terça-feira, 20 de maio de 2014

Mobiliário urbano carioca, esta noite se improvisa *


No Rio de Janeiro, a oferta de mobiliário urbano padronizado é algo relativamente recente. No início do século XX haviam sido instalados nas praças os gloriosos bancos Paris. Mas depois pareceu que a administração pública da cidade havia se esquecido de como equipamentos assim eram importantes. Mais tarde, no período em que Chagas Freitas governou o Estado, foram instalados uns abrigos de ônibus pavorosos que traziam inscritos no concreto o nome do governador. Alguns anos depois, os abrigos pré-fabricados do período Brizola foram uma boa solução. Alguns ainda resistem por ai.

Abrigo de ônibus da era Chagas Freitas
Como a querer recuperar o tempo perdido, o projeto Rio Cidade, concebido por Luiz Paulo Conde, derramou uma profusão de modelos de postes, de abrigos de ônibus, de bancos, de lixeiras, etc. na cidade. Cada rua escolhida passou a ter sua própria linha de mobiliário urbano. Postes tortos, fradinhos com bolas metálicas atarraxáveis nas pontas (que rapidamente foram furtadas), luminárias de luz indireta, bancos de concreto, havia de tudo.

No entanto, logo se percebeu que faltava uma economia de escala nessa fórmula. A cada abrigo ou poste necessitando de reposição, deveria se produzir de forma artesanal uma ou duas unidades, encarecendo demais o processo. Assim, na gestão do próprio Conde como prefeito foi realizada uma licitação para a implantação de um conjunto de itens de mobiliário urbano na cidade por empresas especializadas. O Rio foi dividido em três grandes áreas para efeito dessa licitação e desde então passamos a conviver com abrigos de ônibus, painéis de publicidade e relógios digitais frutos de design e padronizados. Era parte importante e integrante dessa licitação a colocação de banheiros públicos em toda a cidade. Seriam banheiros dotados de tecnologia, com sistemas autolimpantes, etc. Eles atenderiam uma queixa dos cariocas de todas as idades: a falta de banheiros públicos nas ruas.

Mas aí começaram os problemas e adiamentos. As empresas ganhadoras das licitações rapidamente implantaram os abrigos, que eram dotados de espaços para a exploração de publicidade, assim como os relógios e, logicamente, os painéis publicitários. Mas os banheiros, ah os banheiros... Logo surgiram notícias nos jornais de que havia problemas para sua instalação. Dizia-se que estava difícil conseguir que os órgãos responsáveis instalassem as ligações de esgoto, etc.

E de repente, o cartunista Ziraldo, grande na sua arte, mas talvez não tão bom designer, levou ao prefeito a proposta de um mictório público simplificado. Alguns protótipos foram instalados com o nome de Unidade Fornecedora de Alívio – UFA. Agora o prefeito anuncia que instalará mais 100 unidades na cidade. O grande problema é que esses mictórios são instalados sem ralos nos pisos, que drenem os excessos da falta de pontaria masculina. Os pisos onde esses mictórios estão instalados estão se transformando em lugares infectos e o odor incomoda um bocado. Enquanto isso, as empresas vencedoras das licitações de mobiliário urbano ficam desobrigadas de instalar os banheiros com tecnologia faltantes e passam a explorar somente o filé mignon da coisa, ou seja, os equipamentos portadores de publicidade.  

UFA no Largo do Machado
* - Esta noite se improvisa é o nome de um antigo programa de auditório da TV.