segunda-feira, 29 de julho de 2013

Expansão urbana no Campus Fidei

Campus Fidei em Guaratiba

O discurso oficial da Prefeitura é de revalorização das áreas centrais. Mas sua prática é de permitir que o mercado expanda indefinidamente a cidade em direção a áreas verdes da periferia. A Área Portuária, com seus terrenos públicos, se transforma num espaço para investimentos internacionais em prédios espelhados. E recursos públicos serão utilizados para urbanizar um manguezal em Guaratiba e lá deixar uma população de pobres sem acesso a qualquer infraestrutura decente. Se o Papa efetivamente lá estivesse passado, um novo condomínio surgiria para ser vendido a peso de ouro. Como só deu lama...


quinta-feira, 4 de julho de 2013

O Cemitério dos Ingleses na Gamboa


Localizado na Rua da Gamboa, o Cemitério dos Ingleses (Fig. 1 e 2) é o mais antigo a céu aberto da Cidade do Rio de Janeiro, o que exclui as áreas de sepultamento anteriormente existentes junto ou dentro das igrejas católicas. Ele foi criado após o tratado de amizade entre D. João VI e o Reino Unido em 1810, sendo destinado a receber os súditos ingleses que chegavam ao Brasil após aquele tratado, e que aqui faleciam. Já em 1823 a beleza do seu sítio, em pequena elevação arborizada junto ao mar, era notada por Maria Graham em seu “Diário de uma viagem ao Brasil”:

“Fui hoje a cavalo ao cemitério protestante, na praia da Gambôa, que julgo um dos lugares mais deliciosos que jamais contemplei, dominando lindo panorama em todas as direções. Inclina-se gradualmente para a estrada, ao longo da praia. No ponto mais alto há um belo edifício constituído por três peças: uma serve de lugar de reunião ou, às vezes, de espera para o pastor; uma de depósito para a decoração fúnebre dos túmulos; e a maior, que fica entre os dois, é geralmente ocupada pelo corpo nas poucas horas (pode ser um dia e uma noite), que neste clima podem decorrer entre a morte e o entêrro. Em frente ao edifício ficam as várias sepulturas e os vãos monumentos que erguemos para relevar nossa própria tristeza. Entre estes e a estrada, algumas árvores magníficas.”     

Fig. 1 - Cemitério dos Ingleses em 2013.

Fig. 2 - Cemitério dos Ingleses em 2013.

Em 1985 o Cemitério foi tombado pelo Estado do Rio de Janeiro, justamente por suas qualidades paisagísticas. O inventário realizado pelo Inepac ressaltou a arborização e as campas baixas, muitas delas apenas cobertas por vegetação (Fig. 3). No entanto, o entorno que tanto encantou Maria Graham já não existe. O mar foi afastado por aterro, no qual foi criado um pátio da Rede Ferroviária. Após a desativação do pátio ferroviário, parte do terreno hoje se encontra ocupada pela Cidade do Samba, cuja arquitetura pouco inspirada se ergue como um paredão, vedando a visão do horizonte à frente do cemitério (Fig. 4). Excessivamente próxima também, está a estação do Teleférico do Morro da Providência, cujas dimensões impactam negativamente a ambiência daquele Patrimônio(Fig. 5).


Fig. 3 - Cemitério em 1984 com campas cobertas por vegetação.

Fig. 4 – Cidade do Samba à frente do cemitério


Fig. 5 – Teleférico junto ao muro do cemitério

Aos fundos do Cemitério dos Ingleses, casas do Morro da Providência, que já alcançam vários pavimentos, foram construídas coladas ao seu muro, inclusive utilizando o mesmo como paredes (Fig. 6). Além disso, é possível ver lixo jogado por cima do muro (Fig. 7), e há relatos de que o esgoto de algumas dessas casas é vazado para dentro de cemitério.


Fig. 6 – Favela junto ao muro do cemitério.

Fig. 7 – Lixo proveniente da favela dentro do cemitério

Ao longo do tempo, o Cemitério dos Ingleses alterou também sua feição. Houve uma contínua progressão da pavimentação de caminhos e espaços livres e a cobertura das sepulturas com placas de cimento ou pedra (Fig. 8). As novas sepulturas são mais altas que as antigas. Algumas permanecem, de forma absurda, sem revestimento, com a alvenaria de tijolo aparente (Fig. 9). Muitas árvores deixaram de ser repostas após serem cortadas ou caírem. Assim, é possível notar algumas clareiras, especialmente junto às divisas do terreno. 


Fig. 8 – Maior pavimentação de caminhos e campas

Fig. 9 – Sepultura sem revestimento

Para efeito de comparação, vale à pena observar sítios semelhantes, como o Cemitério dos Ingleses em Recife (Fig. 10), cujas sepulturas permanecem pouco cobertas, ou como cemitérios do Reino Unido, alguns tão antigos como o Cemitério dos Ingleses do Rio de Janeiro. Ali é possível perceber a presença de extensas áreas verdes, maior espaçamento entre as sepulturas, menor altura das mesmas, ou mesmo a inexistência de sua marcação poligonal, com o afloramento apenas da lápide ou do monumento em memória do falecido (Fig. 11-19).  


Fig. 10 – Cemitério dos Ingleses de Recife

    Fig. 11 – Cemitério de Aperton – Reino Unido 

Fig. 12 – Cemitério de Southern-Manchester – Reino Unido

Fig. 13 – Cemitério de Brighton an Preston – Reino Unido        

Fig. 14 – Cemitério de Bronte Parsonage - Reino Unido  

Fig. 15 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 16 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 17 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 18 – Cemitério de Brookwood - Londres – Reino Unido (1852)

Fig. 19 – Cemitério de Kensal Green - Londres – Reino Unido (1852)

Um estudo de Jenifer White sobre cemitérios ingleses informa que lá, somente após 1650, os sepultamentos passaram a ser feitos fora de igrejas. Na falta de um modelo, os primeiros cemitérios seguiam o paisagismo de parques privados, com a capela tomando o lugar das casas senhoriais. A partir de 1815, o cemitério francês de Père Lachaise, com seus monumentos mortuários, passou a influenciar os cemitérios ingleses. Esta influência, no entanto, não os fez perder a presença de elementos naturais, numa rememoração da natureza idealizada pelo romantismo, tão cara aos parques de estilo inglês.   

Para que o Cemitério dos Ingleses volte a se destacar por suas qualidades originais, seria importante a implementação do projeto de paisagismo já elaborado para o mesmo, que indica áreas onde a pavimentação deveria ser retirada, áreas a serem ajardinadas ou gramadas, e um plano de manejo das árvores existentes, com previsão de sua reposição e plantio de novas unidades. Outra providência importante, se possível, seria a retirada de boa parte das coberturas das sepulturas mais recentes, tornando-as simples, e por que não, belos canteiros ajardinados. O Rio de Janeiro teria de volta, então, um lugar aprazível para passeios meditativos e apaziguantes.

Artigo publicado no Diário do Rio em 12 de outubro de 2023. 



sábado, 29 de junho de 2013

Mal estar brasileiro em junho de 2013

Manifestação na Av. Pres. Vargas em 20.06.2013 O Globo

Manifestação na Av. Rio Branco em 13.06.2013

Manifestação na Av. Rio Branco em 27.06.2013
Há tempos as redes sociais vêm mostrando o mal estar presente na sociedade brasileira com diversas situações que pareciam se perpetuar. O governo do PT só via diante de si os avanços materiais que, sem dúvida, propiciou aos mais pobres. Esquecendo-se, no entanto, que isto é um processo iniciado no governo Itamar e que passou pelo Plano Real, o governo acreditou que os desvios éticos e derrapagens na condução da economia não seriam capazes de causar maiores turbulências. Ainda mais quando se dispunha de uma paquidérmica aliança com partidos que variavam da esquerda populista à direita advinda da ditadura militar disposta a blindar o governo de críticas durante todos esses anos. Apesar dessa maioria parlamentar, nem uma reforma importante na questão tributária, na organização política, na moralização das relações entre políticos e empresas, etc. foi feita Ao invés disso, essa gigantesca aliança de apoio ao governo pariu a presidência do Senado nas mãos do Sarney e agora do Renan, a Comissão de Direitos Humanos nas mãos do Feliciano, e a liderança do maior partido do governo (PMDB) nas mãos de um político sabidamente acusado de corrupção.

No plano estadual as coisas não iam melhor. No Rio de Janeiro o governador Cabral, para atender interesses empresariais, sepultou o projeto original do Metrô e inventou um linhão que irá comprometer a eficácia do sistema por várias décadas. Além disso, investiu na venda de bens públicos e na demolição do Patrimônio, como no caso do antigo Museu do Índio, dos estádios de atletismo e natação do complexo do Maracanã, e dos quartéis históricos da PM, entre os quais o Quartel General da Rua Evaristo da Veiga. A promiscuidade com empresários gerou as cenas deprimentes de seus secretários bêbados confraternizando em Paris  com Cavendish, dono da empresa Delta, a qual foi acusada das mais diversas malversações do dinheiro público.

O governador e o Prefeito, que há tempos mantêm uma imensa maioria em suas casas legislativas que também impedem qualquer debate crítico sobre os problemas da cidade e do Estado. E motivos não faltaram, como os gastos exorbitantes para mais uma reforma do Maracanã e a licitação caixa-preta do sistema de ônibus da cidade, a opção por BRTs ao invés de sistemas com maior capacidade, as alterações casuísticas na legislação urbana, etc.

As mobilizações virtuais cresceram e na tentativa de expulsão da Aldeia Maracanã, por exemplo, foi possível perceber que havia um grande contingente de jovens dispostos a irem para as ruas. Quando finalmente as ruas se encheram de gente, manifestando com ou sem violência todo o seu desencanto com a situação de estagnação política e ética do país, quais foram as reações dos governos? A Presidente Dilma decidiu investir suas fichas num plebiscito que venha a  impulsionar uma reforma política. O problema é que o tempo conspira contra qualquer mudança via plebiscito que responda em tempo aceitável às demandas da população. Se o governo federal tem essa imensa maioria no Congresso, por que não a convoca para fazer a reforma política a tempo de valer para as próximas eleições? O que se vê é que a rainha está nua e sua base política não é confiável e não lhe serve para muita coisa. Muito menos ao país, já que ela vem cobrando um preço bastante alto em cargos e vantagens pelo apoio acrítico.

O que fez o governador? Falseia um grupo de pretensos manifestantes com o qual se reuniu, querendo  parecer democrático. Isto depois de mandar a sua polícia baixar o cacete nos manifestantes, numa fúria policial que lembrou os tempos da ditadura. E o que faz o Prefeito do Rio? Esconde-se e mantém como Presidente da Comissão de Transportes da Câmara Municipal o Sr. Sebastião Ferraz que declara que "Metrô não presta, o trem não presta, o transporte alternativo não presta, as barcas não prestam" e que por isso não haveria nada melhor do que os ônibus da cidade, que sabidamente prestam um péssimo serviço aos cariocas.

E o que faz a Câmara de Vereadores? Entra em recesso, como se nada estivesse acontecendo. E o que faz o Tribunal de Contas do Município? Arquiva um processo exatamente contra as empresas de ônibus por formação de cartel. E o que fazem Une, Ubes, MST que sempre foram dóceis ao governo? Acreditam que podem representar as ruas e se reúnem com a presidente.  

Tudo isso leva a acreditar que mesmo que as ruas se esvaziem temporariamente, em função do cansaço dos manifestantes, tão cedo os motivos que levaram a esse memorável junho de 2013 não cessarão de existir, sem solução visível no horizonte. É provável que haja um aprendizado, no sentido de que as manifestações se deem em cima de questões e casos específicos, como a mobilização ocorrida para a instalação da CPI dos ônibus na Câmara Municipal do Rio. Daqui para a frente, ao surgir a necessidade, logo se verá um grupo se fazendo presente. Como muitos cartazes vistos nesses dias afirmam, o povo acordou, saiu do Facebook, e tomou gosto pela coisa. Novas turbulências ainda deverão vir. Inevitavelmente.

Polícia Militar à frente da Alerj em 27.06.2013
Manifestação na Av. Pres. Vargas em 20.06.2013
Manifestação na Av. Pres. Vargas em 20.06.2013

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Alternativas à demolição de estádios esportivos no entorno do Maracanã


Este estudo pretende analisar as alternativas de criação de espaços para a circulação de pedestres no entorno do Estádio Mário Filho – Maracanã, avaliando a necessidade de demolição dos equipamentos de atletismo e de natação existentes nas imediações do estádio, conforme indicado pelo projeto do Governo do Estado do Rio de Janeiro em licitação de concessão desse equipamento à iniciativa privada.  


O projeto original


Ao iniciar o longo processo de reforma do Maracanã, o Governo do Estado do Rio de Janeiro, através do Escritório de Gerenciamento de Projetos do Governo, órgão da Secretaria de Estado da Casa Civil, contratou a empresa Steer Davies Gleave (http://www.steerdaviesgleave.com/) para que esta fizesse um estudo do fluxo de pedestres na área no entorno daquele estádio. O documento preliminar desse estudo (draft), em anexo, indicava a carência de espaços para pedestres no entorno do Maracanã (Fig 1) e a necessidade de acréscimo de áreas de circulação para os mesmos. A empresa então propôs a ocupação de área do Ministério da Agricultura, junto à Rua Mata Machado. Ela propôs também o avanço da área destinada aos pedestres junto aos dois portais principais sobre áreas de trânsito de veículos, por meio de um inteligente redesenho do entorno.

Na área próxima ao portal da Radial Oeste, foi proposto o desvio das faixas de rolamento de veículos que vêm da Avenida Professor Manoel de Abreu em direção à Avenida Radial Oeste (Fig. 2). Este desvio é possível com a transferência dessas faixas de rolamento para o centro de uma ilha de tráfego existente entre essas duas avenidas. Do ponto de vista do desenho urbano, essa proposta é interessante, já que o traçado atual demonstra ter sido pensado de forma a não haver redução de velocidade dos veículos provenientes da Avenida Professor Manoel de Abreu, o que contraria visões mais contemporâneas da cidade, que dão prioridade aos pedestres e propugnam por um trânsito de veículos em baixa velocidade no espaço urbano.    

Na área próxima à Avenida Maracanã o acréscimo de área de pedestres é feito com a incorporação de uma baia para veículos junto à entrada do estádio voltada para aquela avenida. Como já dito, na área próxima à nova rampa da Rua Mata Machado é proposta a incorporação de uma área anteriormente utilizada pelo Ministério da Agricultura.

Fig. 1 - Atuais áreas de circulação de pedestres no entorno do Estádio do Maracanã

Fig. 2 - Proposta de áreas de circulação de pedestres – Steer Davies Gleave 

Vale observar que na proposta da Steer Davies Gleave há uma preocupação em acrescentar áreas livres diante das três entradas principais, não havendo indicação de demolição do Estádio Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare, respectivamente estádio de atletismo e estádio de natação. 



O projeto da Prefeitura para a reurbanização do entorno do Maracanã 


Em 2011 a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro chegou a anunciar que licitaria a urbanização do entorno do Estádio Mário Filho, tal como proposto pela Steer Davies Gleave, ao custo de R$ 117,9 milhões (Fig. 3, 4 e 5) O projeto paisagístico era do escritório Burle Marx.


Fig. 3 – projeto da Prefeitura do Rio de urbanização do entorno
conforme proposta da Steer Davies Gleave 

Fig. 4 - projeto da Prefeitura do Rio de urbanização do entorno
conforme proposta da Steer Davies Gleave, mantendo Estádio Célio de Barros

Fig. 4 - projeto da Prefeitura do Rio de urbanização do entorno
conforme proposta da Steer Davies Gleave, mantendo Estádio Célio de Barros

O atual projeto do Governo do Estado do Rio de Janeiro


O documento Projeto Maracanã, de 2012, em anexo, da Secretaria de Estado da Casa Civil, prevê a demolição do Estádio Célio de Barros e do Parque Aquático Julio Delamare e as reconstruções dos mesmos, sem indicar o local onde isto se daria.

Sabe-se por declarações das autoridades estaduais que atualmente tal reconstrução ocorreria nas duas áreas com disponibilidade de uso do outro lado da via férrea, junto à Quinta da Boa Vista (áreas C e D da Fig. 6). No entanto, originalmente elas seriam destinadas ao estacionamento de automóveis e receberiam um parque público com 92 mil m², o Parque Glaziou, com projeto do escritório Burle Marx, ampliando a área da Quinta da Boa Vista e representando um importante legado da Copa para a cidade (Fig. 7). Haveria uma larga passarela ligando o estacionamento à área do Estádio Maracanã (Fig. 8 e 9). O vídeo explicativo do projeto pode ser visto em http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=uOt3NnuqBwU. O mesmo documento Projeto Maracanã, de 2012 prevê a construção de edifícios de estacionamento sobre parte da área indicada pela Steer Davies Gleave como sendo para a ampliação de espaços de circulação de pedestres (Fig. 10 e 11).

Fig. 6 – Áreas no entorno do estádio do Maracanã – Documento da casa Civil


Fig. 7 – Indicação de passarela, parque e área para estacionamento
junto à Quinta da Boa Vista

Fig. 8 – Indicação de passarela e parque junto à Quinta da Boa Vista em vídeo institucional

Fig. 9 – Projeto de passarela junto ao Maracanã
(notar a presença dos estádios de atletismo e de natação) 


Fig. 10 – Proposta do Governo do Estado com construção de garagem – setor Radial Oeste


Fig. 11 – Proposta do Governo do Estado com construção de garagem – setor Av. Maracanã


Ora, há aí uma enorme incoerência: as áreas conquistadas ao tráfego de veículos para servirem aos pedestres passariam a ser usadas como estacionamentos e comércio, e as áreas hoje ocupadas pelos estádios de atletismo e de natação seriam oferecidas para suprir a nova necessidade de circulação de pedestres criada com a construção dos edifícios comerciais e de estacionamento. Isto seria um enorme desperdício de recursos públicos, já que esta solução implica a demolição de equipamentos em uso e sua reconstrução.

Um problema adicional, advindo da localização proposta para os novos edifícios, é o empachamento ou obstrução da visualização do Estádio Mário Filho, bem tombado federal. A altura daqueles edifícios (o projeto parece indicar um térreo mais três pavimentos e uma mureta na cobertura, perfazendo algo em torno de 12m) impedirá a visão do estádio por quem esteja a pé ou de carro em trechos consideráveis das vias que circundam o estádio.


A necessidade de áreas de circulação de acordo com a FIFA

Além do já exposto, há que se considerar que muito provavelmente as áreas hoje ocupadas pelos estádios não supririam bem a necessidade de circulação dos pedestres que chegarem ao estádio, uma vez que são laterais às entradas principais.

O documento da FIFA “Estádios de Futebol – 5ª Edição 2011”, em anexo, em seu item 3.2, intitulado Acesso e Saída de Público indica a necessidade de uma “cerca localizada a certa distância”. Nesta cerca seriam feitas “as primeiras verificações de segurança e, quando necessárias, revistas corporais seriam feitas nessa área.” Uma segunda verificação do público “será feita nas catracas do estádio”. Ora, é evidente que esta área antes da referida cerca necessita ser diante das principais entradas e não em posição lateral. O atual projeto proposto pelo Governo do Estado para o entorno do Maracanã ocupa uma boa parte destas áreas frontais com edifícios de estacionamento e lojas no térreo. Dessa forma o projeto negligencia a necessidade de área diante das entradas principais, privilegiando a oferta de área livre diante dos bares e restaurantes a serem implantados pelos futuros concessionários sob os edifícios dos estacionamentos.


As áreas para evasão do público


O Estádio Mário Filho ficou conhecido, entre outras razões, por sua capacidade recorde de público no Brasil. Ali já couberam quase 200 mil pessoas (199.854 pessoas na final entre Brasil e Uruguai na final da Copa de 1950). Com novas intervenções visando o conforto dos usuários, como a supressão da geral, sua capacidade caiu para 86 mil pessoas. As obras ora em curso, de adaptação do estádio para a Copa de 2014, reduzirão ainda mais esta capacidade, que passará para 76 mil lugares.

O citado estudo da Steer Davies Gleave informa que uma das exigências da FIFA é a possibilidade de escoamento do público do estádio em casos de pânico em até 8 minutos. Para tanto, além de saídas bem dimensionadas, são necessárias áreas de acumulação do público que saia apressadamente do estádio.

A reforma do Maracanã criou mais duas novas saídas de público, reduzindo em aproximadamente 50% a responsabilidade das antigas saídas da Avenida Radial Oeste e da Avenida Maracanã. Se cada uma dessas saídas recebesse ¼ do público total, teríamos uma demanda de 19 mil pessoas por saída. Se cada uma das pessoas que optassem pelas duas antigas saídas necessitasse de 0,70x1,00m, ou seja 0,70m² (largura mais que suficiente, considerando que uma porta tem em média 0,70m), seriam necessários 13.300m² para acomodá-las, caso as mesmas não continuassem a se dispersar pelas ruas vizinhas, situação mais próxima da realidade.

Quando se calcula a área livre para pedestres na proposta da Steer Davies Gleave, que não implica na demolição dos estádios de atletismo e de natação, chega-se à conclusão que haveria uma oferta de 170 mil m² de área livre diante do portal voltado para a Avenida Radial Oeste e 228 mil m² nos espaços diante do portal voltado para a Avenida Maracanã e na área anteriormente ocupada pelo Ministério da Agricultura (Fig. 12). Ou seja, são áreas mais que suficientes para acomodar com folga todos os torcedores que viessem a sair de uma só vez naquelas direções.    


Fig. 12 – Cálculo das áreas livres propostas por Steer Davies Gleave

Conclusão


O cálculo de áreas disponíveis na proposta feita pela Steer Davies Gleave, que não indica a necessidade de demolição do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Júlio Delamare, atende à necessidade da FIFA de uma área diante das catracas para a realização dos primeiros controles dos torcedores. Estas áreas são suficientes para acomodar os torcedores em caso de saída apressada em casos de pânico.

A atual proposta do Governo do Estado do Rio de Janeiro (Projeto Maracanã, de 2012) tem os inconvenientes de ocupar parte das áreas diante das entradas da Avenida Radial Oeste e Avenida Maracanã, prejudicando os procedimentos de segurança. Esta proposta, que parece privilegiar a oferta de áreas para lojas, bares e restaurantes, desconsidera a hipótese de se levar o estacionamento de veículos para os terrenos existentes nas proximidades da Quinta da Boa Vista, acessíveis por futura passarela. Ela ainda é prejudicial à ambiência do bem tombado. Por fim, ela implica em desperdício de recursos públicos com a demolição de equipamentos já construídos e sua reconstrução em outros locais.

Face ao exposto, conclui-se que a atual proposta do Governo do Estado do Rio de Janeiro, que implica a demolição dos referidos estádios esportivos, não é a melhor solução a ser adotada. 



terça-feira, 14 de maio de 2013

Esplanada na Avenida Rio Branco? Não!

Avenida Central no início do século XX


A Rio Branco já nasceu como avenida, aliás a avenida mais importante do país naquele tempo, a Avenida Central. O projeto que a Prefeitura do Rio de Janeiro vem anunciando secciona esta via, criando uma esplanada, uma tipologia estranha à de avenida. Se for o caso de reduzir o trânsito no trecho final da Rio Branco e arborizá-la, que se retorne ao projeto original, onde havia um canteiro central arborizado. Falando em arborização, as palmeiras do projeto também são estranhas àquele local. É tudo muito precário e desinformado! E jogar o BRT na 1º de Março é um crime contra aquela via cheia de prédios históricos.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

O QG da PM-RJ na Rua Evaristo da Veiga ameaçado de demolição

QG da PM-RJ - foto Gabriel de Paiva - O Globo 

O atual Quartel General da Polícia Militar ocupa a quase totalidade do quarteirão da Rua Evaristo da Veiga entre a Avenida República do Paraguai e a Rua Senador Dantas. É uma edificação de três pavimentos com corpo central, onde se situa a entrada que dá acesso ao pátio interno, ligeiramente mais alto e saliente. Sua implantação contorna quase integralmente aquele pátio interno, interrompendo-se apenas junto à Capela da Arquiepiscopal Irmandade Imperial de Nossa Senhora das Dores.

As inúmeras janelas marcam o rigor da composição de influência neoclássica. As do pavimento térreo são emolduradas por cercaduras de pedra e têm vergas de arco pleno. As do segundo pavimento seguem o alinhamento das primeiras e têm vergas retas. Já as janelas do terceiro pavimento se encontram com alinhamentos variados, denotando a provável existência de acréscimo.

Originalmente as coberturas de cada um dos diversos tramos da edificação era em quatro águas com telhas cerâmicas do tipo francesas. Atualmente alguns desses tramos apresentam coberturas em fibro-cimento.

No pátio central do quartel, em situação elevada, se encontra a Capela da Irmandade Imperial de Nossa Senhora das Dores, uma pequena igreja neo-gótica.

A primeira ocupação do terreno foi o Hospício projetado em 1732 pelo engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim, edificação que serviu aos frades franciscanos italianos "babônicos", que ficaram conhecidos como os Barbonos. A edificação atual sucedeu àquela original e lá se encontra desde o século XIX.



QG da PM-RJ - foto Gabriel de Paiva - O Globo

Capela da Irmandade Imperial de N. Sra. das Dores - foto Roberto Anderson


Capela da Irmandade Imperial de N. Sra. das Dores - foto Roberto Anderson


Antecedentes Históricos

Em 10 de maio de 1808 um alvará criou o cargo de Intendente de Polícia, cargo ocupado por Paulo Fernandes Viana. Em 13 de maio de 1809 foi criada a divisão militar da Guarda Real da Polícia. Esta guarda, porém, foi dissolvida em 1831. Meses depois foi criado o Corpo de Municipais Permanentes, encarregado do policiamento da cidade. Este corpo policial teve como major, Luis Alves de Lima, futuro Duque de Caxias. O Corpo de Municipais Permanentes foi para o Quartel de Granadeiros, construído no terreno onde existira o Hospício dos Capuchinhos. 


Esse sítio já fizera história ao tempo dos Capuchinhos quando, por volta de 1760, foram plantadas as primeiras mudas de café trazidas pelo Desembargador João Alberto Castelo Branco. Dali a cultura do café se irradiou pelo território do Rio de Janeiro, dando início a um novo ciclo econômico. A presença dos Barbonos na área é lembrada de diversas maneiras. A atual Rua Evaristo da Veiga, por exemplo, foi a Rua dos Barbonos até 1870.


Em 1808 o antigo Hospício foi ocupado pelos frades carmelitas, que haviam cedido seu convento na atual Rua Primeiro de Março a Dona Maria I. Em 1831 os carmelitas cederam o Hospício ao Corpo de Municipais Permanentes.


Em 1858, um decreto deu a essa força policial o nome de Corpo Policial da Corte. Com a eclosão da Guerra do Paraguai, os policiais participaram da luta como Batalhão 31 de Voluntários da Pátria. Em 12 de novembro de 1889, com a presença do Imperador D. Pedro II, em sua última solenidade pública como imperador do Brasil, foi lançada a pedra fundamental do Quartel do Corpo Militar da Polícia. A planta do edifício foi elaborada pelo General Capitulino Peregrino Pereira da Cunha. Mesmo após a edificação do atual quartel, persistiu por algum tempo, no interior do pátio, o antigo convento dos frades, usado como dormitório dos policiais.

Ao tempo dos capuchinhos  a pequena igreja no interior do quartel se chamava Igreja de Nossa Senhora da Soledade. Em 1861 ela foi reformada e consagrada a Nossa Senhora das Dores.



Imagem da Lapa tendo ao fundo o QG-PM


Formação de soldados no pátio do QG-PM


QG PM-RJ sem o acréscimo no 2º pavimento


A implosão pretendida pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro

O Governo do Estado do Rio de Janeiro, que deve zelar pelo Patrimônio Cultural do Estado, decidiu demolir o Quartel General da Polícia Militar, situado na Rua Evaristo da Veiga. As razões alegadas são a pretensa inadequação deste tipo de edificação às funções atuais da PM, que prescindiria de espaços para aquartelamento. Mas as ações do Governo indicam um interesse em obter recursos com a venda de ativos do Poder Público. A forte valorização dos terrenos nas proximidades da Cinelândia certamente levaria o Estado do Rio de Janeiro a auferir grandes lucros com a venda do imóvel. No entanto, sua implosão, como programada, causaria uma perda irreparável ao Patrimônio Cultural do Rio.

Se fosse correta a alegação de inadequação da edificação às atuais funções da PM, bastaria dar um novo destino ao prédio, valorizando toda a área no entorno. Mas é preciso lembrar que durante vários séculos o aquartelamento foi uma necessidade da função policial. Futuramente, a forma de organização da polícia poderá mudar novamente e se isto vier a ocorrer, já não existirá o seu quartel histórico.


QG PM-RJ tendo ao fundo os Arcos da Lapa - foto Evaristo da Veiga - O Globo


Prejuízos Urbanísticos com a demolição do Quartel General da PM

O Quartel General da PM-RJ está situado no limite do Corredor Cultural. Como jamais se cogitou que pudesse ser demolido, não foi incluído no perímetro dessa área de proteção. Mas mesmo assim ele é um elemento importante para essa área, já que compõe a ambiência da Rua Evaristo da Veiga, onde há imóveis preservados.


Por ser uma área livre de arranha-céus em pleno Centro do Rio, o quartel provê também espaço de visualização do céu e de circulação de ar, trazendo benefícios ambientais nada desprezíveis.


O terreno do Quartel General da Polícia Militar é vizinho ao largo onde se encontram os Arcos da Lapa. Há uma enorme co-visibilidade entre estes dois pontos. Qualquer nova edificação em altura que porventura venha a substituir o quartel impactará negativamente a ambiência dos Arcos da Lapa. 

A preservação do QG da PM-RJ abriria a possibilidade de conjugação de seu atual uso militar com uma série de outros usos de interesse dos cidadãos do Rio de Janeiro, como espaço para manifestações culturais, espaço para atividades recreativas, etc.


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012 - foto Carlos Ivan - O Globo


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012


Manifestação contra a demolição do QG PM-RJ em 14.06.2012