quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Ícone cariocas/ícones brasileiros

 

O Brasil parece estar na moda. O Carnaval esteve cheio de estrangeiros. Nunca tantos gringos ganharam tantos seguidores nas redes sociais falando sobre suas experiências no Brasil. É verdade que, lá no século XVI, os relatos de Hans Staden sobre os exotismos de nossa terra fizeram sucesso na Europa. Mas agora há uma profusão desses relatos, que atraem novos viajantes que, por sua vez, também divulgarão as suas impressões. Vale tudo. Vale falar de comida, dos costumes que acham curiosos, do namoro apimentado, e até da experiência de ser assaltado. O jeito de ser do brasileiro foi até capaz de atrair para nós um campeão olímpico de ski na neve!    

 

O mundo e nós mesmos brasileiros, em geral gostamos de pensar e ver o Brasil como uma terra de natureza bela, de praias formosas, que lançam modas, com uma forte herança cultural, um povo simpático e trabalhador, que dança samba, ama o futebol, e festeja o carnaval. Terra essa que, além de tudo, é abençoada por Deus! Mas, aí está se falando muito do Rio de Janeiro! A Cidade Maravilhosa ainda é uma grande formadora da imagem do Brasil. Antes deste país crescer em direção ao Centro-Oeste, antes de se embrenhar pela Amazônia, já aqui eram moldadas as principais características do que seria a nação. Cidade colonial, sede do Vice-Reinado, corte, capital da República, capital cultural, que outra cidade brasileira teve tantos títulos? Pensar o Brasil, conhecer o país, passa por um olhar atento ao Rio de Janeiro, e os turistas bem o sabem!

 

Nos vemos refletidos nas fotos captadas pelos visitantes. Boa parte dos ícones dessa imagem de Brasil estão generosamente espalhados pela cidade. Aí estão as magníficas praias cariocas, e a Pedra da Gávea, o Pão de Açúcar e o Morro Dois Irmãos, algumas dessas fantásticas formações rochosas que se destacam de maneira espetacular na nossa paisagem, e que um dia, lá no Pleistoceno, já foram ilhas. Aí estão os Arcos da Lapa, o belo aqueduto construído por Gomes Freire no século XVIII, que trazia as águas do Rio Carioca desde os altos de Santa Teresa até a cidade colonial. E também o Cristo Redentor, obra Art Déco inaugurada em 1931, projeto de Heitor da Silva Costa, com a colaboração de Paul Landowski. O Maracanã, projetado em 1948 e considerado à época um dos maiores desafios da engenharia brasileira, símbolo do esporte que consagrou o Brasil pelo mundo afora. E o MAM, obra mais bela do arquiteto Affonso Eduardo Reidy, de 1953, e o igualmente modernista Monumento dos Pracinhas, de 1956, projetado pelos arquitetos Hélio Ribas Marinho e Marcos Konder Neto.

 

Mas o Rio encanta ainda pelos detalhes. As calçadas em pedras portuguesas, com seus desenhos de ondas que correm o mundo e os postos de salva-vidas, referência do mapa mental dos cariocas, que conhecem sua praia predileta pela numeração de cada posto. Os conjuntos de sobrados do Centro, do Catete e da Área Portuária, salvados da fúria da especulação imobiliária, que agora volta a ameaçar a cidade. São também o retrato de um Brasil acolhedor e amoroso, onde o pequeno comerciante imigrante se estabeleceu. E os gringos já descobriram as favelas, com suas ladeiras, festas de funk e pousadas baratas. Há o bondinho, que balança pendurado entre os morros da Urca e o Pão de Açúcar desde o início do século XX e o prédio da Central do Brasil, com seu relógio que nunca mais andou na hora. Há também a cúpula da Candelária, impressionante obra de engenharia do final do século XIX, revestida em lioz, e sua imponente fachada em cantaria, marcando o eixo da Avenida Presidente Vargas, a grande via em direção à Zona Norte do Rio.

 

Assim é o Rio de Janeiro, generoso em imagens que falam de si e do Brasil, orgulhoso de suas belezas, as quais exibe a quem quiser ver, receptivo a todos que aqui chegam e que logo já são meio cariocas. Assim é o grandioso painel que, cada vez mais numerosos, visitantes dessa cidade terão à disposição para suas postagens em redes sociais. Como nem tudo é bacana, é hora de a Prefeitura regularizar o aluguel de alta rotatividade. Em outras cidades em que o afluxo de visitantes também cresceu, os preços dos aluguéis para os moradores foram às alturas. E quando isso aconteceu, os turistas acabaram sendo hostilizados. Dá para resolver antes de se chegar a tanto.


Artigo publicado em 19 de fevereiro de 2026 no Diário do Rio.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Adeus, e obrigado, Suvaco!

Suvaco do Cristo - foto Roberto Anderson

E, aos 40 anos de idade, o Suvaco do Cristo se despediu do carnaval. Muita gente se pergunta por que o Suvaco acabou. A resposta pode ser o cansaço. A turma que o organizou nessas quatro décadas é praticamente a mesma. E colocar um bloco na rua dá muito trabalho. Se for um bloco "oficial", ou seja, que aceita seguir as regras da Prefeitura do Rio de Janeiro, aí a coisa é infernal. E cara. 

Lá pelos anos 60 a 80 do século passado, a Prefeitura só enfeitava as ruas, que eram liberadas para o que viesse a acontecer. Havia até concurso para a decoração carnavalesca da cidade. Mas, com o renascimento do carnaval de rua, as exigências da Prefeitura para os foliões só aumentaram. Os organizadores dos blocos têm que contratar ambulâncias, banheiros químicos, organizadores do trânsito e atender a uma enorme burocracia. Já no caso das escolas de samba o tratamento é o oposto. A Prefeitura oferece o próprio Sambódromo, os espaços para criar os carros alegóricos e as fantasias e a verba para custear o desfile das escolas. Há aí uma enorme discrepância em relação ao tratamento dado aos blocos. 

Mas, para além do cansaço, há também as mudanças pelas quais o carnaval de rua carioca passou. Lá no início do Suvaco, e também dos seus contemporâneos Simpatia é Quase Amor e Barbas, na Zona Sul só havia a Banda de Ipanema. A classe média carioca até fugia para a Serra ou a Região dos Lagos. O Suvaco, como disse o seu presidente, João Avelleira, trouxe picardia para a festa. E ainda enfrentou a ira da igreja, que se achava dona da figura do Cristo. Os desfiles, que no início eram familiares e caseiros, despertaram a atenção de milhares de jovens que passaram a lotar o bloco. Não à toa, a sua saída passou a ser bem cedinho, para despistar. Essa é uma marca que vem sendo adotada por muitos blocos atuais.

Seguindo a picada aberta pelo Suvaco, vieram depois um sem-número de blocos. Mas, a maioria deles tinham como modelo as escolas de samba. Vinham com samba enredo, às vezes, com alas de baianas, e os núcleos de suas baterias eram emprestados de escolas de samba menores. O Suvaco teve bons sambas enredos, como o composto por Lenine. Mas, não deixavam de ser samba-enredo de “brancos”. Além disso, a estrutura era verticalizada, com músicos e baianas pagos para darem a alma do bloco, e animar a festa da moçada. O Suvaco, muito apropriadamente, até criou uma contrapartida, a ação comunitária Divinas Axilas, em que costureiras da Favela Santa Marta produziam fantasias e adereços para gerar renda.

Com o tempo, a garotada, que acompanhava os pais e avós nesses blocos trintões e quarentões, tomou gosto pela coisa e resolveu também sair criando seus próprios blocos. E as multidões de adolescentes que seguiam o Suvaco se dispersaram. Como não poderia deixar de ser, esses novos blocos são muito diferentes daqueles dos seus pais. Neles, os músicos são a turma que dá início e a cara da coisa. As suas preferências musicais definem a personalidade dos blocos. Há os de marchinhas antigas, de música latina, de funk, de reggae, de maracatu, de fanfarras e de música eletrônica. A estrutura é horizontal, sem patrões. Nesse ponto, se aproximam dos antigos blocos de sujo. E boa parte desses blocos se recusa a entrar na ciranda de legalização da Prefeitura. 

O cansaço que levou ao fim do Suvaco já tinha produzido o fim do Bloco de Segunda. É o Carnaval carioca se renovando. Hoje há tantos blocos, que fica difícil acompanhá-los. Há ainda os secretos, que só iniciados ficam sabendo onde sairá. O Suvaco vai deixar saudades. Fez muito pelo Carnaval de rua do Rio, renascido depois de quase morrer. Teve uma vida longa, afinal, quarenta anos numa festa anárquica como o Carnaval é uma eternidade. Facilitaria muito a vida do folião se a Prefeitura, com os patrocínios que tem, assumisse a responsabilidade de prover a infraestrutura para a festa. No Sambódromo e nas ruas. Muitos outros blocos com a irreverência do Suvaco do Cristo apareceriam.

Artigo publicado em 13 de fevereiro de 2026 no Diário do Rio.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O apagamento do projeto Rio Cidade

Imagem criada por Isabelle Cristina de Castro

Os espaços públicos no Brasil, e no Rio de Janeiro, sempre foram muito negligenciados pelo Poder Público. Os governantes costumam preferir novas obras à conservação daquilo que já existe. O eleitor tem também a sua parcela de culpa, ao premiar mais aquele que faz novas obras do que aquele que conserva. E, para o governante de plantão, elas têm o atrativo das licitações, dos conluios com empreiteiras, mais facilidades para esquemas, etc.

Contrariamente ao usual, na década de 1990, sob a liderança de Luiz Paulo Conde, o Rio viu uma grande intervenção nos espaços públicos da cidade, o projeto Rio Cidade. Ele vinha na forma de novas obras, mas era direcionado para qualificar calçadas, mobiliário urbano, arborização e sinalização de diversos corredores urbanos, distribuídos por todas as regiões da cidade. Por onde o projeto passou, calçadas foram repavimentadas com novos padrões, o posteamento foi renovado, assim como surgiram jardineiras e bancos nas calçadas. 

Aparentemente, os urbanistas que mais influenciaram os projetos do Rio Cidade foram Kevin Lynch e Gordon Cullen. E, nem sempre tiveram a leitura mais correta. De Lynch, os autores dos projetos parecem ter captado a ideia de se ter marcos nos espaços urbanos. O pórtico pós-moderno, que existiu entre Ipanema e Leblon, por exemplo, reforçaria a memória do local (Bar Vinte), onde antes o bonde fazia a volta, separando-se do Leblon. O monumento da Laranja, ou Laranja Descascada, em Campo Grande, lembraria o passado agrícola da região. Diversos outros marcos artificiais foram salpicados pela cidade, como a base em forma de minizigurate redondo para o poste curvo, que deveria iluminar o monumento a José de Alencar, no Catete. 

A realidade se mostrou adversa. Os moradores, inicialmente incomodados com pessoas subindo pelo pórtico de Ipanema, e depois com a sujeira na sua base, exigiram a sua demolição. Hoje, ali só resta um pirulito, que era o centro de uma rosa dos ventos no asfalto. No Catete, José de Alencar já não é iluminado pelo abajur gigante, e vários outros elementos que deveriam ser novos marcos da cidade deixaram de existir. A leitura pouco aprofundada de Lynch não deu certo. 

Já de Gordon Cullen parecem ter vindo a grande variedade de padrões de pisos nas calçadas, e também de postes de luz, além dos adesivos coloridos sobre o asfalto, que traziam interesse para alguns cruzamentos. Mas, depois de gastos, nunca foram repostos. Talvez, buscando reforçar o conceito de recinto urbano pensado por Cullen, que seria um lugar calmo e acolhedor, em meio ao burburinho da cidade, foi feito o fechamento da Praça Sara Kubitschek, na avenida Nossa Senhora de Copacabana. Um muro, com um painel em azulejos de autoria de Millor Fernandes, passou a separar a praça de sua movimentada calçada. 

Resultou daí uma praça distante dos olhos da rua, contrariamente ao que indicava Jane Jacobs, a pioneira na contestação ao urbanismo do período modernista. O não atendimento a um princípio básico da teoria dessa urbanista, a de que é preciso haver atratividade e movimento de pessoas nos espaços públicos para que eles sejam seguros, gerou um espaço apartado da vida intensa de Copacabana. Como resultado, a praça é insegura e os moradores estão demandando a demolição do muro. Salvando-se o painel de Millor, não seria má ideia. Mais uma correção traumática...

Ali mesmo em Copacabana, foi reaberto um trecho da rua Almirante Gonçalves, junto à avenida Nossa Senhora de Copacabana, que o projeto Rio Cidade havia fechado ao trânsito de veículos, gerando um largo para o descanso dos pedestres. Reaberto por pressão de comerciantes e moradores, como atesta o depoimento do então síndico do Edifício Estrela da Tarde, “O projeto era bom, mas (...) a praça sofre com o abandono (por parte do Poder Público)” (O Globo 18/10/2019). Nesse caso, foi contrariada a tendência mundial de se suprimir espaços dos automóveis em favor dos pedestres. 

Outros problemas podem ser apontados no projeto Rio Cidade, como o incentivo à criação de linhas de mobiliário urbano específicas para cada eixo onde foi aplicado. Bancos, postes de luz e abrigos de ônibus para uma única via, se mostraram uma deseconomia, além de nem sempre terem o melhor design. Também já não existem. Já os materiais imaginados pelos projetistas muitas vezes tiveram sua qualidade rebaixada durante a obra, como os já gastos ladrilhos hidráulicos das calçadas da rua Voluntários da Pátria. Uma solução muito usada em São Paulo e Buenos Aires, mas que aqui foi mal executada.

Como todo projeto inovador, no Rio Cidade foram cometidos erros e excessos. Mas, ele teve o mérito de, pela primeira vez em muitas décadas, pensar na qualidade do espaço público e no conforto dos usuários. Como, posteriormente, não teve manutenção, nem continuidade, suas qualidades e características estão deterioradas, sendo difícil reconhecê-las. Luiz Paulo Conde, com os projetos icônicos Rio Cidade, Favela Bairro e Novas Alternativas (recuperação de sobrados para moradia), representou um momento único na administração do Rio de Janeiro. Ali, arquitetos e urbanistas foram chamados a contribuir para melhorar a cidade. Depois, se voltou à rotina de empregar recursos apenas em grandes obras, idealizadas por grandes empreiteiras, sem grandes cuidados com o bem-estar dos cidadãos. Uma pena. 

Artigo publicado em 06 de fevereiro no Diário do Rio.

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O Projeto Sunrise para Gaza

Imagine-se que um rico empresário árabe proponha construir um resort de luxo sobre o sítio de memória de Auschwitz ou de algum outro campo de concentração, onde milhões de judeus, ciganos, gays e pessoas de esquerda foram mortas. Seria um Deus nos acuda. Mas Jared Kushner, genro de Trump, judeu e neto de sobreviventes do Holocausto, anuncia ao mundo o plano da dupla para construir algo semelhante em Gaza. Em Gaza, onde os corpos de boa parte dos aproximadamente 71 mil mortos pelo exército israelense (há estimativas que multiplicam esse número), naquilo que vem sendo considerado um genocídio, permanecem insepultos. Seus restos mortais ficaram sob os escombros de edifícios residenciais, escolas, universidades, hospitais e prédios religiosos impiedosamente bombardeados por Israel.

Na parte de Gaza ainda ocupada por Israel essas ruínas, e os corpos que lá estejam, estão sendo arrasadas, para aplainar o terreno para futuras ocupações. E para suprimir evidências dos crimes de guerra cometidos. Na parte não ocupada por Israel, a população palestina sobrevivente se amontoa em frágeis tendas, que são varridas pelas chuvas e pelas marés, onde bebês atualmente morrem de hipotermia. E, a cada dia, habitantes de Gaza seguem sendo mortos por bombardeios que desrespeitam o pretenso cessar-fogo. Mas Trump (e boa parte do dito mundo civilizado) não os vê. Ele só pensa em negócios.

O plano urbanístico de Jared Kushner, chamado Sunrise, foi apresentado ao mundo em Davos, na Suíça. A assistência não pareceu ter se escandalizado com a situação. Talvez muitos já pensassem em como também auferir lucros sobre a desgraça palestina. Que plano é este? Ele foi apresentado sem autoria. Mas, não existe projeto urbanístico ou arquitetônico sem arquiteto. Ou o ego da dupla é tão forte que impede a divulgação do nome do autor, ou este, pressentindo a natureza criminosa de sua atuação, não quis ser identificado.

Analisando-se o masterplan apresentado, é possível perceber uma clara divisão entre a faixa litorânea, a ser ocupada por arranha-céus ao estilo de Dubai, destinados a turistas e a sedes de corporações, e uma faixa posterior, que receberia moradias. Estas, muito provavelmente, não serão destinadas aos sobreviventes do genocídio. No mundo concebido por Trump, eles serão transferidos para países da periferia do sistema capitalista, que os aceitarão em troca de alguns benefícios econômicos. O nome disso é limpeza étnica.

A orla de Gaza, antes dos insanos bombardeios de Israel, era um lugar aprazível com palmeiras plantadas no canteiro central e cafés à beira-mar. Nem todas as construções eram sofisticadas, mas havia hotéis de qualidade. Um deles, o Al Mashtal, o único cinco estrelas, foi implodido por Israel pouco antes do “cessar-fogo”. Era uma orla com personalidade. Um dos piores defeitos apontados pelos viajantes atualmente é a pasteurização dos lugares, fazendo tudo parecer a mesma coisa. Pois bem, o projeto apresentado pela dupla Trump-Kushner propõe uma orla pasteurizada, em que o rico viajante não saberia se teria acordado em Dubai, Doha ou Gaza. As mesmas torres envidraçadas e o mesmo espetáculo de luzes noturnas nas fachadas.

Na parte posterior à orla das torres, o projeto propõe agrupamentos de edificações separados por grandes espaços verdes, definidos como parques. Atrás das áreas residenciais, estariam as zonas industriais e data centers. Se formos buscar as inspirações projetuais para esse trecho do projeto apresentado, chegaremos à proposta de Cidades-Jardim de Ebenezer Howard, lançadas no final do século XIX. Elas visavam responder a um mal-estar com os problemas das cidades, que haviam sido muito impactadas pela industrialização ocorrida naquele século. Ao contrário de cidades adensadas, poluídas, com uma massa de trabalhadores vivendo em péssimas condições, as Cidades-Jardins seriam a união das qualidades do campo e da cidade, com áreas urbanas limitadas, zoneamento para atividades industriais e mais presença de espaços verdes.       

A proposta de Cidades-Jardins gerou alguns exemplos concretos e influenciou muitíssimo os urbanistas do período modernista, ou funcionalista, entre eles Le Corbusier, um entusiasta de regimes autoritários. Ele a adota como modelo para os moradores dos subúrbios de sua cidade ideal, e como inspiração para a presença de espaços verdes entre as torres que propõe nesse seu projeto. O mesmo modelo foi adotado para a vila de oficiais da SS nazista em Krume Lanke, perto de Berlim. Uma ironia do destino, já que Howard era um militante do movimento socialista. 

Essas duas referências já dão pistas de que, apesar de ser um modelo que aproxima a natureza, é também um modelo de afastamento das pessoas, que não propicia locais de concentração intensa. Na Gaza trumpista, a área dedicada aos ricos e turistas teria características metropolitanas, enquanto o restante teria características de subúrbios pouco adensados. Ali viveriam os que trabalhariam nos resorts turísticos e nas indústrias, situadas nos fundos da cidade. Como ocorre em Dubai, muito provavelmente seriam imigrantes de variadas nacionalidades em busca de alguma oportunidade que as áreas turísticas oferecem. Muitas horas trabalhadas e pouca garantia.

Há uma outra influência importante no projeto. A desconsideração do passado, o recomeçar do zero, conhecida como tabula rasa, é uma atitude muito cara aos arquitetos e urbanistas modernistas, como Le Corbusier. Gaza é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo surgido ainda no século V a.C. O centro histórico de Gaza guarda vestígios de diversas civilizações. Há outros monumentos importantes, como o Palácio do Pachá, o Mosteiro de Santo Hilário e o Porto de Anthedon. Todos sofreram danos severos pelos bombardeios indiscriminados de Israel e deveriam ser restaurados ao fim dos conflitos. No entanto, o Plano de Trump simplesmente desconsidera milênios de história. Não há lugar para o passado no plano. Nem para cemitérios, mesquitas ou igrejas.

Projetos arquitetônicos e urbanísticos não são neutros. Trazem mensagens, espelham concepções de mundo e projetos de poder. A não divulgação do autor do projeto de Trump para Gaza é bastante significativa. O mundo que a direita internacional vem construindo é assustadoramente aético e, tanto a proposta para Gaza, como o Conselho trumpista para a “Paz”, que exclui os palestinos, são reflexos dessa falta de escrúpulos, brutalidade e vilania. A tentativa atual de moldar o mundo à imagem dos interesses do grande capital está bastante avançada, e se reflete nas lutas políticas que são travadas também no Brasil. Toda essa barbárie acontece nesse momento diante de nós. É preciso entendê-la, não ser ingênuo, defender a nossa soberania e saber de que lado se está.

Artigo publicado em 30 de janeiro de 2026  no Diário do Rio.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Búcios, Buzioaires

Neste verão de 2026, Búzios está excepcionalmente cheia de argentinos. É verdade que eles têm vindo com frequência à cidade, e já houve outros verões em que também o câmbio os favoreceu. Num desses, ficou célebre a expressão dáme dos, quando pediam os artigos em dobro, já que tudo era muito barato. Mas neste ano eles estão aí aos montes. Na praia é fácil reconhecê-los. Homens argentinos não usam sunga, só bermuda. As mulheres são bonitas e brancas. São as que têm plata para viajar. Sorriem felizes e usam cangas com a bandeira do Brasil. 

Argentinos em Búzios são clientes e são vendedores, são hóspedes e são recepcionistas, são fregueses e são garçons. A pelada no campinho da praça é de argentinos. O treino de box na quadra da praça é de argentinos. Vendem empanadas, alugam barracas e cadeiras de praia e fazem entregas. Até já vendem amendoim na praia e fazem caipirinha! Os brasileiros que ainda vendem algo, o fazem em espanhol. 

É uma multidão de jovens. Parecem ser os filhos, ou os netos, da última leva de argentinos que por aqui aportou em massa, quando o câmbio também lhes foi favorável. E não vai aí nenhuma reclamação contra a sua presença. Em geral são buena onda. Curtem o verão como se não houvesse amanhã e, às vezes, são barulhentos. Os rapazes estão sempre em grupo, sem camisa e, muitas vezes, descalços. E parecem mais numerosos que as chicas, que também andam juntas. Os dois grupos curtem o verão separados, encontrando-se nas baladas à noite.

O argentino médio vem buscar a Búzios de Brigitte Bardot, mas as hospedagens com preços atraentes estão na periferia. E a periferia de Geribá, ou de qualquer outro bairro conhecido, não é glamourosa. A cidade não suporta tantos visitantes. O trânsito para. O lixo se acumula nas caçambas e se espalha pelas calçadas. Estas, muito estreitas e nem sempre pavimentadas, sequer merecem esse nome. Aqui e ali o esgoto transborda, correndo pela sarjeta. E a clássica falta d'água é atestada pelos caminhões-pipa abastecendo estabelecimentos comerciais.

Mas os argentinos parecem não se importar com esses perrengues. Estão felizes e curtem o dia de hoje, que a crise econômica de amanhã é certa.

Artigo publicado em 22 de janeiro de 2026 no Diário do Rio.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Piquenique, variações amorosas

No início, há um casal deitado no chão. Ela move lentamente as mãos, sobe ligeiramente os braços, e suas mãos e braços ficam pairando e balançando no ar. Esses movimentos vão se expandindo para o corpo, agora com várias partes envolvidas nessa dança. Mas ela e ele seguem na horizontal, ambos estirados no chão. Ela o toca e continua a se movimentar. Todo um bailado acontece, sem que eles saiam dessa posição. 

Ela passa por cima dele, o rodeia, volta a passar por cima. E por baixo. Um mundo de coisas acontece sem que, na maior parte do tempo, deixem de estar deitados. Eles são Ana Amélia Vianna e Domenico Salvatore, numa coreografia de Márcia Milhazes. Depois, um leva o outro para a posição vertical e agora sua dança é amorosa e brincalhona.

Experimentam diversas possibilidades. Ele a conduz pela cabeça, e agora é ela quem o conduz pela cabeça. Dançam abraçados, se afastam, voltam a estar juntos. Vivenciam vários momentos de um casal. Arrebatados, curiosos, se atraindo, se afastando, se surpreendendo, talvez se amando, mas juntos. Frágeis no mundo, mundo em guerras crescentes e cada vez mais abrangentes, podemos pensar. 

O cenário é de Beatriz Milhazes e a mudança de luz o torna um painel floral de cores variáveis. O casal está vestido com um sem-número de roupas, muito leves e sobrepostas. E à medida que a dança se desenvolve, vão se desfazendo de cada peça. Uma pele brilhosa que se vai, revela outra de ainda mais delicadezas e brilhos. As peles vão ficando pelo chão. 

De algum ponto surgem máscaras, e agora, qual um casal que faça uso de fantasias e jogos de animar uma relação, eles brincam e encarnam personagens carnavalescos. São Clóvis de Santa Cruz brincando no palco. As músicas que embalam as suas danças são bem variadas, passando por um fox-canção cantado por Orlando Silva, choros, batuques, Clementina de Jesus, Carmen Miranda e música barroca. E as peles que os vestem seguem sendo despidas. Às vezes, são usadas como adereços da brincadeira.

Ana e Domenico usam da expressividade dos seus corpos e dos movimentos propostos por Márcia, e também do afloramento de emoções diversas em seus rostos. Ora são enamorados, ora intrigados, depois alegres e às vezes ligeiramente perdidos. Há uma falta de senso e propósito nas suas inter-relações, mas há afeto e atração em ações repetidas, como ademais é a banalidade cotidiana de cada um de nós. O tempo em que esse trio já trabalha junto depurou uma sintonia absurda, revelada no palco.

Muitos outros momentos se sucedem. Em todo o percurso, eles pouco se distanciam. Há também saltos e giros e mais sutilezas de movimentos de partes do corpo isolados. A dança de Márcia Milhazes é feita de detalhes, de braços, pernas, cabeças, e troncos que convergem, para depois divergirem, numa sucessão caleidoscópica de possibilidades e surpresas. As suas criações vêm sendo tecidas há várias décadas e mostram uma consistência dificilmente alcançada na produção coreográfica brasileira. Seu trabalho está no Sesc Copacabana, não percam.

Artigo publicado em 15 de janeiro de 2026 no Diário do Rio.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Sucupira é aqui

A desapropriação de imóveis por interesse público é um instrumento bastante antigo na história das cidades. Já na Grécia antiga, as cidades aplicavam-no, mas não sem tomar precauções contra abusos. A desapropriação dependia do Conselho de Magistrados e da aprovação pela Assembleia do Povo. Na Cidade do Rio de Janeiro a sua aplicação nem sempre foi criteriosa. Consta que na abertura da Avenida Central, atual Rio Branco, e nas demais obras de alargamento de vias do período Passos, as desapropriações foram além do necessário, gerando terrenos para posterior venda. O mesmo pode ter ocorrido na abertura da avenida Presidente Vargas, que até hoje tem terrenos vazios nas suas bordas.

Foi o próprio Presidente Vargas quem regularizou o instrumento da desapropriação por utilidade pública, através do Decreto-Lei nº 3.365/1941. Entre as diversas razões listadas para a aplicação desse instrumento estão a segurança nacional e a defesa do Estado, a abertura, conservação ou melhoramento de vias e logradouros públicos, o funcionamento dos meios de transporte coletivo, e a construção de edifícios públicos, monumentos e cemitérios. Mas ao administrador público é vedada a possibilidade, por imoral, de desapropriar para beneficiar um ente privado, ou mesmo por perseguição a inimigos políticos.

No entanto, recentemente veio ao conhecimento público que o Prefeito Eduardo Paes havia iniciado um processo de desapropriação de um edifício, em Botafogo, que anteriormente abrigara um supermercado. Tal desapropriação seria para beneficiar a Fundação Getúlio Vargas, já que dirigentes daquela instituição teriam manifestado ao prefeito o interesse em ampliar suas atividades. Após a desapropriação, a Prefeitura realizaria um leilão do imóvel, com cláusula direcionada à finalidade pretendida pela Fundação. Assim, ela arremataria o imóvel, sem concorrência, por valor estipulado pela Prefeitura. Ou seja, o prefeito achou por bem entrar numa questão absolutamente privada, colocando os poderes municipais a serviço da causa de um ente privado.

Ora, nem em nome dos valiosos serviços prestados pela FGV à cidade, na maioria das vezes pagos, se poderia imaginar que a Prefeitura deveria se imiscuir nessa transação. Há um evidente mau uso do instrumento da desapropriação. Num caso semelhante, recentemente a Prefeitura realizou uma transação, em São Cristóvão, que beneficiou o Clube de Regatas Flamengo, em seu projeto de construir um estádio de futebol. Ali ocorreu um uso um pouco esperto do instrumento da desapropriação, que prevê como uma de suas justificativas a construção de estádios. O problema é que o legislador não deve ter pensado na hipótese de ser um estádio privado. Já o caso da ampliação da FGV é difícil de ser justificado.

O Prefeito anunciou também a sua intenção de adotar a mesma ação com relação aos hotéis Praia Ipanema e Intercontinental, além do Shopping Fashion Mall. A desapropriação de imóveis vazios, cujos donos não dão uso ao mesmo, e sua posterior venda em leilão aberto a todos que se interessem em ali realizar investimentos, pode ser vista com bons olhos. É uma forma válida de impulsionar o desenvolvimento da economia da cidade. O que não é possível é o direcionamento da venda para empresários ou instituições amigas. Do contrário, estaríamos numa Sucupira à beira-mar, cujo prefeito faz e desfaz a seu bel prazer.

Artigo publicado em 08 de janeiro de 2026 no Diário do Rio.