quarta-feira, 13 de julho de 2022

Aqui morrem indigenistas e ambientalistas

Bruno Pereira e Dom Phillips
Seguimos vivendo no país onde se mata ambientalistas, defensores dos direitos humanos, indigenistas e pessoas que lutam pelo direito à terra. De acordo com a Global Witness, em 2020 o Brasil foi o quarto país do mundo em que mais se matou ativistas ambientais. E em 1019 foi o terceiro país do mundo, uma triste liderança. Isso sem falar nos milhares de pessoas negras mortas em consequência do racismo que permeia nossa sociedade e o Estado brasileiro.

Esta é a terra onde foi assassinado o ambientalista Chico Mendes, que lutava pela preservação da floresta na reserva extrativista de Xapuri, no Acre, onde morava. Aqui, entre outros, foram assassinados a religiosa americana Dorothy Mae Stang, o indígena Paulo Paulino Guajajara, e o indigenista Maxciel Pereira dos Santos. Agora mais duas vítimas: o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico, residente no Brasil, Dom Philips, brutalmente assassinados por denunciarem o crime organizado que se instalou na Amazônia.

Como demonstram os fatos, há muito tempo a realidade na Amazônia é dura para quem defende o meio ambiente e os povos indígenas. Mas nos últimos anos isso se agravou muito. Bolsonaro vem atiçando os predadores da Amazônia. Seu governo desvirtuou o Ministério do Meio Ambiente, desestruturou a Funai e o Ibama, dificultou as multas a infratores, fez acordo com madeireiros ilegais, fez vista grossa aos alertas de incêndios e desmatamentos, e precarizou a proteção aos povos indígenas. Os agentes do crime organizado se sentiram fortalecidos e a vida de quem a eles se opõe ficou em risco extremo.

Bolsonaro exonerou o indigenista Bruno Pereira de seu cargo na Funai por ele ter, corretamente, cumprido com o seu dever de proteger os territórios indígenas contra invasões pela mineração ilegal. Sem condições de trabalho, o servidor público se viu forçado a pedir licença e tentar atuar junto a uma organização não governamental, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari - Unijava. Sem a proteção do Estado brasileiro, sua atuação passou a ser de alto risco. Décadas atrás, indigenistas como os irmãos Villas-Boas eram vistos como heróis nacionais. Atualmente são vistos como um estorvo aos interesses econômicos que querem destruir a Amazônia.  

O assassinato do indigenista Bruno Pereira é uma imensa perda para os povos indígenas e para o Brasil. Bruno buscou conhecer a cultura dos povos isolados, aprendeu línguas que desconhecemos, conquistou com ações a confiança de indígenas traumatizados com a violência que nossa "civilização" a eles impôs. Com sua morte se vai uma ponte que o Brasil decente tentava criar com esses outros seres humanos. Não é simples formar especialistas dedicados à questão indígena. Sem Bruno eles ficam mais vulneráveis à invasão e à destruição de seus territórios por pessoas gananciosas e inescrupulosas.

Dom Philips atuava como jornalista, investigando a situação da Amazônia e as ameaças aos povos indígenas. Sem o trabalho de pessoas como Dom, ficaríamos às escuras, sem informações do que realmente ali acontece. Não é culpa sua o fato de a Amazônia ter se transformado num território tão perigoso para jornalistas, quanto uma zona de guerra. Aliás, o Brasil se tornou um território perigoso para o exercício do jornalismo.

Ainda em choque pela confirmação dos assassinatos de Bruno e Dom, a sociedade brasileira quer saber o que o Estado brasileiro fará para impedir que outros ativistas ambientais sejam mortos na Amazônia. O que o Congresso Nacional tem a dizer? Já não basta de mortes? Há muitos responsáveis pela trágica situação da Amazônia. Mas, em última instância, Bolsonaro tem responsabilidade no assassinato de Bruno Pereira e de Dom Philips. E vindo dele, sabemos que nada será feito para mudar essa situação.

Artigo publicado no Diário do Rio em 16 de junho de 2022


O Serro

Serro - foto Roberto Anderson
O Rio de Janeiro é a minha casa, o lugar em que gosto de estar, que busco conhecer mais e mais, e para o qual dedico boa parte das minhas energias. Mas o Serro, em Minas Gerais, é a minha origem. Não é a cidade onde nasci, mas sou fruto da diáspora serrana. O apego a uma cidade que está na origem da sua família é algo muito forte, que num país de muitas mudanças, nem todos podem experimentar.

O Serro sempre esteve nas conversas da família, saudosa por ter ido buscar oportunidades de trabalho em cidades maiores. Sei das denominações que o Serro já teve. Sei do frio que era adicionado ao seu nome, da nobreza do antigo título de Vila do Príncipe, e da nomeação indígena para o lugar: Ivituruí. Sei da Serra do Espinhaço, onde a cidade se localiza. Sei da negra Jacinta de Siqueira, que teria descoberto o ouro que deu origem à cidade e deixado larga descendência. E sei das histórias dos personagens pitorescos, como a do Silvio Picolé, que ganhou essa alcunha depois de trazer de muito longe um picolé no bolso, novidade para a cidade, mas que já chegou derretido.

O Serro tem festas populares que são o orgulho da sua gente, como a Festa de N. Sra. do Rosário, com seus caboclos, marujos e catopês, ou a Festa do Divino, com a coroação do Imperador e da Imperatriz. O Serro tem um queijo que nenhum outro lugar tem. O Serro é uma cidade da corrida do ouro, que já conteve Diamantina, que tem igrejas e casario colonial e uma autoestima que a faz atravessar em paz a longa decadência. 

Quando caminho pela cidade, e piso o seu calçamento irregular em pé-de-moleque, penso nas andanças de minha mãe por essas ladeiras e becos, desafiando o conservadorismo local. Penso em todos os amigos que aqui fez e na sua entronização como Rainha do Avante, antigo time de futebol da cidade. Penso nela sendo disputada para formar par nos bailes do clube, exímia dançarina que foi. E penso também nos olhares de reprovação por sua independência em meio a uma sociedade patriarcal.

O Serro é uma cidade negra. A maioria das pessoas que se vê nas ruas do Serro é de negros e mestiços, antes humilhados e contidos em espaços subalternos, mas hoje ocupando postos mais diversificados e à frente de pequenos negócios. É provável que a elite de fazendeiros ainda seja branca, mas a festa que dá orgulho à cidade é negra. 

O Serro não alcançou a prosperidade de Ouro Preto, mas legou ao Brasil juristas e políticos, como os Ottoni, Pedro Lessa e Edmundo Lins, e grandes artistas do período colonial, como o Mestre Valentim e o maestro Lobo de Mesquita. Por ter ficado isolada do progresso, a cidade conservou seu Patrimônio, tendo sido tombada pelo Iphan em 1938.

De tempos em tempos retorno ao Serro. Lá descobri o footing noturno na praça, ingênua forma de flerte que não mais existe. Lá vi pela televisão o homem pisar na lua. Lá dancei com os caboclos da festa do Rosário. Lá conheci as diversas casas que um dia meus familiares habitaram e as ruas que trazem nomes de antepassados. Lá fui apresentado a primos distantes. Lá reconheço de onde vim.

Artigo pulicado em 09 de junho de 2022 no Diário do Rio


A emergência climática chegou

Mapa do Surging Seas para Zona Norte do Rio de Janeiro
Mais de cem mortos pelos desastres provocados pelas chuvas em Pernambuco. É doído demais. Chuvas na região são comuns nessa época, mas não nessa dimensão. Elas vêm em volumes cada vez mais absurdos. Morros e encostas habitadas se desfazem, soterrando os moradores. Rios extravasam para muito além de suas calhas, inundando ruas e casas, destruindo os poucos pertences das pessoas, isolando-os à espera de resgate. Vemos cenas de heroísmo e de solidariedade, mas não é normal que isso ocorra. O noticiário utiliza muito o termo tragédia para definir esses acontecimentos. Nas tragédias, o herói sofre derrotas ao se revoltar contra as forças do destino. Mas, nos desastres ambientais que nosso povo vem sofrendo, o destino trágico foi construído pela ação humana sobre o meio ambiente. Estamos vivenciando a crise climática, que vem nos atingindo com força, provocando enormes prejuízos materiais e perdas de vidas.

Nos últimos tempos tivemos chuvas fortes, também com inundações, deslizamentos de terra e perdas de vidas, em Minas Gerais e em Petrópolis. Em 2011, as chuvas provocaram terríveis desastres na Região Serrana, que custaram mais de 900 vidas. E vimos a seca no Sul, com a perda de colheitas, e os incêndios no Pantanal. Logo vêm outros eventos dramáticos, fazendo os mais recentes parecerem distantes. Mas não, eles são cada vez mais frequentes, mais próximos no tempo e mais intensos. 

Esses eventos extremos atingem fortemente as nossas cidades que, se não foram pensadas de forma a garantir a segurança e o conforto dos cidadãos, muito menos levaram em consideração a necessidade de preservar áreas ambientalmente mais sensíveis. A moradia das famílias pobres nunca foi de verdade planejada. Quando muito, alguns conjuntos habitacionais foram construídos nas periferias, não raro em áreas sujeitas a alagamentos. As pessoas então se viraram como puderam, em encostas, em beiras de rios, em áreas sujeitas a inundações.

Esse descaso agora vem cobrando um preço demasiadamente alto. São as vidas de brasileiros, em geral entre aqueles mais necessitados, e as suas economias que se vão. Os atuais e futuros prefeitos devem entender urgentemente que o mundo mudou para pior em função da crise climática. Ela chegou, é uma realidade.

As cidades brasileiras vão precisar reservar uma parcela significativa dos orçamentos municipais para usar em situações emergenciais, que serão cada vez mais frequentes. Isso significa fortalecer os sistemas de defesa civil, com mais treinamento, melhores equipamentos e locais de abrigo para desalojados. Significa também realocar moradias atualmente em áreas de risco. Não é mais possível deixar seus ocupantes confiados apenas na sorte ou na providência divina. Infelizmente, fatalidades ocorrerão, quer rezemos ou não. 

Nas cidades litorâneas haverá ainda o avanço do mar sobre áreas costeiras, em função da elevação dos níveis dos oceanos, outro efeito do aquecimento global. As notícias nos chegam aos poucos. Um pontal que teve suas casas destruídas aqui, um calçadão à beira-mar desmoronado ali. Se não fizermos nada, os prejuízos serão gigantescos.

Com relação à Cidade do Rio de Janeiro, já se tem clareza sobre as áreas passíveis de sofrer com esse avanço do mar. No caso de um aquecimento global de mais 2°C acima dos níveis pré-industriais, uma situação já bastante provável, haverá avanço das águas do mar sobre partes da Área Portuária, sobre as pistas dos aeroportos Tom Jobim e Santos Dumont, sobre a Praia da Reserva, sobre o Parque Olímpico e sobre áreas de Grumari. Como nem todos os países cooperam para a redução das emissões de gases do efeito estufa, e o atual presidente do Brasil incentiva o desmatamento, não é impossível que se chegue a uma situação mais absurda, de elevação da temperatura em mais 4°C. Nesse caso, a destruição alcançaria a Praça da Bandeira, áreas da Avenida Presidente Vargas, o Parque do Flamengo, a Cidade Universitária, áreas no entorno da Avenida Brasil, e áreas da Barra da Tijuca e Jacarepaguá. Além disso, municípios da Baixada Fluminense seriam também fortemente atingidos. Os atuais e os próximos prefeitos e governadores aguardarão o desastre ou tomarão alguma iniciativa? É bom que os eleitores pensem a respeito.  

artigo publicado no Diário do Rio em 02 de junho de 2022.


Mobiliário urbano carioca, ainda uma carência

Abrigo de ônibus do governo Chagas Freitas
A oferta mais ampla de mobiliário urbano padronizado na Cidade do Rio de Janeiro é algo relativamente recente. No início do século XX, foram instalados em diversas praças os gloriosos bancos Paris, nunca igualados em qualidade. E também diversas linhas de postes em ferro fundido, ou arcos para sustentação de luminárias, que eram o símbolo do progresso que a iluminação pública trazia. Muito apreciado era o “colar de pérolas de Copacabana” formado pela linha de postes com iluminação a vapor de mercúrio, instalados em 1936, e que seguiam a curvatura da orla.  

Depois, pareceu que a administração pública da cidade se esqueceu de como equipamentos assim eram importantes. A sua qualidade caiu muito, e foram feitas diversas improvisações. Exemplo disso, eram os pavorosos abrigos de ônibus instalados no período em que Chagas Freitas governou o Estado. Eles traziam inscritos no concreto o nome do governador. Abrigar o cidadão do sol e da chuva era uma benesse do mandatário! Somente alguns anos depois, no governo Brizola, surgiram os abrigos pré-fabricados em concreto, projetados por João Figueiras Lima, o Lelé, e produzidos pela antiga Fábrica de Escolas, projeto também daquele período. Alguns desses abrigos ainda resistem por aí, até mesmo com outros usos, como na Praça Ben Gurion, em Laranjeiras.

Como a querer recuperar o tempo perdido, o projeto Rio Cidade, concebido pelo então Secretário de Urbanismo, e depois prefeito, Luiz Paulo Conde, derramou uma profusão de modelos de postes, de abrigos de ônibus, de bancos, de lixeiras e de jardineiras na cidade. Cada eixo escolhido para receber uma intervenção passou a ter sua própria linha de mobiliário urbano. Postes tortos, fradinhos com bolas metálicas atarraxáveis nas pontas (que rapidamente foram furtadas), luminárias de luz indireta, bancos de concreto, havia de tudo.

No entanto, logo se percebeu que faltava uma economia de escala nessa fórmula. A cada abrigo ou poste necessitando de reposição, se fazia necessária a sua produção de forma quase artesanal. Por serem poucas unidades, produzi-los encarecia demais o processo. Assim, na gestão do próprio Conde como prefeito, foi realizada uma licitação para a implantação de um conjunto de itens de mobiliário urbano na cidade por empresas especializadas, que substituíram a maioria desse mobiliário anteriormente instalado. Para efeito dessa licitação, a cidade foi dividida em três grandes áreas e, desde então, passamos a conviver com abrigos de ônibus, painéis de publicidade e relógios digitais padronizados, frutos de design industrial.

Parte importante e integrante daquela licitação era a colocação de banheiros públicos em toda a cidade. Seriam banheiros dotados de tecnologia, com sistemas autolimpantes, que atenderiam uma secular queixa dos cariocas de todas as idades: a falta de banheiros públicos nas ruas. Porém, muito rapidamente, começaram os problemas e adiamentos. As empresas ganhadoras das licitações implantaram os abrigos de ônibus, dotados de espaços para a exploração de publicidade, assim como os relógios e, logicamente, os painéis publicitários. Mas os banheiros, ah os banheiros...

Logo surgiram notícias nos jornais de que havia problemas para sua instalação. Dizia-se, por exemplo, que era difícil conseguir que o órgão responsável fizesse as ligações de esgoto. Os poucos que foram implantados ficaram sem manutenção e passaram a apresentar problemas. Durante a pandemia acabaram lacrados e até hoje seguem inutilizados.  

Mas, antes disso, o cartunista Ziraldo, grande na sua arte, mas talvez não tão bom designer, levou ao prefeito a proposta de um mictório público simplificado. Alguns protótipos foram instalados com o nome de Unidade Fornecedora de Alívio – UFA. Em seguida, o prefeito anunciou a instalação de 100 unidades de UFA na cidade. Usou-se, inclusive, os recursos para a instalação dos banheiros da licitação de mobiliário urbano padronizado.

O grande problema com esses mictórios é que eles eram instalados de forma improvisada, aproveitando bueiros de águas pluviais, sem ralos nos pisos que drenassem os excessos da falta de pontaria masculina. Os pisos onde esses mictórios foram instalados logo se transformaram em lugares com aquele odor característico, incomodando um bocado. Deve ser por isso que também sumiram da paisagem da cidade. Enquanto isso, as empresas vencedoras das licitações de mobiliário urbano, aparentemente, ficaram desobrigadas de instalar os banheiros com boa tecnologia que faltavam. Continuam a explorar somente o filé mignon da coisa, ou seja, os equipamentos portadores de publicidade. E a população carioca, como sempre, permanece sem banheiros públicos.   

Mobiliário urbano é coisa séria, e dá a medida do conforto que a cidade oferece a seus usuários. E também precisam ser bem desenhados. Um visível retrocesso, por exemplo, são as torres de ventilação de câmaras subterrâneas de eletricidade. Antes feitas em ferro fundido decorado, agora são simples e feias chaminés em concreto. O Rio precisa de mais bancos de praça (que tal reproduzir os bancos Paris?), mais abrigos de ônibus, banheiros públicos, postes de iluminação decentes, quiosques, e coretos nas praças. Quando os teremos?

artigo publicado no Diário do Rio em 26 de maio de 2022.


Celulares ao lago

Theatro Municipal do Rio de Janeiro - foto Roberto Anderson
Uma voz anuncia os apoios oficiais, os nomes dos artistas principais e os cuidados em caso de emergência. A luz vai baixando aos poucos e lá do fosso da orquestra começam a subir os primeiros acordes da abertura. A música nos prepara, tensiona as emoções para o que virá a seguir. Está começando O Lago dos Cisnes, com o corpo de baile e a orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. 

São muitas as histórias e mudanças que cercam essa estreia. Dois anos de pandemia deixaram vazio o teatro recentemente restaurado, os artistas afastados uns dos outros, os técnicos em suas casas, sem poderem exercitar sua profissão, e o público saudoso. Quantos, lá e cá, de cada lado da boca de cena, não terão adoecido ou perecido? Agora é a hora do reencontro, de matar as saudades, de religar os refletores, de fazer soar os instrumentos. 

Há também as histórias pessoais dos artistas. Do menino que saiu de Cabo Frio e foi parar em Moscou, se tornando primeiro bailarino do Teatro Bolshoi. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, ele se viu obrigado a tomar uma decisão drástica, saindo às pressas do país e da companhia que o acolheu, para se aventurar por outros palcos do mundo. Aqui, a cidade que ainda não o havia visto dançar, terá esse comovido reencontro com David Motta. E há a primeira bailarina, Claudia Mota, outro dia no comando da comissão de frente de uma Escola de Samba, agora transmutada em cisne. Sua emoção cresce, por ter anunciado que esta seria sua última temporada no papel de Odile-Odette.

Já conhecemos a história que irá se desenrolar diante dos nossos olhos. Mas o prazer de acompanhar esse drama sempre se renova. Sabemos que o príncipe recusará as pretendentes que lhe são sugeridas, sabemos que, ao se embrenhar na floresta, encontrará cisnes no lago e se encantará por um deles. Sabemos do feiticeiro e do engano a que o príncipe será levado. Mas queremos rever cada momento dessa trama, sentir a excitação do príncipe, o temor do cisne, sua hesitação, suas reservas sendo quebradas, e a sua entrega num dueto apaixonado. Tudo isso a bailarina nos transmite com pequenos gestos das mãos, pelo oscilar dos braços, pelo alçar das pernas e por leves meneios da cabeça. 

Nos alegramos pelo tão aguardado quarteto dos pequenos cisnes, suas pernas se movendo em rapidez e sincronia e suas cabeças circulando em conjunto. E pelos grandes cisnes que esvoaçam pelos quatro cantos do palco. E nos surpreendemos com as sutis mudanças de posição dos demais cisnes, que se enfileiram, viram de lado, esticam uma perna, mudam os braços, circundam o casal em redemoinhos e se entrecruzam em sintonia pelo palco. Da mesma forma, já conhecemos, mas queremos rever, as danças dos convidados do baile, as danças de caráter dos países. E o que dizer do bobo da corte, interpretado pelo sempre magnífico Cícero Gomes?  Ele encanta e cativa a plateia e demonstra uma técnica absolutamente invejável que empolga os que o assistem. 

Não menos bela é a música de Tchaikovsky. A abertura já é carregada de dramaticidade, mas também de romantismo. Sentimento esse que transborda, nos arrebata nos duetos do príncipe com Odette tornada cisne. Não há como não pensar na grandeza da cultura russa em contraposição com uma história de violências, jugo de tiranos, sonhos desfeitos de igualdade socialista e conflitos com povos vizinhos, como a atual guerra e suas barbáries.

Nesse longo período em que o público esteve afastado do querido teatro, além da falta do prazer de ver um espetáculo, parece ter havido também um processo de deseducação coletiva. Um grave sintoma disso é a insistência de tantos em consultar seus celulares durante o espetáculo. Novos selvagens, sequer desconfiam o quanto a luz azulada de seus celulares incomoda aqueles que tentam estar imersos no Lago. Não conseguem se concentrar na ação que transcorre no palco, ou experimentar em sua plenitude as sensações que dali emanam. Ação essa demasiadamente analógica, a exigir sofisticados níveis de interação emocional para quem tanto se acostumou a mensagens, áudios e vídeos de vida efêmera.

Também a chegada e saída do Theatro Municipal do Rio de Janeiro continua apresentando problemas que já poderiam ter sido superados. O projeto Área de Excelência Urbana, da Prefeitura, buscou no início de 2021 melhorar as condições físicas da Cinelândia, consertando pisos e mobiliário urbano, recuperando a iluminação pública e controlando a permanência de população de rua no local. Mas, em tão pouco tempo, muito disso já se perdeu. O público atravessa a praça às escuras, já que muitos postes estão com suas lâmpadas queimadas. Além disso, o metrô, surpreendentemente, fechou o acesso mais próximo ao teatro, obrigando as pessoas a caminharem até a esquina do Cine Odeon. Ao fim do espetáculo, em horário mais avançado, não é algo que deixe as pessoas muito felizes. Por sorte, a música que ainda ecoa nos ouvidos e a lembrança dos belos cisnes nos assegura a paz.

artigo publicado no Diário do Rio em 19 de maio de 2022.


O rapto do rio Carioca

Rio Carioca - foto Roberto Anderson
Muito antes de existir o gentílico carioca, existia o rio. E existiam os indígenas que habitavam o lugar e as lendas que envolviam suas águas. A da formosura, emprestada às mulheres que com elas se banhassem, é das mais cativantes. Há controvérsias sobre a origem do nome. Casa do homem branco? Derivado do nome de antiga aldeia Tupinambá? É difícil precisar. 

O curso do Carioca também sofreu alterações. Consta que, no passado, ele se abria em dois, uma perna indo em direção ao que hoje é a Glória e outra em direção à praia do Flamengo. Assim, o Catete ficaria numa ilha entre o rio e mar. Depois, suas águas foram desviadas para a linha de cumeada de Santa Teresa. Passavam pela Caixa da Mãe D'Água, desciam pela atual rua Almirante Alexandrino, até alcançar o aqueduto da Lapa e chegar ao largo, que passou a se chamar da Carioca. Lá, num generoso chafariz, os moradores da cidade coletavam água e lavavam suas roupas. 

As águas do Carioca ainda foram estendidas até o chafariz do Mestre Valentim, na Praça XV, vindo pela rua do Cano, atual Sete de Setembro, onde também abasteciam os navios. Atualmente esse lindo monumento se encontra seco, intrigando os passantes sobre a sua finalidade. No Largo da Carioca, o antigo chafariz foi substituído por outro, neoclássico, projetado por Grand Jean de Montigny. Mas esse também não resistiu à fúria demolidora do chamado progresso.

Com a necessidade de abastecimento de água para a cidade aumentando, foram buscar água bem mais longe, em Rio D'Ouro, e todo o sistema antigo ficou obsoleto. O reservatório do Carioca, em Santa Teresa, foi sendo desativado, as canaletas por onde a água seguia foram demolidas, o aqueduto virou viaduto para os bondes, e os chafarizes secaram. A água agora vinha diretamente da Baixada Fluminense para as torneiras das casas.

Com o tempo, o leito original do rio, no vale do Cosme Velho e de Laranjeiras, foi canalizado, ficando sob o trânsito intenso das vias daqueles bairros. Os olhos da população não viram as ligações de esgoto que foram sendo conectadas ao rio, e a vida que nele foi morrendo. Hoje, tudo o que não mais queremos passa pelas águas do Carioca. Ele ficou imprestável, feio de se ver, de cheiro ruim de se sentir. 

Há alguns anos atrás, uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) foi instalada próxima à sua foz, no Parque do Flamengo. Fazia parte da rendição dos governos à poluição dos nossos rios, tratando o problema lá na ponta, sem interesse em enfrentar a grande tarefa de despolui-los por inteiro, ao longo dos seus cursos. O Carioca, por muito tempo, permaneceu limpo enquanto atravessava a Floresta da Tijuca, poluído ao atravessar a área urbana, e parcialmente despoluído junto à sua foz. Assim, eram minorados os efeitos danosos do seu desague junto à praia.

Mais recentemente, a tal ETE foi desativada e, consequentemente, o rio, inteiramente poluído, provocou uma enorme mancha escura junto à Praia do Flamengo. Como solução, a nova concessionária do serviço de água e esgoto da cidade decidiu assumir, por conta própria, que o rio Carioca é mesmo uma galeria de esgoto, conectando-o à tubulação que segue até o emissário submarino de Ipanema. As águas do Carioca agora se misturam a toda a porcaria produzida por uma boa parte da cidade e vão desaguar anônimas e fétidas na altura das Ilhas Cagarras. O rio Carioca, que nasce límpido na floresta, não chega mais à sua foz. Desaparece no meio do caminho.

Tal decisão absurda não leva em consideração o tombamento do rio Carioca pelo Inepac, em 2019. Esse tombamento foi o primeiro de um rio urbano no Brasil e buscou representar um marco para o início da sua recuperação. Dali para a frente não mais seriam admitidas violências contra o Carioca e um plano para o seu manejo deveria ser proposto. Isso ainda não aconteceu, mas não significa que se possa desconsiderar o tombamento e fazer o que se queira com o pobre rio. Aqui no Rio de Janeiro, sem reação dos governantes, uma bolsa de valores foi fechada, assim como uma universidade, vigas de um viaduto desapareceram, e um rio está sendo raptado.

Nossas cidades precisam aprender a conviver com a natureza em que se inserem. Precisam manter as áreas verdes, acolher os animais silvestres e cuidar dos rios que as atravessam. O problema da poluição dos rios urbanos é gigante e desafiador. Mas é preciso começar a enfrentá-lo por algum ponto inicial. O rio Carioca, que nos deu nossa identidade, é o alvo ideal para dar início à grande jornada de recuperação dos nossos rios. Ele não pode continuar sendo misturado ao esgoto e jogado em alto mar. Concessionária Águas do Rio, vocês têm essa imensa responsabilidade. Os cariocas querem o seu rio de volta. 

Artigo publicado no Diário do Rio em 12 de maio de 2022


Purgatório dos ciclistas

Criação comunitária de ciclovias em Amsterdam 1980
Nas últimas décadas, houve na Cidade do Rio de Janeiro um real crescimento da atenção à mobilidade ativa, com a construção de ciclovias, ciclofaixas ou ciclorotas. Para quem não está familiarizado com esses termos, ciclovia é a pista ideal, destinada a ciclistas, em faixa segregada de carros e pedestres. Existe, por exemplo, na orla de Ipanema e Copacabana. Aqui no Rio, patins ou praticantes de corrida são permitidos nas ciclovias. Ciclofaixa é uma faixa pintada sobre o asfalto ou calçada. Quando a ciclofaixa ocorre sobre esta última, há eventual compartilhamento do espaço com os pedestres. É a situação do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e do Parque do Flamengo. E ciclorota é uma sinalização sobre o asfalto indicando um trajeto prioritário para o ciclista em meio ao tráfego de veículos.

No entanto, apesar de uma maior oferta de espaços para os ciclistas, acompanhada por uma explosão dos usuários de bicicletas na cidade, a vida do ciclista carioca nem sempre é fácil. As ciclovias são contadas aos quilômetros, para deixar a cidade bem nas estatísticas. Mas a sua manutenção é pífia. As que foram especialmente construídas para o uso a que se destinam não tiveram uma manutenção adequada, e se encontram com falhas na pavimentação, remendos grosseiros e perdas de blocos ou sinalizadores que as separam dos demais veículos. Aquelas, que apenas utilizaram um trecho da via já existente, incorporaram todos os defeitos do asfalto, como calombos, buracos e tampas de visita de instalações subterrâneas salientes. Da mesma forma, as ciclofaixas sobre calçadas padecem dos mesmos males que tanto incomodam os pedestres, ou seja, buracos, falhas na pavimentação e elevação da mesma pela ação de raízes de árvores.

Se esses problemas na pavimentação podem provocar quedas entre os pedestres, são também potencialmente perigosos para os ciclistas. A velocidade um pouco maior das bicicletas torna mais incômoda a trepidação provocada por uma pavimentação irregular. E um buraco que leve o ciclista ao chão pode ter consequências ainda mais danosas. Isso sem contar que a sinalização das ciclofaixas deixa de existir em certos trechos. Isso produz confusão entre pedestres e ciclistas, e coloca estes últimos à mercê de carros que saem de garagens. Já as ciclorotas são uma abstração para os motoristas dos demais veículos, que muitas vezes as utilizam para estacionamento em fila dupla.

Com ciclorotas ou não, o ciclista está sempre sendo espremido junto ao meio-fio por motoristas que desconsideram a indicação do Código de Trânsito de guardar a distância de 1,50m ao passar por bicicleta ou ultrapassá-la, o que caracteriza uma infração média, passível de multa. Quem multaria, se nem mesmo os guardas de trânsito parecem conhecer essa regra? Os motoristas devem também reduzir a velocidade dos veículos ao ultrapassar um ciclista, sendo a não observância desse item uma infração grave. Quem o faz?

O Artigo 58 do Código de Trânsito indica que as vias urbanas e rurais são adequadas à circulação de bicicletas, desde que não haja ciclovias ou ciclofaixas. Portanto, o ciclista tem os mesmos direitos de estar na via asfaltada que os demais motoristas. Mas isso não parece ser entendido ou aceito por grande parte dos mesmos. Os ciclistas são vistos como invasores das pistas, como estorvos, às vezes apenas tolerados, às vezes tratados agressivamente. Não raro, essa incompreensão resulta em atropelamentos, com ferimentos ou mortes.

A Prefeitura tem uma enorme responsabilidade e capacidade de implantar políticas que tragam segurança e conforto aos ciclistas. Do bispo não se podia esperar mesmo muita coisa. Mas a nova administração municipal já se encontra no seu segundo ano. Já é hora de mostrar real atenção à mobilidade ativa, cuidando das vias dos ciclistas e patinadores, assim como dos caminhos dos pedestres. Sabe-se que ela se vê como comprometida com a sustentabilidade. Mas é preciso mostrar isso na prática, em diversas áreas. Somente o sistema Bike Rio, de bicicletas compartilhadas, já superou a marca de um milhão de usuários. Portanto, o número de ciclistas cariocas é expressivo e ainda tende a crescer. A atenção a esses milhões de usuários de bicicletas na cidade é parte dessa boa política de sustentabilidade. Vamos a ela? 

artigo publicado no Diário do Rio em 05 de maio de 2022

O Buda da rua Santo Amaro

A rua Santo Amaro é uma daquelas ruas que saem da Glória e do Catete, em direção a Santa Teresa. Geralmente são mais calmas e possuem belos solares e sobrados. Alguns estão decadentes e depauperados, outros já foram renovados por novos proprietários. Há também prédios de apartamentos, construídos antes da valorização da ideia de se preservar o Patrimônio local.

Um desses solares, hoje bem maltratado, é o que serviu como sede social do High Life Club, um clube de festas, restaurante e local de animados bailes de carnaval no passado. Antes, havia sido da família do Barão do Rio Negro. Depois de abrigar o clube, o imóvel também sediou o Incra, mas não mais.

Na calçada desse solar, há um morador de rua, que se arrumou debaixo de uma árvore. Lá ele guarda suas coisas e tralhas, e dorme num burrinho sem rabo. Dorme tranquilo, muitas vezes em pleno dia. Veja bem, eu disse morador de rua, não um mendigo. Ele parece ter uma saúde invejável. Mantém relações sociais com os vizinhos, leva seu pequeno cachorro a passear, conversa com os clientes do bar, e presta pequenos serviços na redondeza. Seu burrinho sem rabo está há tanto tempo no mesmo lugar, que imagino que já tenha obtido seu próprio CEP.

Dia desses, ele foi chamar a atenção de um mendigo que revirava uma lata de lixo, deixando cair sujeiras no chão: Ôo, não vê que o rapaz acabou de varrer a calçada? Eu o vejo como o buda da Santo Amaro. Deve ter achado sua iluminação debaixo da árvore e lá ficou. Ou, aproveitando a antiga existência da sede do Incra, ali fez a sua pequena reforma agrária. 

artigo publicado no Diário do Rio em 28 de abril de 2022.


sábado, 23 de abril de 2022

Gentileza terminal

antigo Gasômetro do Rio de Janeiro
BRT quer dizer bus rapid transit. Mas ele já teve um nome bem brasileiro, o ligeirinho, mais de acordo com a sua origem curitibana na década de 1970. Deve-se ao arquiteto Jaime Lerner, e à sua equipe na gestão da Prefeitura de Curitiba, a adaptação àquela cidade desse modal de transporte surgido em Ottawa em 1973. Em Curitiba ele recebeu o sistema de ônibus alimentadores, a cobrança de tarifa externa em estações fechadas e o embarque em plataformas no nível dos ônibus. Lerner foi ainda responsável por uma série de outras inovações urbanísticas. 

De Curitiba o Ligeirinho ganhou o mundo, tendo sido adotado em cidades europeias e norte-americanas. Chegou depois a Bogotá, onde recebeu mais aperfeiçoamentos na sua capacidade e na sua velocidade. Para melhorar esta última, criou-se uma onda verde, com os sinais sendo abertos à aproximação dos ônibus. De Bogotá, a ideia do BRT retornou a várias cidades brasileiras, representando uma solução de transporte de alta capacidade, porém de construção mais barata do que a do metrô. 

Aqui no Rio, o BRT representou também uma promessa para solucionar as demandas de mobilidade para as olimpíadas. Diversas linhas foram implantadas ligando a Barra ao Recreio e a Jacarepaguá. Mas a má qualidade da execução das calhas por onde os ônibus circulariam, muitas pavimentadas apenas em asfalto ao invés de concreto, a descontinuidade de investimentos em função da troca de prefeitos, e o consequente sucateamento precoce de todo o sistema levaram à estigmatização do nosso BRT. 

Em paralelo à execução das linhas que serviriam ao projeto olímpico, a Prefeitura lançou em 2015 as obras do BRT Transbrasil, para circular pela avenida Brasil, e ser uma opção de transporte mais confortável e mais rápido para os moradores dos bairros que margeiam aquela avenida, distantes do sistema de metrô. As obras deveriam estar prontas no máximo em 2018. Mas quatro anos depois, e muitos transtornos no trânsito, ainda seguem inacabadas. A nova previsão de término é 2023.

Quando estiver funcionando, o BRT Transbrasil partirá de Deodoro e contará com 18 estações e quatro terminais, percorrendo 26 km. O destino final seria a Central do Brasil, onde o usuário encontraria diversas opções de transporte, entre elas o metrô, o trem, diversas linhas de ônibus, o VLT e até mesmo o atualmente desativado teleférico da Providência. Seria o correto, já que sistemas de transportes de alta ou média capacidade devem levar os usuários até áreas centrais ou, melhor ainda, atravessar as cidades. Uma pista em concreto armado, obra nada barata, já se encontra pronta na avenida Rodrigues Alves, à espera dos ônibus articulados do BRT Transbrasil.

No entanto, num sinal de grande improvisação e falta de planejamento, a Prefeitura decidiu que a estação final do Transbrasil será o futuro Terminal Gentileza, no terreno do antigo gasômetro. Lá os passageiros estarão diante da rodoviária, mas ainda distante dos centros de emprego. E estarão longe de sistemas de transporte de alta capacidade. Suas únicas opções de locomoção serão o VLT, sistema com menor capacidade do que o BRT, ou os ônibus comuns. Se isso não representa um gargalo na mobilidade dos passageiros, não sei mais o que seria. 

A improvisação fica mais evidente quando se sabe que a própria Prefeitura já elaborou um concurso de projetos para imóveis residenciais e de serviços para o terreno do antigo gasômetro, projeto este nunca executado. Esse terreno ainda conta com algumas edificações em tijolinhos vermelhos, resquícios da companhia belga que um dia gerenciou o abastecimento de gás no Rio de Janeiro. Estupidamente, foram desmontados todos os três tambores de armazenamento do gás e suas estruturas metálicas, que poderiam ter tido um uso alternativo muito interessante. 

De acordo com a opção agora adotada, os passageiros do BRT Transbrasil, que muito provavelmente já terão utilizado outros modais de transporte para chegar ao mesmo, serão obrigados a tomar o VLT que, no máximo os deixarão na Cinelândia, tendo que buscar ali um quarto modal de transporte para chegar à Zona Sul ou à Zona Norte. O terminal se chamará Gentileza, em homenagem ao profeta urbano das barbas brancas, mas não será com muita gentileza que os passageiros estarão sendo tratados.

artigo publicado em 21 de abril de 2022 no Diário do Rio.

É a habitação, estúpido!

Na semana que passou, houve o lançamento de um prédio residencial na Avenida Presidente Vargas. Um marco, em se considerando que o último edifício construído ali foi o “Balança, mas não cai”. O nome já dá conta das suspeitas que rondavam aquele edifício. Esse lançamento é também um marco para o projeto Reviver Centro, já que se dá numa das avenidas mais voltadas para a atividade de serviços daquela área. Marco maior que esse só quando sair um lançamento de edifício habitacional na Avenida Rio Branco. 

O projeto Reviver Centro tem certos exageros na oferta de vantagens para os incorporadores. Tudo bem, é do jogo. Faz parte do capitalismo selvagem que se pratica no Brasil. A Prefeitura poderia ter usado dispositivos mais civilizados, como reduzir a oferta de licenciamentos em outras áreas da cidade, direcionando a construção civil para a área central. Mas ela optou por oferecer vantagens aos investidores, que os façam trocar o lucro certo e usual de lançamentos imobiliários em bairros como a Barra, para realizá-los no Centro, ajudando a cidade a reverter o abandono daquela região.

Alguns licenciamentos de projetos residenciais já vêm ocorrendo na Prefeitura, no âmbito do projeto Reviver Centro. Eles representam possibilidades de futuras obras. Quatro são para transformação de uso de imóvel já existente e três são para novas construções. Se realizados, estarão situados na Cidade Nova, na Lapa, na Cinelândia, e em ruas acima da avenida Presidente Vargas, como Acre e Visconde de Inhaúma. Nesses locais, áreas periféricas ao setor financeiro do Centro, os projetos se beneficiam da vizinhança de alguma moradia que ali vem resistindo. Mas, eles ainda apenas rodeiam o setor financeiro, que contém a avenida Rio Branco e algumas ruas adjacentes à mesma.

Com esse lançamento na avenida Presidente Vargas, o mercado imobiliário voltado para a habitação se aproxima um pouco mais do coração do Centro, o seu setor financeiro. E por que seria importante um edifício residencial ali?  Primeiramente, pelo aspecto simbólico de quebrar uma predominância de uso, que vem excluindo a habitação por mais de um século. Essa exclusão foi originalmente baseada na expulsão de moradores pobres pela Reforma Passos. Depois, adveio a criação de uma legislação que impedia a moradia no Centro. Tal legislação foi revogada na administração Luís Paulo Conde. Outra importante consequência, seria a presença de moradores naquela área, com suas idas ao mercado, seus passeios com filhos e animais de estimação e seus olhares para os espaços públicos. Sem moradia, o Centro permanece deserto e perigoso à noite. 

Somando-se as unidades já licenciadas até o momento, o Centro poderá ganhar 1416 novas unidades habitacionais, o que não é mau para um projeto com menos de um ano de existência. O aparente sucesso do projeto Reviver Centro deixa mais visível os equívocos cometidos na concepção do Porto Maravilha. Ali, a crença na autorregulação do mercado reinou, e o resultado é que, passados mais de dez anos, há uma total ausência de edifícios voltados para a habitação entre aqueles já construídos. Mesmo aqueles projetados para serviços e hotelaria são poucos e estão subaproveitados. Parafraseando o estrategista da campanha de Bill Clinton em 1992, "É a habitação, estúpido" a chave para a revitalização de qualquer área urbana. Se o prefeito quiser corrigir equívocos do seu projeto na Área Portuária, precisa correr, o tempo está passando.

É até possível haver uma área vibrante em certos períodos do dia, seja com negócios e serviços no período diurno, seja com bares e restaurantes abrindo à noite. Mas, como nos ensinou Jane Jacobs, sem moradores no local, e sem a conjugação de diversas atividades, não haverá vitalidade permanente. É a mistura de funções nos diversos bairros da cidade que os torna atraentes, vivos e seguros. Se o projeto Reviver Centro tiver fôlego para avançar com habitações para o coração do Centro, poderemos ver ali mudanças significativas que nos devolverão um importante pedaço da cidade. Que a memória dos antigos moradores expulsos no início do século XX nos inspire!

artigo publicado em 14 de abril de 2022 no Diário do Rio.

Lídice-Mariupol

Lídice, RJ
Cidades fenecem, mas nem sempre desaparecem da memória coletiva da humanidade. Babilônia, Tróia, Persépolis e outras, foram saqueadas, destruídas, mas sobrevivem nos relatos históricos. Retornamos a elas nos livros, nas pesquisas arqueológicas, e na imaginação. A cidade de Lídice foi arrasada pelos nazistas. Seu nome deveria ser esquecido. Mas outras Lídices surgiram no mundo para que ela não morresse em nossos corações. 

A Lídice original era uma pequena cidade na atual República Tcheca. Seus moradores eram suspeitos de ter abrigado duas pessoas que teriam participado da Operação Anthropoid. Essa operação resultou no atentado em Praga, que matou o governador do Protetorado da Bohemia-Moravia, partidário de Hitler. A vingança dos nazistas ocorreu em 10 de junho de 1942, quando os 184 homens da cidade, com idades acima de 16 anos, e algumas mulheres, foram fuzilados. As demais mulheres foram enviadas para o campo de concentração de Ravensbrück. Quanto às crianças, foram divididas em dois grupos. As mais próximas do tipo ariano foram encaminhadas para casas de famílias alemãs, para serem reeducadas. E as demais foram igualmente enviadas a um campo de concentração e a câmaras de gás.

Não satisfeitos, os nazistas fizeram a cidade desaparecer do mapa. Inicialmente, ela foi incendiada. Depois, por vários meses, realizaram um trabalho sistemático de arrasamento, dinamitando-a, nivelando o terreno, aterrando o lago, deslocando o curso da estrada e do rio, e esvaziando o cemitério de seus mortos, até que não mais existisse qualquer traço do que um dia havia sido Lídice.

Uma campanha, então, levou diversos países a renomear como Lídice cidades de seus territórios. E pais deram esse belo nome às suas filhas. Há cidades de nome Lídice no México, nos Estados Unidos e no Brasil. Esta última é a antiga localidade de Santo António do Capivari, atual distrito de Rio Claro, cidade próxima a Angra dos Reis. Ela foi escolhida para ser a nossa homenagem à cidade vitimada pelos nazistas. Na Lídice fluminense, todos os anos, em junho, é celebrada a Festa da Paz, em memória à Lídice tcheca. Essa é uma história que dignifica os países que participaram da iniciativa de não deixar que o mal triunfasse por completo. 

Hoje o mundo assiste à destruição de Mariupol pela invasão russa. Tal como fizeram em Aleppo, na Síria, a cidade vem sendo arrasada por bombardeios vindos de longe. Não é a destruição provocada por combates de exércitos inimigos, frente à frente. É o envio acovardado de mísseis que partem de navios ou lançadores situados a dezenas ou centenas de quilômetros de distância, de onde não se escuta o estrondo, nem se vê os desabamentos, os incêndios e as mortes provocadas.

É difícil ver uma cidade desaparecer, ainda mais sob intensos bombardeios, que arrancam terços dos edifícios, incendeiam o que resta dos mesmos, calcinam as árvores e o chão. Há uma guerra sentida pelos corpos dos habitantes, que são perfurados por balas, aleijados ou estuprados. Há uma guerra calando fundo no inconsciente dos moradores. Causa medo, angústia e irritação. Destrói a inocência das crianças. Provoca saudade e incompreensão nos que fugiram, e deixa um olhar vazio e abatido em quem ainda permanece, impossibilitado de escapar. 

Mas, há uma guerra apagando uma cidade. Onde havia brinquedos, agora há minas terrestres. O prédio onde se realizavam os casamentos, o posto de saúde, o escritório ou a fábrica onde se trabalhava já não existem. Em qual avenida se realizavam as festas e os protestos? Em que parque se passava as tardes de domingo? Onde os trabalhadores do porto tomavam vodca? Teria Mariupol uma zona de prostituição? Teria uma universidade?  Um parque de diversões? Tudo agora é uma massa cinza de destroços e desolação. Apenas cães e algumas pessoas desorientadas ainda vagam por entre os destroços da cidade, ao som dos estrondos de bombas. 

Putin parece decidido a erradicar Mariupol do mapa, torná-la um território contaminado ligando as áreas invadidas da Crimeia e Donbass. O mundo assiste aflito, indignado, mas contido pelo poder de dissuasão das ogivas nucleares. A retirada apressada dos russos das cidades vizinhas a Kiev revelou massacres e torpezas, que não se imaginava poderem ainda ocorrer em solo europeu depois de tanto sofrimento das duas guerras mundiais. Nos damos conta de como a existência de superpotências é algo danoso para a paz. Elas agem sem limites, especialmente quando têm dirigentes ditatoriais, capazes de manipular a opinião dos seus cidadãos. 

Aparentemente, Mariupol está condenada ao arrasamento. Resta saber se também estará condenada ao esquecimento.

artigo publicado no Diário do Rio em 07 de abril de 2022.


Rua Abade Ramos

Entre o fim década de 1960 e o início da de 70, o Jardim Botânico era um bairro calmo, onde famílias de classe média moravam em pequenos edifícios, a maioria sem elevadores. Poucas eram aquelas que ainda moravam em casas. As pessoas se conheciam, como em qualquer cidade do interior. Sabia-se da irmã do cantor famoso, que, independente, morava num quartinho que seria do zelador do edifício. Sabia-se que o zelador do tal edifício tinha recursos e morava num dos apartamentos. Cumprimentava-se as mães dos amigos, às vezes se ia até à cachoeira na mata. À noite, era comum ver passar o casal, ela artista plástica e ele americano, que caminhava pelas ruas após o jantar.

A rua Abade Ramos era o centro de um dos núcleos do bairro, entre o Parque Lage e a praça Pio XI. Logo acima ficava a Nina Batista, rua junto à encosta do Corcovado, onde o edifício projetado pelo arquiteto Jorge Moreira era conhecido como "favela americana", pela quantidade de famílias gringas que lá residiam. Abaixo, na rua Jardim Botânico, ficava o muro branco, com detalhes neocoloniais, da Hípica. De lá saíam os cavaleiros que às vezes encontrávamos cavalgando às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. 

Nessa época, a lagoa era um lugar meio ermo e bucólico. Meu avô, quando vinha passar temporadas em nossa casa, costumava passar por lá de manhã cedo, no seu caminho para a missa. Na ida, levava bolinhas de miolo de pão para jogar aos passarinhos. Na volta, nos contava das peças íntimas que havia avistado pelo chão, resultado de saliências noturnas que o lugar propiciava. E havia os pedalinhos, simples, ainda sem formas de cisnes, onde um conhecido trabalhava. Era comum que ele liberasse o uso noturno, para que pedalássemos até a outra margem, em Ipanema, onde tomávamos um sorvete no Arosa.

Ser jovem naquele Jardim Botânico era fazer parte de alguma das turmas do bairro. Entre elas, a da Lopes Quintas, famosa por ser briguenta, e a da Abade Ramos. Essa, por sua vez, durante muito tempo foi dividida em duas. Os um pouco mais velhos, que fumavam maconha, e os mais novos, que juravam que nunca fumariam. Depois, é claro, tudo ficou misturado. Veio também a onda do mandrix, que deixava os que dele gostavam meio abobalhados, ridiculamente carentes nas festas de fim de semana. E houve experiências mais radicais, que em alguns deixaram sequelas que perduraram por um certo tempo.

O bairro tinha o Cine Jussara, com cadeiras de madeira que rangiam durante os filmes. Lá as sessões de cinema eram ruidosas, com os jovens se metendo nos diálogos dos atores, rindo exageradamente, e atrapalhando os pobres coitados que queriam assistir um filme em paz. Coisas eram arremessadas na tela e, não raro, o gerente acabava expulsando uns e outros. De vez em quando, talvez por descuido, a sequência de filmes B em cartaz era interrompida por algum filme de arte. Era o deleite dos poucos jovens cabeça do bairro, e assunto para discussões intermináveis sobre o que era a arte e quais eram as intenções do diretor. 

Era comum que, após a realização dos deveres escolares, nos reuníssemos nas escadas da portaria de um predinho de feição normanda. Quem demorava a vir para a rua era chamado pela turma, com um assovio insistente na frente do seu edifício. Sentávamos naquela escada, grudados uns aos outros, pelo prazer de nos sabermos vivos, cheios de desejos, e de dúvidas. Felizes, falávamos as maiores bobagens para matar o tempo, atrapalhando a passagem dos pacientes moradores do edifício. E ficávamos até de noite nessas brincadeiras. 

A polícia militar já vinha fazendo rondas com frequência na área, talvez em busca de drogas, ou de alguém considerado subversivo. Em um sobrado da rua Abade Ramos, havia se instalado o jornal Opinião, tabloide independente, da corajosa oposição à ditadura militar, que então mandava no país. Em uma dessas vezes, o camburão da PM apareceu no início da noite. Como de costume, os policiais pararam a todos os jovens que encontravam, pedindo os documentos. Portar um documento havia se tornado essencial para se safar nessas abordagens. 

Eu estava a poucos metros de casa, mas sem documento, e mesmo declarando ser menor de idade, fui recolhido à caçamba do camburão. De repente, a leveza da expectativa do encontro com os amigos foi substituída pelo temor de estar num compartimento abafado e escuro, aonde outras pessoas já haviam sido recolhidas. O camburão subiu a rua Nina Rodrigues e lá pegou mais um. Era meu amigo Kaiq, o que compartilhava comigo o interesse por arte e cinema. E circulou por outras ruas, sempre recolhendo mais gente, colocando uns sobre os outros, até que quase não se podia mais respirar. Um dos detidos reclamou do aperto e do cheiro de queimado. Em resposta, ouvimos os policiais rirem, dizendo que o carro ia pegar fogo com os detidos lá dentro.

Havia mesmo algo de errado com a viatura, que pouco depois parou. As portas do compartimento traseiro foram abertas e mandaram que saíssemos. Os guardas formavam um círculo em volta da traseira do camburão e pudemos ver que era um local deserto, vazio de construções. Parecia que a sessão de porrada era iminente e eu pensava em como uma simples saída de casa podia dar naquilo. Por fim, fomos colocados de volta no camburão e levados para o quartel da PM da rua São Clemente.

Fomos fichados e avisados que, por ser um quartel militar, não poderíamos mais ser liberados naquela noite. Só sairíamos na manhã seguinte. Meus amigos de rua haviam avisado lá em casa e, mais tarde, um advogado da família conseguiu me retirar do batalhão. Havia me livrado de passar a noite no quartel e devia me sentir agradecido por não haver mais consequências. Era a época da minha até alegre juventude, mas estávamos vivendo sob uma ditadura militar. E era assim que as polícias agiam, emulando a repressão de órgãos, como o DOPS e as Forças Armadas. Como até hoje o fazem com os mais pobres. Ditadura nunca mais!

artigo publicado em 31 de março de 2022 no Diário do Rio.


Fontes e chafarizes secos no Rio

Chafariz da Praça Ben Gurion
Como boa parte das cidades, o Rio de Janeiro tem suas fontes e chafarizes. Alguns vêm do período colonial, quando saciavam a sede dos habitantes de então. Outros só sobrevivem na memória, ao nomear lugares, como o Largo da Carioca. O chafariz que lá existia recebia as águas do Rio Carioca, depois que as mesmas, desviadas de seu curso natural em direção ao vale do Cosme Velho e Laranjeiras, escorriam pelo que é hoje a Rua Almirante Alexandrino, em Santa Teresa. Elas cruzavam os Arcos da Lapa, construídos especialmente para isso, e chegavam ao velho chafariz. Velho chafariz que, no século XIX, foi substituído por um novo, neoclássico, projetado por Grandjean de Montigny, e que, assim como o velho, não teve a sorte de sobreviver ao chamado progresso. Foi demolido em 1925. Outro chafariz, que também recebia as águas do Rio Carioca, era o das Marrecas, projetado pelo Mestre Valentim na atual rua Evaristo da Veiga, em frente à atual rua das Marrecas. Dele só restaram as esculturas do Caçador Narciso e da Ninfa Eco, hoje no Jardim Botânico.

Mas há os chafarizes que desapareceram dos espaços públicos, sem sequer serem lembrados. Impressionante o número de chafarizes nessa situação. Teriam sido capazes de embelezar qualquer cidade brasileira, mas aqui, simplesmente foram destruídos, ou removidos para depósitos onde a memória não os alcança. Na área central podemos citar o das Lavadeiras, que desapareceu com a reforma do Campo de Santana, o do Mercado, também de autoria de Grandjean de Montigny, que ficava entre as ruas do Mercado e Ouvidor, e o que havia no Largo de Santa Rita. Próximo ao Morro do Castelo, que também já não existe, havia o Chafariz do Largo do Moura. 

Também os bairros receberam chafarizes para abastecimento de água ou embelezamento, que já não existem. Na rua Conde de Bonfim havia o Chafariz do Aragão. No Largo de Benfica havia o Chafariz de Benfica, também projetado por Grandjean. Na Praça Seca houve o Chafariz Crianças no Guarda Chuva e, no Largo do Tanque, o Chafariz do Largo do Tanque. Da Fonte da Saudade só restou o nome do pequeno bairro junto à Lagoa, já que a fonte também já não existe. 

Francisco Bolonha foi um arquiteto modernista, que projetou vários chafarizes na cidade, entre os quais o da praça do Bairro do Peixoto, mas que teve pouca sorte com relação à sobrevivência dos mesmos. Um deles existiu na Praça Nossa Senhora do Amparo, em Cascadura. Outro existiu no Jardim do Méier, demolido para a construção do viaduto. Em Bangu, na Praça da Fé, existiu outro de seus chafarizes que passou por uma saga bem carioca. Construído em 1965, no governo Lacerda, foi demolido em 2002 e reconstruído anos mais tarde, atendendo a um abaixo assinado dos moradores. Pouco adiantou, o chafariz foi novamente demolido em 2019, na administração Crivella.

Outros chafarizes tiveram vida curta, como o da Praça Mário Lago (Buraco do Lume), de 1974, o do Parque Irmãos Bernadelli (abaixo do Trevo das Forças Armadas), de 1989, e o que existiu nos fundos da Igreja da Candelária, de 1988. A bacia deste último continua no local, transformada em jardineira onde só cresce uma grama seca e malcuidada.  Há também a categoria dos chafarizes de vida extra curta. Foram aqueles construídos nas obras do Projeto Rio Cidade, em 1996. Entre eles, o Chafariz do Rio Carioca, na Praça José de Alencar e o Chafariz da Vila Elite, no Catete. 

Entre aqueles que ainda resistem, poucos são os que estão em bom estado de conservação, e menos ainda os que jorram água! Há um descuido com esse passado e um mal-estar com o fato de que moradores de rua os utilizem para se limpar. A solução encontrada para esse “problema” é sempre retirar o sofá da sala, ou seja, desativar o repuxo ou demolir o chafariz. Nossos chafarizes são joias construídas por outras gerações de artistas para o deleite público, como o da Glória, frequentemente pichado, o dos Jacarés, ou Fonte dos Amores, no Passeio Público, o magnífico Chafariz do Mestre Valentim na Praça XV, o Chafariz das Saracuras na Praça General Osório, do mesmo autor, o do Lagarto e o de Paulo Fernandes no Catumbi, e o da rua do Riachuelo, todos do período colonial.

Não devemos nos esquecer também dos exemplares do século XIX, como o Chafariz de Grandjean de Montigny na Praça Afonso Vizeu, o Chafariz da Imperatriz, na Praça Barão de Tefé, e o belo chafariz da Praça do Monroe, de 1880, de autoria de Mathurin Moreau. Tão lindo, não chega a preencher o vazio do palácio criminosamente demolido, e funciona de forma intermitente, ou seja, um curto período recuperado, seguido de vários anos de abandono. Belos também são a Fonte da Criança, na Praça do Santo Cristo, A Fonte, na Praça São Salvador, os chafarizes da Praça Xavier de Brito e da Praça Paulo de Frontin, e as fontes Wallace, com cariátides e cúpula, de Santa Cruz, do Parque da Cidade e da Floresta da Tijuca.

Na cidade que tem nome de rio, os rios estão canalizados, subterrâneos, invisíveis. E as águas dos chafarizes não jorram. Não nos é dado o prazer que os romanos experimentam a cada fonte de sua bela cidade. É preciso liberar energias, aspergir água, umedecer os dias, trazer de volta à vida os nossos chafarizes. Entre eles, o da Praça Ben Gurion, em Laranjeiras, de autoria do azarado Bolonha, mas hoje seco e cercado por equipamentos de ginástica excessivamente próximos de sua bacia. Assim como a cidade, a obra do arquiteto Bolonha merece esse cuidado.

artigo publicado no Diário do Rio em 24 de março de 2022.


Frágil paisagem cotidiana

Praia de Botafogo - foto Roberto Anderson
Forçando a pedalada, se supera a pequena subida. É preciso afundar mesmo a perna e o pé contra o pedal. Depois, deixar a gravidade levar a bicicleta ladeira abaixo, solta, o vento batendo na cara. E logo a visão da praia se abre. As árvores não estão floridas, mas sei que são amarelas. Em pouco tempo, delicadamente colorirão a calçada. A areia da Praia de Botafogo é branca, pontilhada de balizas das redes de vôlei. Como ainda é cedo, pessoas se exercitam na calçada e na areia. Na água não há ninguém, porque é sabido que é poluída. Mas como é bela essa paisagem! O Pão de Açúcar em frente, imenso, de curvatura perfeita, pedra clara se erguendo acima do mar.  

A ciclovia leva ao Parque do Flamengo, onde gramados e áreas ensaibradas se alternam, pontilhadas por conjuntos das árvores e palmeiras mais espetaculares do planeta, escolhidas com visão e carinho pelo gênio Burle Marx. Ali também o Pão de Açúcar se insinua, assim como o mar e a visão de Niterói. Vez por outra, sobe ou desce um avião do Santos Dumont levando passageiros maravilhados com o que veem. Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro...

O Catete tem sobrados coloridos, tem palacetes, e já abrigou a presidência da República, quando no Brasil se podia protestar debaixo da janela de um presidente. O Largo do Machado mostra a conversa paisagística entre as figueiras, plantadas por Auguste Glaziou, e os bancos e canteiros sinuosos de Burle Marx. Uma figueira que há alguns anos caiu, deixou à vista o Colégio Amaro Cavalcanti, uma das mais lindas escolas públicas da cidade, parte das chamadas escolas do Imperador. E a torre da Igreja Nossa Senhora da Glória sobressai acima de tudo, apesar do descuido de contêineres colocados bem à sua frente para a venda de ingressos para as vans do Corcovado.

Abro a janela sobre o vale de Laranjeiras. O Cristo é o que primeiro se vê, seu braço esquerdo pairando sobre o Cosme Velho e Santa Teresa. Visto de Botafogo, o Corcovado é um penhasco íngreme, uma lança contra o céu, cuja ponta é a estátua do Cristo Redentor. Visto de Laranjeiras, o Corcovado é o topo de uma mata vertical, um manto onde as folhas brancas das embaúbas pontuam o verde intenso da mata atlântica. O trem que leva lá para cima de vez em quando se deixa ver no meio da mata, especialmente nos meses de menos chuvas na cidade.

O carioca, especialmente o morador de áreas mais turísticas, anda distraído por essas paisagens. Ele vive sua vida cotidiana, vai às compras, encontra amigos, dá uma corrida para gastar os quilinhos a mais, inserido em cartões postais. Visitantes param, fotografam, perdem a respiração frente às impactantes visões que a cidade proporciona. É aquilo que viram nas cenas das novelas, nos filmes, ou até mesmo no noticiário policial. Desejaram vir aqui, economizaram, conseguiram um alojamento nada barato. Circulam pela cidade maravilhados e ainda podem ter a sorte de ver passar um ator famoso, ou encontrar a cantora adorada almoçando no pequeno restaurante. O carioca apenas (ou sublimemente) aqui vive. 

Bem viver numa cidade é construir afetividades, tanto com as pessoas do lugar, quanto com o espaço físico, o ar, os cheiros, os sons e as paisagens. É ter recantos preferidos que se acredita que poucos conheçam. É entrelaçar a vida com as ruas e calçadas, os conhecidos e os desconhecidos que ali encontramos, os edifícios que nos encantam, aqueles onde se mora ou onde já se morou, e aqueles onde moram nossos amores. Por isso, imaginar a sua cidade sendo bombardeada, como acontece atualmente em diversas partes da Ucrânia, causa imensa aflição.

Nos é difícil, angustiante, imaginar a Saara esvaziada de sua vida, e os seus lindos sobrados ainda fumegantes de um ataque recente. Como imaginar o edifício da Central do Brasil bombardeado, sua torre destruída? É o que se vê em Mariupol. Um teatro foi destruído com pessoas no subsolo! Os subúrbios de Kiev têm sido impiedosamente destruídos, e seus habitantes forçados a fugir. Se, como lá, um ataque à nossa cidade viesse do Norte, sofreríamos com a destruição do Jardim do Meier, do Mercado de Madureira, e dos incontáveis conjuntos habitacionais. Veríamos a fragilidade das casas das favelas frente a bombas de fragmentação.

Como os moradores de Odessa, talvez estivéssemos a ensacar a areia do Piscinão de Ramos, da Praia de Copacabana, e de todas as nossas praias e praças para construir trincheiras que fizessem frente ao invasor. Um míssil, qual as balas perdidas com as quais estranhamente nos acostumamos, poderia atingir o minhocão da Gávea ou o Conjunto do Pedregulho. Nosso MAM perderia suas vidraças, estouradas pelo deslocamento de ar de uma bomba caída na noite anterior. Nossos amores estariam em fuga, adentrando países vizinhos, onde, com sorte, almas boas os acolheriam.

Por que pensamentos tão sombrios em meio ao cartão postal? Tudo é transitório. A paz que desfrutamos não é eterna. O bicho homem é estranho e sabe fazer coisas terríveis. Sob o sol que aquece minha pele, de frente para a Baía de Guanabara, em meio a tanta beleza, penso nos ucranianos. Penso e sinto a sua dor. Por favor, paz!  

artigo publicado no Diário do Rio em 17 de março de 2022.


Amor ao vazio

Praça XV, início do século XX
No aniversário da cidade, no último dia 01 de março, o Prefeito Eduardo Paes pediu um presente ao governador: a demolição do prédio que serviu como anexo da Assembleia Legislativa na Praça XV, de propriedade do Estado. O prédio em questão é bem feio mesmo, um caixote de vidros escuros, que destoa das demais edificações da área. E esse é um prefeito que gosta de demolir. Demoliu a Perimetral e obteve enorme sucesso com a abertura de uma nova área de lazer na Área Portuária, que até hoje não tem um café, uma loja, um bar sequer. Apertou com sádica satisfação o botão para a demolição do prédio histórico da Brahma no Catumbi, e viu surgir no seu lugar um mastodonte envidraçado que até hoje permanece desocupado. Então, será a demolição a melhor alternativa? 

O prefeito parece ser tomado por um ímpeto modernista, que tanto mal já fez à cidade arrasando quarteirões. O próprio Catumbi é uma vítima desse processo. Demoliram os sobrados, passaram um viaduto, cujo nome homenageia o golpe militar de 1964, e o bairro ficou irreconhecível, descosturado, sem alma. A mesma coisa aconteceu na Lapa, onde toda uma rede de ruas e sobrados, plenos de vida, foram demolidos, abrindo-se uma clareira na frente dos Arcos. Propunha-se então a passagem da Avenida Norte-Sul, que também rasgaria a região da Saara, e a construção de um quarteirão modernista, ao estilo de Brasília e da Avenida Chile. O projeto era do excelente arquiteto Affonso Eduardo Reidy. Excelência em projetos arquitetônicos não necessariamente se reflete em excelência em projetos urbanísticos. O resultado para a Lapa não poderia ser pior. Onde a Lapa hoje pulsa é na região que restou de pé, ficando a área resultante da demolição vazia durante o dia, só ocupada à noite, por ambulantes. 

 

Os arquitetos modernistas, ou funcionalistas por sua tara em separar as funções nas cidades, gostavam de um vazio, de isolar uma edificação antiga do seu contexto, deixando-a solitária na paisagem. Quanto engano! Camillo Sitte, arquiteto austríaco do século XIX, já observava que as catedrais góticas se erguiam no meio do tecido urbano medieval, dando-se a conhecer por partes, em visadas fragmentadas. Hoje sabemos que é dessas surpresas e velamentos que gostamos. 

 

A Cidade do Rio de Janeiro cresceu não só por processos de reedificação, mas também por aterramentos de lagoas e praias, empurrando o mar para mais longe. E esses foram processos sucessivos e cumulativos. As urbanizações ao longo da orla no período Passos criaram praças e a avenida Beira Mar. Em seguida, o aterro da praia do Flamengo criou um novo parque à sua frente. O arquiteto Cláudio Taulois estudou como as áreas livres daquele primeiro período ficaram sem muita função após o advento do Parque do Flamengo. Uma atitude interessante da Prefeitura, apesar de ousada, seria permitir a edificação de prédios baixos, para uso público, como cafés e restaurantes, junto a esses espaços públicos obsoletos no Centro, na Glória e no Flamengo. O gramado sem uso ao lado da Seaerj, a Praça do Monroe e a área entre a Murada da Glória e a Praça Paris são exemplos de espaços que pedem alguma ocupação que lhes dê uso. Aliás, esse último já é precariamente ocupado aos domingos por um bar ambulante e por rodas de samba.

 

Voltando à nossa Praça XV, é impossível não constatar que ela está esvaziada de atividades. Há um fluxo de passageiros das barcas que a atravessam em horários de pico, mas não muito mais acontece. A Bolsa de Valores foi comprada pela Bolsa de São Paulo e fechada. A construção da Perimetral levou à demolição do vibrante mercado municipal da Praça XV, linda obra em ferro do período Pereira Passos. Atualmente, o único fato interessante ali é a feira de antiguidades aos sábados. Na administração Luiz Paulo Conde ainda havia o projeto cultural Fim de Semana no Centro, que buscava animar aquela área, abrindo igrejas para concertos e promovendo espetáculos na praça e visitas guiadas. Então, simplesmente demolir o antigo anexo da Alerj para criar mais um vazio talvez seja um desserviço à cidade. É preciso discutir melhor.

 

Sim, esse edifício agride a paisagem. Mas, talvez, pudesse ser renovado, retrofitado, alterado, qual seja a denominação que se queira usar para uma intervenção que repense as suas fachadas e o seu interior, lhe dando novo uso. Ali um dia houve uma edificação neoclássica, que teria sido a sede do Ministério do Interior, não um vazio. As imagens desse passado mostram um edifício em harmonia com seus vizinhos. Também do ponto de vista ambiental é um despropósito demolir. Estamos em momento de reciclar, reutilizar, não de desperdiçar. Qualquer uso é melhor do que a criação de um novo vazio, que se somará aos já existentes e não ajudará em nada. Repensar o edifício pode ser um caminho e um grande desafio, já que não se deseja a criação de um pastiche. Um concurso público de projetos de intervenção seria bastante adequado. É preciso superar de vez esse ranço funcionalista. Buscar o vazio é buscar a não cidade.


artigo publicado no Diário do Rio em 10 de março de 2022.