sábado, 23 de agosto de 2025

Inimigos instantâneos

Você se considera uma pessoa pacífica e sem inimigos. Pacífica, até se deparar com as tentativas de golpe bolsonarista e as agressões de Trump ao Brasil. Aí o sangue ferve. Mas, fora isso, você cultiva a ideia de não ter inimizades. Em relação àqueles com os quais um dia brigou na vida, a zanga durou pouco. Logo você voltou a falar e não manteve rancores. Uma leve sombra de desconfiança talvez, vá lá. Você não professa nenhuma religião, mas se considera uma pessoa ética, que deseja a redução das injustiças do mundo e a proteção do meio ambiente. Você tenta levar sua vida numa boa.

Você está no meio do trânsito, bem atrasado, e o carro da frente naquela vagareza. Você consegue ultrapassá-lo, mas logo à frente o trânsito para. Tá daquele jeito, para e anda. E você precisando chegar logo no trabalho. Quando acha que vai andar, o sinal fecha. E aquele carro do motorista lento, que você ultrapassou, Deus sabe como, conseguiu passar o cruzamento antes que o sinal fechasse. Deve ser uma conspiração. Forças estranhas não deixam a sua vida deslanchar. Mas você é uma pessoa legal.

Numa noite dessas, enquanto dirigia seu carro de volta para casa, você se deparou com um indivíduo montado numa moto que gesticulava agressivamente em sua direção. Ele fazia gestos, mostrava o dedo, gritava coisas horríveis e ameaçadoras a seu respeito. A rua estava mal iluminada, e a moto dele estava com o farol apagado. Nessas circunstâncias, é possível que você o tenha fechado ao ultrapassar outro carro. Você jura para si mesmo que não o viu, sequer sabe que infração pode ter cometido, já que no escuro aquela moto não existia. Mas ali estava ele, enraivecido, jurando que lhe estraçalharia se pudesse. Um inimigo instantâneo que você não supunha que pudesse ter.  

Você pensa em como inimizades surgem a todo instante no trânsito. Há carros e motos demais, pistas de menos, e falta empatia. Qualquer coisa é motivo para uma briga. Espertos surgem do nada, ultrapassando pela margem errada e ocupando o lugar que você deixou vazio à frente para não bloquear o cruzamento durante o engarrafamento. Mais espertos ainda usam uma falsa sirene para passar à frente dos demais. 

Você não aguenta mais o excesso de buzinas. Basta o sinal ficar verde e atrás já terá alguém impaciente sinalizando que você deveria estar cem metros adiante. Você se irrita com a insistente buzina das motos. Os que as dirigem o fazem para que você não se atreva a mudar de faixa e não ouse barrar-lhes o caminho, velozes entre os carros. Você pragueja contra a paradinha em fila dupla, que inutiliza uma faixa inteira da rua, obrigando os carros a tentarem se desvencilhar da cilada.

Eventualmente, você também erra. O trânsito estava lento e, quando você viu o sinal fechou com o seu carro sobre a faixa de travessia. Falta grave, punida com algum pedestre desejando as piores coisas para você e sua pobre mãe. Errar é humano, mas no trânsito não pode, porque detona impaciências represadas.

Você está cansado, o dia de trabalho foi longo. Você acumula momentos de estresse no trânsito e xingamentos exagerados por pequenas faltas. O carro de trás, não se sabe por que razão, está com o farol alto refletindo no seu espelho retrovisor, cegando-o. Você protege a sua visão com a mão, espera que o motorista perceba que está lhe incomodando. Você não sabe se ele o faz de propósito ou se é mais um distraído no trânsito. Você se irrita, deixa que ele o ultrapasse. E aí, não resiste. Sem medir as consequências, você acende seu farol alto em represália. É a sua vez de persegui-lo de perto, buzinar e gesticular. Você chegou lá. Por hoje, tornou-se mais um bárbaro no trânsito.  

Artigo publicado no Diário do Rio em 22 de agosto de 2025.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

A eterna luta dos cariocas contra a Lei dos Puxadinhos

Mais uma vez a sociedade civil do Rio de Janeiro se organiza para combater a lei dos puxadinhos. No fim do mês passado, a Federação das Associações de Moradores do Rio de Janeiro entrou com uma representação contra a Lei Complementar 281/2025 no Ministério Público do Rio de Janeiro. É a famigerada lei da Mais Valia, pela qual, em se pagando, construções irregulares podem ser legalizadas. Essa lei já foi abatida diversas vezes, seja por pressão da sociedade, seja por decisão judicial. Mas, sempre há um prefeito disposto a ressuscitar tal barbaridade. O último foi Eduardo Paes. 

Crivella já o tinha feito, e sua lei foi derrubada pela Justiça, que a considerou inconstitucional. A lei daquele prefeito ainda inovava, criando a legalização do malfeito antes mesmo de sua execução. Era a chamada "mais valerá", em que, ainda na fase de projeto, era possível legalizar aquilo que contrariava os parâmetros urbanísticos. E não é que o prefeito Eduardo Paes copiou Crivella, tanto na Mais Valia, quanto na Mais Valerá? A fome arrecadadora desses prefeitos os leva a vender a qualidade de vida dos cariocas e a sua paisagem. 

A representação da Federação das Associações de Moradores se baseia em aspectos da Lei dos Puxadinhos que alteram o Plano Diretor, uma lei maior da cidade. Essa situação fere a hierarquia entre as normas que compõem a ordem jurídica do Município. Segundo jurisprudência estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal, há uma hierarquia superior do Plano Diretor em relação às demais leis municipais relativas ao uso do solo. Estas devem estar de acordo com o Plano Diretor, não podendo alterá-lo.

A lei dos puxadinhos de Eduardo Paes permite, por exemplo, a intensificação, sem limites, do uso não residencial nas zonas Residencial Multifamiliar 1 e 2. Conquanto a mistura de usos seja interessante, a lei permitiria a quase exclusão do uso residencial, já que deixaria de haver limites. A lei do prefeito Paes permite ainda que se ultrapasse os limites de gabaritos dos bairros em até dois pavimentos. Se o Plano estabeleceu limites, como poderia uma lei inferior alterá-los?

A representação da Federação das Associações de Moradores chama a atenção também para a possibilidade das edificações mais baixas de uma quadra subirem suas alturas até à altura das edificações que já são mais altas, mesmo que tais alturas não mais sejam permitidas na legislação. Isso representaria a revogação de limitações estabelecidas posteriormente à construção das edificações mais altas. Tal permissão poderá criar uma onda de demolições em massa para a reconstrução de edifícios mais altos, sem atentar para os limites ambientais e paisagísticos. 

A lei dos puxadinhos ainda altera definições dos limites das zonas urbanas estabelecidas pelo Plano Diretor, o qual só poderia ser avaliado após cinco anos e revisto após dez anos. Essa intervenção no Plano Diretor com leis pontuais tem sido a regra da Prefeitura do Rio de Janeiro nas últimas administrações. Ela cria uma anarquia jurídica, já que leis inferiores estão alterando uma lei maior. Cria também imprevisibilidade e o favorecimento de projetos privados apadrinhados. Uma decisão favorável da Justiça ao pleito da Federação das Associações de Moradores poderá restabelecer alguma ordem nesta confusão que se tornou a administração municipal da Cidade do Rio de Janeiro.

Artigo publicado em 14 de agosto de 2025 no Diário do Rio.

sábado, 9 de agosto de 2025

Centro esvaziado, Recreio cobiçado

A Fazenda Parque Recreio, na Estrada Benvindo de Novaes, uma propriedade privada no Recreio dos Bandeirantes, é atualmente objeto de um grande projeto de urbanização e de construção de unidades residenciais, por iniciativa da empresa Ombrello. Ela tem, aproximadamente, 1.580.000 m2, sendo uma área de grande interesse ambiental e paisagístico. Ela está situada entre os canais do Portelo e do Cortado, e entre os morros do Portelo e do Urubu de um lado, e do Amorim do outro. Esses três morros são tombados pelo Estado do Rio de Janeiro e possuem áreas de preservação de sua ambiência que vão além das áreas dos tombamentos. É também uma área protegida pela APA do Sertão Carioca e pelo Refúgio de Vida Silvestre Campos de Sernambetiba, o que leva a diversos questionamentos sobre o acerto de tal ocupação.

O projeto propõe a construção de vias de circulação, áreas para comércio e equipamentos públicos, e 153 blocos de apartamentos com seis pavimentos cada. Estes blocos teriam apartamentos de dois e três quartos, totalizando 9.799 unidades residenciais. Mais de dois terços dessas unidades seriam de apartamentos de dois quartos. A projeção de ocupação seria escalonada, indo até 2040, quando os 20% das edificações restantes seriam construídas. Ao final desse processo, a população total prevista seria de 35 mil novos habitantes.

Comparando-se a outras áreas da cidade, o índice de aproveitamento do terreno - IAT de 1,0 não é alto. O projeto prevê que as áreas permeáveis venham a somar 70% da área total. Mesmo assim, é uma mudança drástica em relação à situação atual de permeabilidade quase total. Mais uma vez é importante lembrar que o terreno está situado numa APA e num refúgio da vida silvestre. E há que se ver se o projeto atende às exigências dos tombamentos dos morros próximos. 

A Fazenda Parque Recreio, de propriedade dos herdeiros do empresário Pasquale Mauro, tem em sua história um grave incidente trabalhista. Em 2008, cerca de 70 pessoas foram encontradas em situação análoga à escravidão. A ação conjunta do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro, da Superintendência Regional do Trabalho e da Polícia Federal constatou essa situação de servidão por dívida, salários não pagos, alojamentos impróprios e carteiras de trabalho retidas.

A área do Recreio dos Bandeirantes vem se adensando rapidamente nos últimos anos, após um crescimento vertiginoso, e ainda em curso, da Barra da Tijuca. É um bairro quase no limite Sul do Município, que ainda guarda uma ocupação do solo pouco densa. Essa baixa densidade de ocupação já foi perdida em outras áreas da cidade, e não deveria interessar à cidade vir a perdê-la ali também. A possível ocupação da Fazenda Parque Recreio é um contrassenso já que, enquanto a Prefeitura licencia novos empreendimentos em áreas ambientalmente frágeis e distantes do núcleo da metrópole, a Zona Norte perde população em ritmo acelerado e a Área Central continua esvaziada.    

O Relatório Mensal de Acompanhamento do Programa Reviver Centro, emitido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, informa que de 2021, quando teve início o programa, até junho de 2025, 4.448 unidades residenciais foram licenciadas. Este número não significa unidades construídas, e representa menos da metade do que apenas o empreendimento Fazenda Parque Recreio pretende lançar. Um único empreendimento no Recreio é capaz de ultrapassar de forma avassaladora o que há anos se tenta conquistar no Centro. E há dezenas de outros empreendimentos assim, em curso ou programados, para a Barra e o Recreio. É evidente que nesse ritmo, e sofrendo a concorrência de centenas de lançamentos imobiliários em áreas não prioritárias para o adensamento populacional na cidade, o programa Reviver Centro não tem como ganhar impulso e alcançar o objetivo de trazer uma quantidade significativa de novos moradores para o Centro.

A Prefeitura do Rio de Janeiro se faz refém dos interesses do mercado imobiliário, comprometendo os seus próprios programas, como o Reviver Centro. Uma solução nunca aventada pela Prefeitura seria o congelamento, ou a restrição, do licenciamento de novos imóveis residenciais em áreas não prioritárias para adensamento populacional, conforme definido nos dois últimos Planos Diretores. Para quem tem dúvidas se isso é possível, basta ver o Decreto nº 56.457, de 25 de julho de 2025, que suspende por seis meses, prorrogáveis por igual período, o “licenciamento de construção, edificação, acréscimo ou modificação de uso” na área do Arpoador. Tal Decreto é motivado pelo interesse da Prefeitura em direcionar para aquela área a construção de hotéis.

Sem discutir a validade da proposta da Prefeitura para o Arpoador, o que interessa aqui é saber que é possível sim a Prefeitura definir uma política urbana e implementá-la, usando o instrumento do limite a novos licenciamentos. Isso significaria que a Prefeitura tomaria as rédeas do desenvolvimento urbano da cidade, deixando de estar ao sabor dos interesses do mercado imobiliário.    

Não bastam belas palavras e juras de adesão a propostas de desenvolvimento sustentável. Permitir o crescimento espraiado da cidade, apenas para contentar o mercado imobiliário, é um erro grosseiro. É hora de implementar de verdade um programa de ocupação de vazios urbanos na Área Central do Rio de Janeiro e de recuperar a qualidade de vida na Zona Norte. 

Artigo publicado em 07 de agosto de 2025 no Diário do Rio.

sábado, 2 de agosto de 2025

Xangai

Xangai se tornou um porto aberto ao comércio com o Ocidente após a Guerra do Ópio, no século XIX. Em seguida, vários países colonialistas criaram concessões no seu território, nas quais os nacionais desses países ficavam fora da jurisdição chinesa. Ingleses, franceses alemães e americanos se estabeleceram na cidade, chegando a dominar ali um território quatro vezes maior do que o chinês, apesar de serem minoria. Também vieram para Xangai russos fugidos da Revolução Comunista e judeus, fugidos da Alemanha Nazista. Por fim, chegaram os japoneses, que dominaram tudo, subjugaram chineses e estrangeiros, e criaram um gueto para os judeus. Até serem derrotados, e ter início a grande saga do socialismo na China. 

Toda essa história marcada por humilhações, mas também por influências culturais diversas, explica um pouco o cosmopolitismo da cidade e o seu dinamismo. Em Xangai foi criado o Partido Comunista Chinês. Os nacionalistas de Chiang Kai-Shek elaboraram um plano urbano para a cidade baseado nas ideias da Cidade-jardim que, com a invasão japonesa foi abandonado. No processo de reabertura comercial da China, do início da década de 1980, Xangai teve um papel importante, com o estabelecimento ali, em 1990, da sexta Zona Econômica Especial do país, significando uma regulação mais orientada para o mercado.

As ruas de Xangai são vibrantes, com muito movimento. Ao contrário de Beijing, com suas larguíssimas avenidas, a trama de ruas de Xangai comporta também ruas mais estreitas, com variação de direções e de ambiência. Permanece o sistema de ocupação do interior das quadras com vilas, algumas de muito boa arquitetura.

Há muitas ruas de pedestres nas áreas comerciais, como na Cidade Velha, cujo comércio lembra o da Saara, sediado, no entanto, em maravilhosos edifícios de arquitetura tradicional chinesa. Outra rua comercial de pedestres é a Estrada Nanquim Leste, com belos prédios do início do século XX e letreiros iluminados à noite. As principais ruas da cidade são pontuadas por lojas das marcas internacionais de consumo de luxo. Por serem tantas, é de se imaginar que haja essa demanda, apesar da maioria das pessoas usarem roupas básicas e confortáveis. 

As calçadas de Xangai são muito bem pavimentadas, muitas delas com placas de granito. Há sempre guias para deficientes visuais e rampas de acessibilidade. O asfaltamento das vias é praticamente perfeito, sem buracos ou lombadas, mesmo com as temperaturas sendo altas no verão. Há banheiros públicos por toda parte, geralmente bastante limpos. Os parques da cidade são bem arborizados, com plantas variadas entre pedras e espelhos d'água, como são os jardins orientais. Os canteiros das calçadas são igualmente muito bem cuidados, com arbustos podados e flores. E ninguém parece preocupado em ser roubado. Para quem mora no Rio de Janeiro, tudo isso é de chamar muita atenção, não é mesmo?

Xangai tem uma arquitetura impressionante, tanto a do passado, que inclui influências dos estrangeiros que lá estiveram com seus projetos coloniais, quanto a dos arrojadíssimos arranha-céus contemporâneos. Cinéfilos têm viva a memória do sky-line de Nova Iorque visto a partir do Brooklyn. É sim uma bela visão. Mas, aquela que se tem dos arranha-céus de Pudong, a área de negócios de Xangai, vistos a partir do Bund rivaliza com a visão de Woody Allen. Elevando-se do outro lado do rio Huangpu, próximas entre si, estão, entre outras, as torres Pérola do Oriente (de TV), a de Xangai, a quarta maior do mundo com seus 128 andares, a Jim Mao e a do World Financial Center, também conhecida como abridor de garrafas.

Mas não só o outro lado do rio apresenta esse espetáculo arquitetural. A margem do Bund é pontuada por edifícios excepcionais do século XX, marcadamente ecléticos de diversas inspirações e Art-déco. São edifícios de design inglês e americano, tão interessantes e variados, que essa orla do rio é conhecida como Museu da Arquitetura Internacional. Destacam-se, entre outros, o antigo Cathai Hotel, o Asia Bulding, o American Club, o Shanghai Club, o Union Building e o HSBC Bulding.

Com esse rico passado, Xangai tem uma ação importante de preservação do seu Patrimônio. Por toda parte há imóveis sinalizados com placas da municipalidade, cobrindo desde a arquitetura tradicional chinesa à arquitetura estrangeira e híbrida lá criada. Para preservá-los, a engenharia de Xangai é capaz de realizar prodígios. 

Em 2023, uma área edificada de 4.030 m2 e pesando 8.270 toneladas, na localidade de Zhangyuan, foi temporariamente deslocada por robôs hidráulicos para a construção de estruturas subterrâneas. Eram edificações do início do século XX, no estilo Shikumen, uma mescla da arquitetura ocidental com a tradicional arquitetura Jiangnan, que configuravam a melhor área preservada desse tipo de construção. Elas foram movidas à velocidade de 10 m por dia. Agora, em 2025, após o fim das obras subterrâneas, as edificações foram movidas de volta ao seu antigo local

No entanto, projetos de renovação urbana vêm acontecendo na cidade, destruindo parte desse passado. As autoridades municipais buscam reduzir a carência de habitações através da renovação de vizinhanças inteiras. É o que ocorreu, por exemplo, em Laoximen (Velha Porta do Oeste). Ali, edificações do início do século XX foram esvaziadas para serem demolidas e substituídas por modernos edifícios de apartamentos. Isso está ocorrendo também na imensa área com pequenas edificações relativamente antigas, já esvaziadas, próximas à turística área da Cidade Velha.

Xangai é uma das estrelas do acelerado desenvolvimento da China. Empresas internacionais de diversas áreas lá se instalaram. Em extensão, o metrô da cidade é o segundo maior do mundo e o primeiro em número de passageiros anuais. Uma ida aos seus subúrbios comprova que se constrói muito por ali. Gruas marcam a paisagem, com diversos prédios residenciais em construção. Há muitas empresas lá instaladas. Linhas de transmissão de energia, às vezes triplas, também atravessam o campo, havendo cultivo até junto às bases das torres. 

O mundo está mudando rapidamente e novos polos de poder já surgiram. Xangai, assim como outras grandes cidades da China está mostrando isso para quem quiser ver.

Artigo publicado no Diário do Rio em 31 de julho de 2025.

 

Beijing

 

Hutong em Pequim - foto Roberto Anderson

Pequim (Beijing) é uma cidade muito antiga. A primeira área urbana fortificada data de 1045 AC. Era a cidade de Jicheng. Diversas conquistas do território se sucederam até ela tomar o nome de Beijing (a capital do Norte) em 1403. Nesse período, foram construídas a Cidade Proibida, Tiananmen e o Templo do Céu, três de suas maiores atrações. 

É a segunda maior da China, depois de Xangai. A sua estrutura viária é composta por anéis mais ou menos concêntricos e não exatamente redondos. Eles são uma marca da expansão da cidade, tomando-se como centro a Cidade Proibida. A partir do entorno dessa área, contam-se mais cinco anéis. Muitos bairros desses anéis têm nomes terminados em mén, que é porta em chinês. Estão referidos às portas dos antigos muros, da mesma forma que em Paris há localidades, e estações de metrô, com a denominação de Porte. Há também bairros cujos nomes são terminados em cūn, que significa vila. Eram os bairros fora dos muros. 

Esses anéis são largas avenidas, e há outras ruas e avenidas igualmente largas e muito bem arborizadas, cortando o território da cidade. Mas, essas vias delimitam grandíssimas quadras, áreas residenciais onde a circulação viária é limitada. No passado, eram as áreas de alta densidade de ocupação do solo por pequenas casas fora da Cidade Proibida. Elas ainda existem, são os hutongs, e hoje têm todos os serviços públicos. Mal comparando, são o que nossas favelas poderiam ser, caso tivessem um pouco mais de cuidado por parte do poder público. Atualmente, algumas dessas grandes quadras são ocupadas por edifícios, mas permanecem com um jeito de vila.

As ciclovias da cidade são bem largas, em certos casos, às custas de um drástico estreitamento das pistas para os carros. O uso de bicicletas é intenso e até um pouco descuidado com os pedestres. Além disso, esses milhões de bicicletas, elétricas ou não, quando não estão em uso, são estacionadas nas calçadas, tomando boa parte do espaço. As de aluguel têm placas solares nos bagageiros à frente. Já quase não se vê veículos a combustão, o silêncio dos elétricos impera.

É sabido que a China é populosa. Ao andar por Beijing, que tem 22 milhões de habitantes, tem-se essa confirmação. Há sempre muita gente em todos os lugares. À noite, pelo menos no verão, há pessoas caminhando nas ruas, fazendo compras, se exercitando, ou apenas sentadas ou deitadas nos bancos ou muretas curtindo o espaço público. E muitas crianças brincando nas praças. Vitalidade urbana não necessariamente dependente do consumo, como em cidades de países desenvolvidos do ocidente. 

Há uma enorme preocupação com a segurança. Muitas câmeras de vigilância podem ser vistas nas calçadas da cidade.  Ao entrar em qualquer estação de metrô, ou em atrações turísticas, todas as pessoas têm que passar seus pertences numa máquina de escanear, além de atravessar pórticos detectores de metal. Até as garrafas de água são checadas. Um aparelho portátil identifica que efetivamente seja água. 

Um caso a parte é a entrada na Praça Tiananmen. Ali as restrições são fortíssimas e o tempo de espera para atravessar os procedimentos de segurança é grande. Revista-se o visitante e todos os seus pertences, inclusive a carteira de dinheiro e a capa do celular. O lado bom é que não há a mínima preocupação em ser roubado na cidade. 

Estrangeiros são como ilhas num mar de chineses e são facilmente notados. Quando se está com aquele jeito de perdido, tentando decifrar nomes de estações de metrô, por exemplo, sempre aparece alguém oferecendo ajuda em inglês. Por ainda serem relativamente raros, pode acontecer de alguém dar um "hello" na rua, pedir para tirar uma foto junto, ou puxar conversa usando o tradutor do celular, só pelo prazer de ter contatado um estrangeiro.

Em geral, as pessoas não falam inglês, mas entre os jovens há mais gente que fale. Garçons e garçonetes recorrem muito a algum aplicativo de conversão de texto. E, nos mercados os vendedores são muito simpáticos e sorridentes, tentando se comunicar com o cliente.  

Os estrangeiros são também uma minoria acachapante nos pontos turísticos da cidade. Ao contrário da maioria das grandes cidades do mundo, em Pequim esses locais estão lotados pela população do país. Gente de todas as idades vem visitá-los. Muitos são do interior. Após a visita, sentam-se em algum lugar, comem o lanche que trouxeram, e alguns tiram até uma soneca. Com razão, sentem-se em casa.

O uso do celular é intenso e constante. Se a pessoa estiver parada, é quase certo que estará vendo algo na telinha. Quase nada é pago com dinheiro. Todos usam o aplicativo We Chat ou Alipay. O cliente abre o QR code do aplicativo no seu celular, o qual é escaneado pelo vendedor e pronto, o pagamento está feito. Nesse ponto, é mais simples do que o Pix. Máquinas de venda de bilhetes e produtos também escaneiam o QR code do comprador. 

Há, especialmente entre as mulheres, um grande temor dos raios solares. Muitas cobrem os braços, usam luvas e portam bonés de abas enormes. Sombrinhas também são muito usadas para caminhar sob o sol, não só por mulheres. E há quem faça uso de uma espécie de "niqab" cobrindo nariz, boca e pescoço.

A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, mas os brasileiros ainda não a têm nos seus roteiros turísticos. Em tempos de restrições crescentes à entrada nos Estados Unidos, a China deve ser uma forte opção a ser considerada. Brasileiros estão isentos de visto e os preços das coisas não são altos. E o país, a sua cultura e a sua gente são fascinantes.

 Artigo publicado em 24 de julho de 2025 no Diário do Rio

 

A rua Sacadura Cabral

No início do século XIX a malha urbana da cidade do Rio de Janeiro, que até então pouco havia se estendido além do quadrilátero formado pelos morros do Castelo, Santo Antônio, São Bento e Conceição, passou a se expandir em direção a novos espaços.  Para o oeste, na direção do Campo de Santana, formou-se a chamada Cidade Nova. Duas outras direções opostas também se delinearam: a que levava à Glória e a que levava à Prainha. A expansão neste último eixo, era dificultada por obstáculos como a pedra da Prainha, localizada próxima à atual Praça dos Estivadores. O lento crescimento dessa área prosseguiu, assim, pela orla, em direção ao Morro da Saúde. Ao mesmo tempo, os morros locais foram sendo ocupados por novas moradias.

O grande desenvolvimento da cidade, provocado pela chegada da família real portuguesa, refletiu-se num aumento da atividade portuária e na conseqüente construção de trapiches e atracadouros nas áreas da Prainha, da Saúde e da Gamboa.  Novas ruas foram abertas na área plana entre os morros do Livramento e Saúde, entre as quais a rua Nova de São Francisco da Prainha (1819), que veio a constituir parte da atual Rua Sacadura Cabral. Ela foi assim denominada em homenagem ao piloto companheiro de Gago Coutinho no vôo pioneiro entre o Rio de Janeiro e Lisboa. De forma a dar continuidade a esta rua, mais tarde foi necessário realizar um corte na pedra da Prainha.

Por volta de 1830, a intensificação das exportações de café levou à substituição de vários atracadouros e trapiches por armazéns de café. Alguns logradouros receberam melhorias, que facilitaram a circulação das mercadorias. Atividades consideradas indesejáveis em outras áreas da cidade, e que haviam se concentrado no Valongo e na Saúde, foram sendo desativadas, como a forca do Largo da Prainha, o depósito de escravizados do Valongo e o cemitério dos Pretos Novos. Obras de embelezamento foram realizadas, como a praça e chafariz do Valongo e o Cais da Imperatriz, projetado em 1843 por Grandjean de Montigny para receber a Imperatriz Teresa Cristina. Deste passado, permanecem monumentos contrastantes, como o próprio Cais do Valongo, redescoberto anos atrás, e a coluna monumental encimada por esfera armilar.

Com o forte movimento comercial nos trapiches da área, diversas licenças para construção de novos cais foram concedidas pelo Império. De forma a garantir a facilidade de recebimento de matéria-prima e de exportação de produtos, indústrias que ali se localizavam construíram seus próprios cais. Esse foi o caso do Moinho Fluminense, que em 1888 requereu permissão para a construção do seu. Também o Cemitério dos Ingleses solicitou permissão para um cais onde pudesse receber seus mortos.

O desenvolvimento da função portuária provocou o interesse de proprietários de chácaras locais em loteá-las, abrindo novas ruas, entre as quais a rua do Livramento. A Praça da Harmonia foi inaugurada por volta de 1850 e ali também foi construído o mercado da Harmonia, segundo mercado da cidade é, como outros, atualmente não mais existente. Posteriormente, tal área passou a se chamar Praça Coronel Assunção, em homenagem ao comandante e herói da Guerra do Paraguai. Mesmo assim, permanece na memória popular a sua antiga denominação.

A inauguração da Estrada de Ferro D. Pedro II, e da Estação Central do Brasil em 1858, trouxe um aumento considerável do trânsito de cargas pelas ruas da Saúde e Gamboa, prejudicado o calçamento com o peso das carroças, o que muito desagradou seus moradores. Isso levou a uma certa desvalorização de terrenos das áreas planas para o uso residencial e uma intensificação de seu uso comercial. Já os morros da Conceição, Livramento e Saúde passaram a ser cada vez mais ocupados por residências.

Em 1871 foram inauguradas as obras das Docas de D. Pedro II, que constavam de um cais entre a atual Rua Argemiro Bulcão e a atual Rua Barão de Tefé, e um armazém com três pavimentos, até hoje existente. Era uma antecipação da construção do atual Cais do Porto que, junto com a abertura da Av. Central e dos alargamentos de ruas promovidos pelo Prefeito Pereira Passos, constituíram o tripé de inovações urbanas na cidade. A construção do novo porto, realizado através de aterro produziu duas áreas de traçados diferenciados. Uma, com ruas sinuosas e ladeiras, com casario mais antigo, e outra, de ruas mais largas, formando uma trama em xadrez, onde se encontram as avenidas Rodrigues Alves e Venezuela, com edificações mais altas e modernas. A Rua Sacadura Cabral, formada pela antiga Rua Nova de São Francisco da Prainha e pela Praia da Saúde vem a ser o encontro entre tais áreas.

Ela tem a conformação curva da antiga linha do litoral. Tendo sido consolidada já no século XIX, ela foi beneficiada pelo aviso régio de 1810, que determinava uma maior largura para as novas ruas a serem abertas. Ao longo da rua é possível encontrar sobrados do século XIX e mesmo do XVIII, ocupados por comércio local e, até pouco tempo, por habitações de classe média baixa. Destacam-se também a Igreja de São Francisco da Prainha, o Largo da Prainha e o casario da Rua Eduardo Jansen, uma de suas transversais. Já no trecho final da Rua Sacadura Cabral há uma grande diversidade de edificações, algumas de grande porte, como o Hospital dos Servidores, de arquitetura Art Déco, o Hotel Barão de Tefé e o Moinho Fluminense, com sua belíssima arquitetura industrial de influência inglesa.

A permanência dessas edificações mais antigas, que já esteve ameaçada, encontra-se desde 1985 protegida pela APA SAGAS, que preservou casas e sobrados nos bairros da Saúde, Santo Cristo e Gamboa.

Artigo publicado em 17 de julho no Diário do Rio.

sábado, 12 de julho de 2025

A cegueira da visão

O dia amanheceu esplêndido. O pedaço de cidade em que vivo segue lindo, como sempre. Vejo o mar, as montanhas e as florestas. Enquadramentos conhecidos, mas ainda surpreendentes. A visão da beleza reverbera internamente, vibro em sintonia com o que me cerca. Tudo deve estar bem. Mas, um sentimento difuso toma forma. Aflora a apreensão de que isso desapareça. Não o desaparecimento real, mas um particular. Que a visão, que já não é boa, não mais alcance a paisagem. Inquietação muito particular, muito pouco objetiva. Antecipação de uma perda possível. Penso em quem não consegue ver. Em quem é privado desse prazer. Há o medo de um dia também não o alcançar.

O que enxergo é definido por uma visão já limitada. Meia visão das coisas. Ainda assim, as vejo. Nós míopes e astigmáticos, nós com visão monocular, nós os quatro-olhos sempre enxergamos através de lentes que corrigem nossas deficiências. Desde a infância ou adolescência é assim. Um dia, a avó pediu que olhasse distante e tentasse enxergar o que ela já não conseguia. A criança também não conseguiu. Sem os óculos, sabemos que somos um pouco cegos. Talvez, por já experimentarmos um pouco dessa limitação, nos sintamos mais próximos dos que nada veem. 

A cegueira pode vir aos poucos, como o lento turvamento de uma catarata. Pode também vir de chofre, como o susto de um descolamento de retina, ou de um acidente com uma arma de brinquedo. Ou como na ficção de Saramago. De um momento ao outro a escuridão, a perda das formas e das cores. O apagamento dos rostos queridos. A redução da autonomia. No texto daquele autor, a cegueira é coletiva, e desperta maus instintos. 

Grupos de cegos pelas ruas juntam suas perdas para ganhar mais independência. Alguns são alegres. Raul não explica os olhos dos cegos. Um cego solitário pela rua suscita, em nós outros, apreensão. Pessoas boas parecem ficar atentas para o caso de precisão. Há quem se adiante e tome-lhe pelo braço. A ajuda parece bem-vinda. Ou resignadamente aceita.

No passado da família, houve um homem acabrunhado em seu quarto escuro, com medo de sair afora e ser visto por quem ele não podia ver. A vida se tornou amargurada. Definhou até o fim. Mesmo ele não querendo, todos à sua volta o viam. 

Um músico ensimesmado em seus pensamentos e sensações não sai do seu quarto de hotel durante a turnê mundial. É levado pela mão até o palco, onde deixa sua alma extravasar nas teclas do piano. Ali é senhor das emoções que provoca no público. Cego, é o guia da audiência por seu mundo sonoro. 

O genial Ray Charles foi mulherengo e teve doze filhos. Stevie Wonder marca com a cabeça o balanço de suas canções. Nós o seguimos. E o cego Aderaldo criou rimas na rapidez de um raio.

Cegos jogam bola, uma bola com guizos que lhes indica a sua posição. Cegos correm em olimpíadas. Cegos leem, cegos trabalham. Cegos se casam e têm filhos. Mesmo assim, perder a visão apavora os ainda videntes. 

Em várias questões, somos todos metaforicamente cegos. A felicidade cega. A vaidade e a ganância certamente também. O amanhã não pode ser visto. A cegueira do futuro é a nossa angústia comum. Um facho de luz atravessa o dia cegando a visão do horizonte. Caminhamos, tateamos. A apreensão persiste.

Artigo publicado em 10 de julho no Diário do Rio.

 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Ainda a necessidade do planejamento metropolitano

A acelerada urbanização brasileira e a concentração de população nas grandes cidades, e em suas periferias, fizeram emergir, na década de 1970, a questão da administração das áreas metropolitanas. Elas, que haviam se formado ao longo do tempo, ainda não eram pensadas entre nós como unidades de planejamento. Assim, visando equacionar alguns problemas comuns aos vários municípios que constituíam esses aglomerados urbanos, foram instituídas as regiões metropolitanas e, também, os órgãos de gestão metropolitana. No Estado do Rio de Janeiro, no Governo Faria Lima, foi criada a FUNDREM – Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana.

 

Após um período inicial, em que foi presidida pelo arquiteto Jaime Lerner, a FUNDREM ocupou-se principalmente da execução de planos diretores para os municípios, que então não dispunham de estruturas técnicas para a realização dessas tarefas. Foram também realizados alguns estudos específicos, como o Parque Metropolitano na fazenda São Bernardino, que nunca saiu do papel. A FUNDREM foi ainda responsável pela criação do Aterro Metropolitano de Gramacho, que deveria ser uma solução adequada para o destino dos resíduos sólidos da região, mas que com o tempo se tornou um grande problema ambiental até ser fechado.

 

A atuação da FUNDREM foi bastante marcada pelo pensamento tecnocrata da época. Enquanto verbas federais irrigaram o sistema de planejamento, tal visão do julgamento técnico acima do jogo político pareceu funcionar. É importante notar que grande parte das verbas vindas de Brasília e destinadas ao processo da fusão do Estado do Rio com a Guanabara passavam pela FUNDREM, incluindo-se aí verbas de saneamento, habitação popular e até mesmo de aparelhamento da Polícia Militar. Com tais argumentos, era possível manter os municípios da Região Metropolitana colaborando com o trabalho da Fundação. Findo o fluxo de verbas e, por falta de visão por parte dos dirigentes do Governo Estadual da função estratégica que aquele órgão poderia ter, a FUNDREM passou a dedicar-se a questões mais pontuais, como os projetos habitacionais da Maré. Ela também passou a servir como cabide de empregos e, posteriormente, teve alguns de seus dirigentes envolvidos em casos de corrupção. Acabou sendo extinta no Governo Moreira Franco, um grande equívoco daquele governador.

 

O problema de gestão da Região Metropolitana permaneceu e, durante muito tempo, o Estado do Rio de Janeiro foi o único da Federação sem um órgão com essa finalidade. Isso não impediu que essa área estratégica de planejamento, seguisse necessitando de ações coordenadas entre o Estado e as prefeituras envolvidas, de forma a buscar soluções para problemas que extrapolavam em muito as fronteiras municipais. 

 

A experiência da FUNDREM, em que pese alguns equívocos, teve também muitos acertos, tendo formado um quadro técnico de altíssimo nível, depois disperso entre as administrações do Estado e do Município do Rio. Também foi criado um valioso acervo de informações estruturais sobre a área. O próprio conceito de Região Metropolitana, como área de influência de um município sede, com múltiplas interferências das ações municipais nos territórios vizinhos, precisa ser repensado. Há, hoje em dia, uma forte tendência mundial de expansão do fenômeno urbano, o qual atinge áreas cada vez mais distantes das áreas centrais, e extrapola as noções do que é urbano ou rural. Esse fenômeno tem gerado urbanizações difusas e aglomerações policêntricas, o que produz maiores e mais complexos desafios ao planejamento urbano. Novos eixos de crescimento urbano para fora do que classicamente era considerado a área metropolitana do Rio de Janeiro, podem também exigir novas definições sobre a abrangência do fenômeno metropolitano. Isto pode implicar num redesenho do território componente da Região Metropolitana, com novas associações administrativas e novas prioridades na alocação de recursos.   

 

Em 1996, o IBAM realizou um seminário sobre o tema da gestão metropolitana, reunindo representantes dos vários municípios que constituem a atual área metropolitana, além de representantes de instituições de pesquisa e estudos urbanos. A aceitação à ideia da recriação de um órgão de planejamento metropolitano foi grande, tendo havido a ressalva, por parte dos municípios, sobre a necessidade de se preservar suas autonomias.

 

Em 2014, o Governador Luiz Fernando Pezão criou a Câmara Metropolitana de Integração Governamental do Rio de Janeiro e o Grupo Executivo de Gestão Metropolitana. Esse grupo, com financiamento do Banco Mundial, contratou os serviços do escritório do arquiteto Jaime Lerner, que desenvolveu o Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Tal plano, que envolveu aspectos ligados ao meio ambiente, expansão econômica, mobilidade e saneamento, até onde se sabe, permanece sem implementação. Em 2019, o Governador Wilson Witzel criou o Instituto Rio Metrópole, que absorveu as atribuições do antigo Grupo Executivo. Se este último era presidido por um técnico da área do planejamento urbano, o Instituto Rio Metrópole é presidido por um político de São João de Meriti com origem no Corpo de Bombeiros.

 

Apesar das idas e vindas, persistem os antigos desafios que levaram à reconstituição de um órgão de planejamento metropolitano. Problemas como, a despoluição da Baía de Guanabara, a melhora da coleta dos resíduos sólidos e sua reciclagem, a implantação de sistemas de transportes de massas integrados, a criação de programas de geração de empregos, a valorização dos espaços urbanos, a preservação dos mananciais de água potável e a preservação ambiental seguem desafiando os governos. Os habitantes da Região Metropolitana já têm noção de que os seus problemas locais estão relacionados aos dos municípios vizinhos. Uma abordagem sistêmica dessas questões não pode mais ser adiada.


Artigo publicado em 03 de julho de 2025 no Diário do Rio. 


sábado, 28 de junho de 2025

Faz frio no Rio

Foto Roberto Anderson

Nos dias anteriores soprou um vento estranho. Um grupo de stand-up paddle chegou a ser jogado em direção contrária à da praia, precisando ser resgatado pelos bombeiros. Dias depois, o vento veio mais forte, trazendo a chuva que novamente já alagava o Rio Grande do Sul. E com ela veio o frio. Frio intenso, a segunda onda de frio a chegar nestas praias. A temperatura despencou para a casa da dezena, o que é gelado no Rio de Janeiro. No Alto da Boa Vista é capaz de ter caído na casa das unidades.

Tudo certo, é inverno, é dia de São João, e o normal é que faça mais frio mesmo. Diferentemente dos últimos anos, esse inverno tem sido como deve ser. Não sei se é influência do El Niño ou da La Niña, essas duas crianças invisíveis que brincam com as temperaturas do Hemisfério Sul. O que sei é que é possível lembrar que, mesmo esporádico, e passageiro, o inverno existe no Rio de Janeiro. 

Nesses momentos, se compreende como no passado já houve senhoras possuidoras de casacos e estolas de pele nesta cidade tropical. Não importa que ficassem 360 dias por ano guardados em geladeiras das casas especializadas no negócio. Por momentos fugidios elas eram incorporadas ao guarda-roupa de quem tinha posses para as ter. Pode pesquisar em fotos antigas, que lá estavam os casacos de arminho e as estolas, com cabeça de raposa e tudo, nos ombros das damas da alta sociedade carioca. 

Não só o exagero das peles denuncia a outrora existência de um clima mais ameno por aqui. Nessas fotos antigas, os senhores estão de terno em plena avenida Central sem demonstrar desconforto. É certo que o calor sempre existiu, tanto que quem podia, fugia para o veraneio na serra durante os meses quentes. Mas não era o nosso calor de todo dia deste século, muito menos a promessa de dias sufocantes e escaldantes que o aquecimento global nos promete.

Estes dias um pouco mais frios, nos fazem lembrar também que um dia já se usou calças de veludo no Rio. Que as meninas usavam saia kilt de lã, aquelas de estilo escocês, e que era concorrido o fondue na Casa da Suíça. Claro que esses eram hábitos de uma certa classe média favorecida e de mauricinhos e patricinhas da cidade. O pobre sempre se virou com bermuda e um casaquinho que nem se lembrava onde estava guardado. O carioca de chinelo, bermuda, gorro e luva é um clássico dos dias frios por aqui.  

O frio, especialmente naqueles dias de chuva, deve nos fazer valorizar os dias de sol, tão frequentes no Rio. É o frio que detona o douramento, que depois se torna vermelhidão, das folhas das amendoeiras. É ele que provoca o desabrochar das florações dos ipês. Então, aproveitemos, porque dura pouco e daqui a alguns anos, se o inverno chegar, será por apenas algumas horas. 

Artigo publicado em 26 de junho de 2025 no Diário do Rio.


quarta-feira, 25 de junho de 2025

Árvores do Rio

Observando as árvores das ruas da cidade é quase possível traçar a história da arborização urbana do Rio de Janeiro. Com atenção, se consegue perceber que, a cada época, espécies favoritas foram plantadas. Até o século XIX sequer havia a ideia de se plantar árvores nas ruas como política pública. Além das poucas ruas existentes na cidade serem estreitas, os quintais das casas eram arborizados, e isso bastava. Não havia espaço ou necessidade de árvores nas ruas, que deveriam se distinguir da floresta no entorno. De espaços públicos arborizados a cidade contava apenas com o Passeio Público, criado ainda no século XVIII, e o Campo de Santana, ambos com a marca do paisagista francês Auguste Glaziou. 

A novidade de se arborizar ruas veio da Paris haussmanniana, com seus bulevares. Isso foi em meados do século XIX e, naquele século, foram poucos os plantios em vias públicas no Rio. Um dos primeiros foi o renque de figueiras religiosas plantadas em frente à Santa Casa, na rua Santa Luzia, pelo botânico Francisco Freire Alemão, em 1873. Por sinal, figueiras eram uma marca do plantio em parques cariocas, como atestam as já centenárias do Campo de Santana. Houve também o plantio da aleia de palmeiras imperiais da Rua Paissandu e no Largo dos Leões, além da aleia de sapucaias na Quinta da Boa Vista. 

Somente no século seguinte, com as reformas do período Pereira Passos, é que o Rio começaria a ver a arborização urbana como um fato espalhado pela cidade. As ruas alargadas foram arborizadas e a novíssima avenida Central, atual Rio Branco, logo recebeu o plantio de mudas de pau-ferro no canteiro central (há quem afirme que eram mudas de pau-brasil) e de oitis nas calçadas laterais, uma árvore da Mata Atlântica muito bem adaptada ao ambiente urbano. Infelizmente, nem aquele canteiro, nem as árvores originais existem atualmente. Restam os oitis das calçadas laterais. 

A também nova avenida Beira Mar foi outra a ser contemplada com oitis, além de palmeiras entremeadas entre as árvores. Esse arranjo, ainda possível de ser observado na avenida Augusto Severo, está desaparecendo à medida que as palmeiras que morrem não são substituídas. É ainda dessa época o plantio de paus-ferros, como os existentes no canteiro central da avenida Pedro II, em São Cristóvão, e das amendoeiras, como as da Praça Paris. As amendoeiras, com a sua queda anual de folhas, apesar de exóticas e destruidoras de calçadas, cumpriram a função de dar ares europeus às quentes ruas do Rio. Da mesma forma, as asiáticas casuarinas, plantadas à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, trouxeram um ar de romantismo europeu. Bem próprio da mentalidade colonizada de nossas elites. 

Nessas primeiras décadas de arborização urbana da cidade foram também utilizadas as sibipirunas, como as que hoje existem na orla da Praia de Botafogo, as paineiras e os flamboyants. E cássias ou acácias, também foram muito espalhadas pela parte da cidade que é arborizada. Sim, só partes do Rio são arborizadas. O Censo de 2022 detectou que 37,8% dos cariocas vivem em ruas sem nenhuma árvore plantada. As acácias e os oitis são tão onipresentes na cidade, que duas ruas na Gávea foram batizadas com seus nomes.

Na década de 1960 Burle Marx encheu o Parque do Flamengo com uma variedade de árvores nunca vista por aqui. Vieram espécies da Amazônia, do Cerrado e da Ásia, numa mistura sem preconceito, cujo único objetivo era produzir beleza e encantamento. Talvez esse gosto pelo diferente tenha influenciado a escolha das espécies que passaram a ser plantadas nos anos seguintes nas ruas. O abricó de macaco e a Monguba ou falso-cacau são marcas dessa arborização urbana carioca na década de 1970. A primeira se mostrou muito inadequada, já que seus pesados frutos podem danificar automóveis estacionados ao caírem. Ainda existentes em algumas calçadas, essas árvores exigem da Prefeitura o trabalho de coleta dos seus frutos antes que venham a cair.

Na década de 1990 uma nova estrela surgiu no repertório de árvores da cidade, a bauhinia ou pata de vaca. De rápido crescimento ela foi plantada em grande quantidade em calçadas e praças. É desse período também a política de só plantar árvores nativas nos espaços urbanos, vista por alguns como xenofobia vegetal. A amendoeira até foi banida por decreto municipal. Um ponto de convergência é o plantio de ipês, em suas várias cores e variedades, sempre muito bem aceito por todos. 

A cidade tem uma enorme carência de plantio de árvores e promessas nunca cumpridas de suprir essa carência. Apesar disso, nos últimos anos, subiu assustadoramente o número de licenças para extração de árvores de terrenos privados, sem que se tenha conhecimento de onde foram plantadas as suas substitutas, e mesmo se foram plantadas. Um plano de arborização urbana da cidade, nunca implantado, caminha para ser revisto, uma realização que só nossos políticos são capazes de fazer. 

A população gosta de árvores e gosta de plantar. E, na falta de ação adequada do poder público, coletivos se organizam por toda a cidade para realizar plantios. Há, ainda, ações de indivíduos que agem sozinhos, plantando com dedicação, mas sem muito critério. Mangueiras parecem ser as preferidas desses plantios aleatórios. Mas a mais saborosa dessas iniciativas é o plantio de bananeiras e mamoeiros em canteiros nas calçadas, talvez uma memória do passado rural de nossos porteiros e zeladores. 

Artigo publicado em 20 de junho de 2025 no Diário do Rio.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

A rubra energia de Esther Weitzman

Foto Renato Mangolin

Uma onda vermelha, dançante, cobriu o palco do Teatro Carlos Gomes neste fim de semana. Foi o espetáculo "As histórias que contamos sobre nós", de Esther Weitzman. No palco, vestidos de vermelho, bailarinos de técnicas e corpos diversos, com muita vitalidade, que estabelecem uma conexão imediata com a plateia. O espetáculo atual é uma remontagem, com outro elenco, do trabalho criado em 2019, que celebrou os vinte anos da companhia. 

A primeira cena, uma das melhores, é ao som de Sympathy for the Devil e já marca a energia que o grupo tem para passar. Duetos acontecem, formações de conjunto e, principalmente, logo transparece em cena as qualidades individuais de cada um dos componentes, o que marca todo o decorrer do espetáculo. 

Após Rolling Stones, a trilha sonora, entre outras maravilhas, ainda brinda o público com Robert Plant, Chuck Berry, Freddie Mercury e Tom Waits. Só coisa boa. Em Bohemian Rhapsody, há momentos de grande beleza com a presença somente dos homens em cena. Eles transmitem força, mas também a fragilidade do masculino em transição do mundo atual. 

Obras coreográficas que partem da diversidade dos componentes de um grupo, buscando tirar partido do que cada um tem de melhor e de suas histórias pessoais, podem resultar em trabalhos bastante interessantes. De uma certa forma, os trabalhos de Pina Bausch partem desse recurso. Entre nós, numa escala mais amadorística, o espetáculo "Sonhando Inocente", com formandos da Escola Angel Vianna, ou a "Obra Aluna", com alunos do Grupo Coringa também tinham essa estrutura. O presente trabalho de Esther Weitzman alcança um alto nível de coesão e de apuro, fruto de muito ensaio e dedicação. 

Esther Weitzman é agregadora, amiga de todos, umas das pessoas mais positivas e agradáveis do mundo da dança carioca. No trabalho com a sua companhia ela vem experimentando borrar limites que tradicionalmente eram associados à dança. Em "Dançar não é preciso" ela trabalhou com bailarinos bem jovens. Em "Jogos de Damas" ela reuniu bailarinas de idades variadas e em "Breve", em que ela própria está em cena com Paulo Marques e Toni Rodrigues, é a elegância e a maturidade dos três artistas o maior atrativo da peça. 

Agora, ela remonta um trabalho anterior dando espaço a novos bailarinos. Uns trazem movimentações cheias de energia e outros, com mais limitações físicas, demonstram ter iguais possibilidades de transmitir emoção através do movimento. Em meio a esse conjunto, sobressai a experiência e a qualidade de movimento de Frederico Paredes. O público responde com entusiasmo e eventual participação quando também é convidado a dançar. 

Tudo isso num Teatro Carlos Gomes renovado por uma nova obra de restauração, que o deixou impecável. Toda a beleza de sua arquitetura e de sua decoração interna se encontra em seu máximo esplendor. Um orgulho para a Cidade do Rio de Janeiro. 

Artigo publicado em 12 de junho de 2025 no Diário do Rio.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Mais um grupo armado no Rio?

 

A Guarda Municipal da Cidade do Rio de Janeiro foi criada em 1993, na primeira administração do prefeito César Maia. Sua primeira formação foi com os vigilantes que trabalhavam para a Comlurb. Havia a justificativa de que a corporação forneceria segurança para os próprios municipais. Naquela ocasião, os guardas foram alocados nas recepções de todas as repartições públicas do Município. Mas, a sua evolução foi em uma direção bem diferente.  

Algum tempo depois da sua criação, surgiu na GM um grupo especializado em cuidar do trânsito das ruas e outro que dava apoio às ações da fiscalização municipal contra o trabalho irregular dos ambulantes. Ali começaram a se destacar alguns indivíduos por sua forte compleição física, e pela violência com que exerciam o seu ofício. Verdadeiras batalhas campais se desenrolaram nas ruas, especialmente no Centro. E a GM passou a usar armas não-letais.

Atualmente, os guardas municipais quase desapareceram do ordenamento do trânsito, entregue na cidade ao Deus dará. Fora de períodos eleitorais, sua presença pode ser notada no ordenamento do comércio ambulante. Estão também nos programas de segurança na orla durante o verão. Eles, inclusive, foram usados na vergonhosa apreensão ilegal de menores dos bairros periféricos que se dirigiam às praias da Zona Sul, promovida pelo Prefeito. 

Mas Eduardo Paes, que deseja angariar votos no eleitorado mais à direita, conseguiu a aprovação de um projeto de lei que transforma a GM numa corporação armada. Ele deve concorrer à eleição para o governo do Estado e, se vencer, poderá indicar o comando da Polícia Militar. Mas, ansioso, parece querer garantir desde já o seu próprio grupamento armado. 

Na primeira votação do projeto, o Prefeito se irritou com o fato de que metade dos vereadores do PT tivessem votado contra o armamento da guarda. O que deveria espantar é a existência de uma metade que estava de acordo com essa proposta, estranha ao ideário de um partido popular. Para garantir votos favoráveis na segunda votação, o Prefeito fez retornar temporariamente à Câmara seus secretários com mandatos naquela Casa. Eles, naturalmente, votaram pela aprovação da lei que arma a Guarda Municipal, entre os quais dois petistas e um (neo) verde.

Impaciente, querendo mostrar serviço na truculência, o Prefeito colocou na lei a possibilidade de contratar homens egressos da PM e das Forças Armadas. Os novos recrutas da guarda, que passará a se chamar Força de Segurança Municipal (FSM), já terão como exemplo homens formados na escola da violência contra pobres e negros, e na prática de forjar flagrantes. Isso é péssimo, não tem nada a ver com um policiamento civilizado que respeite o cidadão. 

Como nesta cidade partida as vielas das favelas não são consideradas ruas, até hoje a guarda Municipal não chegou lá. No futuro, quando um garoto, após um furto no asfalto, correr para a favela, o guarda correrá atrás? Empoderados pelas armas, será que veremos guardas municipais em confronto com traficantes? Os guardas, que atuavam desarmados, serão alvos de criminosos por represália ou como tentativa de roubo de suas armas? E, ao se deparar com o nível de armamento do crime organizado, a FSM buscará se armar ainda mais? São perguntas que devem ser feitas pelo cidadão que deseja menos guerra na cidade. Já há balas perdidas em excesso e demasiados agentes da lei que desrespeitam os direitos humanos e formam a base eleitoral de uma direita com ideologia fascista.

Com a aprovação do armamento da guarda municipal, estamos embarcando numa aventura, cujas consequências desconhecemos. Mas, o histórico da corporação que, de simples vigilantes da Comlurb passou a ser cada vez mais dirigida para situações de confronto, deveria nos preocupar. 

Artigo publicado em 05 de junho de 2025 no Diário do Rio.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O velho herói

Numa cena do filme Blade Runner, já quase no final, a vida do herói depende do ciborgue que o venceu. Olhando o herói ali prestes a cair no vazio, pendendo de sua mão, o ciborgue lhe fala da pena que sente em ver se apagar uma vida, a sua vida artificial, cheia de aventuras além da imaginação humana. Em sua existência, com duração programada, o ciborgue foi a lugares, planetas, galáxias, que o herói ali vencido jamais poderia ter ido. Viu maravilhas, jamais imaginadas. Ele acredita que o que viu, e sentiu, foi com um olhar e um sentimento extremamente humanos. E, no entanto, agora sua vida se apagava. Mas antes, ele pode salvar o herói ou deixá-lo cair. Talvez, o mesmo sentimento de pena, mas por outra vida que deixaria de existir, pelas memórias daquele ser, que deixariam de ser transmitidas, o fazem erguer o herói e poupar a sua vida. Ele o faz no momento em que a sua própria vida se apaga. É belo.

 

O velho compartilha, um pouco, com o herói e o ciborgue esse sentimento de acúmulo de memórias. Tanto já foi vivido! Às vezes, até lhe parecem ser diversas vidas. E talvez o sejam. Ao contrário do ciborgue, o seu fim não é programado, não há um prazo definido, apesar de sabê-lo certo. O velho continua vivendo, e mudando. Mudando e vivendo enquanto for possível. 

 

O velho não tem nada de forte ou de destemido. Simplesmente sobreviveu. Olhando para trás, talvez se veja como um Forest Gump, um passageiro distraído da vida, que alterna experiências, agora sem saber muito bem o porquê de tudo isso. As decisões que tomou, as lutas que lutou são só suas, mesmo quando vividas coletivamente. Os amores que teve são lembranças que o fazem sorrir. As dores da sua vida doem menos que as da velhice. 


Se ele já teve algum poder, hoje está na planície. Faz esforço para ser ouvido. Ele agora fala sem censura, pragueja contra injustiças e amaldiçoa os poderosos sanguinários. A família é cada vez mais o seu mundo. O outro, o mundo de fora, segue sendo um lugar de guerras e conflitos. Mas, sempre há belos ideais. Ele pode escolher a desilusão, mas prefere ter esperança. 


Artigo publicado em 29 de maio de 2025 no Diário do Rio.


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Erros em série no trato do Jardim de Alah

O instituto do tombamento foi criado no Brasil pelo Decreto-Lei 25, de 30 de novembro de 1937. É ele que cria as diretrizes gerais dessa matéria e todos os demais órgãos de tombamento estaduais e municipais seguem os princípios ali estabelecidos. Nesse Decreto-Lei está definido que “As coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas”. Esses efeitos só cessam em caso de destombamento de um bem. Além disso, as boas práticas adotadas pelos órgãos de Patrimônio Brasil afora impõem aos infratores desse preceito, além de multas, a necessidade de recomposição daquilo que foi descaracterizado.

No caso do Jardim de Alah, onde a Prefeitura do Rio de Janeiro licenciou a construção de uma extensa edificação para abrigar lojas e restaurantes, há duas situações superpostas. Primeiramente, ele foi tombado. É que diz, claramente, o artigo 3º do Decreto Municipal 20.300 de 27 de julho de 2001: o Jardim de Alah fica tombado, definitivamente, nos termos do Artigo 4º da Lei 166 de 27 de maio de 1980, inclusive as praças Almirante Saldanha, Grécia e Poeta Gibran. Essa última é a Lei Municipal que dispõe sobre o processo de tombamento no Município do Rio de Janeiro. A segunda situação incidente sobre o Jardim de Alah é que ele, mesmo sendo tombado, foi parcialmente descaracterizado pela implantação ali de um canteiro para a construção da Linha 4 do metrô. Tal descaracterização, irregularmente aceita pelo Município, precisa ser corrigida. Nos termos do tombamento, tal correção somente pode se dar com a recomposição do jardim, de acordo com suas feições originais.

No processo que contesta a possibilidade de descaracterização definitiva do Jardim de Alah, caso seja executado o projeto da Rio Mais Verde Empreendimentos S.A., empresa que venceu a licitação para a privatização daquele parque, a mesma empresa informou à Justiça que o Jardim de Alah não seria tombado, mas sim tutelado, uma proteção mais fraca. Essa informação é completamente contrária ao disposto no Decreto aqui citado que realizou o tombamento do parque.

A juíza da ação, Dra. Regina Lúcia Chuquer de Almeida Costa de Castro Lima, da 6ª Vara de Fazenda Pública da Capital, parece não ter considerado essa argumentação. No entanto, a juíza tem uma interpretação bastante equivocada sobre como gerir o bem tombado. Na sua decisão, ela afirma o seguinte: “A Praça Grécia merece um capítulo à parte, sendo necessário ressaltar que, desde há muitos anos essa parte do parque não mais existe, em virtude da utilização do local, em 2002, para a construção da Linha 4 do Metrô-Rio, depois ocupada pela COMLURB, mantendo-se no local até o momento. Assim, no local, não há o que preservar ou restaurar, sendo plenamente possível a implantação do projeto (...).” Ora, esse é o ponto central da discussão, já que uma ação criminosa, de descaracterização do bem tombado, foi realizada e caberia justamente à Justiça exigir a recomposição do bem tombado.

Não seria nem a primeira, nem a última vez que tal fato ocorreria. Como exemplo, vale citar o caso do entorno da Pedra de Itaúna, na Barra da Tijuca, bem tombado estadual. O então proprietário, o empresário Pasquale Mauro, promoveu a sua descaracterização, aceitando a deposição de entulho no local. A pedido do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac, o juiz do caso exigiu a recomposição dos alagados em torno da Pedra, com toda a sua vegetação original. Outro exemplo eloquente é o Solar do Visconde de São Lourenço, na rua do Riachuelo, tombado pelo Iphan. O proprietário permitiu e promoveu a descaracterização do imóvel, que se encontra arruinado. Pois o Iphan exige simplesmente a reconstrução do bem tombado, não tendo até hoje aceito qualquer alternativa a esta solução.   

No caso do projeto de construção de um shopping sobre extensas áreas do Jardim de Alah, ocorreram diversos erros em série. Errou a Prefeitura ao aceitar licenciar um projeto que contraria o tombamento municipal. Errou o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro ao aceitar que a descaracterização de um bem tombado se tornasse um fato consumado, sem consequências para os que o provocaram, e sem a exigência da recomposição do parque na sua feição original. O Conselho errou ainda ao aprovar um projeto que modifica de forma radical o bem tombado. 

E erra a Justiça ao não compreender que a sua função, à luz da legislação vigente, é a de exigir a correção de fatos que contrariem essa mesma legislação. A juíza do caso ainda manifesta contentamento pela possibilidade de um novo polo turístico no futuro Jardim de Alah, o que pouco tem a ver com preceitos da Justiça, a quem, acredita-se, cabe tão somente julgar a legalidade dos fatos. E o fato é que o Jardim de Alah do tombamento municipal deixará de existir com a consecução do projeto proposto na sua privatização. 

Artigo publicado em 22 de maio de 2025 no Diário do Rio.