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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Fazendinha Laranjeiras

Joguei umas sementes de abóbora num terreno baldio da Rua Alice e agora já há ali um aboboral. Posso não ter sido o único a tê-lo feito, de maneira que não tenho como afirmar que o aboboral que lá está é fruto das sementes que lancei. Aqui é Laranjeiras e há muitas iniciativas semelhantes. No mesmo terreno em que lancei as sementes, plantaram dois pés de laranja, que agora já estão a dar frutos. Pequenos ainda, as frutas estão verdes, mas são promessas que justificam o nome do bairro. Que abóboras e laranjas sejam colhidas livremente pelos passantes, especialmente aqueles moradores da Favela Júlio Otoni ali perto.

Outro dia, vi uma senhora que havia saído para caminhar com o seu cachorro. Até aí, nada demais. Mas, ela levava um borrifador de água para jogar nos arbustos plantados na nesga de terreno que sobrou junto ao acesso ao viaduto que corta o bairro. E olha que chegar ali não é fácil, é preciso driblar os carros, que não param de passar. Parece haver uma alma rural entre os moradores daqui. Porteiros plantam milho, mamão e cana de açúcar em canteiros em que alguém se esqueceu de plantar árvores. Moradores plantam mudas de árvores em canteiros que encontram vazios. E fazem cara feia para as podas radicais que a Comlurb vem fazer nas árvores das ruas.   

Um grupo de moradores, tendo à frente um francês nosso, criou até mesmo um novo parque para a cidade! O terreno era a antiga favela Vila Alice, removida alguns anos antes. Se o terreno não tivesse esse destino, provavelmente seria novamente favelizado. Pois agora é o Parque Alice! Volta e meia eles promovem atividades de plantio de mais árvores e aulas dessas coisas que preenchem o tempo de forma criativa.

Na própria Rua das Laranjeiras há uns três pés de laranja, que também já andaram frutificando. Foi uma ação dos moradores com técnicos da Fundação Parques e Jardins. Que bom ver a municipalidade trabalhando para o bem de todos. A Fundação só deixa a desejar quando permite esses muros em volta dos canteiros das árvores, que mais parecem túmulos, e que proliferam por toda a cidade, e também por aqui.

Laranjeiras é bairro de gente que gosta de chorinho, de encontrar para um chopp, de prestigiar as coisas locais e de votar na esquerda. É também um bairro saudoso de suas origens rurais.

Artigo publicado em 19 de dezembro de 2025 no Diário do Rio.

 

  

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

A laranjinha de Laranjeiras

 

O nome do bairro é Laranjeiras. Não se sabe se em razão da existência de antigos laranjais ou de algum senhor Laranjeiras dono de terras ali. O sítio é um vale, por onde no passado corria livre o rio Carioca. Rio de tantos serviços prestados à cidade. O abuso às suas águas foi constante. Foram desviadas para o Centro para alimentar chafarizes, onde o povo matava sua sede e lavava suas roupas. Hoje correm subterrâneas e poluídas pela rua principal do bairro, antes de serem sequestradas pelo emissário submarino de Ipanema. 

O nome do bairro é Laranjeiras, mas os pés de laranja que porventura haviam, estavam desaparecidos de lá. Nenhunzinho para contar história. Até que uma boa alma teve a ideia de plantar três mudas em canteiros agrestes, numa calçada pouco valorizada, e pouco observada pelos síndicos dos edifícios em frente. Se ninguém dava bola, esse ser inspirado foi lá e fez o plantio. 

Os canteiros em questão não são muito favoráveis. Acima deles passam fios, que ameaçam as árvores que tentam crescer por entre seu emaranhado. De vez em quando vêm os funcionários da companhia de luz e fazem podas mutiladoras, esculpindo árvores tortas e desequilibradas. Mas é ali que as mudinhas de laranjeiras crescem. 

Agora, que os pés de laranja já começam a ultrapassar a altura de uma pessoa, uma única laranjinha verdeja entre seus galhos. Das poucas flores que brotaram, em meio ao vento produzido pelos veículos em movimento, uma só conseguiu ser polinizada, concluindo o ciclo da produção de um fruto. 

Ela está lá verde e gordinha, mas ainda pequena. Já é a segunda semana em que é vista. É o caso de se perguntar quanto tempo ainda permanecerá ligada ao ramo de onde surgiu. Se alguém mais apressado a arrancará ainda verde ou se ela terá licença para amadurecer. Da mesma forma como entre os humanos, é difícil amadurecer. Se, com sorte, chegar à cor laranja, ela certamente chamará a atenção de algum passante. Um deles, um felizardo, colherá a frutinha pioneira, sobrevivente da poluição e das agruras da vida urbana. E seguirá anônimo, sem contar sobre o azedume ou sobre a doçura da menina das Laranjeiras.

Artigo publicado em 30 de outubro de 2025 no Diário do Rio


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Caio F. Abreu em Laranjeiras

Teatro é bom, é necessário. Mas há poucos disponíveis, especialmente para produções independentes, sem patrocínios. Manter um teatro, assim como um cinema, é caro. Acaba sendo preciso garantir que as produções que o ocupam atraiam um número suficiente de espectadores, capazes de gerar a renda que cubra os seus custos. Mesmo os teatros públicos precisam de produções com plateias que justifiquem os recursos investidos.

Mas e as produções independentes, os sem verbas, os experimentais? Como ficam? Tanto atores, como autores e diretores precisam de espaços onde iniciar um trabalho, que depois pode até ganhar plateias maiores. Muitas produções nem almejam isto. Apenas querem um espaço onde possam experimentar, criar espetáculos sem a exigência de sucesso de público, ou de um retorno financeiro. Mas,  compromissadas com a busca de novas linguagens e novos horizontes para as artes cênicas. 

Nas grandes cidades do mundo sempre há espaços alternativos que recebem essas produções. E aqui no Rio também, apesar de ainda serem poucos. Um deles, o Atelier Alexandre Mello, fica na Rua Alice, em Laranjeiras. Ali acontece até este fim de semana a peça Solidão de Caio F. Abreu. 

Num cenário reproduzindo um quarto de solteiro, lembrando o quarto de Van Gogh, dois atores repassam as palavras do escritor. Estas foram retiradas de dois de seus contos e de cartas escritas entre 1987 e 1990. A partir desse material, Hilton Vasconcellos e Rick Yates, dirigidos por Alexandre Mello, dão vida a personagens que expressam emoções íntimas, inadequações às convenções sociais, resistência à homofobia e sentimentos de solidão. Tudo ali, a dois metros da plateia. Suas respirações, seus suores, suas palavras, mesmo as sussurradas, chegando ao público em toda a sua potência, sem qualquer perda. 

Com uma linda vista para o vale do rio Carioca que, coitado, corre encanado, o Atelier é também lugar de cursos de teatro e movimento. E mantém a atmosfera de casa, de moradia de alguém. Alguém que, generosamente, abre as suas portas para receber convidados. Um local de resistência do fazer artístico. 

Laranjeiras, esse bairro tão querido, enfim vai ganhar seu primeiro cinema. Já tem os parques Guinle e da Alice, uma iniciativa comunitária que necessita de cuidados do poder público. Tem também uma ciclovia, à qual os moradores aderiram com entusiasmo. E todos esperam a volta do Mercado São José. Ainda não há um teatro em Laranjeiras, mas o bairro já tem seu espaço para produções experimentais. Que seja acolhido e tenha uma existência profícua. 

Artigo publicado em 19 de dezembro de 2024 no Diário do Rio.