza.

artigo publicado em 14 de janeiro de 2021 no Diário do Rio.   



[1] ODUM, E.P. Ecologia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988, p. 45.

 

domingo, 3 de janeiro de 2021

Voltando ao Campo de Santana

Campo de Santana - foto Roberto Anderson
O Campo de Santana é um dos mais belos e aprazíveis parques urbanos da Cidade do Rio de Janeiro. Projetado em estilo de jardim inglês, com lagos, morrotes, grutas e figueiras gigantes, por Auguste Glaziou, o paisagista francês contratado Imperador D. Pedro II, é um oásis no burburinho do Centro. O simples fato de que o crescimento da cidade tenha pulado esse espaço, indo abrir novos arruamentos mais adiante, no que passou a ser conhecido como Cidade Nova, já foi uma benção.

 

Ali ocorreram eventos memoráveis, como batalhas de flores, feiras literárias, peças de teatro, bem mais interessantes do que os exercícios militares de antes de sua urbanização. No Campo de Santana, pavões, patos, cisnes e cotias convivem pacificamente há décadas. Habitantes mais recentes, os gatos ganharam espaço, reforçados por um apadrinhamento humano militante. E seus monumentos, muitos vindos da região do Val D’Osne na França, são de imensa beleza.  

 

Nesta véspera de novo ano, volto ao Campo de Santana não mais como simples usuário, mas como parte da equipe de Fabiano Carnevale, o novo presidente da Fundação Parques e Jardins. Com o apoio do novo Secretário de Meio Ambiente, Eduardo Cavalieri, temos a ambição de recuperar o prestígio da Fundação, que mesmo maltratada por uma administração obtusa, ainda é vista com carinho pela população.

 

Preocupado com as responsabilidades vindouras, passeio pelo Campo de Santana observando o seu estado de conservação. E o que encontro não é nada animador. Já nos belos e imensos portões do parque é possível observar partes faltantes, como coroamentos e cartelas, em função de furtos e abalroamento de caminhões de limpeza. O gradil que o cerca se encontra com falhas em diversos pontos, remendadas com telas de arames. Percebe-se que ocorreu o demorado corte do metal para a realização do furto.

 

Internamente, um dos lagos se encontra vazio, em função de rachaduras e buracos no seu piso, por onde a água escoa para o subsolo. Nos lagos onde há água, a mesma não é renovada com a devida frequência, já que o parque perdeu dois de seus três pontos de abastecimento de água. Quase não há iluminação pública, já que metade do parque se encontra sem cabeamento subterrâneo de energia. Na metade onde há energia, nem sempre ela é compatível com as lâmpadas da Rio Luz. Os banheiros públicos não funcionam e um deles, para o qual existe um belo projeto de um café, foi transformado em abrigo para os gatos.

 

A gruta, com suas estalagmites e estalactites, também se encontra sem iluminação e interditada ao público, por não oferecer condições de segurança. E todo o parque foi fechado ao público desde o início da pandemia, impedindo o mesmo de usufruir de um excelente espaço de lazer e relaxamento das preocupações do momento. Quantos idosos solitários não se sentiriam melhor nesses tempos podendo interagir com os animais do Campo de Santana?

 

Essa situação do Campo de Santana, que se estende a muitos outros parques e praças da cidade, é o reflexo do descaso com a Fundação Parques e Jardins, impedida por maus administradores de exercer as suas funções. Há tempos não há concursos e a maioria absoluta dos jardineiros que ainda permanecem na ativa já não têm o vigor físico necessário. O quadro de arquitetos e engenheiros florestais foi drasticamente reduzido por aposentadorias. E a verba necessária para a contratação de substitutos foi usada para objetivos políticos. Nada menos que R$ 1.123.616,04 vêm sendo gastos mensalmente com funcionários comissionados que não comparecem à Fundação. Isto dá a incrível soma de mais de R$ 1,6 milhão ao ano gasto com esse tipo de coisa, enquanto os trabalhadores dos parques têm dificuldades em fechar o orçamento doméstico no fim de cada mês. É imoral.  

 

A administração que assume em janeiro está comprometida com uma atitude técnica e ambiental na gestão da Fundação e dos espaços públicos da cidade. Sua primeira medida, será a reabertura do Campo de Santana ao público, assim como os demais parques fechados. Todos os funcionários a serem contratados o serão com base em sua qualificação técnica. Os usuários serão bem-vindos de volta aos parques, seguindo as orientações de segurança durante a pandemia. Esperamos plantar muitas árvores e novas praças pela cidade. A Fundação Parques e Jardins está de volta! 


artigo publicado no Diário do Rio em 02 de janeiro de 2021

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O nosso presépio

foto Roberto Anderson
No seu show recente de fim de ano, Caetano Veloso comentou como era o natal em sua casa, e nas demais casas, em Santo Amaro da Purificação. Lembrou do presépio armado nas salas, dos infalíveis personagens da história natalina e, principalmente, lembrou dos personagens convidados pelos que armavam esses presépios. De forma improvisada, entravam os trabalhadores, os tipos populares da cidade, e quem mais a imaginação permitisse. Além das pessoas, ali também estavam as atividades humanas conhecidas, os carros, os trens e as carroças, e os rios, as cachoeiras, as nuvens, a neve e a areia. Como Caetano mesmo disse, era o mundo ali presente, era o tudo.

Estamos no natal da infinita pandemia. Nossas resistências foram sendo minadas pela guerra travada pelo governo federal contra nossas precauções. Muitos já se foram, muitos conhecidos adoeceram, e quem ainda não foi tocado pelo vírus tem medo de ser o próximo. As compras de natal não foram feitas como em outros anos. Poucos presentes para nossos familiares chegaram por correio, em caixas amassadas, sem estarem embrulhados em papéis natalinos. Muitos estarão sós ou acompanhados de um círculo mínimo de familiares que as normas de prevenção permitem.

É hora de olharmos para fora de nossas janelas. Quem tiver a vista do Cristo, da Igreja da Penha ou do Pão de Açúcar verá os pontos altos desse cenário. No céu, talvez por trás de nuvens, estará a conjunção de Júpiter e Saturno. Abaixo estarão as luzinhas das favelas, sempre mais próximas entre si do que as do resto da cidade. E veremos as luzes dos edifícios altos e garbosos, assim como aquelas dos sobrados e predinhos mais antigos. Fileiras de postes de luzes, às vezes brancas, às vezes amareladas, marcam as linhas por onde já circulamos. Os faróis dos carros e as luzes coloridas e cambiantes dos semáforos, refletidos no asfalto molhado, darão movimento à cena. As luzinhas piscantes, importadas da China, de alguma varanda assegurarão que é Natal. E nos sentiremos irmanados, fazendo parte de um imenso presépio, a nossa própria cidade. Bom Natal. 

artigo publicado no Diário do Rio em 24 de dezembro de 2020.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A Fundação Parques e Jardins em agonia

Campo de Santana - foto Roberto Anderson
Auguste François Marie Glaziou chegou ao Rio de Janeiro em 1858 e logo foi contratado pelo Imperador D. Pedro II para fazer a reforma do Passeio Público, anteriormente projetado por Mestre Valentim. Glaziou projetou também o Campo de Santana e a Quinta da Boa Vista. Com a criação, em 1869, da Diretoria de Parques e Jardins da Casa Imperial, Glaziou passou a ser o seu diretor. Mais tarde, criada a Inspetoria de Mattas, Jardins, Arborização, Caça e Pesca, com sede no Campo de Santana, foi Glaziou quem a dirigiu. Em 1909, ocorreu a ampliação dessa sede, e é lá que até hoje funciona a Fundação Parques e Jardins – FPJ, herdeira da antiga Inspetoria.

 

Importante notar que o órgão que precedeu a FPJ trazia no seu nome a amplitude de competências que caracterizava a sua atuação. No entanto, a Fundação, que já foi dos órgãos mais prestigiados da cidade, além de ser um dos mais antigos, veio perdendo atribuições, recursos e pessoal. A poda e a remoção de árvores nas vias públicas, e a manutenção das praças, foram repassadas à Comlurb. A conservação das praças e dos monumentos foi repassada à Secretaria de Conservação. Dos vinte e cinco arquitetos que um dia trabalharam na FPJ sobraram dois. No quadro de funcionários, só restou um engenheiro florestal. A própria FPJ, na administração Crivella, foi levada para a Secretaria do Envelhecimento. Uma metáfora da sua situação? Sem muitas atribuições, e com seu pessoal se aposentando, a Fundação foi sendo conduzida a um triste ostracismo.

 

A FPJ precisa urgentemente ser reerguida. Os parques históricos do Rio de Janeiro, entre eles o Parque do Flamengo, têm importância para a história do paisagismo nacional. Além de Glaziou e de Azevedo Neto, Burle Marx e Fernando Chacel projetaram parques no Rio de Janeiro que inauguraram escolas de projetos paisagísticos. Os monumentos de nossas praças, muitos vindos da região do Val D’Osne na França, são preciosidades da arte pública do Brasil. A arborização de ruas do Rio de Janeiro alcança momentos de rara beleza, como os dosséis que sombreiam diversas ruas da cidade, especialmente da Zona Sul, melhor aquinhoada. A responsabilidade da cidade com esse legado exige um olhar cuidadoso e generoso para com a FPJ.

 

Um roteiro para o reerguimento da FPJ estaria na aplicação do Plano Diretor de Arborização Urbana da Cidade do Rio de Janeiro – PDAU Rio. Ele foi aprovado em 2016, mas ainda não foi implementado. É preciso também repensar a política da Cidade do Rio de Janeiro para suas áreas verdes, buscando integrar as ações dos diversos órgãos, preferencialmente sob a coordenação da FPJ. Projetos como o Mutirão Reflorestamento poderiam estar em sinergia com as ações da Fundação. A arborização urbana, atualmente dependente da oferta de compensações por concessões de habite-se, poderia se transformar num amplo projeto de arborização da cidade, com vistas, não só ao seu embelezamento e conforto ambiental, como também, como contribuição do Rio de Janeiro ao combate ao aquecimento global.


A promessa do futuro Prefeito de não realizar loteamento político na FPJ já é um facho de luz que traz esperanças. A reconstituição do seu quadro de pessoal será também uma tarefa importante, com a realização de concurso público assim que as finanças municipais o possibilitem. O Prefeito precisa ser sensibilizado quanto a essa urgência. A Cidade do Rio de Janeiro foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade. Seus parques e praças são parte importante dessa conquista. O tempo do descuido precisa ficar para trás. Cuidemos do nosso Rio!


artigo publicado no Diário do rio em 17 de dezembro de 2020.