Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Nosso buraco

As ruas do Rio estão esburacadas. Mas, isso não é de hoje. Desde os tempos da Guanabara já era assim. O surpreendente é que não mude. Entra prefeito socialista, muda para prefeito peessedebista, pula para prefeito evangélico, chega a prefeito neoliberal e o estado das ruas continua o mesmo. Quanto mais distantes dos bairros nobres, mais degradada fica a coisa. O estado caquético e remendado das ruas do Rio parece ser uma metáfora do buraco em que nos metemos.

Cinco governadores já foram presos e o atual tem uma vasta folha corrida que lhe garantiria um lugar em Bangu. Recentemente, um deputado estadual foi preso por associação ao crime organizado. E, sem mais nenhuma surpresa, agora chegou a vez de mais um presidente da Assembleia Legislativa. O cara que preside o Parlamento do Estado, que já indicou comandantes de batalhões e o chefe da segurança pública, avisava a um criminoso sobre a chegada da polícia. Nenhum espanto, quatro outros presidentes da mesma Alerj também já foram presos. Não há novidades na lama da política fluminense.

Os candidatos se apresentam ao povo defendendo ideias abstratas, como Deus e a família tradicional. Juram ser pessoas de bem, que só querem um lugar no parlamento para defender o homem comum. São fulanos do posto, sicranos da farmácia, TH das joias, pastores, bispas e apóstolos. Depois de eleitos, se apropriam de nacos do Estado e legislam contra os trabalhadores, contra o meio ambiente e contra os direitos de mulheres, gays, aposentados e funcionários. 

O povo acredita. Quem não acredita, vota mesmo assim, de olho num benefício prometido, uma esperteza a ser conseguida, um favorecimento para alcançar um emprego, uma indicação para ser atendido no posto de saúde ou uma vaga para o filho na escola. Tudo isso embalado em campanhas milionárias que produzem o convencimento de que aquele candidato tem fortes possibilidades de ser eleito. Melhor então aderir às maiorias que se formam.

O eleitor tem chancelado essa porcariada em que se transformou a política do Rio. Sem organização sindical, sem associações de moradores ou de reivindicação de algum direito que seja, o eleitor sedimenta a sua escolha de forma aleatória, ouvindo o pastor, acreditando nas histórias mirabolantes que lhe chegam pelo celular ou fazendo fé no seu juízo de pessoa esperta, difícil de ser enganada. Não sabe nada, inocente.

As ruas seguem esburacadas, mas os negócios imobiliários estão bombando. Que importa se a paisagem e o Patrimônio Cultural da cidade se apagam? O próximo governador parece já estar se definindo. Poderemos assistir à fusão da esperteza neoliberal da Barra com a dos que dominam os grotões e os currais eleitorais do Estado do Rio. Nova roupagem para a decadência nossa de cada dia.

Artigo publicado em 04 de dezembro de 2025 no Diário do Rio.

 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

João, Pedro

 

João ama o Brasil. Pedro também ama. João é desconfiado, mas acredita que o governo está querendo acertar. Pedro já vivenciou muitas mudanças de governo, acha que entende de política, e tem horror ao governo. Para João, se juntar os prós e os contras, o país melhorou. Mas Pedro tem certeza de que, não só o país, como o mundo todo, piorou. As ideias atuais não lhe servem. Parece haver uma conspiração contra aquilo tudo que ele sempre prezou. 

João tira conclusões pela sua família, todos melhoraram um pouco. Tem até a filha de um parente que entrou na faculdade, vai ser doutora. O único porém é que dizem que lá na tal faculdade ela se juntou com más companhias, uma gente meio estranha. Pedro recebeu um vídeo mostrando que, nessas faculdades, só se ensina o que não se deve ensinar. Os professores, que não sabem nada, terminam botando ideias tortas na cabeça da juventude. Tá bem complicado. 

Pedro anda inseguro com o seu trabalho. As vendas estão fracas e o patrão dá indiretas de que a loja pode fechar. Se fechar, vai ser difícil arranjar um outro trabalho. A idade pesa. É por essas e outras que ele tem certeza de que o governo é mesmo muito ruim. João tá no corre. É mais de um bico, além do trampo na portaria do edifício. Mas ele tem fé que vai dar certo, que lá na frente seus esforços serão recompensados.

João tá de namorada nova. O tempo que morou junto com sua ex-mulher e a angústia da separação ficaram para trás. Agora é amor novo, vida nova. Só não sabe se deve propor de morarem juntos logo. Já não deu certo uma vez, melhor deixar as coisas seguirem seu rumo num tempo certo. Mas que tá bom, tá. Pedro largou a mulher e por um bom tempo não quer saber de ninguém. Também tá difícil de aparecer uma mulher como ele quer, compreensiva e carinhosa. E que não dê muitos palpites na sua vida. Antes só, do que mal acompanhado. 

João acha que não entende de política. Mas sabe o que é melhor para ele. Na hora de votar escolhe quem ele acha que é honesto e sincero. Nem precisa saber discursar muito bonito não. Pedro tem raiva desses políticos que dizem que vão ajudar o povo, mas que só querem mesmo é se ajudar. A escolha dos políticos devia ser por meio dos seus currículos. Nada dessa conversa de gente que mal sabe ler querer ser deputado. Deveria ser como um concurso público, com provas e tudo.

João tá pensando em fazer uma viagem nas férias. Pedro tá sem tempo pra isso. João tá pensando em fazer um empréstimo, mesmo que não saiba como irá pagar. Pedro tem assistido a uns vídeos que recebe pela Internet. Eles demonstram que ele tem razão. João ganhou um livro de um morador, mas tá com preguiça de ler. Pedro tem uma bandeira do Brasil na janela. João guarda a sua bandeira do Brasil para os jogos da Copa. Pedro ama o Brasil. João também.

Artigo publicado em 09 de outubro no Diário do Rio.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Entrevista com os alcaides

No último dia 28 de dezembro, o programa Cidades e Soluções, da GloboNews, foi ao ar com uma dupla entrevista com os prefeitos reeleitos do Rio de Janeiro e de São Paulo. As entrevistas conduzidas por André Trigueiro, experiente jornalista da área ambiental, têm mais interesse pelo que deixou de ser respondido, e perguntado, do que por aquilo que foi propriamente dito. E se o jornalista tivesse tido um ponto no seu ouvido soprando novas questões e indagações sobre o que pareceu ser uma ocultação dos reais problemas? Façamos esse exercício.

As perguntas apresentadas aos prefeitos foram praticamente as mesmas, mas o estilo de cada um, e as diferentes capacidades de sair pela tangente, tornam as entrevistas bastante diversas. Eduardo Paes, informal e falante, tem a manha carioca da sedução e a capacidade de fazer parecer que tudo o que produz é o mais correto. Já Nunes é mais contido, apesar de ter aceitado encenar a sua entrada na sala para o encontro com o entrevistador. O prefeito paulista buscou se calcar em dados, tentando passar despercebida a sua aliança com a extrema-direita, grande inimiga das ações em prol do meio ambiente. Revendo o vídeo, vamos às perguntas.

A primeira pergunta de André Trigueiro é sobre a crise climática e como proteger a população de eventos climáticos extremos. Eduardo Paes reconhece a existência da crise e as emergências que provoca. Na sua resposta, recorre à parceria da Prefeitura com a Nasa e à compra de um novo radar, para ter mais previsibilidade quando uma emergência ocorrer. Mas, o prefeito, que sequer tem um  órgão específico voltado para o clima, não se coloca diante de um horizonte mais alargado.

Segura essa aí, André, e lembre ao prefeito que, sendo uma cidade costeira, no futuro o Rio de Janeiro deverá ter áreas inundadas, com necessidade de realocação de populações. As soluções propostas pelo prefeito são aquelas já conhecidas, como a contenção de encostas e a realocação pontual de moradores, além da construção de piscinões para conter o excesso de vazão dos rios. A construção de um dique holandês junto ao Jardim Maravilha, uma comunidade de Guaratiba, também é citada. No entanto, André, sendo enorme a dimensão do problema a ser enfrentado por cidades sujeitas ao avanço do mar, sem um planejamento prévio, no futuro, o desastre será certo.   

Comentando sobre as milhares de pessoas vivendo em áreas de risco já reconhecidas, Eduardo Paes recorre à necessidade de que o governo federal reative seus programas de habitação popular, como o Minha Casa, Minha Vida. André, por favor, não deixe passar essa. É curioso não ocorrer ao prefeito que políticas habitacionais deveriam ser políticas locais, cabendo ao governo federal a correção de distorções. No entanto, ele, e boa parte dos prefeitos brasileiros, não investem na produção de habitação social, sabendo que a população mais pobre dará seu jeito. Jeito esse que, lá na frente, exigirá obras caríssimas de contenção de encostas, e poderá acarretar vidas perdidas.     

Sobre o mesmo tema da crise climática, Nunes apresenta um plano, o Planclima, com as diretrizes da Prefeitura para o problema. O prefeito paulista cita também as ações que visam substituir a frota de ônibus urbanos da cidade, trocando os movidos a diesel por ônibus elétricos. O poder econômico de São Paulo se manifesta na cifra anunciada de R$ 6 bilhões para fazer essa substituição. E nessa, André, a prefeitura paulista está à frente da carioca, que ainda não deu início à eletrificação da frota. Paes aposta na futura renovação do contrato de concessão das linhas urbanas da cidade, com a substituição dos ônibus a diesel após o fim das suas vidas úteis, ou seja, ainda um bom tempo de poluição e fortes emissões de CO² à frente.

Já sobre a quantia estimada de 500 mil pessoas morando em áreas de risco em São Paulo, o prefeito Nunes, que afirma ter o maior programa habitacional da história da cidade, diz que irá zerar esse número. Está vendo André, como, independentemente da análise da qualidade das ações voltadas para habitação social em São Paulo, é interessante o contraste entre um prefeito que executa o seu próprio programa e o que acredita que a responsabilidade é do governo federal?

Perguntado sobre o déficit de arborização urbana nas zonas Norte e Oeste da cidade, o prefeito Paes, que está iniciando o seu quarto mandato, reconhece o problema, e cita os parques já criados e os projetos para a criação de novos parques. Parques são ótimos, mas são soluções pontuais. Tentando explicar a falta de árvores, nas áreas menos aquinhoadas da cidade, Paes recorre a explicações confusas, como a adoção no passado de espécies equivocadas, falando das amendoeiras. Ah não, André, não deixe passar essa enrolação! Lembre ao prefeito que nem amendoeiras os bairros mais áridos da cidade têm. Confronta ele com a perda de capacidade operacional da Fundação Parques e Jardins e com a não implementação do Plano Diretor de Arborização Urbana, concluído em 2015!

André então pergunta sobre mobilidade sustentável nas cidades. O prefeito Nunes informa que já existem 886 km de ciclovias e ciclofaixas em São Paulo, com previsão de chegar a mil km. Segundo o prefeito, todas as novas obras viárias da cidade contemplam a construção de ciclovias. Ele promete cuidar da sua manutenção. O prefeito promete também implantar um sistema de transporte hidroviário utilizando as represas Billings e Guarapiranga e os rios Tietê e Pinheiros. André, parece conhecer pouco essas realidades e apenas sorri satisfeito.

Sobre o mesmo assunto, Paes admite que nos últimos quatro anos investiu pouco em ciclovias, já que havia outras emergências deixadas pela desastrada administração Crivella. A cidade, que já teve a maior malha cicloviária do país, conta atualmente com 490 km de estrutura cicloviária. Para os próximos quatro anos, Paes promete o lançamento do Plano Cicloviário, pronto há dois anos e ainda não tornado público. Dois anos na gaveta! André, você conhece bem a realidade das ciclovias cariocas, tão esburacadas quanto nossas vias para automóveis. Ao não replicar, está sendo condescendente...

Sobre resíduos sólidos, o prefeito Nunes afirma que a cidade de São Paulo acaba de atingir a meta de 100% de coleta do lixo reciclado. No entanto, a porcentagem desse material que é reciclado está abaixo de 8%, uma enorme contradição na maior metrópole brasileira. Ao prefeito carioca, André Trigueiro lembra que a Comlurb tem o quarto maior orçamento do município, o que deveria significar uma melhor performance. Paes afirma que, para os próximos quatro anos, há maiores possibilidades de avanços na compostagem dos resíduos orgânicos do que na reciclagem. O prefeito admite que a porcentagem real de resíduos sólidos reciclados está abaixo dos 10% oficialmente divulgados. A própria coleta de resíduos ainda não é completa na cidade, e o prefeito afirma que isto seria uma condição para dar mais ênfase à reciclagem. André, conteste isso aí, por favor. É possível completar a coleta, avançando na reciclagem!

A propósito do Prefeito Paes ter apartado o licenciamento ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, levando-o para a área de desenvolvimento econômico, Trigueiro pergunta a Eduardo Paes se o licenciamento ambiental incomoda na hora de pensar o desenvolvimento da cidade, e se está funcionando. Peraí André, a pergunta colocada assim está muito ingênua. Você se lembra que uma vez questionou, ao vivo, a Secretária Municipal de Meio Ambiente sobre uma obra na Praia do Pepê, na Barra da Tijuca, voltada para a guarda de pranchas de windsurf. A obra estava produzindo grandes impactos ambientais, e a Secretária, muito sem graça, lhe informou que não tinha ingerência sobre o licenciamento ambiental. 

E não é só isso, as gigantescas transferências de potenciais construtivos entre bairros estão produzindo verticalizações e adensamentos problemáticos nos bairros mais visados pelas construtoras. Então, André, você sabe que não funciona, que a fórmula do Prefeito Paes entrega à raposa o cuidado das galinhas, no caso o nosso meio ambiente. Melhora a pergunta André!

Paes recorre à já gasta acusação de corporativismo, pois, segundo ele, os mesmos técnicos seguem fazendo as análises dos processos de licenciamento, apenas com uma chefia diferente. Ora, uma chefia ligada ao desenvolvimento econômico tem uma grande capacidade de pressionar para que questões ambientais sejam relevadas em prol desse desenvolvimento. Um desenvolvimento bem questionável, aliás. André, da próxima vez, esteja mais afiado, porque entrevistar essas raposas da política é tarefa muito difícil. Eles cursaram a escola da velha política, onde a verdade é meio velada, e absurdos, com jeito, podem parecer boas ações. Valeu a intenção, André. Obrigado.

Artigo publicado em 09 de janeiro de 2025 no Diário do Rio.